Graphic novel de ficção fantástica utiliza como base narrativa o universo das lendas, mitos e da cosmogonia das etnias indígenas brasileiras. Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal
O quadrinhista parintinense Romahs Mascarenhas, que há 14 anos integra a equipe de roteiristas da Maurício de Sousa Produções, lança neste domingo (8) a graphic novel ‘Akitãi e os Caçadores de Mapinguari’. A obra marca o início das atividades do Estúdio Romahs, e o lançamento está marcado para 18h30 no Encruzilhada Bar, localizado na Rua Ferreira Pena, nº 145, no Centro de Manaus (AM).
O evento também conta com apresentação musical dos artistas Famorelo e José Choque, com violino, harpa e violoncelo.
Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal
Universo das lendas na graphic novel
A obra de ficção fantástica ‘Akitãi e os Caçadores de Mapinguari’ utiliza como base narrativa o universo das lendas, mitos e da cosmogonia das etnias indígenas brasileiras.
Com forte viés regionalista e folclórico, a publicação inaugura uma saga épica idealizada por Romahs, construída a partir de extensa pesquisa sobre mitologias indígenas da Amazônia.
Entre as principais referências utilizadas no desenvolvimento da obra está o livro ‘Antes o Mundo Não Existia’, coletânea de narrativas míticas que apresenta a história da criação do mundo segundo a cosmogonia do povo Dessana, etnia indígena que habita a região do Alto Rio Negro, no Amazonas.
Segundo a tradição, a criação do universo é atribuída a Yebá Beló, conhecida como a Avó do Mundo, entidade que teria surgido do nada e criado a ‘Maloca do Mundo’ e a humanidade por meio de sementes distribuídas por um demiurgo que viajava sobre a cobra-canoa.
A narrativa acompanha Akitãi, um jovem que vive com a mãe e a irmã em uma antiga casa no centro de Manaus, até que uma tragédia transforma sua vida. A partir desse acontecimento, o personagem é lançado em uma jornada por uma Amazônia encantada, onde cruza caminhos com figuras como Mátinta Perê, Curupira, Mãe D’água, Cobra-Grande e o lendário Mapinguari.
Trecho da nova graphic novel de Romahs. Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal
Estética europeia
Visualmente, a graphic novel segue o formato clássico das publicações europeias em quadrinhos, com capa dura, dimensões de 28 x 20 centímetros e um traço que dialoga com os quadrinhos franceses e belgas, reforçando o caráter épico da obra e estabelecendo um diálogo entre a estética internacional e as narrativas amazônicas.
A obra autoral é financiada pela Lei Paulo Gustavo, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM).
Maria Cleia testemunha a morte e resiste junto à floresta: vidas que seguem ameaçadas. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro
O pacote chegou sem aviso. Não havia nem remetente. Ele estava dentro de uma marmita ainda morna. Para qualquer pessoa, poderia parecer só uma entrega no endereço errado. No entanto, para Silvia Elena Moreira Batista, liderança extrativista do rio Manicoré, um afluente do rio Madeira, no sul do Amazonas, o gesto era um recado claro: “quando chegou a marmita, eu entendi na hora: não era comida, era um aviso. Era para dizer: a gente está de olho em ti.”
Silvia segurou a embalagem por alguns segundos antes de colocá-la sobre a mesa. Não comeu.
Ela, Maria Cleia Delgado Campino e Marilurdes Cunha da Silva são lideranças históricas do Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré. TUC é uma categoria fundiária criada no Amazonas para dar o mínimo de proteção fundiária e segurança social a moradores de comunidades tradicionais fora de áreas protegidas. Ele foi criado após os moradores locais conquistarem uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, um instrumento jurídico por meio do qual o poder público autoriza um grupo ou comunidade a utilizar terras públicas, de forma gratuita ou mediante pagamento, por prazo determinado ou indeterminado.
Um TUC é como um título para vários donos da terra e utilizado em processos de regularização fundiária, especialmente em áreas de uso comum. Essa concessão assegura a posse coletiva e o uso sustentável da área, sem transferência da propriedade do imóvel.
A categoria do TUC foi regulamentada pelo Decreto nº 50.941/2024 do governo do Amazonas. Esse tipo de território é inédito no Brasil – é resultado de uma luta pela proteção territorial que tirou a paz da comunidade por muitos anos e virou sinônimo de insegurança, especificamente para as mulheres.
Acompanho como jornalista o rio Manicoré desde 2021, observando a luta para combater as invasões, as ameaças e todo o tipo de ilegalidade contra o lar dos moradores da região que abriga 15 comunidades e cerca de 4.500 moradores. Em 2025, voltei ao TUC pela terceira vez. Flagrei o mesmo cenário: ausência do poder público, desmatamento e garimpo ilegais. Nesta reportagem, eu conto, em uma linha do tempo, a história de três mulheres-chave dentro da resistência do território: as “mães” do TUC do Rio Manicoré.
Clareira flagrada pela reportagem mostra desmatamento ilegal e carregamento de madeira sem autorização dos moradores na região do Pedral. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro
Em Manicoré, a 390 quilômetros de Manaus — acessível apenas por água ou pelo ar —, as ameaças não vêm com bilhete, mas disfarçadas de cotidiano: uma fofoca na mesa de bar, um disse-me-disse na igreja, uma conversa informal entre amigos. Depois, elas desembarcam no território, nos ouvidos ou no celular dos destinatários.
Elas não chegam aos berros. Chegam educadas, sorridentes, com um discurso cheio de promessas de dias melhores. Não anunciam violência com objetividade; é a tal da passividade agressiva que instala a angústia entre os alvos das ameaças e suas famílias.
Silvia Elena é secretária nacional de direitos humanos do CNS. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil
“Eu vivo assim [preocupada], porque não posso deixar Manicoré para trás e me mudar para outra cidade”, me disse Silvia. “Minha família está toda aqui. Todo mundo sabe quem eu sou”, acrescenta. “A violência não precisa dizer que vai matar. Ela só precisa te deixar em alerta o tempo todo”, fala com a voz rouca e embargada.
Silvia nasceu na comunidade Três Estrelas, uma das 15 comunidades do TUC, em uma família de extrativistas que cortavam seringa, principalmente, mas também plantavam. Ela foi para a sede de Manicoré estudar e, depois, para Manaus. Construiu uma trajetória no serviço público, na gestão ambiental, inclusive de Unidades de Conservação. Hoje, atua no terceiro setor como secretária de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
“As ameaças não chegam direto. Elas chegam por terceiros, chegam pelos comentários, chegam pela família. Às vezes alguém vem e diz: ‘estão falando de ti’. Às vezes é um olhar atravessado. Isso vai criando um clima que não te deixa em paz”, relata Maria Cleia Delgado Campino, presidente da Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (Caarim). “Eles não dizem que vão matar. Dizem que o nosso caixão já está pronto”, acrescenta a professora Marilurdes Cunha da Silva, outra liderança histórica do território.
Encontro das águas barrentas do rio Madeira com as escuras do rio Manicoré, logo no início do território. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil
Margens que se cruzam
Quando minha vida entrou no curso do rio Manicoré, em 2021, o Amazonas passava por um dos anos mais difíceis da história recente, no auge da pandemia de Covid-19. Todos se asfixiaram de muitas formas. Eu trabalhava na secretaria-executiva do Observatório BR-319, uma rede de organizações da sociedade civil que monitora o processo de licenciamento da rodovia entre os estados do Amazonas e de Rondônia, e acompanhava denúncias da área de influência da estrada.
Como comunicadora socioambiental, essa foi uma das minhas primeiras missões: noticiar invasões de grilagem, retirada ilegal de madeira, abertura de ramais, dragas por boatos de ouro no rio Manicoré. Logo descobri que quase sempre as mulheres são as principais vozes dessas denúncias.
Vista aérea do rio Manicoré. Foto: Izabel Santos/Arquivo Pessoal
Eu, Izabel, me perguntava: “por que é tão difícil mandar fiscalização para lá?”. A resposta não estava na geografia amazônica, mas na política socioambiental do Brasil que, à época, estava sendo implodida em todas as esferas — municipal, estadual e federal. Era o governo de Jair Bolsonaro, com Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente.
Depois disso, nós queríamos entender o porquê que mesmo com a criação do TUC e com a área “no radar” do Estado, a situação persistia. Entre novembro e dezembro de 2025, na terceira vez que estive no TUC do Rio Manicoré, estava acompanhada da fotojornalista Marizilda Cruppe. Peguei um barco na sede de Manicoré, no rio Madeira, para adentrar o rio afluente.
Dragas de garimpo operam livremente nos rios Madeira e Manicoré. Foto: Izabel Santos/Varadouro
Manicoré. Foto: Izabel Santos/Jornal Varadouro
Não demorou para as dragas de garimpo aparecerem em longas “fofocas” — o agrupamento de várias dragas enfileiradas uma ao lado da outra — na boca do rio Manicoré. Flagramos e fotografamos as áreas desmatadas, os pátios de armazenamento de madeira e até uma balsa carregada de toras rio a dentro. Foi assim, por causa dessas “velhas-novas” histórias, que conheci Maria Cleia Delgado Campino, a Caia, maior liderança do rio Manicoré.
Maria Cleia é baixinha, quase passa despercebida. Cabelos longos e pretos, pele avermelhada e esturricada de sol. Os olhos parecem secos — “eu não choro por nada”, ela garante —, mas sustentam uma mirada firme, daquela que não pisca. A voz é um pouco grave, sempre alta e clara. A dicção às vezes troca o “p” pelo “b” e vice-versa, mas nada comprometedor. “Oi, jornalista Izabel!”, ela dizia nas nossas primeiras conversas.
