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Manaus 30º • Nublado
Quinta, 13 Mai 2021

MPF/AM pede delimitação de áreas de preservação para sauins-de-coleira

A prefeitura de Manaus terá que realizar, com urgência, estudos para identificar e delimitar as áreas de ocorrência do sauim-de-coleira (Saguinus bicolor). A determinação atende a uma ação civil pública ingressada pelo Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM) na Justiça Federal.  A pesquisa deverá contar com a participação do Grupo de Trabalho do Plano de Ação Nacional para a Conservação do sauim-de-coleira (PAN Sauim). 

Na ação, o MPF requer que a prefeitura publique, no prazo de até 180 dias, um decreto com a completa descrição das áreas de preservação permanente a serem criadas, sob pena de multa diária de R$ 10 mil, a recair sobre o patrimônio pessoal do prefeito de Manaus.
Foto:Maurício Noronha/Agência de Notícias de Direitos Animais
Caso o Poder Executivo municipal não identifique quais fragmentos florestais devem ser preservados, a ação pede que a Justiça proíba a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), o Instituto de Proteção Ambiental do estado do Amazonas (Ipaam) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de conceder autorização para qualquer desmatamento legalizado, até a edição do decreto com a completa descrição das áreas de preservação permanente a serem criadas.

Ameaça real

A espécie é considerada “criticamente em perigo” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), desde 2003.

Devido a sua distribuição geográfica restrita – só existe nos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara, a extinção local significa a extinção total da espécie na natureza. Por isso, o MPF defende que as áreas de vivência do sauim-de-coleira sejam prioritariamente preservadas, diante da real ameaça de extinção da espécie.

O MPF observa a necessidade implementar e colocar em prática o que está previsto no artigo 32, inciso IV, do Código Ambiental do Município de Manaus. Trata-se do dispositivo que decretou como áreas de preservação permanente aquelas “que abriguem exemplares raros, ameaçados de extinção ou insuficiente desconhecidos da flora e da fauna, bem como aquelas que servem de pouso, abrigo ou reprodução de espécies migratórias”.

De acordo com a Constituição Federal, a alteração ou supressão de área de preservação permanente é permitida somente por meio da lei, e somente ocorrerá em caso de utilidade pública, interesse social ou intervenções de baixo impacto ambiental, devendo ser previamente autorizadas pelo órgão competente, em processo administrativo próprio, motivado tecnicamente e observando as condições estabelecidas na Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) 396/2006.A ação civil pública tramita na 7ª Vara e aguarda decisão da Justiça. 

Decisão sobre limites de Unidades de Conservação no sul do Amazonas deve sair em um mês

Unidade de Conservação ao sul do Amazonas. Foto: Divulgação/Idesam
O Ministro do Meio Ambiente José Sarney Filho determinou ontem o prazo de trinta dias para que técnicos do governo e políticos do Amazonas cheguem a um consenso sobre a proposta de reduzir áreas protegidas no sul do estado, fronteria com Rondônia e Mato Grosso.

Foi durante uma reunião com senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos, vereadores e representantes de empresas de mineração que pressionam o governo para alterar os limites de cinco unidades de conservação (UCs) federais naquela região.

A redução das unidades de conservação consta de uma minuta de projeto de lei discutido no mês passado pelos parlamentares do Amazonas com a Casa Civil da Presidência da República.

Estão na mira a extinção da Área de Proteção Ambiental de Campos de Manicoré e cortes nos limites do Parque Nacional de Acari, da Reserva Biológica de Manicoré e das Florestas Nacionais de Urupadi e Aripuanã.

O novo desenho levaria a uma perda de cerca de um milhão de hectares em áreas protegidas e deixaria o território mais vulnerável a crimes ambientais como desmatamento e grilagem de terras pública. Comprometeria ainda os acordos internacionais do Brasil sobre o clima e a biodiversidade.

Controvérsia

Os defensores da redução das áreas protegidas do sul do Amazonas alegam que o processo de criação daquelas unidades de conservação, a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), não levou em conta a existência de empreendimentos já consolidados na região e nem a presença de populações locais, que viveriam ali desde a década de 1970.

