De duplas sertanejas consagradas à nomes da música regional, muitos artistas amazônidas adotam nomes artísticos para expressar melhor sua identidade e se conectar com o público. Dessa forma nem sempre o nome que faz sucesso é o mesmo que está na certidão de nascimento.
Nesta série, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Conheça alguns dos mais populares em Tocantins:
Henrique e Juliano
A dupla sertaneja Henrique e Juliano acumula dezenas de sucessos e repertórios de milhões de streams nas plataformas digitais, com faixas como ‘Arranhão’, ‘A maior Saudade’, ‘Acordo’, ‘Rasteira’ e ‘Liberdade Provisória’. Os artistas ganharam popularidade nacional com o sucesso da música ‘Vem Novinha’ e do lançamento do primeiro DVD, ‘Ao Vivo em Palmas’, em 2013
Os irmãos nasceram em Palmeirópolis, uma cidade no interior do Tocantins. Apesar do sucesso alcançado em nível nacional, eles mantiveram suas raízes e vivem atualmente em Palmas sem abrir mão da vida na fazenda.
Henrique, batizado como Ricelly Henrique Tavares Reis, nasceu no dia 23 de maio de 1989, e começou a cantar com o irmão aos 17 anos, influenciados pelo pai.
Ricelly Henrique Tavares Reis, conhecido como Henrique. Foto: Reprodução/ site oficial Henrique e Juliano
Antes da fama, o cantor cursava direito e trabalhava em Palmas, onde teve a oportunidade de cantar na ‘Balada Sertaneja’ ao lado de nomes renomados. Depois disso, ele se dedicou à carreira musical ao lado do irmão, e atualmente administra a carreira, os negócios da família e vive uma vida reservada na fazenda com a esposa e os filhos.
Juliano, batizado como Edson Alves dos Reis Júnior, é o irmão caçula e nasceu no dia 27 de novembro de 1990. O cantor teve as mesmas influências que o irmão e sempre foi muito inspirado pelo pai.
Edson Alves dos Reis Júnior, conhecido como Juliano. Foto: Reprodução/ site oficial Henrique e Juliano
Longe dos palcos o artista costuma gostar de adrenalina, e tem como hobbies o drift e a pilotagem de avião, tendo permissão para pilotar desde os 18 anos. Atualmente o cantor se dedica além dos palcos, a sua esposa e filhas.
Mariá
A cantora e compositora Maria Luiza Nomellini iniciou a carreira sob o nome artístico Malu Nomellini, mas adotou o nome de Mariá como forma de representar a sua identidade artística.
“Minha jornada na música e nas artes começou com o nome Malu Nomellini, uma combinação natural do meu próprio nome. Com o tempo, senti que precisava de algo que traduzisse com mais profundidade a minha essência, minha poesia e o propósito do que eu crio. Foi então que surgiu Mariá, uma versão mais íntima e fluida de mim mesma, que significa unir, misturar e harmonizar de forma bela e natural”, afirmou a cantora ao Portal Amazônia.
Maria Luiza Nomellini, conhecida como Mariá. Foto: Reprodução/Instagram-@amariacantora
De acordo com Mariá, o nome artístico não é apenas uma escolha estética, mas sim um espaço simbólico de criação e liberdade que possibilitou à artista explorar a sua arte com mais autenticidade e coerência. Além disso, Mariá acredita que adotar o nome artístico proporcionou a criação de uma conexão mais forte com o público.
“É como se, ao adotar esse nome, eu também tivesse assumido meu lugar no mundo artístico e o propósito que quero transmitir por meio do meu trabalho”, concluiu a cantora.
Dorivã Passarim do Jalapão
O cantor e compositor Dorivã Passarim do Jalapão, batizado como Dorivan Borges da Silva, nasceu na cidade Cristalândia, mas passou a infância e adolescência na cidade de Gurupi, no Tocantins. O artista iniciou sua carreira musical em 1979, aos 18 anos, quando se tornou músico profissional.
Apesar de ter iniciado a carreira em em 1979, o cantor só teve o seu primeiro disco lançado no ano de 2000. Sua música mescla elementos da cultura popular tocantinense e da música popular brasileira, refletindo identidade e o pertencimento regional, daí seu nome artístico.
Dorivan Borges da Silva, conhecido como Dorivã Passarim do Jalapão. Foto: Elton Abreu
Suas composições, como ‘Forró Traquino’ e ‘Romeiro do Bonfim’, se tornaram sucessos regionais. Reconhecido nacionalmente, representou o Tocantins na França em 2002, no projeto ‘Ano do Brasil na França’, promovido pelo Ministério da Cultura.
Entre seus principais trabalhos estão os álbuns ‘Passarim do Jalapão’, ‘Passarim num pé de serra’, ‘Taquarulu’ (2007) e ‘Folia Dourada’ (2015). Dorivã também é gestor cultural, e coordena o projeto Meninos do São João Luzis, que incentiva o ensino musical em escolas rurais.
Braguinha Barroso
Sebastião Barroso Sampaio, conhecido como Braguinha Barroso, é um cantor e compositor nascido na cidade de Tocantinópolis, no Bico do Papagaio, no dia 22 de janeiro de 1954. O artista começou na carreira musical ainda na infância quando foi escolhido para participar do coral da escola.
Sebastião Barroso Sampaio, conhecido como Braguinha Barroso. Foto: Reprodução/Facebook-@Braguinhabarroso
Com uma carreira marcada por festivais e composições autorais, Braguinha é autor da ‘Canção de Amor e Palmas’, hino oficial da capital do Tocantins. Braguinha é reconhecido em festivais como o Musicanto Latino-Americano e o Festival da Rede Globo, onde foi premiado em 1995 com a canção ‘Catirandê’.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
No Pará, artistas têm ganhado reconhecimento nacional levando os sons do Norte para o Brasil inteiro, com músicas que refletem a diversidade e a região amazônica. Vários deles adotaram nomes artísticos que diferem de seus nomes reais, escolhidos como símbolo de transformação pessoal e identificação até mesmo com o público.
Nesta série, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Conheça alguns dos mais populares no Pará:
Fafá de Belém
Maria de Fátima Palha de Figueiredo, conhecida nacionalmente como Fafá de Belém, é uma das maiores cantoras da música popular brasileira. Natural de Belém, no Pará, começou a cantar em festas familiares e encontros sociais quando ainda era criança.
Foto: Pedro Vitorino
Sua estreia na música aconteceu em 1976, com o lançamento do álbum ‘Tamba Tajá’. Seu segundo álbum, ‘Água’ de 1997, vendeu mais de 95 mil cópias, deixando a artista nas paradas de sucesso.