Registro raro de Maria Cleia sorrindo. Foto: Thiago Araújo/IEB
Perguntei por que ela defendia o rio Manicoré. A resposta: “Porque ele é nossa casa! Se ele deixar de existir, a gente também some! Ele que dá pra gente o peixe, o nosso alimento, a mandioca pra farinha, a água de beber. Os pais dos meus bisavós já moravam aqui. Isso aqui tudo é nosso.
Não levou muito tempo para perceber que o seu tamanho era o próprio território; um território de mulheres ou de mulheres-território.
É assim que elas transcendem a linha de frente das associações comunitárias. Elas sustentam a ideia de pertencimento e de casa: convocam reuniões, enfrentam políticos, falam com promotores, assinam documentos, recebem jornalistas, lutam por políticas públicas e por conservação. Inspiram os demais.
“As mulheres do TUC do Rio Manicoré assumiram protagonismo decisivo na luta social do território. Esse protagonismo passou a ser atacado por opositores por meio de discursos machistas que as rotulam como atrevidas, histéricas e encrenqueiras. Trata-se de uma tentativa de deslegitimação baseada em gênero, já que comportamentos semelhantes são valorizados quando exercidos por homens”, avalia Josinaldo Aleixo, técnico de campo do Programa Ordenamento e Governança Territorial na Amazônia (Ordam), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), e que também ajudou a criar o TUC.
“Quando a gente começou a lutar pela proteção do rio, eu não imaginava que ia chegar nesse nível”, me disse Caia.
“Mas quando você mexe com terra, mexe com poder. Quando quem mexe com poder é mulher, a violência é maior”, disse Maria Cleia, resoluta.
Marilurdes, professora e “alma gêmea” de Maria Cleia na luta, fala disso com uma naturalidade que assusta. “Teve uma época que a gente ficou três dias trancada dentro de casa. Não podia sair nem pra comprar comida”. Dona Marilurdes, como a chamo, é emotiva como eu e nossos olhos logo se enchem de lágrimas. Ela pausa, respira, continua. “Mas a gente continuou. Mesmo sendo criticada, mesmo sendo perseguida, mesmo sendo ameaçada de morte”.
Marilurdes ama animais e gatos são o seu xodó. Foto: Izabel Santos/Varadouro
As ameaças contra essas mulheres começaram quando elas decidiram se unir e lutar por medidas mínimas de proteção ao território-casa, onde elas já estavam há gerações. O respeito e a liderança propriamente dita no rio Manicoré é como se fosse uma herança de família. Entre as que entrevistei, foi unanimidade que “meus avós, que não sabiam ler, eram respeitados porque sabiam rezar ladainha, sabiam rezar o terço, faziam via sacra”. A constituição de liderança pela Igreja Católica teve papel importante no desenho de autoridade que vemos hoje no rio Manicoré.
Entre o pertencimento e o papel
“A minha história de luta começou em 2006. Naquela época, a gente não sabia de quem era a responsabilidade pela área onde está o rio Manicoré: se era área estadual, se era federal. Então, em 2006, a gente montou a Caarim, para começar essa luta, principalmente para frear o desmatamento que já estava avançando pela região do km 180, do distrito de Santo Antônio do Matupi”, conta Caia.
Em 2009, após recorrerem ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), as lideranças descobriram que estavam em uma gleba estadual e entraram com o pedido de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Manicoré. “Desde então, começou, de fato, a nossa luta. Na época, o pedido da RDS não foi atendido. O rio Manicoré tem muitas riquezas e também muita pressão de influências políticas. Naquele momento, essas forças eram contrárias à criação da RDS”, recorda Maria Cleia.
A ideia foi ganhando aderência entre os moradores e entre diversas comunidades com mobilização para conseguir assinaturas para a criação da RDS. Mas, segundo Maria Cleia, Marilurdes e Silvia Elena, políticos começaram a interferir no processo, incomodados com o movimento de criação de unidades de conservação na área de influência da BR-319. A ação fazia parte das medidas de ordenamento territorial da Área de Limitação Administrativa Provisória (Alap), que pretendia organizar a região para dar início ao processo de licenciamento do trecho do meio da rodovia. Então, os ânimos se acirraram.
“Quando a luta ficou visível, quando o pedido da RDS avançou e o território ganhou nome, a coisa ficou feia. Terra sem nome é convite. Terra nomeada vira disputa”, contou Silvia Elena.
Nas ruas de Manicoré, corria à boca pequena que seria melhor os membros da Caarim desistirem da ideia da unidade de conservação, pois ela não agradava, principalmente, pessoas do distrito de Santo Antônio do Matupi ligadas a políticos de Manicoré. A localidade registra um dos maiores índices de desmatamento do Amazonas, fruto da expansão agropecuária.
Caia foi durante muitos anos uma Agente Comunitária de Saúde pela Prefeitura de Manicoré, mas, por causa de sua luta, foi exonerada pelo então prefeito Lúcio Flávio do Rosário (PSD) — um dos nomes que se revezam no comando do município há anos.
O trabalho de Caia não se resumia à Caarim. Ela buscava melhorar a qualidade de vida no território, como a cobrança da execução do Programa Luz Para Todos, que levaria energia elétrica a todas as 15 comunidades. Logo após a reunião que definiu a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva como solução inicial para a proteção do que hoje é o TUC, houve uma grande mobilização para cadastro para receber luz elétrica nas residências.
Sem apoio financeiro do poder público, os próprios moradores do rio Manicoré custearam o levantamento das informações necessárias para formalizar a solicitação à concessionária Amazonas Energia, uma vez que a prefeitura alegava não dispor de recursos para tal.
Um marco para a RDS
Em maio de 2016, as intimidações eram tão graves que o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) acionou formalmente o sistema de Segurança Pública do estado. O órgão pedia a proteção de Silvia Elena, então suplente na Secretaria de Mulheres do CNS; de Marilurdes, como integrante da Caarim; de Aroldo da Silva, morador da comunidade Terra Preta e apoiador da luta pela RDS; e de Maria Cleia, como moradora da comunidade Mocambo. A justificativa do MPF, baseada em denúncias apresentadas pelo CNS, foi a de que as lideranças haviam recebido ameaças de morte “em retaliação às suas ações de organização social e política no processo de criação de unidades de conservação”.
As lideranças rejeitaram o acompanhamento permanente de policiais militares sob a alegação de que não se sentiriam seguras. Até hoje, ninguém foi punido pelas ameaças.
“Teve um período em que a gente mudou completamente a rotina. A gente não ia mais em festa, não saía com qualquer pessoa, não pegava qualquer moto táxi. Era orientação do Ministério Público. Isso não deixa de ser uma prisão”, relembra Maria Cleia.
“Teve gente que falou abertamente que um de nós tinha que morrer para a reserva não sair. Isso foi dito em espaço público, em reunião, na cidade”, contou Silvia Elena.
“No período mais intenso das ameaças no rio Manicoré, eu estava sendo ameaçada por um vereador. Ele já tinha ido armado ao escritório (do CNS) para me intimidar. Me perseguia à noite quando eu saía da escola. Na época, eu estava fazendo um curso técnico e, várias vezes, ele tentou me atropelar”, completa, com a voz embargada. A perseguição só parou com a intervenção de uma amiga que se compadeceu da sua situação.
Em 9 dezembro de 2021, a Caarim foi comunicada, em reunião na Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM), que o processo de criação da RDS tinha sido arquivado, sem aviso às comunidades. Houve choro coletivo, quase briga generalizada. Mas foi ali que nasceu o embrião do Território de Uso Comum (TUC).
Eu estava nessa reunião.
Desci no mesmo elevador com outras pessoas e Marilurdes, que chorava copiosamente e esbravejava que o rio Manicoré havia sido traído. “Fizeram pouco caso da nossa luta! Viemos aqui pra nada!”, dizia, com os olhos vermelhos.
Àquela altura, o procurador de Meio Ambiente do Estado do Amazonas, Daniel Pinheiro Viegas, e o procurador da República, Fernando Merloto Soave, articularam uma reunião com o secretário de Estado das Cidades e Territórios (Sect), João Coelho Braga, o Braguinha, para discutir uma solução mínima de proteção ao território: uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, que regulariza terras de domínio público estadual destinadas a povos e comunidades tradicionais. Era a brecha possível dentro de um Estado que parece estar sempre contra o movimento socioambiental.
Reunião realizada na Sema em que os moradores foram informados sobre o arquivamento do processo de criação da RDS. Foto: Izabel Santos/Varadouro
As lideranças do rio Manicoré também foram recebidas por Braguinha, em 9 de dezembro de 2021. Na ocasião, foi acordado que instituições parceiras da Caarim reuniriam informações de estudos já realizados sobre o território para auxiliar na reabertura do processo de criação da RDS. Mas, para todos os presentes, aquilo soou como um “deixa disso”. Então, o processo parou entre a falta de recursos e a burocracia.
Organizações como Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta), IEB, Greenpeace Brasil, Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) reuniram esforços para publicar uma nota técnica sobre a criação da RDS Rio Manicoré, produzida em tempo recorde. O objetivo era cumprir o acordado com a Sect e evitar que a Caarim tivesse que retroceder em etapas importantes, como o levantamento de informações sobre o território.
Então, em 17 de março de 2022, as Concessões de Direito Real de Uso (CDRU) do Rio Manicoré de diferentes territórios foram assinadas pelo governador Wilson Lima (União Brasil), em Manaus. Estávamos nervosos: no microfone, anunciaram entregas de várias concessões para unidades de conservação, menos a do rio Manicoré. Foi quando me levantei da plateia e fui até o local onde imprimiam os documentos para pressionar a assinatura do governador. Só saí para chamar Maria Cleia para a assinatura do documento.