Alegam também que o estado foi “retaliado” devido ao fato de que os senadores e deputados federais votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff. É que o decreto que criou as unidades de conservação foi publicado nos últimos instantes do governo da presidente afastada.

O ICMBio contesta essa versão. Segundo o instituto, os estudos que levaram à criação das UCs já vinham sendo feitos há dois anos e que seguiram todos os ritos técnicos e legais.

E mais. As terras onde se encontram as áreas protegidas pertencem ao Ministério do Meio Ambiente. Segundo a Constituição, o governo tem a prerrogativa de criar unidades de conservação em locais de relevante interesse nacional, desde que detenha o título da terra.

De acordo com o MMA, ao criar as unidades, houve o cuidado de se recortar as áreas em que existiam assentamentos e atividades consolidadas. Além disso, algumas das categorias de UCs como as Areas de Proteção Ambiental (APA) e as Florestas Nacionais (Flonas) permitem diferentes tipos de ocupação humana e uso econômico do território.

Nos municípios de abrangência das áreas protegidas que encontram-se sob pressão (Lábrea, Apuí, Manicoré, Borba, Novo Aripuanã e Maués), incluindo trechos ao longo da BR 230 e AM 360, o corte raso de florestas nativas saltou de 27% para 36% entre 2011 e 2015, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Corrida do ouro

O avanço do desmate e de crimes de grilagem foi um dos motivos para a criação das UCs naquele trecho do estado. Mas a pressão também vem do setor minerário. Um levantamento feito pelo WWF-Brasil indicou que a extração de minérios, principalmente o ouro, pode estar relacionada com a proposta defendida pelos políticos amazonenses.

O WWF cruzou a base de dados com os pedidos de pesquisa e lavra de minérios no sul do Amazonas protocolados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), e sobrepôs essa base de dados às áreas pretendidas pelos políticos.

A análise revelou que a maior parte dos pedidos já protocolados no DNPM está justamente nos trechos das áreas protegidas que os parlamentares querem tirar dos limites das unidades de conservação.

Um dos casos mais curiosos envolve uma série de autorizações de pesquisa e lavra garimpeira de ouro no Parque Nacional do Acari, emitidas semanas antes do decreto de criação da UC.

Representantes das empresas beneficiárias dos pedidos feitos juntos ao DNPM e que já investiram na região também estão entre os que querem a revisão das áreas protegidas.

Populações da Amazônia querem o reconhecimento de quatro novos mosaicos de áreas protegidas

