Os impactos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) para Belém, primeira cidade da Amazônia a sediar o evento que reúne representantes de vários países para discussões sobre o futuro climático, se tornaram tema de um projeto de pesquisa.
‘COP30 das oportunidades de transformações urbanas aos desafios para a participação e controle social’, é um trabalho coordenado pela professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Olga Lúcia Castreguini, visitante do programa de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA).
O projeto visa fazer uma análise crítica a respeito das transformações sociais realizadas na capital paraense para a recepção da COP30. Obras de infraestrutura e de mobilidade são alguns dos feitos que fazem parte da pesquisa liderada por Olga.
“É um projeto de pesquisa coordenado por mim com várias instituições e profissionais de diferentes áreas. Belém passou por uma série de transformações, estamos desde o início de 2024 acompanhando elas, a intenção é acompanhar todo esse processo de investimentos dessas obras. Um ano é pouco para concluir sobre as repercussões, mas o trabalho vai permitir olhar para trás e fechar o ciclo da preparação, realização e o pós”, explica a professora.
Olga pontuou que, apesar dos impactos positivos das obras perceptíveis durante a realização da conferência, questões relativas às obras no futuro têm sido motivo de preocupação.
Ela cita que locais como o Parque Linear da Tamandaré, da Doca e ainda o sistema BRT Metropolitano precisam ser vistos com olhar mais atento para os custos de suas manutenções, o que envolverá despesas ao poder público a longo prazo.
Parque Linear da Nova Tamandaré foi obra decorrente do evento da COP30, sediado em Belém. Foto: Alexandre Costa/Agência Pará
“Me preocupa muito o pós porque a gente teve uma série de obras de fato importantes e que transformaram uma parte da cidade, mas é preciso ter um olhar atento. Foram investimentos bilionários, alguns serão pagos pois foram contraídos por empréstimos, tem que ter atenção para essa capacidade de endividamento do estado. Vamos ter recursos previstos no orçamento? Outra coisa é a manutenção dessas obras, por exemplo, temos novos ônibus, confortáveis, com ar-condicionado, como será a manutenção dessa frota? Como ela vai circular efetivamente na cidade nos próximos meses e anos? Então, são coisas que nos preocupam para entender o pós”, alerta.
No entanto, a professora destacou a importância de Belém sediar a COP30 e de trazer o debate mundial do clima para dentro da região amazônica.
“Vivemos de forma pulsante a COP30, porque embora as decisões sejam tomadas na Blue Zone (zona azul), tivemos mais de cem eventos paralelos na cidade, algo que talvez não acontecesse em outras locais. Tivemos a marcha, manifestações indígenas, outros espaços de discussões, inclusive dentro da blue zone, já adianto que nas últimas três COPs isso não foi verdadeiro”, finalizou.
Especial COP30
A entrevista com a professora Olga Lúcia faz parte de uma sequência especial dedicada à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – Conferência das Partes (COP30) do programa ‘Bate-papo na CBN’, da rádio CBN Amazônia Belém (102,3 FM ).
Com o olhar de quem vive na região, o programa reuniu informações e entrevistas sobre toda a movimentação da 30ª edição do encontro mundial realizado em Belém (PA), realizado entre os dias 10 e 22 de novembro.
Olga é coordenadora do projeto de pesquisa “COP30 das oportunidades de transformações urbanas aos desafios para a participação e controle social”. Foto: Reprodução/Youtube- CBN Amazônia
O segundo convidado do programa foi Renato Rosas, presidente da ONG Ocas – Organização Comunitária de Adesão Social, plataforma de impacto sócioambiental com assessoria de lideranças que atua com bases comunitárias em mais de cinco regiões da Amazônia Paraense.
Sobre a atuação da organização na COP30, Rosas enfatiza o lançamento de um e-book que aborda a luta e resistência do povo indígena Tenetehaba Tembé, grupo originário que habita a terra indígena Alto Rio Guamá, no Pará.
“É um material robusto, cheio de informações e links sobre tudo dos povos indígenas, especialmente o povo Tenetehara Tembé, todos os seus entraves, as guerras que perderam, suas lutas, a situação do território em relação à Funai. O e-book te traz um panorama sobre a história dos povos indígenas e a importância do pertencimento”, explicou.
Com oito episódios, os programas da rádio, apresentados pela jornalista Brenda Freitas, também ganharam versões especiais no canal Amazon Sat e no Portal Amazônia.
Assista as entrevistas completas do sexto episódio da edição especial do programa:
A iniciativa Banzeiro da Esperança é uma parceria entre Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Rede Amazônica (FRAM) e Virada Sustentável, com patrocínio do Banco da Amazônia (BASA). Esta edição do Banzeiro da Esperança é uma jornada de conexão, troca de saberes e transformação com foco na COP30.
Rio Madeira. Foto: Rui Faquini/Banco de imagens da ANA
O Governo Federal apresentou no dia 2 de dezembro, na Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados, o modelo de concessão do Rio Madeira, incluído no Programa Nacional de Desestatização (PND) pelo Decreto nº 12.600/2025. A hidrovia tem um trecho de mais de 1 mil km, de Porto Velho (RO) até a foz com o Rio Amazonas, no município de Itacoatiara (AM).
A audiência teve como objetivo esclarecer os impactos da medida e detalhar o funcionamento da proposta. Participaram da sessão o secretário Nacional de Hidrovias e Navegação (SNHN), Otto Luiz Burlier, representante do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), e o superintendente de Estudos e Projetos Hidroviários da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Eduardo Queiroz.
A outorga visa garantir a navegabilidade segura e sustentável do rio. Nesse contexto, caberá à empresa concessionária executar:
serviços de mapeamento e monitoramento do fundo do rio (hidrografia);
auxílio à navegação, gestão do tráfego e dragagens;
derrocamento de pedras; e
apoio direto aos órgãos de segurança pública na região.
Na audiência, a principal preocupação manifestada foi a proteção da navegação social. Burlier assegurou que o modelo de concessão “não prevê cobrança de tarifas para ribeirinhos, pequenas embarcações ou pesca artesanal. A tarifa será aplicada apenas sobre grandes embarcações de carga”.
Visão aérea do Rio Madeira. Foto: Leandro Morais/Secom RO
Impactos logísticos no Rio Madeira
O projeto busca ampliar a eficiência logística, reduzir custos de transporte e aumentar a competitividade regional. No campo social, garante a operação e manutenção das Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4), essenciais para comunidades ribeirinhas. Segundo o modelo proposto, a concessão desonera o orçamento público, para permitir que os recursos sejam direcionados a outras áreas, além de estimular a geração de emprego e renda local.
