Espécie Melipona seminigra, rainha rodeada de operárias. Foto: Gislene Zilse/Acervo pessoal
O II Congresso Amazonense de Meliponicultura (IICAM) reunirá pesquisadores, estudantes, produtores, empreendedores e amantes de abelhas sem ferrão para discutir o papel desses insetos na conservação ambiental, na produção sustentável e no desenvolvimento econômico da região.
Organizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o evento será realizado entre os dias 22 e 25 de julho de 2026, oferecerá 500 vagas e contará com 68 palestrantes, incluindo especialistas do Amazonas, de outros estados brasileiros e convidados internacionais.
Com o tema ‘Ciência, conservação e empreendedorismo: conexões que geram o futuro’, o congresso será realizado no Setor Sul da UFAM, e contará com uma programação científica, técnica e prática voltada à cadeia produtiva da meliponicultura.
Segundo a coordenadora-geral do congresso, a pesquisadora Gislene Carvalho-Zilse, a iniciativa busca fortalecer uma atividade tradicional da Amazônia e ampliar o diálogo entre o conhecimento científico, a conservação ambiental e a geração de renda.
“A meliponicultura é uma atividade que é praticada desde sempre pelos povos amazônicos, porque as abelhas têm uma relação direta com a cultura, com os hábitos e com a alimentação dos seres humanos”, destaca.
De acordo com a pesquisadora, além da produção de mel, pólen e própolis, as abelhas sem ferrão exercem uma função essencial para a manutenção dos ecossistemas amazônicos: a polinização, transporte do grão de pólen entre uma flor e outra, fazendo com que as plantas se reproduzam.
Ciência como base para o desenvolvimento
Um dos focos desta edição será a valorização da pesquisa científica aplicada à criação de abelhas sem ferrão. Segundo a coordenadora, compreender as necessidades das espécies, os manejos adequados e as plantas visitadas pelas abelhas é fundamental para garantir a sustentabilidade da atividade.
“Tem um conteúdo científico muito importante. A ciência atua para ajudar o desenvolvimento dessa atividade e, a partir disso, os criadores de abelhas conseguem andar pelo caminho do empreendedorismo. E esse é o despertar que a gente gostaria de levar com essa edição do evento”, destacou.
I congresso Amazonense de Meliponicultura. Foto: Reprodução/Embrapa
Ela lembra que a primeira edição do congresso, realizada em 2022, teve como foco o profissionalismo da atividade e a sustentabilidade. “Agora avançamos para os aspectos científicos e para as descobertas que embasam o manejo dessas abelhas, promovendo a conservação e projetando novos caminhos para o empreendedorismo. Por isso pensamos que essas são as conexões que vão gerar o futuro”.
A programação do congresso inclui nove minicursos, duas oficinas práticas, nove painéis temáticos, 18 palestras especializadas e apresentações de trabalhos científicos e técnico-práticos.
De acordo com Gislene, os participantes poderão acompanhar debates sobre identificação de espécies, polinização, microbiologia associada aos produtos das abelhas, legislação, empreendedorismo, turismo, educação ambiental e comercialização.
A programação contará ainda com duas oficinas especiais voltadas à aplicação dos produtos das abelhas em diferentes áreas. Uma delas será dedicada à gastronomia amazônica, abordando o uso do mel, pólen e própolis em preparações culinárias, enquanto a outra ensinará a produção de cosméticos artesanais utilizando derivados das abelhas sem ferrão.
Além disso, dois momentos gastronômicos permitirão ao público conhecer receitas elaboradas por chefs convidados, seguidas de degustações.
Feira aberta ao público e concursos
Meliponário do Inpa. Foto Cimone Barros/ Ascom Inpa
Um dos destaques do congresso será a Feira de Produtos e Equipamentos da Meliponicultura, aberta gratuitamente à população. No espaço, os visitantes poderão conhecer diferentes produtos derivados das abelhas sem ferrão, equipamentos utilizados na atividade e um meliponário demonstrativo com diversas espécies para observação.
“Nós teremos caixinhas de diferentes espécies disponíveis para visitação, permitindo que as pessoas conheçam de perto o universo das abelhas sem ferrão”, explica Zilse.
O evento também promoverá três concursos: Melhor Mel, Fotografia e Material Didático, incentivando a divulgação do conhecimento sobre as abelhas e sua importância para a sociedade.
Você sabia que o mel é frequentemente apontado como o único alimento que não estraga? Essa fama não surgiu por acaso. Ao longo dos anos, sua capacidade de conservação chamou a atenção de cientistas e consumidores, e o tornou um dos alimentos naturais mais estudados do mundo.
Mas será que isso é realmente verdade?
Segundo a pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Gislene Zilse, embora o mel seja um dos alimentos naturais mais estáveis que existem, a ciência ainda não permite afirmar que ele seja um alimento que nunca estrague.
“O mel apresenta alta concentração de açúcares, alta acidez e baixa umidade, tornando-o um dos alimentos naturais mais estáveis microbiologicamente, o que não quer dizer que não estrague, pois as condições de sua manipulação podem contaminar o alimento”, explica a pesquisadora.
É a estabilidade que faz com que ele resista por longos períodos sem apresentar sinais de deterioração, desde que seja produzido, armazenado e manipulado adequadamente.
De acordo com Gislene, o mel é um alimento complexo:
“O mel é um alimento complexo com características físico-químicas e microbiológicas próprias, que variam de acordo com a espécie de abelha que o produz, assim como com a matéria-prima, que é o néctar, que a abelha coleta”, informa.
Essa diversidade faz com que existam diferentes tipos de mel, cada um com características próprias de aroma, sabor, composição nutricional e estabilidade. Mas, de acordo com a pesquisadora, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, ele não é um produto estático e sim considerado um alimento vivo.
Méis de abelhas sem ferrão da Amazônia. Foto: Julia Rantigueri/Instituto Mamirauá
Isso acontece porque, mesmo depois de armazenado, ele continua passando por processos naturais de maturação, desenvolvimento, até atingir o seu estado ideal, influenciado por suas características físico-químicas e pelas interações entre os microrganismos presentes naturalmente em sua composição.
“Por isso, ele pode variar ao longo do tempo e perder algumas características desejáveis. Além disso, ele pode sofrer contaminações, especialmente em decorrência da manipulação humana e falta de higienização durante os processos de colheita e processamento, assim como do recipiente de envase do mel”, explica.