Foto: Divulgação/O Eco
Os participantes do primeiro Encontro de Mosaicos de Áreas Protegidas da Região Norte, encerrado esta semana na capital amazonense, buscam o reconhecimento de quatro novos mosaicos de áreas protegidas naquela região. Este reconhecimento, que deve ser feito pelo poder público (União e estados), reforçaria a gestão e proteção de mais de 24 milhões de hectares de áreas naturais na Amazônia, como florestas, mangues, savanas, lagos e planícies.As propostas de criação de novos mosaicos estão em diferentes fases de articulação, e contemplam a criação do: mosaico da Calha Norte, que visa proteger a calha norte do rio Amazonas, entre o Pará e o Amapá, que somaria 11 milhões de hectares; do mosaico do Sul do Amazonas, que busca integrar unidades de conservação e Terras Indígenas num conjunto de 4 milhões de hectares; do mosaico da Terra do Meio, no centro do Pará, com 8 milhões de hectares; e do Mosaico da Rebio do Gurupi, entre o Pará e o Maranhão, que integraria 1,83 milhões de hectares.BenefíciosO reconhecimento desses mosaicos traria uma série de benefícios - como maior escala nos trabalhos de conservação da natureza; gestão integrada entre diferentes atores sociais, civis e governamentais; otimização de recursos e integração de infraestrutura; redução de conflitos e fortalecimento do desenvolvimento territorial. Atualmente, as áreas protegidas brasileiras – responsáveis por uma série de serviços ecossistêmicos como controle do clima, purificação da água e do ar, controle de pragas, recreação e turismo - correm grandes riscos com projetos de infraestrutura que são feitos sem o devido cuidado ambiental, como hidrelétricas e estradas. Expandir proteçãoA ecóloga Marlúcia Bonifácio Martins, que também é pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi, de Belém (PA), é uma das articuladoras que trabalha pelo reconhecimento do Mosaico da Rebio do Gurupi, entre o Pará e o Maranhão.Ela conta que a Reserva Biológica do Gurupi é uma área de floresta cercada por Terras Indígenas. “Nossa ideia, em integrar um mosaico de áreas protegidas, é reduzir o nível de isolamento dessas áreas e expandir esse trabalho de proteção biológica e cultural. Estamos falando de uma região que tem mais de 40 espécies de animais ameaçados e mais de 8 etnias diferenciadas, fora as populações indígenas isoladas”, afirmou.Integrante do núcleo de coordenação da Rede Mosaico de Áreas Protegidas (Remap), Heloísa Dias afirma que esses novos mosaicos são um reforço à proteção da natureza existente na Amazônia. “Além disso, eles nascem num contexto em que já temos procedimentos, processos, lições aprendidas que podem ser utilizados para que eles realizem seu trabalho de forma mais eficiente”, explicou.DebatesDurante o primeiro Encontro de Mosaicos de Áreas Protegidas da Região Norte cerca de 150 atores sociais, de todos os estados da Amazônia, estiveram reunidos para trocar experiências e discutir gestão territorial. Para a analista de conservação do WWF-Brasil Jasy Abreu, o encontro significou “a retomada de uma discussão que estava parada”. “Considero que trazer para a pauta governamental essa questão da gestão de territórios por meio de mosaicos foi um dos grandes avanços que tivemos esses dias”, contou a analista - referindo-se à participação ativa de órgãos como a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nos debates.A expectativa é de que os atores sociais de outros biomas também realizem encontros semelhantes: os representantes das áreas protegidas da Mata Atlântica devem se encontrar em maio e, em setembro, acontece o encontro de mosaicos do Cerrado.O que é um mosaico de áreas protegidas?
Um mosaico de áreas protegidas é uma figura jurídica prevista na lei nº 9985/2000, a lei que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc). Ele é basicamente um conjunto de unidades de conservação, quilombos ou terras indígenas que, por compartilhar uma série de características físicas em comum (geografia, hidrografia e biodiversidade, por exemplo) compartilham ações, planos e estratégias comuns para conservação de seus recursos naturais, culturais e sociais.

A ideia dos mosaicos é otimizar recursos e maximizar resultados, garantindo a participação social no controle das áreas protegidas e maior eficiência em suas ações. Atualmente, existem 23 mosaicos de áreas protegidas no Brasil.

Redução de unidades de conservação no Amazonas é pauta em reunião com o Ministro do Meio Ambiente

Foto: Divulgação/Instituto Socioambiental
Deputados da bancada amazonense vão se reunir nesta quarta-feira (8) com o Ministro do Meio Ambiente sobre a proposta de extinção e diminuição de Unidades de Conservação na região de Apuí, no sul do Estado do Amazonas. As unidades de conservação foram criadas durante o Governo Dilma Roussef. Segundo o gabinete do Deputado Átila Lins, um dos articuladores do projeto, a demarcação equivocada dessas terras afetou diretamente comunidades que viviam naquela região.

Uma nota de repúdio sobre o caso foi emitida por 21 organizações, entre elas o Greenpeace, a WWF e o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (IMAZON). O documento afirma que a área desprotegida deve ser alvo do desmatamento e faz o país perder credibilidade internacional em políticas de sustentabilidade. "Remover essa proteção de 1 milhão de hectares contribuirá para o - já notável - aumento do desmatamento na Amazônia , comprometendo também a credibilidade do Brasil diante da comunidade  internacional, influenciando negativamente a imagem conquistada após esforços bem sucedidos no combate ao desmatamento e às mudanças climáticas", afirma a nota.

Segundo o Greenpeace, em 2016 o Brasil registrou a maior taxa de desmatamento desde 2008, alcançando quase 8 mil km². As unidades de conservação ao sul do Amazonas recebem diversas pressões ambientais do arco do desmatamento e são uma barreira para o possível avanço da destruição da floresta. Sem essas unidades o Estado do Amazonas estaria correndo o risco de ver o desmatamento avançar na região.