“O Brasil ainda usa pouco suas hidrovias. Por isso, precisamos não apenas otimizar as que já operam hoje, mas também viabilizar novas rotas com potencial para movimentar produtos e garantir o abastecimento da população. Temos uma visão voltada para o crescimento do agronegócio e de toda a economia brasileira, o que demonstra como o modal hidroviário pode contribuir decisivamente para o desenvolvimento do país”, destacou o secretário.
Sustentabilidade
Na área ambiental, Burlier reforçou que a hidrovia representa um modal de menor impacto e essencial para a descarbonização da logística nacional. Conforme dados apresentados, o transporte aquaviário custa até 60% menos que o rodoviário e emite 80% menos poluentes.
Em outras palavras, um comboio padrão com 16 barcaças equivale a mais de 1,2 mil caminhões nas estradas. Recentemente, o Rio Madeira registrou a operação de um comboio com 36 barcaças, equivalente a mais de 2,5 mil caminhões.
*Contém informações da repórter Maria Clara Abreu, da Brasil 61
Luta pela justiça climática foi o ponto principal da capacitação dos coletivos do Amazonas. Foto: Divulgação AIHHUAM
Dez coletivos do Amazonas – sete de Manaus e três de outros municípios do estado – foram selecionados para o Projeto Grito Rua– Clima e Cultura para participarem de uma jornada de formação com oito aulas virtuais que abordaram os impactos da crise climática e o papel da arte como instrumento de mobilização e resistência.
O projeto é resultado da parceria entre a A Associação Intercultural de Hip Hop Urbanos da Amazônia (AIHHUAM), que atua na promoção da cultura urbana como instrumento de transformação social, e do Instituto Cultura, Comunicação e Incidência (ICCI). O objetivo é destacar a necessidade urgente de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas nas periferias, onde os impactos são mais severos e o acesso à informação e aos recursos ainda é limitado.
Através da capacitação, os coletivos deram o primeiro passo para ajudar suas comunidades a enfrentar as questões climáticas que passaram a fazer parte do seu dia a dia, como períodos alternados de secas extremas e enchentes.
Quem aproveitou a experiência foi Rafaela Pimentel Amaral, 31 anos, responsável pelo Espaço Buriti, do Parintins (AM). Ela explica que a formação ajudou a entender a complexidade das mudanças climáticas e os impactos sobre sua região.
“Foi uma imersão para ouvir e também ser desafiada. Então, foi um momento que ajudou a entender o que acontece não só na Amazônia ou no Brasil, mas no mundo”, explica.
Coletivos do Amazonas. Foto: Divulgação AIHHUAM
Depois da formação, Rafaela organizou rodas de conversas com jovens na Orla da União, bairro periférico da cidade de Parintins. Além das conversas, promoveu intervenções artísticas nos flutuantes buscando interagir com os moradores e levar para eles exemplos de como as mudanças climáticas impactam suas atividades. “Fizemos um evento dentro da Orla da União com um vídeo. Foi muito bom ver crianças, jovens e adultos se conscientizando do que acontece no mundo com relação às mudanças climáticas e relacionar isso às situações da vida diária deles, como o descarte inadequado de lixo, por exemplo”, afirma Rafaela.
Nessa experiência, os moradores puderam ser ouvidos – da dona de casa aos pescadores, verdureiros e os que vendem frutas e outros alimentos. “Com certeza, promovemos um grande impacto cultural nessa comunidade, permitindo que tivessem o conhecimento necessário para ver como mudar sua realidade”, finaliza.
A atuação prática foi favorecida pelo fato de que ao fim da formação, em outubro, cada coletivo recebeu apoio financeiro para compra de equipamentos, no valor de R$3 mil, e para a realização de ações práticas de conscientização em suas comunidades, com o apoio financeiro adicional de R$1,5 mil. Além da formação e do apoio, a imersão em Manaus reuniu representantes de diferentes municípios, fomentando redes de colaboração, troca de experiências e articulação.
Coletivos do Amazonas. Foto: Divulgação AIHHUAM
Dessa forma, cada projeto ampliou seu impacto, estimulando a construção de soluções locais com foco na sustentabilidade, na justiça climática e na valorização das expressões artísticas periféricas.
“Ao investir na formação e no fortalecimento de coletivos culturais, o projeto reconhece o território como espaço de potência criativa e promove o protagonismo comunitário na luta ambiental. A metodologia é baseada em educação para a ação, colaboração em rede e sustentabilidade com autonomia, conectando cultura, juventude e meio ambiente”, explica Mel Angeoles, vice-presidente da AIHHUAM.
A Associação Intercultural de Hip Hop Urbanos da Amazônia (AIHHUAM) foi fundada em 2013 para atuar na promoção da cultura urbana como instrumento de transformação social, econômica e ambiental na região. Por isso, promove formações online e presenciais com práticas que integrem conhecimento sobre os problemas das comunidades por meio da música e da arte.
Brigadistas indígenas de vários povos exibem seus diplomas ao final do curso de capacitação em tecnologia, em Roraima. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.
Em 2023, o Pantanal ardeu em chamas — no total, mais de 600 mil hectares foram queimados ao longo do ano, segundo o MapBiomas. Luciana Correia da Silva, brigadista indígena Kadiwéu, estava lá. Em meio à fuligem e ao calor, enquanto a fumaça avançava sobre as árvores e afugentava os animais, ela agia para reverter esse cenário.
“Eu nunca tinha visto um fogo daquela proporção; vinha de todos os lados, do solo e das copas dos ‘carandazeiros’ [áreas com grande concentração de carandá, palmeira da espécie Copernicia alba]. Fiquei muito apreensiva com o que poderia acontecer comigo”, disse ela à Mongabay.
Luciana havia dado à luz naquele ano, mas o fogo atrapalhou seus planos. À época do relato, seu bebê tinha apenas seis meses de vida e ficou sob os cuidados de sua cunhada na aldeia Tomázia, na Terra Indígena (TI) Kadiwéu, próxima ao município de Bonito, no Mato Grosso do Sul. Tudo isso para que ela pudesse somar forças à luta travada contra os incêndios na mata.
A brigadista Luciana Correia (à direita) ao lado da colega de equipe, Neudines Félix. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.
Hoje, dois anos depois, ela fala na posição de chefe de esquadrão da Brigada Kadiwéu 3, na qual coordena um grupo de seis indígenas que usam a experiência e o conhecimento para combater incêndios no Pantanal. Luciana é uma das poucas mulheres em atividade no campo — além dela, há apenas outra colega na ala feminina da equipe.
