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Roteiro dos Tricicleiros: um jeito diferente de conhecer a ilha tupinambarana e sua história

Tricicleiros em Parintins. Foto: Rafael Gonçalves/Acervo pessoal

Durante o período do Festival Folclórico de Parintins, milhares de visitantes desembarcam na ilha para acompanhar a disputa entre os bois Caprichoso e Garantido. No entanto, quem decide explorar a cidade para além das apresentações no Bumbódromo, pode encontrar uma experiência que reúne história, religiosidade, cultura popular e hospitalidade em um único passeio, através do Roteiro dos Tricicleiros.

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Realizado pelos profissionais da Associação dos Tricicleiros de Turismo de Parintins, o roteiro percorre alguns dos principais cartões-postais da cidade em aproximadamente uma hora e meia. Mais do que um meio de transporte, o triciclo tornou-se um símbolo da identidade parintinense e uma das formas mais tradicionais de apresentar a cidade aos visitantes.

O percurso passa por locais que ajudam a contar a formação histórica e cultural da ilha. Entre eles estão:

  • a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, um dos principais símbolos religiosos do município;
  • a Igreja do Sagrado Coração de Jesus;
  • o Bumbódromo, palco da disputa entre Caprichoso e Garantido;
  • o Curral Lindolfo Monteverde, sede do Boi Garantido;
  • e o Curral Zeca Xibelão, onde acontecem os ensaios e atividades do Boi Caprichoso.

Segundo o presidente da Associação dos Tricicleiros de Turismo de Parintins, Rafael Gonçalves, o objetivo do passeio é mostrar que a cidade oferece muito mais do que os três dias de espetáculo do Festival Folclórico.

“Esse roteiro turístico tem um percurso de aproximadamente uma hora e meia. Nele, a gente tem acesso aos principais pontos turísticos da cidade e conta a história de cada um deles para o cliente, para o turista, que vem prestigiar não só o festival, mas também a cidade em outras épocas”.

Leia também: Triciclos de Parintins: os populares veículos que encantam os turistas

Tricicleiros de Parintins
Tricicleiros de Parintins. Foto: Rafael Gonçalves/Acervo pessoal

Durante o trajeto, os tricicleiros compartilham curiosidades sobre a origem dos bois-bumbás, explicam a importância da fé para a população local e apresentam detalhes sobre o crescimento de Parintins.

Para quem trabalha diariamente conduzindo os triciclos, o Festival Folclórico representa também uma oportunidade de geração de renda. Há 14 anos na profissão, o tricicleiro Alzemiro Picanço afirma que o período é o mais aguardado do ano pela categoria.

Segundo ele, durante o festival é possível realizar cerca de 50 passeios por dia, alcançando uma renda média de aproximadamente R$ 500 diários: “O festival é a nossa diversão e também o meio de nós ganharmos o nosso dinheiro”.

Além do aspecto financeiro, Alzemiro destaca o contato direto com visitantes de diferentes regiões do Brasil e do mundo. Em cada passeio, os tricicleiros acabam desempenhando também o papel de guias turísticos, contando histórias, apresentando curiosidades e compartilhando informações sobre os locais visitados.

Roteiro dos Tricicleiros: um jeito diferente de conhecer a ilha tupinambarana e sua história
Tricicleiros de Parintins. Foto: Rafael Gonçalves/Acervo pessoal

Os roteiros normalmente partem da região central da cidade, nas proximidades da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, um dos pontos de maior circulação durante o festival. A atividade dos tricicleiros é regulamentada pela Associação dos Tricicleiros de Turismo de Parintins, entidade responsável por organizar, qualificar e representar a categoria.

Leia também: 3 coisas que você só encontra em Parintins, a “ilha da magia” 

Atualmente, mais de 350 profissionais fazem parte da associação, atendendo tanto moradores quanto turistas durante todo o ano, especialmente na temporada do Festival Folclórico e na chegada de cruzeiros turísticos.

De acordo com Rafael Gonçalves, o reconhecimento da categoria fortaleceu ainda mais o turismo local. Hoje, os triciclos são considerados patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Amazonas, tornando-se um dos elementos que diferenciam Parintins de outros destinos turísticos da região.

“Hoje o turista vem para Parintins e quer andar de triciclo, quer conhecer os pontos da cidade. Pensando nisso, contamos com parceiros, como empresas e o Governo do Estado, que nos ajudam na organização dos triciclos, na qualificação dos profissionais, na padronização dos veículos e na entrega de uniformes, para que possamos oferecer um atendimento de qualidade”, disse.

A regulamentação também trouxe mais segurança para quem visita a cidade. Os triciclos cadastrados seguem um padrão visual, possuem identificação, emplacamento e trabalham com preços tabelados, facilitando a contratação do serviço pelos turistas e garantindo mais transparência durante os passeios.

Triciclo em Parintins. Foto: Rafael Gonçalves/Acervo pessoal

Segundo Rafael, esse processo foi fundamental para profissionalizar a atividade e preservar uma tradição que existe há décadas em Parintins.

“Como hoje o triciclo é conhecido como patrimônio cultural do Estado, isso nos beneficia bastante. É algo que pertence à história de Parintins. O turista nacional e internacional quer se sentir seguro. Por isso, nossos triciclos são padronizados, identificados e nossos profissionais passam por qualificação antes do festival”.

Essa preparação começa ainda no mês de maio, quando a associação promove cursos e workshops. Durante a capacitação, os tricicleiros recebem orientações sobre atendimento ao cliente, relações humanas, hospitalidade e informações turísticas da cidade.

Além de movimentar a economia durante o Festival Folclórico, os tricicleiros ajudam a descentralizar o turismo, levando visitantes para além do Bumbódromo e incentivando a valorização de patrimônios religiosos, culturais e históricos que permanecem abertos à visitação durante todo o ano.

Vamos Brincar de Boi

O “Vamos Brincar de Boi” é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC) e do Governo do Amazonas.

A ação busca fortalecer a valorização da cultura popular amazônica, preservar a memória coletiva e ampliar o acesso às tradições do Festival Folclórico de Parintins por meio de conteúdos educativos, culturais e informativos exibidos em diferentes plataformas do Grupo Rede Amazônica.

Comidas de rua em Parintins: gastronomia amazonense para todos os gostos

Tacacá da Maya na rua. Foto: Edley Oliveira/Amazon Sat

Quem caminha pelas ruas de Parintins durante o Festival Folclórico encontra muito mais do que bandeiras nas cores azul e vermelha e o som dos bois Caprichoso e Garantido ecoando pela cidade. Entre uma esquina e outra, barracas, cozinhas improvisadas e pequenos empreendimentos familiares transformam a gastronomia de rua em um dos grandes atrativos para quem visita a ilha. 

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Tacacá, bodó no tucupi, flau de frutas amazônicas e outras receitas típicas fazem parte da experiência de quem deseja conhecer a cultura parintinense também pelo paladar.

Além de preservar os sabores tradicionais da Amazônia, a culinária de rua representa uma importante fonte de renda para as famílias que aproveitam o aumento no fluxo de turistas. É o caso de Dulce Reis, moradora do Beco Tomás Meirelles, que todos os anos comercializa o famoso flau, conhecido em outras regiões como sacolé, dindim ou geladinho.

“Nesse período do festival, nós moradores ganhamos uma renda extra. A população de Parintins praticamente dobra e a procura pelos produtos regionais e pela comida típica é muito grande. Como moradora daqui, eu também monto minha vendinha”, contou.

Leia também: 6 pratos icônicos para se apaixonar pela culinária do Amazonas

Comidas de rua em Parintins: gastronomia amazonense para todos os gostos. Flau da Dulce
Flau vendido na rua pela empreendedora Dulce Reis. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

O diferencial dos flaus vendidos por Dulce está justamente nos sabores amazônicos, uma vez que os visitantes encontram versões preparadas com ingredientes típicos da região.