Este não é um caso isolado. No final de 2016 o governo federal editou duas medidas para redução de áreas de proteção ambiental no Estado do Pará. Se aprovada o Estado do Pará poderia perder quase 1 milhão de hectares de áreas protegidas. Segundo o Greenpeace, áreas de proteção ambiental já sofrem pressões do garimpo, da atividade pecuária e da grilagem no entorno. Com a diminuição e extinção das unidades de conservação, essas áreas serviriam aos interesses dessas práticas.

Um exemplo disso é a Floresta Nacional (Flona) de Urupadi. Imagens de satélites mostram que áreas de garimpo de ouro, muitas recentemente operadas e sem qualquer autorização para a atividades, estão sendo realizadas na região. A Flona fica na divisa com o Pará, onde o garimpo ilegal é uma atividade que ocorre na floresta.

Figura internacional

O Brasil é visto por outros países como um modelo de medidas de conservação e sustentabilidade. O Fundo Amazônia, recebeu 2 bilhões de reais da Noruega e Alemanha para manutenção de áreas protegidas. Segundo Cristiane Mazzetti, da campanha Amazônia do Greenpeace, com essas medidas o Brasil pode comprometer sua imagem no exterior e as parcerias internacional já presentes. “Se a proposta de redução das UC’s seguir adiante, teríamos um recado negativo com efeito duplo, incentivando  quem destrói a floresta e traindo quem, inclusive financeiramente, nos ajuda a preservá-la. É vergonhoso”, afirma Cristiane Mazzetti. 

ICMBio recebe R$ 55 mi para regularização fundiária em UCs na Amazônia

Duas unidades de conservação em Rondônia e no Amazonas serão beneficiadas com recursos advindos de compensação ambiental pela implantação da Usina Hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Porto Velho (RO). O dinheiro será o utilizado para ações de regularização fundiária.

O Termo de Compromisso para cumprimento da compensação foi assinado nesta quinta-feira (23) pelo presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ricardo Soavinski; pelo diretor-presidente da Energia Sustentável do Brasil S.A (ESBR), Victor-Frank Paranhos; e pela assessora técnica da empresa, Thaís Soares.

O documento estabelece o valor de aproximadamente R$ 55 milhões  para compensação ambiental. Os recursos serão utilizados para ações de regularização fundiária na Reserva Biológica do Jaru (RO) e o Parque Nacional Mapinguari (RO/AM), unidades de conservação administradas pelo ICMBio.

"Para chegarmos até aqui tivemos muito trabalho, nós agrademos a colaboração da empresa. Daqui para frente trabalharemos na próxima etapa, que é a parte da execução, vamos seguir nesse trabalho conjunto", afirmou Ricardo Soavinski. A medida estabelece que o empreendedor ESBR deverá apoiar diretamente as unidades de conservação.

Victor-Frank comentou que a assinatura é importante pois há uma preocupação da empresa em fazer o que é correto, em cumprir com os acordos, evitando qualquer problema futuro. O presidente da ESBR também parabenizou a equipe do ICMBio pelo trabalho realizado na elaboração do Termo de Compromisso.

Estiveram presentes ainda na assinatura do acordo o coordenador de Compensação Ambiental do ICMBio, João Paulo Sotero, o coordenador-geral de Finanças e Arrecadação, Gustavo Rodrigues, e a diretora substituta de Planejamento, Administração e Logística, Flávia Gomes.

Compensação ambiental

A compensação ambiental é um instrumento de política pública que, intervindo junto aos agentes econômicos, proporciona a incorporação dos custos sociais e ambientais da degradação gerada por determinados empreendimentos, em seus custos globais.

A lei 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, através de seu artigo 36, impõe ao empreendedor a obrigatoriedade de apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do grupo de proteção integral, quando, durante o processo de licenciamento e com fundamento em EIA/RIMA, um empreendimento for considerado como de significativo impacto ambiental.