Durante sua carreira, Fafá passeou por diversos gêneros musicais como o bolero, o romance, o samba-canção, o carimbó, o sertanejo e até o rock. Apesar disso, a cantora jamais abandonou suas raízes paraenses.
Jade de Souza Melo é conhecida nacionalmente como Jaloo. A cantora de música brasileira contemporânea nasceu em Castanhal, no Pará, e iniciou sua trajetória produzindo remixes e divulgando seus trabalhos na internet.
Foto: Caia Ramalho
Artista trans, começou a carreira ainda usando o nome Jaime, o que deu origem ao nome artístico: a união entre ‘Ja’, de Jaime, e ‘lo’, de Melo, com um ‘o’ a mais para garantir exclusividade no buscador do Google. A escolha do nome Jade a ajudou a manter a identidade artística e a cantora ganhou repercussão nacional misturando pop eletrônico, tecnobrega, indie e outros sons.
Seu álbum de estreia, #1, lançado em 2015, apresentou uma estética futurista totalmente enraizada na cultura amazônica, e foi aclamado pela crítica. A cantora também é conhecida por sua performance visual e seu engajamento com a diversidade de gênero e sexualidade.
Pinduca
Aurino Quirino Gonçalves, conhecido como Pinduca, nasceu em Igarapé-Miri, em 1937. Considerado o ‘Rei do Carimbó’, ele foi responsável por popularizar ritmos típicos como o carimbó, o siriá e o lundum em todo o país, com mais de 30 álbuns gravados desde os anos 1970.
“Eu fui dançar numa quadrilha junina, lá na casa da dona Cabocla Valois. E eu fui colocar nomes, apelidos engraçados, nas abas dos chapéus, para os componentes da quadrilha e cada dançarino da quadrilha tinha um nome engraçado, que eu mesmo escrevi na aba do chapéu. Aí, na aba do meu chapéu, eu escrevi Pinduca. Quando coloquei o chapéu na cabeça, todo mundo começou a me chamar assim. Não me chamavam mais de Aurino, não. Ficou Pinduca”, afirmou o cantor ao Portal Amazônia.
O artista gostou tanto do apelido que entrou na justiça para mudar seu nome de registro, e a mais de 20 anos seu nome passou a ser Aurino Pinduca Quirino Gonçalves, o Pinduca.
“Depois disso foi só prosseguimento… Pinduca pra cá, Pinduca pra lá, veio o Rei do Carimbó, e ficou Pinduca para a eternidade”, concluiu.
Gaby Amarantos
Nascida Gabriela Amaral dos Santos, a cantora Gaby Amarantos ganhou destaque em 2012 com a música ‘Ex Mai Love’, que foi trilha sonora de novela e sucesso nas rádios de todo o país.
A artista se tornou uma referência do tecnobrega, gênero que mistura música eletrônica com elementos do brega tradicional paraense.
Ao longo dos anos, a artista participou de programas de televisão, atuou como jurada de reality shows, apresentou programas e seguiu lançando músicas que exploram não apenas o tecnobrega, mas também o afropop, o carimbó e o samba.
Seu nome artístico ‘Amarantos’, é uma junção de seus sobrenomes ‘Amaral’ e ‘Santos’.
Dona Onete
Ionete da Silveira Gama, a eterna Dona Onete, nasceu em 1938, em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó. A cantora, que só gravou seu primeiro disco aos 73 anos, é professora de história e estudos paraenses, e se dedicou durante a vida à educação e à cultura.
Quando se aposentou, Onete passou a se apresentar em bares de Belém, até ser descoberta por músicos do Coletivo Rádio Cipó e ser convidada a participar de shows.
Seu álbum de lançamento, Feitiço Caboclo, trouxe composições com letras sensuais e com expressões da cultura marajoara. Seu segundo disco, Banzeiro, lançado em 2016, ganhou projeção nacional e a faixa-título foi regravada por Daniela Mercury virando sucesso no carnaval.
Ainda na ativa aos 80 anos, Dona Onete fala em suas canções sobre amor, prazer, sedução e resistência.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Os nomes artísticos muitas vezes escondem histórias curiosas e com significados pessoais. Por trás desses nomes consagrados nos palcos, existem histórias de identidade cultural que revelam um pouco mais sobre suas trajetórias.
Nesta série, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Conheça alguns dos mais populares no Amapá:
Tani Sereia
Tânia Fátima, conhecida como Tani Sereia, é uma cantora e compositora amapaense considerada uma voz promissora na região. Tânia carrega em seu nome de batismo um significado especial, já que o ‘Fátima’ foi uma promessa feita por sua mãe a Nossa Senhora de Fátima antes do seu nascimento.
Na infância, a artista era chamada de ‘Taninha’, porém, durante a adolescência, uma amiga resolveu encurtar ainda mais o apelido, chamando-a de ‘Tani’. O novo nome pegou e acabou se tornando a forma como passou a ser conhecida, tanto na vida pessoal quanto na artística.
‘Tani’, segundo ela, é um nome que transmite suavidade, algo que a artista considera positivo, principalmente quando entra em contraste com a potência da sua voz nos palcos.
“Acho que o nome curto e diferente ajuda a ser lembrado e a estabelecer identidade, além do elemento surpresa, ‘Tani’ transmite uma doçura, o que causa catarse quando a voz também marcante ecoa pelos palcos”, explica a cantora.
O ‘Sereia’, por sua vez, nasceu de uma ligação afetiva com as águas. Desde pequena, Tani sempre sentiu uma conexão especial com rios e mares, e a figura mitológica da sereia sempre exerceu fascínio sobre ela.
“A sereia sempre foi a figura mitológica que eu mais me identifiquei desde criança, além de ter toda a magia envolvendo a voz das sereias, que têm o poder de encantar pelo canto e até de levar os pescadores para fundo consigo”, conta a artista.
Natural de Macapá, Hernani Vitor Carrera Guedes, conhecido como Nivito Guedes, é um cantor, compositor, violinista e um dos grandes nomes amapaenses.
O nome artístico adotado pelo cantor une partes do próprio nome: ‘Ni’ de Hernani e ‘vito’ de Vitor, formando Nivito, acompanhado do sobrenome Guedes.