Maria Cleia assina a CDRU do rio Manicoré no dia da entrega do documento. Foto: Izabel Santos/Varadouro
“A CDRU é um passo importante para a retirada dos invasores da área de uso tradicional e para concluir a criação da unidade de conservação, que vai garantir a atuação dos órgãos de proteção no território. Mas o que vemos é que o Estado não tem agido nessa parte do processo para garantir a proteção desses povos”, me disse, na ocasião, a agrônoma e pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Jolêmia Chagas, da Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta), uma das mulheres engajadas na defesa do rio Manicoré.
O “pai” do TUC — que não gosta de ser chamado assim —, o procurador Daniel Pinheiro Viegas, explica que a CDRU não era a solução final e nem bala de prata. “Ela é uma primeira camada de proteção territorial. É o que dá para fazer quando o Estado se recusa a criar uma unidade de conservação, mas também não pode fingir que aquelas comunidades não existem”, disse.
“Isso muda tudo, porque dá um mínimo de segurança jurídica num contexto de conflito permanente. O que aconteceu no rio Manicoré não encerrou o conflito. Apenas criou uma trincheira mínima para que as comunidades não sejam esmagadas enquanto o Estado decide o que fazer”, acrescentou.
“A CDRU do rio Manicoré foi uma solução emergencial para conter as invasões. Não era o ideal, mas era o possível diante de um governo que dizia abertamente que não criaria uma unidade de conservação’, me disse recentemente.
Daniel Viegas em videoconferência durante evento sobre TUCs. Foto: Thiago Araújo/IEB
Viegas reconhece que, apesar de a CDRU não ser a etapa final de proteção ao território, mudou o “jogo político e jurídico da disputa”: “Com a CDRU, o discurso muda. A comunidade passa a dizer: ‘o território já é reconhecido, agora queremos a RDS’. Antes, ela só estava pedindo”.
Ele explica que a concessão de direito real de uso é importante porque ela não privatiza a terra, que continua pública, mas passa a ser reconhecida como das comunidades, como se ela tivesse vários donos — e tem. Sobre o seu papel no apoio às mulheres-lideranças do território, ele faz questão de destacar:
“Eu não sou pai de nada. O rio Manicoré tem mães e é aí que reside a beleza dessa luta. Se o território tem alguma filiação é das mulheres do rio Manicoré. Eu fui instrumento jurídico de uma vontade que já existia”.
Com a CDRU, quase 400 mil hectares passaram a ter uma posse coletiva no papel, como se os 4.500 moradores fossem vários donos da terra. Mas o conflito não acabou. “A gente ganhou o documento, mas não ganhou o sossego”, resumiu Marilurdes. “A invasão continua e a estrada do km 180 até o território continua abrindo.” Mas ela já está sendo aberta. Já tem até nome: Estrada Milton Mayer. A reação à CDRU veio forte.
Mais ataques
Pouco mais de um mês após a entrega da CDRU, agora como secretária de Direitos Humanos do CNS, Silvia Elena Batista Moreira sofreu uma tentativa de agressão física e ameaças — gritos cara a cara — por parte dos vereadores Charles Meireles (MDB) e Newton Cabral de Azevedo Neto (PSD), de Manicoré, durante uma reunião com o MPF — na presença de procuradores —, para esclarecimentos sobre a CDRU.
A agressão só não se concretizou porque alguns participantes contiveram os parlamentares e fizeram um escudo humano na frente de Silvia. O fato só repercutiu porque eu e outros colegas jornalistas de ONGs, que integravam a rede do Observatório BR-319, insistimos com a imprensa sobre a gravidade da situação.
Depois, em um evento organizado por ruralistas contrários à criação da RDS em Manicoré, o governador do Amazonas, Wilson Lima, atacou organizações ambientais e declarou que “iria barrar o pedido das comunidades tradicionais”. “Tem gente levantando a ideia de que se vai criar uma Reserva [no rio Manicoré]. Esqueça que não há a menor possibilidade disso acontecer. Eu vou lutar contra quem quiser fazer isso. Eu vou até às últimas consequências”, afirmou, justificando sua posição pela existência de riquezas como madeira e supostamente ouro no território.
“A violência não acabou depois da CDRU. Ela só mudou de forma. Hoje, ela aparece mais na intimidação, na deslegitimação, no constrangimento público. É como se o território tivesse sido reconhecido no papel, mas a nossa vida continuasse em disputa”, diz Silvia Elena.
Os conflitos territoriais localizados no sul do Amazonas vão além das disputas fundiárias ou ambientais: revelam a sobreposição de interesses econômicos, relações de poder e desigualdades de gênero, conforme aponta o antropólogo Cloves Pereira:
“Quando um território é delimitado, nomeado e reivindicado coletivamente, deixa de ser invisível e passa a existir no campo das disputas de poder”, afirma.
“São as mulheres que sustentam o cotidiano da vida comunitária: o quintal produtivo, a roça, as sementes, a alimentação. Esse trabalho é central para a segurança alimentar, mas historicamente invisibilizado e sem política pública”, completa.
Quando essas mulheres extrapolam os espaços tradicionalmente associados a elas — a casa e o quintal — e assumem posições de liderança política, denúncia e articulação institucional, ocorre um deslocamento profundo nas relações de poder. “Elas passam a ocupar espaços que sempre lhes foram negados, e esse deslocamento provoca reações violentas; tornam-se alvos preferenciais de violências físicas, simbólicas e institucionais, usadas para deslegitimar e silenciar a luta territorial”, afirma Pereira.
Enquanto as assimetrias de poder e de gênero persistirem, elas continuarão a enfrentar um duplo confronto: contra projetos econômicos predatórios e contra hierarquias que atravessam tanto o Estado quanto as próprias comunidades, analisa o pesquisador.
Corpos marcados para morrer
Relatórios do Instituto Igarapé, da Global Witness e da Comissão Pastoral da Terra revelam que mulheres defensoras ambientais da Amazônia estão expostas a uma violência desproporcional, produzida pela convergência entre conflitos territoriais, interesses econômicos e desigualdades de gênero. Estudos que mapeiam a Bacia Amazônica — incluindo Brasil, Colômbia e Peru — mostram que a taxa de violência contra mulheres na região é quase o dobro da registrada no restante desses países, especialmente em áreas marcadas por conflitos socioambientais, disputas pela posse da terra, água e recursos naturais.
A violência que atinge o rio Manicoré não é exceção. “O Brasil figura de forma recorrente entre os países mais perigosos do mundo para defensores e defensoras da terra e do meio ambiente, enquanto a América Latina permanece como a região mais letal do planeta. As mulheres defensoras desempenham um papel fundamental na defesa da terra, através de um extenso trabalho ‘invisível’, que permanece não reconhecido dentro de sistemas patriarcais”, diz Laura Furones, autora principal do relatório da Global Witness lançado em 2025.
No Brasil, as mulheres representam pouco mais de 38% das vítimas de violência contra a pessoa em conflitos no campo, desconsiderando os casos sem identificação de gênero. Os estados com maior número de registros são Pará, Maranhão e Mato Grosso do Sul.
As principais violências sofridas incluem contaminação por minério, intimidação e ameaças de morte, além de criminalização, prisões e tentativas de assassinato. A CPT alerta que a ausência de registros de estupro não indica inexistência do crime, mas alta subnotificação, realidade comum também fora do contexto agrário.
Na Amazônia, foram identificadas 184 mulheres vítimas de violência no campo em 2024, frente a 273 homens, além de um número expressivo de casos sem identificação de gênero.
Entre as mulheres, predominam os registros de:
contaminação por minérios (102),
seguidos por intimidação (27),
criminalização (19),
ameaças de morte (16),
prisões (10)
e tentativas de assassinato (3).
Para Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, a violência contra mulheres defensoras tem raízes históricas na formação do território brasileiro e atinge de forma especial mulheres indígenas, para quem a destruição ambiental representa uma agressão direta aos seus corpos e modos de vida. “As mulheres não se sentem parte da natureza, elas se sentem natureza”, afirma.
Enfrentar essa violência, afirma, exige não apenas políticas públicas e responsabilização dos agressores, mas também a desconstrução de uma cultura, mas também pela construção de uma cultura de respeito, amorosidade e valorização da vida, capaz de reconhecer mulheres, povos tradicionais e comunidades como sujeitos de direitos e de histórias próprias.
E a vida resiste
Sobrevoo do Greenpeace Brasil e junho de 2022 sobre a área da CDRU. Foto: Christian Braga/Greenpeace Brasil
Agosto de 2022, cinco meses após a comemoração da assinatura do TUC, veio a cereja amarga do bolo: um incêndio de cerca de 2 mil hectares em área recém-desmatada no Tracajá, acesso a Santo Antônio do Matupi. A queimada, denunciada previamente por organizações socioambientais, avançava sobre a floresta do rio Manicoré. A denúncia foi encaminhada pelo MPF ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM), que, meses depois, arquivou.
Já em 2025, presenciamos como as mulheres continuam semeando a vida, mesmo após as tragédias. Estivemos no rio Manicoré, hospedadas na casa de Caia, na comunidade Mocambo. Um pequeno paraíso onde ela e a família vivem e produzem. A roça cultivada por Maria Cleia é um retrato da diversidade que sustenta a vida. Ali, a mandioca não é uma só, são muitas, cada uma com seu tempo, seu uso, seu gosto e sua exigência.
“Mandioca não é tudo igual. Cada uma tem seu jeito e a gente aprende isso vivendo com elas”, explicou.
