Enquanto a agricultura regenerativa ganha espaço nas discussões sobre o futuro da produção de alimentos, cresce também o interesse por sistemas produtivos desenvolvidos há gerações por povos indígenas e comunidades tradicionais.
Na Amazônia, experiências que combinam espécies agrícolas e florestais oferecem referências para pensar modelos mais adaptados às características dos territórios — sem que isso signifique substituir conhecimento científico ou transformar práticas tradicionais em soluções universais.
A própria Embrapa registra que diferentes sistemas agroflorestais desenvolvidos por comunidades indígenas, caboclas e ribeirinhas na Amazônia serviram de base para que pesquisadores sistematizassem conhecimentos agronômicos, ecológicos e econômicos e desenvolvessem novos arranjos adaptados às necessidades das comunidades rurais.
O conceito também encontra respaldo em iniciativas internacionais. A FAO define a agrofloresta como a integração deliberada de árvores, cultivos agrícolas e/ou animais e aponta benefícios como diversificação da produção e da renda, melhoria da saúde do solo e da gestão da água e maior resiliência às mudanças climáticas.
Para a Verthic, que atua há mais de uma década na Amazônia e já implantou mais de 110 Sistemas Agroflorestais (SAFs), o ponto central está em entender as características de cada território e construir projetos a partir da combinação entre conhecimento local, capacidade técnica e planejamento.
“O conhecimento das comunidades não deve ser tratado como uma receita pronta, mas como uma fonte importante de informação sobre o território. Temos o desafio de criar projetos que consigam integrar esse conhecimento à ciência e às necessidades econômicas e ambientais de cada região, sempre com participação efetiva das comunidades”, afirma Fernando Vincenti, fundador da Verthic.
Foto: Reprodução/ Instituto BioSistêmico
Recuperação da Amazônia
Essa abordagem já aparece em iniciativas recentes. Em 2024, a Embrapa iniciou, em parceria com o Fundo Vale e outras instituições, um projeto em território indígena no Maranhão para conhecer experiências locais de sistemas agropecuários e conservação florestal e identificar desafios de produção a partir também do conhecimento tradicional.
Em 2025, outra iniciativa envolvendo FAO, MCTI e Instituto Mamirauá passou a desenvolver, junto às comunidades locais, metodologias para a recuperação de cerca de 26 mil hectares de florestas alagáveis da Amazônia. O projeto prevê ainda capacitação das comunidades e desenvolvimento de iniciativas relacionadas à cadeia produtiva da restauração.
Para Vincenti, experiências como essas reforçam que o desenvolvimento sustentável na Amazônia precisa dispor da capacidade de conectar conhecimento territorial, ciência, políticas públicas, financiamento e execução em campo.
“Quando um projeto é construído com participação de quem vive no território, aumentam as possibilidades de que ele seja adequado à realidade local e tenha continuidade. O objetivo não é romantizar o conhecimento tradicional, mas reconhecê-lo como um dos elementos que podem contribuir para projetos tecnicamente consistentes e economicamente viáveis”, completa.
Com aroma marcante, o puxuri é uma árvore nativa da região amazônica que chama atenção tanto pelos usos tradicionais quanto pelo potencial científico e econômico. A espécie, conhecida cientificamente como Licaria puchury-major (Mart.) Kosterm., pertence à família Lauraceae, a mesma de árvores conhecidas como o pau-rosa e a canela, além do abacateiro.
De grande porte, o puxuri pode alcançar entre 25 e 30 metros de altura e possui uma característica que ajuda a diferenciá-lo de outras espécies da floresta: o aroma intenso, presente em praticamente toda a planta.
Segundo doutora em biologia vegetal e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Flávia Camila Schimpl, a fragrância pode ser percebida na casca, madeira, folhas, frutos e, principalmente, na semente, que concentra uma grande quantidade de óleo essencial rico em safrol, com aproximadamente 40% e, em algumas amostras, mais de 70% da composição, acompanhado pelo eucaliptol.
“O nome científico é Licaria puchury-major (Mart.) Kosterm., mas ao longo da história ela já foi classificada em outros gêneros, como Ocotea e Nectandra, o que pode gerar alguma confusão na literatura antiga”, explicou a pesquisadora.
Onde o puxuri é encontrado?
O puxuri é uma espécie nativa e endêmica da Amazônia brasileira, ou seja, em condições naturais, ela não ocorre em nenhuma outra parte do mundo. No Brasil, a árvore é encontrada nos estados do Amazonas e do Pará.
No Amazonas, os registros estão principalmente em áreas do baixo rio Madeira, em afluentes do baixo rio Negro e do baixo Japurá. A espécie já foi identificada em municípios como Borba, Silves, Santa Isabel do Rio Negro e Maraã.
“Está presente tanto em florestas de igapó, que são áreas sazonalmente alagadas, quanto em floresta de terra firme”, destacou Schimpl.
Árvores de puxuri no Igarapé da Piaba, Borba. Foto: Flávia Camila Schimpl/Acervo pessoal
Essa distribuição também faz parte das pesquisas realizadas sobre a espécie. De acordo com Flávia Camila Schimpl, compreender como o ambiente influencia o desenvolvimento da árvore é importante para conhecer melhor sua produção de óleo essencial e pensar em formas de cultivo que reduzam a pressão sobre as populações naturais.
Identificação da árvore
A identificação do puxuri não depende apenas da aparência. Segundo Schimpl, a espécie apresenta folhas alternas ou subopostas, de formato elíptico a oblongo, com textura firme e superfície lisa e brilhante, e em média, com 10 centímetros de comprimento.
Porém, uma das características mais marcantes é o cheiro. De acordo com a pesquisadora, o aroma característico pode ser percebido quando diferentes partes da planta são maceradas.
“Como várias Lauraceae amazônicas se parecem entre si, a identificação segura depende de um botânico especialista, idealmente apoiada por análise química”, afirmou.