A atuação das duas, no entanto, faz parte de uma tendência observada em diversos pontos do território brasileiro: diante dos riscos crescentes que o fogo impõe aos biomas nacionais, mulheres indígenas têm assumido um papel de protagonismo no combate às chamas. Além de cumprirem uma função ambiental, essas novas iniciativas permitem que muitas brigadistas se desvencilhem dos cuidados domésticos — trabalho que, muitas vezes, exercem por obrigação.
Pelo caminho, além dos riscos à saúde, há outro problema: a estigmatização. Ao chegarem à linha de frente, elas realizam o que muitos consideram um “trabalho de homem”, sobretudo por exigir maior resistência física. Além de confrontar o estigma, elas dominam tarefas que também envolvem uma visão estratégica para o mapeamento territorial, a redução do desmatamento e a adoção de ações contra tudo o que possa comprometer o equilíbrio entre a vida e a natureza.
Uma selfie de brigadistas indígenas do povo Wapichana durante trabalho de campo de combate aos incêndios. Foto: arquivo pessoal / Mongabay
Luciana revela que “nunca duvidou” de suas capacidades. Ela ingressou na brigada atraída pela possibilidade de uma renda estável. Mas, ao longo do tempo, descobriu um sentido muito mais profundo para a atividade — agora, a exerce com segurança, reconhecendo suas próprias habilidades. “Me encontrei na brigada; quero continuar envolvida nesse espaço.”
Com o objetivo de fortalecer a autonomia de brigadistas e comunicadores indígenas que enfrentam o fogo, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR), em parceria com o Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, vêm oferecendo pequenos cursos de comunicação e de gestão do Sistema de Informação Geográfica (SIG) — ferramenta que combina dados e mapas para avaliar o território de forma integrada, detectar vulnerabilidades e direcionar medidas de proteção.
As oficinas, realizadas ao longo deste ano, buscaram aliar o uso da tecnologia ao conhecimento ancestral, sobretudo entre as mulheres, segundo o Ipam. Em junho, as atividades foram levadas à Terra Indígena Krikati, no estado do Maranhão, enquanto novos módulos chegaram a Roraima no mês de setembro.
As aulas mais recentes contaram com a participação de pelo menos 18 integrantes da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Eles representaram seis povos originários do estado: os Macuxi, os Wapichana, os Waiwai e os Taurepang; também participaram os Terena e os Kadiwéu, do Mato Grosso do Sul. Foi durante esse período que Luciana, com apoio financeiro e logístico do Instituto Terra Brasilis, pôde viajar até o norte do Brasil para aprofundar seus conhecimentos sobre as funcionalidades do SIG.
“Acabei me descobrindo; hoje gosto muito do que faço”, disse a indígena Kadiwéu. Ela explica que deseja ver cada vez mais mulheres indígenas aprovadas nos processos seletivos da brigada, realizados a cada seis meses.
Segundo a profissional, a jornada é desafiadora: diante da alta procura, muitas mulheres reprovam nas provas de resistência física, já que disputam as vagas em pé de igualdade com candidatos homens. Isso, porém, nunca as intimidou.
Brigadistas indígenas de vários povos exibem seus diplomas ao final do curso de capacitação em tecnologia, em Roraima. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.
Conhecimento tradicional e tecnologia são aliados na luta contra o fogo
Com uma área de 539 mil hectares, que se estendem entre o Pantanal e o Cerrado, a Terra Indígena Kadiwéu, de Luciana, abriga seis aldeias e conta com duas brigadas mantidas pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Desde 2011, as unidades de brigadistas Kadiwéu são compostas exclusivamente por profissionais indígenas.
Segundo seus membros, as condições observadas em 2025 têm exigido menos saídas a campo para ações de enfrentamento. O ano anterior, todavia, trouxe maiores desafios: o Monitor do Fogo, do MapBiomas, registrou 1,9 milhão de hectares afetados diretamente no Pantanal, o que representa um aumento de 64% em relação à média dos últimos seis anos. O drama ambiental só foi maior em 2020, quando 2,3 milhões de hectares foram queimados.
Nesse contexto, as secas extremas, que incidiram sobre o bioma no mesmo período, também deixaram os ecossistemas mais expostos ao surgimento e à propagação de focos de fogo, o que aumentou a necessidade de um número maior de brigadistas. Luciana espera que as barreiras sociais sejam superadas a partir da demanda crescente por novos profissionais.
“Há certa resistência cultural. Quem define quem sai [a campo] para trabalhar são os homens, mas acredito que isso vá mudar. Na medida em que mais mulheres assumirem posições de chefia, será natural vê-las nesses cargos”, disse. Por sua experiência, ela espera abrir caminho para que sua filha e as futuras gerações sigam seus passos.
Em contato com outras mulheres indígenas na TI Raposa Terra do Sol, a chefe de brigada aprendeu a fazer mapas que podem auxiliar os Kadiwéu de diversas formas. Ela destaca a criação de um calendário para o Manejo Integrado do Fogo (MIF), descrito pelo governo federal como um “modelo de planejamento e gestão que associa aspectos ecológicos, culturais, socioeconômicos e técnicos” para o combate aos incêndios.
Luciana explica que essa abordagem “preserva os ecossistemas, valoriza o conhecimento local e garante segurança a quem atua em zonas rurais e áreas protegidas”.
Voluntária exibe mapas climáticos feitos à mão durante cursos sobre o Sistema de Informação Geográfica (SIG), em Roraima. Foto: Ipam/divulgação.
O curso de capacitação em SIG também pode aliar conhecimentos, somando a tecnologia geoespacial aos hábitos tradicionais das brigadistas — que registram, muitas vezes à mão, a localização de rios, igarapés, aldeias e tipos de vegetação. Dessa forma, os membros da brigada podem converter as informações em papel em mapas digitais, o que facilita o planejamento e a supervisão de ações mitigadoras, bem como o diálogo com outras instituições.
Além de reunir a memória e a ancestralidade de muitas mulheres, a criação de mapas e de outras ferramentas técnicas também confere credibilidade ao trabalho que exercem — servindo como evidência para distinguir queimas prescritas (ou controladas) de incêndios sem controle.
Esses recursos podem ser úteis diante de eventuais críticas à atividade, como no caso dos brigadistas de Alter do Chão, no Pará — em 2019, os voluntários foram presos sob a acusação de iniciar incêndios criminosos na região de forma proposital, em um processo cercado de controvérsias jurídicas e de denúncias de falta de provas.
Apesar dos avanços, Luciana diz que a base de sua brigada ainda não dispõe de uma estrutura adequada. Isso inclui a falta de um sistema de monitoramento próprio, o que leva seu time a recorrer a aparelhos pessoais de celular durante as atividades de monitoramento. O escritório que utilizam conta apenas com um computador e um serviço simples de internet custeado pela equipe.