Maria Cleia mostra sua roça no Mocambo. “Eu que plantei tudo”, diz. Foto: Izabel Santos/Varadouro
Todas as variedades de mandioca são cultivadas na roça de Maria Cleia, que ela mesma limpa, planta e cuida. A roça fica em um terreno íngreme, acima da casa, com acesso por um tucumanzal. A terra é fofa, macia, escura e tem cheiro bom. Ao redor, tem uma capoeira alta que protege o roçado. “Essa roça aqui é meu trabalho e meu orgulho”, diz Cleia. “Isso aqui garante comida, farinha e que a gente não dependa de ninguém”, conta.
Maria Cleia mostra a macaxeira símbolo do rio Manicoré. Foto: Izabel Santos/Varadouro
Além da mandioca, a pesca é fundamental para as famílias do rio Manicoré, garantindo peixe por meio da captura de diversas espécies nos lagos, igarapés e no leito do rio, parte para consumo e parte para venda na cidade, sempre procurando respeitar os acordos comunitários e períodos de reprodução.
A agricultura familiar complementa essa base, com roçados que seguem o ritmo do clima e produzem, também, frutas, grãos e hortaliças, que asseguram alimentação e renda extra.
Somam-se a isso o extrativismo de produtos como castanha-da-amazônia, açaí, buriti e óleos medicinais, coletados com base no conhecimento tradicional e voltados ao consumo e à comercialização em pequena escala, além da criação de pequenos animais, fortalecendo a autonomia e a reprodução do modo de vida comunitário.
O peixe é um alimento importante para a subsistência no rio Manicoré. Foto: Marilza Cruppe/Varadouro
O Tracajá e o Pedral
No final de 2025, acompanhada da fotojornalista Marizilda Cruppe, vi de perto o que, até então, aparecia em mapas, alertas de satélite e denúncias formais. Percorremos o território por rio e por terra. O que encontramos foi um cenário de violação contínua, incompatível com qualquer ideia de proteção territorial efetiva. Não vimos nenhum órgão de fiscalização ou sinal da presença deles.
No momento em que subimos o drone, a balsa estava sendo carregada de madeira, que estava guardada no pátio da imagem anterior. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro
Do alto, visto de drone, a floresta parecia intacta à primeira vista, um tapete verde contínuo. Mas basta descer um pouco para enxergar as aberturas, tipo feridas na mata. Clareiras abertas, estradas de barro avançando em linha reta, pátios (gigantes) de madeira cravados no interior do território. No rio, vimos balsas carregadas de toras descendo tranquilamente. Em outros trechos, na embocadura com o rio Madeira, dragas de garimpo operam próximas às margens, revirando o leito do rio e turvando a água usada pelas comunidades para beber, cozinhar e pescar.
Balsa carregada no Pedral. Registro feito dois dias depois do carregamento, já no rio Madeira, na saída do rio Manicoré. Foto: Izabel Santos/Varadouro
Acordamos de madrugada e seguimos até a área conhecida como Tracajá, o local da queimada de 2022. Chegamos debaixo de chuva, que só piorava, e subimos pela estrada aberta para dar acesso a um imenso desmatamento.
No chão, toras abandonadas empilhadas em pátios improvisados, marcas aparentemente frescas de máquinas pesadas, lama revolvida. Não parecia um desmatamento antigo, abandonado, porque com as fortes chuvas da época, aquelas marcas e lixo deixados por quem esteve ali, já deveriam ter desaparecido. Parecia uma atividade em curso, ativo, com circulação de pessoas e equipamentos.
Caminho que dá acesso à Estrada Milton Mayer, ligando o TUC a Santo Antônio do Matupi. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro
Maria Cleia nos acompanhou em silêncio. Caminhou pela estrada aberta no meio da floresta e apontava o que já não estava mais ali. Falava irritada. “Esse caminho aqui que dá acesso à estrada do desmatamento destruiu todo o castanhal do Seu Lazarino, lá da comunidade Lago dos Remédios, dentro do TUC do Rio Manicoré. Ele coletava nesse local. Hoje não existe mais esse castanhal. Todo esse desmatamento está dentro do território de uso comum e vem prejudicar as populações do rio Manicoré, as comunidades que vivem aqui”.
O castanhal, explicou, era fonte de renda, de alimento e de continuidade para uma família inteira. Foi derrubado para abrir caminho para o desmatamento avançar.
Entre as toras empilhadas, latas de cerveja espalhadas pelo chão indicavam a passagem recente de pessoas na área. Nada parecia improvisado. Não adentramos mais a estrada aberta porque chovia muito e o chão era de um barro ensaboado.
Maria Cleia em cima de uma das toras encontradas na região do Tracajá. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro
Questionada pela reportagem, a Sema se isentou de responsabilidade: “A formalização dos TUCs é de competência da Secretaria de Estado das Cidades e Territórios (Sect). No caso do TUC do Rio Manicoré, a Sema prestou apoio técnico em etapas complementares, como a elaboração do plano de gestão, publicado em 2025, a formação de instâncias de governança comunitária e a concessão do Contrato de Direito Real de Uso (CDRU), efetivada em 2022”, disse trecho da nota enviada, sem responder às perguntas da reportagem. “As ações de fiscalização ambiental relacionadas a desmatamento ilegal, garimpo e pesca irregular são de competência do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam)”, completou. Procurado até o fechamento desta reportagem, o órgão fiscalizador não se pronunciou.
O conflito acontece agora, em tempo real, e não é abstrato. Ele acontece diante da ausência de fiscalização permanente e da lentidão deliberada do Estado. O território foi reconhecido. A proteção, não.
Central das Associações Agroextrativistas do rio Manicoré (CAARIM) luta pela preservação de rios, florestas e da biodiversidade. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Varadouro, escrito por Izabel Santos
Os 15 marabaixeiros amapaenses que irão desfilar na Sapucaí. Foto: Wendell Uchoa/arquivo pessoal
O Amapá e seu povo estarão representados em um dos maiores palcos culturais do mundo: a Marquês de Sapucaí, na cidade do Rio de Janeiro. No Carnaval 2026, 15 marabaixeiros amapaenses integrarão a bateria da Estação Primeira de Mangueira, levando para a avenida o som ancestral da caixa de marabaixo, símbolo potente da cultura afro-amazônica do estado.
Além deles, entre 15 e 20 integrantes cariocas aprenderam a tocar o instrumento especialmente para desfilar junto, fortalecendo o intercâmbio cultural e ampliando o alcance dessa manifestação tradicional.
A Estação Primeira de Mangueira, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, escolheu como tema do desfile o enredo “Mestre Sacaca do encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra”, em homenagem a Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca.
Figura emblemática da história amapaense, ele foi reconhecido como profundo conhecedor das plantas medicinais da Amazônia, defensor da floresta, esportista, incentivador da cultura popular e personagem marcante do carnaval do Amapá, onde também se destacou como rei momo.
O desfile levará para a avenida elementos que tornam o Amapá singular no cenário cultural brasileiro, com destaque especial para o marabaixo. A caixa de marabaixo, incorporada à bateria da Mangueira, conduzirá o samba-enredo em um encontro simbólico entre a cultura tucuju e o samba carioca, projetando para o Brasil e o mundo a força da ancestralidade negra amazônica.
Wendell Uchoa, agachado de braços abertos, posa junto aos marabaixeiros amapaenses e à rainha de bateria da Mangueira, Evelyn Bastos. Foto: Wendell Uchoa/arquivo pessoal
Para o conselheiro estadual de cultura do Amapá, compositor e marabaixeiro Wendell Uchoa, que participará do desfile tocando a caixa de marabaixo, a presença na Sapucaí representa um marco histórico para o estado:
“O samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira celebra nossa identidade como marabaixeiros, e o enredo propõe a apresentação dessa manifestação no maior palco a céu aberto do planeta. Fazer parte desse momento é de suma importância, pois o desejo de todo marabaixeiro é apresentar suas vestimentas e sua caixa de marabaixo em qualquer local do Brasil e ser reconhecido, para que as pessoas identifiquem a origem de nossa manifestação cultural. A Mangueira, na Sapucaí, representa essa vitrine. O mundo já nos conhece, somos calorosamente recebidos pela comunidade do Morro da Mangueira e a divulgação dos ensaios, tanto na quadra quanto nas ruas, já está proporcionando a visibilidade que o Amapá merece”, ressaltou.
A caixa de marabaixo: ancestralidade que pulsa
Mais do que um instrumento musical, a caixa de marabaixo é memória, resistência e identidade do povo negro do Amapá. Produzida de forma artesanal, com corpo de madeira e couro natural, cada caixa carrega características próprias.
Seu som grave e pulsante, tocado com duas baquetas, marca o ritmo da dança e do canto coletivo, criando uma cadência que remete ao coração das comunidades tradicionais.
Mais do que um instrumento musical, a caixa de marabaixo é memória, resistência e identidade do povo negro do Amapá. Foto: Jorge Junior/GEA
Presente em festividades populares, religiosas e culturais do Amapá, a caixa de marabaixo ultrapassa o Ciclo do Marabaixo e se manifesta em diferentes momentos de celebração, encontros comunitários e expressões culturais, sempre carregando profundo respeito à ancestralidade africana e à devoção popular. É um instrumento que acompanha a vida coletiva, fortalece laços comunitários, preserva memórias e reafirma identidades.
Símbolo de resistência e da história de pessoas escravizadas e seus descendentes, a caixa de marabaixo é reconhecida como patrimônio cultural do estado e segue sendo transmitida de geração em geração, mantendo viva uma tradição que atravessa o tempo.