O fruto também apresenta características próprias, como o formato oval que faz com que ele fique preso aos galhos por uma pequena estrutura semelhante a uma cúpula. Schimpl explica que quando amadurece, o fruto cai naturalmente e abriga uma única semente de coloração marrom-escura, lisa, brilhante e bastante aromática.
A semente que virou especiaria
Entre as diferentes partes do puxuri, a semente, também chamada de amêndoa, é a mais utilizada. É nela que está concentrada a grande quantidade do óleo essencial responsável pelo aroma intenso.
O uso da semente ultrapassa as fronteiras da Amazônia e tem uma história que remonta a séculos. Segundo Flávia Camila Schimpl, o puxuri foi uma das primeiras especiarias amazônicas a atravessar o Atlântico.
“Suas sementes, conhecidas na Europa como “fava-pichurim” (pichurim beans), eram exportadas já entre os séculos XVII e XVIII e usadas como substituto da noz-moscada, além de aplicações na medicina e na perfumaria da época”, explicou.
Sementes de puxuri secando ao sol. Foto: Flávia Camila Schimpl/Acervo pessoal
Atualmente, a semente continua presente na culinária amazônica e também ganhou espaço na gastronomia. Seu sabor e aroma fazem com que seja utilizada como condimento, como ralar sobre a língua do pirarucu.
Segundo a pesquisadora, o processo tradicional de beneficiamento também envolve etapas específicas, como a secagem ao sol durante vários dias e, posteriormente, uma rápida torra em tacho. Além disso, o ingrediente também já foi incorporado à alta gastronomia por chefs em pratos e bebidas.
Conhecimento tradicional
O puxuri também está ligado aos conhecimentos tradicionais das populações amazônicas. Além da culinária, a planta é utilizada na medicina popular.
“Na medicina popular, infusões e chás feitos da semente, da casca e das folhas são usados como tônicos e no tratamento de problemas gastrointestinais, como diarreia, má digestão e dores de estômago, além de dores de cabeça e insônia”, explicou Marcela.
Esses conhecimentos fazem parte da relação entre as comunidades e a floresta e ajudam a explicar por que o puxuri é considerado pela pesquisadora um exemplo da sociobiodiversidade amazônica.
Para Schimpl, a importância da espécie está justamente na combinação entre biodiversidade, cultura e potencial econômico. O puxuri “é, ao mesmo tempo, patrimônio genético, químico e cultural”.
O potencial das folhas
Embora a semente seja a parte mais conhecida e utilizada, as pesquisas realizadas atualmente procuram ampliar o aproveitamento do puxuri. De acordo com Flávia, as folhas ainda são pouco utilizadas, mas apresentam potencial para gerar novas possibilidades de renda aos produtores, principalmente nos períodos em que não há produção de frutos.
Coleta de folhas de puxuri no Igarapé Puxurizal. Foto: Flávia Camila Schimpl/Acervo pessoal
Segundo a pesquisadora, as folhas apresentam elevado rendimento de óleo essencial e uma composição semelhante à encontrada na semente. Uma das linhas de investigação de pesquisas avalia o potencial fungicida desse óleo, com resultados considerados promissores para o controle de agentes infecciosos que causam doenças em plantas.
Conservação da floresta
Apesar de não constar oficialmente nas listas nacionais de espécies ameaçadas de extinção, o puxuri enfrenta desafios relacionados à conservação.
Flávia Camila Schimpl explica que existem registros, desde a década de 1990, apontando uma redução da presença da espécie em algumas áreas onde antes era abundante, com um dos fatores relacionado à exploração intensa ocorrida no passado. A produção ainda depende, em grande parte, do extrativismo, enquanto os plantios comerciais de puxuri ainda são pouco estabelecidos.
Outro problema está relacionado à forma de coleta em algumas regiões. De acordo com a pesquisadora, há relatos de árvores em áreas de igapó que são cortadas inteiras durante o período de frutificação para facilitar a retirada dos frutos.
Além disso, a situação é agravada pelo crescimento relativamente lento da espécie. Além da pressão provocada pela atividade humana, as mudanças ambientais também despertam preocupação.
“E há um fator que temos acompanhado de perto: as mudanças climáticas, com eventos extremos como o El Niño já em curso este ano, somadas às ações antrópicas de desmatamento e alteração no uso do solo, vêm afetando o regime de chuvas e impactando a ecofisiologia das plantas amazônicas. Isso pode reduzir a abundância e a diversidade genética das populações e alterar até a produção e a composição dos produtos florestais não madeireiros, como os óleos essenciais”, explicou Schimpl.
No caso do puxuri, a frutificação nem sempre ocorre de maneira regular, e uma das hipóteses estudadas é justamente a influência das alterações climáticas nesse processo.
Ciência em busca de uma cadeia produtiva sustentável
Para enfrentar esses desafios e, ao mesmo tempo, ampliar o potencial econômico do puxuri, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) desenvolvem estudos em parceria com o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), com financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A pesquisa é realizada junto a produtores de Borba, município que abriga um dos poucos plantios de puxuri do Amazonas.
A proposta é estruturar a cadeia produtiva da espécie desde o início. Isso inclui:
a seleção das melhores árvores-matrizes, capazes de produzir maior quantidade de óleo essencial e apresentar a qualidade desejada;
produção de mudas com qualidade e rastreabilidade;
desenvolvimento de sistemas de cultivo;
processamento da matéria-prima;
e criação de novos produtos.
Os pesquisadores também comparam plantas encontradas naturalmente em áreas de igapó com aquelas cultivadas em terra firme. De acordo com Flávia Camila Schimpl, a intenção é entender de que maneira o ambiente interfere no rendimento e na composição do óleo essencial.
De volta com força em 2026, o El Niño vem intensificando os efeitos nas regiões brasileiras nesse segundo semestre do ano. O fenômeno é um retrato, em tempo real, do que as mudanças climáticas devem tornar rotina: segundo o Instituto Trata Brasil, o Brasil pode enfrentar em média 12 dias de racionamento de água por ano até 2050, podendo passar de 30 dias em regiões do Nordeste e do Centro-Oeste.