Foto: Paulo Rafael
Conhecido pelo estilo único de tocar violão, Nivito construiu uma carreira sólida baseada na valorização da cultura amazônica. Com influências que vão do Marabaixo e Batuque, folclores tradicionais do Amapá, ao Carimbó paraense, passando pelo Merengue caribenho e pelo swing romântico, o artista desenvolveu uma sonoridade que mistura ritmos indígenas, caribenhos e brasileiros.
O artista possui três álbuns autorais, Todas as Luas, Tô em Macapá e uma coletânea com músicas apresentadas em festivais no Amapá e em outros estados. Em suas obras o artista reflete não apenas a sua identidade artística, como também a diversidade cultural da região.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
O Acre, fonte de talentos que ultrapassam fronteiras locais, é berço de diversas personalidades conhecidas. Grande parte desses artistas adotaram nomes artísticos que diferem de seus nomes reais, escolhidos como forma de representar a sua personalidade.
Nesta série, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Conheça alguns dos mais populares no Acre:
Diko Lobo
Cledson Castanho, conhecido como Diko Lobo e apelidado de ‘Diquinho’, foi um cantor e compositor de rock regional.
Natural de Cruzeiro do Sul, Diko desenvolveu interesse pela música em 1993, quando ouviu no rádio a música ‘Knockin’ on Heaven’s Door’, do Bob Dylan, interpretada pela banda Guns N’ Roses.
Foto: Arquivo pessoal-Diko Lobo
Ao longo da carreira, Diko tinha como referências internacionais bandas como Pink Floyd, Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin, Bon Jovi, Guns N’ Roses e Metallica, além de ícones do rock brasileiro como Raul Seixas, Legião Urbana, Barão Vermelho e Engenheiros do Hawaii. Em suas músicas Diko abordava temas políticos, poéticos, românticos e satíricos.
O cantor faleceu aos 41 anos em Cruzeiro do Sul, deixando um legado no rock regional. Em seu velório familiares, amigos, fãs e autoridades prestaram homenagens ao artista.
Abismar Gurgel Valente, conhecido artisticamente como Mestre Bima, nasceu em Tefé, no Amazonas. No entanto, foi levado ainda bebê com a mãe para os seringais do Alto Rio Envira, no Acre, onde fez muito sucesso.
Seu Bima, começou a tocar violão aos 10 anos de idade, acompanhando seu pai, José Pedro, mestre em sanfona harmônica. Ainda jovem, tornou-se um dos principais representantes da música popular do Acre.
Foto: Arison Jardim
O artista foi fundamental na preservação e difusão de ritmos tradicionais com influências indígenas, nordestinas e amazônicas.
Suas composições são marcadas por batuques e uma mistura de batidas rítmicas das comunidades indígenas, com sons nordestinos e outras influências da região norte, o tornando uma referência para músicos e pesquisadores da cultura popular.
Glória Perez
Fugindo do núcleo musical, outra artista acreana usou da criatividade para conquistar o público brasileiro de outra forma: com as novelas. Glória Maria Rebelo Ferrante, conhecida nacionalmente como Glória Perez, nasceu em Rio Branco, no Acre, no dia 25 de setembro de 1948.
O nome artístico adotado, na verdade era o nome de casada. Em 1969, após um ano vivendo juntos, casou-se com o engenheiro Luiz Carlos Saupiquet Perez, com quem teve três filhos (Daniella, Rodrigo e Rafael). Eles se separaram em 1984.
Autora de novelas e minisséries que marcaram a teledramaturgia nacional, Glória viveu em sua cidade natal até os 16 anos, quando se mudou com a família para Brasília, depois para São Paulo, até chegar no Rio de Janeiro, onde consolidou sua carreira.
Formada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Glória Perez iniciou a carreira como escritora na televisão em 1979, ao escrever uma sinopse para um episódio do seriado ‘Malu Mulher’. Embora o episódio não tenha sido produzido, o texto chamou a atenção de Janete Clair, uma das maiores autoras de novelas do Brasil, que a convidou para ser assistente na novela ‘Eu Prometo’ (1983).
Desde então, acumulou sucessos como ‘Partido Alto’ (1984), ‘Barriga de Aluguel’ (1990), ‘Explode Coração’ (1995), ‘O Clone’ (2001), ‘América’ (2005), ‘Caminho das Índias’ (2009), vencedora do Emmy Internacional, além da minissérie ‘Amazônia – de Galvez a Chico Mendes’ (2007), que homenageia sua terra natal e narra episódios marcantes da história acreana.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Em Roraima, alguns artistas adotam nomes que diferem de seus nomes reais, para carregar ao longo da carreira. Esses nomes artísticos, em geral, são símbolos da trajetória, do pertencimento ou da transformação pessoal do artista.
Nesta série, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Conheça alguns dos mais populares em Roraima:
Euterpe
A cantora e compositora Andressa Nascimento adotou ‘Euterpe’ como nome artístico em 2009, no lançamento de seu primeiro álbum, ‘Batida Brasileira’.
O nome tem dupla referência, já que é científico – da palmeira do açaí (Euterpe oleracea) – e também mitológico, fazendo referência à musa da música na mitologia grega.
Foto: Euterpe/Arquivo Pessoal
Eurterpe nasceu em 1985, em Boa Vista (RR), e começou sua trajetória musical influenciada pelo pai, que era tecladista amador. A artista começou a cantar aos sete anos e participou de vários corais ao longo da carreira.
O álbum ‘Batida Brasileira’ foi produzido com apoio do prêmio do Festival de Canto Forte da Funarte e gravado em Belém do Pará, trazendo parcerias importantes com artistas como Eliakin Rufino e Jorge Farias.
Com uma forte ligação com a cultura amazônica e roraimense, ela valoriza suas raízes locais nas músicas, possuindo um repertório voltado para a poesia, a ancestralidade e os ritmos da floresta.
Ana Lu
A cantora Ana Luiza de Oliveira Pinto, conhecida nacionalmente como Ana Lu, optou por um nome curto, leve e de fácil memorização. Segundo ela, ‘Ana’ é comum, geralmente associado, e em busca de algo mais marcante e com energia positiva, Ana se inspirou em artistas como Chorão para adotar um nome artístico direto e descontraído.
“As combinações que eu fazia, ou achava grande, comum ou sério para o meu artístico. Queria um nome curto e de fácil fixação, Ana Lu ficou descontraído e com uma boa energia”, afirma a cantora.
Foto: Reprodução/ Instagram Ana Lu
Apesar do nome artístico, familiares e amigos mais antigos ainda a chamam por apelidos carinhosos ou pelo nome de registro. Para a cantora, a escolha do nome artístico contribuiu muito para a construção de sua imagem e identidade musical.