Por isso, embora o alimento apresente uma durabilidade muito superior à maioria dos alimentos, sua conservação depende diretamente dos cuidados adotados durante a produção, a colheita e o processamento.
Composição do mel
Grande parte da resistência do mel à deterioração está relacionada à sua composição. A pesquisadora explica que, do ponto de vista físico-químico, ele é formado principalmente por açúcares e água, além de aminoácidos, vitaminas, minerais, compostos antioxidantes e enzimas.
“No entanto, do ponto de vista microbiológico, há presença de microorganismos como bactérias e fungos, mas especialmente de leveduras benéficas à sua maturação e estabilização”.
De acordo com Gislene Zilse, essas leveduras estão adaptadas às condições específicas do ambiente do alimento e ajudam a impedir a proliferação de organismos prejudiciais: “Diante dessa composição físico-química e microbiológica do alimento, podemos dizer que quanto maior o teor de alguns componentes como açúcares e peróxido de hidrogênio, assim como de leveduras, maior será a estabilidade”.
Outro fator importante é a combinação de alta acidez, baixo pH e alta atividade de água, condições que contribuem para inibir o desenvolvimento de microrganismos maléficos, mas permitem a existência de leveduras que são próprias de sua composição.
Além disso, o alimento produz naturalmente uma substância conhecida por sua ação antisséptica, a água oxigenada.
“Ele apresenta, por exemplo, água oxigenada decorrente de uma enzima natural chamada glicose oxidase, que é responsável por quebrar o açúcar glicose levando à formação do peróxido de hidrogênio, que é um antisséptico natural que impede a proliferação de bactérias, fungos e outros microrganismos”, explica.
Segundo a pesquisadora, todos esses fatores atuam juntos: “É preciso ter em mente que não há só um único motivo que causa o impedimento de proliferação de bactérias e fungos maléficos, mas várias condições que agem simultaneamente e favoravelmente à estabilidade e conservação do mel”.
Então o mel pode estragar?
Embora seja extremamente estável, o mel não está totalmente livre de alterações. A pesquisadora explica que ao longo do tempo, ele pode sofrer mudanças naturais, ser armazenado de forma inadequada ou até ser contaminado durante a manipulação.
“O que conhecemos cientificamente acerca dessa composição multifatorial dos méis não nos permite afirmar que o mel possa durar indefinidamente já que, ao longo do tempo, ele pode melhorar com seu processo natural de maturação, mas também pode produzir substâncias indesejáveis, ou ser armazenado indevidamente ou ser contaminado”, afirma.
Foto: Arquivo pessoal/Gislene Zilse
Além disso, segundo Zilse, o mundo abriga mais de 600 espécies de abelhas produtoras de mel, produzindo um alimento com características próprias. “É esperado deduzir que cada um desses méis terá sua peculiaridade aromática, perfil físico-químico e microbiológico único assim como um tempo de prateleira distinto”.
Portanto, o mel não é exatamente um alimento eterno, mas com certeza está entre os alimentos naturais com maior capacidade de conservação.
Cristalização é sinal de que estragou?
Quando o mel fica mais espesso ou cristalizado, quer dizer que ele estragou? Segundo Zilse, isso não significa deterioração.
“Longe de ser um defeito, a cristalização é uma tendência natural do mel puro, uma vez que é uma solução altamente concentrada em açúcares”.
Ela destaca que o processo é, inclusive, um indicativo de naturalidade. “Cristalizar, e se tornar pastoso, é um sinal de qualidade do alimento 100% natural”, assegura.
De acordo com a pesquisadora, deixar o alimento que tenha mais glicose que frutose em geladeira leva naturalmente à cristalização. Portanto, segundo ela, mel cristalizado é uma condição natural do alimento verdadeiro e não quer dizer que ele “estragou”.
Pode oferecer riscos à saúde?
De modo geral, o mel é considerado um alimento seguro e raramente provoca problemas de saúde. Porém, Gislene Zilse alerta para situações específicas que exigem atenção.
Uma delas envolve a bactéria Clostridium botulinum, já que seus esporos, estruturas microscópicas e ultrarresistentes, podem estar naturalmente presentes no alimento, transportados pelo ar, pela poeira ou pelo pólen.
Segundo Gislene, crianças menores de um ano possuem uma flora intestinal ainda imatura, o que pode permitir que esses esporos germinem, se multipliquem e produzam a toxina responsável pelo botulismo infantil. Por esse motivo, o consumo do mel não é recomendado para crianças nessa faixa etária.
A diversidade dos méis amazônicos
Quando se fala em mel amazônico, muitas pessoas imaginam um único produto. No entanto, a realidade é muito mais diversa. De acordo com Gislene Zilse, a Amazônia abriga cerca de 150 espécies de abelhas sem ferrão, das mais de 250 conhecidas no Brasil, e cada uma delas produz méis com características próprias.
“Não temos um mel amazônico único, mas sim uma diversidade de méis produzidos pelas mais de 120 espécies de abelhas nativas sem ferrão amazônicas”, destaca Gislene.
Segundo a pesquisadora, o alimento reflete tanto a vegetação disponível quanto às características enzimáticas e microbiológicas da espécie de abelha responsável pela produção. Isso faz com que seja praticamente impossível reproduzir em outro lugar um mel produzido por uma espécie amazônica utilizando recursos vegetais de outro bioma.
Méis de abelhas-sem-ferrão. Foto: Mateus Bento/ Cotes-Inpa
Um exemplo citado por Gislene envolve uma pesquisa coordenada pela pesquisadora Cristiane Krug, da Embrapa, com participação de outros pesquisadores da Embrapa e do Inpa. O estudo identificou que compostos bioativos presentes no néctar do guaraná, como a cafeína, permanecem no mel produzido por abelhas jandaíra que visitam flores de guaranazeiro.
Assim surgiu o chamado ‘mel de guaraná’, considerado um produto exclusivo dessa interação entre a espécie de abelha e a vegetação presente em Maués, no Amazonas. A pesquisadora destaca que esse tipo de característica pode inclusive ser reconhecido oficialmente por meio do selo de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O clima amazônico influencia?
Na Amazônia, o clima quente e úmido interfere tanto na produção quanto no armazenamento do produto.
“Quando o retiramos e colocamos em embalagens artificiais como potes, o clima quente e úmido, além da luminosidade, podem interferir na conservação do mel fora da colmeia”, explica.