As mudanças climáticas representam uma crescente ameaça para o setor de saneamento no Brasil, intensificando desafios já existentes e criando riscos para a operação de sistemas de água e esgoto.
Diante do El Niño, saneamento deve ser prioridade para mitigar o peso das mudanças climáticas. Foto: Reprodução/ estudo ‘Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas’
O estudo “Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas“, do Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria EX Ante, projeta um aumento de aproximadamente 1°C na temperatura máxima e de 0,47°C na mínima até 2050, na comparação com os níveis de 2023. A tendência é de menos dias de chuva, calor intenso, secas e tempestades, um padrão que já se manifesta durante o El Niño atual.
O aumento de temperatura, por si só, deve elevar o consumo de água em 12,4% além do crescimento já esperado por fatores econômicos e populacionais, uma demanda extra de 2,113 bilhões de m³ por ano, que exigiria produzir mais 3,515 bilhões de m³ anuais mantendo o mesmo nível de perdas registrado em 2023.
Diante do El Niño, saneamento deve ser prioridade para mitigar o peso das mudanças climáticas. Foto: Reprodução/ estudo ‘Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas’
Para a população, os riscos climáticos intensificam a desigualdade no acesso a serviços de saneamento básico de qualidade, especialmente em áreas urbanas periféricas e rurais, já que enfrentam dificuldades de infraestrutura. A escassez hídrica pode limitar o acesso à água para higiene pessoal, preparo de alimentos e outras necessidades básicas, além de elevar o risco de doenças de veiculação hídrica pelo uso de fontes alternativas inseguras.
Universalizar o saneamento básico é parte da mitigação das mudanças climáticas, já que reduzir perdas, tratar o esgoto e planejar o abastecimento com mais eficiência diminuem a pressão sobre os recursos hídricos e a vulnerabilidade das cidades a eventos climáticos extremos.
Diante do El Niño, saneamento deve ser prioridade para mitigar o peso das mudanças climáticas. Foto: Reprodução/ estudo ‘Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas’
O contexto reforça a necessidade de políticas de adaptação que assegurem o acesso à água e saneamento em cenários climáticos extremos, promovendo a resiliência das comunidades mais afetadas. É esse compromisso que o Voto no Saneamento busca colocar nos planos de governo dos candidatos aos governos estaduais em 2026, para que a resposta ao clima não fique só no discurso.
No extremo norte deMato Grosso, o município de Paranaíta reúne paisagens de floresta amazônica, grandes rios, formações rochosas e vestígios de antigas ocupações humanas. Conhecida como um dos destinos de turismo de aventura da Amazônia mato-grossense, a cidade oferece experiências que vão do contato com a natureza à descoberta de sítios arqueológicos milenares.
Entre os principais atrativos de Paranaíta estão o Sítio Arqueológico Pedra Preta, o Rio Teles Pires, o Canyon do Indiscreto, a Lagoa Azul e as áreas de floresta associadas ao Rio Cristalino.
A região também ganha destaque por atividades como pesca esportiva, canoagem, rafting, observação de aves, caminhadas e passeios de barco.
Conheça os atrativos de Paranaíta:
Sitío Arqueológico Pedra Preta
Um dos maiores símbolos de Paranaíta é o Sítio Arqueológico Pedra Preta, localizado em uma propriedade rural a aproximadamente 40 quilômetros da sede do município. O local se destaca pela formação geológica, composta por uma enorme exposição de granito cinza, com cerca de 37 metros de altura, cuja superfície é coberta por algas, musgos e líquens.
No entanto, é a presença da arte rupestre que transforma a Pedra Preta em um patrimônio de importância histórica e cultural. A exposição possui cerca de 9,6 hectares e abriga nove painéis com gravuras e grafismos produzidos por povos indígenas que ocuparam a região há milhares de anos.
O painel principal, com cerca de 12 metros de altura, reúne diferentes representações, entre elas figuras humanas e elementos associados à fauna e à flora.
Sítio Arqueológico de Pedra Preta em Paranaíta (MT). Foto: Reprodução/Acervo Iphan
Para a professora Liliam Patricia Pinto, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), a importância da Pedra Preta começa pela própria geologia. “É um afloramento rochoso de granito, de origem magmática, que por si só já é interessante. O que deixa mais especial são os desenhos em baixo relevo feitos por uma cultura indígena há cerca de 2.500 a 5.000 anos atrás”, explicou.
A professora destaca ainda que Paranaíta está inserida em uma área de Floresta Amazônica com alta biodiversidade, mas ressalta um desafio para o desenvolvimento do turismo: a falta de um plano municipal de ecoturismo e de áreas públicas de floresta destinadas à visitação. Como muitas áreas naturais estão em propriedades privadas, o visitante que chega sem apoio especializado pode encontrar dificuldades para acessar e conhecer determinados pontos.
Por isso, a visita à Pedra Preta deve ser planejada, respeitando a propriedade, as regras de preservação e o patrimônio arqueológico. O acesso por estradas de terra e trilhas também torna recomendável o acompanhamento de pessoas que conheçam a região.
Rio Teles Pires
Outro destino de Paranaíta é o Rio Teles Pires, um dos mais importantes cursos d’água do norte de Mato Grosso.
O rio é procurado principalmente por pescadores esportivos, mas suas paisagens também favorecem atividades de contemplação e aventura. Entre os cenários de destaque estão as Corredeiras Sete Quedas, a Corredeira dos Andradas, o Canyon do Indiscreto e o arquipélago formado por ilhas fluviais.
De acordo com Liliam, o Canyon do Indiscreto está integrado ao ambiente do Teles Pires, e reforça o potencial de Paranaíta para o ecoturismo e para atividades de aventura. Além disso, nas áreas de corredeiras, dependendo das condições e da segurança, podem ser realizadas atividades como rafting e canoagem, passeios de barco e safáris fotográficos que permitem observar a paisagem e a fauna amazônica.