“A gente trabalha com frutas regionais porque é isso que os visitantes procuram. Tem abacate, açaí, cupuaçu, maracujá, graviola e buriti. Eles querem experimentar os sabores da Amazônia. Alguns provam um, depois experimentam outro e acabam descobrindo novos sabores”, explicou Dulce.

A produção também muda completamente durante o Festival. De acordo com Reis, no restante do ano a venda acontece de forma mais tranquila, mas nos dias que antecedem as apresentações dos bois é preciso aumentar significativamente a quantidade produzida. “No dia a dia a gente vende também, porque todo parintinense gosta de um flau depois do almoço. Mas durante o Festival a procura aumenta muito e a produção precisa acompanhar esse movimento”.

Na produção, o preparo é simples e a receita leva apenas polpa da fruta, água e açúcar, que são batidos até formar o suco, e em seguida, o líquido é colocado em saquinhos plásticos próprios para flau e levado ao congelador até atingir a consistência ideal. Já nas versões gourmet, a receita ganha um ingrediente extra: o leite, que deixa o produto mais cremoso e amplia as possibilidades de sabores.

Bodó no Tucupi 

Outro prato que desperta a curiosidade dos turistas é o bodó no tucupi. O peixe amazônico, bastante consumido pelas famílias ribeirinhas, ganhou espaço entre os visitantes que buscam experimentar receitas tradicionais da culinária local.

A empreendedora Sarah Reis conta que a ideia surgiu naturalmente:

“No mês de junho a gente sempre funciona porque nossa casa fica bem próxima ao Bumbódromo. Percebemos que quem vem de fora quer conhecer a culinária amazônica. Quando incluímos o bodó no tucupi no cardápio, vimos que muita gente vinha só para experimentar essa iguaria”.

Bodó no tucupi, venda de rua. Foto: Sarah Reis/Acervo pessoal

O sucesso foi tanto que, neste ano, a família tomou uma decisão ousada: deixar de lado o cardápio variado e apostar apenas em um único prato. “A gente percebeu que o bodó no tucupi tinha uma procura muito grande. Então este ano resolvemos trabalhar somente com ele. É o nosso prato principal e único”. 

O preparo começa antes mesmo de o peixe chegar à cozinha. Sarah explica que o bodó é adquirido já assado por um fornecedor local e recebe os últimos cuidados na panela preparada pela mãe.

“O tucupi é preparado aqui em casa, junto com os temperos e o jambu. Depois juntamos o bodó assado ao tucupi e servimos acompanhado de arroz branco e farinha da baguda [feita com mandioca], que é tradição em Parintins. O peixe aqui só se come com farinha”, afirmou.

Assim, além de gerar renda para a família, o empreendimento movimenta outros pequenos produtores da cidade: “Quando compramos o bodó de outro fornecedor, estamos fazendo a economia girar. Todo mundo ganha. Percebemos que focar nesse prato trouxe um retorno financeiro maior e reduziu os custos com vários tipos de cardápio”. 

Tacacá

Entre os pontos gastronômicos mais conhecidos de Parintins está o Tacacá da Maya, localizado na subida do cais, na Avenida Gomes de Castro. O espaço se tornou parada obrigatória para moradores, turistas e até personalidades que visitam o Festival.

A história começou há mais de quatro décadas, quando a sogra de Maya Carvalho iniciou as vendas em uma esquina próxima. Com o passar dos anos, o negócio foi assumido pela família e hoje segue sendo preparado para a próxima geração: “Começou com a minha sogra. Depois nós assumimos e agora estamos passando esse legado para nossa filha. Já são 44 anos de história”.

Tacacá da Maya na rua. Foto: Edley Oliveira/ Amazon Sat

Para Maia, o principal ingrediente da receita vai muito além do tucupi, do jambu e da goma.

“O diferencial é receber bem as pessoas. Receber com alegria, com sorriso. Se você tem algum problema em casa, deixe lá. O cliente precisa ser recebido com carinho. É isso que faz a diferença”.

Natural de Nhamundá, ela vive em Parintins desde 1982 e considera o tacacá parte da identidade cultural da cidade, e de acordo com Maya, a melhor época para vender são as duas semanas antes do Festival Folclórico. 

Ao longo dos anos, o ponto já recebeu artistas, influenciadores e personalidades que visitam Parintins durante o Festival. Entre os clientes mais conhecidos está o comentarista Milton Cunha, presença frequente na cidade.

Vamos Brincar de Boi

O “Vamos Brincar de Boi” é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC) e do Governo do Amazonas.

A ação busca fortalecer a valorização da cultura popular amazônica, preservar a memória coletiva e ampliar o acesso às tradições do Festival Folclórico de Parintins por meio de conteúdos educativos, culturais e informativos exibidos em diferentes plataformas do Grupo Rede Amazônica.

Torre da Catedral de Nossa Senhora do Carmo: uma visão panorâmica da cidade que vive a cultura popular

Foto: Uriel Vasconcelos/Amazon Sat

Entre as ruas enfeitadas nas cores azul e vermelho e o movimento intenso de visitantes para o Festival Folclórico de Parintins, um dos passeios mais procurados por turistas e moradores, oferece uma perspectiva diferente da ilha. Com mais de 40 metros de altura e 162 degraus, a Torre da Catedral de Nossa Senhora do Carmo proporciona uma vista panorâmica de Parintins, do Rio Amazonas e da cidade que, nesta época do ano, se transforma para celebrar a cultura popular.

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Além da paisagem, a experiência também reúne história, religiosidade e fôlego. No entanto, o esforço é recompensado pela vista privilegiada de todos os ângulos da cidade. Parintinense que atualmente mora em Nhamundá, Marisa Sarraf conta que visitar a torre era um sonho antigo, já que durante anos não conseguiu incluir o passeio em seus roteiros pela cidade.

“Nunca visitei a torre, era uma vontade muito antiga, era um sonho, mas a gente nunca achava aquele tempo, aquela disponibilidade. Hoje a gente veio com essa intenção, porque é uma conexão com a nossa religiosidade. Eu precisava fazer isso dentro do meu roteiro de visitas à Parintins, minha terra tão amada”, relata.

Marisa Sarraf. Foto: Uriel Vasconcelos/Amazon Sat

Leia também: Nossa Senhora do Carmo: a fé em Parintins que se tornou patrimônio

Segundo Marisa, a subida foi desafiadora, mas também representou um momento de fé. “Foi muito cansativo, estou com as pernas tremendo, mas valeu a pena. Além de tudo, você tem uma vista para todos os ângulos da nossa cidade, pode contemplar o Amazonas lindo e ver a cidade maravilhosa vestida de azul e branco, vermelho e branco. Então é um convite para que todos façam essa experiência”. 

História preservada

A torre faz parte da história da Catedral de Nossa Senhora do Carmo e se tornou um dos principais atrativos turísticos de Parintins. De acordo com a secretária da Catedral, Graziele Ribeiro Belém, a construção foi assinada pelo construtor José Ribeiro, com auxílio de Simão Assayag, tendo seu início em 1969 e conclusão em 1981. 

“Antigamente todos os degraus eram de madeira, mas como nós somos uma sociedade que evolui, foi preciso mudar e agora eles são de concreto, mas ainda existe uma parte de madeira para ajudar as pessoas durante a subida”, explicou Belém.

Torre da Catedral de Nossa Senhora do Carmo
Foto: Reprodução/Arquivo Prefeitura de Parintins

Leia também: Você sabe como a Catedral de Nossa Senhora do Carmo influenciou o Festival de Parintins?

Outro detalhe curioso chama a atenção de quem visita o local é o toque dos sinos. “Quando toca o sino, a torre treme. Inclusive eu já passei por essa experiência. Não é uma experiência muito boa, mas é interessante estar lá quando isso acontece. Normalmente a gente avisa os visitantes que ao meio-dia os sinos vão tocar por causa da missa”, contou. 

Graziele explica que atualmente a torre possui 162 degraus e permanece aberta para visitação das 8h às 21h durante a semana do Festival Folclórico, com funcionamento contínuo, sem interrupção para o horário de almoço.