“Acredito que o nome Ana Lu traz essa vibe leve, de alegria. Acho um nome doce, e tem tudo a ver com a energia que gosto de levar através do meu som”, concluiu a cantora.
Leka Denz
A história do nome ‘Leka Denz’ surgiu ainda nos primórdios da internet, na época do MIRC, quando a cantora Alessandra Almeida Denz escolheu o apelido ‘Leleca’ como nickname (apelido) em salas de bate-papo em Boa Vista. Com o tempo, o apelido foi sendo abreviado pelas pessoas para ‘Leca’.
“Quando começamos a acessar a internet, na época do MIRC, as pessoas escolhiam nicknames para entrar na sala de bate papo aqui da cidade de Boa Vista e por algum motivo que não lembro, escolhi Leleca. Em um determinado momento, alguém resolveu abreviar e me chamar de Leca e isso pegou, eu apenas incluí a letra K, porque achei que trazia mais força e personalidade à palavra escrita”, afirmou a cantora.
Foto: Reprodução/ Facebook Leka Denz
De acordo com Leka, o nome artístico vem fortalecendo a sua carreira. Ela costuma refletir sobre o impacto que um nome pode ter em uma carreira artística e considera, inclusive, a possibilidade de mudanças futuras, como a retirada do sobrenome ou a adição de letras que tragam mais equilíbrio.
No entanto, ela acredita que qualquer alteração precisa vir de maneira natural, guiada por intuição ou pelos sinais do mundo ao redor. Para ela, não se trata de forçar um novo nome, mas de estar atenta aos sinais que a própria jornada pode indicar.
“Cheguei à conclusão que energeticamente é um nome que tem fortalecido a minha trajetória, e se for necessária alguma mudança desse tipo, vou sentir e isso vai acontecer naturalmente. Não precisa ser algo forçado, às vezes é o próprio mundo e as pessoas que nos dão esse direcionamento, só precisamos estar atentas aos sinais”, concluiu a artista.
Zeca Preto
Nascido José Maria de Souza Garcia, o cantor, compositor e poeta é conhecido nacionalmente como Zeca Preto. Ele nasceu em Belém do Pará, em 1950, e iniciou sua trajetória musical aos 23 anos, ao participar de um festival em Marabá, ainda no Pará.
No entanto, foi em Boa Vista que Zeca alcançou o sucesso e encontrou grandes nomes da música.
Foto: Reprodução/Facebook-Zeca Preto Page
Foi em Roraima que Zeca construiu uma identidade cultural e um sentimento de amor e pertencimento. Em 1984, foi um dos fundadores do Movimento Roraimeira, ao lado de Neuber Uchoa e Eliakin Rufino, com o objetivo de fortalecer a identidade cultural local, utilizando elementos indígenas e ritmos do norte do Brasil, como carimbó, siriá, merengue e salsa.
Zeca já se apresentou em vários estados do Brasil, além de países como Venezuela e Suíça, e em 2018, o Roraimeira foi reconhecido com a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Em Rondônia, artistas de destaque na música e no entretenimento digital adotam nomes artísticos que diferem de seus nomes reais. Por trás desses nomes cuidadosamente escolhidos, existem histórias de pertencimento, de resistência, inovação e de transformação pessoal.
Nesta série, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Conheça alguns dos mais populares em Rondônia:
Bado
Bado, nome artístico de Erivaldo de Melo Trindade, nasceu em 1964 em Porto Velho. Sua trajetória começou nos anos 1980, quando ele escrevia para espetáculos teatrais que integravam o movimento cultural da cidade.
Ele então passou a se apresentar com voz e violão em bares e eventos, sendo considerado um dos expoentes do movimento Grito de Cantadores, um movimento importante na consolidação da identidade musical de Porto Velho.
Foto: Reprodução/Facebook Bado
Seu primeiro trabalho surgiu nos anos 1990, em coletâneas como Porto das Esperanças (1992) e Amazônia em Canto (1995). No entanto, seu disco solo de estreia, Aldeia de Sons, só foi lançado em 2007, reunindo faixas que fundem a MPB a elementos regionais da Amazônia.
Com mais de quatro décadas de carreira, Bado é referência da música amazônica e já foi reconhecido nacionalmente, como ao receber o Prêmio Grão de Música em 2021 pela canção Mundos.
Ella (ex Jotta A)
Ella Viana de Holanda, mais conhecida como Jotta A, nasceu como José Antônio Viana de Holanda, no dia 8 de outubro de 1997, em Guajrá-Mirim.
A artista iniciou sua carreira musical aos seis anos, cantando música gospel, e seu talento a levou à fama após participar do programa de calouros do apresentador Raul Gil, na infância.
Foto: Reprodução/Instagram Ella Viana
Ella lançou diversos álbuns pela gravadora Central Gospel, como Essência e Geração de Jesus, este último indicado ao Grammy Latino.
Em 2020, Jotta A rompeu com a carreira gospel para se dedicar à música pop e, em 2022, anunciou publicamente que é uma mulher trans, iniciando o processo de transição de nome e gênero.
Desde então, tem usado seu nome feminino Ella Viana de Holanda, enquanto mantém o nome artístico Jotta A como símbolo de sua trajetória artística.
Gabriê
A artista Gabrielle Custódio Junqueira, natural de Rondônia, ganhou destaque nacional depois sua participação no programa The Voice Brasil. Atualmente, Gabrielle atende pelo nome artístico Gabriê, resultado de uma decisão estética e simbólica que marcou uma nova fase de sua carreira.
“Em meados de 2017 eu estava querendo lançar uma estética diferente da que eu vinha trazendo. Achava que meu nome completo já não cabia dentro do que eu queria propor”, explica a artista.
O nome Gabriê surgiu como uma sugestão de sua empresária, já que na época os nomes sem gênero e com terminações em ‘e’ estavam surgindo e ganhando mais evidência.
A mudança também refletiu em como ela passou a se perceber e se relacionar com o público:
Foto: Reprodução/Instagram Gabriê
“Só minha família, meu namorado e os amigos mais próximos me chamam de Gabrielle. Já não me sinto à vontade quando alguém que não tem um vínculo mais forte comigo me chama assim. Gosto muito de Gabriê”.
Ela acredita que seu nome artístico faz total diferença na carreira e que não existia ninguém com esse nome antes dela.
“Depois da minha aparição no The Voice recebi várias mensagens de mães que colocaram os nomes de suas filhas de Gabriê. Ou seja, foi algo que marcou as pessoas. Tudo que é diferente, marca mais”, afirma.