Foto: Pedro Ribas/Bombeiros de Sinop (MT)
Apesar de sua importância ambiental e turística, o Teles Pires também passou por mudanças provocadas pela ocupação humana. Segundo a professora, ações humanas alteraram significativamente o ambiente.
“A construção da usina, o garimpo e o excesso de casas flutuantes alteraram demais a paisagem e a biodiversidade do rio, mas continua belo muito procurado para o lazer e pesca esportiva”, declarou.
A observação da fauna pode revelar espécies características da região amazônica, como araras, antas, capivaras e diferentes animais silvestres. Avistamentos de grandes mamíferos, entretanto, são imprevisíveis e dependem das condições do ambiente e da sorte do visitante.
Lagoa Azul
A chamada Lagoa Azul é outro ponto de interesse em Paranaíta para quem busca experiências ligadas à natureza. O ambiente funciona como área de abrigo e reprodução para espécies da região, tornando-se interessante para quem gosta de observar fauna, flora e paisagens naturais.
O local também representa um tipo de turismo que pode ser desenvolvido de maneira integrada à conservação ambiental, desde que a visitação seja organizada e respeite os limites do ecossistema.
Rio Cristalino e a floresta vista de cima
A experiência amazônica da região de Paranaíta pode ser ampliada com os atrativos associados ao Rio Cristalino, conhecido pela riqueza de sua floresta de terra firme e pela diversidade de espécies. Um dos destaques são as Torres de Observação do Cristalino, estruturas que chegam a cerca de 50 metros de altura e permitem ao visitante observar acima da copa das árvores.
Do alto, é possível observar aves e primatas e perceber a extensão da mata amazônica. Entre os animais que podem ser encontrados na região está o raro macaco-aranha-de-cara-branca. O roteiro também pode incluir navegação pelo Rio Cristalino, caminhadas por trilhas na floresta, como a Trilha da Castanheira, e passeios de caiaque, inclusive em horários próximos ao pôr do sol.
Fest Praia
Além dos atrativos naturais e históricos, Paranaíta também possui eventos que movimentam o turismo regional. Um dos mais conhecidos é o Fest Praia, realizado tradicionalmente às margens do Rio Teles Pires durante o período de formação das praias fluviais.
O evento costuma reunir shows, atividades esportivas, alimentação, camping e programação cultural, atraindo moradores e visitantes de diferentes municípios do norte de Mato Grosso.
A realização, porém, depende das condições do rio, já que a dinâmica das águas pode alterar a formação das praias e, consequentemente, interferir na estrutura e no calendário do festival.
Além da fachada da casa de Chico Mendes, em Xapuri, no interior do Acre, o ambiente também reúne uma reprodução de uma casa de seringueiro. Foto: Pâmela Celina/g1 Acre
Pela primeira vez em 51 edições, os visitantes da Expoacre podem conhecer a réplica da casa do ambientalista acreano Chico Mendes sem precisar se deslocar da capital para Xapuri, no interior do estado, onde fica a residência dele.
O espaço está instalado no estande da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete), recria elementos do cotidiano do líder seringueiro e busca aproximar o público da história do seringueiro que é símbolo da luta socioambiental brasileira.
Além da fachada da casa onde Chico Mendes viveu, o ambiente também reúne uma reprodução de uma casa de seringueiro, bem como utensílios utilizados na floresta, um cenário com geoglifos, uma embarcação para fotos, o mirante da Serra do Divisor e uma experiência em realidade virtual, que simula uma trilha pelo parque estadual.
Espaço da casa de Chico Mendes também conta com um réplica de uma árvore Samaúma. Foto: Pâmela Celina/g1
Segundo a turismóloga da Sete, Raquel Oliveira, o objetivo é proporcionar uma experiência que desperte o interesse pela história e pelos atrativos turísticos do Acre.
Além disso, ela destacou que a montagem da réplica da casa de Chico Mendes contou com a autorização da família do líder seringueiro.
“É a primeira vez que nós estamos trazendo a casa de Chico Mendes para a Expoacre. Queremos que a população possa conhecer um pouco da história desse grande ativista e ambientalista, que teve uma repercussão tão importante. Nosso objetivo é que as pessoas possam conhecer e vivenciar essa história”, explicou.
De acordo com a turismóloga, embora muitos visitantes procurem inicialmente o espaço para registrar fotografias, uma equipe técnica permanece no local para apresentar informações sobre a história do ambientalista. “Sempre que as pessoas querem conhecer um pouco mais da história, nós temos uma equipe preparada para recebê-las”, ressalta.
Reconhecimento
Uma das visitantes foi a gestora de projetos do Comitê Chico Mendes, Thalita Vasconcelos. Para ela, a presença da réplica em um dos eventos mais movimentos do Acre reforça a importância de manter vivo o legado do líder seringueiro.
“É importante demarcar esse espaço e mostrar que Chico, sendo patrono do meio ambiente e esse ícone ambientalista que nasceu no Acre, esteja em um local por onde passam milhares de pessoas”, afirmou.
Segundo Thalita, a iniciativa também convida o público a refletir sobre os desafios atuais enfrentados pela Amazônia.
“É uma forma de valorizar a história dele e também de chamar as pessoas para protegerem a natureza e os modos de vida na Amazônia, tanto de quem mora na zona rural quanto de quem vive na cidade”, destacou.
Utensílios também estão expostos no espaço onde está réplica da casa de Chico Mendes. Foto: Pâmela Celina/g1
A professora de Artes Alessandra Apurinã, de 38 anos, também visitou o espaço na feira. Acompanhada da família, ela afirmou que a exposição desperta o interesse pela história acreana.
