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Quinta, 02 Mai 2024

Estudo comprova que levedura pode substituir farelo de soja na alimentação de peixes amazônicos

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Pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental do Amazonas avaliaram com sucesso o uso de levedura da indústria de álcool na formulação de ração para peixes onívoros, como o tambaqui e o matrinxã, transformando um passivo ambiental em insumo benéfico para o consumo animal. Na análise, destacaram-se os níveis de cobre e ferro, que foram, respectivamente, 29% e 35%, superiores aos encontrados no farelo de soja, comumente usado na formulação de rações. 

De forma prática, a levedura pode ser inserida na formulação e na confecção de rações para peixes onívoros por ser facilmente processada e pela sua qualidade nutricional.

As leveduras são organismos unicelulares microscópicos, classificados no reino dos fungos, tal como os bolores e os cogumelos. Durante a produção de álcool são responsáveis por converter bioquimicamente a glicose e a sacarose em etanol. A Saccharomyces cerevisiae é uma das mais utilizadas devido ao seu potencial de conversão.

A levedura pode ser um potencial substituto do farelo de soja na nutrição de peixes. Foto: Maria José Tupinambá

Segundo o pesquisador Jony Dairiki, um dos autores da pesquisa, a levedura pode ser um potencial substituto do farelo de soja na nutrição de peixes, especialmente no Estado do Amazonas, uma vez que essa commodity é encarecida pelo frete e, consequentemente, onera o custo das rações para tambaqui e matrinxã. 

"Na piscicultura, os custos se concentram basicamente na alimentação dos peixes, pois cerca de 50% a 70% dos valores totais de produção são provenientes da nutrição dos animais",

afirma.

O estudo, publicado pela Embrapa no Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento 39, visa comprovar a eficácia do produto na ração, substituindo os tradicionais ingredientes. O objetivo geral do trabalho foi descrever de forma minuciosa o processo de obtenção da levedura proveniente de uma indústria de álcool regional e demonstrar o seu uso na formulação de ração para peixes onívoros amazônicos.

A pesquisa descreve de forma minuciosa o processo de obtenção, processamento e inclusão da levedura seca da indústria de álcool em uma formulação de ração para peixes. Dessa forma, determinou-se o nível proteico (27%) e de minerais da levedura avaliada em comparação a outros ingredientes convencionais. 

Pesquisadores avaliaram com sucesso o uso na formulação de ração para peixes onívoros. Foto: Celso Scherer Filho

Obtenção da levedura a partir da cana-de-açúcar 

O procedimento padrão adotado para obtenção da levedura consistiu na colheita da cana-de-açúcar com colheitadeira do tipo forrageira acoplada a trator. Nesse momento ocorreram a trituração e deposição da cana-de-açúcar triturada em uma carreta. Posteriormente esse material foi descarregado na indústria para extração da garapa, que é realizada por moenda movida a vapor proveniente de caldeira.

A garapa extraída foi armazenada em dornas de 19 mil litros, à qual, posteriormente, adicionou-se a levedura ativada para o início da fermentação. Esse processo, com duração de aproximadamente dois dias, foi realizado para a ativação e a multiplicação da levedura. 

Após 18 horas de fermentação, observou-se que não havia mais formação de espuma, indicando o término da fermentação, e todo o açúcar foi convertido em álcool. Desse material descartado se origina a levedura de cana-de-açúcar para o uso nos experimentos de nutrição animal.

Pesquisadores avaliaram com sucesso o uso na formulação de ração para peixes onívoros. Foto: Celso Scherer Filho

Preparação da levedura para uso 

Após a preparação da levedura seca foram separadas amostras para análise no Laboratório de Análise de Solos e Plantas (Lasp) da Embrapa Amazônia Ocidental. Nesse processo, foram quantificados os níveis de nitrogênio, potássio, fósforo, cálcio, magnésio, enxofre, cobre, ferro, manganês e zinco seguindo metodologias laboratoriais consolidadas e certificadas. Para fins comparativos, também foram feitas as mesmas análises para ingredientes comumente utilizados na formulação de ração, como os farelos de soja, trigo e milho, além de farinha de carne e ossos, que foram adquiridos em lojas de produtos agrícolas da região.

Além da qualidade nutricional, a levedura pode apresentar função probiótica. Probióticos são alimentos (ou produtos) que contêm microrganismos vivos que proporcionam benefícios para a saúde e são essenciais para o equilíbrio da microbiota intestinal (também conhecida como flora intestinal). A boa saúde do intestino, mantida por bactérias "do bem" que compõem a microbiota, está relacionada à manutenção da saúde de todo o organismo.

Segundo Dairiki, existem outros tipos de levedura que também são utilizados na indústria de bebidas, como nas cervejarias. No entanto, para que as leveduras sejam, de fato, utilizadas na formulação de rações por produtores locais, deve-se otimizar o beneficiamento na forma líquida, secagem, moagem, pois a maneira como esses procedimentos ocorrem pode alterar as qualidades físico-químicas e nutricionais da levedura. Como são rações produzidas em grandes quantidades, faz-se necessária a adaptação de maquinário de pequeno e grande porte para que a elaboração seja economicamente sustentável. 

A obtenção da levedura S. cerevisiae, provinda de uma destilaria local, torna-se uma alternativa promissora de matéria-prima para rações de peixes nativos no estado e traz uma nova perspectiva sustentável de utilização para esse resíduo, que ainda não era reaproveitado no Amazonas. A efetividade da obtenção, o processamento, a qualidade nutricional e a forma de inclusão nas rações para peixes onívoros possibilitam seu uso na alimentação desses animais. Pesquisas estão sendo desenvolvidas com o uso da levedura na nutrição de tambaquis e matrinxãs com bons resultados em condições laboratoriais, especialmente para o desempenho zootécnico e substituição de outros ingredientes convencionais.

Outras vantagens do uso da levedura de cana-de-açúcar são: produção elevada e em escala comercial, não enfrenta problema de sazonalidade e tem padronização e qualidade, atributos que potencializam sua utilização na nutrição de peixes. Além disso, existem polos de produção no estado do Amazonas, como no município de Maués, nos quais há usinas para a fabricação de açúcar e álcool, e consequentemente levedura para abastecimento das fábricas de ração no Amazonas.

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