Pesquisa avalia riscos para a distribuição de espécie de primata amazônico

Macaco-de-cheiro da cabeça preta da espécie Saimiri vanzolinii. Foto: Marcelo Santana/Instituto Mamirauá
Um pequeno primata da Amazônia, o macaco-de-cheiro da cabeça preta (Saimiri vanzolinii), encontrado apenas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, está preocupando pesquisadores. O motivo é que os indivíduos dessa espécie vivem restritos a uma pequena área, de 870 quilômetros quadrados (km²), na unidade de conservação. Os pesquisadores acreditam que o local de ocorrência da espécie vem reduzindo ao longo dos anos, o que pode levar, consequentemente, à diminuição da sua população.

As pesquisas desvendaram que, diferente do que ocorre em outras regiões da Amazônia, ou com outras espécies, as barreiras para a dispersão de Saimiri vanzolinii para outras regiões não são físicas, mas ecológicas. Umas das explicações relaciona-se à diferença na estrutura de floresta e disponibilidade de recursos utilizados para alimentação.

A pesquisadora do Instituto Mamirauá, Fernanda Paim, explica que são três espécies de macaco-de-cheiro vivendo na região. A hipótese dos pesquisadores é que as outras duas espécies, que ocorrem em maior abundância, poderiam estar pressionando a população do macaco-de-cheiro da cabeça preta.

“Em algum momento da história evolutiva dessas espécies, os animais entraram na várzea da Reserva Mamirauá e eu acredito que, de alguma forma, eles estão pressionando Saimiri vanzolinii, o que a longo prazo pode comprometer o tamanho de sua área de distribuição geográfica, podendo levar a espécies à extinção. É uma hipótese, que não podemos provar ou testar. Mas esse seria um caso de extinção natural”, disse Fernanda.

Fernanda explica que, durante a pesquisa, foi observado que há uma delimitação clara entre a área de ocorrência das três espécies na Reserva Mamirauá. Os pesquisadores imaginavam que os rios atuariam como barreiras geográficas, separando os limites de distribuição de cada espécie, mas são outros fatores que parecem estar limitando a distribuição. Então, a hipótese que surgiu era: se existe uma separação, uma área bem delimitada, qual é a causa? Na Reserva Mamirauá, a causa foi uma questão ecológica”, explicou.
Fernanda ressalta que a área de ocorrência de uma espécie é um dado importante para traçar estratégias de conservação. O macaco-de-cheiro da cabeça preta é classificado como vulnerável à extinção pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Como a sua área de ocorrência está limitada a uma unidade de conservação, a partir de informações como da dieta e ecologia dessa espécie, poderiam ser sugeridas adequações ao plano de manejo da área, de acordo com a pesquisadora.

“Eu considero essa unidade de conservação um sítio biogeográfico muito importante para os macacos de cheiro. É um local de alguma forma especial. Porque três espécies (das sete conhecidas) conseguiram se adaptar e viverem juntas nessas áreas”, contou Fernanda.

O estudo demonstrou que os animais das três espécies utilizam de forma diferente o ambiente e os recursos naturais presentes no local. A ocorrência das três espécies foi avaliada em três diferentes habitats na área da Reserva: várzea alta, várzea baixa e chavascal. Os três ambientes se caracterizam como distintos tipos florestais e contêm diferentes características, mas uma semelhança: são sazonalmente alagadas em função da variação do nível do rio.

Foi observado na pesquisa que os indivíduos de macaco-de-cheiro de cabeça preta têm preferência pelo chavascal, em relação aos outros habitats. “Os chavascais da área de S. vanzolinii possui uma maior riqueza de espécies de árvores, quando comparado ao mesmo tipo florestal para a área das outras espécies de Saimiri”, de acordo com Fernanda.

Outro ponto interessante observado, como descreve a pesquisadora, é a grande presença de lianas na área de ocorrência do animal dentro dos três habitats. As lianas são um tipo de cipó muito utilizado por esses animais para alimentação. “Pode ser que esses dois fatores estejam interferindo na distribuição da espécie. Então, de alguma forma, essa região onde a espécie está restrita, apesar de ser tão pequena, oferece o que é necessário para ele viver. O que separa a distribuição deles não são rios, mas sim diferenças na estrutura de floresta e oferta de recursos, que são necessários para que a espécie possa sobreviver”, comentou a pesquisadora.