“Precisamos de apoiadores para melhorar as condições de trabalho na aldeia; só assim poderei aplicar, na prática, o que aprendi [durante o curso] em Roraima”, disse.
Guardiãs do território: entre os desafios e a resistência
Durante os estudos em Boa Vista, capital roraimense, Luciana conheceu Ana Paula Levi, do povo Wapichana, que atua como coordenadora da brigada indígena comunitária de Roraima. Ela relata que Ana Paula vive uma “realidade diferente”, cercada por telões e computadores altamente equipados. Lá, puderam trocar experiências sobre suas diferentes perspectivas e histórias de vida.
A gestora Wapichana iniciou seus trabalhos como brigadista escondida de seu pai, que não aceitava ver a filha à frente de um “trabalho masculino”. A voluntária, que também é técnica de enfermagem, não se deu por vencida: hoje em dia, ela lidera mais de 63 brigadistas, entre homens e mulheres, divididos em seis grupos; as equipes estão em atividade no estado desde 2012.
Uma das subdivisões leva o nome de Pataxibas e atua na região do Alto Cauamé, contando com os esforços de 14 mulheres das etnias Wapichana, Macuxi e Waiwai. Quando saem para combater o fogo, as brigadistas também recorrem à comunidade para o cuidado de seus filhos pequenos.
Além do trabalho de campo, elas se dedicam a iniciativas de educação ambiental e de reflorestamento, levando o tema às escolas e promovendo ações de conscientização. O trabalho é facilitado pela temporada de chuvas, que contribui para reduzir o risco de incêndio.
Mulheres indígenas da brigada Pataxibas tomam nota durante um ciclo de capacitações. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.
De sua sala, Ana Paula monitora os territórios indígenas em tempo real, observando focos de fogo, áreas queimadas, fontes de água e zonas em processo de reflorestamento. A atuação na região amazônica é fundamental, segundo ela, devido à ampla biodiversidade vegetal do bioma. O sistema utilizado pela líder Wapichana e seus colegas reduziu o tempo de resposta às crises ambientais.
Mesmo assim, as brigadas seguem um calendário tradicional próprio, que precisa estar em constante adaptação às alterações bruscas do clima. “O inverno está chegando mais cedo. E o calor, agora, é insuportável”, disse Ana Paula. Ela explica que o impacto é visível nas áreas rurais e nos igarapés, onde as nascentes perdem força, o que causa danos ao plantio de mandioca, banana, pimenta e graviola, entre outros alimentos; já os animais sofrem mais com a seca.
Ela também cita a atenção que suas brigadistas dão ao avanço do setor da soja nas imediações dos territórios indígenas. “As mulheres são mais observadoras: estendem o olhar para o que se passa ao redor do fogo. Cuidam umas das outras, são unidas, lembram-se de levar água e comida, tudo enquanto prestam atenção aos animais que fogem das chamas.”
Segundo Sineia do Vale, coordenadora de gestão territorial do CIR, o Prevfogo oferece treinamentos para futuros brigadistas desde 2012. Já o conselho para o qual trabalha tem atuado para atrair novos recursos para a compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), além do fortalecimento de fundos destinados ao pagamento de bolsas aos brigadistas.
Para atender às necessidades físicas e psicológicas das mulheres, há diretrizes específicas para brigadistas gestantes e em período menstrual. “Ficar grávida na brigada não é um problema. Nesse período, elas participam apenas de palestras ou de atividades que não exigem o combate direto [ao fogo]”, disse Sineia. Atualmente, a brigada Pataxibas aguarda a construção da sua própria sede administrativa, que incluirá serviço de internet via satélite.
Para a coordenadora, esses avanços podem aumentar a conectividade entre as profissionais indígenas de diferentes brigadas, ampliando o alcance do monitoramento coletivo.
“É importante dizer: as mulheres são bastante ‘sensíveis’ às questões climáticas. Elas lidam diretamente com a floresta, coletando plantas medicinais e sementes para o artesanato. Sabem o nível do rio, os períodos ideais para plantar e colher — e se o tempo vai mudar ou não.”
Um futuro de luta por melhorias
Pelo alto grau de imprevisibilidade do comportamento do fogo, Sineia explica que as brigadas “precisam de apoio e treinamento constantes”. Ao mesmo tempo, argumenta, é necessário ir além e avaliar a qualidade do ar para garantir os cuidados básicos à saúde comunitária. Pensando nisso, o Ipam, em parceria com o CIR, instalou três sensores nas TI Serra da Moça, TI Raposa Serra do Sol e TI Serra da Mata, em Roraima, para monitorar o nível de poluição.
Entre julho de 2020 e maio de 2024, o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Roraima, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), consolidou, em relatório, dados qualitativos gerais, identificando dois picos significativos de poluição relacionados às queimadas locais e em regiões vizinhas. De um total de 1.290 dias analisados, os patamares de poluição atingiram níveis prejudiciais à saúde humana em quase 20% do período.
Ao falar do futuro, Sineia adota um tom realista. Ela cita a persistência das altas temperaturas e das secas, além de possíveis novos picos de queimadas pelo Brasil. Defendendo a criação de novas políticas públicas, ela cobra recursos para manter as brigadas, além de equipamentos específicos — como veículos, mochilas com filtro de água e assopradores. “Sem isso, há risco até para os brigadistas experientes”, disse.
Brigadista na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Foto: Alicce Rodrigues/Instituto Terra Brasilis.
Consultado pela Mongabay, o Prevfogo declarou que trabalhar com brigadas indígenas traz “vantagens únicas, já que esses povos dominam profundamente seus territórios, conhecem as espécies vegetais, os padrões climáticos, os solos e as rotas naturais do fogo”.
“As brigadas indígenas podem agir rapidamente, realizando um ‘primeiro ataque’ assim que é identificado um foco de incêndio florestal, o que garante uma resposta mais ágil. Em geral, como atuam em áreas remotas, aguardar ajuda externa leva muito tempo, aumentando os riscos e os impactos”, disse a assessoria de comunicação do órgão. “Temos percebido, ao longo desses anos, que diversos indígenas, a partir do ingresso como brigadista, buscam aprimorar suas capacidades. Vão crescendo dentro dos cargos do Programa de Brigadas, se tornando lideranças, chefes de brigadas, supervisores e instrutores.”
De acordo com Ana Carolina Pessôa, pesquisadora do Ipam, porém, há “muitos outros desafios”. Ela explica, em entrevista, que a entrega de equipamentos varia conforme a verba destinada a cada projeto, ao mesmo tempo em que alerta: “os orçamentos são limitados.”