Segundo Wendell Uchoa, a vivência com a comunidade da Mangueira e a incorporação do instrumento aos ensaios têm sido marcantes:
“Acompanho de perto a energia de uma nação incorporada nos ensaios de rua e de quadra, com todos entoando o samba e vibrando com o som de nossos instrumentos. Essa experiência tem sido extremamente emocionante, e tenho a certeza de que nossos ancestrais se sentem honrados com este encontro cultural ancestral que o estado do Amapá, por meio do seu governo, está proporcionando ao Brasil e ao mundo”, destacou.
Com esta participação inédita no Carnaval do Rio de Janeiro, o Governo do Amapá reafirma o compromisso com a valorização, preservação e projeção nacional e internacional da cultura afro-amazônica, levando o som da caixa de marabaixo para ecoar, com orgulho, no coração do maior espetáculo popular do planeta.
Pecuaristas inserem tecnologia na rotina para potencializar setor nas fazendas. Foto: Luiz de Matos/Rede Amazônica RR
Produtores de gado de corte em Roraima apostam na tecnologia para aumentar a produção e organizar a gestão das fazendas. Produtores do estado estão investindo em ferramentas digitais para ter maior controle sobre a atividade e melhores resultados no campo.
Em uma propriedade no município de Amajari, ao Norte do estado, a tecnologia já faz parte da rotina de uma propriedade com 8 mil hectares. A fazenda tem um rebanho de 3 mil cabeças de gado e trabalha com o ciclo completo da pecuária: cria, recria e engorda.
O uso de aplicativos pelos produtores substituiu controles manuais. Agora, todos os dados da produção ficam concentrados em um único sistema digital.
Tecnologia usada por produtores na pecuária inclui ferramentas e até aplicativo. Foto: Luiz de Matos/Rede Amazônica RR
Produtores investem na tecnlogia
Para o médico e pecuarista Deivis Brito, a mudança trouxe mais organização. “Hoje consigo acompanhar as informações mesmo quando não estou presente todos os dias. Isso facilita o controle e ajuda na tomada de decisões”, afirma.
Além da gestão, a tecnologia também auxilia no planejamento produtivo da propriedade. Para o pecuarista Theo Cardoso, a digitalização das informações contribui para melhorar a eficiência do trabalho no campo.
“Hoje, a tecnologia está integrada ao trabalho diário. Nós trabalhamos com inseminação artificial desde 2003, então a tecnologia já começa aí. As ferramentas ajudam acompanhar o desempenho dos animais e a organizar melhor as atividades”, explica.
O zootecnista e consultor Diogenes Menezes Cardoso explica que os aplicativos modernizaram o setor no estado. “Essas ferramentas permitem registrar informações de reprodução, sanidade, movimentação financeira e custos. Com isso, o produtor passa a ter uma visão mais clara da fazenda”, explica.
Pecuária de Roraima é potencializada com a inserção da tecnologia e automatização. Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica RR
Segundo ele, cerca de 50 pecuaristas de Roraima já utilizam aplicativo de gestão pecuária para potencializar a lida com gado.
Com a organização dos dados, produtor consegue analisar melhor os resultados e tomar decisões mais seguras.
“A pecuária mudou, e quem não acompanhar essa evolução acaba ficando para trás. A tecnologia ajuda a manter a fazenda organizada e preparada para o futuro”, conclui.
Mostra de Cinema de Tiradentes chega à 29ª edição com produções da Amazônia. Foto: Divulgação/Embratur
Em temporada de Globo de Ouro para o cinema brasileiro no mundo, a Embratur promove a estreia nacional e internacional dos cinco curtas-metragens vencedores da segunda edição do Edital Brasil com S. Com foco no bioma amazônico, seus povos e saberes, a iniciativa amplia a visibilidade de narrativas e realizadores da região, fortalecendo a presença do cinema brasileiro contemporâneo no exterior e promovendo a imagem do país.
A primeira exibição aconteceu em 31 de janeiro na Sessão Cine EmbraturLab, durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG). Neste dia 5 são apresentadas no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, um dos mais importantes eventos dedicados ao cinema de curta-metragem no mundo.
O edital estruturado pela Agência oferece mentorias especializadas em roteiro, direção e produção, além de consultoria para distribuição no mercado externo. O suporte técnico conta com a parceria do Projeto Paradiso Multiplica, com orientação do diretor Marcelo Botta em roteiros, e das especialistas Denise Jankar e Allexia Ferreira nas etapas de difusão internacional. Com isso, a iniciativa consolida um ciclo completo de fomento ao audiovisual, para além do apoio financeiro.
O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, destaca a importância do momento para a promoção do Brasil a partir do turismo de tela.
“Com o ‘Brasil com S’, não estamos apenas financiando filmes, mas estruturando uma estratégia de soft power que utiliza a nossa identidade cultural e a sustentabilidade da Amazônia como diferenciais competitivos. Estar em Tiradentes e em Clermont-Ferrand mostra que o audiovisual brasileiro tem força para emocionar o público interno e, ao mesmo tempo, atrair o turista internacional que busca experiências autênticas, com consciência ambiental e sustentabilidade”, completou Freixo.
Festival francêsaborda a Amazônia
No Festival de Clermont-Ferrand, a Embratur marca presença inédita com um estande no Marché du Film, em cooperação com a Kinoforum, para promover o audiovisual nacional, servindo como ponto de encontro e divulgação, produções que enaltecem a Amazônia.
A estratégia de promoção conta com a distribuição de catálogos, operação de website dedicado e de um coquetel de networking realizado no dia 4 de fevereiro para ampliar parcerias globais. A agenda inclui, ainda, a exibição dos filmes para produtores, agentes de vendas e programadores internacionais na sala George Conchon.
Mostra de Tiradentes
Na Mostra de Tiradentes, a Agência reforça a conexão entre cultura e promoção de destinos turísticos brasileiros. Além da sessão de encerramento com os curtas da Amazônia, a delegação da Embratur realizou um workshop para realizadores em 30 de janeiro.
A atividade detalhou as ações de integração entre o setor audiovisual e as estratégias de mercado da Agência, reforçando a visibilidade de narrativas regionais em plataformas de grande alcance.
Cidade de Tiradentes. Foto: Caio Reisewitz / Divulgação
Destino competitivo
A circulação das obras em festivais estratégicos posiciona o Brasil como destino competitivo e diversificado por meio do soft power. O trabalho conjunto com a Universo Produções e a Kinoforum garante que os produtos audiovisuais funcionem como vitrines para a sustentabilidade e a riqueza cultural do país. O investimento no setor impulsiona a economia criativa e atrai novos fluxos de visitantes internacionais interessados na experiência turística brasileira.
O tambatinga, peixe usado na produção do biofilme, é resultado do cruzamento de tambaqui com pirapitinga. Foto: Fábio Rosa Sussel/Divulgação
Usando como matéria-prima a pele do peixe amazônico conhecido como tambatinga, pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos (SP), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um biofilme que pode ser usado na embalagem de alimentos.
Essa espécie, resultado do cruzamento entre a fêmea do tambaqui (Colossoma macropomum) e o macho da pirapitinga (Piaractus brachypomus), é reconhecida por seu excelente desempenho de crescimento e por representar uma fonte valiosa e sustentável de matéria-prima rica em colágeno.
Por causa de sua origem tropical, a pele da espécie pode conter níveis mais elevados de aminoácidos, o que pode melhorar as propriedades funcionais e estruturais da gelatina derivada dela.
No trabalho, apoiado pela FAPESP no âmbito do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da Fundação, o animal foi utilizado como base para a produção de biofilmes, polímeros biodegradáveis, para substituir, mesmo que apenas em partes, os filmes (materiais finos e flexíveis) utilizados em embalagens de alimentos feitos de material sintético, como petróleo. Os resultados foram publicados no periódico científico Foods.
“Trabalhamos há mais de 25 anos no desenvolvimento de filmes à base de biopolímeros, como proteínas e polissacarídeos, com o objetivo de aplicar esse material em embalagens de alimentos e diminuir o impacto ambiental, já que existem muitos problemas ligados ao acúmulo de embalagens sintéticas na natureza”, conta o engenheiro de alimentos Paulo José do Amaral Sobral, professor do Departamento de Engenharia de Alimentos do campus da USP de Pirassununga, no interior de São Paulo, que deu apoio ao trabalho realizado pelo zootecnista Manuel Antonio Chagas Jacintho e pela engenheira de alimentos Fernanda Ramalho Procopio, ambos da Embrapa.
O primeiro passo do experimento do biofilme é limpar as peles dos peixes e submetê-las a um processo de extração da gelatina com água quente e ácido acético (para retirar as impurezas).
Na sequência, os filmes são preparados a partir desse material usando 2 gramas de gelatina para cada 100 gramas de solução formadora de filme. O resultado é um material transparente, flexível e com superfícies uniformes.
Além disso, o biofilme se mostrou bem resistente, com excelente capacidade de bloquear os raios ultravioleta e menor permeabilidade ao vapor de água em comparação com outros materiais à base de gelatina relatados na literatura.
Essas descobertas destacam o potencial da pele de peixe, geralmente considerada um resíduo industrial, como matéria-prima renovável e de alto valor para a produção de biopolímeros sustentáveis.
Apesar dos bons resultados, o material obtido apresentou uma limitação: sensibilidade à umidade.
“Por esse motivo, por enquanto, eles só têm aplicação em produtos desidratados, como nozes e castanhas”, afirma Sobral.
