Home Blog

Portal Amazônia responde: existem faróis na Amazônia?

0

Farol de Soure, um dos faróis da Amazônia. Foto: Divulgação/Arquivo CHN-4

Você provavelmente já viu em filmes aquela grande torre iluminada, isolada em uma ilha, em um penhasco ou no meio do mar, que durante a noite, emite um feixe de luz que corta a escuridão e serve como referência para os navegantes que estão a quilômetros da costa. Mas será que existem estruturas assim na Amazônia? E será que elas funcionam da mesma maneira que esses famosos faróis retratados nos filmes?

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A resposta é: sim, existem faróis na Amazônia, mas não em toda a região. A classificação depende da área de jurisdição da Marinha do Brasil e das características de navegação de cada trecho.  

Na Amazônia Ocidental, área de jurisdição do Centro de Hidrografia e Navegação do Noroeste (CHN-9), que abrange o Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima, por exemplo, não existem estruturas classificadas tecnicamente como faróis, os equipamentos existentes são do tipo faroletes.

Já na Amazônia Oriental, área de jurisdição do Centro de Hidrografia e Navegação do Norte (CHN-4), que abrange o Amapá, o Pará e o Maranhão, existem diversas estruturas, incluindo 15 faróis e 33 faroletes. 

A diferença entre os dois equipamentos não está apenas no tamanho. Ela envolve, principalmente, o alcance luminoso e a função desempenhada na navegação.

Farolete Manacapuru, no Amazonas. Foto: Divulgação/Arquivo CHN-9

Segundo a NORMAN-601/DHN – Normas da Autoridade Marítima para Auxílios à Navegação, da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), os faróis são auxílios à navegação de estrutura fixa, instalados em posições geográficas conhecidas e com equipamentos luminosos com características predeterminadas e alcance luminoso superior a 10 milhas náuticas, (uma milha náutica corresponde a 1.852 metros). Já o farolete possui alcance luminoso igual ou inferior a 10 milhas náuticas

Na prática, portanto, aqueles equipamentos que os roteiros de Hollywood chamam simplesmente de “faróis” podem, tecnicamente, ser um farolete. 

Nos rios amazônicos, esses equipamentos cumprem uma missão silenciosa: ajudar embarcações de diferentes tamanhos a encontrar o caminho seguro em regiões onde existem bancos de areia, pedras e outros obstáculos que podem representar riscos para a navegação.

Farol ou farolete: afinal, qual é a diferença?

Para entender a presença desses equipamentos na Amazônia, é preciso primeiro compreender o que a Marinha chama de auxílios à navegação.

A NORMAM-601/DHN estabelece conceitos e padrões para diferentes tipos de sinais utilizados para orientar os navegantes. Entre eles estão faróis, faroletes, balizas, boias luminosas, boias cegas, placas e outros equipamentos.

Como informado, a diferença mais básica entre os faróis e faroletes está no alcance luminoso. Isso significa que não é simplesmente a aparência da estrutura que determina sua classificação, já que uma torre muito alta, por exemplo, não necessariamente será um farol.

O que importa, entre outros critérios técnicos, é a função do sinal e suas características estabelecidas no projeto de sinalização.

Leia também: Amazônia costeira: Atlântico avança sobre a costa e muda a vida na foz do Amazonas

De acordo com o diretor do CHN-9, Fábio Luis Moreira Jacobucci Bambace, os faroletes são utilizados como auxílios de menor alcance, especialmente em áreas como entradas de canais, portos e estreitos.

O comandante explicou ao Portal Amazônia que a luz não é aleatória, visto que cada auxílio luminoso possui uma característica luminosa própria, formada por elementos como cor, ritmo e sequência de lampejos. Assim, o navegante pode consultar as publicações náuticas e identificar qual sinal está observando. É como se cada equipamento tivesse uma espécie de “assinatura”.

Um navegante que encontra uma determinada luz durante a noite não deve simplesmente olhar para ela e concluir que está em determinado ponto. A identificação precisa ser feita a partir das características apresentadas pelo equipamento e da consulta às informações náuticas correspondentes. 

A Marinha mantém, para isso, a Lista de Faróis, publicação editada pela DHN e atualizada pelo Centro de Hidrografia da Marinha (CHM). O documento reúne informações sobre faróis, faroletes, balizas, boias luminosas e outros sinais que interessam à navegação. 

Por que os faróis foram criados?

O comandante Bambace explica que os grandes faróis surgiram principalmente com a função que pode ser resumida pelo conceito de ‘farol de aterragem’. A ideia é simples: uma embarcação que está em alto-mar precisa identificar a distância e a proximidade de determinada região terrestre.

No mar aberto, o navegante tradicionalmente procurava manter distância da costa, justamente para evitar perigos como pedras, bancos de areia e outros acidentes geográficos. Quando avistava a luz de um farol, aquela referência indicava que estava se aproximando de determinado ponto do litoral.

Um exemplo histórico citado pelo comandante é o Farol de Alexandria, considerado o primeiro grande farol de que se tem registro. Construído na Antiguidade, ele orientava embarcações que se aproximavam da região de Alexandria, no Egito.

farol de Alexandria, um dos primeiros grandes faróis que se tem registro.
Gravura que retrata o Farol de Alexandria (Egito). Imagem: Johann Bernhard Fischer von Erlach/domínio público

A lógica permaneceu ao longo dos séculos. Antes das tecnologias atuais de posicionamento, essa referência tinha ainda mais importância, pois os navegantes dependiam de métodos como a observação do Sol, da Lua e das estrelas para estimar a posição da embarcação. 

Hoje, o GPS e outros sistemas eletrônicos permitem determinar a posição com muito mais precisão. Isso, no entanto, não significa que os faróis tenham deixado de ser importantes.

Então os faróis ainda são necessários mesmo na era do GPS? 

Como destaca o comandante Bambace, se um sistema eletrônico apresentar uma falha, os sinais físicos continuam funcionando como referências independentes. Além disso, nem todos os navegantes utilizam os mesmos recursos tecnológicos.

A tecnologia mudou a navegação, mas não eliminou a necessidade de sinalização. Grandes embarcações atualmente contam com sistemas eletrônicos e satélites para determinar sua posição, e mesmo assim, os faróis e faroletes permanecem como parte de uma estrutura de segurança que funciona de maneira complementar. 

É semelhante a ter mais de uma forma de confirmar uma informação. O comandante Bambace destaca que, assim, mesmo com o GPS, um navegante pode utilizar os faróis e faroletes para confirmar que chegou ao ponto indicado pelos sistemas eletrônicos.

Essa redundância é especialmente importante quando se considera a dimensão das vias navegáveis da Amazônia. Em uma região em que os rios funcionam como estradas, os auxílios à navegação ajudam a organizar o deslocamento de embarcações e a reduzir riscos.

E não são apenas os grandes navios que importam. Pescadores, pequenas embarcações, comunidades ribeirinhas, transportadores e outros usuários dos rios também dependem de referências para se orientar.

As cartas náuticas produzidas e mantidas pela Marinha reúnem informações sobre profundidades, perigos à navegação, bancos de areia, pedras submersas, obstáculos, fundeadouros e os próprios auxílios à navegação. 

Por isso, uma luz no meio da escuridão amazônica pode representar muito mais do que um ponto luminoso. Ela pode indicar que o navegante está próximo de uma entrada, de um canal, de um perigo ou de uma área que exige determinada manobra.

Quais são os faroletes da Amazônia Ocidental? 

De acordo com o comandante Bambace, na área de jurisdição do Centro de Hidrografia e Navegação do Noroeste (CHN-9), existem atualmente cinco faroletes: 

  • Farolete Porto Equador, localizado no rio Amazonas, na comunidade da Ponta Grossa, nas proximidades do município de Urucurituba, no Amazonas.
  • Farolete Moronas, localizado no rio Amazonas, próximo à região do Encontro das Águas, em Manaus.
  • Farolete Jacaré, localizado no rio Amazonas, próximo à região do Encontro das Águas, em Manaus (paralelo ao Moronas).
  • Farolete Manacapuru, instalado no rio Solimões, no município de Manacapuru.
  • Farolete Barro Alto, localizado no rio Solimões, na comunidade do Barro Alto, entre os municípios de Coari e Tefé.

Ou seja, quem está navegando pelos rios da Amazônia Ocidental pode, sim, encontrar estruturas luminosas destinadas a orientar a navegação. Porém, tecnicamente, elas são classificadas como faroletes, e não como faróis.

O que um farolete está dizendo para quem navega?

Imagine uma embarcação navegando durante a noite por um trecho escuro do rio. A margem pode ser pouco visível, a profundidade pode variar, um banco de areia pode mudar de posição e pedras e outros obstáculos podem representar riscos.

De repente, o navegante avista uma luz. O que ela significa? A resposta depende do equipamento.

O comandante Bambace esclarece que as cores, os ritmos e as características luminosas dos sinais transmitem mensagens padronizadas. Eles podem delimitar os limites laterais de um canal, indicar bifurcações, apontar perigos isolados ou mostrar trechos de águas seguras.

Leia também: Portal Amazônia responde: como a maré oceânica atinge os rios da Amazônia?

Também podem orientar o navegante sobre manobras. Em determinadas situações, o sinal pode indicar que a embarcação deve permanecer próxima de uma margem, cruzar para o outro lado ou navegar pelo centro do rio.

É por isso que é importante que o navegante consulte as informações oficiais. Não basta decorar a aparência de uma luz, é preciso combinar as informações entre a carta náutica, a Lista de Faróis, a característica luminosa e a posição geográfica que permite identificar o auxílio observado.

Faróis da Amazônia Oriental 

Se na Amazônia Ocidental a resposta é “não há faróis, apenas faroletes”, a situação é diferente na Amazônia Oriental.

Na área de jurisdição do Comando do 4º Distrito Naval, o Centro de Hidrografia e Navegação do Norte (CHN-4) conduz, juntamente com outras Organizações Militares Responsáveis por Auxílios à Navegação, a manutenção e a operacionalidade da sinalização náutica.