Por isso, armazenar corretamente o produto é fundamental para preservar suas características e evitar alterações indesejadas.
Espécies de abelhas que mais se destacam
De acordo com Zilse, entre as espécies amazônicas mais conhecidas pela produção de mel estão a jandaíra (Melipona seminigra) e a jupará (Melipona interrupta), muito criadas no Amazonas.
No Pará, destacam-se a uruçu-amarela (Melipona flavolineata) e a tiúba (Melipona fasciculata). Além disso, segundo a pesquisadora, geralmente as espécies com maior tamanho corporal apresentam maior potencial produtivo.
Espécie Melipona seminigra, rainha rodeada de operárias. Foto: Arquivo pessoal/Gislene Zilse
Curiosidades
A importância das abelhas vai muito além da produção de mel. De acordo com Gislene Zilse, estudos indicam que as abelhas sem ferrão podem ser responsáveis por até 90% da polinização das espécies vegetais amazônicas.
“Então, as abelhas concebem a continuidade desse ambiente que nos sustenta e favorece a vida em nível global”, conclui a pesquisadora.
Por isso, o desmatamento e as queimadas afetam diretamente a produção do mel na Amazônia, uma vez que comprometem a sobrevivência das plantas que são a fonte essencial da matéria-prima para a produção de mel pelas abelhas.
A pesquisadora destacou mais algumas curiosidades sobre os méis:
Os méis das abelhas amazônicas variam quanto a cor, desde transparentes até completamente escuros, negros.
Os aromas são variados, desde florais adocicados a cítricos intensos.
Os sabores também podem ser surpreendentes, indo muito além do doce intenso que a sociedade costuma conhecer.
Há méis de baixa de doçura e leveza ao paladar, como o mel da abelha jupará; levemente ácido, encorpado e frutado, como o da jandaíra; até altamente ácido, de sabor acético, lembrando vinagre balsâmico e queijo verde mofado (tipo gorgonzola) como é o caso do da abelha Tetragona goettei.
Que ele tem um sabor marcante e é uma das frutas mais emblemáticas da Amazônia você já deve saber, mas você sabia que o cupuaçu é uma superfruta amazônica?
De acordo com o artigo ‘Cupuaçuzeiro: Nutrição, Calagem e Adubação‘, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o nome cupuaçu tem origem na língua Tupi (kupu = que parece com o cacau + uasu = grande), mas, dependendo da região, o fruto pode ser conhecido por outros nomes, como cupu, pupu, pupuaçu, copoasú e até mesmo cacau branco.
Segundo o estudo, o cupuaçu é uma superfruta amazônica por ser rico em antioxidantes, fibras, vitaminas e gorduras saudáveis.
O cupuaçuzeiro (Theobromagrandiflorum) é encontrado na Região Norte do Brasil, nos estados do Acre, Amazonas, Pará e Rondônia, além do Maranhão, que faz parte da Amazônia Legal. Segundo o estudo, sua distribuição geográfica original estava restrita às áreas de floresta nativa localizadas ao sul do Rio Amazonas e a oeste do Rio Tapajós, abrangendo principalmente o sul e sudeste do Pará e a região pré-amazônica do Maranhão.
Fruto promissor na Amazônia
O artigo destaca que o cupuaçuzeiro é uma das fruteiras nativas mais promissoras para exploração racional na Amazônia, uso de recursos naturais ou econômicos de forma planejada e eficiente. Atualmente, já existem diversas plantações comerciais da espécie, impulsionadas pelas amplas possibilidades de aproveitamento industrial dos frutos.
A polpa do fruto é utilizada na fabricação de uma grande variedade de produtos, entre eles sorvetes, licores, compotas, néctares, sucos, geleias e biscoitos. Além disso, as amêndoas são aproveitadas na produção de chocolate, nibs e de uma gordura fina semelhante à manteiga de cacau.
De acordo com o estudo, o cupuaçuzeiro apresenta características que favorecem o cultivo em sistemas sustentáveis, já que a espécie se desenvolve bem em condições de semissombreamento, onde a luz solar direta é filtrada ou reduzida, principalmente durante a fase juvenil, o que permite sua utilização em sistemas agroflorestais.
Além disso, o artigo destaca que a árvore encontra-se implantada em diferentes tipos de solo, com predominância em áreas de baixa fertilidade natural. Entretanto, ainda são necessários avanços nos estudos relacionados às exigências nutricionais da planta para aprimorar os sistemas de produção.
Variedades do fruto
De acordo com informações da Embrapa, o cupuaçu, conhecido pelo aroma intenso e sabor característico, possui frutos com casca marrom e resistente, que medem entre 15 e 25 centímetros. Além disso, a polpa é rica em proteínas, carboidratos, fibras e enzimas.
Foto: Izaque Pinheiro
O período de produção ocorre entre os meses de outubro e abril, com maior intensidade durante janeiro, fevereiro e março. Segundo a Embrapa, a espécie é considerada uma cultura permanente, havendo registros de plantas com mais de 80 anos que continuam produzindo frutos.
De acordo com o estudo, na Amazônia são encontradas três variedades principais do fruto:
Cupuaçu redondo: é o tipo mais comum, apresentando extremidades arredondadas, um peso médio de 1,5 quilo e uma casca com espessura entre seis e sete milímetros.
Cupuaçu-mamona: possui formato mais alongado, casca mais grossa e frutos que podem atingir até quatro quilos.
Cupuaçu-sem-semente: apresenta formato arredondado e constitui uma variedade diferenciada da espécie.
Características nutricionais do cupuaçu
De acordo com a nutricionista Tatiana Zanin, do site ‘Tua Saúde’, o cupuaçu é um fruto rico em teobromina, substância que age no sistema nervoso e aumenta a concentração e o estado de alerta, e também é rico em vitamina C e fibras, nutrientes que ajudam a combater a prisão de ventre, favorecer a perda de peso, além de prevenir a anemia e o envelhecimento precoce.
De acordo com a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, a cada 100g de fruta, o cupuaçu possui:
52 kcal,
1,11 g de proteína,
1,25 g de lípidos,
2,42 g de fibra alimentar,
8,90 mg de cálcio,
0,40 mg de ferro,
1,96 de sódio
e 24,5 mg de Vitamina C.
Primo do cacau?
