Turismo irregular foi registrado em terras indígenas paraenses. Foto: ACP MPF (extraída do site Acute Angling, em 2022)
A Justiça Federal acolheu pedidos do Ministério Público Federal (MPF) e tornou definitiva a proibição de atividades turísticas irregulares promovidas pelas empresas Acute Angling e Amazon Peacock Bass na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera, na região do Território Wayamu, no noroeste do Pará.
A sentença, publicada no final de dezembro, confirma a decisão liminar de setembro de 2022, que já havia suspendido as operações no local.
A ação judicial movida pelo MPF apontou que as empresas operavam sem licenciamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), sem autorização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e sem o estrito cumprimento do direito à Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) dos povos indígenas afetados.
Centralidade da CPLI
Um dos pontos centrais da sentença foi a análise sobre a relação entre as empresas e as comunidades locais. A defesa alegou que a presença na área decorria de convites e acordos feitos com algumas lideranças indígenas. No entanto, a Justiça Federal rejeitou esse argumento como base legal para a exploração econômica.
Na fundamentação, a Justiça Federal enfatizou que a legislação indigenista e a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) exigem que a consulta seja ampla, abrangendo toda a comunidade afetada e respeitando seus protocolos próprios de deliberação.
A sentença esclareceu que “acordos informais com lideranças isoladas” não possuem validade para autorizar a exploração da terra indígena por terceiros, nem dispensam a necessidade de regulação estatal.
Localização da Terra Indígena Nhamundá Mapuera, em vermelho. Imagem: Reprodução/Research Gate
Proibições para preservação do turismo na região
Ao julgar a ação, a Justiça Federal confirmou a condenação das empresas e de seus sócios a uma série de obrigações para impedir a continuidade da exploração comercial na Terra Indígena Nhamundá-Mapuera ou em qualquer outra área do Território Wayamu. Ficou determinado que, sem a CPLI e sem as licenças estatais, os réus não podem:
Realizar qualquer atividade turística na região;
Instalar ou manter pousadas e acampamentos;
Vender pacotes turísticos relacionados à área;
Adentrar o território indígena sem autorização da Funai e anuência das lideranças e das associações representativas locais.
A sentença também obriga a empresa a cancelar pacotes pendentes e remover da internet qualquer publicidade referente à pesca no Rio Bateria.
Embora tenha confirmado a ilegalidade administrativa e a necessidade de paralisação das atividades, a Justiça julgou improcedente o pedido do MPF para condenar os réus ao pagamento de R$ 3 milhões em indenizações. Da sentença, ainda cabe recurso.
Sinal de vida: Seringal do pai de Plínio visto do avião em 1960, em Vilhena. Foto: João Alves Nogueira
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Vilhena perdeu nesta quarta-feira, 14 de janeiro, um de seus moradores mais antigos e emblemáticos. “Seu” Plínio José da Silva, de 83 anos, faleceu vítima de insuficiência renal aguda. Nascido em Nobres (MT) em 1942, ele chegou ainda criança à região e se tornou parte fundamental da história local. Mesmo que anonimamente, ele viu a cidade surgir e se desenvolver.
Plínio foi caminhoneiro, agricultor, mas sua identidade esteve ligada à profissão de seringueiro – atividade que marcou a economia e a formação social de Vilhena desde o início do século XX. Filho de Faustino, dono de um dos seringais mais conhecidos da região, Plínio cresceu em meio à extração da borracha, convivendo com indígenas e acompanhando de perto os ciclos da floresta.
O pioneiro presenciou momentos decisivos, como a visita do presidente Juscelino Kubitschek, em 1960, para inaugurar a rodovia BR-29 (atual BR-364), marco que impulsionou a migração e deu origem à cidade. “Eu tinha 18 anos de idade, e me lembro claramente do JK aqui”.
Ele também viveu os anos de auge e decadência da borracha natural, quando a concorrência internacional e o surgimento do látex sintético reduziram a importância dos seringais amazônicos. Presenciou muito conflitos agrários e indígenas, pandemias, ataques de onças e a chegada dos primeiros moradores da vila. “E segui acreditando na cidade, mas nunca pensei que Vilhena fosse ganhar as proporções atuais”, destacou, em entrevista.
“Aqui era tudo mato. Percebíamos o encontro do cerrado com a Amazônia, bem aqui onde é o centro da cidade. Aqui é a junção de dois biomas e o tipo de vegetação mudava, claramente”, dizia.
Plínio veio morar em Vilhena quando a região ainda pertencia ao estado do Mato Grosso. “Eu tinha pouco mais de um ano quando foi criado o Território Federal do Guaporé, em 1943. Meu avô, Afonso Mansur, era indigenista, trabalhava junto aos Nambiquara, e já morava na região”, contava o pioneiro, que passou uma temporada no Mato Grosso, para estudar, mas logo voltou ao velho Guaporé e aqui se fez raiz. “Assisti a todos os ciclos econômicos e políticos”.
O seringueiro e a indígena
Casado desde 1962 com Brasilina Zonoecê – com ele na foto à esquerda – , indígena que vivia na Casa de Rondon [como era conhecido o posto telegráfico], filha do telegrafista Marciano Zonoecê – nome histórico da região, falecido na década de 1990 –, Plínio construiu uma família numerosa e deixou cinco filhos, além de netos. “Quem celebrou nosso casamento foi o Padre Rohl, um alemão. Casamos lá no Seringal do Faustino, meu sogro”, contou a viúva, aos 87 anos, na noite do velório de Plínio.