De acordo com as informações fornecidas pelo CHN-4 ao Portal Amazônia, existem 15 faróis e 33 faroletes sob responsabilidade da Marinha do Brasil na Amazônia Oriental.

Além dos sinais operados diretamente pela Marinha, o CHN-4 também atua na fiscalização técnica de equipamentos mantidos por entidades privadas e órgãos externos à Marinha, como concessionárias portuárias, mineradoras e operadores hidroviários.

A fiscalização busca garantir que os faróis e faroletes sigam padrões de posicionamento, alcance e confiabilidade estabelecidos pelas normas da Autoridade Marítima.

Entre os 15 faróis estão equipamentos instalados em diferentes pontos do Pará, incluindo ilhas, municípios do litoral e áreas próximas a rios e baías.

A lista de faróis inclui:

  1. Farol Ilha Camaleão, ao norte da Ilha do Marajó;
  2. Farol Machadinho, na Ilha Machadinho;
  3. Farol Simão Grande, no Cabo Maguari;
  4. Farol Ponta da Tijoca, em Curuçá;
  5. Farol Taipu, na Ponta do Taipu, em São Caetano de Odivelas;
  6. Farol Ponta Maria Tereza, em Vigia;
  7. Farol Soure, na foz do rio Paracauari, na Ilha de Marajó;
  8. Farol Joanes, na Ponta da Guarita, na Vila de Joanes, em Salvaterra;
  9. Farol Chapéu Virado, na Ilha de Mosqueiro, em Belém;
  10. Farol Mandií, na Baía do Marapatá;
  11. Farol Curuçá, localizado no município de Curuçá-PA;
  12. Farol Algodoal, localizado no município de Algodoal-PA;
  13. Farol Salinópolis, localizado no município de Salinópolis-PA;
  14. Farol Caeté, em Bragança, localizado no município de Bragança-PA;
  15. e Farol Apeú, na vila Fernandes Belo, em Viseu.
Farol Ponta Maria Tereza. Foto: Divulgação/Arquivo CHN-4

A lista de faroletes mais que dobra em comparação a de faróis. São eles:

  1. Coroa das Gaivotas,
  2. Arrozal,
  3. Ilha das Araras,
  4. Salvaterra,
  5. Pedra da Manteiga,
  6. Buiuçu,
  7. Colares,
  8. Itaguarí,
  9. Floresta,
  10. Coroa Grande,
  11. Capim,
  12. Ponta Peregrino,
  13. Tatuoca,
  14. Atuá,
  15. Gutupatuba,
  16. Forte da Barra,
  17. Tucumanduba,
  18. Monte Alegre,
  19. Bujaru,
  20. Yacumana,
  21. Curuá,
  22. Arari,
  23. Ponta do Frechal,
  24. São Tomé nº 2,
  25. Cotijuba,
  26. Jararaquinha,
  27. Sucuruá nº 2,
  28. Carnapijó,
  29. Mucuras,
  30. Ilha do Patacho,
  31. Pedra do Machadinho,
  32. Camaleão
  33. e Cachoeri.

Esses equipamentos estão distribuídos por áreas como os rios Pará, Amazonas e Tapajós, além de baías, ilhas, estreitos e regiões costeiras.

Por que a quantidade de faróis e faroletes muda de um lugar para outro?

A Amazônia não é uma única via navegável. Cada rio apresenta características próprias, como a  profundidade, o nível da água entre os períodos de cheia e seca e a correnteza que também interfere na navegação. Além disso, há diferenças no tamanho e no tipo das embarcações que utilizam cada trecho.

Segundo dados do CHN-4, a escolha do tipo, da quantidade e da localização dos sinais considera fatores como as condições hidrográficas e sazonais da via, profundidade mínima, variação da maré, características do tráfego, calado e dimensões das embarcações, folga abaixo da quilha (base que sustenta todo o casco), alcance luminoso e visibilidade.

Também são consideradas análises de risco, viabilidade das estruturas e contribuições técnicas de profissionais da navegação, como a praticagem e os próprios navegantes locais. Isso explica porquê uma região com maior fluxo de embarcações ou com obstáculos específicos pode precisar de uma quantidade maior de sinais.

Dinâmica dos sinalizadores durante a cheia e a vazante

Quem vive na Amazônia conhece bem a transformação provocada pelo ciclo dos rios. Em determinados períodos, áreas ficam alagadas. Em outros, surgem praias, bancos de areia e obstáculos que estavam submersos. Esses são períodos são conhecidos como cheias e vazantes respectivamente.

Para a navegação, essa dinâmica representa um desafio permanente. De acordo com o CHN-4, a cheia e a vazante interferem tanto no dimensionamento quanto na manutenção dos equipamentos.

No caso de estruturas fixas, a altura do foco luminoso precisa considerar os diferentes níveis do rio. O comandante Bambace explica que o regime de cheia e vazante interfere principalmente no acesso aos sinais, e que por esse motivo, as atividades de manutenção são planejadas de acordo com as condições do rio, buscando garantir a segurança das equipes e das embarcações empregadas, bem como assegurar o funcionamento adequado dos sinais náuticos.

A própria equipe responsável pelos faroletes do CHN-9 aponta o regime hídrico dos rios e as dificuldades de acesso como alguns dos principais desafios.

A eles se somam chuvas, temperaturas elevadas, alta umidade, insetos e animais peçonhentos, que também fazem parte da realidade enfrentada pelas equipes de manutenção.

Faróis e faroletes possuem estruturas diferentes das vistas nos filmes

As imagens clássicas dos faróis, principalmente em filmes, costuma envolver uma torre grande, geralmente de alvenaria, instalada em uma ilha ou em uma área costeira isolada.

Na Amazônia, a realidade é diferente.

Adaptadas à realidade local, segundo informações do CHN-4, predominam estruturas funcionais de acordo com o ambiente, como torres e tubos metálicos de aço galvanizado, instalados em áreas de mata, margens de rios e pontas de praia.

De acordo com o CHN-9, na Amazônia Ocidental, os faroletes utilizam lanternas compactas com células fotovoltaicas incorporadas, e o equipamento é dimensionado de acordo com o alcance necessário e com as características da navegação naquele trecho.

Isso significa que não há necessidade de reproduzir aquelas grandes estruturas cinematográficas e que até existem em outras regiões no mundo. O objetivo não é criar uma construção monumental, e sim fazer com que o sinal seja visível, confiável e adequado à realidade daquele trecho navegável.

Outra imagem bastante popular em filmes é a do ‘faroleiro’: uma pessoa que vive isolada dentro de um desses faróis e passa os dias cuidando do equipamento. 

A NORMAM-601 prevê a classificação de faróis guarnecidos, que são aqueles que possuem pessoal permanentemente nas instalações para garantir seu funcionamento contínuo. Mas essa não é a realidade dos faroletes da Amazônia Ocidental.

De acordo com o comandante Bambace, os equipamentos não são permanentemente guarnecidos por militares, e a manutenção é realizada por equipes que realizam inspeções e serviços técnicos.

Existe, entretanto, um detalhe que aproxima esses equipamentos das comunidades que vivem às margens dos rios. O Farolete Porto Equador, próximo a Urucurituba, conta há anos com a colaboração voluntária de um morador da comunidade da Ponta Grossa, identificado pela Marinha como ‘senhor Antônio’.

Farolete Porto Equador. Foto: Divulgação/Arquivo Marinha do Brasil

O comandante explica que, na medida do possível, ele mantém o local livre de vegetação que possa prejudicar a visibilidade do sinal até a chegada das equipes responsáveis pela manutenção completa.

“Atitudes como essa demonstram o reconhecimento, por parte das comunidades, da importância dos auxílios à navegação para todos aqueles que utilizam os rios amazônicos e contribuem para a preservação de um patrimônio essencial à segurança da navegação”, destaca o diretor do CHN-9.

O naufrágio que deu o nome a um farolete na Amazônia  

Entre os equipamentos da Amazônia Ocidental, um dos que carregam uma história curiosa é o Farolete Moronas, localizado próximo à região do Encontro das Águas, em Manaus.

O nome está relacionado ao vapor peruano Morona. Segundo o comandante, em 1862, a embarcação peruana subiu o rio Amazonas sem autorização brasileira, seguindo em direção a Iquitos.

O episódio levou o então Capitão-Tenente José da Costa Azevedo, que posteriormente seria conhecido como Barão de Ladário, a partir no vapor Inca com a missão de interceptar o Morona. Durante o episódio, o Morona bateu e encalhou nas pedras de Puraquequara.

O local do acidente ficou associado à história da região e, posteriormente, ao nome do farolete que hoje auxilia a sinalização das pedras existentes naquela área.

Farolete Moronas. Foto: Divulgação/Arquivo CHN-9

Leia também: Conheça os tipos de embarcações mais usados na Amazônia

O auxílio à navegação mais antigo da Amazônia Ocidental

Se o Farolete Moronas chama atenção pela história de seu nome, outro equipamento se destaca pelo tempo de funcionamento. 

O Farolete Jacaré, na região do Encontro das Águas, foi inaugurado em 1924. Segundo a Marinha, é o auxílio à navegação mais antigo em funcionamento na área Ocidental: são mais de cem anos de história ligados à navegação amazônica.

Faróis mais imponentes do Pará

Na Amazônia Oriental, um dos faróis de mais destaque é o Farol de Salinópolis, no Pará.

Localizado no Salgado Paraense, o equipamento possui uma estrutura metálica de grande porte e integra uma cadeia de sinalização responsável por orientar a navegação ao longo da Costa Norte brasileira.

Saiba mais: Portal Amazônia responde: qual é a região do Salgado Paraense?

Farolete de Salinópolis. Foto: Divulgação/Arquivo CHN-4

Segundo o CHN-4, o farol possui 39 metros de altura e é sustentado por oito colunas de aço fixadas em blocos de concreto armado. A estrutura chama atenção pela arquitetura e pela importância histórica para a comunidade local.