Além da polpa, as sementes do fruto também são aproveitadas. De acordo com o artigo ‘Proteínas da semente de cupuaçu e alterações devidas à fermentação e à torração’, as sementes do cupuaçu apresentam semelhanças botânicas e químicas com as sementes do cacau, possibilitando a sua utilização na fabricação de produtos semelhantes ao chocolate, popularmente chamados de cupulates.
O processamento das sementes segue etapas parecidas com as utilizadas no beneficiamento do cacau, como a fermentação, a secagem e a torração. Segundo o estudo, a fermentação é considerada uma fase essencial, pois é responsável pela formação dos compostos do sabor.
Foto: Vinicius Braga/Embrapa
O artigo destaca que o processo acontece naturalmente por meio da atividade microbiana presente na polpa que envolve as sementes. Além disso, durante a fermentação, são produzidos álcool, ácidos orgânicos e calor, fatores que promovem transformações importantes para a qualidade final do produto.
Ela está presente nas feiras, quintais e mesas amazônicas, mas você conhece uma das frutas mais tradicionais da região Norte? A pupunha, consumida principalmente cozida com sal e acompanhada de um cafézinho, é conhecida por seu sabor marcante, textura amanteigada e alto valor energético. É considerada uma superfruta amazônica devido suas propriedades nutricionais e pelo potencial de uso na indústria alimentícia.
De acordo com o livro ‘Coleção Plantar- Pupunha‘, produzido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – Amazônia Ocidental, a fruta é produzida pela pupunheira (Bactris gasipaes), uma palmeira adaptada ao clima quente e úmido da Amazônia. A fruta possui coloração que varia entre amarelo, laranja e vermelho, resultado da elevada presença de carotenoides, compostos antioxidantes associados à prevenção de doenças crônicas e à proteção da visão.
Segundo o estudo, os frutos da pupunheira são considerados alimentos energéticos e apresentam pequenas quantidades de proteínas, óleos, ferro e vitaminas do complexo B e vitamina C. Além disso, possuem altos níveis de fibras, amido e gordura boa, fatores que fazem da pupunha uma importante fonte nutricional.
Uma fruta tradicional da Amazônia
Em muitas casas amazônicas, a pupunha é consumida no café da manhã ou no lanche da tarde, geralmente acompanhada de um café preto. De acordo com o estudo, após o cozimento, a polpa do fruto ganha uma textura macia e um sabor intenso, que lembra castanhas e raízes amazônicas.
Além do consumo alimentar, a pupunha também possui importância econômica, já que o fruto também pode ser usado na produção de farinha, óleo e rações, enquanto a própria pupunheira é amplamente cultivada para extração do palmito.
Segundo a pesquisa, frutos maiores e mais oleosos são preferidos para o consumo direto, enquanto frutos mais secos e ricos em amido são destinados à fabricação da farinha.
Uma fruta rica em carotenoides e vitaminas
De acordo com o artigo ‘Pupunha (Bactris gasipaes kunth): uma revisão’, o peso dos frutos pode variar bastante, podendo pesar de 20 até mais de 100 gramas, dependendo da composição da polpa, que pode ser mais seca, oleosa ou com muito amido.
O artigo também aponta que o fruto possui alto teor de carotenoides, especialmente β-caroteno, γ-caroteno e licopeno, pigmentos naturais responsáveis pelas cores alaranjadas e avermelhadas da polpa.
Esses compostos possuem ação antioxidante e anti-inflamatória, associados à prevenção de doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e problemas ligados ao envelhecimento ocular, como a degeneração da parte central da retina. Além dos carotenoides, o estudo também destaca que a pupunha contém vitaminas importantes para o funcionamento do organismo, como vitamina C, vitaminas B1 e B2, niacina, vitamina A e tocoferóis, conhecidos como vitamina E.
Além disso, a fruta possui alto teor energético, já que por ser rica em amido e gordura, fornece energia de forma significativa, o que a torna uma superfruta amazônica.
Da cozinha regional à indústria alimentícia
Foto: Reprodução/Embrapa
Embora o cozimento seja a forma mais popular de consumo da pupunha, a farinha da fruta vem sendo utilizada na produção de biscoitos, pães, panetones e misturas alimentícias. O estudo aponta que a farinha de pupunha pode substituir em até 10% a farinha de trigo em receitas de panificação sem alterar a qualidade final dos produtos.
Além disso, a torta produzida a partir do processamento da pupunha apresenta alto valor nutritivo e pode substituir o milho em rações balanceadas para alimentação animal. O óleo extraído da polpa também chama a atenção pela presença de ácidos graxos não saturados, considerados benéficos para a saúde cardiovascular.
Apesar do potencial econômico, o artigo destaca que o beneficiamento ainda enfrenta desafios, já que o alto teor de água da polpa torna o processo de secagem mais caro e trabalhoso. Além disso, o fruto cru contém substâncias que dificultam a digestão e provocam irritação na boca, tornando o cozimento indispensável antes do consumo.
Cultivo adaptado ao clima amazônico
De acordo com o livro ‘Coleção Plantar- Pupunha’, a pupunheira se desenvolve melhor em regiões de clima úmido, com temperaturas médias acima de 22°C e chuvas abundantes durante o ano inteiro. Além disso, a planta adapta-se bem às condições da Amazônia e pode crescer em diferentes tipos de solo, desde que sejam bem drenados e tenham fertilidade adequada.
Foto: Daniele Otto
Embora necessite de bastante água, a pupunheira não suporta terrenos encharcados. Segundo o estudo, em áreas de solo ácido e pobre em nutrientes, o cultivo ainda pode ser viável desde que sejam realizados processos de correção e adubação.
A produção da pupunha começa normalmente no terceiro ano após o plantio, começando a dar frutos a partir do sexto ano, em uma produtividade média, que pode alcançar cerca de 20 toneladas por hectare ao ano.
Pragas e desafios da produção
O estudo aponta que a pupunheira também enfrenta ameaças causadas por pragas e doenças. Entre os principais problemas está o ataque da chamada ‘abelha-de-cachorro’ ou arapuá, que destrói flores e botões florais durante a floração, o que compromete a produção.
Lagartas que enrolam os folíolos, subdivisões de uma folha, para se alimentar também estão entre os principais desafios do cultivo. Além disso, pássaros costumam atacar os frutos maduros, causando também perdas nas plantações.
Você conhece a “prima” do açaí? A bacabaé uma fruta nativa da floresta amazônica que possui alto valor nutricional. Consumida há gerações por povos indígenas e comunidades ribeirinhas, ela é considerada uma superfruta amazônica por suas propriedades antioxidantes, potencial alimentício e grande quantidade de óleo saudável, superior até mesmo ao encontrado no açaí.