Vista que recompensa o esforço

Quem sobe até o topo também leva consigo uma nova percepção da cidade. Foi o caso do visitante José Bismarck, que visitou a torre pela segunda vez. Ele conta que já havia ido ao local durante uma viagem de trabalho, quando servia à Marinha, mas desta vez voltou acompanhado da família.

“Foi um pouco cansativo, até porque eu estava acompanhando minha filha, mas é muito prazeroso. A vista lá de cima compensa todo o desgaste físico de subir. São mais de 160 degraus, mas vale a pena chegar lá em cima e ver toda a ilha”, assegurou.

José Bismarck. Foto: Uriel Vasconcelos/Amazon Sat

De acordo com José, quem puder e tiver condições físicas de subir deve vivenciar a experiência pelo menos uma vez. “É muito bonita a vista da ilha lá de cima”.

A Torre da Catedral de Nossa Senhora do Carmo reúne história, fé e turismo em um único espaço. Durante o Festival Folclórico, quando Parintins recebe milhares de visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo, o local se consolida como uma oportunidade de contemplar, do alto, a cidade que vive intensamente sua cultura, sua devoção e suas tradições.

Vamos Brincar de Boi

O “Vamos Brincar de Boi” é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, da Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC) e do Governo do Amazonas.

A ação busca fortalecer a valorização da cultura popular amazônica, preservar a memória coletiva e ampliar o acesso às tradições do Festival Folclórico de Parintins por meio de conteúdos educativos, culturais e informativos exibidos em diferentes plataformas do Grupo Rede Amazônica.

Portal Amazônia responde: é possível usar a marca dos bois-bumbás de Parintins?

Boi Garantido e Boi Caprichoso. Foto: Divulgação

O Festival Folclórico de Parintins é realizado todo mês de junho e a procura por produtos temáticos ligados aos bois-bumbás Caprichoso e Garantido aumenta cada vez mais quando essa época do ano chega. Com isso, cresce também o interesse de microempreendedores, artesãos, e empresas em utilizar elementos visuais que remetem aos bois.

O que muitos desconhecem é que o uso dessas marcas depende de autorização oficial da produtora responsável pelos bumbás.  

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Os nomes ‘Boi-Bumbá Caprichoso’ e ‘Boi-Bumbá Garantido’, logotipos e demais elementos que compõem a identidade visual dos bois possuem proteção jurídica e só podem ser utilizados mediante licenciamento formal.

Esse processo é conduzido pela MANÁ Produções, representante oficial das associações dos bumbás para assuntos relacionados a parcerias, patrocínios, apoios institucionais e licenciamento de marcas.

De acordo com Márcia Nogueira, head de Patrocínios de Parcerias da MANÁ Produções, o licenciamento é essencial para proteger as marcas, garantir segurança jurídica e ajudar a financiar projetos sociais e ações culturais mantidos pelas associações bumbás ao longo do ano.

“Esse processo garante que os elementos dos bois possam ser utilizados por terceiros mediante autorização expressa e contrato específico”, explica.

Leia também: Saiba quais marcas já adaptaram suas cores por conta do Festival Folclórico de Parintins

Como solicitar autorização?

O processo de licenciamento é aberto tanto para pessoas físicas quanto para empresas interessadas em comercializar produtos relacionados aos bois. Segundo Nogueira, os interessados devem apresentar uma proposta detalhada à MANÁ Produções.

“Pessoas físicas e jurídicas interessadas enviam um e-mail para a Maná e apresentam uma proposta de produto, informando tipo de item, canais de venda, período de comercialização e quantidade estimada”, destaca.

Pequenos artesãos também precisam de autorização 

Será que a exigência de licenciamento vale apenas para grandes empresas? Segundo a MANÁ Produções, a resposta é não.

Mesmo artesãos que trabalham em pequena escala ou sob encomenda precisam obter autorização quando utilizam diretamente elementos que identifiquem os bois bumbás Caprichoso e Garantido.

“Sempre que um produto utiliza de forma direta a identidade dos bois, nome, logotipos, personagens ou elementos gráficos que remetem claramente ao Caprichoso ou ao Garantido é necessária autorização, independentemente do porte do empreendimento”, afirma Márcia. 

Direitos autorais: é possível usar a marca dos bois de Parintins?
Direitos autorais: é possível usar a marca dos bois de parintins? Foto: Henrique Miranda/Setemp

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Ela ressalta, porém, que existem situações em que a cobrança de royalties, compensações financeiras pagas pelo uso, exploração ou comercialização da patente, pode ser flexibilizada.

“Dentro da política de licenciamento, existem situações em que o pagamento de royalties ou taxa de licença pode ser dispensado, como no caso de boizinhos confeccionados manualmente, sob encomenda ou em pequena escala por artesãos manuais. Mas, mesmo nesses casos, a autorização formal continua sendo obrigatória”.

O que está protegido pelas marcas ?

As associações mantêm registros de marca que abrangem diversos elementos ligados à identidade dos bois. Entre eles estão os nomes oficiais, ‘Boi-Bumbá Caprichoso’ e ‘Boi-Bumbá Garantido’, seus logotipos, grafismos característicos, personagens oficiais, slogans e elementos centrais da identidade visual. 

Mas a proteção não se limita à reprodução exata das marcas, já que a legislação também considera situações em que exista semelhança suficiente para gerar associação imediata com um dos bois. De acordo com Márcia, elementos culturais genéricos da região e do folclore podem ser utilizados, desde que não reproduzam a identidade visual dos bois. 

“O que muitas vezes é confundido é a ideia de que ‘estilizar’ um boi resolveria o problema. Se o produto usa um boi estilizado com chifres, coração, estrelas, tipo de olho, posição da cabeça, combinação de azul ou vermelho e outros elementos que o consumidor reconhece imediatamente como Caprichoso ou Garantido, isso já não é genérico”, explica.

Direitos autorais: é possível usar a marca dos bois de parintins? Foto: Reprodução/Secom Am

Leia também: Estudantes de design conquistam público com produtos inspirados em Caprichoso e Garantido

Segundo ela, o direito marcário analisa o conjunto da obra, levando em consideração forma, cores, contexto e apresentação do produto.“Basta que exista semelhança capaz de gerar associação ou confusão para que se configure uso indevido, mesmo sem cópia perfeita ou sem escrever o nome dos bois”. 

Além disso, o uso de imagens e marcas dos bois em materiais de divulgação como festas temáticas, excursões, eventos promocionais e campanhas de publicidade também dependem de autorização. 

“A utilização de boi de pano, personagens ou a própria marca dos bois em eventos não oficiais, sem licença, tem gerado problemas com patrocinadores que, por contrato, possuem direito de ativar as marcas em determinadas ações, e isso pode colocar em risco patrocínios que financiam o espetáculo e toda a cadeia econômica ligada ao Festival”, explica Nogueira. 

Fiscalização é intensificada durante o Festival

O período do Festival de Parintins é também o momento em que a circulação de produtos não licenciados aumenta, e, por isso, as associações e a MANÁ acompanham o mercado e realizam ações de orientação para comerciantes e empresas.

De acordo com Márcia, há ainda um esforço para fortalecer parcerias com órgãos públicos responsáveis pela fiscalização, já que uma das preocupações está relacionada à venda de produtos sem autorização por ambulantes vindos de outras cidades.

“Estamos buscando firmar cooperações com os órgãos públicos que têm poder de fiscalização e apreensão, com atenção especial aos ambulantes de outras cidades que vendem produtos com a imagem dos bois sem autorização, gerando desvantagem comercial para as empresas de Parintins que produzem itens licenciados e seguem todas as regras”, explica. 

Combate à pirataria

Márcia Nogueira destaca que o uso indevido das marcas não é um problema recente, já que ao longo dos anos, diversos casos foram identificados em produtos, campanhas publicitárias e eventos. “Ao longo dos anos foram identificados diversos casos de uso não autorizado das marcas, o que motivou um esforço mais intenso de combate à pirataria e de orientação ao mercado”. 