O Farol de Salinópolis é tombado em nível estadual pelo Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Pará (DPHAC) desde 1994 e possui processo de tombamento federal aberto no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2018.

Outro exemplo é o Farol de Soure, localizado na Ilha do Marajó, no município de Soure, próximo à foz do rio Paracauari. A estrutura é um dos marcos mais conhecidos da paisagem local.

Farol de Soure. Foto: Divulgação/Arquivo CHN-4

Com sua pintura em vermelho e branco, o farol cumpre uma função ligada à segurança da navegação na região da Baía de Marajó e, ao mesmo tempo, tornou-se um ponto de observação e contemplação para moradores e visitantes.

Faróis dentro da Floresta Amazônica

Essa talvez seja uma das diferenças mais interessantes entre os faróis dos filmes e a realidade amazônica. 

Na Amazônia Oriental, existem estruturas instaladas em áreas cercadas por floresta, rios, ilhas e trechos de difícil acesso. O CHN-4 destaca, entre os exemplos, os faroletes Jararaquinha e Ilha das Araras e o Farol Ponta Maria Tereza.

São equipamentos que mostram que a sinalização náutica precisa se adaptar ao ambiente onde será utilizada.

No litoral, a estrutura pode estar em um costão rochoso, já em um rio amazônico, pode estar no meio de uma paisagem dominada por floresta e água. A função, porém, permanece a mesma: fornecer uma referência confiável para o navegante.

Por que os faróis e faroletes são tão importantes na Amazônia?

Na Amazônia, a importância da sinalização náutica vai além do transporte de passageiros.

Os rios funcionam como grandes corredores de circulação. Por eles passam embarcações que transportam pessoas, alimentos, combustíveis, mercadorias e outros produtos essenciais para municípios e comunidades.

Em muitos lugares, o rio é a via principal e, em determinados períodos, praticamente a única ligação entre comunidades. Um acidente de navegação pode, portanto, provocar consequências que ultrapassam a própria embarcação.

Pode interromper o transporte, comprometer o abastecimento e colocar vidas em risco. É por isso que os auxílios à navegação fazem parte de uma estrutura maior de segurança.

Leia também: “Titanics da Amazônia”: relembre os 10 maiores naufrágios da região

Na Amazônia Ocidental, o CHN-9 ressalta que os faroletes auxiliam desde pequenos navegantes e comunidades ribeirinhas até grandes embarcações responsáveis pelo transporte de pessoas, cargas, gêneros e combustíveis.

Mesmo em uma época em que satélites e sistemas eletrônicos conseguem indicar a posição de uma embarcação com enorme precisão, os sinais físicos continuam sendo uma camada adicional de segurança. Na Amazônia, onde rios extensos atravessam uma das maiores áreas florestais do planeta, essa função ganha uma dimensão ainda maior.

Na escuridão da noite, quando o horizonte desaparece e a floresta se transforma em uma massa escura às margens do rio, uma pequena luz pode ser suficiente para transmitir uma mensagem. Pode dizer: “aqui está um canal”, ou “aqui há um perigo”, ou “aqui começa uma mudança de rumo”, ou “aqui está a entrada”, ou simplesmente “você está no lugar certo”.

É por isso que, apesar de toda a tecnologia, os faróis, faroletes e demais auxílios à navegação continuam fazendo parte da paisagem amazônica, alguns visíveis a quilômetros de distância, outros discretos em meio à floresta, mas todos cumprindo uma função essencial para quem transforma os rios em caminho.

Terceira República do Acre: a revolução que redesenhou as fronteiras do Brasil

0

Município de Sena Madureira, no Acre, no início do século 20, durante a Terceira República do Acre. Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

O Acre, no final do século XIX, se tornou o centro de uma das mais intensas disputas territoriais da história brasileira. A região, inserida no contexto da expansão da economia da borracha, pertencia oficialmente à Bolívia e passou a ser ocupada de forma crescente por brasileiros atraídos pelos seringais, o que deu origem a conflitos armados, proclamações de independência e, por fim, a um acordo diplomático que redefiniu as fronteiras do Brasil. 

 📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Foi nesse cenário que surgiu a chamada Terceira República do Acre, proclamada em 1902, durante a Revolução Acreana.

A economia da borracha durante a ocupação brasileira 

Durante 1880 e início do século XX, a borracha ganhou muito destaque e importância no mercado internacional, impulsionada pela industrialização e pela demanda da Europa e dos Estados Unidos. Por conta disso, a região Amazônica, rica em seringueiras, passou a atrair milhares de trabalhadores e empresários brasileiros, principalmente nordestinos e amazonenses. 

“A presença de brasileiros na região já era antiga, mas é a partir de 1880 que ela se consolida de forma intensa, com o objetivo claro de explorar os seringais. O problema é que, juridicamente, o Acre pertencia à Bolívia”, explica o mestre em história pela Universidade Federal do Amazonas, Hosenildo Alves, ao Portal Amazônia. 

A busca pelo controle da borracha foi o motivo da Terceira República do Acre. Foto: Edunyra Assef/Dept° de Patrimônio Histórico e Cultural (FEM)

Leia também: Soldados da Borracha: mais de 60 mil são reconhecidos por trabalho na Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial 

Com o crescimento da ocupação brasileira, os atritos com as autoridades bolivianas aumentaram drasticamente, visto que muitos brasileiros começaram a invadir áreas de forma forçada, em busca do controle dos seringais. Essa disputa deixou de ser apenas econômica e passou a envolver violência armada, mortes e confrontos diretos.

As Repúblicas do Acre e a Revolução Acreana

Em meio a fragilidade do controle boliviano e do interesse das elites regionais brasileiras, surgiram então tentativas de tornar o Acre independente. Em 1899, o espanhol Luís Gálvez liderou a proclamação da Primeira República do Acre, com a criação de instituições e um governo provisório.

“Luís Galvez invade o Acre e proclama a primeira república do Acre. Com apoio do governo do Amazonas, ele criou uma série de instituições e organizações, que não teve apoio do governo brasileiro, tanto que depois o governo brasileiro vai depor o Luís Galvez”, explica Hosenildo. 

De acordo com Alves, em 1900, uma nova tentativa, chamada de Segunda República do Acre, foi organizada por um grupo de amazonenses conhecidos como “poetas e boêmios”. Essa experiência durou cerca de um mês, sendo rapidamente desarticulada, o que permitiu à Bolívia reassumir o controle do território.

A situação mudou em 1902, com a Revolução Acreana e a Terceira República do Acre, liderada pelo gaúcho José Plácido de Castro. Diferente das tentativas anteriores, o movimento teve um caráter militar mais organizado e contou com forte apoio dos seringalistas e brasileiros instalados na região.

Território do Acre durante a Terceira República do Acre. Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

Leia também: Revolução Acreana: historiador diz que guerra que tornou o Acre independente atrasou por falta de armas

“A Terceira República do Acre nasce nesse contexto de disputa entre brasileiros e a Bolívia. Não era uma ação direta do governo brasileiro, mas de brasileiros que queriam garantir o acesso à exploração da borracha”, afirma.

Em janeiro de 1903, após os confrontos armados, Plácido de Castro proclamou a Terceira República do Acre, consolidando o controle dos revolucionários sobre a maior parte do território.

“As coisas partiram para a violência, para armamento, para o enfrentamento e morte de brasileiros e bolivianos. O governo brasileiro, que já vinha conversando com a Bolívia há muito tempo, pela via diplomática, através do Barão do Rio Branco, consegue uma situação de acordo. Aí é assinado, em 1903, o Tratado de Petrópolis, que possibilitou que o Acre passasse para o Brasil”, explicou Hosenildo.

O Tratado de Petrópolis e a incorporação do Acre

No dia 17 de novembro de 1903, foi assinado o Tratado de Petrópolis, que oficializou a anexação do Acre ao Brasil. De acordo com o Tratado, o governo brasileiro comprometeu-se a pagar 2 milhões de libras esterlinas à Bolívia, além de ceder uma pequena faixa de território no atual estado do Mato Grosso. 

Além disso, o tratado também tinha como ponto central, o compromisso do Brasil em construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ligando o rio Madeira ao rio Mamoré, como forma de garantir à Bolívia acesso comercial à região amazônica.

Terceira República do Acre
Mapa do Acre com a anexação do território ao Brasil, após a Terceira República do Acre. Foto: Reprodução/Agência de Notícias do Acre

De acordo com Hosenildo, a decisão de transformar o Acre em território federal, e não anexá-lo ao Amazonas, gerou frustração entre as elites políticas amazonenses, já que o sonho do governo do Amazonas era incorporar o Acre e controlar diretamente a produção da borracha, que se tornaria uma das mais importantes do mundo.

“O governo amazonense fica de fora porque o sonho da elite do governo amazonense era ter acesso ao Acre justamente pela produção da borracha, tanto que o Acre se torna depois o maior produtor de borracha do mundo, só que o Acre não vira parte do Amazonas, o Acre vira um território federal, e passa a ser controlado diretamente pela presidência do Brasil”, ressalta o historiador. 

Leia também: Plácido de Castro, o homem por trás da Revolução Acreana

José Plácido de Castro, Comandante da Revolução Acreana e da Terceira República do Acre, em 1908. Foto: Reprodução/Livro “O Estado Independente do Acre

Quem foi Plácido de Castro ?

De acordo com o livro ‘O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro: Excertos Históricos’, de Genesco de Castro, José Plácido de Castro era um militar de formação e se tornou a principal liderança da Revolução Acreana e da Terceira República do Acre. Conhecido por sua habilidade estratégica, organizou tropas compostas, em grande parte, por seringueiros, que foram transformados em soldados do movimento.