A Família Zonoecê é o primeiro núcleo fora das aldeias indígenas a se estabelecer em Vilhena, há 83 anos. Coincide com a época do nascimento de Plínio. A trajetória dele mistura a memória dos seringais, a luta pela sobrevivência e a transição para a agricultura e pecuária, após a decadência da borracha.
Guardião da Memória: Plínio, em 2023, segura o quadro com fotos de seus pais e irmãos; ele aparece na terceira posição da fila superior, da esquerda para a direita. Foto: Júlio Olivar
Vida nos seringais e legado
Plínio relatava que os trabalhadores acordavam de madrugada para sangrar até 200 árvores por dia, enfrentando chuvas, animais selvagens e doenças. A produção era levada em tropas de bois e burros, somando dezenas de toneladas por ano. Ele se considerava um “soldado da borracha”, responsável por manter viva uma atividade que sustentou gerações.
Sua vida atravessa os ciclos da borracha, da chegada dos migrantes e da transformação da vila em município. O velório aconteceu em sua residência, na avenida Beira-Rio, onde a família Zonoercê-Silva foi a primeira a se instalar. A quantidade de amigos que passaram pelo local em homenagem ao decano comprova o quanto ele era querido. Sobre o caixão, permaneceu uma camiseta que ele usava para frequentar o Terço dos Homens, um movimento da Igreja Católica.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Os locais incentivam a prática de atividades físicas, o contato com a natureza e momentos de descanso. Foto: Richard Messias/PMBV
Boa Vista se destaca por oferecer diversos espaços de lazer que promovem bem-estar, convivência social e qualidade de vida à população. Parques, praças e áreas verdes em toda a cidade funcionam são pontos de encontro para famílias, crianças, jovens, adultos e idosos, incentivando a prática de atividades físicas, o contato com a natureza e momentos de descanso.
Selvinha Amazônica – Implantada nas praças da cidade, a Selvinha Amazônica é um projeto que faz parte da política pública da Primeira Infância, desenvolvido em Boa Vista. Os animais que compõe a fauna da região são representados em tamanho grande e coloridos para que as crianças possam desenvolver a coordenação motora e a criatividade, de forma lúdica.
É possível encontrar as esculturas no Complexo Ayrton Senna, Parque Germano Augusto Sampaio, Praça do Mirandinha, Nova Cidade, Conjunto Pérola do Rio Branco, 13 de Setembro, Praça dos Bambus, Pricumã, Praça Linear do Cinturão Verde, Cabos e Soldados, Cidade Satélite, Cruviana e Parque do Rio Branco. Para que o projeto siga sempre destaque entre as crianças, a prefeitura tem revitalizado as representações.
Esculturas cativam crianças. Foto: Richard Messias/PMBV
No Parque do Rio Branco, a Selvinha Amazônica conta com mais de 160 elementos, dentre eles, esculturas de jacaré, cobra, iguana, borboletas, formiga, abelha, lagarta, arara, tucano e macaco, além de árvores, folhas e flores. O espaço é composto por duas áreas: seca e molhada. Ambas ficam abertas ao público de quarta-feira a domingo, das 15h às 20h.
Complexo Ayrton Senna – Espaço ao ar livre voltado ao lazer e prática de esportes, como corrida, tênis, skate, vôlei, dentre outras atividades. O complexo conta também com ambientes de playground, lanchonetes, fontes e espelho d’água, tudo para oferecer experiências agradáveis às famílias. Recentemente, a prefeitura instalou uma cabine de hidratação no local, promovendo o cuidado com a população.
População pratica diversos esportes no complexo. Foto: Jonathas Oliveira/PMBV
Praças Públicas – Para garantir o bem-estar das famílias, Boa Vista conta com 72 praças públicas na cidade. Os equipamentos possuem quadras poliesportivas, parques infantis, além de quiosques. Esses ambientes passam por manutenção periódica, como a Praça Cabos e Soldados, localizada no bairro Caranã, que recebeu novas quadras de vôlei de areia e calçadão.
Bosque dos Papagaios – Aberto ao público de terça a sexta-feira, exceto feriados e pontos facultativos, o horário de funcionamento do parque ecológico é das 8h às 18h. Sábado e domingo funciona das 8h às 12h e das 14h às 18h. Espaço de proteção e guarda da biodiversidade amazônica, o local recebeu bicicletas para que os visitantes possam passear pelas trilhas.
Mirante possui 120 metros de altura. Foto: Tony Will/PMBV
Mirante Edileusa Loz – Inaugurado em 2020, o local possui 120 metros de altura, sendo o ponto de observação mais alto de Boa Vista e da região Norte. Funcionando de quarta-feira a domingo, das 15h às 21h, os ingressos são gratuitos à população. Interessados devem fazer o agendamento pelo site do equipamento. Cada entrada tem permanência de 20 minutos no observatório.
Praça do Mirandinha – Um dos espaços verdes mais procurados pelas famílias e amigos para fazer piquenique, festas de aniversários, ensaios fotográficos, dentre outros, o Mirandinha possui quadras de esporte e quiosques. Interessados em fazer celebrações devem ficar atentos às regras, pois é recomendável a solicitação de autorização de uso, na Secretaria Municipal de Conservação Pública.