De acordo com ela, em situações consideradas mais graves, os bois recorreram à Justiça para proteger seus direitos e evitar prejuízos financeiros.

Direitos autorais: é possível usar a marca dos bois de parintins? Foto: Reprodução/Secom Am

Leia também: Saiba quais marcas já adaptaram suas cores por conta do Festival Folclórico de Parintins

Além disso, Márcia explica que, para quem deseja apenas produzir itens inspirados no Festival, o primeiro cuidado é não reproduzir nem imitar elementos que caracterizem diretamente as marcas dos bois sem autorização, como nomes, símbolos oficiais, personagens identificáveis e grafismos reconhecíveis. 

“Também é importante evitar que o produto induza o público a acreditar que se trata de item oficial ou licenciado quando isso não é verdade, e que artesãos que produzem em pequena escala busquem o licenciamento justamente para não prejudicar quem está regularizado”. 

Produto oficial x produto inspirado

Você sabe qual é a diferença entre os produtos oficiais e os itens apenas inspirados no Festival de Parintins? Segundo Nogueira, o produto oficial é aquele que passou por todo o processo de licenciamento e segue normas estabelecidas pelas associações.

“O produto oficial é aquele que possui contrato, seguem os padrões definidos de uso da marca e, em geral, traz selos, etiquetas ou alguma identificação de que é item licenciado”, explica

Já os produtos considerados apenas inspirados no festival não podem utilizar nomes, símbolos ou grafismos que levem o consumidor a acreditar que existe uma ligação oficial com o Caprichoso ou com o Garantido. “Quando isso acontece, configura uso irregular ou pirataria e prejudica as receitas que sustentam os projetos culturais e sociais dos bois”, conclui. 

Licenciamento fortalece a cultura

O sistema de licenciamento contempla uma ampla variedade de produtos, incluindo roupas, acessórios, decoração, papelaria, souvenires e até alimentos e bebidas temáticas.

Além de proteger a identidade visual dos bois, o modelo busca garantir que os benefícios econômicos gerados pelas marcas retornem para as próprias associações bumbás e contribuam para a manutenção do festival que movimenta Parintins e atrai visitantes de todo o Brasil. 

Bumbódromo de Parintins. Foto: Yuri Pinheiro/Secom Parintins
Bumbódromo de Parintins. Foto: Yuri Pinheiro/Secom Parintins

De acordo com Nogueira, as associações mantêm registros de marca em âmbito nacional, garantido a proteção jurídica no Brasil contra o uso indevido em diversas categorias de produtos e serviços: “Essa proteção é especialmente importante porque o alcance dos bois e do Festival hoje extrapola a região amazônica e envolve parcerias com grandes marcas em diferentes estados do país”.

Para as associações, respeitar o licenciamento não é apenas uma questão legal, mas também uma forma de apoiar a preservação de um dos maiores patrimônios culturais de Parintins. 

II Congresso Amazonense de Meliponicultura destaca ciência e conservação de abelhas em Manaus

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Espécie Melipona seminigra, rainha rodeada de operárias. Foto: Gislene Zilse/Acervo pessoal

O II Congresso Amazonense de Meliponicultura (IICAM) reunirá pesquisadores, estudantes, produtores, empreendedores e amantes de abelhas sem ferrão para discutir o papel desses insetos na conservação ambiental, na produção sustentável e no desenvolvimento econômico da região. 

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Organizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o evento será realizado entre os dias 22 e 25 de julho de 2026, oferecerá 500 vagas e contará com 68 palestrantes, incluindo especialistas do Amazonas, de outros estados brasileiros e convidados internacionais.

Com o tema ‘Ciência, conservação e empreendedorismo: conexões que geram o futuro’, o congresso será realizado no Setor Sul da UFAM, e contará com uma programação científica, técnica e prática voltada à cadeia produtiva da meliponicultura.

Segundo a coordenadora-geral do congresso, a pesquisadora Gislene Carvalho-Zilse, a iniciativa busca fortalecer uma atividade tradicional da Amazônia e ampliar o diálogo entre o conhecimento científico, a conservação ambiental e a geração de renda.

“A meliponicultura é uma atividade que é praticada desde sempre pelos povos amazônicos, porque as abelhas têm uma relação direta com a cultura, com os hábitos e com a alimentação dos seres humanos”, destaca.

Leia também: Portal Amazônia responde: por que o mel é considerado o único alimento do mundo que “não estraga”?

De acordo com a pesquisadora, além da produção de mel, pólen e própolis, as abelhas sem ferrão exercem uma função essencial para a manutenção dos ecossistemas amazônicos: a polinização, transporte do grão de pólen entre uma flor e outra, fazendo com que as plantas se reproduzam. 

Ciência como base para o desenvolvimento

Um dos focos desta edição será a valorização da pesquisa científica aplicada à criação de abelhas sem ferrão. Segundo a coordenadora, compreender as necessidades das espécies, os manejos adequados e as plantas visitadas pelas abelhas é fundamental para garantir a sustentabilidade da atividade.

“Tem um conteúdo científico muito importante. A ciência atua para ajudar o desenvolvimento dessa atividade e, a partir disso, os criadores de abelhas conseguem andar pelo caminho do empreendedorismo. E esse é o despertar que a gente gostaria de levar com essa edição do evento”, destacou.

I congresso Amazonense de Meliponicultura. Foto: Reprodução/Embrapa

Ela lembra que a primeira edição do congresso, realizada em 2022, teve como foco o profissionalismo da atividade e a sustentabilidade. “Agora avançamos para os aspectos científicos e para as descobertas que embasam o manejo dessas abelhas, promovendo a conservação e projetando novos caminhos para o empreendedorismo. Por isso pensamos que essas são as conexões que vão gerar o futuro”.

Leia também: Treme-treme: você sabia que as abelhas sem ferrão “dançam” para se comunicar?

Programação

A programação do congresso inclui nove minicursos, duas oficinas práticas, nove painéis temáticos, 18 palestras especializadas e apresentações de trabalhos científicos e técnico-práticos.

De acordo com Gislene, os participantes poderão acompanhar debates sobre identificação de espécies, polinização, microbiologia associada aos produtos das abelhas, legislação, empreendedorismo, turismo, educação ambiental e comercialização.

Entre os 68 palestrantes confirmados, 41 são do Amazonas, 24 vêm de outros 12 estados brasileiros e haverá ainda convidados internacionais, do Peru e dos Estados Unidos, entre eles, duas representantes da equipe da Rosa Espinoza, que ajudou a promulgar a lei que torna as abelhas da amazônia peruana os primeiros insetos a obter direitos legais

A programação contará ainda com duas oficinas especiais voltadas à aplicação dos produtos das abelhas em diferentes áreas. Uma delas será dedicada à gastronomia amazônica, abordando o uso do mel, pólen e própolis em preparações culinárias, enquanto a outra ensinará a produção de cosméticos artesanais utilizando derivados das abelhas sem ferrão.

Além disso, dois momentos gastronômicos permitirão ao público conhecer receitas elaboradas por chefs convidados, seguidas de degustações.

Feira aberta ao público e concursos

Meliponário do Inpa. Foto Cimone Barros/ Ascom Inpa

Um dos destaques do congresso será a Feira de Produtos e Equipamentos da Meliponicultura, aberta gratuitamente à população. No espaço, os visitantes poderão conhecer diferentes produtos derivados das abelhas sem ferrão, equipamentos utilizados na atividade e um meliponário demonstrativo com diversas espécies para observação.

“Nós teremos caixinhas de diferentes espécies disponíveis para visitação, permitindo que as pessoas conheçam de perto o universo das abelhas sem ferrão”, explica Zilse.

O evento também promoverá três concursos: Melhor Mel, Fotografia e Material Didático, incentivando a divulgação do conhecimento sobre as abelhas e sua importância para a sociedade.