Sua atuação foi decisiva para pressionar o governo brasileiro a resolver a questão pela via diplomática. Plácido de Castro entrou para a história como um dos principais símbolos da incorporação do Acre ao Brasil, e em 1906, foi nomeado governador do Acre, mantendo-se discreto e rejeitando honrarias no Rio de Janeiro.

Consequências sociais do movimento

Apesar de seu impacto territorial, a Revolução Acreana e a Terceira República do Acre ficaram marcadas como revolta dos controladores da borracha, interessados em garantir o monopólio dos seringais e definir os limites territoriais entre Brasil, Bolívia e Peru.

E como consequência da revolução acreana e da Terceira República do Acre, os seringueiros, base da força de combate, continuaram em situação precária após o conflito.

O episódio revela como interesses econômicos, especialmente ligados à borracha, moldaram as fronteiras, provocaram conflitos armados e influenciaram decisões diplomáticas de grande impacto.

Estudante do Amapá vence feira nacional com pesquisa sobre tráfico humano em Oiapoque

0

Estudante da EJA de Oiapoque vence feira nacional de ciência em Santa Catarina e garante vaga na Argentina. Foto: Dhonato Brito/Arquivo Pessoal

Matriculado na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no extremo norte do Amapá, o estudante Dhonato Brito, de 18 anos, da Escola Estadual Joaquim Nabuco, em Oiapoque, conquistou o prêmio principal da Feira Brasileira de Iniciação Científica (Febic), em Joinville (SC).

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Com a vitória na categoria ‘Proteção e Defesa da Criança e do Adolescente’, o jovem garantiu uma vaga para representar o Brasil em um evento internacional na Argentina.

Estudante do Amapá vence feira nacional com pesquisa sobre tráfico humano em Oiapoque
Foto: Dhonato Brito/Arquivo Pessoal

Leia também: Decisão dos EUA de transformar facções criminosas do Brasil em organizações terroristas: “equivocada”

Caso real inspirou estudante a buscar informações

O estudo premiado tem como título ‘Tráfico Humano no Extremo Norte da Amazônia Negra: o falso desenvolvimento que anda ao lado da destruição’. Para investigar o problema e propor medidas de prevenção na região de fronteira, Dhonato fez visitas de campo e entrevistou moradores da comunidade indígena do Manga.

O estudante conta que decidiu pesquisar o tema após tomar conhecimento de um caso real de tráfico humano em Oiapoque.

“Ser premiado em um evento nacional representa muita coisa porque somos alunos de baixa renda de escola pública. Então, sair de Oiapoque representando o Amapá é algo surreal”, comemora Dhonato.

Aluno da Eja de Oiapoque vence feira nacional de ciência em SC e garante vaga na Argentina. Foto: Dhonato Brito/Arquivo Pessoal

Esta foi a segunda vez consecutiva que ele participou da feira nacional.

“Foi um projeto muito elogiado por quem assistiu à apresentação. A Secretaria de Estado da Educação foi fundamental para esse processo conosco. Um aluno do extremo norte do Estado representar o Amapá em nível nacional é muito importante”, destaca Adryele Oliveira, orientadora da pesquisa.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica Amapá

Gente do Norte Empresas: saiba quem é Adélio Barofaldi

Foto: Reprodução/Amazon Sat

O empresário Adélio Barofaldi, CEO do Grupo Rovema, é um dos convidados do programa Gente do Norte – Empresas, exibido pelo Amazon Sat. A história de Adélio Barofaldi com Rondônia começou há quatro décadas, quando o empresário deixou o Rio Grande do Sul para construir uma trajetória profissional na Amazônia. 

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Ao longo de 40 anos, ele acompanhou diferentes ciclos econômicos de Rondônia e viu o estado passar por mudanças na infraestrutura, na produção e na forma de fazer negócios.

“Vim do Rio Grande do Sul pra cá, pra desbravar a Amazônia na época do garimpo. Então, foi uma época muito difícil na chegada aqui, em função das dificuldades que tinha o estado naquela época”, conta.

Do garimpo ao Grupo Rovema

A história do grupo começou em 1985, em Porto Velho, com a fundação da empresa Jato Eletro Diesel. Antes da expansão para diferentes setores, o negócio tinha uma estrutura pequena e estava diretamente relacionado às atividades do garimpo.

Segundo Adélio, quando chegou a Rondônia, familiares e sócios já atuavam na região havia cerca de dois anos. O objetivo era prestar serviços para as atividades de extração de ouro ao longo do Rio Madeira.

Naquele período, as condições de infraestrutura eram diferentes das atuais. O empresário lembra que trechos importantes ainda não eram asfaltados e que o deslocamento pela região era marcado por estradas de chão.

“Na época, eu lembro muito bem que do Trevo do Roque para Guajará Mirim não tinha asfalto, não tinha nada, então era chão. E aí o garimpo era ao longo do Rio Madeira. Então todo o nosso trabalho era voltado pra atender as vagas pro garimpo do Rio Madeira. E assim foi o sucesso”, relembra. 

Formado em contabilidade, Adélio percebeu que poderia ampliar a atuação da empresa para outros setores. Foi quando começaram os investimentos em concessionárias e no agronegócio.

 Adélio Barofaldi, CEO do grupo ROVEMA
Foto: Reprodução/Amazon Sat

Leia também: Gente do Norte Empresas: saiba quem é Maria Adelaide Feitosa

“O grupo começou com um pequeno laboratório de bomba de retorno, onde a família trabalhava fazendo a mão de obra. E aí, quando eu vim pra Rondônia, eu já era formado em contabilidade. Cheguei em Porto Velho e eu via que aquilo não era um trabalho que tava na minha formação, mexer com garimpo só. E aí começamos, compramos a Fiat, depois compramos a Scania, entramos no agronegócio, onde começou a surgir outras oportunidades aqui”, explica.

A diversificação também ajudou a empresa a enfrentar mudanças econômicas.

As transformações de Rondônia

Ao longo de quatro décadas, Adélio acompanhou diferentes momentos da economia de Rondônia. “Nesses 40 anos, a gente aproveitou o ciclo do ouro, o ciclo da madeira, foi o último ciclo das usinas e a gente sempre aproveitando. Agora, o último ciclo, que não é ciclo, é mais perene, é o agronegócio”, afirma Adélio. 

Para o empresário, a expansão do agronegócio representa uma mudança na economia do estado e abre espaço para novas atividades ligadas à industrialização da produção. Segundo ele, a produção agrícola e pecuária de Rondônia pode ser acompanhada pelo desenvolvimento de pequenas indústrias, agregando valor aos produtos produzidos no estado.

“Antigamente não tínhamos milho, hoje tem milho. Não tinha soja, hoje tem soja. Não tinha estrada, hoje tem. Não tinha energia elétrica, hoje nós temos o suficiente. Nós estamos num momento muito importante da Amazônia, principalmente de Rondônia”, destaca. 

Os desafios de empreender na Amazônia

Para Adélio, o empreendedor que atua na região precisa acompanhar as transformações não apenas do mercado local, mas também da economia internacional.

“O nosso maior concorrente hoje é o mundo. Antigamente era o vizinho. Agora estamos falando de concorrentes como os Estados Unidos, Argentina, a própria China, com a parte de embargos, a parte da isolação, taxas. Isso a gente tem que conviver”, afirma.

Foto: Reprodução/Amazon Sat

De acordo com o empresário, existe a necessidade de modernização e de atualização diante das mudanças tecnológicas e econômicas, e o desafio de se atualizar nas políticas globais. Adélio também vê mudanças na conectividade como um fator que pode aproximar comunidades amazônicas de serviços e oportunidades.

“Hoje, com a entrada da internet através da Starlink, teve uma inclusão muito grande. A população não tem nem ideia o quanto é importante essa comunicação do homem do campo, do ribeirinho, de quem vive na Amazônia, com o mundo”, afirma.

Uma empresa construída com os colaboradores

Além da expansão dos negócios, a trajetória do Grupo Rovema também é marcada pela permanência de funcionários que acompanharam diferentes fases da empresa.

Atualmente, segundo Adélio, o grupo reúne cerca de 900 colaboradores. Para o empresário, a relação construída com os trabalhadores ao longo dos anos é parte importante da história da organização.

“E a gente tem aqui uma tradição de preservação do funcionário. Nós retemos muitos funcionários. Tem um funcionário que trabalha com a gente há uns 40 anos. Muita gente se aposentou aqui dentro. Isso é muito bom, porque a gente vai formando uma família”, conta.

Arivonil Pereira da Silva, conhecido como Ari, está há 25 anos no Grupo Rovema, e para ele, a relação profissional construída ao longo dos anos ultrapassou os limites do ambiente de trabalho. “Eu considero o Adélio um irmão meu. Porque estou 25 anos junto com ele, nas horas boas, nas horas difíceis, então a gente está junto. Adélio, pra mim, não é só Adélio”, afirma.

Leia também: Gente do Norte Empresas: saiba quem é Raul Andrade

Arivonil Pereira. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Outro funcionário que acompanhou parte dessa trajetória é Fábio Barbosa, que trabalha no grupo há 21 anos. Ele conta que a estabilidade proporcionada pelo emprego também marcou a história de sua família.

“Eu lembro como se fosse hoje que eu estava querendo fazer a festa de aniversário de um ano da minha filha. Aí, em seguida, eu consegui um emprego, aí minha esposa falou: ‘Opa, então agora a gente vai fazer o aniversário da minha filha’. Então, isso é uma coisa que marca muito a minha entrada no Grupo Rovema”, conta.

Fábio Barbosa. Foto: Reprodução/Amazon Sat

A família de Adélio também foi uma parte importante na construção da empresa.  

“E é assim que nos formamos. Hoje a gente tem uma família bem imensa, trabalhando não no grupo, mas na cidade, nos Estados de Rondônia. E isso faz com que a gente vá se consolidando”, destaca.