De acordo com um estudo feito pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Ocidental, a bacaba pertence ao gênero Oenocarpus, grupo de palmeiras amplamente distribuídas na Amazônia brasileira e em outros países da América do Sul e Central.
Na Região Norte, a fruta recebe diferentes nomes populares, como bacaba-açu, bacabão, bacaba-vermelha, bacabi e bacabinha, dependendo da espécie e da região onde é encontrada.
Segundo a pesquisa, o nome científico Oenocarpus tem origem grega, ‘oeno’, que significa vinho e ‘carpus’, que significa fruto. Já a palavra ‘bacaba’ vem do tupi-guarani ‘ibacaba’, que significa ‘fruta oleosa’.
Onde ela é encontrada e no que ela é utilizada?
As espécies de bacaba possuem forte ocorrência nos estados amazônicos. A Oenocarpus bacaba, por exemplo, é encontrada no Amazonas, Acre, Amapá, Pará e Rondônia, enquanto a Oenocarpus mapora, conhecida como bacabi, é encontrada principalmente no Amazonas e no Acre.
Foto: Socorro Padilha
De acordo com o estudo, as palmeiras crescem em diferentes ambientes da floresta amazônica, desde áreas de terra firme até regiões de várzea e locais periodicamente alagados. Além disso, algumas espécies conseguem se desenvolver em solos pobres e argilosos, enquanto outras preferem terrenos ricos em matéria orgânica.
Além de possuir importância ecológica, a bacaba tem um grande valor para as comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, já que praticamente todas as partes da planta são aproveitadas.
Segundo o estudo, a bacaba é utilizada na produção de bebidas, sorvetes, picolés, geleias e licores, além do óleo extraído da polpa e da amêndoa que é empregado tanto na alimentação quanto na medicina popular. Além disso, as folhas servem para cobertura de casas, produção de fibras e artesanato, e os caules usados em construções e na fabricação de utensílios.
A pesquisa com a espécie Oenocarpus mapora mostrou que a polpa pode conter cerca de 58% de lipídeos, responsáveis por mais de 85% das calorias presentes no fruto. Além das gorduras boas, a fruta apresenta fibras, proteínas e minerais importantes para o organismo.
De acordo com o estudo, o óleo da bacaba possui composição semelhante ao azeite de oliva, com predominância do ácido oleico, conhecido pelos benefícios à saúde cardiovascular. Além disso, também estão presentes no fruto ácidos graxos palmítico, mirístico e láurico, que ampliam o potencial de uso da fruta na indústria alimentícia.
Outra característica marcante da Bacaba está na presença de compostos bioativos, como carotenoides, antocianinas e compostos fenólicos, substâncias que possuem ação antioxidante e ajudam a combater os radicais livres, moléculas associadas ao envelhecimento precoce e ao desenvolvimento de doenças.
Segundo o boletim, além do alto teor energético, a bacaba concentra nutrientes importantes para o funcionamento do corpo, como a vitamina E, reconhecida pela ação antioxidante, que auxilia na proteção das células, e vitaminas do complexo B, essenciais para a produção de energia e funcionamento do sistema nervoso.
A composição mineral do fruto inclui potássio, cálcio, magnésio e ferro, nutrientes que contribuem para o fortalecimento dos ossos, funcionamento muscular e prevenção da anemia. Além disso, segundo os estudos, as antocianinas, responsáveis pela coloração roxa intensa da fruta, ajudam no combate ao envelhecimento celular e possuem potencial anti-inflamatório.
Potencial medicinal estudado pela ciência
De acordo com o estudo realizado pela Embrapa, o óleo da fruta é empregado tradicionalmente em casos de bronquite, infecções pulmonares e até tuberculose.
Entre os indígenas Bora, do Peru, as sementes germinadas da bacaba são usadas no preparo de uma bebida consumida em casos de picadas de cobra.
Fonte: Valdely Ferreira Kinupp
Além do conhecimento tradicional, a pesquisa indica que a bacaba possui atividade antioxidante, ação antiproliferativa e possível efeito quimiopreventivo relacionado à carcinogênese, processo de formação do câncer.
Além disso, os compostos antioxidantes presentes na fruta podem ajudar a reduzir danos causados pelos radicais livres, associados a doenças cardiovasculares, câncer, catarata e enfermidades neurodegenerativas.
Você conhece o buriti, o fruto da “árvore da vida”? Conhecido como buriti, miriti ou muriti, o fruto da espécie é considerado uma verdadeira superfruta amazônica por reunir alto valor nutricional. Tido como uma das palmeiras mais importantes da floresta amazônica, o buritizeiro é chamado pelos povos indígenas de ‘árvore da vida’, sendo aproveitada pelas comunidades tradicionais desde os frutos até as folhas e fibras.
De acordo com informações reunidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o fruto se destaca principalmente pela grande quantidade de vitaminas, antioxidantes e óleo vegetal.
A palmeira cresce em áreas alagadas, margens de rios e terrenos brejosos, áreas com umidade excessiva e drenagem inadequada, formando extensos buritizais. Por conta disso é essencial que o solo seja ácido.
Uma palmeira gigante da Amazônia
Segundo o estudo, a espécie pode alcançar entre 20 e 35 metros de altura, e apesar de apresentar crescimento lento, possui grande longevidade, já que algumas árvores com mais de 10 metros podem viver entre 100 e 400 anos. Além disso, as folhas em formato de leque chegam a medir até cinco metros de comprimento e são tradicionalmente utilizadas na cobertura de casas e na produção de artesanato.
O buriti possui uma casca coberta por escamas castanho-avermelhadas que esconde uma polpa amarelo-alaranjada, de sabor agridoce e textura oleosa. De acordo com o estudo, cada planta feminina pode produzir de cinco a sete cachos, com até 500 frutos em cada um, podendo chegar até três toneladas por palmeira.
Rico em vitaminas e nutrientes
O buriti é considerado uma superfruta amazônica devido seu alto valor nutricional. De acordo com o livro ‘Buritizeiro (Mauritia flexuosa L .) e seu Potencial de Utilização’, da Embrapa, a fruta é rica em vitaminas A e C, além de conter cálcio, ferro, fibras, óleos e antioxidantes importantes para o organismo.