Nova edição do Observatório da Restauração mostra que área mapeada na Amazônia aumentou 173% em quatro anos. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A Amazônia teve um avanço considerável de reporte de áreas em processo de restauração em relação aos dados de 2021, ano em que o Observatório da Restauração (OR), uma das plataformas de dados do país dedicada a esta atividade, foi lançado: de 14,5 mil hectares, o bioma passou a contabilizar quase 40 mil hectares restaurados, um aumento de 173% em quatro anos.
No conjunto dos seis biomas nacionais, o país registra 204,2 mil hectares em processo de restauração, um aumento de 158% em relação a 2021.
“Esse aumento vertiginoso pode ser atribuído a diversos fatores, destacando o papel de políticas públicas e iniciativas privadas”, explica Tainah Godoy, secretária-executiva do OR.
“Vemos, nos últimos anos, o aumento da oferta por editais voltados à restauração de ecossistemas, além de ações envolvendo organizações da sociedade civil e empresas. Houve ainda, no ano passado, o lançamento pelo governo federal da iniciativa Arco pela Restauração, que visa recuperar a região do Arco do Desmatamento, onde ocorrem 75% da devastação da floresta”, completa.
A recuperação da vegetação nativa é fundamental para a manutenção do fornecimento de sistemas ecossistêmicos essenciais para a saúde, a produção agrícola, a segurança hídrica, a igualdade social e o desenvolvimento sustentável.
Em sua contribuição ao Acordo de Paris, o Brasil comprometeu-se a restaurar 12 milhões de hectares até 2030 — a meta foi reforçada pelo governo federal em 2024, no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Estima-se que a atividade pode gerar mais de 2,5 milhões de empregos diretos.
O OR tornou-se pioneiro na articulação com coletivos atuantes nos seis biomas brasileiros, que reportam dados com base em uma metodologia única, desenvolvida pela gestão da plataforma.
“O Observatório é uma ferramenta essencial não somente pela contabilização de hectares em si, mas pela articulação e visibilidade aos atores que fazem a restauração acontecer”, explica Godoy. Dessa forma, a plataforma consegue integrar dados de qualidade que trazem a realidade do campo para os tomadores de decisão, como o poder público e investidores.
O processo de coleta e validação dos dados tem, portanto, uma análise diferente da feita por outras instâncias, como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) — que, em um evento na COP 30, anunciou que o país conta com 3,4 milhões de hectares nesse processo.
Os indicadores do MMA consideram diferentes dinâmicas de recomposição do território, incluindo extensas áreas de vegetação secundária em regeneração natural — ou seja, florestas que avançam de forma natural e espontânea. Já o OR trabalha com um recorte metodológico específico, baseado em informações autodeclaratórias de empresas e organizações que desenvolvem ações de restauração com algum nível de manejo ou intervenção planejada.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
A restauração em outros biomas
Segundo o OR, os biomas mais beneficiados com projetos de restauração são a Mata Atlântica (com 131,2 mil hectares mapeados, o equivalente a 64% da área total monitorada) e a Amazônia (39,7 mil hectares, ou 19%).
No Cerrado, foram identificados 31,7 mil hectares em restauração (15% do território mapeado). Na Caatinga foram compilados mil hectares (0,06%), enquanto o Pantanal soma 280 hectares (0,01%) e o Pampa, 260 hectares (0,01%).
“A Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado possuem redes multissetoriais pela restauração, consolidadas há anos, que impulsionam a recuperação de seus biomas. Isso contribui para o engajamento da sociedade, o desenvolvimento de pesquisas e a formação de mão de obra qualificada para a atividade”, ressalta Godoy.
“Já os coletivos da Caatinga, o Pampa e o Pantanal iniciaram recentemente suas operações, e a estruturação de redes leva tempo”.
Nova versão do Observatório
Lançado em 2021, o OR é uma plataforma independente e multissetorial dedicada ao mapeamento de áreas em restauração. Seu comitê gestor é formado por Coalizão Brasil, WWF, WRI Brasil, Imazon e The Nature Conservancy.
Em sua terceira edição, o Observatório da Restauração anuncia a retirada do termo “Reflorestamento” de sua nomenclatura, reforçando seu compromisso exclusivo com a recuperação da vegetação nativa e da biodiversidade. A decisão reflete o amadurecimento técnico e normativo da agenda ambiental, que diferencia claramente a restauração ecológica — voltada à integridade dos ecossistemas — de práticas de reflorestamento associadas a plantios comerciais e espécies exóticas.
Com essa atualização, o Observatório garante maior clareza conceitual e alinhamento com compromissos nacionais e internacionais, como o Planaveg e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming‑Montreal.
Nos últimos quatro anos, o grupo gestor do OR dedicou-se à qualificação dos dados, à coleta de novas informações, atualizações em seus processos de monitoramento e ao estabelecimento de parcerias com grupos atuantes no setor de restauração nos seis biomas brasileiros, conhecidos como coletivos biomáticos. São eles:
Pacto pela Restauração da Mata Atlântica,
Rede pela Restauração da Caatinga,
Pacto pela Restauração do Pantanal,
Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum),
Aliança pela Restauração da Amazônia
e Rede Sul — esta última, com atuação no Pampa.
Sobre a Coalizão
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil
Floresta mantém microclima no solo. Foto: Liana Anderson
Um estudo confirmou em microescala o que mostram os modelos sobre o efeito climático do desmatamento em grandes regiões de floresta. Pesquisadores brasileiros, norte-americanos e britânicos usaram imagens de satélite para esquadrinhar a Amazônia.