Willou e Watson
Saindo da música, os irmãos gêmeos Willou e Watson, embora tenham nascido em São Félix do Araguaia (MT), construíram suas carreiras em Rondônia, onde passaram boa parte da infância e juventude.
Com uma trajetória marcada por dificuldades financeiras e tragédias familiares, os dois criaram um canal no YouTube ainda em 2009.
Foto: Divulgação
O sucesso veio com o retorno do canal, em 2015, após terem perdido o conteúdo original depois de um ataque hacker, mas foi em 2016 que aconteceu a virada de chave, e os irmãos atingiram 100 mil inscritos. Atualmente, acumulam milhões de seguidores e fazem parte da nova geração de influenciadores digitais.
A história dos nomes dos irmãos é inusitada. Apesar de parecerem nomes artísticos criados, os nomes dos gêmeos são os verdadeiros. A mãe, dona Geni, acreditava estar grávida de apenas um bebê e só havia escolhido o nome de Willou, nome foi inspirado no filme ‘Willow – Na Terra da Magia’, de 1988.
Com Watson, a história foi diferente, como sua mãe não sabia de sua existência até a hora do parto, ele não tinha um nome para chamar de seu, e por conta de seus familiares o chamarem de amassadinho, já que ele nasceu com o rosto amassado, sua mãe resolveu então dar um nome ao bebê.
Foi quando, como uma forma de homenagear o pai das crianças, dona Geni escolheu Watson, já que juntando a primeira sílaba do nome de Willou e a última sílaba do nome de Watson, forma-se o nome do pai, Wilson.
Clementte
Juan Clementte, natural de Alvorada D’Oeste, é um dos novos nomes da cena pop e funk do estado. Com mais de 130 mil seguidores nas redes sociais, o cantor e compositor tem se destacado por unir batidas dançantes a mensagens de conscientização.
Foto: Reprodução/ Instagram Clementte
O cantor decidiu usar o sobrenome na carreira e acredita que um fator decisivo foi se mudar para a cidade de Ji-Paraná, onde começou a gravar vídeos e a ganhar maior visibilidade nas plataformas digitais.
Seu estilo, descreve, é uma mescla entre o emocional de artistas como Jão e a energia de nomes como Pedro Sampaio. A música ‘Mente Pra Mim’, que fala sobre o fim de um relacionamento foi sua primeira autoral a viralizar.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Diversos artistas adotam nomes diferentes dos reais que marcam suas carreiras. Os nomes artísticos podem surgir das mais diversas formas: por acaso, uma brincadeira, uma lembrança, um apelido, entre tantas outras. Em geral, as escolhas acabam se tornando estratégias para facilitar a identificação com o público.
Com essa curiosidade, o Portal Amazônia procurou artistas dos estados na Amazônia Legal que adotaram esses nomes diferentes dos próprios para seguir carreira. Nesta série você vai conhecer alguns dos mais populares, começando pelo Amazonas:
Berg Guerra
Morador do bairro de São Jorge, em Manaus, Uosley dos Santos Guerra é o nome por trás do cantor Berg Guerra. Durante a infância e adolescência, tinha o sonho de ser cantor e jogador de futebol, por influência de seu irmão mais velho, Ninimberg Guerra, atacante do Botafogo em 1983.
Chegou a atuar no futebol pelo ASA, no Amazonas, e pelas categorias de base do Fluminense, no Rio de Janeiro, antes de retornar ao Amazonas e investir na carreira musical. Seu nome artístico ‘Berg Guerra’ surgiu como uma homenagem ao irmão, falecido em 1996.
Em sua carreira, Berg Guerra formou várias duplas como ‘Berg e Breno’, ‘Berg e Adriano’ e ‘Berg e Bryan’, até ser convidado por Jonas Alves para participar de uma banda de forró no clube da companhia.
No entanto, Berg percebeu que não servia para cantar forró e, com a saída da banda, migrou para o bolero pop, com o qual ganhou notoriedade.
O cantor traz em seu repertório os estilos de bolero e brega, com diversas canções de sucesso que marcaram época desde os anos 80, como ‘Mi vida’ e ‘Tu Sabes’.
Zezinho Corrêa
Batizado como José Maria Nunes Corrêa, Zezinho Corrêa nasceu na comunidade Imperatriz, no município de Carauari, no interior do Amazonas. Eternizado como a voz do grupo de boi bumbá Carrapicho, Zezinho fez enorme sucesso com a música ‘Tic Tic Tac’ nos anos 90.
Foto: Márcio Benchimol
Antes de estrear como cantor, Zezinho vivia do teatro. Estudou interpretação e dança no Rio de Janeiro e atuou no Grupo de Teatro Experimental do Sesc, estrelando espetáculos que valorizavam a cultura amazônica, como ‘Folias do Látex’ e ‘Tem Piranha no Pirarucu’, o que o ajudou com a presença de palco como vocalista do Carrapicho.
Zezinho Corrêa faleceu no dia 6 de fevereiro de 2021, aos 69 anos, vítima da Covid-19. No entanto, seu legado permanece vivo nas vozes que continuam entoando os batuques do boi bumbá.
Paulo Onça
Paulo Juvêncio de Melo Israel, nascido e criado no bairro do Boulevard, em Manaus, ganhou o apelido que levaria como identidade artística ainda na adolescência.
Conhecido inicialmente como ‘Paulo Galinha’, devido à sua fama de namorador na adolescência, o artista teve seu nome artístico rebatizado por influência de um amigo de longa data.
Foto: Reprodução/Amazon Sat
De acordo com Simone Andrade, viúva de Paulo, quem apelidou Paulo de ‘onça’ foi Nicolau Montemurro, já que quando Paulo ia compor, se afastava do convívio social para escrever e refletir, passando longos períodos em silêncio nas redondezas da Igreja Nossa Senhora de Nazaré.
“Ele era muito calado, Paulo era muito na dele, gostava de compor ali por trás da igreja e ficava ali. Os meninos, na época, todo mundo jogando dominó, jogando bola, que, de primeiro, nos anos 70, 80, a moçada se reunia muito em praça. Aí o Montemurro fala assim: ‘Tu parece uma onça, tu só vives isolado, só vives muito distante da gente’. Foi o Montemurro que botou esse apelido no Paulo Onça”, declarou Simone ao Portal Amazônia.
A partir daí, Paulo decidiu levar esse nome para a vida toda, adotando como nome artístico. Segundo Simone, o nome deu muito certo e foi o que fez a diferença na carreira do compositor.
Nascido no dia 14 de dezembro de 1948, em Manaus, José Bernardo Nunes Filho, ou simplesmente Nunes Filho, é um dos nomes mais lembrados da música amazonense.
Ele ficou conhecido como o ‘Príncipe do Brega’, título conquistado graças ao seu talento e proximidade com o público.
Foto: Suelen Golçalves
Ao longo de sua carreira, ele interpretou gêneros diversos, mas foi no brega que alcançou maior destaque, com sucessos como ‘Lábios de Mel’ e ‘Por Te Amar Assim’.
Com mais de 70 anos, ele segue em atividade, se apresentando em eventos culturais e programas de rádio e televisão.
Lorena Simpson
Lorena Caroline da Silva Simpson, conhecida artisticamente como Lorena Simpson, é natural de Manaus e cantora da música pop eletrônica do Brasil.
Foto: Reprodução/Instagram.
Reconhecida nacional e internacionalmente por hits como ‘Brand New Day’, lançado em 2009, Lorena foi uma das primeiras cantoras de música pop eletrônica do Brasil a ganhar destaque fora do país.
Somando centenas de shows, mais de 10 singles lançados, um EP e diversos videoclipes, a artista já se apresentou em países como México, Argentina, Chile, Portugal e Estados Unidos.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
A expressão ‘Amazônia Setentrional‘, apesar de não ser uma divisão oficial adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é amplamente utilizada por pesquisadores, pelo setor de defesa e por especialistas em debates acadêmicos, ambientais e geopolíticos para se referir à porção mais ao norte da Amazônia Legal, uma região estratégica e diversa.
O termo deriva da ideia de posição geográfica associada aos pontos cardeais, já que assim como ‘meridional’ remete ao Sul, setentrional refere-se ao Norte, ou seja, algo setentrional está acima, geograficamente, de outra parte no topo do mapa.
“O termo setentrional está sendo associado aos pontos cardeais. Então, o norte, o sul, o leste, o oeste. O norte também é chamado de setentrional ou também chamado de boreal, onde acontecem as auroras boreais no extremo do hemisfério norte”, explicou o doutor em geografia, Deivison Molinari, ao Portal Amazônia.
O que compõe a Amazônia Setentrional?
A Amazônia Setentrional corresponde ao limite extremo norte da região, abrangendo áreas que vão desde a costa atlântica amazônica até fronteiras internacionais como a Guiana Francesa, o Suriname, a Guiana, a Venezuela e a Colômbia.
No Brasil, essa porção envolve os estados:
do Amapá, localizado no extremo norte e com áreas de floresta bem preservada;
de Roraima, totalmente setentrional e fazendo fronteira com a Guiana e com a Venezuela;
o Norte do estado do Pará, especialmente a região entre o baixo Amazonas e a fronteira com a Guiana;
e o Norte do Amazonas, nos municípios próximos à fronteira com a Colômbia e a Venezuela.
De acordo com Molinari, a porção setentrional também engloba a parte da Amazônia litorânea, conhecida como Amazônia Azul. “Onde é a flor do Amazonas e a região de Roraima, na área onde existe o contato com o oceano e a faixa da Amazônia das águas”, afirmou.
A área da Amazônia Setentrional se caracteriza por grandes extensões de florestas conservadas, numerosas terras indígenas e unidades de conservação, cidades pequenas com forte dependência dos rios e a presença de fronteira internacional em grande parte do território.
Região estratégica para o Brasil
Amazônia Setentrional e área do projeto Calha Norte. Foto: Reprodução/Tiago Luedy
De acordo com o estudo ‘Interações Fronteiriças no Platô das Guianas: Novas construções, novas territorialidades’, de Durbens Nascimento e Jadson Porto (2010), a Amazônia Setentrional ocupa um papel central no planejamento de Defesa Nacional, já que desde 1980, o Brasil passou a dar mais atenção as áreas de fronteiras do Norte por sua importância geopolítica.
O Projeto Calha Norte (PCN), criado em 1985, tem a missão de proteger a fronteira brasileira, fortalecer infraestrutura de estradas, energia e comunicações, apoiar comunidades indígenas, instalar órgãos federais em regiões remotas e garantir a presença militar em pontos sensíveis.
Atualmente, ele cobre 32% do território nacional, alcançando 194 municípios e boa parte da população indígena brasileira.
Além do carácter ambiental, a Amazônia Setentrional aparece como destaque em estudos de segurança devido ao fenômeno do ‘transbordamento de vulnerabilidades’ vindos de países vizinhos.
Os dados presentes na pesquisa ‘A ameaça do terrorismo internacional sobre a Amazônia Setentrional Brasileira’, de Tiago Luedy, mostram que a região sofre com a influência de grupos criminosos nas fronteiras internacionais, abriga áreas de baixa presença do estado, convive com tensões geopolíticas na chamada Amazônia Caribenha (Guiana, Suriname, Trinidad e Tobago) e é corredor para o tráfico.
Uma Amazônia menos conhecida
Embora seja uma parte crucial do território nacional, a Amazônia Setentrional é pouco conhecida devido a fatores como o difícil acesso terrestre, a longa faixa de fronteira internacional, a urbanização concentrada em poucas cidades e a presença de comunidades tradicionais e populações indígenas.
Essa porção abriga também uma das áreas de floresta mais bem preservadas do país, além de rios, manguezais e ecossistemas costeiros.
Além disso, a região está no centro de discussões que envolvem as pressões ambientais, a mineração legal e ilegal, o avanço de frentes de destruição, a segurança de fronteira, a soberania nacional, as políticas de integração com países vizinhos e a valorização de populações tradicionais.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, é fonte de recursos fundamentais para a economia de madeiras, óleos, sementes e frutos que alimentam a vida de milhares de espécies e centenas de povos indígenas e comunidades tradicionais. Diante do avanço do desmatamento e da exploração sem escala, entender como utilizar a floresta sem destruí-la se torna uma questão essencial.
O Manejo Florestal Sustentável é uma prática que alia o uso racional dos recursos naturais à preservação, pode ser a resposta, já que essa forma de manejo busca garantir que as gerações futuras continuem usufruindo dos mesmos benefícios que existem atualmente, mantendo o equilíbrio.
O que é o manejo florestal sustentável?
O manejo florestal sustentável trata-se da utilização da floresta sem destruí-la por completo, deixando-a irrecuperável.
De acordo com a geógrafa Ivani Faria (UFAM/UNIFAL), o manejo florestal sustentável consiste no conjunto de práticas que permite o uso dos elementos florestais, sejam eles madeireiros ou não-madeireiros, de modo que a floresta possa se regenerar de forma natural.
“Tem que haver essa ideia da regeneração ou a recuperação dessas florestas para o futuro, visando benefícios tanto ambientais quanto econômicos, sociais e culturais que permitam a recuperação, a regeneração delas para o futuro”, afirmou Ivani ao Portal Amazônia.
Curso mostra princípios do manejo florestal em várzeas da Amazônia. Foto: Luciano Abreu
A prática é amparada pelo Decreto nº 1.282, de 19 de outubro de 1995, que regulamenta a exploração das florestas da bacia Amazônica, e define o manejo florestal sustentável como a administração de uma floresta para obtenção de benefícios econômicos e sociais que respeita os mecanismos de sustentação do ecossistema.
Tipos de manejo
De acordo com Ivani, de um jeito mais didático para explicar, existem três formas de manejo florestal sustentável: o manejo de florestas plantadas, o de florestas nativas e os sistemas agroflorestais.
Manejo de florestas plantadas
O manejo de florestas plantadas, também conhecido como silvicultura, consiste no plantio de espécies homogêneas voltadas para a produção. Nessas florestas se cultivam espécies como eucalipto e pinus, voltadas para a fabricação de papel, celulose, carvão e madeira serrada.
Segundo a geógrafa, a silvicultura é um manejo totalmente econômico, voltado ao capital e à indústria, em que essas plantações são otimizadas por tecnologia e costumam ser implementadas na maioria das vezes, em áreas já desmatadas. No entanto, ela alerta para o problema recorrente que é a monocultura que pode causar desequilíbrios nos ecossitemas.
Floresta plantada para o manejo florestal sustentável em Rondônia. Foto: Rinkon Martins
“Todo tipo de monocultura acaba com o solo e desequilibra o ecossistema, mas esse tipo de reflorestamento é totalmente voltado à indústria mesmo, ao capital”, explicou a professora.
Embora o reflorestamento possa ser lucrativo, ele é raramente considerado totalmente sustentável, já que provoca impactos ambientais significativos e reduz a biodiversidade.
O manejo de florestas nativas busca conciliar a exploração econômica com a preservação ambiental e cultural. Neste manejo, a retirada de madeira acontece de forma seletiva e controlada, respeitando os ciclos naturais de regeneração.
Dentre os modelos de manejo nativo existem dois grupos:
Manejo madeireiro: Tipo de manejo em que se retira madeira de espécies específicas de forma planejada, evitando danos às árvores vizinhas e mantendo a floresta em pé.
Manejo não-madeireiro: Tipo de manejo que abrange a coleta de frutos, castanhas, óleos, sementes e cipós sem comprometer a biodiversidade.
Esses tipos de manejo são normalmente realizados por povos indígenas e comunidades tradicionais, que compreendem a floresta como parte da vida e não como mercadoria.
“As comunidades e os povos indígenas não pensam ou tratam os elementos naturais como mercadoria, como capital. Eles entendem os elementos naturais como parte da vida, para garantir a vida e para o bem viver. Um sistema de vida que não dissocia elementos naturais da sociedade mas se integram com um só. Então esse manejo de florestas nativas tem valor ambiental, social, cultural, que vai além, porque é para garantir o bem viver dessas comunidades e a tradição dos povos, que retira esses elementos não-madeireiros para a vida”, explicou Ivani.
Floresta nativa onde se é viável o manejo florestal sustentável. Foto: Reprodução/Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
De acordo com a geógrafa, tudo isso está envolvido no “conhecimento sobre o saber, o fazer e como eles manejam o que é para a sobrevivência e o que é para o bem viver”.
Manejo de sistemas agroflorestais
O sistema agroflorestal (SAF), que combina agricultura, pecuária e floresta, é uma alternativa que tem ganhado destaque. Nele, as plantas nativas convivem com espécies agrícolas e pastagens, criando um ecossistema equilibrado e produtivo.
“Então, ele vem também com essa proposta de uso das espécies nativas, que articula a agricultura e a pecuária com a floresta, usando tantas plantas nativas, frutas e sistemas da agricultura para manter o equilíbrio do ecossistema”, explicou Ivani.
Sistema agroflorestal para o manejo florestal sustentável no Tocantins. Foto: Reprodução/Governo do Tocantins
Esse tipo de manejo vem sendo adotado por assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e por pequenos agricultores da Amazônia, que encontram nesse tipo de prática uma forma de recuperar as áreas degradadas e garantir renda sem agredir o meio ambiente.
De acordo com a geógrafa, o problema que pode ocorrer nesse tipo de manejo é a introdução de espécies exóticas que não são próprias daquele ecossistema, e que podem provocar vários danos como o desequilíbrio ambiental.
Quem pode realizar o manejo?
Equipe realizando estudos para o manejo florestal sustentável. Foto: Reprodução/Imazon
Segundo Ivani, toda a sociedade, de certa forma, deveria realizar o manejo florestal sustentável. Por um lado, o manejo de florestas plantadas seja, em geral, realizado por grandes grupos econômicos, por outro, o manejo de florestas nativas e os sistemas agroflorestais têm se expandido entre pequenos produtores, assentamentos rurais, comunidades tradicionais e povos indígenas.
Projetos como o do fotógrafo Sebastião Salgado, em Minas Gerais, que reflorestou milhares de hectares de área degradada, e as experiências do MST com reflorestamento agroflorestal (Assentamento Quilombo Campo Grande e a projeto “Plantio de Água” a ser desenvolvido no Assentamento Popular de Campo Belo: Joaquim Rosa Cambraia, no sul de Minas Gerais), são exemplos de iniciativas que aliam a recuperação ambiental com a justiça social. Isso mostra que tanto proprietários de terra, posseiros, assentados e até mesmo as empresas podem fazer esse tipo de reflorestamento.
Na Amazônia, os povos indígenas e as comunidades tradicionais, como os castanheiros, seringueiros, açaizeiros, piaçabeiros, quebradeiras de coco, entre tantos outros, são os verdadeiros protagonistas desse processo de manejo.
De acordo com Ivani, essas comunidades realizam o manejo de verdade e “usam apenas o que é necessário para viverem, sem destruir o que garante a própria vida: a floresta”.
Como realizar um bom manejo florestal sustentável?