Pessôa também é uma das coordenadoras do Projeto Gestão do Fogo na Amazônia, responsável por um relatório, divulgado em 2025, que reúne mais de 120 entrevistas com profissionais que atuam na prevenção e no combate a incêndios florestais na Amazônia.
O levantamento revela um total de 382 brigadas na Amazônia Legal; destas, 51% são de responsabilidade estadual e municipal. “As brigadas federais correspondem a 26% do total. Embora as do Ibama sejam bem estruturadas, enfrentam dificuldades devido à falta de equipamentos fora do período contratual. Já as brigadas voluntárias lidam com escassez de recursos, o que pode comprometer sua capacidade de resposta”, diz a pesquisa.
A acadêmica também defende a ampliação de parcerias entre brigadas, comunidades, órgãos públicos e organizações da sociedade civil. Segundo ela, mudanças desse tipo fazem com que tudo “funcione melhor”. Olhando adiante, o Ipam busca novas alianças e editais para dar continuidade aos esforços de apoio às ações de brigadistas em todo o país.
“Um dos principais desafios para expandir o projeto é garantir recursos financeiros contínuos”, disse.
*Contém informações da repórter Julia Moa, da Mongabay
Capa de A caligrafia de Deus (Lazuli, 2011), com alteração
Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com
O primeiro artigo científico que escrevi na vida foi durante o 4º período da graduação, um texto sobre os absurdos presentes no conto A caligrafia de Deus, de Márcio Souza. O principal era como a violência surgia de forma definitiva, como se o cenário descrito, uma Manaus tomada pelo surto populacional trazido pela instalação da Zona Franca, fosse uma carta aberta contra toda forma de civilidade.
Acho incômodo não apenas o fato da violência e seus códigos serem o esqueleto da narrativa, mas que o discurso de Souza abrace um elitismo típico da camada “intelectual” da cidade, que responsabiliza o pobre por sua pobreza, como se o destino fosse algo inescapável a quem não tem no espírito as sensibilidades do intelecto, pessoas condenadas por si mesmas a uma vida sem dignidade, não como se fossem também vítimas dos interesses de uma outra espécie de elite:
“Manaus é odiada talvez por não cumprir com o que promete. Engana as gentes das barrancas, os inocentes dos rios.
Engana os que chegam de muito mais longe, carregados de misérias e pesadelos.
Essa gente enganada não perdoa a cidade, e castiga Manaus, cada uma delas fazendo crescer o tumor canceroso em que foi transformada a velha e orgulhosa capital dos barés.
Cidade degenerada, de alegria favelada acostumada a se contentar com pouco”.
Apresentação, A caligrafia de Deus
Márcio Souza deixou para o mundo uma contribuição literária tremenda, mas todos temos nossos limites. O dele é o mesmo das elites brasileiras: a incapacidade de enxergar o mundo fora das lentes do erudito, sem entender que o mundo é construído por muitas mãos. Esquecem porque as suas não estão sujas de terra. Esquecem que, na capital dos barés, os barés sequer têm vez.
Curiosamente, Souza também enxerga que os protagonistas de Caligrafia, mesmo dentro daquele universo, são representados não como pessoas, mas como personagens em um teatro do qual mal têm consciência. Minha crítica ao texto de Souza foca justamente no fato de o autor não acreditar que pessoas em situação de vulnerabilidade são capazes justamente de ter consciência, mas ele entende bastante dos mecanismos perversos que movimentam esse teatro.
Acontece que suas personagens, uma moça baniwa chamada Izabel Pimentel e Alfredo Silva, vulgo Catarro, um rapaz que veio do interior em busca de oportunidades em Manaus, são envolvidos pelo crescimento desregulado que acometeu Manaus com a chegada da Zona Franca. Inevitável associá-los ao perfil descrito por Souza em sua apresentação do livro de mesmo nome do conto, que atraídos pelas promessas de grandeza da capital, são por ela traídos e contra ela tramam vinganças.
Acontece que ambos são traídos, mas privados de consciência, não tramam vingança alguma. Pelo contrário, tornam-se peças num jogo maior que eles mesmos, tão grande que sequer enxergam os jogadores que os movem. Na verdade, são pessoas que, ao longo da vida, aprendem desde cedo que a violência também é uma linguagem.
Chamo de linguagem porque os códigos da violência sempre estiveram moldando o mundo que os rodeia, de modo que a naturalizam e sequer entendem-na como violência.
“Deus escreve certos por linhas tortas” é a justificativa que Izabel aprende desde nova para compreender os abusos da vida, seja no convento de sua cidade natal, Iauaretê-Cachoeira, ou nos bordéis de Manaus, onde conhece Alfredo e com ele se relaciona.
Associada à vontade divina, a violência permeia suas vidas desde a concepção: pais violentos, um ambiente ancestral carcomido por tradições coloniais com o qual não se reconhecem, uma promessa de vida melhor sob as luzes da cidade grande.
O desengano não acontece em momento algum, pois a mecânica da narrativa os coloca como incapazes até de perceber a armadilha urbana em que caíram. Alfredo, levado pela necessidade, acaba envolvido em pequenos atos ilícitos, como pirataria, e no momento em que praticou furto, se tornou moderadamente famoso.
Por conta disso, quando a polícia, mais uma força de coerção do que de fato segurança, precisava de um bode expiatório para mostrar serviço ou acalmar os ânimos públicos com relação à violência que resulta do crescimento louco de uma metrópole, era o rosto surrado de Catarro que exibiam na televisão.
Comissário Frota, a força policial na narrativa, tinha em Catarro seu alvo favorito: frágil, bobo, fácil de capturar. Para justificar a própria ineficácia, prendia o pobre-diabo e mantinha a opinião pública satisfeita, pois ele próprio, instrumento do Estado, também tinha um papel a cumprir no teatro da violência.
Até o momento em que uma operação policial mais… efetiva foi necessária, e já não bastava capturar qualquer um para servir de bode. A narrativa já começa com os corpos de Alfredo e Izabel expostos, perfurados por balas, e em retrospecto, suas histórias são contadas e vemos que, vítimas da máquina de moer carne de pobre que é uma capital, os dois não tinham parte nos crimes pelos quais foram condenados.
O mais absurdo na narrativa não é o fatídico destino desses sujeitos, mas como a violência aparece como um traço da personalidade da capital, inescapável, inquestionável, irreconhecível por ser tão familiar, tal qual as linhas escritas por Deus.
Digo o mais absurdo, mas frequentemente me questiono se é isso mesmo quando ligo a televisão e vejo a celebração de uma chacina em favelas. Entenda, se em 2025 ainda pensamos que qualquer crítica a uma ação policial é sinônimo de defesa da criminalidade, eu afirmo que este texto não é para você. Sugiro fechar esta página e voltar às mensagens massificadas em seu Whatsapp, mas duvido que, se pensa assim, sequer teria chegado tão longe na leitura.