O pesquisador considera ser necessário continuar o trabalho para possibilitar o uso do biopolímero obtido da pele do tambatinga em embalagens de alimentos, produtos farmacêuticos e biomédicos, agregando valor econômico ao setor da aquicultura e promovendo uma cadeia produtiva integrada e ambientalmente responsável.
O coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA) da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), Arnaldo Carneiro, é geógrafo, ecólogo da paisagem e pesquisador aposentado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
A OTCA tem como função promover a cooperação entre os oito países da Pan-Amazônia (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), com foco na proteção dos ecossistemas por meio do desenvolvimento sustentável.
No ORA, Arnaldo Carneiro e sua equipe estão focados nos temas de mudanças climáticas, desmatamento, biodiversidade, queimadas e água, estudando a vulnerabilidade futura da Pan-Amazônia a incêndios florestais e a relação das florestas com o oceano.
Carneiro conta, na primeira edição de 2026 da newsletter Um Grau Meio do IPAM Amazônia, sobre a integração amazônica e da Pan-Amazônia, as lacunas no enfrentamento à emergência do clima e a ideia de criar uma NDC coletiva para a região.
O que é a Pan-Amazônia?
Arnaldo Carneiro: A Pan-Amazônia é um conceito que foi construído pelo Brasil. O Brasil sempre se referiu à Amazônia como um pedaço do seu país, mas quando se deu conta de que a Amazônia tem espaços fora, chamou isso de Pan-Amazônia.
É uma expressão que integra as Amazônias dos outros oito países. Mas quando você vai nesses países, Pan-Amazônia é uma expressão que eles não utilizam. Usam “Amazônia” para falar do todo.
Hoje em dia eu me refiro à Amazônia brasileira, à Amazônia colombiana… e quando estou em reunião nos países, falamos da Amazônia na sua totalidade.
De que forma o Tratado assinado em 1978, em Brasília, acompanhou as transformações dos últimos 50 anos?
Arnaldo Carneiro: Se você olhar a geopolítica da época, você vai encontrar muitas ditaduras no entorno da Amazônia, inclusive no Brasil. A grande preocupação dos militares era a manutenção da soberania territorial. Então, foi nesse ambiente que se criou o TCA (Tratado de Cooperação Amazônica).
Conforme a história foi caminhando, os temas foram evoluindo, a OTCA foi se adaptando e esses temas foram sendo incorporados. Criado em 2021 pela OTCA, o ORA (Observatório Regional Amazônico), serve como centro de referência para informações essenciais sobre a gestão compartilhada e sustentável da Amazônia.
Na atualidade, o grande tema no ORA é a questão das mudanças climáticas e a trajetória perigosa em que estamos, na Amazônia inclusive, que pode nos levar a um ponto de não retorno.
Quais foram os principais avanços para a conservação amazônica no período? E quais lacunas persistem?
Arnaldo Carneiro: Se a gente olhasse um gráfico, teve um momento de grande expansão sobre a Amazônia. Nesse afã de integrar para não entregar, os militares começaram a promover a criação de infraestruturas, digamos, entre os anos 1970 e 1990. Já nos anos 1990, o Plano Real criou outro pico de desmatamento na Amazônia, porque o consumo de madeira também cresceu.
Nos anos 2000, Marina Silva trouxe a sociedade civil para dentro do governo e teve um movimento de transparência de informação genial, criando uma capacidade absurda na ciência e nas ONGs da Amazônia. O governo recebia uma maçaroca de aportes, análises e sugestões para políticas públicas, que bem aplicadas, criaram um impacto enorme no desmatamento na Amazônia brasileira. Se você olhar a curva, nos anos 2000 a gente realmente derrubou o desmatamento para níveis que são parecidos com os atuais.
Muitas áreas protegidas e territórios indígenas foram definidos nos anos 2000 e 2010. Foram décadas de muito crescimento e solução para direitos de quilombolas e indígenas. Ainda temos pendências, uma dívida socioambiental é enorme. Mas nós avançamos muito.
Também aprendemos que uma fatia do desmatamento (30 a 35%), que eu trato como social, é realizada por pequenos produtores que estão em assentamentos, ribeirinhos, todos desassistidos e com pouco acesso a soluções que poderiam reduzir seus impactos.
O desafio é implementarmos uma série de políticas orientadas a estes grupos sociais e que permitam integrar economicamente e socialmente. Acho que nós ainda estamos patinando nesta agenda.
De que maneira a geopolítica regional e global influencia nesse cenário?
Arnaldo Carneiro: Hoje em dia, a gente já vive eventos extremos na Amazônia. A grande pergunta é quem é o vilão dessa história. A questão ainda é o papel global e o papel regional.
O ingresso de umidade na Amazônia, a partir do Atlântico, depende da temperatura oceânica: se a temperatura oceânica sobe demais, temos eventos climáticos mais sêcos no interior da Amazonia. Se essa temperatura dos oceanos cai demais, acontece o contrário, temos grandes ciclos de enchentes.
Com isso, a gente tem uma ideia do impacto global, porque é a poluição da América do Norte que determina a temperatura do Atlântico Norte. É o aquecimento global provocado pela Europa e pelos Estados Unidos, principalmente.
Esse é um tema que a gente traz para os chanceleres, porque as mudanças climáticas na Amazônia têm um fator global que é o hemisfério Norte. Nós somos do hemisfério Sul. Então isso traz uma agenda política Norte-Sul para dentro da OTCA.
Pan-Amazônia estuda criar NDC coletiva com o objetivo de proteger a região. Foto: Gabriel S. Fernandes/Shutterstock
Como a região se organiza para lidar com as mudanças climáticas?
Arnaldo Carneiro: A gente vai começar a fazer campanhas internacionais. Nossa campanha de comunicação tem que sair desse raio de oito países da OTCA e expandir para Europa, Estados Unidos e Ásia. Temos que estar nas mídias e fóruns de maneira permanente..
O mundo se acostumou e a mídia adora publicar os dados do desmatamento e o papel que eles têm nas mudanças climáticas. Então, o mundo quando vê isso, acha que todo o impacto sobre o clima global vem do desmatamento da Amazônia. E isso é uma inverdade. De uma certa maneira, são padrões de consumo do hemisfério Norte sustentando as emissões que estão criando impactos sobre a Amazônia.
Em 2024, por exemplo, tivemos uma grande seca e grandes incêndios. Isso é outra coisa que nos interessa muito: em que medida as mudanças climáticas criam vulnerabilidades na Amazônia e predisposição a incêndios. Este ano estamos começando um projeto com uma ferramenta para ter um olhar muito mais acurado sobre os incêndios, com uma frequência muito rápida.
Quando você olha para os nossos planos e compromissos nacionais, cada país define a sua NDC. Mas nós somos países colonizados, não? Costumamos carregar muito naquilo que é a mitigação: “preciso mostrar que eu tô derrubando o desmatamento, que eu tô diminuindo as queimadas, que eu tô reduzindo o meu impacto”. Quando você olha para a adaptação, eu diria que nós não estamos carregando muito na tinta não.
Há uma série de fatores que a gente tem que começar a pensar para as populações amazônicas, sejam elas urbanas ou rurais, que hoje nós não estamos pensando.
Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, com as piores temperaturas em 2023, 2024 e 2025. Quais são os impactos dessa realidade na Pan-Amazônia?
Arnaldo Carneiro: Eu diria que a adaptação vai ser um problema sério para os amazônidas. A escassez de chuvas ou a abundância extrema de chuvas, que gera outro impacto, além do calor. As cidades na Amazônia já formam ilhas de calor, não são bem adaptadas ao que vem pela frente. Seja em cidades pequenas, médias ou grandes, as construções não estão adaptadas às mudanças climáticas e às altas temperaturas.
A OTCA pretende criar uma “NDC coletiva” dos países amazônicos?
Arnaldo Carneiro: Houve uma tentativa, um movimento no ano passado, mas que não prosperou como a gente desejava, justamente para termos uma NDC amazônica.
Se você olhar a NDC brasileira, ela se refere a programas que estão associados à Amazônia, por exemplo, o PPCDAm. Os outros países, nem todos fazem isso. Muitas vezes, não fazem referência explícita a uma intenção referente à Amazônia.
O que nos interessa é olhar para as ações. Nós vamos fazer ora um monitoramento, ora fazer uma análise crítica, então a gente vai talvez ter uma ação mais influente no momento da revisão da agenda.
Como chegar ao consenso sobre o clima quando países amazônicos seguem caminhos opostos? O Brasil, por exemplo, com novas frentes de exploração fóssil, e a Colômbia, que declarou sua porção de Amazônia livre de petróleo.
Nesse tema em particular do petróleo, não houve consenso na OTCA. Alguns países amazônicos têm forte dependência da exportação de óleo e gás. Então cada país deve seguir com a sua estratégia econômica.
Em 2026, qual seria a melhor notícia para a proteção da Pan-Amazônia?
Arnaldo Carneiro: A melhor notícia para 2026 não seria um único anúncio, mas uma percepção clara de que a região Pan-Amazônica entrou em um ponto de virada positivo e mostrando que a cooperação regional, a ciência e o financiamento podem trabalhar juntos.
Também, a Amazônia não deve mais ser entendida apenas como uma “floresta ameaçada”, mas como uma infraestrutura planetária para a regulação do clima, da água e da biodiversidade, necessária para a segurança alimentar, energética e climática na América do Sul e no mundo.
O governo federal desenvolveu na Terra Indígena Yanomami um projeto que une criação de peixes, roças com plantio de mandioca, batatas, arroz e criação de galinha. A iniciativa é desenvolvida na comunidade Sikamabiu e foi inaugurada oficialmente no dia 2 de fevereiro de 2026.