Foto: Divulgação
Segundo o estudo, a vitamina A presente no fruto ajuda na saúde da visão e no crescimento, enquanto a vitamina C fortalece o sistema imunológico e auxilia na formação das células sanguíneas. Além disso, a pesquisa aponta que pequenas quantidades da polpa já são suficientes para suprir necessidades diárias dessas vitaminas.
Óleo com potencial econômico
Outra característica marcante do fruto é o óleo extraído tanto da polpa quanto da semente. Rico em ácidos oleicos e láuricos, o óleo é utilizado na alimentação, na indústria cosmética e também em produtos farmacêuticos.
Tradicionalmente, nas comunidades amazônicas o óleo é utilizado para aliviar queimaduras e auxiliar na cicatrização, devido suas propriedades cicatrizantes e hidratantes. Além disso, a pesquisa da Embrapa mostra que o buriti apresenta potencial para a produção de biodiesel, superando culturas como soja, girassol e amendoim, com produtividade que pode chegar a 3,6 toneladas por hectare.
De acordo com o livro, as fibras das folhas também possuem grande importância econômica, sendo utilizadas na fabricação de cordas, redes, esteiras e peças artesanais. Além disso, os troncos servem para construções rústicas, pontes e canoas.
Colheita e aproveitamento
A colheita do buriti deve acontecer quando eles começam a cair naturalmente dos cachos e apresentam coloração mais escura, evitando a derrubada das árvores. A Embrapa alerta que a derrubada das árvores para retirada dos frutos não é recomendada, já que isso ameaça os buritizais e compromete a preservação da espécie.
Além do consumo ‘in natura’, o buriti é usado na produção de doces, sorvetes, vinhos, licores e sucos.
Foto: Fundaj/Reprodução
Combate à deficiência nutricional
Além do valor alimentar, o buriti também possui importância social, já que em regiões marcadas pela insegurança alimentar, o fruto aparece como uma alternativa nutritiva e acessível. De acordo com o livro, o doce de buriti já foi utilizado no Nordeste brasileiro como suplemento vitamínico para crianças com deficiência de vitamina A, e que em cerca de 20 dias, houve uma melhora significativa nos sintomas causados pela falta da vitamina.
Na Amazônia, onde muitas comunidades vivem em áreas isoladas, o fruto ajuda a complementar a alimentação e reforça a segurança nutricional das famílias.
Presente na mesa de muitos amazônidas, o açaí é um verdadeiro tesouro. O fruto é cheio de benefícios nutricionais, pois é rico em nutrientes, antioxidantes e compostos bioativos.
De acordo com dados sobre os aspectos nutricionais levantados por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o açaí é considerado uma superfruta justamente por ser um alimento altamente energético e nutritivo, rico em proteínas, fibras, lipídios, minerais como manganês, cobre, boro e cromo, além de vitamina E, um antioxidante natural que ajuda no combate aos radicais livres.
Benefícios antioxidantes do ‘ouro roxo’
A característica mais marcantes do açaí se dá devido a sua coloração roxo intensa, resultado da alta concentração de antocianinas, pigmentos naturais pertencentes ao grupo dos compostos fenólicos – substância essencial para a proteção, pigmentação e defesa vegetal.
De acordo com o estudo, essas substâncias possuem forte ação antioxidante, ajudando o organismo a combater os radicais livres, moléculas associadas ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de doenças.
Além disso, as antocianinas também favorecem a circulação sanguínea e podem contribuir para a proteção contra efeitos cancerígenos e aterogênicos, acúmulo de placas de gordura nas paredes das artérias.
O teor dessas substâncias varia de acordo com o estágio de maturação, desenvolvimento do fruto, em que a concentração máxima de antocianinas é atingida quando o açaí está completamente maduro. Ainda segundo o estudo, fatores ambientais como luminosidade, temperatura e fertilidade do solo influenciam diretamente na quantidade desses compostos, podendo até dobrar de um ano para outro dependendo das condições climáticas.
Rico em energia, mas não em ferro
De acordo com o estudo da Embrapa, o açaí possui mais de 40% de lipídios em base seca, além de ser rico em proteínas e fibras, nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo. Mas, apesar da fama popular, o açaí não é uma fonte significativa de ferro, uma vez que além da baixa quantidade presente no fruto, o mineral está em uma forma que dificulta sua absorção pelo organismo.
Da floresta para o mundo
O açaízeiro ocorre em áreas de solos úmidos ou nas margens de rios e lagos do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia e Maranhão. No entanto, segundo o estudo, é na região do estuário do Rio Amazonas, compreendida pelos estados do Amapá e Pará, que se encontram as maiores e mais densas populações do açaízeíro.
O fruto é muito consumido, principalmente pelas populações ribeirinhas e urbanas da Amazônia, especialmente no Pará e no Amazonas, acompanhado de farinha, peixe e outros alimentos típicos da culinária regional.
Segundo o ‘Informativo Técnico Rede de Sementes da Amazônia’, com a expansão do mercado, o fruto passou a ser utilizado em sorvetes, bebidas energéticas, suplementos alimentares, cosméticos e produtos funcionais. O estudo aponta que o interesse internacional pelo açaí está diretamente ligado ao seu potencial antioxidante e à presença dos compostos bioativos.
Cultivo e manejo adequado do açaí
A pesquisa destaca que o crescimento adequado do açaizeiro depende do equilíbrio entre nutrientes e da qualidade do solo. Segundo a Embrapa, a análise do solo é indispensável para o sucesso do cultivo, principalmente em áreas de terra firme, onde a fertilidade natural costuma ser menor.
A colheita dos cachos de açaí é feita após a fecundação das flores, ou seja, por volta de cinco a seis meses, ou 180 dias aproximadamente. De acordo com o estudo, quando o fruto está pronto para ser colhido, ele apresenta uma coloração roxo-escura ou verde-escura (açaí branco), de acordo com o tipo, recoberto por uma camada esbranquiçada.
Foto: Vanessa Monteiro/Ascom Ufra
Quantidades excessivas ou insuficientes de nutrientes no solo podem comprometer tanto a produção quanto o valor nutricional do fruto. Os estudos ainda estão em desenvolvimento, mas resultados iniciais mostram que nutrientes como potássio, magnésio, fósforo e nitrogênio exercem forte influência no crescimento das plantas jovens de açaízeiro.
Você conhece o ‘olho da floresta’ que nasceu entre os Sateré-Mawé? Símbolo da Amazônia e conhecido por seu valor energético, o guaranánão está só presente em refrigerantes e bebidas estimulantes.