Eles dividiram o bioma em 204 quadrados com 55 quilômetros (km) de diâmetro, e calcularam a proporção de mata em cada um deles.
Comparando o clima de regiões desmatadas, com cobertura florestal inferior a 60%, com as mais preservadas, com 80% ou mais de vegetação, eles constataram que a perda de árvores contribuiu para aumentar a temperatura do solo, diminuir a transpiração das plantas e a frequência das chuvas.
“Esse clima afasta as espécies vegetais mais sensíveis da floresta úmida, favorecendo as gramíneas exóticas e outras espécies resistentes ao clima mais seco”, observa o especialista em sensoriamento remoto Marcus Silveira, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O estudo indica que as regiões com a perda vegetal no estado de Rondônia, no sudeste do Pará e no norte de Mato Grosso são as mais afetadas (Communications Earth & Environment, 21 de novembro).
Estudo aprofunda referências para mapear desmatamento
Imagem: Reprodução/Acervo do estudo
Todas essas células da grade estão inteiramente dentro do bioma de floresta úmida, apresentaram perda florestal insignificante entre 2013 e 2021 e foram agrupadas por sua porcentagem de cobertura florestal remanescente em 2021 (≤40%, 40–60% ou 60–80% para células desmatadas e cobertura florestal >80% para células de referência).
A distribuição das diferenças climáticas entre as células desmatadas de cada grupo de desmatamento em comparação com as células vizinhas de referência foi comparada com a distribuição das diferenças climáticas entre as células de referência e suas respectivas vizinhas, como também exemplificado no painel à direita.
As células de referência em verde desbotado foram adicionalmente utilizadas em uma segunda avaliação para gerar, em toda a região de estudo, 1000 amostras aleatórias de 150 pares de diferenças climáticas entre as células de referência e suas vizinhas.
A distribuição original das diferenças climáticas entre as células desmatadas e as células de referência foi então comparada com cada uma das 1000 distribuições de células de referência aleatórias para avaliar a consistência dos padrões a partir dos testes estatísticos. Os mapas base do oceano e do terreno foram obtidos do Natural Earth
Monitoramento dos rios é realizado pelo SGB. Foto: Chico Batata/Acervo Secom-AM
A última semana foi marcada pela retomada do processo de enchente no rio Solimões, em Tabatinga (AM). É o que indica o 2º Boletim Hidrológico da Bacia do Amazonas divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), no dia 13 de janeiro.
De acordo com os dados do monitoramento, o nível subiu cerca de 1 metro e chegou à marca de 7,58 m. Esse comportamento deve ser observado em outras estações da calha nos próximos dias e influenciar também os níveis do rio Negro em Manaus (AM).
“Esse cenário já era esperado e a tendência, a partir de agora, é que o processo de enchente seja normalizado na região”, explica o pesquisador Andre Martinelli, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial da Superintendência Regional do SGB em Manaus.
Em Manacapuru (AM), o Solimões apresentou oscilações e está na cota de 13,16 m. O mesmo ocorre com o rio Negro, em Manaus, que chegou a 22,01 m, uma variação de 4 cm em relação aos dados do boletim da última semana. Os níveis estão dentro da faixa de normalidade para o período.
Rio Solimões. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM
Já o monitoramento do rio Amazonas registrou redução no ritmo de subida, fazendo com que os níveis ficassem próximos às médias para a época. Em Porto Velho (RO), o rio Madeira continua o processo de enchente e o nível chegou a 11,54 m.
Ao longo da semana, o rio Acre, em Rio Branco (AC), registrou subida de 2,74 m e ficou acima da faixa de normalidade para o período. Na terça-feira (13/1), a cota observada foi de 13,11 m.
Enquanto isso, o rio Branco segue no processo de vazante, com estabilidade em Boa Vista (RR) e Caracaraí (RR). As cotas observadas são: 1,27 m e 1,80 m, respectivamente. Há previsão de chuvas com anomalia positiva, o que pode elevar os níveis dentro dos próximos 15 dias, indica o SGB.
Monitoramento dos níveis dos rios
O monitoramento dos rios é feito a partir de estações, que fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O SGB opera cerca de 80% das estações e gera informações que apoiam os sistemas de prevenção de desastres, a gestão dos recursos hídricos e pesquisas. As informações estão disponíveis na plataforma SACE e são atualizadas diariamente.
O objetivo das pesquisas científicas é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis. Foto: Divulgação/ICMBio
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acompanha a segunda etapa do projeto: ‘Janelas para a biodiversidade do baixo Amazonas (JABBA): contribuições dos sambaquis do passado para a preservação ambiental no presente amazônico’, em execução na Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, localizada no Município de Porto de Moz, no Pará.
O projeto, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Museu Nacional de História Natural de Paris, combina a escavação arqueológica no sítio arqueológico Munguba com atividades de difusão científica junto à comunidade local, Nossa Senhora de Nazaré.
O projeto de pesquisas conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Foto: Ronald Azulay/ICMBio
O objetivo da iniciativa científica é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis (termo de origem tupi-guarani, no qual tamba significa “concha” e ki, “amontoado”), antigos monumentos indígenas construídos por uma mistura de sedimentos diversos, conchas de moluscos, restos de peixes e outros materiais orgânicos e minerais.
Estes sítios arqueológicos possibilitam compreender as antigas arquiteturas desenvolvidas pelos povos que habitaram o Baixo Amazonas e o manejo das paisagens de várzea ao longo do tempo.