Chamada de unidade demonstrativa, a iniciativa visa fortalecer a segurança alimentar no território, que está há três anos em situação de emergência, e foi desenvolvida como resposta à grave crise humanitária enfrentada pelos povos Yanomami e Ye’kwana, causada pelo garimpo ilegal na região.
Sikamabiu fica na região do Baixo Mucajaí, no Sul de Roraima, dentro do território Yanomami. Na localidade, vivem ao menos 400 indígenas, distribuídos em cerca de 30 famílias. A maioria é do povo Xiriana (ou Xirixana), subgrupo dos Yanomami.
O polo com sistemas de piscicultura, criação de aves e o plantio de lavouras tradicionais será o primeiro de uma série de oito que devem ser implantados no território ainda neste ano. Estão previstas iniciativas em comunidades das regiões de Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu. O cuidado com as roças, os galinheiros e os tanques de peixes será de responsabilidade dos próprios indígenas.
O investimento para a implementação do projeto é de R$ 1,8 milhão, com recursos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A execução é feita pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com apoio logístico da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR) participa da parceria com aulas e formação em piscicultura. Ao todo, 34 indígenas foram capacitados e ficaram responsáveis pelo cultivo e pela multiplicação do conhecimento na comunidade.
Plantio de subsistência na Terra Indígena Yanomami. Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo
Além disso, no âmbito da piscicultura, o projeto tem o apoio do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), que atuou na construção dos açudes de criação dos peixes. Os tanques são feitos de geomembrana – uma espécie de manta sintética impermeável, o que garante maior eficiência e durabilidade na criação de peixes.
Nesta segunda, a cerimônia de inauguração do polo deve ter a presença do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, da presidente da Funai, Joênia Wapichana, aa diretora substituta da Casa de Governo, Cleide de Souza, a secretária nacional de Aquicultura do MPA, Fernanda de Paula, e de outras autoridades do governo federal.
Terra Yanomami
Com quase 10 milhões de hectares, a Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil em extensão territorial. Localizado no Amazonas e em Roraima, o território abriga 31 mil indígenas, que vivem em 370 comunidades.
O povo Yanomami é considerado de recente contato com a população não indígena e se divide em seis subgrupos de línguas da mesma família, designados como: Yanomam, Yanomamɨ, Sanöma, Ninam, Ỹaroamë e Yãnoma.
Terra Yanomami. Foto: Ascom | MPI
O território está em emergência de saúde desde janeiro de 2023, quando o governo federal, a partir da posse de Lula (PT), começou a criar ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e cestas básicas. Além de enviar forças de segurança a região para frear a atuação de
Roiti Metuktire, 35 anos, carrega no sangue a luta coletiva pela proteção do seu território, a Terra Indígena Kayapó, situada no norte de Mato Grosso. Das dezenas de netos de Raoni Metuktire, maior liderança indígena, ele está entre os três que assumiram diretamente o legado tio-avô em levar a luta pela terra adiante.
Há alguns anos, Roiti trabalha para que sua região seja conservada e as tradições de seus antepassados mantidas. Para isso, coordena o Núcleo de Gestão e Proteção Territorial do Instituto Raoni, que desde a sua fundação, em 2001, capta recursos e estrutura ações para proteger a floresta e a vida que se encontra nela.
Roiti embarcou em uma jornada de conhecimento que é compartilhada diariamente com as cinco comunidades que compõem o território e tem tido bons resultados.
Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso. Foto: Reprodução/Instagram-@minpovosindigenas
Hoje, a terra indígena Capoto-Jarina, no norte de Mato Grosso, região do Xingu, tornou-se referência em gestão e proteção territorial. Segundo Roiti, é reconhecida entre as populações indígenas como a mais protegida das cinco comunidades que compõem a terra indígena Kayapó.
Isso devido à ausência de ilícitos ambientais e de desmatamento ativo, com sistemas robustos de monitoramento e vigilância, forte articulação comunitária e diálogo internacional consolidado.
Como tudo começou
Na cultura Kayapó, a floresta, a água, os animais e todos os seres vivos não são recursos, mas condições essenciais de existência.
“No mundo indígena, tudo vem da floresta. A gente caça, planta, busca o alimento. Se isso é tirado, o indígena praticamente morre, porque nossa cultura não é baseada na compra, mas na relação com o território”, explica Roiti.
Terra indígena Kayapó. Foto: Divulgação/Polícia Federal
As mudanças no entorno da terra indígena Kayapó começaram a afetar diretamente o cotidiano dos indígenas no interior do território, algo que os mais velhos vinham percebendo. Foi em 2009, em um grande incêndio, que acendeu o alerta: o fogo estava mais intenso e mais frequente do que em outros períodos.
Sem acesso à tecnologia ou a dados climáticos na época, as lideranças passaram anos tentando entender o que estava acontecendo. A busca por parcerias, a partir de 2014, deu início a estruturação de uma área específica de monitoramento territorial, incorporando ferramentas tecnológicas e aproximando o conhecimento tradicional de sistemas modernos de análise ambiental.
Virada com a tecnologia
A formação de jovens passou a ser central nessa estratégia. Roiti saiu do território em 2019 para estudar e nesse movimento passou a enxergar de forma mais clara os impactos do avanço do agronegócio e da lógica predatória ao redor da terra indígena Kayapó. Onde antes havia floresta, hoje predominam grandes áreas de soja.
Ao retornar, sua luta tornou-se pessoal. Pai de três filhos, ele vê na proteção do território uma responsabilidade com o futuro.
“Quero que meus filhos possam dizer: essa é minha casa, é aqui que minha família existe, é daqui que vem o nosso alimento. Quero que eles vivenciem o que a gente viveu com a caça e a pesca, mas também que tenham acesso aos dois mundos”, afirma.
O trabalho no Instituto Raoni o aproximou mais do objetivo. Em 2017, a organização implementou, com o apoio do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena (SOMAI) na terra indígena Kayapó.
O sistema monitora desmatamento e ameaças em terras indígenas, como o aumento da seca, a imprevisibilidade das chuvas, por exemplo. Integra conhecimentos científicos e tradicionais para a conservação ambiental.
A comunicação no território também passou por uma transformação profunda. Se até 2019 o diálogo entre as aldeias era majoritariamente por rádio, hoje, de acordo com Roiti, cerca de 90% da terra indígena Kayapó se comunica via internet. Isso facilitou o acesso à informação sobre mudanças climáticas, desmatamento e legislação ambiental, além de aproximar jovens das decisões coletivas.
Hoje, a implementação das brigadas de incêndio é considerada essencial para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Em 2024, apesar de todos os esforços, o território perdeu cerca de 17% de sua área para o fogo, de acordo com um levantamento do Greenpeace Brasil.
Em resposta, as comunidades passaram a investir em SAFs (Sistemas Agroflorestais). Reutilizam áreas já degradadas, evitam novos desmatamentos e reduzem o uso do fogo nas roças. Os resultados têm sido positivos, inclusive na recuperação de solos empobrecidos após anos de queimadas.
Terra indígena Kayapó. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
“Nosso objetivo é proteger o que resta de mata e floresta para que não apenas os povos indígenas possam viver nela, mas para manter um equilíbrio do qual todos os povos dependem”, diz Roiti.
Ainda assim, há desafios e obstáculos na implementação. Segundo Metuktire, o diálogo com anciãos e mulheres anciãs exige sensibilidade e persistência. Muitas práticas tradicionais dos kayapós exigem o uso do fogo, como a coleta de mel, a obtenção de penas para o artesanato ou a preparação do terreno para as roças.
A solução encontrada, de acordo com o coordenador, tem sido o manejo integrado, com queima prescrita e acompanhamento dos brigadistas. Além do diálogo ativo com os mais velhos para evitar ruídos e explicar a importância de não usar o fogo indiscriminadamente, mas aguardar os dados do monitoramento para agir.
Dessa forma, o respeito à cultura permanece e, ao mesmo tempo, incêndios de grandes proporções são evitados. O coordenador relata ter conseguido que cerca de 60% da comunidade se conscientizasse.
“A comunidade Capoto-Jarina se tornou um modelo de gestão de proteção do território. A nossa experiência tem sido procurada por outros territórios que desejam adaptar metodologias e alcançar feitos semelhantes”, explica Rioti.
O trabalho se destaca pela participação ativa de mulheres, jovens e lideranças, pelo respeito aos mais velhos e pela união de uma família ancestral que segue orientando decisões coletivas.
Essa pode ser a chave para garantir a floresta viva, prova que tradição e inovação podem caminhar juntas. “Acredito que como representação de uma liderança jovem, antigamente, para os mais velhos, a luta era feita com contos, pinturas, caça. Hoje, para nós, é tecnologia, papel, boa comunicação”, conclui Roiti.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia
A Foz do Amazonas fica na Margem Equatorial brasileira. Foto: Enrico Marone/Greenpeace
O vazamento de 15 mil litros de fluido ocorrido durante a perfuração exploratória de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, localizada na Margem Equatorial Brasileira, completa um mês nesta quarta-feira (4). A operação, realizada pela Petrobras, segue paralisada desde o incidente e as causas ainda não foram esclarecidas pela empresa estatal.
A atividade exploratória, iniciada em outubro de 2025, divide opiniões colocando, de um lado, aqueles que enxergam a medida como promissora para a soberania energética do Brasil, e, do outro, quem classifica o ato como uma ameaça grave à biodiversidade amazônica. Com o vazamento de fluido no dia 4 de janeiro, os debates esquentaram novamente.
A equipe do Portal Amazônia reuniu pontos dessa discussão e o que dizem órgão nacionais, entidades ou comunidades envolvidos nessa ação exploratória.