Inscrições

As inscrições para participar das atividades do II Congresso Amazonense de Meliponicultura podem ser realizadas pelo site oficial do evento: II Congresso Amazonense de Meliponicultura – Inscrições.

Saiba mais sobre o universo das abelhas:

Portal Amazônia responde: por que o mel é considerado o único alimento do mundo que “não estraga”?

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Foto: Emerson Martins/Sepror

Você sabia que o mel é frequentemente apontado como o único alimento que não estraga? Essa fama não surgiu por acaso. Ao longo dos anos, sua capacidade de conservação chamou a atenção de cientistas e consumidores, e o tornou um dos alimentos naturais mais estudados do mundo. 

Mas será que isso é realmente verdade?

Segundo a pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Gislene Zilse, embora o mel seja um dos alimentos naturais mais estáveis que existem, a ciência ainda não permite afirmar que ele seja um alimento que nunca estrague.

“O mel apresenta alta concentração de açúcares, alta acidez e baixa umidade, tornando-o um dos alimentos naturais mais estáveis microbiologicamente, o que não quer dizer que não estrague, pois as condições de sua manipulação podem contaminar o alimento”, explica a pesquisadora.

É a estabilidade que faz com que ele resista por longos períodos sem apresentar sinais de deterioração, desde que seja produzido, armazenado e manipulado adequadamente.

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Um alimento complexo e único

De acordo com Gislene, o mel é um alimento complexo:

“O mel é um alimento complexo com características físico-químicas e microbiológicas próprias, que variam de acordo com a espécie de abelha que o produz, assim como com a matéria-prima, que é o néctar, que a abelha coleta”, informa.

Essa diversidade faz com que existam diferentes tipos de mel, cada um com características próprias de aroma, sabor, composição nutricional e estabilidade. Mas, de acordo com a pesquisadora, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, ele não é um produto estático e sim considerado um alimento vivo.

Leia também: Mel de abelha: saiba 8 propriedades do alimento

Portal Amazônia responde: Porque o mel é considerado o único alimento do mundo que não estraga?
Méis de abelhas sem ferrão da Amazônia. Foto: Julia Rantigueri/Instituto Mamirauá

Isso acontece porque, mesmo depois de armazenado, ele continua passando por processos naturais de maturação, desenvolvimento, até atingir o seu estado ideal, influenciado por suas características físico-químicas e pelas interações entre os microrganismos presentes naturalmente em sua composição.

“Por isso, ele pode variar ao longo do tempo e perder algumas características desejáveis. Além disso, ele pode sofrer contaminações, especialmente em decorrência da manipulação humana e falta de higienização durante os processos de colheita e processamento, assim como do recipiente de envase do mel”, explica.

Por isso, embora o alimento apresente uma durabilidade muito superior à maioria dos alimentos, sua conservação depende diretamente dos cuidados adotados durante a produção, a colheita e o processamento.

Composição do mel 

Grande parte da resistência do mel à deterioração está relacionada à sua composição. A pesquisadora explica que, do ponto de vista físico-químico, ele é formado principalmente por açúcares e água, além de aminoácidos, vitaminas, minerais, compostos antioxidantes e enzimas.

“No entanto, do ponto de vista microbiológico, há presença de microorganismos como bactérias e fungos, mas especialmente de leveduras benéficas à sua maturação e estabilização”. 

De acordo com Gislene Zilse, essas leveduras estão adaptadas às condições específicas do ambiente do alimento e ajudam a impedir a proliferação de organismos prejudiciais: “Diante dessa composição físico-química e microbiológica do alimento, podemos dizer que quanto maior o teor de alguns componentes como açúcares e peróxido de hidrogênio, assim como de leveduras, maior será a estabilidade”.

Outro fator importante é a combinação de alta acidez, baixo pH e alta atividade de água, condições que contribuem para inibir o desenvolvimento de microrganismos maléficos, mas permitem a existência de leveduras que são próprias de sua composição.

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Além disso, o alimento produz naturalmente uma substância conhecida por sua ação antisséptica, a água oxigenada.

“Ele apresenta, por exemplo, água oxigenada decorrente de uma enzima natural chamada glicose oxidase, que é responsável por quebrar o açúcar glicose levando à formação do peróxido de hidrogênio, que é um antisséptico natural que impede a proliferação de bactérias, fungos e outros microrganismos”, explica. 

Segundo a pesquisadora, todos esses fatores atuam juntos: “É preciso ter em mente que não há só um único motivo que causa o impedimento de proliferação de bactérias e fungos maléficos, mas várias condições que agem simultaneamente e favoravelmente à estabilidade e conservação do mel”. 

Então o mel pode estragar? 

Embora seja extremamente estável, o mel não está totalmente livre de alterações. A pesquisadora explica que ao longo do tempo, ele pode sofrer mudanças naturais, ser armazenado de forma inadequada ou até ser contaminado durante a manipulação.

“O que conhecemos cientificamente acerca dessa composição multifatorial dos méis não nos permite afirmar que o mel possa durar indefinidamente já que, ao longo do tempo, ele pode melhorar com seu processo natural de maturação, mas também pode produzir substâncias indesejáveis, ou ser armazenado indevidamente ou ser contaminado”, afirma. 

Foto: Arquivo pessoal/Gislene Zilse

Além disso, segundo Zilse, o mundo abriga mais de 600 espécies de abelhas produtoras de mel, produzindo um alimento com características próprias. “É esperado deduzir que cada um desses méis terá sua peculiaridade aromática, perfil físico-químico e microbiológico único assim como um tempo de prateleira distinto”. 

Portanto, o mel não é exatamente um alimento eterno, mas com certeza está entre os alimentos naturais com maior capacidade de conservação.

Cristalização é sinal de que estragou?

Quando o mel fica mais espesso ou cristalizado, quer dizer que ele estragou? Segundo Zilse, isso não significa deterioração. 

“Longe de ser um defeito, a cristalização é uma tendência natural do mel puro, uma vez que é uma solução altamente concentrada em açúcares”.

Foto: r/mead/reddit

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Ela destaca que o processo é, inclusive, um indicativo de naturalidade. “Cristalizar, e se tornar pastoso, é um sinal de qualidade do alimento 100% natural”, assegura.

De acordo com a pesquisadora, deixar o alimento que tenha mais glicose que frutose em geladeira leva naturalmente à cristalização. Portanto, segundo ela, mel cristalizado é uma condição natural do alimento verdadeiro e não quer dizer que ele “estragou”.

Pode oferecer riscos à saúde?

De modo geral, o mel é considerado um alimento seguro e raramente provoca problemas de saúde. Porém, Gislene Zilse alerta para situações específicas que exigem atenção. 

Uma delas envolve a bactéria Clostridium botulinum, já que seus esporos, estruturas microscópicas e ultrarresistentes, podem estar naturalmente presentes no alimento, transportados pelo ar, pela poeira ou pelo pólen.

Segundo Gislene, crianças menores de um ano possuem uma flora intestinal ainda imatura, o que pode permitir que esses esporos germinem, se multipliquem e produzam a toxina responsável pelo botulismo infantil. Por esse motivo, o consumo do mel não é recomendado para crianças nessa faixa etária.

A diversidade dos méis amazônicos

Quando se fala em mel amazônico, muitas pessoas imaginam um único produto. No entanto, a realidade é muito mais diversa. De acordo com Gislene Zilse, a Amazônia abriga cerca de 150 espécies de abelhas sem ferrão, das mais de 250 conhecidas no Brasil, e cada uma delas produz méis com características próprias.

“Não temos um mel amazônico único, mas sim uma diversidade de méis produzidos pelas mais de 120 espécies de abelhas nativas sem ferrão amazônicas”, destaca Gislene.

Segundo a pesquisadora, o alimento reflete tanto a vegetação disponível quanto às características enzimáticas e microbiológicas da espécie de abelha responsável pela produção. Isso faz com que seja praticamente impossível reproduzir em outro lugar um mel produzido por uma espécie amazônica utilizando recursos vegetais de outro bioma.