Para se realizar um bom manejo florestal sustentável, é preciso um planejamento técnico e um acompanhamento contínuo. De acordo com as orientações de manejo reunidas em publicação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), seis passos são fundamentais para o sucesso da prática:
Definir os objetivos do manejo: Seja para abastecer uma indústria, preservar espécies nativas ou integrar agricultura e floresta, o manejo deve ter um propósito claro e um objetivo para que a floresta continue cumprindo seu papel.
Calcular a área necessária: A área a ser manejada deve ser proporcional ao consumo de matéria-prima, já que em florestas naturais o ciclo de corte pode ser de 30 anos, tempo necessário para a regeneração das árvores. As técnicas adequadas podem reduzir esse período, aumentando a produtividade sem ampliar a área explorada.
Executar um inventário florestal completo: O inventário é essencial para o manejo, pois permite identificar as espécies, volumes e condições da floresta, fornecendo dados para o planejamento da extração e recuperação. Nesta etapa, apenas engenheiros agrônomos habilitados devem conduzir o inventário, garantindo a precisão e a confiabilidade.
Planejar e realizar uma exploração de baixo impacto: A exploração de madeiras é uma das fases mais críticas do manejo, e quando mal executada pode danificar até 60% da cobertura florestal. As técnicas de exploração de impacto reduzido, como o corte seletivo, o mapeamento prévio das árvores e o uso de guinchos para arraste, diminuem os danos e aumentam a eficiência.
Monitorar o desenvolvimento da floresta: Os inventários contínuos, realizados entre dois a cinco anos, devem acompanhar o crescimento das árvores e a regeneração natural. Isso permite avaliar o impacto da exploração e ajustar as práticas de manejo.
Aplicar tratamentos silviculturais e proteger a área: A manutenção de estradas e o combate a incêndios são essenciais para proteger o investimento e garantir a sustentabilidade da floresta. Os cortes de cipós, os desbastes seletivos e o controle de espécies competidoras ajudam no crescimento das árvores reservadas.
O manejo como ferramenta de conservação e mercado
Foto: Rafael Aleixo/GEA
Com o crescimento das exigências ambientais, o manejo florestal sustentável adquiriu um papel estratégico no mercado internacional, já que os países importadores de madeira tropical passaram a demandar certificações que comprovem a origem sustentável dos produtos.
A certificação florestal não só garante acesso a novos mercados, como fortalece a imagem da empresa e agrega um valor ao produto final. Além disso, o Brasil é signatário do Acordo Internacional de Madeiras Tropicais e compromete-se a garantir que toda madeira exportada tenha origem em áreas sob manejo sustentável.
Na visão da geógrafa, o manejo florestal sustentável (espécies nativas e sistema agroflorestal) é uma ponte entre o conhecimento ancestral e o saber científico.
“Cada povo tem seu modo de manejar, baseado em seu conhecimento da natureza. Essa diversidade é o que chamamos de sociobiodiversidade, um patrimônio que deve ser valorizado e protegido”, concluiu.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Representantes da Cúpula dos Povos participando da Pré-COP Sindical em Brasília. Foto: Naira Leal
A Cúpula dos Povos é uma mobilização internacional organizada por movimentos sociais, organizações comunitárias e redes internacionais. De forma paralela àCOP30, a cúpula debate a vida, os direitos e os territórios de comunidades indígenas, tradicionais e periféricas vítimas da desigualdade e que sofrem com as crises climáticas.
Composta por debates, plenárias e manifestações culturais, a cúpula vai acontecer de 12 a 16 de novembro e vai explorar temas como a soberania alimentar, a transição energética justa, reparação, cidades sustentáveis e o protagonismo das mulheres.
“Não é possível pensar numa COP 30 em que a discussão da pauta climática não seja pautada na justiça climática. Não haverá transição justa enquanto não houver direitos garantidos aos povos tradicionais”, afirmou Sara Pereira, da FASE Programa Amazônia.
A programação conta com atividades abertas ao público e grandes mobilizações como a barqueata no Rio Guamá, a Grande Marcha Popular e o banquetaço na Praça da República. Além disso, o evento pretende reunir cerca de 30 mil pessoas de 62 países em defesa da justiça climática, em diferentes espaços da cidade ao longo dos cinco dias.
Veja a programação:
12 de novembro (quarta-feira)
O evento começa com a chegada das delegações e um ato de abertura. Pela manhã, acontece a barqueata no Rio Guamá, com cerca de 150 embarcações vindas de comunidades ribeirinhas, e à tarde, uma recepção seguida da abertura oficial no palco principal, e apresentações culturais que encerram o primeiro dia.
Visão panorâmica do Rio Guamá, que recebe a barqueata. Foto: Zé Netto/Cúpula dos Povos
13 de novembro (quinta-feira)
Neste dia, iniciam-se as oficinas e rodas de conversas organizadas em torno dos eixos de convergência da Cúpula, como a soberania, reparação e transição justa. Além disso, também acontece as plenárias mundiais, a Cúpula das Infâncias e a Feira Popular que ocuparão diversos espaços da cidade.
14 de novembro (sexta-feira)
Este dia será dedicado à síntese política e à formulação das propostas que integrarão a declaração final da Cúpula. Pela manhã, continuam as plenárias dos eixos ‘Internacionalismo’, ‘Cidades Sustentáveis’ e ‘Mulheres’ e pela tarde, acontece a Assembleia dos Movimentos Sociais e o Seminário Saúde e Clima, seguidos da Plenária Final, em que serão apresentadas as propostas da Declaração da Cúpula dos Povos.
Durante o feriado da Proclamação da República está prevista a Grande Marcha Popular, considerada o ato mais emblemático da mobilização. No decorrer da marcha devem participar mais de 20 mil pessoas, entre povos originários, quilombolas, trabalhadores urbanos e rurais, juventudes e movimentos ambientais.
16 de novembro (domingo)
O encerramento será marcado pela leitura da Declaração Final da Cúpula dos Povos, durante uma audiência pública com representantes da presidência da COP30. À tarde, o tradicional Banquetaço na Praça da República encerra o evento com uma grande celebração coletiva que celebra a partilha e o encontro entre os povos.
Para Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, a força da Cúpula dos Povos está justamente na sua capacidade de pressionar e propor.
“A participação dos movimentos sociais é crucial para disputar a agenda climática e garantir que os recursos sejam investidos corretamente, ajudando a diminuir as desigualdades sociais e não a aumentar”, afirmou.
A Cúpula dos Povos afirma que as respostas para as soluções urgentes para conter o colapso climático também vem das florestas, das periferias e das comunidades, propondo alternativas desde a soberania alimentar e energética até as novas formas de governança ambiental.