Nesse contexto, o eixo central do projeto consiste em analisar as transformações da biodiversidade a partir do cruzamento de dados arqueológicos com informações contemporâneas sobre as várzeas amazônicas, com foco especial nas áreas localizadas entre os Rios Tapajós e Xingu, caracterizadas por um expressivo vazio de pesquisas tanto nas áreas da biologia quanto da arqueologia.
“Os sambaquis são sítios que possuem uma conservação excepcional dos restos orgânicos, assim, esta descoberta representa uma grande oportunidade para compreender melhor como as populações que os construíram se relacionavam com o meio ambiente”, destaca a pesquisadora Gabriela Prestes Carneiro, professora no Museu Nacional de História Natural de Paris e colaboradora do Programa de Pós-graduação em Antropologia e Arqueologia (PPGAA) da UFOPA.
Ela continua que o sambaqui era conhecido pela comunidade como um “pedral” e foram os próprios moradores da Resex que entraram em contato com os profissionais de arqueologia, que só chegaram à área em 2022.
Nesta última escavação em 2025, foram encontradas diversas camadas arqueológicas que estão sob esse pedral, incluindo madeiras, possivelmente esteios de casas, pranchas instaladas antes da construção do sambaqui ou até estruturas de palafita.
Pesquisas com atividade de escavação para a turma de arqueologia mirim da Escola Nossa Senhora do Carmo. Foto: Divulgação/Projeto Jabba
Durante as pesquisas de campo, o projeto contou com o apoio de especialistas em madeira. O objetivo do trabalho com as madeiras será de identificar espécies e analisar anéis de crescimento para tentar correlacioná-los a mudança climática.
Também buscou-se refinar as primeiras datações, que apontam que o sambaqui foi ocupado entre 3.800 e 500 anos atrás, por diferentes grupos humanos, associadas a diferentes estilos cerâmicos. Também serão estudadas a vegetação e a fauna no entorno para entender se as condições ambientais no período em que o pedral estava sendo construído se aproxima das atuais.
Até agora, em termos de biodiversidade, foi observada uma grande variedade de espécies de peixes típicas de águas calmas, como pirambóia, pirarucu e muçum. Além dos peixes, neste sítio também havia consumo de tartarugas, jabutis, jacarés, peixes-boi, veados e porcos-do-mato.
Em relação à vegetação do sítio, vestígios botânicos demonstram que, no período das primeiras ocupações, o ambiente era diferente, pois foram encontradas uma grande quantidade de sementes e restos de espécies vegetais que hoje não ocorrem na várzea da região, como taperebá, uxi, maracujás variados, indicando que o sítio era rico em espécies frutíferas consumidas pelos habitantes, como informa a profa. Myrtle Pearl Shock, da UFOPA.
O sítio Munguba
De acordo com os pesquisadores, o sítio precisa ser entendido como um monumento construído para ser visível e marcante para as populações indígenas do passado. São cerca de 60 sepultamentos registrados até o momento. Por isso, a equipe também é composta por especialistas em arqueologia funerária, que investiga gestos e práticas relacionadas ao cuidado com os mortos.
Dada a conservação excepcional dos restos orgânicos no sítio Munguba e a variedade de material arqueológico encontrado, segundo a equipe coordenadora do projeto, vários anos serão necessários para que se possa compreender os povos que construíram os sambaquis e como eles se relacionavam com o meio ambiente.
Ainda assim, já se sabe que estes povos fizeram o manejo da biodiversidade das paisagens de várzea da Amazônia, trazendo e levando espécies de plantas, estabelecendo redes de troca de pessoas e materiais com várias outras regiões como Santarém (PA) e o estuário do Amazonas, região complexa e vasta, caracterizada por ser uma foz mista e um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, dominado pela Ilha do Marajó (PA).
Imagem: Reprodução/ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
Diálogo com a comunidade
Antes da realização das etapas de campo, o projeto tem se reunido com a comunidade Nossa Senhora de Nazaré para fazer os pedidos de autorização e organizar em conjunto as atividades das pesquisas, de maneira a envolver diferentes públicos. Em especial, os alunos da escola mais próxima, a escola Nossa Senhora do Carmo, que atende crianças de 5 a 11 anos.
Tendo em vista que a etapa de campo reúne falantes de várias línguas, a demanda das professoras no último ano foi desenvolver com as crianças uma pequena iniciação a línguas estrangeiras, como o inglês e o francês.
Além das línguas, as crianças foram recebidas no sítio arqueológico onde realizou-se uma oficina de escavação de arqueologia mirim e de produção de pigmentos naturais.
O projeto conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Pelo Brasil:
Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA),
Universidade Federal do Amazonas (UFAM),
Universidade Estadual do Amazonas (UEA),
Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG),
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
e Universidade de São Paulo (USP).
Na França: o Museu Nacional de História Natural de Paris e Université Paris 1 Panthéon Sorbonne. Da Alemanha: Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology.
Ao permitir compreender práticas de uso e manejo sustentável da paisagem ao longo do tempo, evidenciar patrimônio cultural associado à paisagem, e gerar conhecimento que subsidia estratégias atuais de proteção e gestão territorial, o projeto arqueológico contribui para a conservação da Resex Verde para Sempre.