“Na atual situação é importantíssimo conhecer quem foi Chico Mendes, a luta dele e a história do Acre. Fiquei encantada com esse estande mostrando a casa de Paxiúba, os utensílios dos seringueiros e cada detalhe desse espaço”, comentou.
Alessandra também acredita que a iniciativa ajuda a preservar a memória do ambientalista entre as novas gerações.“Nem todos os acreanos conhecem quem foi Chico Mendes, qual foi a luta dele e as bandeiras que levantou. Ter esse espaço aqui é muito importante”, afirmou.
Para a dona de casa Fernanda Barros, de 41 anos, a réplica da casa é uma oportunidade para aproximar o público da história do líder seringueiro. “É muito importante porque ele faz parte da história do Acre. Nem todo mundo tem a oportunidade de ir até Xapuri para conhecer esse lugar, então trazer esse espaço para a Expoacre é um privilégio”, disse.
Embarcação para tirar fotos também integra o espaço. Foto: Pâmela Celina/g1
O marido de Fernanda nasceu em Xapuri. Ela relata que passou a conhecer melhor a trajetória de Chico Mendes por meio da família do cônjuge.
“Hoje a gente já conhece bem essa história e achei muito bonito esse espaço. Quando chegamos aqui nem sabíamos que tinha a casa, mas logo paramos para conhecer e tirar fotos com a família”, relata.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) comunicou nesta quinta-feira (6) que incluiu a Bacia do Tacutu, localizada ao Norte de Roraima, no edital de licitação para que empresas possam explorar petróleo e gás natural na região.
Com o comunicado, as empresas devem manifestar interesse em explorar os recursos energéticos. O prazo para encerrar as declarações, acompanhadas de garantias de oferta, deve ocorrer até o dia 31 de agosto. A Sessão Pública de Ofertas, onde as empresas apresentam as ofertas, está marcada para o dia 7 de outubro deste ano.
Bacia do Tacutu, em Roraima – Foto: Reprodução/InfoAmazônia
A área está incluída no 6º ciclo de oferta, ou seja, um modelo em que áreas ficam disponíveis para disputa a partir do interesse do mercado.
A agência validou as manifestações de interesse enviadas por empresas até o dia 21 de julho, desde que acompanhadas de garantias financeiras. As propostas que não apresentaram essas garantias ou que chegaram fora do prazo foram descartadas.
Bacia do Tacutu. Foto: Jurandir Lima
Além de Roraima, o edital contempla outras oito bacias sedimentares espalhadas pelo país, incluindo a Bacia de Campos, localizada no Norte do Rio de Janeiro e Sul do Espírito Santo, e a Bacia de Santos, que vai desde o Sul do Rio de Janeiro até o Norte de Santa Catarina.
Você já imaginou usar o próprio mosquito para combater a dengue? Parece contraditório, mas é exatamente essa tecnologia que começa a fazer parte da realidade de Porto Velho.
A capital passa a contar com o Método Wolbachia, uma estratégia do Ministério da Saúde, desenvolvida em parceria com a Fiocruz, que utiliza mosquitos Aedes aegypti com uma bactéria natural chamada Wolbachia. Ela impede que os vírus da dengue, zika e chikungunya se desenvolvam dentro do mosquito, reduzindo a transmissão dessas doenças.
A tecnologia já é utilizada no Brasil há mais de dez anos e agora chega a Porto Velho. No novo insetário instalado na capital, ovos enviados de Curitiba passam por todo o ciclo de desenvolvimento até a fase adulta. Depois, os mosquitos são liberados pelas equipes da Prefeitura nos bairros contemplados.
Depois de liberados, esses mosquitos cruzam com os Aedes aegypti que já vivem na cidade e transmitem a bactéria, que é uma bactéria boa e natural, para as próximas gerações. Aos poucos, aumenta a quantidade de mosquitos que não conseguem transmitir os vírus.
“Nosso primeiro trabalho é informar a população. Durante muito tempo aprendemos que era preciso eliminar o mosquito e isso continua sendo importante. A diferença é que agora existe um mosquito aliado, que carrega a bactéria Wolbachia e não transmite dengue. O método já está presente em 15 países e tem resultados muito positivos. Em Niterói (RJ), por exemplo, houve redução de 89% dos casos de dengue. Em Campo Grande, a redução foi de aproximadamente 64%. Nossa expectativa é alcançar resultados semelhantes em Porto Velho ao longo dos próximos anos.”, explicou o biólogo e pesquisador da Fiocruz, Diogo Challegre.
“Essa tecnologia chega para reforçar o trabalho que já realizamos no combate às arboviroses. Ela soma às ações de vigilância e prevenção, precisamos da participação da população, mesmo com a nova tecnologia, porque os cuidados continuam sendo indispensáveis.”, ressalta a secretária municipal de saúde, Sandra Maria.
Método já está presente em 15 países e tem resultados muito positivos, explicou Diogo Challegre. Foto: Erisson Soares
Eliminar água parada em vasos, pneus, garrafas e baldes.
Manter caixas d’água, tonéis e reservatórios sempre bem tampados.
Limpar calhas e ralos para evitar o acúmulo de água.
Colocar areia nos pratinhos das plantas.
Descartar corretamente recipientes que possam acumular água da chuva.
Manter piscinas tratadas ou devidamente cobertas.
A expectativa é beneficiar mais de 276 mil moradores em 27 bairros da capital. Em cidades onde o método já foi implantado, os resultados apontaram redução significativa dos casos de dengue.
Acões de Combat ao Aedes Aegypti. fOTO: Arquivo/Ascom Sesaiu
“O combate à dengue exige inovação e responsabilidade. A Capital passa a contar com uma tecnologia que já vem sendo utilizada em outras cidades e que fortalece o trabalho que já realizamos diariamente. É mais uma ferramenta para proteger a nossa população, sempre com o apoio da ciência e sem substituir a participação da comunidade, que continua sendo fundamental no combate aos focos do mosquito.”, disse o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes.
*Por Helen Paiva, Secretaria Municipal de Comunicação Porto Velho.
No último episódio da Série Isso é Patrimônio Mundial, que mostra os bens culturais e naturais localizado nos países da Amazônia Internacional, a Colômbia fecha a lista com nove patrimônios mundiais reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). São seis bens culturais, dois naturais e um misto, mas apenas um faz parte da Amazônia: o Parque Nacional Chiribiquete – A Maloca da Onça.
Reconhecido em 2018, o local foi escolhido pela Unesco por ser considerado de Valor Universal Excepcional, cuja importância ultrapassa as fronteiras de um país e pertence à humanidade como um todo. Além disso, tal reconhecimento reforça o papel da Amazônia como um território de valor inestimável, cuja conservação é fundamental não apenas para o Brasil, mas para todo o planeta.
Adotada pela Unesco em 1972, a convenção do Patrimônio Mundial e Natural classifica os patrimônios culturais e naturais através de monumentos, grupos de edifícios, sítios, formações físicas, biológicas e geológicas excepcionais, habitats de espécies animais e vegetais ameaçadas e áreas que tenham valor científico, de conservação ou estético excepcional e universal.
Patrimônios Mundiais na Amazônia
Parque Nacional Chiribiquete
Parque NAcional Chiribiquete tem mais de 2,7 mil hectares de cobertura vegetal. Foto: Reprodução/Unesco
Foto: Reprodução/Unesco
Localizado na Amazônia Colombiana, no centro-sul do país, o Parque Nacional Chiribiquete é a maior área protegida com mais de 2.7 mil hectares e possui como principal característica a presença de muitos tepuis, que são as montanhas de topo que reúne cerca de 75 mil pictogramas rochosos listados nas paredes dos pés dos tepuis.
Tais representações retratam cenas de caça, batalhas, danças e cerimônias, todas ligadas a um sistema de crenças sagradas milenárias, organizando e explicando as relações entre o cosmos, a natureza e o homem. Acredita-se que os sítios arqueológicos ainda sejam acessados hoje por grupos indígenas não contatados, inclusive, as comunidades indígenas que não estão diretamente presentes no local, consideram Chiribiquete um lugar sagrado que não pode ser visitado e que deve ser preservado.
O parque também é considerado o ponto de confluência de quatro províncias biogeográficas: Amazônia, Andes, Orinoco e Guiana, se tornanado um local de conectividade e preservação da biodiversidade dessas províncias e constituindo-se como um cenário de interação no qual a diversidade e o endemismo da flora e fauna floresceram.
Outros patrimônios mundiais da Colômbia
Porto, Fortalezas e Conjunto Monumental de Cartagena
É um dos mais importantes conjuntos de arquitetura colonial das Américas. Suas muralhas, fortalezas e edifícios históricos foram construídos pelos espanhóis para proteger a cidade dos ataques de piratas e invasores durante os séculos XVI a XVIII. Hoje, o centro histórico preserva ruas, igrejas, praças e casarões coloniais muito bem conservados.
Reconhecida em 1984, é uma cidade colonial que preserva a arquitetura histórica erguida desde o período colonial.
Parque Nacional Natural Los Katíos
Reconhecida em 1994, o parque localizado na fronteira entre Colômbia e Panamá é uma área de enorme biodiversidade, reunindo florestas tropicais, rios, montanhas e pântanos. O parque abriga centenas de espécies de aves, mamíferos, répteis e plantas, muitas delas endêmicas ou ameaçadas de extinção. Também funciona como corredor ecológico entre a América Central e a América do Sul.
O bem natural reconhecido em 1994 ganhou o reconhecimento devido à enorme área de floresta tropical com grande biodiversidade que abriga espécies raras da fauna e flora
Centro Histórico de Santa Cruz de Mompox
Cidade colonial fundada às margens do rio Magdalena, preserva praticamente intacta sua arquitetura dos séculos XVI ao XVIII. Mompox desempenhou papel fundamental durante o período colonial e nas lutas pela independência da Colômbia. Foi reconhecido em 1995.
Local histórico que mantém os traços urbanos e arquitetônicos do período colonial dos séculos XVI ao XVIII
Parque Arqueológico de San Agustín
Patrimônio Mundial reconhecido em 1995, é o maior conjunto de monumentos religiosos e esculturas megalíticas da América do Sul. Possui centenas de estátuas de pedra, túmulos e centros cerimoniais produzidos por uma antiga civilização pré-colombiana entre os séculos I e VIII d.C.
Sítio Arqueológico com esculturas monumentais e vestígios de antigas civilizações pré-colombianas.
Parque Arqueológico Nacional de Tierradentro
O bem cultural reconhecido em 1995 destaca-se por suas tumbas subterrâneas (hipogeus), decoradas com pinturas geométricas em vermelho, preto e branco. O local preserva importantes vestígios das culturas indígenas que habitaram a região antes da chegada dos espanhóis.
Reconhecido em 1995, o patrimônio cultural é conhecido pela rica herança arqueológica indígena deixada e também pelos túmulos subterrâneos decorados.
Santuário de Fauna e Flora de Malpelo
Reconhecido em 2006, o local é ormado pela Ilha Malpelo e seu ambiente marinho, é considerado um dos melhores locais do mundo para o mergulho. Abriga grandes concentrações de tubarões-martelo, tubarões-baleia, raias, tartarugas marinhas e inúmeras espécies de peixes, sendo um importante refúgio para a vida marinha do Pacífico.
O bem natural reconhecido em 2006 é formado pela ilha oceânica famosa pela diversidade marinha, especialmente tubarões, raias e outras espécies pelágicas
Paisagem Cultural Cafeeira da Colômbia
O local reúne a tradição do cultivo do café em regiões montanhosas dos Andes colombianos. O patrimônio, reconhecido em 2011, contempla fazendas históricas, vilarejos tradicionais e paisagens moldadas por gerações de produtores, refletindo uma cultura agrícola única e reconhecida mundialmente pela qualidade do café colombiano.
Reconhecido como a região tradicional de produção de café que combina patrimônio cultural, agricultura e paisagem andina.
Qhpaq Ñan, Sistema Rodoviário Andino
Patrimônio Mundial compartilhado entre seis países sul-americanos, a extensa rede de estradas construída pelo Império Inca, com mais de 30 mil quilômetros, ligava cidades, centros administrativos, áreas agrícolas e locais sagrados através da Cordilheira dos Andes. Na Colômbia, alguns trechos preservados demonstram a expansão do império até o norte da América do Sul. Foi reconhecido com bem cultural em 2014.
Rede de estradas construída pelos incas e compartilhada por seis países sul-americanos, incluindo a Colômbia.
Crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Foto: Secom/Gov AC
Com a chegada do período mais seco do ano na Amazônia, o chamado “verão amazônico”, cresce a preocupação com os impactos da estiagem sobre as populações ribeirinhas e urbanas da Região Norte. Uma dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGAD/ICSA) traz um retrato preocupante da forma como os municípios da região vêm enfrentando — ou deixando de enfrentar — secas, inundações e a combinação cada vez mais frequente dos dois fenômenos.
A pesquisa de Gilmar Pereira Sidônio, intituladaInterações entre secas e inundações na Amazônia: desafios para a gestão de riscos de eventos extremos, analisou registros de 450 municípios da Região Norte entre 2013 e 2024, cruzando dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) com informações da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), do IBGE.
“O chamado ‘verão amazônico’ corresponde ao período de redução das chuvas. Com menos precipitação, os níveis dos rios diminuem, o solo perde umidade e aumentam os riscos de seca e estiagem”, explica Sidônio. Segundo ele, o fenômeno afeta diretamente a navegação, o transporte de alimentos e medicamentos e o acesso das comunidades ribeirinhas aos serviços públicos, além de deixar a vegetação mais suscetível à queimadas.
El Niño, La Niña e o recorde histórico de 2024
A pesquisa mostra que a alternância entre os fenômenos climáticos El Niño e La Niña tem influência direta sobre os extremos hidrológicos na região. Entre 2017 e 2022, prevaleceram os registros de inundação, impulsionados pela fase prolongada de La Niña. A partir de 2023, com a ascensão de um El Niño de forte magnitude, os registros de seca e estiagem dispararam, atingindo em 2024 o maior número da série histórica.
“Embora aconteçam no Oceano Pacífico, o El Niño e a La Niña alteram a circulação da atmosfera em escala global. Essas mudanças modificam o transporte de umidade e a formação de chuvas em várias partes do planeta, inclusive na Amazônia”, diz Gilmar Pereira Sidônio. “Em geral, durante o El Niño há redução das chuvas na região, favorecendo secas mais severas. Já a La Niña costuma aumentar as chuvas, elevando o risco de inundações.”
Crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Imagem: Magnific.com
Segundo o pesquisador, o recorde de registros de seca em 2024 está ligado à combinação de um El Niño intenso com um contexto mais amplo de mudanças climáticas. “Nossa pesquisa também reconhece que o aperfeiçoamento dos registros no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres contribui para documentar melhor esses eventos, mas isso não explica sozinho o aumento observado. O que vemos é um cenário em que as secas estão se tornando mais severas e mais frequentes”, avalia Sidônio.
Um dos achados mais impressionantes da dissertação foi o crescimento constante dos chamados “eventos compostos” — municípios que registraram seca e inundação no mesmo ano. Se em 2013 apenas dois municípios da região viveram essa combinação, o número saltou para 22 em 2022, 27 em 2023 e 25 em 2024.
“Isso acontece porque os eventos podem ocorrer em épocas diferentes do mesmo ano. Um município pode enfrentar uma cheia intensa durante o período chuvoso e, alguns meses depois, sofrer uma estiagem severa durante a estação seca”, explica o autor da dissertação. Para ele, esse tipo de situação é especialmente preocupante, pois “dificulta a recuperação da população e exige que o poder público esteja preparado para responder a dois tipos de desastre em um curto espaço de tempo”.
Planos de contingência ainda são raros na região Norte
É aqui que a pesquisa expõe a fragilidade da gestão local de riscos na Amazônia. Dos 407 municípios da Região Norte que responderam à pesquisa Munic 2020/IBGE, apenas 62 declararam possuir plano de contingência para inundações, e só 60 têm plano voltado para secas e estiagens. Instrumentos técnicos mais específicos são ainda mais raros: apenas 21 municípios contam com sistema de alerta antecipado de desastres, e somente 20 possuem carta geotécnica de aptidão à urbanização.
“Na prática significa que muitos municípios acabam reagindo somente quando a crise já começou”, afirma Gilmar Pereira Sidônio. “O plano de contingência organiza previamente quem faz o quê, quais recursos serão utilizados, como proteger a população e como manter os serviços essenciais funcionando. Sem esse planejamento, a resposta tende a ser mais lenta, menos eficiente e com maiores prejuízos para a população”, explica o pesquisador.
crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Foto: Michel Castro/Rede Amazônica
A análise estatística foi feita por meio da técnica de análise de correspondência múltipla e mostrou que os poucos municípios mais bem preparados têm um perfil em comum: população maior (acima de 50 mil habitantes), presença de Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec), cadastro de áreas de risco e planos municipais de redução de riscos. Já os municípios menores, com até 5 mil habitantes, concentram a maioria das respostas “não” para esses instrumentos.
“Nossa análise mostrou que, de modo geral, os municípios de pequeno porte são os mais vulneráveis. Muitos possuem equipes reduzidas, poucos recursos técnicos e financeiros, e menor estrutura de Defesa Civil”, diz Sidônio.