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Méis de abelhas-sem-ferrão. Foto: Mateus Bento/ Cotes-Inpa

Um exemplo citado por Gislene envolve uma pesquisa coordenada pela pesquisadora Cristiane Krug, da Embrapa, com participação de outros pesquisadores da Embrapa e do Inpa. O estudo identificou que compostos bioativos presentes no néctar do guaraná, como a cafeína, permanecem no mel produzido por abelhas jandaíra que visitam flores de guaranazeiro.

Assim surgiu o chamado ‘mel de guaraná’, considerado um produto exclusivo dessa interação entre a espécie de abelha e a vegetação presente em Maués, no Amazonas. A pesquisadora destaca que esse tipo de característica pode inclusive ser reconhecido oficialmente por meio do selo de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

O clima amazônico influencia?

Na Amazônia, o clima quente e úmido interfere tanto na produção quanto no armazenamento do produto.

“Quando o retiramos e colocamos em embalagens artificiais como potes, o clima quente e úmido, além da luminosidade, podem interferir na conservação do mel fora da colmeia”, explica.

Por isso, armazenar corretamente o produto é fundamental para preservar suas características e evitar alterações indesejadas.

Espécies de abelhas que mais se destacam

De acordo com Zilse, entre as espécies amazônicas mais conhecidas pela produção de mel estão a jandaíra (Melipona seminigra) e a jupará (Melipona interrupta), muito criadas no Amazonas.

No Pará, destacam-se a uruçu-amarela (Melipona flavolineata) e a tiúba (Melipona fasciculata). Além disso, segundo a pesquisadora, geralmente as espécies com maior tamanho corporal apresentam maior potencial produtivo.

Espécie Melipona seminigra, rainha rodeada de operárias. Foto: Arquivo pessoal/Gislene Zilse

Curiosidades 

A importância das abelhas vai muito além da produção de mel. De acordo com Gislene Zilse, estudos indicam que as abelhas sem ferrão podem ser responsáveis por até 90% da polinização das espécies vegetais amazônicas.

“Então, as abelhas concebem a continuidade desse ambiente que nos sustenta e favorece a vida em nível global”, conclui a pesquisadora.

Por isso, o desmatamento e as queimadas afetam diretamente a produção do mel na Amazônia, uma vez que comprometem a sobrevivência das plantas que são a fonte essencial da matéria-prima para a produção de mel pelas abelhas.

A pesquisadora destacou mais algumas curiosidades sobre os méis:

  • Os méis das abelhas amazônicas variam quanto a cor, desde transparentes até completamente escuros, negros. 
  • Os aromas são variados, desde florais adocicados a cítricos intensos. 
  • Os sabores também podem ser surpreendentes, indo muito além do doce intenso que a sociedade costuma conhecer. 
  • Há méis de baixa de doçura e leveza ao paladar, como o mel da abelha jupará; levemente ácido, encorpado e frutado, como o da jandaíra; até altamente ácido, de sabor acético, lembrando vinagre balsâmico e queijo verde mofado (tipo gorgonzola) como é o caso do da abelha Tetragona goettei

#Série l Superfrutas da Amazônia: cupuaçu, o sabor da Amazônia

Que ele tem um sabor marcante e é uma das frutas mais emblemáticas da Amazônia você já deve saber, mas você sabia que o cupuaçu é uma superfruta amazônica?

De acordo com o artigo ‘Cupuaçuzeiro: Nutrição, Calagem e Adubação‘, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o nome cupuaçu tem origem na língua Tupi (kupu = que parece com o cacau + uasu = grande), mas, dependendo da região, o fruto pode ser conhecido por outros nomes, como cupu, pupu, pupuaçu, copoasú e até mesmo cacau branco.

Segundo o estudo, o cupuaçu é uma superfruta amazônica por ser rico em antioxidantes, fibras, vitaminas e gorduras saudáveis.

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O cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum) é encontrado na Região Norte do Brasil, nos estados do Acre, Amazonas, Pará e Rondônia, além do Maranhão, que faz parte da Amazônia Legal. Segundo o estudo, sua distribuição geográfica original estava restrita às áreas de floresta nativa localizadas ao sul do Rio Amazonas e a oeste do Rio Tapajós, abrangendo principalmente o sul e sudeste do Pará e a região pré-amazônica do Maranhão.

Fruto promissor na Amazônia

O artigo destaca que o cupuaçuzeiro é uma das fruteiras nativas mais promissoras para exploração racional na Amazônia, uso de recursos naturais ou econômicos de forma planejada e eficiente. Atualmente, já existem diversas plantações comerciais da espécie, impulsionadas pelas amplas possibilidades de aproveitamento industrial dos frutos.

A polpa do fruto é utilizada na fabricação de uma grande variedade de produtos, entre eles sorvetes, licores, compotas, néctares, sucos, geleias e biscoitos. Além disso, as amêndoas são aproveitadas na produção de chocolate, nibs e de uma gordura fina semelhante à manteiga de cacau.

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cupuaçu
Foto: Suelen Gonçalves/Acervo Rede Amazônica AM

De acordo com o estudo, o cupuaçuzeiro apresenta características que favorecem o cultivo em sistemas sustentáveis, já que a espécie se desenvolve bem em condições de semissombreamento, onde a luz solar direta é filtrada ou reduzida, principalmente durante a fase juvenil, o que permite sua utilização em sistemas agroflorestais.

Além disso, o artigo destaca que a árvore encontra-se implantada em diferentes tipos de solo, com predominância em áreas de baixa fertilidade natural. Entretanto, ainda são necessários avanços nos estudos relacionados às exigências nutricionais da planta para aprimorar os sistemas de produção.

Variedades do fruto

De acordo com informações da Embrapa, o cupuaçu, conhecido pelo aroma intenso e sabor característico, possui frutos com casca marrom e resistente, que medem entre 15 e 25 centímetros. Além disso, a polpa é rica em proteínas, carboidratos, fibras e enzimas. 

Foto: Izaque Pinheiro

O período de produção ocorre entre os meses de outubro e abril, com maior intensidade durante janeiro, fevereiro e março. Segundo a Embrapa, a espécie é considerada uma cultura permanente, havendo registros de plantas com mais de 80 anos que continuam produzindo frutos.

De acordo com o estudo, na Amazônia são encontradas três variedades principais do fruto: 

  • Cupuaçu redondo: é o tipo mais comum, apresentando extremidades arredondadas, um peso médio de 1,5 quilo e uma casca com espessura entre seis e sete milímetros. 
  • Cupuaçu-mamona: possui formato mais alongado, casca mais grossa e frutos que podem atingir até quatro quilos. 
  • Cupuaçu-sem-semente: apresenta formato arredondado e constitui uma variedade diferenciada da espécie.

Características nutricionais do cupuaçu

De acordo com a nutricionista Tatiana Zanin, do site ‘Tua Saúde’, o cupuaçu é um fruto rico em teobromina, substância que age no sistema nervoso e aumenta a concentração e o estado de alerta, e também é rico em vitamina C e fibras, nutrientes que ajudam a combater a prisão de ventre, favorecer a perda de peso, além de prevenir a anemia e o envelhecimento precoce.

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Foto: Felipe Santos da Rosa/ Embrapa

De acordo com a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, a cada 100g de fruta, o cupuaçu possui:

  • 52 kcal,
  • 1,11 g de proteína,
  • 1,25 g de lípidos,
  • 2,42 g de fibra alimentar,
  • 8,90 mg de cálcio,
  • 0,40 mg de ferro,
  • 1,96 de sódio
  • e 24,5 mg de Vitamina C.  

Primo do cacau?

Além da polpa, as sementes do fruto também são aproveitadas. De acordo com o artigo ‘Proteínas da semente de cupuaçu e alterações devidas à fermentação e à torração’,  as sementes do cupuaçu apresentam semelhanças botânicas e químicas com as sementes do cacau, possibilitando a sua utilização na fabricação de produtos semelhantes ao chocolate, popularmente chamados de cupulates. 