*Com informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
Dez profissionais de educação vão receber capacitação especializada para implementar a Educação de Jovens e Adultos (EJA) no território Yanomami, em Roraima. A medida atenderá a 35 comunidades indígenas do povo Sanöma. A iniciativa integra o escopo do curso de formação intitulado ‘Capacitação Integrada para a Gestão do Território Yanomami e Educação: fronteira, escola e territorialização’.
O curso – que faz parte do planejamento do Governo Federal para implementar ações estruturantes e permanentes na Terra Indígena Yanomami (TIY) – ocorre de forma articulada com foco na proteção e fortalecimento da gestão territorial, soberania alimentar, línguas e culturas do povo Sanöma.
“A educação é um direito fundamental de todos e uma ferramenta para assegurar o acesso a direitos territoriais, sociais, civis e políticos”, afirma Joenia Wapichana, presidenta da Funai.
Coordenada pelo Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a formação conta com aporte de recursos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e dos ministérios da Educação (MEC) e do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
A ação de qualificação faz parte de um projeto para levar profissionais de educação à TIY, e tem como finalidade o fortalecimento de práticas pedagógicas fundamentadas nos aspectos socioculturais, históricos, territoriais e educacionais do povo Sanöma. A previsão é que os educadores comecem a atuar no território em fevereiro de 2026.
Mesa de abertura do curso de formação dos povos indíegnas. Foto: Maia de Barros / Funai
De acordo com a Funai, a educação é uma estratégia para a consolidação da dignidade humana, como destacou a presidenta Joenia Wapichana em participação na mesa de abertura da solenidade, realizada em Boa Vista (RR), que marcou o início do processo formativo, na segunda-feira (5): “A educação é um direito fundamental de todos e uma ferramenta para assegurar o acesso a direitos territoriais, sociais, civis e políticos”.
Ela avalia que o curso se torna ainda mais importante ao considerar a crise humanitária vivenciada no território após o avanço do garimpo ilegal, entre 2021 e 2022, que impactou a saúde, o meio ambiente e a segurança alimentar das comunidades.
“A capacitação integra o conjunto de ações do Governo Federal para garantir soberania alimentar e nutricional, proteção social e territorial e geração de renda para os povos que vivem no território”, pontuou Joenia Wapichana, ao lembrar que, no primeiro momento da crise, foram adotadas medidas emergenciais, e, agora, tratam-se de ações estruturantes voltadas à autonomia das comunidades.
Segundo a coordenadora do curso pela UFRR, Adriana Santos, a equipe de educadores é composta por professores de matemática, português, geografia, história, artes, educação física e pedagogos que vão atuar na formação de estudantes indígenas a partir do sexto ano.
Os profissionais serão capacitados por pessoas com experiência no território indígena, explica a coordenadora, com o objetivo de assegurar o respeito e fortalecimento das culturas, tradições e identidade dos povos indígenas.
Além disso, antes do início das atividades, o povo Sanöma será ouvido para a construção conjunta da grade curricular das aulas que serão ministradas no território.
“Nosso trabalho agora é colocar em exercício uma prática docente diferente da escola regular, uma prática que respeite a identidade cultural dos Sanöma. Por isso, é o momento de desconstruir uma ideia de escola preconcebida que temos e se abrir para esse novo processo junto aos Sanöma”, destaca Adriana Santos.
Ainda de acordo com a coordenadora, trata-se de um projeto pioneiro no qual “a universidade é que vai para dentro do território ofertar a educação básica. Imagine o retorno com as escolas fortalecidas nas comunidades, com a política pública fortalecida dentro das comunidades. É uma política pública que a gente precisa que seja fortalecida dentro do território e a gente está levando as bases para que se consolide dentro do território.”
Governo Federal abre portas para EJA. Foto: Maia de Barros / Funai
Acompanhada da diretora de Gestão Ambiental e Territorial, Lucia Alberta, a presidenta Joenia Wapichana participou, no dia 6 de janeiro, de reunião de planejamento, acompanhamento e balanço da Força-Tarefa Yanomami Ye´kwana (FTYY), coordenada pela Funai.
O encontro teve como objetivo principal o acompanhamento das ações executadas em 2025, o planejamento das atividades para 2026 e o balanço geral dos projetos relacionados ao etnodesenvolvimento, diagnósticos e ações estruturantes realizados pela equipe, em parceria com outras instituições.
Entre as ações do Governo Federal no território, estão incentivos à produção de alimentos, à avicultura, à aquicultura e à pesca, a implantação de roçados e a oferta de cursos de formação destinados aos indígenas sobre segurança alimentar e nutricional e gestão territorial.
A reunião foi marcada por um momento rico de apresentações, diálogos, trocas de experiências e debates coletivos e, assim, contribuir para o fortalecimento das estratégias e para o alinhamento das ações futuras. Também foi apresentado o Plano Integrado Interinstitucional, voltado às ações que serão executadas em 2026 e à demonstração dos avanços alcançados pelos projetos.
*Com informações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas
Cuias feitas em Alter do Chão (Santarém/PA). Foto: Alexandre Nazareth da Rocha/Acervo Iphan
As cuias amazônicas ocupam um lugar de destaque na cultura tradicional da região Norte. Elas são utilizadas no preparo e no consumo de alimentos e bebidas como tacacá, açaí, mingaus, caldos e outras receitas típicas. Mas elas também fazem parte do uso cotidiano em comunidades ribeirinhas, em que servem para despejar água durante o banho, armazenar líquidos, auxiliar em rituais tradicionais e até mesmo integrar cerimônias culturais.