Uma história ligada à Amazônia

De um estado ainda marcado pela falta de infraestrutura e pela força do garimpo, o empresário descreve uma região que, na visão dele, passou a ocupar um novo espaço na economia brasileira. Para Adélio, esse processo precisa considerar as pessoas que vivem na Amazônia e as características do território.

“A Amazônia são nove estados brasileiros que têm aí 30 milhões de habitantes. São pessoas que vieram para cá, tem pessoas que nasceram aqui, são pessoas originárias daqui que precisam ser respeitadas”, afirma.

Foto: Reprodução/Amazon Sat

Ele também defende que o desenvolvimento econômico da região esteja associado à preservação ambiental e à utilização de novas tecnologias. “A preservação do meio ambiente é um objetivo de estar participando da sociedade em todos os momentos”, destaca.

Ao olhar para o futuro de Rondônia, Adélio aposta na diversificação da economia e na industrialização ligada ao agronegócio. Depois de quatro décadas à frente dos negócios, o empresário mantém a ideia de que empreender na Amazônia significa acompanhar as mudanças e encontrar novas possibilidades em cada momento.

“Eu vejo a Rondônia, assim, como sempre uma terra de oportunidades”, resume.

Adélio Barofaldi é um dos convidados do programa Gente do Norte – Empresas, transmitido pelo canal Amazon Sat. Assista:

Dia Nacional da Árvore: conheça três espécies da Amazônia que são surpreendentes

0

Foto: Cássio Alencar Nunes/Lancaster University

O Dia da Árvore é comemorado no Brasil em 21 de setembro. A data tem como objetivo chamar a atenção e conscientizar para a importância das árvores para o equilíbrio ambiental, a manutenção da biodiversidade e a qualidade de vida da população.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

De acordo com o site Brasil Escola, a escolha da data está relacionada à proximidade com o início da primavera no Hemisfério Sul, que acontece no dia 23 de setembro. O dia deve ser visto como um dia de reflexão e mais do que o ato simbólico de plantar uma árvore. 

Na Amazônia, onde a floresta reúne uma das maiores diversidades de espécies do planeta, as árvores possuem características que vão muito além do tamanho ou da beleza. Para marcar a data, o Portal Amazônia reuniu três árvores amazônicas que se destacam por características curiosas e surpreendentes. Confira:

Paxiúba: a palmeira que caminha

Uma palmeira com raízes que parecem estar se movimentando pelo chão da floresta. Essa é uma das características que fazem da paxiúba, também conhecida como palmeira-andante, uma das espécies mais curiosas da Amazônia.

A planta pode ultrapassar os 20 metros de altura e chama atenção principalmente pelas chamadas raízes aéreas. Elas partem da base do tronco e se espalham pelo solo, criando uma aparência diferente das árvores mais tradicionais.

Paxiúba. Foto: Ty Sharrow/iNaturalist

Leia também: Bosque dos Papagaios abriga centenas de espécies de árvores da região amazônica

A espécie pode ser encontrada em diferentes regiões da América Central. No Brasil, sua ocorrência está registrada em áreas da Bacia Amazônica e em estados como Mato Grosso, Acre, Amapá, Maranhão e Pará.

A aparência das raízes fez surgir a ideia de que a árvore seria capaz de ‘andar’ em busca de melhores condições de luz ou de solo. A característica, porém, está relacionada principalmente à forma como a planta se desenvolve e utiliza suas raízes para sustentação.

Quer entender melhor por que a paxiúba é chamada de palmeira andante? Leia mais sobre a espécie aqui.

Sumaúma, a gigante da floresta

Na Amazônia, a sumaúma é facilmente reconhecida pelo porte e pelas grandes estruturas que se desenvolvem na base do tronco, conhecidas como sapopemas. Em condições favoráveis, a árvore pode atingir entre 60 e 70 metros de altura, enquanto alguns exemplares chegam a aproximadamente 90 metros.

Embora seja fortemente associada à Amazônia, a espécie também ocorre em outras regiões das Américas do Sul e Central, além de áreas da África Ocidental e do Sudeste Asiático.

Foto: Reprodução/Instagram-@roseeeloisee

Além disso, as grandes raízes da sumaúma possuem capacidade de absorver volumes significativos de água presente no solo. Por isso, a espécie é frequentemente associada ao armazenamento e à movimentação de água no ambiente.

Em determinadas condições de umidade, a árvore pode liberar o excesso de água acumulado, contribuindo para a irrigação da área ao redor. Quer entender melhor a relação da sumaúma com a água e conhecer outras características da espécie? Leia mais aqui.

Tanimbuca, a árvore com mais de seis séculos de história

Enquanto a paxiúba impressiona pelas raízes e a sumaúma pelo tamanho, a tanimbuca chama atenção principalmente pela idade.

A espécie, identificada pelo nome científico Buchenavia huberi Ducke, é considerada a árvore mais antiga do Bosque da Ciência, espaço do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus. A idade estimada ultrapassa os 600 anos, e por carregar tantos anos de história, a tanimbuca se tornou um dos símbolos do local. 

Em homenagem à espécie, o Inpa criou a chamada Ilha da Tanimbuca, uma área cercada por água e que reúne diferentes espécies de plantas. O espaço também abriga animais, incluindo peixes e tartarugas-da-Amazônia.

Foto: Mário Bentes/Inpa

Além disso, a árvore também exerce uma função ecológica dentro do ambiente onde está inserida. O tronco oco serve como abrigo para diferentes animais, entre eles aves e cotias. 

Quer saber mais sobre a tanimbuca e a história da árvore que vive há mais de 600 anos? Leia aqui.

No Dia da Árvore, conhecer essas espécies também é uma forma de compreender melhor a floresta e reforçar a importância da conservação da biodiversidade amazônica.

Serra da Cangalha: a cratera de meteoro que é uma das estruturas mais preservadas do Brasil

0

Foto: Carlos Machado/Arquivo pessoal

No meio do Tocantins, estado da Amazônia Legal, uma formação conhecida como Serra da Cangalha esconde uma história de 200 milhões de anos. O que parece ser uma serra comum é, na verdade, uma gigantesca estrutura formada pelo impacto de um meteoro contra a superfície da Terra.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Localizada no município de Campos Lindos, no norte do estado, a estrutura possui cerca de 13,5 quilômetros de diâmetro e é considerada um dos registros mais bem preservados desse tipo de impacto na região. Para pesquisadores, o local funciona como uma espécie de ‘arquivo’ geológico, capaz de revelar marcas de um acontecimento ocorrido entre 220 milhões e 250 milhões de anos atrás.

O professor e mestre em Geografia Carlos Augusto Machado, da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), explica que o próprio nome popular da formação pode causar uma interpretação equivocada.

“A Serra da Cangalha, na verdade, não é uma serra do ponto de vista geológico. Ela é uma formação criada por um meteoro. Porque uma serra é formada por ação das placas tectônicas das regiões que têm áreas de terremotos, como, por exemplo, a Cordilheira dos Andes. Então, não configura uma serra. Ela é, na verdade, um astroblema”, afirma.

Um astroblema é o termo utilizado para identificar marcas deixadas pelo impacto de meteoritos e asteroides. Popularmente, essas formações são conhecidas como crateras de impacto ou crateras de meteoros.

Leia também: Maior astroblema da América do Sul: saiba onde fica o Domo de Araguainha

Serra da Cangalha
Serra da Cangalha. Foto: Reprodução/Prefeitura de Campos Lindos

A estrutura está inserida em uma área de Cerrado e apresenta características que a diferenciam da paisagem em volta. Segundo Machado, durante o período de seca, por exemplo, a área interna da cratera tende a concentrar água, enquanto as regiões próximas ficam mais secas, interferindo diretamente na dinâmica da vegetação e na presença de animais.

Marca de um impacto gigantesco                     

A formação teria surgido quando um corpo celeste, estimado em aproximadamente 20 mil toneladas, atingiu a região. De acordo com Carlos Augusto, o calor e a pressão produzidos pela colisão modificaram as rochas existentes na região, e entre as evidências estão formações como quartzitos e outras estruturas que apresentam características associadas a eventos de impacto.

“São rochas formadas por restos de outras rochas que foram transformadas pelo calor e pelo impacto, pela pressão da queda do asteroide”, explica.

A dimensão da estrutura é difícil de ser percebida por quem está no chão. É nas imagens aéreas e de satélite que o desenho da cratera ganha força.

Serra da Cangalha. Foto: Reprodução

Não é mais considerada apenas uma hipótese

Segundo o professor, a origem da Serra da Cangalha como estrutura de impacto já está comprovada cientificamente. Estudos realizados na área identificaram elementos suficientes para caracterizar a formação como uma cratera de meteoro.

A pesquisa científica sobre a região inclui levantamentos relacionados à idade das estruturas, aos tipos de materiais presentes e às transformações provocadas pelo impacto. Machado explica que, também foram realizados estudos acadêmicos sobre a influência da formação na paisagem, nos solos e na vegetação.

Leia também: Serra do Aracá: expedição científica coleta dezenas de espécies possivelmente novas na Amazônia

De acordo com ele, pesquisadores de diferentes países já estiveram na região para estudar a formação, além de cientistas ligados à NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, a agência do governo dos Estados Unidos responsável por pesquisar o espaço) e pesquisadores franceses que já realizaram trabalhos no local.

A descoberta tem relevância científica principalmente porque a estrutura permanece relativamente bem preservada. Para Machado, o interesse está menos em comprovar novamente a origem da formação e mais em aprofundar o conhecimento sobre os efeitos que o impacto provocou na paisagem ao longo do tempo.

Estrutura pode ser observada por satélites e drones

A dimensão da Serra da Cangalha faz com que as imagens de satélite sejam uma das principais ferramentas para a análise da formação. A estrutura também pode ser estudada com drones e tecnologias de maior precisão, como o LiDAR, equipamento que utiliza pulsos de laser para produzir informações detalhadas sobre o relevo.