Bacia sedimentar Foz do Amazonas fica na Margem Equatorial brasileira. Foto: Divulgação Petrobras
Localizada entre os estados do Amapá e Rio Grande do Norte, a Margem Equatorial Brasileira é uma região litorânea considerada “a nova fronteira do petróleo”. A área é dividida em cinco bacias, onde cada uma delas possui blocos exploratórios que são ofertados ou concedidos para estudos de exploração.
Um desses blocos é o FZA-M-059, situado a 500 km da foz do Amazonas e a 175 quilômetros da costa do Amapá. A 2.800 quilômetros de profundidade, o bloco é visto como uma reserva potencial de petróleo e há alguns anos vem sendo alvo de um debate acirrado entre ambientalistas e setores dos órgãos federais favoráveis à exploração.
Isto porque, em 2013, o bloco foi arrematado para a empresa estrangeira BP Energy. No entanto, a petrolífera enfrentou diversos entraves durante o processo de licenciamento ambiental junto ao Ibama. Diante disso, a empresa optou por desistir, em 2020, de operar o bloco.
Interessada, a Petrobras começou as tratativas para assumir a concessão dos blocos exploratórios, algo conquistado em abril de 2021, quando a estatal assinou o acordo de transferência do bloco.
O Bloco FZA-M-59 fica localizado a 500 km da Foz do Amazonas e está a 2.800 quilômetros de profundidade. Arte: Agência Petrobrás
Petrobras
Após assumir os direitos de concessão de seis blocos exploratórios da Margem Equatorial, incluindo o FZA-M-059, a Petrobras iniciou uma saga para obter o licenciamento ambiental junto ao Ibama. Os dois primeiros pedidos, em 2021 e 2023, foram indeferidos pela autarquia federal.
Em 2024, a empresa recebeu outra negativa do Ibama, desta vez sendo alertada a respeito das inconsistências técnicas no projeto e ausência de estudos sobre os impactos potenciais da exploração na região.
Sonda de perfuração NS-42, responsável pela perfuração do poço exploratório no bloco FZA-M-059. Foto: Agência Petrobras
Mas no dia 20 de outubro de 2025, a estatal recebeu a autorização do Ibama para iniciar a pesquisa exploratória de petróleo na Margem Equatorial. A operação iniciou imediatamente após a emissão da licença e permitiu apenas a perfuração para constatar a promessa do combustível no bloco FZA-M-059. Caso seja confirmada a presença de petróleo, a estatal precisará de uma nova licença para continuar com a exploração.
Críticas
Na época, a licença do Ibama concedida à Petrobras levantou uma série de críticas por parte de organizações de movimentos ambientalistas, povos indígenas, quilombolas e pescadores artesanais residentes na região da bacia sedimentar Foz do Amazonas.
Os manguezais ocupam uma área de 8 mil km² entre os estados do Pará e Maranhão. Foto cedida pelo Núcleo de Estudos em Manguezais – Nema/UERJ
Para o grupo, a ação exploratória oferece graves riscos ao meio ambiente, já que a região da Foz do Amazonas é considerada sensível devido a sua biodiversidade, composta pelo maior cinturão de manguezais do mundo (ocupa uma área de 8 mil km² e corresponde a mais de 80% dos mangues do país) e os recifes de corais que se estendem por 1.350 quilômetros ao redor da costa brasileira.
A ausência de estudos de impacto mais confiáveis e a falta de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também foram outros apontamentos feito pelo ambientalistas.
Além disso, pescadores temem que a exploração na Foz do Amazonas possa afetar a economia local, já que a região é uma das mais produtivas.
Pescador protesta contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Foto: Divulgação GTA
O Ministério Público Federal (MPF) chegou a ingressar, em junho, com uma ação na Justiça Federal do Pará pedindo a suspensão do leilão de 172 blocos de petróleo e gás, sendo 47 deles na Foz do Amazonas, pela falta de medidas previstas na legislação socioambiental, mas teve o pedido rejeitado. O órgão recorreu da decisão no último dia 24 de outubro.
Por outro lado, o governo brasileiro considera a Margem Equatorial brasileira com potencial energético para ser o novo “pré-sal”. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a região representa “o futuro da soberania energética” e que os investimentos podem chegar a R$ 300 bilhões nas próximas décadas e potencial de arrecadação em torno de R$ 1 trilhão.
Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, é um dos defensores da exploração do petróleo na bacia da Foz do Amazonas. Foto: Ricardo Botelho/MME
Segundo levantamento do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a exploração na Foz do Amazonas teria potencial de produzir 1,1 milhão de barris por dia, a partir de 2029.
Outros estudos apontam que a estimativa total de reservas na região pode alcançar 10 bilhões de barris – atualmente, o Brasil 16,8 bilhões de barris comprovados).
Para o ministério, a exploração na região da Foz do Amazonas tiraria o Brasil da dependência petrolífera estrangeira a partir de 2030.
Vazamento
No dia 4 de janeiro de 2026, cerca de 15 mil litros de fluido sintético vazaram para o oceano durante as atividades exploratórias da Petrobras no bloco 59 da Foz do Amazonas. O vazamento aconteceu em duas tubulações de apoio que ligam a sonda de perfuração ao poço Morpho.
Em nota, a Petrobras informou a atividade foi interrompida logo após a identificação do vazamento e reforçou que o líquido não oferece perigo ao meio ambiente.
“A perda do fluido de perfuração foi imediatamente contida e isolada. As linhas serão trazidas à superfície para avaliação e reparo. Não há problemas com a sonda ou com o poço, que permanecem em total condição de segurança. A Petrobras adotou todas as medidas de controle e notificou os órgãos competentes. O fluido utilizado atende aos limites de toxicidade permitidos e é biodegradável, portanto não há dano ao meio ambiente ou às pessoas”, cita a empresa.
Vazamento interrompeu as operações exploratórias de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. Foto: Click Petróleo e Gás
Fiscalização, multa e retomada
A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) chegou a suspender as atividades na plataforma e anunciou a realização de duas auditorias, uma de 2 a 7 de fevereiro e outra nos dias 9 a 13 do mesmo mês. No entanto, após a primeira fase de inspeção, a ANP autorizou a retomada da perfuração exploratória.
“Considerando as análises técnicas realizadas e as medidas mitigadoras propostas pela Petrobras, concluiu-se não haver óbice (empecilho) ao retorno das atividades de perfuração no referido poço, a partir do recebimento deste ofício”, afirmou, em nota, a ANP.
Porém, a volta da operação ficou condicionada à alguns obrigações por parte da Petrobras como “a troca de todos os elementos de vedação usados nas conexões da tubulação por onde passam os fluidos e treinamento de todos os trabalhadores envolvidos no procedimento”.
Além disso, o Ibama aplicou uma multa de R$ 2,5 milhões à Petrobras após o vazamento do fluido no mar. O órgão alegou que a substância contém componentes classificados como de risco médio para a saúde humana e deu um prazo de 20 dias para o pagamento da multa ou apresentação de defesa administrativa.
O que dizem?
Ibama:
“A emissão da licença ocorre após rigoroso processo de licenciamento ambiental, que contou com elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), realização de três audiências públicas, 65 reuniões técnicas setoriais em mais de 20 municípios dos estados do Pará e do Amapá, vistorias em todas as estruturas de resposta à emergência e unidade marítima de perfuração, além da realização de uma Avaliação Pré-Operacional, que envolveu mais de 400 pessoas, incluindo funcionários e colaboradores da Petrobras e equipe técnica do Ibama“.
Petrobras:
“A Petrobras atendeu a todos os requisitos estabelecidos pelo Ibama, cumprindo integralmente o processo de licenciamento ambiental. Como última etapa de avaliação, a companhia realizou, em agosto, um simulado in loco, denominado Avaliação Pré-Operacional (APO), por meio do qual o Ibama comprovou a capacidade da Petrobras e a eficácia do plano de resposta à emergência. A companhia segue comprometida com o desenvolvimento da Margem Equatorial brasileira, reconhecendo a importância de novas fronteiras para assegurar a segurança energética do país e os recursos necessários para a transição energética justa”.
Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia:
“A Margem Equatorial representa o futuro da nossa soberania energética. O Brasil não pode abrir mão de conhecer seu potencial. Fizemos uma defesa firme e técnica para garantir que a exploração seja feita com total responsabilidade ambiental, dentro dos mais altos padrões internacionais, e com benefícios concretos para brasileiras e brasileiros“.
Cacique Edmilson, da aldeia Galibi, em Oiapoque (AP):
“A gente tá muito preocupado, desde quando começamos a ouvir sobre a exploração de petróleo, tirou nosso sossego, porque nosso território fica muito próximo da costa do Amapá, e nosso território é a nossa mãe, daqui que a gente tira nossa sobrevivência, do nosso território“.
Angela Barbarulo, gerente jurídica do Greenpeace Brasil:
“O licenciamento do Bloco FZA-M-59 atropelou requisitos fundamentais previstos na legislação ambiental brasileira e em tratados internacionais dos quais o país é signatário. A anulação da licença de operação é urgente, uma vez que ela foi concedida sem estudos que identifiquem e mitiguem adequadamente os riscos e impactos socioambientais“.
Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenção das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab):
“Nenhuma decisão que impacte a vida e os territórios indígenas pode ser tomada sem ouvir quem há milênios cuida da Amazônia. Autorizar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas sem esse diálogo é mais um ato de violação e desrespeito aos povos indígenas, que pagam a conta pelas ações do Estado e da iniciativa privada, que só estão preocupados com o lucro acima da vida“.
*Com informações do Greenpeace Brasil, MME e Petrobras