Feitas a partir do fruto seco da cuieira — planta nativa da Amazônia — as cuias são reconhecidas como um dos artesanatos mais antigos e simbólicos do território amazônico. Sua confecção envolve técnicas ancestrais preservadas por gerações, especialmente em regiões como o Baixo Amazonas, onde o ‘saber-fazer‘ da cuia é considerado patrimônio cultural e mantido, principalmente, por artesãs.
O Iphan produziu um vídeo contando como é esse processo:
O processo artesanal começa com a colheita do fruto maduro da cuieira. Depois, ele é cortado, esvaziado e deixado para secar ao sol até que a casca atinja a rigidez ideal. Em seguida, o artesão lixa, modela e pode aplicar desenhos tradicionais, pinturas ou entalhes. Muitas cuias amazônicas são decoradas com grafismos e símbolos culturais que representam a identidade das comunidades.
Em uma rede social, o influencer indígena Kallisson Waphichaca ensina em um de seus vídeos como fazer a preparação de uma cuia tradicional.
No vídeo, ele demonstra o corte do fruto, o processo de limpeza, a secagem e o acabamento, ajudando a preservar e divulgar uma das técnicas ancestrais que permanecem vivas na Amazônia.
A divulgação desse processo mostra a dificuldade em fazer esse tipo de material devido ao tempo e cuidado que se deve ter para a confecção.
Preparação e cura das cuias
Assim como as cuias usadas para chimarrão em outras regiões do país, as cuias amazônicas exigem um processo de cura antes do primeiro uso. Esse procedimento garante higiene, elimina resíduos naturais do fruto e fortalece a casca interna.
A cura começa com a lavagem em água quente para remover impurezas superficiais. Depois, a parte interna deve ser preenchida com erva ou material vegetal umedecido com água quente. Esse conteúdo permanece dentro da cuia entre 24 e 48 horas, ajudando a soltar fibras internas e reduzir o cheiro característico do fruto seco.
Após o período de descanso, o interior deve ser raspado cuidadosamente e novamente enxaguado em água quente. Essa etapa também prepara a cuia para receber alimentos ou líquidos quentes, tornando-a mais resistente, durável e segura.
A higienização após o uso deve ser feita apenas com água quente, evitando sabão, já que o material poroso absorve substâncias facilmente e pode reter cheiro ou sabor. E ela deve ser deixada para secar naturalmente em local ventilado. É importante que ela não permaneça com água parada, pois isso favorece a formação de mofo e fragiliza o material.
Se aparecer mofo, é necessário lavar novamente com água quente, raspar o interior e repetir a cura. Em casos persistentes, a cuia pode precisar ser substituída.
E aí? Conhecia esse todo esse processo para a produção de uma cuia?
Caminhão-pipa em operação de reabastecimento no Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), em Altamira (PA). Foto: Reprodução/Acervo da pesquisa
O desenvolvimento urbano na cidade de Altamira, no Pará, impulsionado, em grande parte, pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, coexiste com os constantes desafios básicos no saneamento. O megaprojeto de Belo Monte trouxe grandes promessas de desenvolvimento para a região, entre elas, a universalização do saneamento básico na cidade.
No entanto a realidade pós-implementação da usina revela uma complexa teia de avanços e falhas que impediram o cumprimento integral dessa promessa.
O tema é investigado na dissertação de mestrado ‘Consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte para o saneamento básico na cidade de Altamira’, de Beatriz da Silva Martins, engenheira sanitarista e ambiental e mestra em Biodiversidade e Conservação pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
A Usina Hidrelétrica de Belo Monte é uma das maiores do mundo, e Altamira, embora não sediando diretamente a usina, foi impactada significativamente devido à sua localização estratégica, que facilitava a logística de acesso à obra e a chegada de pessoas. Para mitigar os impactos, foram estabelecidas condicionantes socioambientais que incluíam a universalização do saneamento básico na área urbana de Altamira.
O objetivo era preparar a cidade para o aumento populacional decorrente do empreendimento, dar conta da demanda histórica por saneamento para os residentes da cidade e acomodar o crescimento populacional das próximas décadas. Os investimentos de mais de R$ 480 milhões foram aplicados na implantação de tubulações, construção e ampliação de estações de tratamento de água e esgoto.
Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
A pesquisa de Beatriz baseia-se em dados de 2010 e 2022 e oferecem um retrato detalhado do avanço na cobertura do saneamento em Altamira.
No abastecimento de água, houve uma ampliação notável do acesso à rede geral, passando de 21,5% dos domicílios, em 2010, para 55,4%, em 2022. Contudo a presença de poços ainda é significativa, sendo utilizada por 43,2% da população, em 2022, contra 77,1%, em 2010.
“Para a instalação do empreendimento, era necessário desativar os poços e a população ter acesso ao serviço público de água. Mas, ainda assim, em 2022, na nossa pesquisa, verificamos uma porcentagem significativa de pessoas que ainda possuem poços em suas residências como principal fonte de abastecimento de água. Isso implica o quê? Elas estão utilizando essa fonte que pode estar contaminada devido à mudança na dinâmica do lençol freático em decorrência da construção de Belo Monte”.
Nos Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs), a cobertura da rede pública é alta (99%), mas a dependência de caminhões-pipa e a irregularidade no abastecimento persistem, com 6,1% dos domicílios recebendo água por apenas algumas horas do dia e 15,2%, em alguns dias da semana.