Serra da Cangalha. Foto: Reprodução/Prefeitura de Campos Lindos

Machado explica que esses recursos permitem analisar características que nem sempre são facilmente identificadas durante uma visita ao local, já que o formato geral da cratera, por exemplo, pode ser compreendido com maior precisão a partir de imagens aéreas.

“Hoje o acesso é facilitado, porque a estrada é pavimentada, passa mais ou menos 5 quilômetros dela. Só que é uma área que precisa de licença do NaturaTins para ser visitada. E também é porque a vegetação ali ainda é bem fechada. Se você não tiver um guia ou um representante do NaturaTins, é muito fácil se perder, sofrer um acidente devido à inclinação do relevo. E também ali a região tem animais selvagens, como onças”, explicou Machado. 

Uma paisagem diferente durante a seca

De acordo com o professor, na parte interna da estrutura, a maior disponibilidade de água contribui para condições diferentes das encontradas no entorno. Algumas espécies de palmeiras podem ser observadas nessas áreas, enquanto a vegetação continua sendo predominantemente formada por espécies características do Cerrado.

A concentração de água também influencia a fauna. Machado explica que durante a estação seca, quando o entorno apresenta condições mais secas, a área interna da cratera pode funcionar como ponto de concentração de animais.

Essa diferença ambiental faz da estrutura não apenas um objeto de interesse geológico, mas também uma área relevante para estudos de geodiversidade, fauna, flora e mudanças na paisagem.                              

Principais atividades no entorno

A Serra da Cangalha está localizada em uma região marcada pela expansão de atividades agrícolas, especialmente pelo cultivo de soja e milho. Para o pesquisador, os principais riscos ambientais relacionados à área estão associados ao desmatamento e às queimadas. A retirada da cobertura vegetal pode favorecer processos erosivos e provocar impactos sobre os ambientes naturais existentes na região.

Serra da Cangalha. Foto: Divulgação/Benilson Pereira de Sousa

Leia também: Bela Adormecida da Amazônia: a serra amazonense que parece pintura

A ausência de atividades de mineração na área também reduz um tipo de pressão direta sobre a estrutura. Ainda assim, a ocupação do entorno exige monitoramento para evitar alterações ambientais que possam comprometer a biodiversidade e os estudos científicos realizados no local.

“Na área não existe nenhum tipo de mineração, basicamente o mais ameaçado seria a fauna e a flora. A estrutura em si é bem rígida e não teria grandes alterações”, destacou Machado. 

Monitoramento e proteção ambiental

A área é acompanhada pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins). A visitação, segundo Machado, precisa ser realizada de maneira controlada e planejada.

A dificuldade de acesso e as características do ambiente são alguns dos fatores que limitam a presença de visitantes. Além da vegetação fechada e do relevo irregular, existem riscos relacionados à presença dos animais silvestres.

“É muito fácil a ocorrência de cobras na região. Inclusive a gente não leva alunos lá, porque é uma área de difícil acesso. Ela tem que ser preparada para visitação”, explicou o professor.

Geoturismo depende de planejamento

Assim, a Serra da Cangalha apresenta potencial para se tornar uma área de interesse turístico, principalmente pela sua importância geológica e pelo formato singular da estrutura. Entretanto, a exploração turística depende de estudos e medidas de segurança.

“A área tem proteção para o geoturismo desde que seja feito um diagnóstico ambiental, ou seja, estudo de impacto ambiental e desenvolvido um plano de manejo, com as diretrizes para ocupação local. Então, isso é um processo ainda longo, depois que a área foi transformada em área de proteção ambiental, um mapa, aí pode dar início à questão do geoturismo”, explicou o professor.

Entre as estruturas necessárias estariam caminhos adequados, passarelas, sinalização, pontos de orientação e preparação de guias para acompanhar os visitantes. O desenvolvimento do geoturismo também precisaria considerar a conservação da fauna e da flora, além das características do relevo.

Origem do nome está relacionada ao formato

Apesar de o nome ‘Serra da Cangalha’ não representar a classificação geológica da formação, ele permaneceu associado ao local.

Imagem de satélite da Serra da Cangalha. Foto: Google Earth

Segundo o pesquisador, o termo ‘cangalha’ faz referência a um equipamento utilizado tradicionalmente em jumentos e mulas para transportar cargas. “Provavelmente devido ao formato oval da cratera a população associou ao cesto de mercadorias”, destacou.

Não há, porém, uma informação precisa sobre quando o nome começou a ser utilizado ou quem foi responsável por adotá-lo.

O que ainda pode ser descoberto?

A origem da Serra da Cangalha já está estabelecida, mas isso não significa que as pesquisas tenham terminado. O foco atual, segundo Carlos Augusto Machado, está cada vez mais relacionado à geodiversidade e à maneira como a estrutura influencia o ambiente.

“A pesquisa da Serra da Cangalha não está indo no sentido de aprofundar a parte geológica de pesquisa das rochas, isso já foi feito, datação, o que mais está sendo realizado nesse momento é isso sobre geodiversidade”, destaca. 

Pesquisadores podem investigar, por exemplo, como o impacto contribuiu para modificar o relevo, os solos e a distribuição da vegetação, além de compreender melhor sua relação com a fauna.

A Serra da Cangalha é mais do que uma formação curiosa do relevo tocantinense. Ela reúne ciência, biodiversidade, história geológica e potencial turístico em uma mesma paisagem.

Um corpo de aproximadamente 20 mil toneladas atravessou a atmosfera e atingiu a Terra há mais de 200 milhões de anos. O impacto durou apenas alguns instantes, a marca, porém, permanece.

Portal Amazônia responde: por que o El Niño provoca seca na região Norte e chuvas na região Sul?

0

Foto: Reprodução/Mundo Educação

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e leste. Essa mudança na temperatura do oceano interfere na circulação da atmosfera e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do país.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Para os próximos meses, o cenário exige atenção. De acordo com o Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em 1º de setembro pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em conjunto com outros órgãos de monitoramento climático e ambiental, há maior probabilidade de chuva acima da média em parte da Região Sul, enquanto as regiões Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de volumes de chuva abaixo da média.

Mas por que o mesmo fenômeno pode estar associado à seca em uma parte do país e ao aumento das chuvas em outra?

O que acontece na atmosfera?

Segundo o meteorologista Leonardo Vergasta, o aquecimento do Pacífico altera a chamada “circulação de Walker”, um sistema de circulação atmosférica que conecta o Pacífico à América do Sul.

“O El Niño é o aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste. Esse aquecimento desloca para leste a região onde o ar ascende e se formam as chuvas, reorganizando a circulação de Walker, a circulação atmosférica que conecta o Pacífico à América do Sul”, explica.

De acordo com ele, essa reorganização faz com que o ar descendente da circulação atmosférica se posicione sobre a Amazônia e outras áreas do Norte do país.

Por que o El Niño provoca seca na região Norte e chuvas na região Sul?
Foto: Divulgação

Leia também: El Niño 2026: boletim conjunto aponta potenciais impactos e orientações sobre o fenômeno climático

O meteorologista explica que o movimento de descida do ar, chamado de subsidência, dificulta a formação de nuvens.  “O ar em subsidência (de cima para baixo) aquece e perde umidade relativa, inibindo a formação de nuvens. O resultado é menos chuva, mais radiação solar incidente chegando à superfície e temperaturas mais elevadas”. 

O solo mais seco também interfere no ciclo da água

Vergasta explica também que, com o solo seco a floresta reduz a evapotranspiração, perda de água da superfície da Terra para a atmosfera por meio da evaporação do solo e da transpiração das plantas, e devolve menos vapor d’água à atmosfera. Sem essa reciclagem de umidade, a precipitação reduz ainda mais. 

Esse processo pode criar um ciclo de retroalimentação: menos chuva deixa o solo mais seco, a vegetação libera menos umidade para a atmosfera e, consequentemente, há menos vapor disponível para a formação de novas chuvas.

Segundo o meteorologista, esse encadeamento esteve associado ao agravamento das secas de 2015 e 2023 na bacia amazônica.

E por que chove mais no Sul?

Enquanto a região Norte pode experimentar essa redução das chuvas, o Sul do Brasil tende a apresentar um comportamento diferente durante episódios de El Niño. De acordo com Vergasta, o fenômeno pode intensificar e deslocar o jato subtropical, uma corrente de ventos fortes localizada a cerca de 10 quilômetros de altitude.

“O jato favorece sistemas frontais (frentes frias) mais organizados e retarda seu deslocamento, prolongando a permanência das frentes frias sobre a região Sul”, explica.

Foto: Reprodução/TV Globo

A combinação desses fatores com o transporte de calor e umidade proveniente da Amazônia e as mudanças na intensidade e direção dos ventos com a altitude pode favorecer condições para tempestades severas, granizo e, eventualmente, tornados.

A maior frequência de frentes frias também pode contribuir para a ocorrência de avanços de ar polar e de períodos mais encobertos.

“Trata-se, portanto, de um único fenômeno: dois ramos opostos da mesma circulação”, resume o meteorologista.

O que o El Niño pode provocar no Brasil?

É por esses fatores que Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027 aponta que, para o trimestre de setembro, outubro e novembro, os efeitos não devem ser iguais em todo o território brasileiro.

Na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul, existe maior probabilidade de volumes de chuva acima da média histórica. Esse cenário exige atenção para a possibilidade de episódios de chuva intensa, cheias e inundações, principalmente no Rio Grande do Sul.

No sentido oposto, Norte e Nordeste apresentam maior probabilidade de chuva abaixo da média. Também há áreas do Brasil Central e do Sudeste, como partes de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, com maior probabilidade de chuvas abaixo da média.

As temperaturas, por sua vez, tendem a permanecer acima da média em grande parte do território nacional.

Isso não significa, porém, que o frio deixará de ocorrer. A passagem de massas de ar frio ainda pode provocar episódios pontuais de queda de temperatura, especialmente durante a transição entre o inverno e a primavera (no segundo semestre do ano).