Não é absurdo, pois a violência é sim a linguagem que nosso país conhece fluentemente. Me perguntava como era possível que as pessoas na narrativa de Márcio Souza olhassem para os corpos de Izabel e Alfredo com uma curiosidade mórbida, certos de que haveria algum tipo de ser humano que merecia ser entregue às moscas daquela forma, mas tenho a mesma reação aqui, no mundo real, na sagrada capital dos barés de Márcio Souza.
Celebrar a morte como um símbolo de uma sociedade respeitável é a manifestação máxima do dialeto-violência. Ainda sou assombrado pelas reportagens que mostravam pessoas lavando litros de sangue em pisos de alvenaria após a chacina do Jacarezinho em 2021, assim como não esqueço as mães desesperadas em função do massacre no Compaj, em 2017, pois não acredito que algum tipo de paz ou segurança seja construído em cima de tanta brutalidade.
Não vemos essa brutalidade na Faria Lima, mesmo depois de confirmada a ligação entre empresários influentes com o crime organizado. Não vemos essa brutalidade quando um ex-deputado recebe policiais cumprindo seu dever com tiros e granadas. Não vemos essa brutalidade quando um empresário influente de Manaus faz o mesmo com a polícia federal às portas de seu condomínio de luxo, investigado por desvio de recursos destinados ao combate à Covid.
Aliás, não vemos sequer a celebração do desmonte de uma célula ligada ao crime organizado na Bahia, no início do mês, sem que um massacre fosse deflagrado pelas forças policiais. Afinal, isso não rende pauta, isso não rende mídia.
O fato é que a violência é o que sempre foi: um instrumento usado pelas forças instauradas para garantir a estabilidade de um sistema que favorece poucos. O Estado brasileiro não é contra a violência, só é possessivo com relação ao seu uso. Se não é o Estado que seleciona quem usa essa violência, chamam de vandalismo, de barbaridade.
Nesse cenário, a violência é menos um fenômeno que surge da desordem social e mais uma ferramenta de coerção, uma espada de dois gumes empunhada por um cavaleiro ciumento que frequentemente se corta na própria lâmina, mas com poder de decisão sobre que perfil merece viver e qual merece morrer. É o símbolo do que Achille Mbembe chama de necropolítica.
O que se celebra não é estarmos um passo mais próximos de uma sociedade segura, mas o derramamento de sangue que uma paz falsa exige, só mesmo para garantir as palmas nesse teatro. Paz para quem? Afinal, o crime ainda se organiza, e não apenas nas favelas, mas são elas que pagam o preço com vidas a quilo. E não, não interessa se essas vidas são de criminosos, elas são apenas a justificativa para que a bala siga perdida, mas com alvo certo. Alvos com cor, com CEP, com uma renda sub-humana, mas sem nomes. Talvez um apelido, talvez um escarro.
Porque quando só entendemos a violência, tudo o que falamos é morte.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Sobre o autor
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) identificou espécimes suspeitos da mosca-da-carambola durante monitoramento de rotina em Rio Preto da Eva, na Região Metropolitana de Manaus. A possível ocorrência da praga quarentenária foi registrada em uma armadilha instalada pela Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA).
O material coletado já foi enviado ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária, em Goiânia (LFDA-GO), para análise. Mesmo antes da confirmação, equipes iniciaram medidas fitossanitárias previstas na Portaria SDA nº 776/2025 e no manual de procedimentos para esse tipo de ocorrência.
Mosta-da-carambola. Foto: Danilo Nascimento
A mosca-da-carambola (Bactrocera carambolae) é uma praga de alto risco econômico. Embora esteja presente no Brasil, sua ocorrência é restrita a Roraima, Amapá e a uma área específica do Pará, na divisa com o Amapá.
O inseto ataca principalmente caramboleiras, mas também afeta manga, goiaba, acerola, tomate, mamão, pimenta, jambo, caju e laranja.
Introduzida no país pelo Amapá em 1996, a praga é monitorada pelo Mapa por meio do Programa Nacional de Vigilância da Mosca-da-Carambola, que mantém cerca de 11 mil armadilhas distribuídas em áreas estratégicas do Brasil, conforme o risco de dispersão.
Governo de Roraima inicia força-tarefa contra mosca-da-carambola em Boa Vista_Ascom Aderr
A captura no Amazonas ocorreu em uma dessas armadilhas, dentro das ações permanentes de monitoramento da Defesa Agropecuária.
Evento que homenageia entidade Oxum reúne povos de religiões de matriz africana na Ponta Negra para caminhada e manifestações culturais. Foto: Alonso Junior
Na próxima segunda, (08), o Complexo Turístico da Ponta Negra, zona Oeste de Manaus, será palco da celebração dos 10 anos do Festival Cultural Balaio da Oxum, um dos maiores encontros culturais e religiosos da Amazônia. Com o tema “Águas de Retomada: naturezas sagradas, terras demarcadas”, o evento deve reunir milhares de integrantes de povos de terreiro, lideranças indígenas e sociedade civil, do Amazonas e de outros estados brasileiros, em defesa da diversidade religiosa e do meio ambiente.
Como todos os anos, a programação inicia às 16h com a concentração no estacionamento da Ponta Negra, de onde o público sairá por volta das 17h em uma caminhada contra a intolerância religiosa até a praia. Celebrado anualmente, o evento homenageia Oxum, entidade reconhecida como a orixá da fertilidade, das águas doces e do amor.
Festival Balaio da Oxum tem como uma de suas principais atrações uma caminhada contra a intolerância religiosa até a praia. Foto: Luiz Almeida
Depois da caminhada, já na praia, acontece o xirê, um momento religioso que saúda Oxum e outras divindades por meio de cânticos, tambores e danças ao ar livre. Como parte do momento ritualístico e do compromisso ambiental do festival, também é feita a entrega de oferendas nas águas do Rio Negro, preparadas sempre com materiais biodegradáveis, reforçando a mensagem de cuidado com os ecossistemas amazônicos.
“Chegamos à nossa décima edição graças à união dos povos de axé. Viemos lembrar a todos do cuidado necessário com nossas terras e nossos rios, pois eles são sagrados para a vida”, destaca Agonjaí Flor de Navê, presidenta da Associação Brasileira do Balaio da Oxum (AbraOxum) e uma das organizadoras do evento. “Por isso, seguimos na luta pela valorização do povo de axé, dos povos indígenas e dos quilombolas. Estamos juntos”.