Cultivado há séculos pelos povos indígenas, o guaraná se destaca devido suas propriedades medicinais, antioxidantes e nutricionais, que fazem dele umariqueza natural da floresta.
O fruto se destaca por sua aparência curiosa, uma vez que, quando amadurece, a casca ganha tons vermelho-alaranjados e se abre parcialmente, deixando a semente escura exposta, lembrando um olho humano. Essa característica marcante ajudou a construir lendas em torno da planta nas culturas amazônicas.
Fruto é fonte natural de cafeína. Foto: Fernando Goss
De acordo com o livro ‘Guaraná- como cultivar’, publicado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a colheita deve ocorrer justamente nesse estágio de maturação (amadurecimento e desenvolvimento), antes da abertura total dos frutos, evitando que as sementes caiam no solo.
Energia natural da Amazônia
Utilizado há séculos pelos indígenas, o fruto é considerado uma superfruta principalmente por suas propriedades estimulantes. O artigo ‘Divergência fitoquímica entre genótipos de guaraná em função de caracteres agroindustriais‘, aponta que o guaraná atua diretamente sobre o sistema nervoso central, sistema cardiovascular, músculos e rins, além de ajudar na redução da fadiga física e mental e contribuir para o funcionamento intestinal se consumido regularmente.
Ainda de acordo com o artigo, o fruto, considerado a maior fonte natural de cafeína conhecida, possui mais que o dobro presente no café, três vezes mais que o chá, cinco vezes mais que a cola, seis vezes mais que o mate e oito vezes mais que o cacau.
Conhecido como ‘olhos da floresta’. Foto: Siglia Souza
Essa alta concentração acontece por causa das chamadas metilxantinas, grupo de compostos que inclui cafeína, teofilina e teobromina, substâncias que são conhecidas pelo efeito estimulante e utilizadas na composição de medicamentos para diferentes finalidades terapêuticas.
Além das metilxantinas, o estudo também destaca que o guaraná é rico em polifenóis, moléculas antioxidantes, responsáveis pelo combate aos radicais livres, compostos associados ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de doenças.
Potencial antioxidante e benefícios à saúde
Além disso, a pesquisa também mostra que o guaraná apresenta altos índices de catequina e epicatequina, compostos antioxidantes também encontrados no chá e no cacau, mas que no guaraná são ainda maiores. Além disso, esses compostos bioativos são considerados biodisponíveis, ou seja, conseguem ser absorvidos e utilizados pelo organismo humano.
Entre os efeitos associados ao consumo do guaraná, o artigo também aponta o potencial anticancerígeno, como controle da proliferação de células tumorais e no processo de metástase, propriedades antimicrobianas, atividade anti-envelhecimento, prevenção de trombose e auxílio no controle de doenças cardiovasculares.
E mais: o consumo da fruta também pode contribuir para a redução dos níveis de colesterol total e do LDL, conhecido popularmente como ‘colesterol ruim’.
Produção e utilização do fruto
Maués, município conhecido como a ‘terra do guaraná’, se tornou referência nacional na produção do fruto. Lá a cultura do guaraná movimenta a economia local e fortalece a agricultura familiar na região amazônica.
Importânte na economia de Maúes. Foto: Lyon Santos/MDS
Atualmente, aponta o estudo, o fruto é utilizado na produção de bebidas, xaropes, cápsulas, cosméticos e suplementos alimentares. E o fruto pode ser comercializado também em bastão, após uma defumação longa que o prepara para a venda, em rama, mais utilizados pelos agricultores, e em pó, forma mais comum encontrada no mercado.
Ilustração do ‘Pequenos da Floresta’. Imagem: Erika Baranda/Acervo pessoal
Histórias contadas à beira do rio, brincadeiras nas ruas de terra e viagens de barco que relembram uma infância simples, deram origem ao projeto ‘Pequenos da Floresta’, uma iniciativa, desenvolvida pela empresária Erika Baranda em parceria com a filha, Maria Clara Baranda, de 6 anos, que busca preservar as memórias afetivas da Amazôniapor meio de narrativas ilustradas e escutas sensíveis.
Inspirado na infância em Parintins, o projeto resgata os costumes, os saberes populares e as experiências que ajudam a construir a identidade cultural da cidade.
A iniciativa surgiu como um gesto de resistência cultural diante das transformações tecnológicas que mudaram a forma de viver a infância amazônica. De acordo com Erika, a ideia nasceu da necessidade de registrar histórias que, muitas vezes, sobrevivem apenas na memória dos mais velhos.
“O projeto veio com o desejo de preservar as memórias afetivas da infância amazônica, especialmente de Parintins. São histórias simples, mas carregadas de identidade, cultura, brincadeiras, saberes populares e da relação profunda com a floresta e com o rio”, explicou ao Portal Amazônia.
As inspirações vieram das próprias experiências vividas em Parintins por Erika, como as brincadeiras coletivas nas ruas, as conversas com os mais velhos, as festas populares, a convivência comunitária e a relação intensa com a floresta e com o rio. Crescer em Parintins, segundo ela, significava viver cercada de imaginação.
Memórias que o tempo começou a apagar
De acordo com a empresária, o sentimento de urgência apareceu quando percebeu que boa parte dessas vivências estava começando a desaparecer silenciosamente.
“Quando percebi que muitas crianças já não vivem essas experiências da mesma forma e que muitas memórias estavam ficando apenas na lembrança dos mais velhos, senti a necessidade de transformar essas vivências em algo que pudesse atravessar gerações”, afirma.
Projeto retrata infância amazônica. Imagem: Erika Baranda/Acervo pessoal
Para Erika, existe um risco real de perda da memória afetiva de Parintins caso essas histórias não sejam valorizadas e registradas.
“O avanço da tecnologia e as mudanças sociais transformam os hábitos e a forma de viver na cidade. Por isso é tão importante valorizar e contar nossas histórias para que a essência cultural de Parintins continue viva”, destaca.
Por isso, o projeto também funciona como um espaço de preservação cultural. Entre os aspectos que ela acredita que precisam ser preservados estão os saberes populares, as tradições ribeirinhas, as brincadeiras infantis, a oralidade e o sentimento de pertencimento do povo parintinense com sua cultura.
Histórias que ganham vida através da ilustração
No projeto ‘Pequenos da Floresta’, as experiências reais são transformadas em narrativas ilustradas, unindo memória, afeto e arte e criando histórias acessíveis e emocionantes, capazes de despertar identificação em quem lê.
“É dar vida às memórias de forma sensível e acessível. A ilustração aproxima, emociona e ajuda as pessoas a se reconhecerem nas histórias”, explica.
Erika Baranda e sua filha Maria Clara. Foto: Erika Baranda/Acervo pessoal
O projeto ganhou ainda mais significado com a participação de Maria Clara, filha da criadora. A parceria aconteceu de maneira espontânea, durante conversas sobre as histórias e os processos criativos, e aos poucos, o olhar infantil passou a fazer parte da construção narrativa.
“As crianças enxergam detalhes que os adultos esquecem. O olhar dela trouxe mais leveza, curiosidade e sensibilidade para o projeto”, destacou Erika.
A experiência também fortaleceu os laços entre as duas, já que o processo de criação se tornou um espaço de troca, escuta e aprendizado.
Escutar para preservar
Uma parte importante do ‘Pequenos da Floresta’ são as chamadas “escutas sensíveis”, prática que busca ouvir os moradores, as famílias e as pessoas da comunidade de forma acolhedora e respeitosa.
A ideia permite que cada pessoa compartilhe suas memórias espontaneamente, valorizando relatos que normalmente não aparecem em registros oficiais. “Essas histórias têm muita força e verdade”, afirma.
Entre os relatos que mais a marcaram estão histórias ligadas à infância ribeirinha, à convivência comunitária e às relações construídas em torno do rio.
Imagem: Erika Baranda/Acervo pessoal
Próximos passos
A proposta agora é ampliar o projeto com novas histórias, ilustrações, exposições e ações educativas voltadas para crianças e escolas. “Queremos deixar o legado da valorização da infância amazônica, da memória afetiva e da identidade cultural de Parintins para as futuras gerações”, afirma Erika.
De acordo com ela, a infância amazônica possui uma conexão profunda com a natureza, com a imaginação alimentada pelas histórias da floresta, com o senso de comunidade e com a riqueza cultural que existe no modo simples e humano de viver na Amazônia.
Você conhece ocamu-camu? Considerada uma das frutas com maior concentração de vitamina C do mundo, o camu-camu é uma fruta pequena e ácida, encontrada nas áreas alagadas da Amazônia, e que chama a atenção por seu potencial antioxidante e pelos benefícios relacionados à saúde. Pensando em seu potencial, como uma “superfruta”, o Portal Amazônia criou nova série de reportagens, incluindo outras frutas da região amazônica.
De acordo com o livro ‘Receitas de camu-camu: pitadas de vitamina C e antioxidantes’, publicado na Embrapa, o fruto, também conhecido como caçari em Roraima, pertence à biodiversidade amazônica e possui compostos que ajudam na preservação da saúde da população contra inúmeras doenças e contra o envelhecimento.
Plantas de Myrciaria dubia. Foto: Walnice Nascimento
A fruta é originária do camucamuzeiro (Myrciaria dubia), espécie nativa da Amazônia que cresce principalmente em margens de rios e lagos. Segundo o estudo da Embrapa, ‘A cultura do camu-camu’, a planta se desenvolve em locais de pleno sol e ainda está em processo inicial de domesticação e cultivo racional.
Além do Brasil, o fruto também é encontrado em países vizinhos da Amazônia. Atualmente, o Peru é considerado o maior produtor e exportador de camu-camu do mundo.
Fruta campeã em vitamina C
O Camu-camu é considerado uma superfruta por conta da grande quantidade de vitamina C presente em sua polpa. O estudo, ‘A cultura do camu-camu’, aponta que o fruto pode apresentar concentração aproximadamente 13 vezes maior que a encontrada no caju, 20 vezes superior à acerola e até 100 vezes maior que no limão, ou seja, pode conter cerca de 5 gramas de vitamina C a cada 100 gramas da polpa.
O livro de receitas mostrou que os frutos provenientes da região leste de Roraima apresentaram concentrações de ácido ascórbico entre 3.571 mg e 6.112 mg por 100 g de polpa, números considerados extremamente elevados quando comparados a outras frutas populares no consumo diário.
Mesmo com toda essa concentração, o estudo alerta que o organismo humano não consegue absorver grandes quantidades de vitamina C de uma única vez, e parte dela acaba sendo eliminada naturalmente pelo corpo. Por isso, o consumo distribuído ao longo do dia, seja da fruta ou de produtos derivados, pode ser uma alternativa mais eficiente para aproveitar os nutrientes.
Antioxidantes e nutrientes
Além da vitamina C, o camu-camu possui flavonoides, compostos fenólicos e antocianinas, substâncias associadas à ação antioxidante. De acordo com a Embrapa, esses compostos auxiliam no combate aos radicais livres, moléculas relacionadas ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de algumas doenças.
Além disso, comparado à laranja, o camu-camu também apresenta cerca de 10 vezes mais ferro e 50% mais fósforo. No entanto, a maior concentração de vitamina C e compostos fenólicos está presente no ‘epicarpo’, ou seja, a casca da fruta.
Apesar da grande concentração de vitamina C, a fruta possui baixo valor energético e pequenas quantidades de proteínas e lipídios.
O camu-camu na culinária
Apesar do sabor bastante ácido, o camu-camu é utilizado em diferentes preparações alimentícias. De acordo com o livro de receitas da Embrapa, a polpa pode ser consumida na forma de refrescos, sorvetes, vinhos, licores, geleias, doces e coquetéis, sendo utilizado como fixador de sabor em sobremesas e tortas.
Muitos nomes na Amazônia
Embora o nome camu-camu seja o mais popular no Brasil e no Peru, a fruta também recebe outras denominações regionais, como camocamo, caçari, araçá-d’água, araçá-de-igapó e crista de galo. Além disso, na Amazônia Venezuelana, os nomes mais utilizados são guayabo e guayabito.
Desafios do cultivo
De acordo com o estudo da Embrapa, mesmo sendo uma espécie resistente em populações naturais, o cultivo racional do camucamuzeiro ainda enfrenta desafios relacionados ao ataque de pragas. O estudo aponta que mais de 69 tipos de insetos já foram associados à planta, principalmente das ordens Homoptera, Lepidoptera e Coleoptera.
Apesar disso, apenas uma pequena parcela dessas pragas é considerada economicamente prejudicial ao cultivo.