O processamento das sementes segue etapas parecidas com as utilizadas no beneficiamento do cacau, como a fermentação, a secagem e a torração. Segundo o estudo, a fermentação é considerada uma fase essencial, pois é responsável pela formação dos compostos do sabor.

Foto: Vinicius Braga/Embrapa

O artigo destaca que o processo acontece naturalmente por meio da atividade microbiana presente na polpa que envolve as sementes. Além disso, durante a fermentação, são produzidos álcool, ácidos orgânicos e calor, fatores que promovem transformações importantes para a qualidade final do produto. 

Série Superfrutas da Amazônia

#Série l Superfrutas da Amazônia: pupunha, o fruto tradicional da Amazônia

Ela está presente nas feiras, quintais e mesas amazônicas, mas você conhece uma das frutas mais tradicionais da região Norte? A pupunha, consumida principalmente cozida com sal e acompanhada de um cafézinho, é conhecida por seu sabor marcante, textura amanteigada e alto valor energético. É considerada uma superfruta amazônica devido suas propriedades nutricionais e pelo potencial de uso na indústria alimentícia.

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De acordo com o livro ‘Coleção Plantar- Pupunha‘, produzido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – Amazônia Ocidental, a fruta é produzida pela pupunheira (Bactris gasipaes), uma palmeira adaptada ao clima quente e úmido da Amazônia. A fruta possui coloração que varia entre amarelo, laranja e vermelho, resultado da elevada presença de carotenoides, compostos antioxidantes associados à prevenção de doenças crônicas e à proteção da visão.

Segundo o estudo, os frutos da pupunheira são considerados alimentos energéticos e apresentam pequenas quantidades de proteínas, óleos, ferro e vitaminas do complexo B e vitamina C. Além disso, possuem altos níveis de fibras, amido e gordura boa, fatores que fazem da pupunha uma importante fonte nutricional. 

Uma fruta tradicional da Amazônia

Em muitas casas amazônicas, a pupunha é consumida no café da manhã ou no lanche da tarde, geralmente acompanhada de um café preto. De acordo com o estudo, após o cozimento, a polpa do fruto ganha uma textura macia e um sabor intenso, que lembra castanhas e raízes amazônicas. 

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pupunha com café
Foto: Fernando Sette

Além do consumo alimentar, a pupunha também possui importância econômica, já que o fruto também pode ser usado na produção de farinha, óleo e rações, enquanto a própria pupunheira é amplamente cultivada para extração do palmito.

Segundo a pesquisa, frutos maiores e mais oleosos são preferidos para o consumo direto, enquanto frutos mais secos e ricos em amido são destinados à fabricação da farinha. 

Uma fruta rica em carotenoides e vitaminas

De acordo com o artigo ‘Pupunha (Bactris gasipaes kunth): uma revisão’, o peso dos frutos pode variar bastante, podendo pesar de 20 até mais de 100 gramas, dependendo da composição da polpa, que pode ser mais seca, oleosa ou com muito amido.

O artigo também aponta que o fruto possui alto teor de carotenoides, especialmente β-caroteno, γ-caroteno e licopeno, pigmentos naturais responsáveis pelas cores alaranjadas e avermelhadas da polpa.

Foto: Divulgação

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Esses compostos possuem ação antioxidante e anti-inflamatória, associados à prevenção de doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e problemas ligados ao envelhecimento ocular, como a degeneração da parte central da retina. Além dos carotenoides, o estudo também destaca que a pupunha contém vitaminas importantes para o funcionamento do organismo, como vitamina C, vitaminas B1 e B2, niacina, vitamina A e tocoferóis, conhecidos como vitamina E. 

Além disso, a fruta possui alto teor energético, já que por ser rica em amido e gordura, fornece energia de forma significativa, o que a torna uma superfruta amazônica. 

Da cozinha regional à indústria alimentícia

Foto: Reprodução/Embrapa

Embora o cozimento seja a forma mais popular de consumo da pupunha, a farinha da fruta vem sendo utilizada na produção de biscoitos, pães, panetones e misturas alimentícias. O estudo aponta que a farinha de pupunha pode substituir em até 10% a farinha de trigo em receitas de panificação sem alterar a qualidade final dos produtos.

Além disso, a torta produzida a partir do processamento da pupunha apresenta alto valor nutritivo e pode substituir o milho em rações balanceadas para alimentação animal. O óleo extraído da polpa também chama a atenção pela presença de ácidos graxos não saturados, considerados benéficos para a saúde cardiovascular. 

Apesar do potencial econômico, o artigo destaca que o beneficiamento ainda enfrenta desafios, já que o alto teor de água da polpa torna o processo de secagem mais caro e trabalhoso. Além disso, o fruto cru contém substâncias que dificultam a digestão e provocam irritação na boca, tornando o cozimento indispensável antes do consumo.

Cultivo adaptado ao clima amazônico

De acordo com o livro ‘Coleção Plantar- Pupunha’, a pupunheira se desenvolve melhor em regiões de clima úmido, com temperaturas médias acima de 22°C e chuvas abundantes durante o ano inteiro. Além disso, a planta adapta-se bem às condições da Amazônia e pode crescer em diferentes tipos de solo, desde que sejam bem drenados e tenham fertilidade adequada.

Foto: Daniele Otto

Embora necessite de bastante água, a pupunheira não suporta terrenos encharcados. Segundo o estudo, em áreas de solo ácido e pobre em nutrientes, o cultivo ainda pode ser viável desde que sejam realizados processos de correção e adubação.

A produção da pupunha começa normalmente no terceiro ano após o plantio, começando a dar frutos a partir do sexto ano, em uma produtividade média, que pode alcançar cerca de 20 toneladas por hectare ao ano.

Pragas e desafios da produção

O estudo aponta que a pupunheira também enfrenta ameaças causadas por pragas e doenças. Entre os principais problemas está o ataque da chamada ‘abelha-de-cachorro’ ou arapuá, que destrói flores e botões florais durante a floração, o que compromete a produção.

Lagartas que enrolam os folíolos, subdivisões de uma folha, para se alimentar também estão entre os principais desafios do cultivo. Além disso, pássaros costumam atacar os frutos maduros, causando também perdas nas plantações.

Série Superfrutas da Amazônia

#Série l Superfrutas da Amazônia: bacaba, o ‘vinho da Amazônia’ 

Você conhece a “prima” do açaí? A bacaba é uma fruta nativa da floresta amazônica que possui alto valor nutricional. Consumida há gerações por povos indígenas e comunidades ribeirinhas, ela é considerada uma superfruta amazônica por suas propriedades antioxidantes, potencial alimentício e grande quantidade de óleo saudável, superior até mesmo ao encontrado no açaí.

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De acordo com um estudo feito pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Ocidental, a bacaba pertence ao gênero Oenocarpus, grupo de palmeiras amplamente distribuídas na Amazônia brasileira e em outros países da América do Sul e Central.

Na Região Norte, a fruta recebe diferentes nomes populares, como bacaba-açu, bacabão, bacaba-vermelha, bacabi e bacabinha, dependendo da espécie e da região onde é encontrada.

Bacaba
Foto: Reprodução/Freepik

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Segundo a pesquisa, o nome científico Oenocarpus tem origem grega, ‘oeno’, que significa vinho e ‘carpus’, que significa fruto. Já a palavra ‘bacaba’ vem do tupi-guarani ‘ibacaba’, que significa ‘fruta oleosa’.

Onde ela é encontrada e no que ela é utilizada? 

As espécies de bacaba possuem forte ocorrência nos estados amazônicos. A Oenocarpus bacaba, por exemplo, é encontrada no Amazonas, Acre, Amapá, Pará e Rondônia, enquanto a Oenocarpus mapora, conhecida como bacabi, é encontrada principalmente no Amazonas e no Acre.

Foto: Socorro Padilha

De acordo com o estudo, as palmeiras crescem em diferentes ambientes da floresta amazônica, desde áreas de terra firme até regiões de várzea e locais periodicamente alagados. Além disso, algumas espécies conseguem se desenvolver em solos pobres e argilosos, enquanto outras preferem terrenos ricos em matéria orgânica.