Um dos maiores encontros culturais e religiosos da Amazônia, o festival Balaio da Oxum é totalmente gratuito e aberto ao público. Foto: Luiz Almeida
Neste ano, o Festival Cultural Balaio da Oxum destaca em seu tema também o papel das águas e dos territórios sagrados na agenda climática e a preservação da natureza, em diálogo com as discussões globais da COP30 e as pautas levantadas pelas populações tradicionais, como a demarcação de terras indígenas e a titulação de territórios quilombolas.
“O Balaio da Oxum é uma resposta viva ao racismo religioso, à destruição da natureza e ao apagamento das nossas histórias. Quando oferecemos flores a Oxum, também estamos semeando um futuro de dignidade para nossos povos”, completa Flor de Navê.
Após o xirê, a partir das 19h, começa a programação musical do festival em um palco montado na praia, reunindo shows de Márcia Siqueira, Mara Lima, Márcia Novo, James Rios, Papo de Preto, Phamela dos Anjos, Escola de Samba do Amor, além dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso e da Bateria Furiosa da Reino Unido da Liberdade.
A programação é totalmente gratuita e aberta ao público. Em sua décima edição, o Balaio da Oxum se consolida como um marco de resistência, fé e mobilização socioambiental na Amazônia, fortalecendo a luta por territórios demarcados, valorização dos povos tradicionais e justiça climática.
Reitor da UFPA participou da reunião plenária do CDESS junto com o presidente Lula. Foto: Ricardo Stuckert
O reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Gilmar Pereira da Silva, e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), participou da última reunião do Colegiado neste ano, realizada na última quinta-feira, 4, no Palácio do Itamaraty, em Brasília.
O encontro contou com a participação do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e reuniu cerca de 250 pessoas, entre dirigentes de instituições científicas, representantes governamentais, da sociedade civil e especialistas dedicados à construção de políticas para o desenvolvimento sustentável do país.
Reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) reuniu cerca de 250 pessoas. Foto: Ricardo Stuckert
Na ocasião, o CDESS apresentou ao presidente um conjunto de contribuições estratégicas consolidadas ao longo da COP 30, realizada em Belém. Entre os destaques, está o Relatório das Ações do Conselho durante a conferência, que inclui análises, recomendações e lançamento do livro digital da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia, publicado em português e inglês, com o objetivo de ampliar o alcance internacional da produção científica amazônica.
A UFPA foi lembrada pela participação ativa da Cúpula dos Povos, fortalecendo o diálogo com movimentos sociais e organizações da sociedade civil, e pela atuação marcante na Aldeia COP, espaço liderado por movimentos indígenas que debateu políticas ambientais e direitos territoriais, além de um estande na Zona Azul, área restrita de negociações oficiais da ONU na COP 30.
O reitor destacou, ainda, que a presença da UFPA nos principais espaços da COP 30 demonstra o papel estratégico da região. Foto: Ricardo Stuckert
Para o reitor da UFPA e conselheiro do CDESS, a reunião desta quinta-feira representou um passo importante para consolidar a ciência amazônica como eixo estruturante das políticas públicas de clima, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.
“Entregamos ao presidente Lula um conjunto de propostas construídas coletivamente por instituições científicas da Amazônia. Nossa participação na COP 30 mostrou que a UFPA tem capacidade, legitimidade e compromisso para contribuir com decisões globais. A ciência sobre, na e para a Amazônia precisa estar no coração das políticas nacionais, e Belém será o palco dessa transformação”, afirmou o reitor.
Papel estratégico da UFPA
O reitor destacou, ainda, que a presença da UFPA nos principais espaços da COP 30 demonstra o papel estratégico da Universidade no enfrentamento dos desafios ambientais e sociais da região.
“Ter um estande na Zona Azul nos permitiu levar a voz da Amazônia ao centro das negociações internacionais. Isso reforça que a produção científica da UFPA está conectada com o que há de mais avançado no debate climático global”, completou.
Para reitor da UFPA, universidade teve papel estratégico nas principais discussões da COP30 para o enfrentamento dos desafios ambientais. Foto: Alexandre de Moraes/Divulgação UFPA
Na avaliação do reitor, com a entrega das contribuições ao presidente Lula, a UFPA reforça seu papel histórico na liderança científica da Amazônia e sua disposição em colaborar, de forma contínua, com a formulação de políticas públicas estruturantes para o país. “A Universidade seguirá atuando nas agendas de clima, conservação, educação superior, direitos sociais e desenvolvimento sustentável”, garantiu.
Nota técnica da DPU conclui que povos indígenas isolados não têm direito a consulta livre, prévia e informada. Foto: Acervo/OPI
A Defensoria Pública da União (DPU) divulgou uma nota técnica afirmando que a consulta livre, prévia e informada, instrumento previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que trata dos povos indígenas, não se aplica a comunidades tradicionais e povos originários isolados. De acordo com o órgão, o próprio isolamento já configura uma resposta negativa para qualquer tipo de empreendimento.
O defensor público Renan Sotto Mayor reconhece a importância do instrumento, mas diz que ele é inaplicável no caso dos povos isolados.
Defensor Sotto Mayor reconhece importância da consulta livre, mas afirma que instrumento é inaplicável aos povos isolados. Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
” A consulta [prévia] é sempre fundamental. Agora, quando você fala de povos indígenas isolados, a consulta já está feita. E a resposta é não”, frisa Sotto, que é titular do recém-criado Ofício de Povos Isolados e de Recente Contato, formalizado em outubro e que originou a nota técnica.
Arcabouço
A posição da DPU não é inédita no campo do direito e das normas. Os regimentos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Ministério dos Povos Indígenas já estabeleceram o princípio de não contato e, em 2020, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) aprovou uma resolução reconhecendo a impossibilidade de fazer consultas a povos isolados. Dois anos depois, foi a vez de o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) adotar a mesma posição. Mesmo assim, a nota técnica foi bem recebida por quem atua na área.
Indígena que ficou conhecido como homem do buraco viveu isolado por 26 anos – Foto: Acervo/Funai
“São documentos que podem influenciar a atuação da Justiça Federal em casos envolvendo esses grupos. É um adensamento desse arcabouço jurídico de proteção”, argumenta Fábio Ribeiro, coordenador executivo do Observatório dos Povos Indígenas Isolados (OPI).
O coordenador geral de Povos Isolados e de Recente Contato da Funai, Marco Aurélio Milken Tosta, tem opinião parecida. “Por mais que já existam normativas, é muito importante a gente reforçar esses entendimentos de tempos em tempos, em especial em instâncias diversificadas. Essa instância da DPU representa um fortalecimento relevante para nossa atuação e para a defesa dos direitos e promoção dos direitos dos povos indígenas isolados.”