Essa pesquisa é parte do projeto de doutorado de Fernanda Paim na Universidade Federal de Minas Gerais, com recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no programa de doutorado sanduíche, realizado em parte na McGill University, no Canadá.

Estudo analisa impactos econômicos do turismo em Unidades de Conservação

Estação Ecológica de Jutaí-Solimões na Amazônia. Foto: Divulgação/ICBMBio
O uso público é um serviço ambiental e cultural oferecido pelas unidades de conservação (UCs) que, além de movimentar a economia, deve ser encarado como um aliado da natureza – afinal, quanto mais as pessoas têm acesso e conhecem as UCs, mais elas advogarão a favor do meio ambiente. Essa é uma das conclusões da recém-publicada tese de doutorado em Ecologia de Thiago Beraldo, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Resultado de um abrangente projeto de pesquisa realizado na Universidade da Flórida (EUA), a tese tem como título “Avaliação da oferta, demanda e impactos econômicos do turismo em unidades de conservação federais do Brasil”. O trabalho já foi apresentado em importantes eventos internacionais, como o Congresso Mundial da Conservação, realizado em setembro de 2016 no Havaí, e a 13ª Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica (COP 13), que aconteceu no último mês de dezembro em Cancun, no México.

“Eu procurei analisar a oferta e demanda de todo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Meu objetivo era entender a dinâmica do uso público nas áreas protegidas e os impactos econômicos da visitação, isto é, quanto o gasto do visitante gera para a economia local”, destaca o pesquisador. Os resultados numéricos do estudo surpreendem: o turismo em UCs movimenta aproximadamente R$ 4 bilhões por ano, gera 43 mil empregos e agrega R$ 1,5 bilhão ao Produto Interno Bruto (PIB).
Atrativos turísticos

O trabalho de doutorado de Thiago Beraldo identificou 36 classes de atrativos turísticos nas nossas áreas protegidas, entre naturais (praias, montanhas, florestas e até mesmo neve, no Parque Nacional de São Joaquim) e culturais (parques arqueológicos, patrimônios arquitetônicos, comunidades tradicionais, etc). “Outro dado interessante é que o Brasil já conta com mais de 1.600 km de trilhas disponíveis para uso público”, ressalta Beraldo.

Além das tradicionais trilhas, outras 57 atividades menos convencionais estão em curso e podem ser exploradas pelos visitantes. Interação com golfinhos, arvorismo, observação de fauna, camping, rapel, visitas a comunidades, passeios a cavalo e canoagem são alguns exemplos do que já vem sendo oferecido aos turistas.

Potencial brasileiro

O pesquisador explica que sua análise da visitação em UCs teve como base dois eixos principais: o interno (potenciais como belezas cênicas, atividades e serviços oferecidos na unidade) e o externo (avalia o local em que a UC está situada). “De modo geral, as pessoas buscam um destino turístico que inclui diversos atrativos – entre eles a unidade de conservação. As UCs que atraem o turista apenas por elas mesmas, a exemplo do Parque Nacional do Monte Roraima, são exceções à regra”, afirma.

Nesse sentido, Beraldo aponta para o fato de que o Brasil possui diversas áreas protegidas ainda não tão valorizadas, mas com grande potencial de atração de visitantes justamente pelos locais onde se encontram. A Floresta Nacional de Brasília (DF), a Floresta Nacional de Canela (RS) e o Parque Nacional da Serra do Itajaí, em Blumenau (SC), podem ser citados como exemplos desse potencial a ser explorado.

Outro aspecto analisado no trabalho é o tempo de duração das visitas. Segundo o pesquisador, ainda estamos muito limitados aos passeios de apenas um dia. “Basta comparar com os Estados Unidos, onde boa parte dos visitantes dorme e passa pelo menos dois dias na unidade. Para seguirmos essa tendência, precisamos ampliar a oferta de campings nas nossas UCs”, argumenta.

Ao longo dos quatro anos de construção da sua tese, Beraldo constatou que o uso público é, na verdade, mais simples do que se pensa. “Os visitantes de unidades de conservação querem somente ter o direito de realizar algumas atividades em contato direto com a natureza”, conclui.