Estiagem pode aumentar risco de incêndios

Nas regiões Norte e Central do Brasil, a combinação entre temperaturas elevadas e períodos prolongados de estiagem pode aumentar as condições favoráveis à propagação de incêndios.

Imagem colorida mostra homeme equipado para combate a incêndio e chamas ao fundo que provocam fumaças
Foto: Henrique Santian/ Arquivo Eliane Ignotti – Unemat

De acordo com o INMET, na Amazônia Legal e no Pantanal, o período entre setembro e novembro normalmente marca a transição entre a estação seca e a chuvosa, mas com a possibilidade de prolongamento das condições de estiagem, algumas áreas podem ter redução da disponibilidade de água e maior vulnerabilidade aos incêndios florestais.

El Niño forte significa eventos extremos mais severos?

Não necessariamente.

De acordo com o INMET, a intensidade do El Niño, por si só, não determina a intensidade dos impactos em todas as regiões do Brasil. Um episódio mais intenso pode aumentar a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura, mas os eventos específicos dependem da interação entre diferentes fatores atmosféricos e oceânicos.

Isso significa que nem toda chuva intensa, seca, tempestade ou outro evento extremo registrado durante um El Niño é necessariamente causado diretamente pelo fenômeno. Frentes frias, ciclones, sistemas convectivos, massas de ar e outros mecanismos atmosféricos também influenciam as condições observadas em cada região.

Acre se torna vitrine para transformar biodiversidade amazônica em negócios: “Mudança de cultura”

0

Inova Amazônia Summit reúne bioeconomia e negócios no Acre. Foto: Lucas Thadeu/Rede Amazônica AC

O potencial da biodiversidade do Acre foi um dos motivos que levaram o estado a sediar, pela primeira vez, o Inova Amazônia Summit, evento que reúne empreendedorismo, inovação e bioeconomia a partir desta quinta-feira (17), no Centro de Convenções da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Para o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a realização do encontro no estado é uma oportunidade de apresentar produtos e negócios amazônicos a compradores e investidores do Brasil e de outros países.

Segundo Rosa Nakamura, gestora de Inovação do Sebrae no Acre, o destaque alcançado pelo estado no programa Inova Amazônia foi determinante para a escolha de Rio Branco como sede desta edição.

“O Acre foi selecionado pelo destaque no programa Inova Amazonia, realmente demonstrando seu potencial da diversidade biológica que nós temos aqui, e isso foi o grande diferencial para o evento ser sediado aqui este ano. O melhor ainda é que estamos fazendo um evento internacional, então este ano realmente vai demonstrar a grandeza que é esse evento”, frisou.

O Summit ocorre até sábado (19), com entrada gratuita. A programação reúne palestras, painéis, exposições, apresentações culturais e atividades voltadas à geração de negócios. São 141 palestrantes confirmados, quase o dobro da edição realizada em 2025, em Macapá (AP).

Acre vira vitrine para transformar biodiversidade amazônica em negócios: 'Mudança de cultura'
Foto: Antonny Nascimento/Sebrae AP

Leia também: Inova Amazônia Summit 2026 discute novos caminhos para a economia sustentável

Entre os participantes anunciados estão a cantora Fafá de Belém, o escritor e ambientalista Kaká Werá, a jornalista e produtora rural Paula Varejão e o especialista em inovação e desenvolvimento econômico Wilson Poit. Já as atividades foram divididas em cinco trilhas:

  • Juventude Amazônica;
  • Sustentabilidade;
  • Bioeconomia e Negócios;
  • Territórios e Saberes; e
  • Inovação e Conexões.

Para Rosa, porém, a importância do evento vai além das palestras. A expectativa é que os três dias sirvam para aproximar quem produz na Amazônia de compradores e investidores interessados nesses produtos.

“É um grande movimento para que a gente possa demonstrar nossos produtos para o Brasil e para o mundo. O que já está ocorrendo, antecedendo o evento, é que já estamos com os compradores de fora, demonstrando nosso potencial da nossa indústria através da bioeconomia”, frisou.

Além dos negócios, o público que for ao Centro de Convenções da Ufac poderá acompanhar uma programação cultural e gastronômica. O Festival Inova Amazônia terá apresentações de artistas do Acre e de outros territórios amazônicos, além do Cozinha Show, com preparos que valorizam ingredientes e sabores amazônicos.

Inovação e economia local

Nesta edição, 90 pequenos negócios ligados à bioeconomia dos nove estados da Amazônia Legal participam do Summit. O evento também terá 20 representantes de Indicações Geográficas (IGs), além de rodadas de negócios nacionais e internacionais e rodadas de investimentos para startups e outros negócios inovadores.

Do Acre, serão 30 startups, segundo o Sebrae, além de representantes de duas Indicações Geográficas: o açaí de Feijó e a farinha de Cruzeiro do Sul.

Foto: Lucas Thadeu/Rede Amazônica AC

É justamente essa possibilidade de transformar produtos da região em negócios com maior alcance que está no centro da proposta do evento, segundo a gestora.

“Eles vão encontrar aqui tudo é possível se transformar. Através da inovação eles conseguem transformar aquele simples produto em um produto inovador para que possa, acelerado, se expandir até entrar no mercado, até internacional”, falou.

A programação inclui ainda espaços para exposição de produtos de segmentos como alimentos, cosméticos, tecnologia, agrofloresta, óleos, chocolates, biotecnologia e soluções ambientais. A proposta é apresentar iniciativas que utilizam recursos e conhecimentos da região para desenvolver produtos e serviços.

Expectativas

A expectativa do Sebrae também é de que as conexões feitas durante o evento possam resultar em negócios. Na edição de 2025, realizada em Macapá, o evento movimentou valores em vendas, rodadas de negócios e investimentos.

Foto: Antonny Nascimento/Sebrae AP

Segundo dados divulgados pelo Sebrae, foram mais de R$ 2,1 milhões em vendas durante o Summit, além de R$ 5 milhões nas rodadas de investimentos e R$ 825 mil nas rodadas de negócios. No Acre, Rosa espera que os resultados sejam ainda maiores.

“Estamos com uma grande expectativa de que nossos produtos vão ser destaque nesse evento. Nos eventos anteriores, foram gerados mais de R$ 800 mil, agora nesse acho que vamos superar os anos anteriores”, projetou.

Legado

A abertura oficial do Summit ocorre às 19h desta quinta-feira (17), no Teatro Povos da Floresta. Na ocasião, será lançado o edital do Inova Amazônia Global Edition, parceria do Sebrae com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) que busca conectar negócios amazônicos a mercados internacionais.

Para o Sebrae, no entanto, o principal resultado esperado não se resume aos negócios fechados durante os três dias de programação. Rosa acredita que o contato com empreendedores, investidores e novas formas de pensar possa provocar uma mudança na própria cultura empresarial do estado.

“O que vai ficar para o Acre é a mudança cultural, nós vamos ter um outro olhar. Nosso mindset vai conseguir perceber que nós precisamos mudar nossa forma de pensar, de como precisamos trabalhar a questão empresarial no estado do Acre”, finalizou.

*Por Renato Menezes, da Rede Amazônica Acre

Festival do Caju: festa resgata tradição e transforma fruto em renda para comunidade de Iranduba

0

Foto: Edley Oliveira/ Amazon Sat

Na comunidade São Sebastião, em Iranduba, no Amazonas, o caju ganha novos sabores, formas e possibilidades de renda. Conhecida pela produção do fruto, a comunidade se prepara para retomar uma tradição que ficou mais de dez anos sem acontecer, a antiga Festa do Caju, que agora volta repaginada e com o nome de Festival do Caju. 

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O evento será realizado no dia 19 de setembro e pretende reunir aproximadamente 4 mil pessoas, segundo a organização. A programação terá música regional, gastronomia, apresentações culturais, concurso da Rainha do Caju, comercialização de produtos e atividades voltadas à valorização dos produtores e empreendedores da própria comunidade.

De acordo com o Presidente da associação responsável pela comunidade, Emerson Vasconcelos, a proposta do Festival do Caju é transformar o fruto em oportunidade de geração de renda e fortalecer a identidade de São Sebastião, que começou a ser formada em 1989, quando a área, que antes funcionava como uma fazenda, foi adquirida pela prefeitura. A partir daí, moradores passaram a ocupar o território e desenvolver atividades agrícolas, entre elas o cultivo do cajueiro.

“Há dez anos, a gente produzia para exportação dez toneladas de caju. E ano que vem, como a gente está com o retorno do Festival do Caju, a gente quer ter, em média, 12 toneladas para exportação”, contou Emerson, conhecido como “Cabeludo do Fusca”.

Leia também: 13 festivais imperdíveis para conhecer a cultura amazônica

Emerson Cabeludo do fusca, presidente da associação de Iranduba que está organizando o Festival do caju
Emerson “Cabeludo do Fusca”. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

Da antiga festa ao novo festival

Segundo o vice-presidente da associação, Alessandro Arruda, a mudança de nome não aconteceu por acaso. A antiga Festa do Caju tinha como principal característica a reunião dos moradores em torno de um palco, e com o novo formato, a ideia é ampliar a programação e, principalmente, transformar o fruto em protagonista da gastronomia e do empreendedorismo local.

A programação do Festival do Caju também foi ampliada. De acordo com Alessandro, o evento, que antes tinha aproximadamente oito horas de apresentações, agora terá mais de 22 horas de shows distribuídos ao longo da programação.

Alessandro Arruda. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

A expectativa da organização é que o Festival do Caju cresça a cada edição. “Nós queremos fazer um grande festival e, no outro ano, ampliar ainda mais”, afirmou.

Caju vira doce, licor e prato principal

Um dos principais atrativos do festival do caju é a gastronomia, já que, ao todo, serão 20 barracas ocupadas por empreendedores da comunidade e também por participantes de fora. A prioridade, segundo a associação, é dada aos associados que estão em dia com suas obrigações.