A inadequação da consulta prévia para povos isolados está baseada em outro princípio do direito internacional, a autodeterminação dos povos. Sotto Mayor lembra que o isolamento é uma escolha. “Esses povos não estão isolados no mundo idílico. Eles, normalmente, estão em fuga. Eles têm o histórico de extermínio”.
Povo Tanaru
É o caso do povo do Tanaru, etnia que deixou de existir depois da morte do homem que ficou conhecido como índio do buraco, em 2022. Ele escolheu viver sozinho, isolado, por 26 anos, em uma ilha de Floresta Amazônica de 8 mil hectares, no estado de Rondônia. Ele foi o único sobrevivente de uma série de massacres ocorridos dentro de uma fazenda, a Fazenda Modelo, na primeira metade dos anos de 1990.
indígenas isolados. Foto: divulgação
O extermínio dos Tanaru é considerado um dos casos mais emblemáticos de genocídio. Levantamento da organização não governamental Survival International estima que mais de 90% dos povos isolados do mundo vivem sob ameaça de setores extrativistas legais e ilegais.
A ONG aponta que em todo o globo existem 196 povos indígenas isolados. O Brasil registra, segundo a Funai, 115 desses povos.
“O Brasil, como o país que tem a maior quantidade de povos indígenas isolados do mundo, também tem que ter uma proteção gigantesca para essas pessoas. Um erro pode gerar um genocídio. Uma decisão errada da Funai, ou um contato mal feito, ou um contato com um garimpeiro pode matar toda uma etnia”, alerta Sotto Mayor.
Consulta livre, prévia e informada
A Convenção 169 estipula que os povos indígenas e das comunidades tradicionais têm o direito de serem consultados antes que sejam tomadas medidas que possam impactar territórios, bens e modos de vida. Desde 2002, o Brasil é signatário da convenção e, portanto, se compromete com a prática de consulta às comunidades.
No Amazonas, 62% da exploração de madeira em área monitorada é feita de forma ilegal. Foto: Vicente Sampaio/Imaflora
Um levantamento divulgado nesta sexta-feira, 5, revelou que 42 mil dos 68 mil hectares em que há exploração de madeira no Amazonas não tinham autorização dos órgãos ambientais para a atividade. Isso significa que 62% da retirada da madeira no estado é ilegal.
A pesquisa, realizada anualmente por três organizações ambientais que formam a Rede Simex (ICV, Imaflora e Imazon), mapeou a extração de madeira no estado por meio de imagens de satélite e cruzou com as autorizações para a atividade emitidas pelos órgãos ambientais, abrangendo o período de agosto de 2023 a julho de 2024.
No Amazonas, 62% da exploração de madeira em área monitorada é feita de forma ilegal. Foto: Vicente Sampaio/Imaflora
Em relação ao levantamento passado (agosto/2022- julho/2023), quando 38 mil hectares tiveram exploração de madeira sem autorização, houve um aumento de 9% na área com retirada ilegal.
Alerta
Para Camila Damasceno, pesquisadora do Programa de Monitoramento da Amazônia, a alta é extremamente preocupante já que a exploração de madeira, de forma ilegal acaba financiando outros crimes ambientais, como as queimadas e o desmatamento.
“Além disso, também prejudica o mercado legalizado de madeira, que faz a remoção das árvores por meio do manejo florestal sustentável e gera empregos e impostos para o Amazonas”, pontuou Camila.
Apenas dois municípios do sul do estado – Boca do Acre e Lábrea – concentram 75% de toda a exploração de madeira ilegal do Amazonas. Líder do ranking, o primeiro teve 20,5 mil hectares de exploração irregular, enquanto a segunda cidade teve 10,9 mil hectares com retirada de madeira ilegal.
Apreensão de madeira ilegal em Terra Indígena na Amazônia. Foto: Felipe Werneck/Ibama
“Esses municípios ficam dentro da região de expansão agropecuária chamada de Amacro, na divisa do Amazonas com o Acre e com Rondônia. Por isso, alertamos que a extração de madeira nesses territórios pode indicar o desmatamento futuro para a grilagem ou para a produção de grãos e de gado, o que reforça a necessidade de ampliar a fiscalização nesses municípios e barrar a entrada de produtos ilegais no mercado”,alertou Camila.
Em relação à exploração de madeira autorizada, o Amazonas passou de 11,3 mil hectares entre agosto de 2022 e julho de 2023 para 26,1 mil hectares entre agosto de 2023 e julho de 2024, o que representa uma alta de 131%.
O levantamento apontou que 13% da exploração de madeira irregular (5,6 mil hectares) ocorreu em áreas protegidas, sendo 9% em terras indígenas (3,9 mil hectares) e 4% em unidades de conservação (1,6 mil hectares). Houve queda de 19% na exploração ilegal em áreas protegidas em relação ao estudo anterior, quando foram mapeados 6,9 mil hectares, dos quais 6,4 mil em terras indígenas.
Exploração de madeira de forma ilegal tem adentrado áreas protegidas do Amazonas. Foto: Divulgação/Greenpeace
A exploração ilegal de madeira, afirmou a pesquisadora, invade áreas protegidas do estado, como terras indígenas e unidades de conservação, o que é uma preocupação não apenas em relação à degradação ambiental, mas à sobrevivências das comunidades que ocupam esses locais.
“A entrada de invasores para retirada de madeira desses territórios ameaça os povos e comunidades tradicionais, que dependem da floresta em pé para manter seu modo de vida”, explicou Camila.
Apesar da redução, a retirada irregular atingiu uma área superior a 5 mil campos de futebol dentro das áreas protegidas. O Imazon ressalta que, além das emissões de carbono resultantes da degradação, há perda de biodiversidade e conflitos sociais com a extração ilegal de madeira.
Os imóveis rurais presentes em bancos de dados públicos, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) e o Programa Terra Legal, foram responsáveis por 32,5 mil hectares da área com exploração irregular de madeira, o que representa 77% do total. Segundo avaliação do Imazon, esse resultado mostra que os órgãos públicos têm dados para fiscalizar e punir a atividade ilegal nessas áreas.
Florestas públicas
Outra categoria que chamou a atenção dos pesquisadores em relação à exploração de madeira ilegal no Amazonas é a de florestas públicas não destinadas (FPNDs), com 3,3 mil hectares (8%). As FPNDs são áreas de floresta de domínio público (União, estados ou municípios) que ainda não tiveram seu uso oficialmente definido, seja como unidade de conservação ou terra indígena.
“Por isso, destinar essas terras a povos e comunidades tradicionais ou à conservação é uma ação urgente de proteção do patrimônio público e ambiental dos amazonenses e dos brasileiros”, concluiu o instituto.