Para as comunidades ribeirinhas, os efeitos de um verão amazônico mais intenso são sentidos no dia a dia. “Em muitos lugares as embarcações deixam de circular, dificultando o transporte de pessoas, alimentos, combustível, medicamentos e diversos produtos para comercialização”, relata. “O acesso aos serviços de saúde e educação também fica mais difícil. Além disso, a pesca e outras atividades econômicas são prejudicadas, reduzindo a renda das famílias justamente quando elas mais precisam de apoio.”
Calor intenso e qualidade do ar são desafios em Belém
Embora não seja um município ribeirinho isolado, a capital paraense também sente os efeitos do período seco. “Belém tem uma infraestrutura urbana mais desenvolvida do que muitos municípios ribeirinhos, mas o verão amazônico traz desafios e riscos como calor intenso, piora da qualidade do ar e maior risco de queimadas em terrenos baldios”, diz Gilmar Sidônio. “Também podem ocorrer chuvas rápidas e muito intensas, provocando alagamentos localizados devido às características da drenagem urbana.”
Para famílias com crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios, a recomendação do pesquisador é redobrar os cuidados. “A principal recomendação é acompanhar os alertas da Defesa Civil e dos órgãos meteorológicos. Também é importante manter uma boa hidratação, evitar exposição ao sol e à fumaça nos horários mais quentes, proteger crianças e idosos do calor excessivo e procurar atendimento médico caso ocorram sintomas respiratórios ou desidratação”, alerta.
crescem secas e inundações combinadas na Região Norte. Foto: Lucas Bonny/ Fas
Para ele, o início do período seco é o momento ideal para a gestão pública agir de forma preventiva. “Os municípios devem implementar ou revisar seus planos de contingência, monitorar continuamente os níveis dos rios, organizar equipes de resposta, capacitar servidores, orientar a população e articular ações com os governos estadual e federal”, orienta.
Sobre a pesquisa
A dissertação de Gilmar Pereira Sidônio, intitulada Interação entre secas e inundações na Amazônia: desafios para a gestão de riscos de eventos extremos, foi defendida em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGAD/UFPA), sob orientação da Profa. Dra. Marinalva Cardoso Maciel e co-orientação da Profa. Dra. Terezinha Ferreira de Oliveira.
Ao redor do mundo, os Patrimônios Mundiais reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) representam locais considerados de Valor Universal Excepcional por sua importância cultural, natural ou pela combinação de ambas.
O Equador, país da América do Sul, que compõe a Amazônia Internacional, possui cinco patrimônios mundiais reconhecidos pela Unesco. No entanto, apenas um fica localizado na região amazônica: O Parque Nacional Sangay.
Adotada pela Unesco em 1972, a convenção do Patrimônio Mundial e Natural classifica os patrimônios culturais e naturais através de monumentos, grupos de edifícios, sítios, formações físicas, biológicas e geológicas excepcionais, habitats de espécies animais e vegetais ameaçadas e áreas que tenham valor científico e de conservação.
O único Patrimônio Mundial do Equador localizado na Amazônia Internacional, o Parque Nacional Sangay, possui cerca de 270 mil hectares, e abriga uma grande diversidade de ecossistemas, como geleiras e paisagens vulcânicas, florestas nubladas, pântanos, lagos, páramos das terras altas e a floresta amazônica. Além disso, o parque também abriga o vulcão Sangay, com 5.140 metros de altitude, considerado um dos vulcões mais ativos do mundo.
De acordo com a Unesco, o isolamento geográfico do parque contribui para a preservação de espécies da fauna equatoriana, além de servir como refúgio para animais ameaçados, como a anta-da-montanha, o urso-de-óculos e o condor-andino. O Parque Nacional Sangay foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1983.
Localizadas no Oceano Pacífico, a cerca de mil quilômetros da costa do Equador, as Ilhas Galápagos são compostas por 19 ilhas e uma extensa reserva marinha. De acordo com a Unesco, a área é conhecida como um verdadeiro ‘museu vivo da evolução’, e sua localização na confluência de três correntes oceânicas favoreceu o desenvolvimento de uma fauna e flora únicas, incluindo iguanas marinhas, tartarugas-gigantes, cormorões não voadores e diversas espécies de tentilhões.
As Ilhas Galápagos viraram Patrimônio Mundial da Unesco em 1978.
Foto: BORSBEEKREIZEN/Tripadvisor
Centro Histórico de Santa Ana de los Ríos de Cuenca
Fundada em 1557, a cidade de Cuenca está situada em um vale cercado pela Cordilheira dos Andes e preserva até hoje o planejamento urbano colonial implantado durante a colonização espanhola. De acordo com a Unesco, o centro histórico mantém o traçado ortogonal original há mais de quatro séculos e reúne um importante conjunto arquitetônico, especialmente de edificações construídas no século XVIII.
O centro histórico de Santa Ana de los Ríos de Cuenca virou patrimônio mundial da Unesco em dezembro de 1999.
Foto: Adam Stoffa/Flickr
Qhapaq Ñan – Sistema Rodoviário Andino
O Sistema Rodoviário Andino é uma extensa rede de estradas construída pelos incas para conectar cidades, centros administrativos, locais religiosos e áreas produtivas. De acordo com a Unesco, o sistema possui mais de 30 mil quilômetros distribuídos por seis países sul-americanos (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru), e demonstra o conhecimento de engenharia desenvolvido pelas populações andinas.
O Qhapaq Ñan, Sistema Rodoviário Andino, foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco no ano de 2014.
Foto: Laura R/Tripadvisor
Cidade de Quito
Capital do Equador, Quito foi fundada pelos espanhóis sobre as ruínas de uma antiga cidade inca e está situada a aproximadamente 2.850 metros de altitude, nas encostas do vulcão Pichincha. De acordo com a Unesco, Mesmo após o terremoto de 1917, a cidade preservou um dos centros históricos mais completos e bem conservados da América Latina.
Além disso, no centro da cidade, encontram-se conventos e igrejas e casas, geralmente construídas com tijolos de barro e revestidas com estuque, combinando o monumental com o simples e austero.