A ideia é que boa parte das barracas ofereça produtos derivados do caju. Entre as opções estão doces, geleias, compotas, sucos, licores e pratos salgados que utilizam o fruto como ingrediente.

De acordo com Emerson, o visitante poderá encontrar desde receitas tradicionais até preparações criadas especialmente para o festival, como pudim de caju, torta de caju, farofa de caju com camarão, moqueca de camarão ao molho de caju e caldeirada de peixe com caldo de caju.

Uma das novidades é o licor de caju. Segundo Alessandro, mais de 300 garrafas serão produzidas para o Festival do Caju.

“Novidade que nunca teve na Festa do Caju são os licores de caju. Licor de caju tradicional, licor de caju com cravinho, erva-doce. A gente quer que o pessoal venha e faça parte, traga seus produtos, traga suas inovações e traga novidades. Outra novidade nossa vai ser o licor de caju dentro da bombona, com LED, o pessoal distribuindo no meio da festa”, explicou.

Licores produzidos para o Festival do caju. Foto: Edley Oliveira/Amazon Sat

Leia também: ‘Festival das famílias’ chega à 4ª edição em Manaus; confira a programação

A produção também representa uma tentativa de transformar os alimentos desenvolvidos pela comunidade em produtos comercializáveis durante todo o ano. A intenção dos moradores é criar uma marca própria para os derivados do caju e levar os produtos para o mercado.

“Hoje nós estamos fazendo novos pratos com os derivados do caju. Isso não existia. Ninguém tinha feito ainda a caldeirada ao molho de caju. Hoje já chegou”, disse o vice-presidente.

Entre as experiências que ainda estão em desenvolvimento está o chamado caju crocante. Para o futuro, a associação também pretende produzir barras de cereais utilizando castanhas de caju.

Cajueiros espalhados pelas propriedades

Apesar da tradição, a comunidade não possui uma única grande fazenda destinada exclusivamente ao cultivo do caju. A produção está espalhada por pequenas propriedades e sítios pertencentes aos próprios moradores.

Segundo Alessandro Arruda, há cerca de 30 anos, a região era considerada uma única comunidade e os cajueiros foram sendo cultivados pelos moradores em diferentes propriedades.

“Não existe só uma fazenda de caju. São várias propriedades que têm plantação de caju. O pessoal da comunidade vai em cada sítio, vai colhendo os cajus e vai trazendo aqui para a associação”, explicou.

Cajus levados pela comunidade para a associação em preparação para o Festival do Caju. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

A associação também está passando por uma reforma para ampliar a capacidade de produção. Entre as melhorias previstas está a criação de uma cozinha comunitária, que deverá ser utilizada por moradores que não possuem estrutura própria para preparar os derivados do fruto.

Entre as pessoas responsáveis por transformar o caju em produto está Dona Nazaré, que trabalha na fabricação dos doces. O processo, segundo ela, começa com o corte do fruto e depois, o açúcar é levado ao fogo até atingir o ponto necessário para receber a polpa do caju. A receita simples representa uma tradição que agora ganha espaço dentro do Festival do Caju.

Foto: Edley Oliveira/ Amazon Sat

A lenda do Cajueiro de Ouro

Além da produção e da gastronomia, o festival do caju também pretende apresentar ao público a história que envolve o caju na cultura local. Uma das narrativas que será apresentada durante o evento é a lenda do Cajueiro de Ouro, protagonizada por uma jovem indígena chamada Caíu.

Segundo Alessandro, em um período de fome, Caíu teria entrado na mata e passado uma noite inteira chorando, e das lágrimas da jovem teria nascido uma pequena planta, que posteriormente deu origem aos cajueiros.

“Através da lágrima dela começou a nascer uma planta, uma arvorezinha, que dessa arvorezinha surgiu os cajus. E com esse cajueiro ela tirou uns cajuzinhos e levou para a tribo. Lá eles descobriram a castanha do caju, começaram a processar e dali começaram a tirar os alimentos da castanha do caju, onde sobreviveu o povo”, explicou. 

A história será utilizada para aproximar o público da tradição e mostrar que o caju, para a comunidade, não representa apenas uma atividade agrícola, mas também parte da memória e da identidade dos moradores.

Melhorias para a comunidade

A realização do Festival do Caju também está relacionada a uma série de melhorias estruturais em São Sebastião. Segundo os organizadores, a mobilização em torno do festival ajudou a comunidade a buscar investimentos.

“A comunidade começou a se enxergar mais. Antes ela estava bem dispersa. Quando surgiu a conversa do festival, vieram mais benefícios para a comunidade, como obras, pavimentação e a iluminação do campo, que não tinha”, relatou Alessandro.

A própria associação está sendo reestruturada para atender à produção dos alimentos e receber os moradores durante as atividades. Para a organização, o objetivo é fazer com que o dinheiro movimentado pelo evento retorne para a comunidade e contribua para melhorias coletivas.

Música regional e valorização dos artistas

A programação musical do Festival do Caju também será marcada pela presença de artistas e bandas locais, com a proposta de valorizar a música regional.

Entre as atrações estão Leandro Costa, Ari Góes, Tome Xote e outras bandas de Iranduba. Uma das atrações é o cantor Bira Imperador, nome artístico de Edenes de Souza, que destacou a importância de participar de um evento realizado dentro do próprio município.

“Eu recebi com muita alegria o convite para fazer parte do show, ser uma das atrações do Festival do Caju aqui na comunidade de São Sebastião. Eu estou muito feliz pelo fato de ser dentro do meu município”, afirmou.

Bira Imperador, uma das atrações locais do Festival do Caju. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

Segundo o artista, a apresentação terá um repertório diversificado, com destaque para a música regional. “A gente valoriza muito a nossa música regional, que é o beiradão, e a mistura de ritmos. O público é acostumado com o forró, o forró de beiradão, a mistura de arrocha e sofrência”, disse.

Outro momento aguardado será a escolha da Rainha do Caju. Seis candidatas foram pré-selecionadas e vão se apresentar no dia 19 de setembro. O concurso integra a programação cultural do festival e pretende reforçar a identidade do evento, que tem o caju como símbolo da comunidade.

Uma tradição que busca um novo futuro

A retomada do Festival do Caju representa, para os moradores de São Sebastião, uma tentativa de transformar uma tradição antiga em uma nova oportunidade de desenvolvimento.

Do fruto saem doces, geleias, sucos, licores e receitas salgadas. Da castanha, surgem novas possibilidades de produtos. E da própria festa nasce a expectativa de fortalecer o comércio, o turismo, a cultura e o empreendedorismo.

“O objetivo do Festival do Caju é fazer com que os comunitários consigam se autossustentar”, resume Emerson. 

Conhecimentos tradicionais da Amazônia podem ser “motor” da agricultura regenerativa

Foto: Divulgação

Enquanto a agricultura regenerativa ganha espaço nas discussões sobre o futuro da produção de alimentos, cresce também o interesse por sistemas produtivos desenvolvidos há gerações por povos indígenas e comunidades tradicionais.

Na Amazônia, experiências que combinam espécies agrícolas e florestais oferecem referências para pensar modelos mais adaptados às características dos territórios — sem que isso signifique substituir conhecimento científico ou transformar práticas tradicionais em soluções universais.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A própria Embrapa registra que diferentes sistemas agroflorestais desenvolvidos por comunidades indígenas, caboclas e ribeirinhas na Amazônia serviram de base para que pesquisadores sistematizassem conhecimentos agronômicos, ecológicos e econômicos e desenvolvessem novos arranjos adaptados às necessidades das comunidades rurais.

Conhecimentos tradicionais da Amazônia podem ser motor da agricultura regenerativa
Foto: Rosana Panama

Leia também: Relatório sobre agricultura na Amazônia Legal aponta que região concentra dois terços de assentamentos ocupados por famílias

O conceito também encontra respaldo em iniciativas internacionais. A FAO define a agrofloresta como a integração deliberada de árvores, cultivos agrícolas e/ou animais e aponta benefícios como diversificação da produção e da renda, melhoria da saúde do solo e da gestão da água e maior resiliência às mudanças climáticas.

Para a Verthic, que atua há mais de uma década na Amazônia e já implantou mais de 110 Sistemas Agroflorestais (SAFs), o ponto central está em entender as características de cada território e construir projetos a partir da combinação entre conhecimento local, capacidade técnica e planejamento.

“O conhecimento das comunidades não deve ser tratado como uma receita pronta, mas como uma fonte importante de informação sobre o território. Temos o desafio de criar projetos que consigam integrar esse conhecimento à ciência e às necessidades econômicas e ambientais de cada região, sempre com participação efetiva das comunidades”, afirma Fernando Vincenti, fundador da Verthic.

Foto: Reprodução/ Instituto BioSistêmico

Recuperação da Amazônia

Essa abordagem já aparece em iniciativas recentes. Em 2024, a Embrapa iniciou, em parceria com o Fundo Vale e outras instituições, um projeto em território indígena no Maranhão para conhecer experiências locais de sistemas agropecuários e conservação florestal e identificar desafios de produção a partir também do conhecimento tradicional.

Em 2025, outra iniciativa envolvendo FAO, MCTI e Instituto Mamirauá passou a desenvolver, junto às comunidades locais, metodologias para a recuperação de cerca de 26 mil hectares de florestas alagáveis da Amazônia. O projeto prevê ainda capacitação das comunidades e desenvolvimento de iniciativas relacionadas à cadeia produtiva da restauração.

Para Vincenti, experiências como essas reforçam que o desenvolvimento sustentável na Amazônia precisa dispor da capacidade de conectar conhecimento territorial, ciência, políticas públicas, financiamento e execução em campo.

“Quando um projeto é construído com participação de quem vive no território, aumentam as possibilidades de que ele seja adequado à realidade local e tenha continuidade. O objetivo não é romantizar o conhecimento tradicional, mas reconhecê-lo como um dos elementos que podem contribuir para projetos tecnicamente consistentes e economicamente viáveis”, completa.

*Com informações da assessoria