Além de possuir importância ecológica, a bacaba tem um grande valor para as comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, já que praticamente todas as partes da planta são aproveitadas. 

Segundo o estudo, a bacaba é utilizada na produção de bebidas, sorvetes, picolés, geleias e licores, além do óleo extraído da polpa e da amêndoa que é empregado tanto na alimentação quanto na medicina popular. Além disso, as folhas servem para cobertura de casas, produção de fibras e artesanato, e os caules usados em construções e na fabricação de utensílios.

Mais óleo que o açaí

Foto: Valdely Ferreira Kinupp

Um dos principais diferenciais da bacaba está na composição nutricional. De acordo com o boletim de pesquisa e desenvolvimento – Caracterização Físico-Química da Polpa de Bacabi (Oenocarpus mapora H. Karsten), o bacabi possui elevado teor de lipídeos, superando inclusive o açaí em quantidade de óleo.

A pesquisa com a espécie Oenocarpus mapora mostrou que a polpa pode conter cerca de 58% de lipídeos, responsáveis por mais de 85% das calorias presentes no fruto. Além das gorduras boas, a fruta apresenta fibras, proteínas e minerais importantes para o organismo.

De acordo com o estudo, o óleo da bacaba possui composição semelhante ao azeite de oliva, com predominância do ácido oleico, conhecido pelos benefícios à saúde cardiovascular. Além disso, também estão presentes no fruto ácidos graxos palmítico, mirístico e láurico, que ampliam o potencial de uso da fruta na indústria alimentícia.

Outra característica marcante da Bacaba está na presença de compostos bioativos, como carotenoides, antocianinas e compostos fenólicos, substâncias que possuem ação antioxidante e ajudam a combater os radicais livres, moléculas associadas ao envelhecimento precoce e ao desenvolvimento de doenças.

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Fonte de vitaminas e minerais

Segundo o boletim, além do alto teor energético, a bacaba concentra nutrientes importantes para o funcionamento do corpo, como a vitamina E, reconhecida pela ação antioxidante, que auxilia na proteção das células, e vitaminas do complexo B, essenciais para a produção de energia e funcionamento do sistema nervoso.

A composição mineral do fruto inclui potássio, cálcio, magnésio e ferro, nutrientes que contribuem para o fortalecimento dos ossos, funcionamento muscular e prevenção da anemia. Além disso, segundo os estudos, as antocianinas, responsáveis pela coloração roxa intensa da fruta, ajudam no combate ao envelhecimento celular e possuem potencial anti-inflamatório.

Potencial medicinal estudado pela ciência

De acordo com o estudo realizado pela Embrapa, o óleo da fruta é empregado tradicionalmente em casos de bronquite, infecções pulmonares e até tuberculose.

Entre os indígenas Bora, do Peru, as sementes germinadas da bacaba são usadas no preparo de uma bebida consumida em casos de picadas de cobra.

Fonte: Valdely Ferreira Kinupp

Além do conhecimento tradicional, a pesquisa indica que a bacaba possui atividade antioxidante, ação antiproliferativa e possível efeito quimiopreventivo relacionado à carcinogênese, processo de formação do câncer.

Além disso, os compostos antioxidantes presentes na fruta podem ajudar a reduzir danos causados pelos radicais livres, associados a doenças cardiovasculares, câncer, catarata e enfermidades neurodegenerativas.

Série Superfrutas da Amazônia

#Série l Superfrutas da Amazônia: buriti, o fruto da “árvore da vida”

Você conhece o buriti, o fruto da “árvore da vida”? Conhecido como buriti, miriti ou muriti, o fruto da espécie é considerado uma verdadeira superfruta amazônica por reunir alto valor nutricional. Tido como uma das palmeiras mais importantes da floresta amazônica, o buritizeiro é chamado pelos povos indígenas de ‘árvore da vida’, sendo aproveitada pelas comunidades tradicionais desde os frutos até as folhas e fibras. 

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De acordo com informações reunidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o fruto se destaca principalmente pela grande quantidade de vitaminas, antioxidantes e óleo vegetal.

A palmeira cresce em áreas alagadas, margens de rios e terrenos brejosos, áreas com umidade excessiva e drenagem inadequada, formando extensos buritizais. Por conta disso é essencial que o solo seja ácido. 

Uma palmeira gigante da Amazônia

Segundo o estudo, a espécie pode alcançar entre 20 e 35 metros de altura, e apesar de apresentar crescimento lento, possui grande longevidade, já que algumas árvores com mais de 10 metros podem viver entre 100 e 400 anos. Além disso, as folhas em formato de leque chegam a medir até cinco metros de comprimento e são tradicionalmente utilizadas na cobertura de casas e na produção de artesanato. 

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Buritizal. Foto: Vivi Mesquita

O buriti possui uma casca coberta por escamas castanho-avermelhadas que esconde uma polpa amarelo-alaranjada, de sabor agridoce e textura oleosa. De acordo com o estudo, cada planta feminina pode produzir de cinco a sete cachos, com até 500 frutos em cada um, podendo chegar até três toneladas por palmeira.

Rico em vitaminas e nutrientes

O buriti é considerado uma superfruta amazônica devido seu alto valor nutricional. De acordo com o livro ‘Buritizeiro (Mauritia flexuosa L .) e seu Potencial de Utilização’, da Embrapa, a fruta é rica em vitaminas A e C, além de conter cálcio, ferro, fibras, óleos e antioxidantes importantes para o organismo.

Buriti
Foto: Divulgação

Segundo o estudo, a vitamina A presente no fruto ajuda na saúde da visão e no crescimento, enquanto a vitamina C fortalece o sistema imunológico e auxilia na formação das células sanguíneas. Além disso, a pesquisa aponta que pequenas quantidades da polpa já são suficientes para suprir necessidades diárias dessas vitaminas.

Óleo com potencial econômico

Outra característica marcante do fruto é o óleo extraído tanto da polpa quanto da semente. Rico em ácidos oleicos e láuricos, o óleo é utilizado na alimentação, na indústria cosmética e também em produtos farmacêuticos. 

Tradicionalmente, nas comunidades amazônicas o óleo é utilizado para aliviar queimaduras e auxiliar na cicatrização, devido suas propriedades cicatrizantes e hidratantes. Além disso, a pesquisa da Embrapa mostra que o buriti apresenta potencial para a produção de biodiesel, superando culturas como soja, girassol e amendoim, com produtividade que pode chegar a 3,6 toneladas por hectare.

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Foto: Reprodução/Amazon Oil

De acordo com o livro, as fibras das folhas também possuem grande importância econômica, sendo utilizadas na fabricação de cordas, redes, esteiras e peças artesanais. Além disso, os troncos servem para construções rústicas, pontes e canoas.

Colheita e aproveitamento 

A colheita do buriti deve acontecer quando eles começam a cair naturalmente dos cachos e apresentam coloração mais escura, evitando a derrubada das árvores. A Embrapa alerta que a derrubada das árvores para retirada dos frutos não é recomendada, já que isso ameaça os buritizais e compromete a preservação da espécie.

Além do consumo ‘in natura’, o buriti é usado na produção de doces, sorvetes, vinhos, licores e sucos.

Foto: Fundaj/Reprodução

Combate à deficiência nutricional

Além do valor alimentar, o buriti também possui importância social, já que em regiões marcadas pela insegurança alimentar, o fruto aparece como uma alternativa nutritiva e acessível. De acordo com o livro, o doce de buriti já foi utilizado no Nordeste brasileiro como suplemento vitamínico para crianças com deficiência de vitamina A, e que em cerca de 20 dias, houve uma melhora significativa nos sintomas causados pela falta da vitamina.

Na Amazônia, onde muitas comunidades vivem em áreas isoladas, o fruto ajuda a complementar a alimentação e reforça a segurança nutricional das famílias.

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