Beatriz também destaca esta problemática: “Outra descoberta significativa foi a questão da utilização de caminhões-pipa, principalmente nos reassentamentos urbano coletivos, que deixam evidentes as lacunas no serviço de abastecimento de água disponibilizado para a população diretamente impactada pela usina Hidrelétrica de Belo Monte”.
Foto: Reprodução/Movimento dos atingidos por barragens
Em relação ao esgotamento sanitário, a cobertura da rede geral teve um avanço expressivo, saltando de 1,9%, em 2010, para 81,8%, em 2022. No entanto 16,8% dos domicílios em Altamira ainda utilizam fossas sépticas ou rudimentares, sendo essa prática mais comum nos bairros não pertencentes aos reassentamentos (20,5%). A persistência do uso de fossas, especialmente as rudimentares, pode levar a problemas de saúde pública, por exemplo, via contaminação cruzada com os poços de abastecimento de água, e à contaminação do meio ambiente.
Quanto à coleta de resíduos sólidos, a desativação do lixão a céu aberto e a construção de um aterro sanitário em Altamira são inegavelmente avanços positivos. Em 2022, 97,8% dos domicílios eram atendidos pelo serviço de limpeza pública. No entanto a pesquisa revelou uma disparidade na frequência da coleta: “O serviço de coleta é mais irregular nas zonas periféricas, especialmente nos reassentamentos urbanos que nós estudamos”. Enquanto mais de 60% dos domicílios nos demais bairros têm coleta diária; nos RUCs, nenhum domicílio tem, e 27% reportam irregularidade no serviço.
A dissertação aponta a governança como o “calcanhar de Aquiles” do saneamento em Altamira. A falta de um cadastro oficial da rede de distribuição de água dificultou o monitoramento e o planejamento da expansão do sistema. Além disso, a população de Altamira já possuía um histórico de descontentamento com os serviços públicos de abastecimento de água, resultando em queixas sobre a baixa qualidade, rede limitada e interrupções frequentes. Isso levou muitos moradores a desativarem suas ligações com a rede pública e optar por poços.
Moradores de palafitas em lagoa do bairro Jardim Independente I, em Altarmira (PA). Foto: Reprodução/Minitério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
A indefinição das responsabilidades entre o empreendedor (Norte Energia) e a gestão do município, especialmente quanto às ligações intradomiciliares, criou um “jogo de empurra”, inviabilizando a universalização dos serviços. A transição lenta dos serviços para a Prefeitura de Altamira, que só assumiu integralmente em 2022, foi um fator determinante para os desafios atuais.
O legado de Belo Monte
Altamira oferece lições valiosas para futuros projetos de infraestrutura de grande porte na Amazônia. O que fica após Belo Monte, segundo a pesquisa, inclui saldos positivos, como a desativação do lixão e a instalação de um aterro sanitário, mas também negativos, como o não acesso de muitas famílias à rede de água e à continuidade do uso de fossas.
Para o futuro de Altamira, Beatriz aponta: “Os próximos passos poderiam ser relacionados a parcerias entre o município e as instituições de ensino, e a trazer a população para a discussão”.
A sugestão para mediar os conflitos é um investimento em educação ambiental, de maneira que as campanhas de educação para a sociedade civil possam viabilizar mais esclarecimentos para a população, principalmente com relação àquela parcela que oferece resistência às mudanças. O desafio de Altamira continua exigindo uma gestão municipal mais eficiente e a participação ativa da comunidade para alcançar a tão esperada universalização do saneamento básico.
Sobre a pesquisa
Consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte para o saneamento básico na cidade de Altamira foi defendida por Beatriz da Silva Martins no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação, em 2024, sob orientação do professor Miquéias Freitas Calvi e coorientação do professor Igor Cavallini Johansen.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Luiza Amâncio
Posicionamento da Norte Energia
Após a republicação do conteúdo acima, a Norte Energia emitiu uma nota de posicionamento sobre a abordagem:
Em 2010, menos de 10% dos moradores da área urbana de Altamira tinham acesso à água tratada. No entanto, devido aos compromissos assumidos no licenciamento ambiental de Belo Monte, a Norte Energia construiu 610 km de redes de água e esgoto, englobando, além de Altamira, Vitória do Xingu, Senador José Porfírio e Anapu.
A companhia foi, inclusive, além das suas obrigações, ligando 19 mil domicílios à rede de abastecimento de água, o que não estava previsto. Os números incluem os 3.850 imóveis construídos pela companhia em seis novos bairros. Devido às ações estruturantes, a cobertura dos serviços de saneamento na área urbana de Altamira chegou, em 2018, a 92% da população da área urbana.
O repasse do sistema à Prefeitura de Altamira aconteceu em 01 de janeiro de 2023, por meio da celebração do Termo de Compromisso entre a companhia e a Prefeitura e Altamira em 26 de julho de 2022. A partir daí, o município assumiu toda a responsabilidade sobre o sistema, não cabendo mais à Norte Energia responder pela expansão dele, decorrente do crescimento populacional.
Destacamos, também, a construção de quatro aterros sanitários nos municípios de Altamira, Brasil Novo, Anapu e Vitória do Xingu.
Desde 2010, a Norte Energia investiu cerca de R$ 8 bilhões em ações socioambientais. A construção do sistema de água e esgoto está entre as ações realizadas com esses recursos, assim como a construção e reforma de escolas, unidades de saúde, hospitais, pontes, estradas e prédios públicos, como o da sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas.