Parceria entre o Sebrae Amazonas e IABS fortalece cadeias da sociobiodiversidade e negócios de base comunitária. Foto: Reprodução/Sebrae-AM
Da castanha-do-brasil coletada por famílias extrativistas ao pirarucu manejado por comunidades ribeirinhas, a sociobiodiversidade amazônica movimenta economias locais, gera renda e ajuda a manter a floresta em pé. Para fortalecer essas cadeias produtivas e ampliar as oportunidades para quem vive nos territórios, o Sebrae Amazonas e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS) iniciaram a execução do plano de trabalho do Acordo de Cooperação Técnica firmado entre as instituições, com ações previstas para os municípios do estado.
O plano foi formalizado após a assinatura do acordo, realizada em 14 de maio, e prevê uma série de iniciativas voltadas ao empreendedorismo de base comunitária, à qualificação de produtores, à regularização de empreendimentos e à inovação em negócios ligados à sociobiodiversidade amazônica.
Entre as cadeias prioritárias estão a Castanha-do-Brasil e o Pirarucu de Manejo, atividades que representam importantes fontes de renda para centenas de famílias em comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas no Amazonas.
As ações serão desenvolvidas em territórios do Amazonas onde o IABS já atua por meio do Projeto Rural Sustentável Amazônia (PRS-Amazônia), iniciativa que apoia organizações socioprodutivas formadas por agricultores familiares, extrativistas, povos indígenas e comunidades tradicionais. A proposta é fortalecer a capacidade de gestão desses empreendimentos, ampliar o acesso a mercados, estimular processos de inovação e criar condições para que os produtos da floresta alcancem maior valor agregado.
Ao todo, o plano prevê dez ações estratégicas voltadas ao fortalecimento dessas cadeias produtivas. Entre elas estão a mobilização de recursos e a contratação de consultoria especializada para estruturar o pedido de registro da Indicação Geográfica (IG) da Castanha de Tefé, iniciativa que poderá ampliar o reconhecimento e a valorização do produto nos mercados nacional e internacional.
Também estão previstas capacitações em operação de drones para monitoramento territorial e apoio ao manejo do pirarucu, mutirões de regularização para agricultores familiares e pescadores artesanais, cursos de aproveitamento econômico dos ouriços da castanha-do-brasil, participação de empreendedores comunitários em eventos de promoção comercial, seminários sobre agricultura de baixa emissão de carbono e ações de comunicação voltadas à valorização dos resultados da parceria.
Manejo dos peixes pirarucu no Amazonas. Foto: Adriano Gambarini/OPAN
a realização de cinco cursos básicos de operador de drone, beneficiando cerca de 80 manejadores de pirarucu;
cinco mutirões de regularização para atender aproximadamente 200 agricultores familiares e pescadores artesanais por meio do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e do Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP);
além da capacitação de 50 comunitários que atuam na cadeia da castanha-do-brasil.
O plano também prevê a participação de representantes das organizações socioprodutivas em eventos de promoção das cadeias produtivas apoiadas pelo PRS-Amazônia, fortalecendo sua inserção em mercados e redes de relacionamento.
Desenvolvimento com floresta em pé
A iniciativa representa um avanço na construção de soluções que unem desenvolvimento econômico, inclusão produtiva e conservação ambiental. Como explica o gestor de Políticas Públicas do Sebrae-AM, José Antônio Cardoso Fonseca.
“As cadeias da castanha-do-brasil e do pirarucu manejado demonstram que é possível gerar renda e desenvolvimento a partir da floresta em pé. O Sebrae entra nessa parceria para apoiar a estruturação dos negócios comunitários, ampliar oportunidades de mercado e fortalecer o empreendedorismo de base comunitária, valorizando quem produz, conserva e movimenta a economia dos territórios amazônicos”, explica Fonseca.
Além dos impactos econômicos, a parceria busca enfrentar desafios históricos enfrentados por organizações comunitárias da sociobiodiversidade, como acesso à assistência técnica, regularização produtiva, qualificação profissional e inovação. A expectativa é fortalecer a governança local, ampliar a competitividade dos empreendimentos e criar condições para que mais famílias de comunidades no Amazonas permaneçam em seus territórios com geração de renda e qualidade de vida.
Segundo Vinícius Lopes, diretor regional Amazônia do IABS e coordenador da equipe de campo da instituição no estado, o fortalecimento das cadeias produtivas está diretamente ligado à valorização das pessoas que vivem da floresta.
“Quando falamos em fortalecer a sociobiodiversidade, estamos falando de criar condições para que as comunidades possam permanecer em seus territórios com dignidade. As ações previstas vão desde a regularização de produtores até inovação tecnológica e valorização dos produtos da floresta. É um conjunto de iniciativas que fortalece as organizações locais e gera impacto direto na renda das famílias, na proteção dos recursos naturais e no desenvolvimento sustentável da Amazônia”, afirma Lopes.
Missão em Tefé e Maraã
Parte desse trabalho pode ser observada durante a missão institucional iniciada no fim de maio, nos municípios de Tefé e Maraã, no Amazonas. A visita reuniu representantes do Governo do Reino Unido, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), do IABS, do Sebrae Amazonas e de outras instituições parceiras para conhecer de perto experiências apoiadas pelo PRS-Amazônia nas cadeias da castanha-do-brasil e do pirarucu manejado.
A programação incluia encontros com famílias beneficiárias, visitas a áreas de manejo sustentável, entrega de benefícios coletivos e intercâmbio de experiências com organizações socioprodutivas locais.
Os visitantes conheceram iniciativas que já apresentam resultados concretos para as comunidades. Entre elas estão o viveiro comunitário com capacidade para produzir até 10 mil mudas de castanheira por ano, contribuindo para o enriquecimento florestal e o aumento da produtividade dos castanhais, além de uma embarcação destinada ao escoamento da produção de pirarucu manejado, reduzindo custos logísticos e ampliando a renda das famílias envolvidas.
Dom João de Souza Lima, Arcebispo de Manaus. Irmã Celestina Manço, superiora, e Comendador José Cruz, presidente da Beneficente – 1984. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Porém, já cinco sóis eram passados, Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca de outrem navegados, Prosperamente os ventos assoprados. – Luiz Vaz de Camões
Os homens que lograram êxito em suas histórias tiveram como principais atributos a coragem e o espírito empreendedor. Foram sobretudo seres que acreditam nos seus sonhos e projetos – e movidos pelo entusiasmo e pelos ideais, legaram a sociedade uma história de feitos e conquistas.
A maior herança desse espíritos esclarecidos e altivos é o exemplo que deixaram para os seus descendentes e a comunidade, especialmente para os jovens que transformar sonhos em realidade não é impossível. A história exemplar do comendador José Cruz é ilustrativa da capacidade d superação e realização do ser humano.
Faz parte da linhagem de conquistadores lusos: de homens que se lançaram ao mar em busca de suas miragens e conquistas. Que foram fortes para vencer o desconhecido, superar os próprios limites e construir uma história vitoriosa e edificante. Nascido em Nagosa, Distrito de Viseu, em Portugal, a 28 de junho de 1911, o Comendador José Cruz fez o percurso de tantos portugueses que deixaram a terra natal em busca de oportunidade: motivado pelo desejo de conquista e esperança de encontrar no Brasil acolhimentos, estabeleceu-se em Manaus, onde fincou suas raízes e iniciou sua trajetória empresarial.
Por força de liderança e carisma, tornou-se um dos empreendedores mais respeitados do Amazonas, gozando de reconhecimento e admiração, fato que o credenciou junto aos seus pares, sendo eleito vice-presidente da Associação Comercial do Amazonas, presidente do Conselho da Comunidade Portuguesa e Luso-Brasileira. Homem preocupado com os valores transcendentais, dedicou atenção à leitura e ao conhecimento, particularmente aos estudos maçônicos, conquistando a posição de venerável mestre da Augusta e Benemérita Loja Simbólica Aurora Lusitana.
Comendador José Cruz. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Como empreendedor soube vencer os desafios e construir não só um patrimônio, mas uma reputação que lhe rendeu homenagem e admiração. Fruto 1979, com o título de Cidadão do Amazonas, conferido pleo Governo do Estado. Em 1982, foi condecorado com o grau de comendador da Ordem do Mérito desenvolvimento regional, o que motivou a Federação das Industrias do Estado do Amazonas a lhe conferir o Diploma de Mérito Industrial.
O Comendador José Cruz tornou-se um homem de duas pátrias: intrigou-se a vida do País que o acolheu, sem perder os vínculos com o passado, com as suas origens e com a terra que o recebeu. Por ter honrado as tradições portuguesas e por ter mantido vivo o vínculo com a alma lusitana, foi condecorado pelo Governo Português com o grau de comendador da Ordem de Benemerência, sendo reconhecido como grão-mestre das Ordens Portuguesas.
Foi um homem que, além de talento para a vida empresarial, soube cultivar a vida familiar. Afortunado pela sorte, casou-se em 1951, com Alice Carvalho Cruz, sua companheira de todas as horas, seu porto e refúgio nos momentos de provação. Desse encontro feliz nasceram: José, Luiz Vitor e Maria Luíza. Tinha profunda consciência da importância da família como fator de sustentação nos embates da existência. Talvez por isso sua filha tenha afirmado: O comendador Cruz não nasceu em berço esplêndido, mas nasceu em um esplendoroso de amor e carinho no seio de uma família que tinha consciência do significado da palavra família.
Um capítulo especial de sua vida está associado às ações de caráter humanitário. Em meio as suas atividades empresariais, dedicou-se voluntariamente a gestão do Hospital da Beneficente Portuguesa do Amazonas, sendo um de seus presidentes. Sua administração foi marcada por muitas realizações e correspondeu a um período de expansão, em que o hospital foi modernizado para atender com qualidade a seus associados.
O Comendador José Cruz cumpriu com esmero sua missão. Contribuiu com seu trabalho e suas iniciativas no campo empresarial para tornar a vida melhor, gerando emprego e renda para a sociedade, dando a sua contrapartida para o desenvolvimento do Amazonas.
Por tudo o que fez, afirmou sua reputação com o um homem generoso e cidadão, o que corrobora o depoimento de sua filha: “… foi feliz, porque conseguiu realizar em vida tudo o que esteve ao seu alcance e, a meu ver, da melhor forma possível”. Para expressar o sentido de sua existência não é demais relembrarmos os versos de Fernando Pessoa: Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”. O Comendador José Cruz soube ser digno dos desafios que lhe foram reservados pelo destino.
Fonte
BAZE, Abrahim. Luso Sporting Club – A Sociedade Portuguesa no Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2007.
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
A superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Amazonas publicou, no dia 10 de junho, o aviso de licitação para a restauração da Igreja de São Sebastião, monumento centenário localizado em frente ao Teatro Amazonas, no Centro Histórico de Manaus.
A concorrência prevê a contratação semi-integrada de empresa especializada para a elaboração dos projetos executivos e execução da obra. O edital está disponível no Portal de Compras do Governo Federal. A abertura das propostas está marcada para 30 de julho de 2026.
A licitação marca uma etapa aguardada pela população. A Igreja de São Sebastião está fechada há mais de um ano após o desplacamento de parte do forro ocorrido em janeiro de 2025. O incidente levou o Iphan a interditar a igreja preventivamente e, após investigação, foram descobertos problemas na cobertura do monumento, sendo necessária nova intervenção para correção. Desde então, o Iphan trabalha para garantir que a restauração seja realizada com o rigor e segurança que o patrimônio exige.
A segunda etapa das obras prevê recuperação da cobertura, reforço estrutural da torre sineira, restauração da fachada, serviços de restauração do forro e das telas artísticas, além de implantação de sistema de proteção contra descargas atmosféricas, climatização e recuperação dos pisos.
Os recursos, de mais de R$ 6 milhões, são provenientes de emendas parlamentares solicitadas pela Arquidiocese de Manaus e foram disponibilizadas pelos senadores Eduardo Braga, Omar Aziz e Plínio Valério e dos deputados federais Adail Filho, Capitão Alberto Neto, Amon Mandel, Silas Câmara e Átila Lins.
Para a superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiro, a publicação do edital representa um avanço concreto rumo à reabertura da igreja.
“Nossa meta é fazer a contratação para arrumar a cobertura, a torre sineira, a fachada e outros serviços, e reabrir a Igreja de São Sebastião para que esse patrimônio possa estar disponível para toda a comunidade de forma segura novamente”, afirmou.
Após a homologação da licitação, que deve ocorrer até a metade de agosto, a empresa tem 18 meses para a conclusão da obra.
Uma das igrejas mais antigas do Centro Histórico de Manaus, São Sebastião é um dos símbolos da arquitetura religiosa da capital amazonense e integra o conjunto urbano tombado pelo Iphan em 2010.
*Com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
O potássio, um elemento químico essencial para a vida, é o foco de um dos maiores e mais controversos projetos de mineração em andamento no Brasil. Conhecido na indústria agrícola como “o elemento da qualidade”, ele é um dos principais nutrientes para o crescimento de plantas e, consequentemente, vital para a produção de alimentos, fibras e pastagens.
A demanda por este mineral é alta no país, que hoje importa cerca de 95% do potássio que consome. É nesse cenário de dependência externa que o Projeto Autazes, no estado do Amazonas, ganha visibilidade, com a promessa de transformar o município em um polo de produção de fertilizantes e reduzir significativamente as importações brasileiras.
O município de Autazes, a cerca de 112 quilômetros de Manaus, pode se tornar o coração da maior mina de potássio do Brasil, um projeto da empresa Potássio do Brasil. A proposta prevê a extração de silvinita a 800 metros de profundidade, com capacidade para produzir 2,4 milhões de toneladas de fertilizantes por ano.
A mineradora estima que o projeto poderá suprir cerca de 20% da necessidade anual de potássio do país pelos próximos 23 anos. A iniciativa também promete um impacto econômico significativo, com a geração de milhares de empregos diretos e indiretos nas fases de implantação e operação, além do aumento de receitas fiscais para o município.
A relevância do projeto vai além das fronteiras municipais. A empresa Potássio do Brasil argumenta que a exploração local do mineral pode reduzir a emissão de gases de efeito estufa produzidos pelo transporte do potássio importado, que hoje chega de países como Canadá, Rússia e Bielorrússia.
A companhia calcula que a troca do potássio canadense pelo extraído em Autazes poderia resultar em uma redução de até 65% nas emissões. “Com isso, a emissão de gases de efeito estufa produzidos pelo transporte, que são uma das causas do aquecimento global, também diminuirá muito”, afirma a empresa em seu material de divulgação. Essa perspectiva de menor impacto ambiental no transporte é um dos pontos defendidos pela companhia para a viabilidade do projeto.
Autazes, no Amazonas. Foto: Reprodução/Potássio do Brasil
A disputa em torno da mina
Apesar do potencial econômico, o Projeto Autazes enfrenta diversos desafios, principalmente de ordem jurídica e ambiental. A área de mineração se sobrepõe a territórios tradicionalmente ocupados pelo povo indígena Mura, o que gerou um impasse legal e social. A disputa se intensificou após o governo do Amazonas conceder a licença ambiental estadual para o projeto, em abril de 2024. A decisão foi contestada pelo Ministério Público Federal (MPF), que ingressou com uma ação judicial pedindo o cancelamento do licenciamento.
O MPF argumenta que o projeto interfere em terras indígenas e que os riscos ambientais e sociais não foram devidamente avaliados. A ação aponta irregularidades no processo de licenciamento, incluindo suspeitas de suborno e manipulação na consulta às comunidades locais. “A atividade de mineração em terra indígena é inconstitucional, ou seja, a sobreposição do Projeto Autazes a essa terra indígena sequer pode ocorrer”, afirmam os procuradores na ação.
A Fundação Nacional do Índio (Funai) também confirmou que o empreendimento está em uma área com processos de demarcação em andamento, um fato que, segundo o MPF, não foi considerado durante a concessão da licença.
A posição do povo Mura é de oposição ao empreendimento. O tuxaua da aldeia Soares, Gabriel Mura, questionou o processo de consulta conduzido pelo Conselho Indígena Mura (CIM), que teria se posicionado a favor da mineração. Ele afirma que as reuniões não foram válidas para a tomada de decisão e que as comunidades são, de fato, contrárias à exploração. “Nós somos favoráveis à demarcação do nosso território, não ao projeto de mineração”, declarou.
A tensão entre o projeto e as comunidades indígenas reflete uma pauta mais ampla de mineração em terras indígenas no Brasil, que é debatida em diferentes esferas do poder público, incluindo o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).
O debate sobre o Projeto Autazes envolve, ainda, a preocupação com os impactos ambientais da mineração. O MPF cita o risco de afundamento do solo e a salinização de rios e lagos como exemplos de possíveis danos não dimensionados no licenciamento. A ação judicial recorda o colapso de minas de sal-gema na Rússia e, mais recentemente, em Maceió (AL), para ilustrar os riscos potenciais.
A empresa, por sua vez, afirma que a área do projeto era usada apenas para pecuária e que “o desmatamento é zero, porque [a mina] vai ser desenvolvida numa área de pastagem”, conforme disse o então governador do Amazonas, Wilson Lima, na época.
A produção de potássio em Autazes, se o projeto for concluído, já tem destino certo: toda a produção anual foi comprada pelo grupo Amaggi, da família do ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, um dos maiores produtores de soja do Brasil. A negociação, que ocorreu mesmo com o projeto paralisado, demonstra o alinhamento de interesses entre o setor do agronegócio e a mineração, e coloca o potássio no centro de uma complexa teia de desenvolvimento econômico, direitos indígenas e preservação ambiental.
MPF reforça pedido contra licenciamento do Projeto Potássio Autazes
Em maio deste ano, o MPF reforçou o pedido. Segundo o ministério, o processo de licenciamento ambiental apresenta violações territoriais, ameaças a comunidades indígenas e irregularidades na condução das consultas aos povos afetados.
O MPF solicitou à Justiça Federal a suspensão imediata das atividades de pesquisa e exploração mineral na região. Na manifestação enviada à Justiça, o MPF defende que o licenciamento do empreendimento seja conduzido exclusivamente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e não pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
A manifestação ainda relata episódios de pressão e interferência da mineradora dentro das aldeias para obter a concordância das comunidades, o que, segundo o MPF, compromete a validade do processo de escuta.
Em nota, a Potássio do Brasil, responsável pelo empreendimento, afirmou que o tema já foi analisado pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). Segundo a empresa, a Corte confirmou, em decisão proferida no ano passado, a competência do Ipaam para conduzir o licenciamento ambiental do projeto.
Leia a nota na íntegra:
“A Potássio do Brasil esclarece que o tema mencionado na nota divulgada pelo Ministério Público Federal (MPF) em 20/05/2026, intitulada ‘MPF reforça pedido de anulação de licenciamento do Projeto Potássio Autazes no Amazonas por violação de direitos’, refere-se a matéria já analisada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1).
A Corte Especial do TRF1 confirmou, em decisão proferida no ano passado, a competência do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) para conduzir o processo de licenciamento ambiental do Projeto Potássio Autazes, revertendo decisões anteriores da Justiça Federal.
O Tribunal entendeu que a área do empreendimento está localizada fora de terras indígenas oficialmente demarcadas, reconhecendo, assim, a competência do Ipaam para emissão das licenças ambientais.
O TRF1 também reconheceu a legalidade do processo de Consulta Livre, Prévia e Informada realizado junto às comunidades indígenas Mura, conduzido pelo Conselho Indígena Mura (CIM), em Autazes, bem como a validade dos resultados obtidos no âmbito desse processo.
A Potássio do Brasil reafirma que o Projeto Potássio Autazes segue sendo desenvolvido em conformidade com a legislação brasileira aplicável, observando os processos regulatórios e institucionais conduzidos pelas autoridades competentes”.
A Coiab é uma coordenação de organizações indígenas da Amazônia brasileira. Foto:
A violência contra os povos indígenas continua sendo uma das principais preocupações na Amazônia brasileira. A avaliação é da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que divulgou uma análise jurídica sobre os dados apresentados no Atlas da Violência 2026, publicação elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Segundo a entidade, os números revelam que, apesar da redução dos índices gerais de homicídios no país, os povos indígenas seguem expostos a um cenário marcado por violações de direitos humanos, conflitos territoriais e avanço de atividades ilegais dentro e no entorno de terras indígenas.
De acordo com a análise da Assessoria Jurídica Indígena da Coiab, a violência letal registrada nos territórios indígenas está diretamente relacionada à expansão do crime organizado, do garimpo ilegal, do narcotráfico e da exploração irregular de recursos naturais, além da ausência de proteção estatal efetiva em diversas regiões da Amazônia. A entidade destaca que a realidade enfrentada pelas comunidades indígenas não se resume aos homicídios, mas inclui ameaças, perseguições, intimidações e invasões territoriais recorrentes.
O documento também chama atenção para o agravamento da violência em estados como Amazonas e Roraima, onde a presença de atividades ilegais e conflitos fundiários tem aumentado a vulnerabilidade das populações indígenas. Para a organização, a violência observada na região faz parte de um contexto estrutural e histórico que continua afetando diretamente a segurança e os direitos desses povos.
Conflitos territoriais ampliam vulnerabilidade
Na avaliação da Coiab, lideranças indígenas, defensores ambientais e comunicadores indígenas estão entre os grupos mais expostos aos riscos provocados pelo avanço das atividades criminosas na Amazônia.
A análise jurídica aponta que a insuficiência das ações de fiscalização e proteção territorial tem contribuído para o aumento da insegurança em áreas de difícil acesso. Além disso, a morosidade nos processos de demarcação de terras indígenas acaba ampliando os conflitos e facilitando a atuação de invasores e organizações criminosas.
A entidade ressalta que os direitos dos povos indígenas são garantidos pela Constituição Federal de 1988, especialmente pelos artigos 231 e 232, que reconhecem os direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas e estabelecem a responsabilidade da União pela proteção desses territórios.
Para a Coiab, a persistência da violência está associada a diversos fatores, entre eles conflitos fundiários históricos, expansão das economias ilegais, fortalecimento de facções criminosas, fragilidade das políticas públicas de proteção territorial e dificuldades operacionais enfrentadas pelos órgãos de fiscalização em uma região de dimensões continentais.
O documento também destaca que o enfraquecimento de órgãos ambientais, indigenistas e de fiscalização territorial nos últimos anos contribuiu para o avanço do garimpo ilegal, da grilagem de terras e da exploração ilegal de madeira, criando um ambiente ainda mais favorável às violações de direitos.
Coiab defende medidas estruturais para garantir proteção
Diante desse cenário, a Coiab defende a adoção de medidas estruturais para enfrentar a violência contra os povos indígenas. Entre as ações consideradas prioritárias estão a aceleração dos processos de demarcação de terras indígenas, o fortalecimento dos órgãos de fiscalização e proteção territorial e a implementação de políticas permanentes voltadas à proteção de lideranças indígenas ameaçadas.
A organização também considera fundamental ampliar o combate ao garimpo ilegal, ao narcotráfico, à grilagem e a outros crimes ambientais que impactam diretamente os territórios indígenas. Outro ponto destacado é a necessidade de fortalecer as investigações criminais e combater a impunidade nos casos de violência contra indígenas.
No âmbito internacional, a análise jurídica lembra que o Brasil possui compromissos assumidos em instrumentos como a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e o Sistema Interamericano de Direitos Humanos, que garantem direitos relacionados à vida, território, integridade física e proteção contra atos de violência e discriminação.
Para a Coiab, as soluções não podem se limitar a ações repressivas. A entidade defende políticas públicas permanentes voltadas à garantia dos direitos territoriais, proteção ambiental, fortalecimento institucional e promoção da autonomia dos povos indígenas da Amazônia.
O Atlas da Violência é um estudo produzido anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A publicação reúne dados sobre homicídios e outras formas de violência no Brasil, utilizando principalmente informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, além de outros bancos de dados oficiais.
Considerado uma das principais referências nacionais sobre segurança pública, o levantamento analisa os impactos da violência em diferentes grupos sociais, faixas etárias, gêneros e recortes raciais. A edição de 2026 foi divulgada em 26 de maio e marcou os dez anos de existência do estudo. Entre os destaques do relatório está a constatação de que os povos indígenas registraram taxa de homicídios 22% superior à média nacional em 2024, reforçando os alertas sobre a vulnerabilidade dessas populações.
Pesquisadora da Unifap apresentando o seu trabalho. Foto: José Carlos Tavares/Arquivo pessoal
Pesquisadores do Amapá lançaram o programa ‘Ciência na Cuia‘, que leva trabalhos das universidades públicas para espaços descontraídos, como bares. O objetivo é democratizar o acesso à ciência. A primeira edição ocorreu no dia 7 de junho, em um bar na Zona Sul de Macapá. Cinco pesquisadores apresentaram estudos de diferentes áreas.
A previsão é realizar mais duas edições em 2026, incluindo feiras e outros espaços públicos. Pesquisadores estrangeiros também devem participar dos debates.
José Carlos Tavares, coordenador do laboratório de fármacos da Universidade Federal do Amapá (Unifap), destaca que muitas pessoas desconhecem as pesquisas feitas nas universidades e o impacto delas no dia a dia.
“A ideia é deixar a ciência mais acessível, porque muitas vezes ficamos dentro do laboratório sem divulgar os tipos de pesquisa.No laboratório de fármacos, por exemplo, temos estudos interessantes que impactam diretamente a vida das pessoas. Estamos desenvolvendo projetos na área de diabetes e novos medicamentos para tratamento de feridas, e a população não sabe disso”, explicou.
Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá. Foto: Francisco Pinheiro/
Ele ressalta que o programa também mostra como o dinheiro público é usado nos laboratórios. Para o pesquisador, é essencial que a população conheça os estudos, já que eles têm impacto direto na sociedade.
“Isso é importante porque usamos dinheiro público, e a população precisa conhecer o que estamos estudando e o que está surgindo em termos de pesquisa”, afirmou Tavares.
O Ciência na Cuia foi inspirado em um projeto internacional que leva pesquisa para bares e espaços públicos. No Amapá, ganhou versão regional com a simbologia da cuia, objeto indígena usado para o consumo de bebidas.
A iniciativa também atende exigências do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de agências de fomento, que pedem divulgação científica em linguagem popular.
Na primeira edição, foram apresentados trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado. O público pôde tirar dúvidas e interagir com os pesquisadores.
Ciência no Laboratório de Fármacos
Um dos trabalhos desenvolvidos no laboratório foi um medicamento à base de jucá, planta conhecida cientificamente como Libidibia ferrea, para tratar o pé diabético. A pesquisa mostrou que o Jucá aumenta o fluxo de sangue na área ferida, o que ajuda a irrigar a região e acelerar o processo de cura.
As pesquisas começaram em 2024 e passaram por diferentes etapas da fase pré-clínica. A pomada feita com jucá já concluiu todos os testes necessários e agora será submetida à avaliação da Anvisa.
Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá. Foto: Francisco Pinheiro/g1
Em um dos casos acompanhados pela equipe, um paciente que usou spray à base de jucá apresentou melhora significativa. O quadro era considerado irreversível e havia indicação de amputação, mas o tratamento evitou a perda do membro.
A expectativa é que o produto seja aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e passe a ser oferecido no Sistema Único de Saúde (SUS) como alternativa mais barata e eficaz.
Além do jucá, o laboratório da Unifap também desenvolve produtos com óleos de alecrim e larício. A previsão é que esses medicamentos sejam testados ainda este ano em pacientes atendidos na Unidade Básica de Saúde (UBS) da universidade.
Barbeiros criam cortes de cabelo inspirados na Copa do Mundo em Porto Velho. Foto: João Alves/Rede Amazônica RO
Barbeiros de Porto Velho (RO) têm apostado em cortes de cabelo inspirados na Copa do Mundo para entrar no clima da competição e atrair clientes. Com as cores da Seleção Brasileira verde, amarelo e azul, eles transformam o visual dos torcedores em uma espécie de ‘arte na cabeça’.
A ideia ganhou força no Centro da capital, onde trechos das avenidas Sete de Setembro e Farquar receberam pinturas temáticas da Copa. Foi nesse cenário que os barbeiros Henrique Adriano e Felipe José decidiram levar os cortes para as ruas. Com tinta, descoloração e criatividade, eles montam verdadeiras intervenções nos cabelos de clientes que querem torcer pelo Brasil de forma diferente.
Barbeiro há 10 anos, Henrique conta que a ideia surgiu após o grupo conhecer a decoração instalada na região central da cidade.
“A gente já estava atrás de um modelo para fazer essa arte na cabeça dos clientes por causa da Copa. Quando vimos a decoração da Farquar, surgiu a ideia de vir para cá. A arte que está no chão combina com a arte que a gente faz no cabelo”, explicou.
Barbeiros criam cortes de cabelo inspirados na Copa do Mundo em Porto Velho. Foto: João Alves/Rede Amazônica RO
Cortes refletem animação da torcida
Segundo ele, nesta época do ano aumenta a procura por descolorações, e os desenhos temáticos viram uma forma de aproveitar o clima de Copa e a empolgação com a Seleção Brasileira.
Quem viveu as Copas do Mundo dos anos 1990 e 2000 provavelmente guarda na memória as ruas enfeitadas, bandeiras nas casas e a vizinhança inteira entrando no clima antes mesmo da bola rolar. Em Porto Velho, esse cenário começa a reaparecer e já inspira até mudanças no visual dos torcedores.
Foto: João Alves/Rede Amazônica RO
Entre os clientes que toparam a transformação está Rafael Teles de França, que decidiu mudar o visual para torcer pelo Brasil.
“Ainda mais para quem gosta de futebol, isso reúne pessoas de todas as idades. É um negócio que envolve todo mundo. O hexa eu quero que venha e acredito que venha”, afirmou.
Uma amostra das pinturas inéditas (aos olhos não indígenas), identificadas em expedição do Projeto Vozes. Foto e D-Stretch/ywe: Raoni Valle/Vozes da Amazônia Indígena
Longe de olhos não indígenas, na ‘Cabeça do cachorro‘, extremo noroeste do Amazonas, na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), pesquisadores identificaram um vestígio inédito da permanência milenar dos povos originários da Amazônia brasileira, uma prova da ancestralidade da ocupação da floresta. São as primeiras pinturas rupestres conhecidas pela arqueologia nessa região da bacia amazônica, habitada pelos povos Baniwa e Koripako.
A identificação do sítio arqueológico é um dos resultados do primeiro ano da pesquisa intercultural ‘Vozes da Amazônia Indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do antropoceno’. Coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o projeto conta com o envolvimento de, aproximadamente, 100 pessoas indígenas e não indígenas, de comunidades tradicionais e de mais de 20 instituições científicas.
Os arqueólogos do projeto destacam a importância do achado para documentar a biodiversidade amazônica e a sua relação com conhecimentos e práticas de povos indígenas do presente e do passado.
Os pesquisadores e integrantes das comunidades indígenas consultadas e envolvidas na pesquisa veem, nesses primeiros resultados do projeto, uma oportunidade de fortalecer a conexão entre o território, as histórias contadas por seus antepassados e as marcas deixadas nos lugares sagrados ancestrais. Por causa do seu valor científico e cultural, por decisão dos indígenas do Tiarn, o acesso ao sítio arqueológico está restrito aos participantes da pesquisa intercultural.
Um projeto e três territórios
O ‘Projeto Vozes’, iniciado em fevereiro de 2025, abrange pesquisas diversas em três territórios: a Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro, no Amazonas, onde está a arte rupestre recém-identificada; a TI Kaiapó, no Pará, que teve sua primeira expedição este ano; e a TI do Xingu, no Mato Grosso, onde o projeto está dando continuidade às décadas de pesquisas realizadas com o povo Kuikuro.
Além da arqueologia, os estudos avançam em várias frentes, desde inventários biológicos e descrição de novas espécies, passando pela documentação de práticas culturais, até o geoprocessamento e levantamentos com Light Detection and Ranging (Lidar), uma tecnologia a laser que coleta dados topográficos de alta precisão e resolução.
Nesse primeiro ano de pesquisa, somente na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), foram realizadas três viagens de campo, em fevereiro, em agosto e em outubro do ano passado. Entre mais de uma dezena de pesquisadores, estavam:
Helena Lima, coordenadora do projeto, arqueóloga do Museu Goeldi;
Raoni Maranhão Valle, arqueólogo, da Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa;
Thiago Chacón e Arthur Waliperi Baniwa, linguistas vinculados à Universidade de Brasília (UnB);
Filippo Stampanoni Bassi, arqueólogo e diretor do Museu da Amazônia (Musa);
e Sidney Garcia, pesquisador e professor Baniwa (AM).
No infográfico, em destaque, a localização da Terra Indígena Alto Rio Negro, na “Cabeça do cachorro”, um dos três territórios abrangidos pelo Projeto Vozes. Foto: Adrya Marinho/MPEG
Um dos objetivos dessas expedições foi o estabelecimento de um diálogo intercultural entre os pesquisadores das instituições e os indígenas que estão nos territórios. Nessas viagens, os dois grupos trocaram saberes, definiram as atividades de campo e planejaram outras ações do projeto.
Na região do rio Içana, afluente do rio Negro (AM) habitado majoritariamente pelos povos Baniwa e Koripako, por exemplo, foram visitados e caracterizados locais para escavações arqueológicas e para a coleta de amostragens geoarqueológicas e paleoecológicas.
Foi nessa oportunidade que os pesquisadores identificaram os primeiros sítios de pintura rupestre naquela região, que – devido ao formato do desenho do mapa geográfico – é conhecida como “Cabeça do cachorro”, onde fica o município de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela.
De acordo com dados do Instituto Socioambiental (ISA), o Brasil tem aproximadamente 833 terras indígenas em diferentes fases de procedimento demarcatório, sendo 540 homologadas e reservadas. Nas TIs abrangidas pelo projeto Vozes da Amazônia Indígena, segundo estimativa do ISA, vivem mais de 38,5 mil pessoas, sendo mais de 26 mil na TI Alto Rio Negro, 6,3 mil na TI Kayapó e 6,1 mil na TI Xingu.
“Na nossa reunião, a gente (decidiu que) não vai liberar ainda (o acesso às pinturas rupestres)… A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora”, afirmou Sidney Garcia.
Sidney Garcia é pesquisador do povo indígena Baniwa (AM). Com Licenciatura Intercultural Indígena, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ele foi um dos indicados para compor a equipe do Projeto Vozes da Amazônia Indígena. Sua indicação surgiu devido às pesquisas que desenvolveu sobre os lugares sagrados dentro do seu território.
Os pesquisadores Baniwa (Sidney, Apolinário e Giovani) descansam na encosta de serra, com o médio rio Içana ao fundo. Foto: Raoni Valle/Projeto Vozes
Nesta entrevista, Sidney Baniwa falou sobre a dificuldade para chegar aos locais de pesquisa, que são de difícil acesso e nos quais nem mesmo ele havia estado antes. Inclusive, o pesquisador relata que a arte rupestre identificada no Tiarn não era conhecida – no sentido de ser vista presencialmente – por seus contemporâneos. “Foi muito bom. Eu tenho certeza que daqui pra frente a gente vai ter mais, porque estamos no começo ainda”.
O pesquisador também destaca o valor desses espaços, não apenas como lugar de pesquisa, mas, principalmente, como espaços sagrados para o seu povo. Por causa disso, em uma decisão tomada pela comunidade, o acesso à localidade onde estão as pinturas rupestres foi restrito aos pesquisadores do Projeto Vozes.
“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos. Na nossa reunião, a gente (decidiu que) não vai liberar ainda… A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora”, afirmou, acrescentando que qualquer mudança em relação a essa decisão será discutida na e pela comunidade.
Para não desvirtuar a fala do professor Sidney Garcia, na tentativa de atender regras da língua portuguesa não seguidas pela cultura indígena, o trecho da entrevista foi mantido em áudio e pode ser acessado pelo canal do Museu Goeldi no Youtube:
“Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado”, disse Raoni Valle.
A presença de pinturas rupestres foi identificada em dois sítios ao longo do rio Içana, na TI Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. De acordo com o pesquisador Raoni Valle, existem centenas de locais com “gravuras” rupestres no Tiarn, talvez milhares em toda a bacia, e a maioria é conhecida dos povos nativos. Entretanto, “pinturas” rupestres são menos conhecidas no lado brasileiro do mapa do noroeste amazônico.
Assim, o achado pode elucidar processos antigos e diversificados das ocupações humanas na região. No entanto, o arqueólogo alerta para o cuidado de não se tratar o fato como “uma descoberta” (pensamento colonizador), pois, apesar da geração atual de pesquisadores indígenas ter pisado nesses sítios pela primeira vez nessa expedição, esses lugares são conhecidos de seus ancestrais e estão presentes nos registros orais de seus povos. Portanto, os cientistas postulam o ineditismo desse achado apenas do ponto de vista do conhecimento arqueológico ocidental.
“São lugares ancestralmente conhecidos, pelos quais os Baniwa e os Koripako têm grande respeito e com os quais estão entrelaçados. Alguns indígenas (especialistas em rituais, pajés) possuem chaves espirituais e corporais que permitem abrir essas casas de conhecimento para que pesquisem com os ancestrais, com os espíritos, com os animais, com as plantas, com as rochas, e com os heróis míticos que habitam esses lugares , esclareceu Raoni Valle.
“Dessa maneira, esses sítios somente podem ser considerados ‘descobertas’ arqueológicas inéditas do ponto de vista da limitação amostral da arqueologia ocidental na Amazônia. Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado”, pontuou Raoni Valle.
Ainda de acordo com o arqueólogo, o local investigado foi dividido em dois setores e, em cada um deles, foi achado um abrigo com pinturas rupestres.
“Na área também chamada de ‘Cabeça do cachorro’, não havia registros de pinturas rupestres até recentemente, quando identificamos um sistema de abrigos sob rocha numa formação serrana. No setor 1, um abrigo apresenta pinturas rupestres identificadas com 100% de certeza, onde figuras pintadas com tinta vermelha, provavelmente derivada de hematita (ocre ou óxido de ferro), com traços grossos (>1,0 cm), podem ser percebidas como possíveis biomorfos (formas de organismos vivos) e figuras geométricas, considerou.
“Nos outros abrigos, as condições de preservação e de exposição da superfície rochosa são precárias. Foram observadas manchas que precisam ser verificadas com maior detalhamento para asseverar se são marcas antrópicas (feitas por gente humana). No setor 2, o mesmo se repete. O levantamento é preliminar e outros sítios com essas características podem existir nessa área. Topamos com a ponta do iceberg, apenas”, considerou.
Temas e formas apontam para novo estilo
A arte rupestre identificada é descrita no relatório preliminar do projeto como “pinturas feitas nas cores vermelha e amarela, provavelmente de ocre; que encontram-se massivamente recobertas por uma camada orgânica esbranquiçada, provavelmente líquenes que se formaram sob as condições de umidade do ambiente atual; com ocorrência em toda a extensão dos paredões rochosos da base da serra”.
O pesquisador Raoni Valle explica que o termo “ocre” se refere à matéria-prima corante com a qual a tinta em questão foi feita, a partir de alguns minerais, como óxido de ferro ou hematita. Segundo ele, o ferro é um mineral bastante usado no mundo todo para a produção de pigmentos naturais em tons de vermelho, marrom e amarelo.
“Essas são as bases minerais mais comuns para as tintas e pigmentos das pinturas rupestres, mas há registros de outras tintas, cores e matérias-primas. Essas tintas poderiam e deveriam ter muito mais componentes em suas receitas, sobretudo de origem orgânica, vegetal e animal, mas essa fração da matéria é justamente a que é mais afetada pelos processos naturais de alteração e preservação, resultando que, nas análises químicas desses pigmentos, normalmente a fração mineral é detectada com mais proeminência ou quase com exclusividade”, explicou.
Em relação aos temas das pinturas, o pesquisador disse que essa análise ainda é prematura, mas que ainda não foram identificadas figuras reconhecíveis, sem ambiguidade, como figuras antropomórficas (semelhantes à forma humana), nem zoomórficas (formas de outros animais).
Apolinário Baniwa coloca a escala de cores perto das primeiras pinturas encontradas na prospecção. Foto: Raoni Valle/Projeto Vozes
Segundo ele, por isso, o achado está sendo tratado como constituído por “grafismos puros ou abstrato-geométricos, alguns potencialmente biomórficos ”. No geral, a amostra apresenta alguns casos de aplicação de pigmento sobre as superfícies rochosas para emular e seguir os contornos e feições naturais dos suportes geológicos.
Valle, no entanto, ressalta que esse fenômeno não é inteiramente novo na Amazônia, pois, em Monte Alegre (PA), também existem pinturas que seguem as formas naturais das rochas. Mas, segundo ele, a maneira como isso é feito, na interface tinta-rocha, e a forma das figuras, apresentam diferenças.
“Sugerem fortemente que o suporte (formações geológicas naturais), em si, já era significativo, sensorial e simbolicamente ativo para as pessoas que pintaram naqueles abrigos, e que o uso de tinta, eventualmente, funcionaria como processo de reativação cognitiva da sacralidade situada no espaço geológico paulatinamente familiarizado por humanos e espíritos”, disse Valle, acrescentando que a observação aponta potencialmente para um “estilo novo de pinturas rupestres amazônicas” que poderá ser confirmado com o andamento das pesquisas.
Possíveis datações das pinturas
Apesar de deixar claro que ainda não é possível estabelecer datações confiáveis das pinturas, trabalha-se inicialmente com uma hipótese de que elas podem ter sido feitas em um período geologicamente associado ao holoceno médio, aproximadamente entre 8.000 AP (antes do presente) e 4.000 AP. “Uma janela culturalmente longa, mas, em todo caso, é uma estimativa fundamentada na relação entre as pinturas e fatores e processos naturais que ocorreram e se acumularam depois que os grafismos já existiam”, explicou Valle.
Por exemplo, observou-se que há formação de líquenes (colônias simbióticas entre microrganismos, que se desenvolvem sob condições específicas de temperatura, umidade, luz solar, chuva, ausência de poluição atmosférica) apenas sobre as pinturas, e não sob elas.
“O raciocínio é: se as pinturas foram feitas em superfícies sem os líquenes, então, há uma grande probabilidade de que foram pintadas em uma época em que as condições climático-ambientais eram diferentes das atuais. Há estudos paleoambientais na Amazônia que identificam indicadores de uma menor umidade, menos água no ambiente no holoceno médio”. Um dos passos seguintes é tentar datar os líquenes encontrados para se ter um limite mínimo de idade plausível para a arte sob eles.
Os pesquisadores também ratificam que os objetivos atuais da investigação passam pela pesquisa etnográfica sobre a relação dos Baniwa com as pinturas rupestres, o que tem sido possível graças à presença de pesquisadores indígenas no projeto, e pela continuidade do processo prospectivo, da documentação digital dos sítios arqueológicos e das pinturas.
Atualmente, também estão sendo feitas análises e pós-processamento digital do material produzido em campo (fotografias, vídeos, pequenos mapas e plantas descritivas, decalques digitais e modelos 3D de feições no ambiente, painéis e figuras, estruturas, artefatos relacionados às pinturas), no Laboratório de Antropologia Visual e Arqueologia da Imagem, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Lavai/Ufopa), instituição a qual o pesquisador Raoni Valle é vinculado.
Segundo ele, as análises resultarão em imagens digitalmente modificadas ou fabricadas, mapas finalizados e em um relatório descritivo que integrarão o acervo de dados do Projeto Vozes. Os pesquisadores ressaltam que os dados sobre a arte rupestre serão devidamente tratados e apresentados em futura publicação científica interepistêmica liderada pelos pesquisadores Baniwa envolvidos na pesquisa.
Gravuras e pinturas: diferenças e ocorrências
É importante destacar que a gravura rupestre é diferente da pintura rupestre. A primeira (petróglifo) é uma marca feita a partir da remoção ou retirada de matéria rochosa de uma superfície, deixando sulcos, ranhuras, raspagens, incisões, percussões, buracos, cicatrizes em depressão no relevo da superfície rochosa. Já a segunda (pictograma ou pictografia) é a aplicação de matéria corante, de tinta, sobre rocha. Ambas as expressões são chamadas de arte rupestre.
De acordo com o pesquisador Valle, na Amazônia, assim como em outros lugares, existem tanto pinturas rupestres quanto gravuras rupestres . Mas, segundo ele, é mais comum achar gravuras nos afloramentos rochosos mais baixos, nas beiras dos rios e dos igarapés da Amazônia, lugares de alta visibilidade nas secas. Já as pinturas rupestres amazônicas são muito mais raras na beira dos rios e recorrentes em contextos ambientais mais elevados, dentro de abrigos sob rocha e de cavidades rochosas, onde tendem a estar mais preservadas, mais longe dos impactos das cheias, das chuvas e do sol.
“Além disso, as ações de produção, modificação e uso da arte nesses lugares podem ter deixado outros vestígios enterrados. Portanto, sítios em abrigos sob rocha são potencialmente mais ricos em informações sobre o contexto arqueológico da arte rupestre”, apontou o pesquisador, explicando a relação que existe entre o achado de arte rupestre e outros vestígios ou marcas da ocupação humana identificadas, bem como, possíveis relações com outros sítios sagrados pesquisados pelo Projeto Vozes no noroeste amazônico.
“O valor dos achados (como pedras e lugares sagrados) é o reconhecimento do manejo dos sítios arqueológicos, dos caminhos, das paisagens, pelos povos ancestrais. O mapeamento da biodiversidade e da riqueza tem, na visão da ciência indígena, um valor de reconhecimento do manejo ancestral, de fortalecimento da conexão cultural com o território. Então, é a prova da ancestralidade da ocupação da floresta. O valor para a ciência indígena é de proteção desses lugares, a partir da visão da arqueologia“, explicou Artur Walipere.
Guia e mediação nos lugares sagrados
Artur Garcia Gonçalves ou Artur Walipere também integra o Projeto Vozes da Amazônia Indígena, desde seu início. Pesquisador, doutor em linguística pela Universidade de Brasília (UnB), ele estuda línguas indígenas, especialmente, as faladas pelos povos Aruak, da TI Alto Rio Negro, no Amazonas.
Atualmente, coordena o “Inventário da Diversidade Linguística Medzeniakonai: Língua, Educação e Patrimônio Cultural”, do Iphan, e o projeto “Speak, Sing, Pray: diversity and special language use among the Medzeniakonai (Baniwa and Koripako), no Northwest Amazonia”. Com atuação em escolas indígenas e em pesquisas relacionadas ao conhecimento sobre a língua e a cultura dos povos Baniwa, ele participou da equipe que produziu o Dicionário Multimídia ‘Iakottinai Kaakonaperi Medzeniakonai – Lugares sagrados do povo Medzeniakonai”.
Artur Garcia Gonçalves, pesquisador indígena, linguista integrante da pesquisa intercultural. Foto: Laryssa Gaynett/Projeto Vozes
Nesta entrevista – produzida a partir de perguntas respondidas por escrito em documento compartilhado e complementadas por áudios – , Artur Walipere conta sua experiência no Vozes, ressaltando a importância da colaboração de pessoas indígenas do território, que apontam e guiam os pesquisadores não indígenas aos lugares sagrados e fazem a mediação com as comunidades, decidindo o que deve ou não ser acessado, pesquisado e publicizado em relação aos territórios nos quais habitam. Ele também fala das dificuldades da expedição, dos custos e do difícil acesso às terras dos povos Baniwa e Koripako, na fronteira do Brasil com a Colômbia.
ENTREVISTA
1 – Qual a avaliação que o senhor faz desse primeiro ano do Projeto Vozes da Amazônia Indígena? Quais foram os principais avanços? Há dificuldades a serem superadas?
Como integrante do projeto, acompanhei duas viagens. Os principais avanços foram: primeiro (em fevereiro de 2025), conseguimos apresentar o projeto para as comunidades Baniwa e Koripako, no território, explicando o objetivo principal, que, por sinal, as comunidades receberam bem; segundo, foi feita a primeira oficina juntamente com os pesquisadores numa escola Baniwa, onde teve escavação (de sítio).
Quanto às dificuldades, elas são desafiadoras na parte de logística para poder chegar até os territórios dos Baniwa e Koripako, principalmente, em relação à distância para chegar no território, que está no limite Brasil–Colômbia. É muito distante! Tem um alto custo para juntar os pesquisadores além de seus limites, e também os territórios ficam longe um do outro. Mas, mesmo assim, a gente conseguiu realizar esse campo.
2 – Como o senhor resume a sua atuação/colaboração no projeto, como pesquisador e como integrante dos Baniwa?
Como integrante desse projeto, a minha atuação é muito importante para acompanhar e orientar os pesquisadores e as comunidades Baniwa e Koripako, falando dos desafios, incentivando, ao mesmo tempo, a fazer pesquisa, porque, ao final, serão beneficiadas as comunidades Baniwa e Koripako, pois precisamos desse tipo de documentação na parte de arqueologia para fortalecer e valorizar a nossa língua e a nossa cultura.
Outra atuação minha, é muito importante salientar isso, – na parte de linguística, onde já venho atuando desde a minha formação, de acordo com a demanda do povo Baniwa e Koripako, especialmente dos professores, dos alunos e das lideranças –, é produzir materiais didáticos na língua própria Baniwa Koripako e Yêgatù. Atualmente, temos dois dicionários multimídias: o primeiro, o Dicionário Baniwa-Koripako, foi inicialmente concebido no âmbito do Programa de Documentação das Línguas Indígenas (Prodoclin), vinculado ao Museu Nacional dos Povos Indígenas do Rio de Janeiro, em parceria com a Funai e com a Unesco.
O projeto foi realizado por meio de oficinas com professores, alunos e lideranças no território dos Baniwa e Koripako. O outro é desenvolvido no Museu Paraense Emílio Goeldi, através do Programa de Capacitação Institucional (PCI). Os resultados apresentados derivam especificamente da pesquisa iniciada durante a vigência de uma bolsa de pós-doutorado, no PCI/MPEG, que é o Dicionário Multimídia ‘Iakottinai Kaakonaperi Medzeniakonai – Lugares sagrados do povo Medzeniakonai”.
O meu objetivo juntamemte com Projeto Vozes da Amazônia Indígena do Alto Rio Negro é implementar parceria para fazer coleta de dados, via campo de pesquisa, durante a realização das oficinas no território, pensando na temática, no mapeamento dos lugares sagrados, da etnobotânica e de outros possiveis mapeamentos, como das trilhas no território. Assim vamos ter o dicionário completo para a publicação e, consequentemente, fazer a devolução como material didático na língua para as comunidades Baniwa e Koripako.
3 – Especificamente na área de arqueologia, como o senhor tem acompanhado as prospecções e as escavações no Território Indígena Alto Rio Negro (Tiarn)?
Acompanhei duas escavações que foram feitas em sítios antigos. Foi identificado nessa área a existência, há muitos anos, de pessoas morando nesse lugar. Isso demonstra a importância da arqueologia que mostra esse processo de modificação da terra, ao longo dos anos.
4 – Como pesquisador, o senhor apontaria outros achados, além das pinturas rupestres, no seu território? Qual o valor deles para as ciências (ocidental e indígena)?
O valor dos achados (como pedras e lugares sagrados) é o reconhecimento do manejo dos sítios arqueológicos, dos caminhos, das paisagens, pelos povos ancestrais. O mapeamento da biodiversidade e da riqueza tem, na visão da ciência indígena, um valor de reconhecimento do manejo ancestral, de fortalecimento da conexão cultural com o território. Então, é a prova da ancestralidade da ocupação da floresta. O valor para a ciência indígena é de proteção desses lugares, a partir da visão da arqueologia.
5 – Na escrita dessa matéria, o que é importante para uma jornalista não indígena observar?
É importante observar que (os territórios) são a riqueza dos indígenas; que há lugares sagrados; que é importante ter cuidado na parte de proteção da natureza como espíritos vivos para os povos indígenas.
Helena Lima, pesquisadora do Museu Goeldi, mostra fragmento cerâmico encontrado em sítio arqueológico. Laryssa Gaynett/Projeto Vozes
“A gente tem muito a aprender e também a trocar e a ensinar. Acho que há técnicas, metodologias, equipamentos que a gente consegue colocar nas mãos dos bolsistas, dos pesquisadores indígenas e entender o que eles querem mapear. Não é a gente chegar com a proposta de mapear aquilo ali. É o contrário. Nós temos um time de pessoas absolutamente comprometidas com as demandas de cada um desses povos”, afirmou Helena Lima.
Helena Lima, arqueóloga, pesquisadora no Museu Goeldi, conta que assumiu o desafio de coordenar um projeto muito grande, o “Vozes da Amazônia Indígena”. Ela destacou o caráter intercultural e interdisciplinar da proposta, que dá continuidade a outros projetos e a outras interações que existiam nas regiões. Também ressaltou a aproximação entre a pesquisa acadêmica e a ciência indígena, a partir da participação de bolsistas e pesquisadores indígenas dos três territórios.
“O propósito do projeto é conhecer a biodiversidade em regiões que são ‘chave’ para a preservação e para o futuro da Amazônia. As terras indígenas são locais da Amazônia cuja biodiversidade está preservada e isso se deve à própria relação que esses povos têm com esses lugares”.
De acordo com Helena, a ideia do projeto é estabelecer o diálogo entre os métodos da ciência acadêmica e os da ciência tradicional. Ela observou que os modos indígenas são empíricos, aprofundados e integrados à biodiversidade. Além de unir metodologias, a pesquisa visa unir esforços de várias áreas e de vários cientistas que atuam nas ciências biológicas (zoologia, botânica e outras), nas ciências humanas (arqueologia, antropologia, linguística) e nas ciências integradoras que são as ciências indígenas, o conhecimento tradicional indígena. São cerca de 70 pesquisadores, técnicos e estudantes, além de 32 bolsistas que estão ou estiveram no projeto, totalizando cerca de 100 pessoas.
“No alto rio Negro, estamos desenvolvendo pesquisas que passam pelas histórias, pelos lugares e suas importâncias, passam pela história que a arqueologia conta, mas também pela história ambiental bem mais antiga que vem da paleoecologia. Temos um time de pesquisadores do Museu Goeldi, do Musa e da Universidade de Londres trabalhando em muitas frentes. Por exemplo, a professora Lúcia Russak trabalha com sistema agrícola do Rio Negro; Thiago Chacon, da Universidade de Brasília, trabalha com as línguas indígenas, numa parceria tão bonita com Arthur Baniwa”, disse.
“Já na TI Alto Xingu, no Mato Grosso, temos uma parceria muito longeva de quatro décadas com os povos Kuikuro, uma continuação de uma pesquisa linguística, antropológica e arqueológica longa e que, agora, tem um objetivo renovado, que é trazer e conhecer a biodiversidade dentro do contexto cultural Kuikuro. Já aqui no Pará, com as comunidades da TI Kayapó, o projeto trabalha a biodiversidade das plantas com a antropóloga Cláudia Lopes, com a etnobotânica Márlia Coelho, entre outros. Então, a gente conseguiu com Vozes da Amazônia Indígena reunir um grupo de pesquisadores comprometidos com histórias longas nesses territórios”, disse.
Helena Lima destacou também que os três territórios são de elevadíssima biodiversidade e com histórias culturais muito diferentes, muito diversas e muito complexas.
“Nós acreditamos que, ao integrar um conhecimento contextualizado da região do alto Xingu (com o povo Kuikuro), com a Terra Indígena Kayapó (no médio Xingu) e com os povos do alto rio Negro, podemos, juntos com pessoas da academia, construir novas formas de criar conhecimento e, possivelmente, novas pontes e novos caminhos para pensar preservação, medidas de mitigação para o contexto que nós vivemos hoje, de vários desafios, de mudanças climáticas conectadas às questões políticas e à nossa legislação ambiental”, destacou.
A coordenadora do projeto acredita que essa união entre academia e ciência indígena vai trazer outros benefícios, tanto para a preservação nos territórios, quanto nas cidades amazônicas, como Manaus, Belém, Santarém, que podem aprender com o conhecimento ancestral e milenar. “O projeto Vozes da Amazônia Indígena busca justamente colocar essas vozes, amplificar essas vozes que são locais, são contextuais, mas que têm importância e têm significado para o planeta, no contexto de mudanças climáticas”, diz.
Um mosaico de florestas culturais
Os pesquisadores do “Vozes” enxergam o conhecimento das comunidades indígenas sobre a biodiversidade como uma potencialidade para o estudo interdisciplinar, à medida que entendem que esses lugares são o resultado de milênios de interação entre povos e ambiente. “A floresta que se forma nessas regiões é um mosaico de florestas culturais, uma floresta que nasce biodiversa, justamente dessas interações de povos, de comunidades com o ambiente, ao longo de gerações, de séculos e de milênios de ocupação indígena”, ratificou Helena Lima.
Pesquisadora e bolsista indígena do Vozes preparam área para escavação de sítio durante expedição no ano passado. Laryssa Gaynett/Projeto Vozes
Nessa perspectiva, o projeto, segundo a pesquisadora, tem cinco objetivos principais: inventariar e mapear a biodiversidade, conhecer essa biodiversidade em relação aos conhecimentos indígenas, pensar nisso na longa duração, unir esses conhecimentos para pensar em estratégias de conservação e de socialização e divulgar o acesso a esses conhecimentos.
Demandas das comunidades indígenas
“O propósito do projeto é construir em conjunto, é coconstruir esse conhecimento, de maneira que o projeto seja relevante para as comunidades, que atenda também a demandas (muitas vezes, bem específicas) que as comunidades trazem. Uma questão observada em quase todas as comunidades com as quais temos trabalhado é a demanda por materiais de divulgação que sejam produzidos nas línguas indígenas, que possam ser usados na educação escolar indígena, que possam transmitir conhecimentos que os mais velhos carregam e levar isso para as futuras gerações”, pontua Helena Lima.
Segundo ela, essa é uma preocupação comum aos envolvidos no projeto. Uma das formas de materializar essa contribuição é o investimento em dicionários temáticos, como o produzido no alto Xingu, sobre cultura material, o primeiro volume do dicionário Kuikuro-Português: Inhanhingü (obra, artefato, artesanato), viabilizado por meio de uma parceria entre o Museu Goeldi e o Museu Nacional/UFRJ. “Estamos agora trabalhando no dicionário de conhecimento das plantas e outros possíveis materiais, em mapas interativos indicando os lugares e os significados, as histórias, as narrativas e as formas de respeito que cada um desses lugares demanda. Então, há uma diversidade de produtos que vêm se desenvolvendo para atender as demandas das comunidades”, frisou.
A pesquisadora destacou que, além dessas realizações em curto e médio prazo, a pesquisa colaborativa também foca nos resultados em longo prazo:
“São resultados que vêm transformar a ciência, transformar nossa universidade, transformar nossa forma de construir conhecimento. Se as ciências ocidentais se desenvolveram dentro de uma altíssima especialização, com caixinhas cada vez mais profundas e menores, há um movimento de retorno e de reintegração dos conhecimentos. E eu vejo, na forma de construir conhecimento com povos indígenas, tanto essa profundidade de conhecimento como também a amplitude”, afirmou.
“A gente tem muito a aprender e também a trocar e a ensinar, há técnicas, metodologias, equipamentos que a gente consegue colocar nas mãos dos bolsistas, dos pesquisadores indígenas. Precisamos entender o que eles querem mapear. Não é a gente chegar com a proposta de mapear aquilo ali. É o contrário. Nós temos um time de pessoas absolutamente comprometidas com as demandas de cada um desses povos”, afirmou.
O projeto: mais de um ano de colaboração
O projeto “Vozes da Amazônia indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropoceno” é apoiado pela iniciativa Amazônia +10, por meio do edital “Expedições Científicas” – que é uma parceria entre os conselhos nacionais de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) –, no qual o projeto foi aprovado em primeiro lugar.
Parte da equipe do Projeto Vozes da Amazônia Indígena em uma das atividades de campo na Terra Indígena Alto Rio Negro, realizada nesse primeiro ano de execução. Laryssa Gaynett/Projeto Vozes
A pesquisa recebe apoio financeiro da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), em parceria com o Museu da Amazônia (Musa); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj); e do UK Research and Innovation (UKRI), órgão público do Reino Unido que financia pesquisas.
Com vigência de 36 meses e atividades iniciadas em 26 de fevereiro de 2025, o projeto completou, há três meses, um ano de execução. Os coordenadores estimam que milhares de pessoas, de alguma forma, serão afetadas pelas ações desenvolvidas no âmbito do projeto, seja nas universidades e instituições de pesquisa, como também nos três territórios. O projeto prevê oficinas nas comunidades e uma exposição ao final que deve alcançar um público abrangente.
Parcerias institucionais
A pesquisa incorpora estudos arqueológicos e históricos por meio de arqueobotânica, zooarqueologia, geoarqueologia, paleoecologia e análise de coleções históricas, visando compreender a longa duração das interações humanas com o ambiente. O projeto nasce, desde sua concepção, de parcerias interinstitucionais. Algumas das instituições que se envolveram diretamente nas atividades de 2025, desenvolvidas nas terras indígenas Alto Rio Negro e Xingu foram:
1 – Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)
2 – Museu da Amazônia (Musa)
3 – Associação Indígena Kuikuro do alto Xingu (AIKAX)
4 – Associação Indígena Baniwa e Koripako (Nadzoeri)
5 – Federação dos Povos Indígenas do alto Rio Negro (FOIRN)
6 – Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ)
7 – Universidade de São Paulo (USP)
8 – Universidade Federal do Pará (UFPA)
9 – Universidade Federal de Brasília (UNB)
10 – Royal Botanic Gardens Kew
11 – Birkbeck, University
12 – University College of London
13 – Nottingham University
14 – Jardim Botânico Rio de Janeiro
15 – Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa)
Articulação com outros projetos
1 – GEF – Entre Ciências: territórios de saber em diálogo, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o Ministério dos Povo Indígenas (MPI) e Ministério do Meio Ambiente (MMA), e desenvolvido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).
2 – Conexões Amazônicas, aprovado no Edital Pro-Amazônia do CNPq e coordenado pela pesquisadora Ana Vilacy Galucio, do MPEG. Prevê a documentação e revitalização de línguas e culturas indígenas.
3 – Diagnóstico e Documentação Sociolinguística das línguas Baniwa e Koripako, desenvolvido pela Universidade Federal de Brasília (UNB) com apoio financeiro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo MPEG, escrito por Andréa Batista
Cerimônia de homenagem ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista Dom Phillips foi realizada no dia 11 de junho, em Brasília. Foto: Divulgação
Durante a cerimônia de homenagem ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista Dom Phillips, realizada no dia 11 de junho, em Brasília, o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR), Sidônio Palmeira, apresentou um pedido de desculpas, em nome do Estado brasileiro, às famílias dos dois defensores da Amazônia pelos discursos difamatórios e de ódio proferidos contra eles no contexto de seu desaparecimento e assassinato, em 2022.
A retratação foi um compromisso assumido pelo Estado brasileiro junto à Comissao interamericana de direitos humanos no ambito da OEA. Em sua fala, o ministro também ressaltou o legado de Bruno e Dom na defesa dos povos indígenas, do meio ambiente e da democracia, e reafirmou o compromisso do Governo do Brasil com os direitos humanos, a liberdade de imprensa e o enfrentamento ao crime organizado na Amazônia. Discurso ocorreu no evento de premiação do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação.
Cerimônia de homenagem Dom e bruno. Foto: Divulgação
Confira o discurso do ministro por ataques contra Bruno e Dom na íntegra:
Hoje é um dia MUITO especial.
Estamos homenageando duas pessoas pelo trabalho que fizeram, mas também pelo que representam. Bruno e Dom são exemplos de trabalho pelo povo brasileiro, de enfrentamento aos privilégios, às desigualdades e ao crime organizado, suas ramificações nas instituições e ligação com os poderosos.
Ninguém que esteja nessa agenda terá uma vida tranquila. E há gente disposta a colocar a vida em risco para impedir a exploração ilegal do país. Nosso papel é honrar essas pessoas e trabalhar pela sustentabilidade, dignidade, justiça e prosperidade compartilhada do povo do Brasil, em sua diversidade.
A comunicação pode ajudar a alcançar esses objetivos. E sabemos da dificuldade de trabalhar em desagrado aos que querem a exploração parasita do Brasil e suas riquezas.
Por isso, a SECOM tem trabalhado para a construção de um concurso que valoriza o jornalismo e a liberdade de expressão. A sustentabilidade do jornalismo deve ser objeto de política pública para prover o direito à informação do povo brasileiro, para oferecer diferentes visões sobre os fatos e, principalmente, para que cidadãos não sejam enganados por quem atua apenas em causa própria.
Temos muitos FATOS e DADOS para demonstrar o trabalho de reconstrução do governo do Brasil. Encontramos terra arrasada, trabalhamos e mostramos resultado. Reduzimos em 99% as novas áreas de garimpo na Terra Indígena Yanomami.
Quando chegamos, em 2023, escutamos da sociedade civil, de órgãos públicos brasileiros e do Sistema Interamericano de Direitos Humanos que havia violações a serem combatidas e reparadas. Isso pautou nossas ações.
Dom Phillips e a Bruno Pereira realizavam um trabalho fundamental no Vale do Javari. O governo do Brasil trabalha para honrar esse esforço – ao combater o crime organizado na Amazônia e ao proteger defensores de direitos humanos, comunicadores e ambientalistas.
Por isso, temos a tranquilidade e legitimidade de pedir desculpas pelos discursos difamatórios e de ódio que foram proferidos contra ambos no contexto do seu desaparecimento e morte em 2022.
Dom Phillips foi assassinado enquanto atuava como jornalista para chamar a atenção para os sérios desafios da região – que não estavam sendo suficientemente enfrentados àquela época. No mesmo sentido, Bruno Pereira teve de se licenciar da FUNAI para seguir no apoio aos povos daquela região.
Pudemos contar com o povo. Os povos indígenas da região tiveram papel fundamental na busca e localização dos corpos; o jornalismo local e a comunicação popular e comunitária apuraram e difundiram informações verdadeiras sobre o caso.
A cerimônia de hoje é fruto do compromisso do Estado brasileiro com os direitos humanos e para honrar o trabalho de Bruno e Dom em defesa do meio ambiente, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.
Ainda não chegamos aonde queremos, mas estamos ao lado do povo brasileiro nessa direção.
CATEGORIA 1 – reportagem em texto sobre proteção ao meio ambiente, povos indígenas ou comunidades tradicionais
Iniciativa
Resultado
EXPEDIÇÃO AO MAMORIÁ GRANDE: Indigenistas decifram sinais na floresta para proteger grupos isolados da Amazônia
FINALISTA
Missão Yanomami
FINALISTA
Por que os Maxakali estão convocando os espíritos para recuperar a Mata Atlântica
FINALISTA
Riscos de explosões e contaminações petroleira quer estocar gás embaixo do solo de Alagoas
FINALISTA
SOLUÇÃO FINAL
FINALISTA
CATEGORIA 2 – iniciativas de fotojornalismo, ilustração, charge, cartum, quadrinhos ou grafite sobre proteção ao meio ambiente, povos indígenas ou comunidades tradicionais publicados em veículos impressos ou eletrônicos
Iniciativa
Resultado
‘Vocês, Cutias, são as nossas jardineiras’, diz Castanheira-do-pará
FINALISTA
“A Floresta Sabe”: governança territorial Ashaninka e regeneração da Amazônia”
FINALISTA
Cicatrizes da Pior Seca na Amazônia
FINALISTA
Corpo Território
FINALISTA
Memória visual do Vale do Juruá: a Amazônia acreana em tempos extremos climáticos
FINALISTA
CATEGORIA 3 – reportagem audiovisual sobre proteção ao meio ambiente, povos indígenas ou comunidades tradicionais
Iniciativa
Resultado
As Dançadeiras de São Gonçalo
FINALISTA
Dois Mundos
FINALISTA
Força das Raízes
FINALISTA
Kinja – Gente de Verdade
FINALISTA
Suraras da Amazônia
FINALISTA
CATEGORIA 4 – iniciativa de comunicação de autoria de integrante(s) de comunidade indígena
Iniciativa
Resultado
Etnias — A primeira rede social criada por povos originários.
FINALISTA
Maira Porongyta – o aviso do céu
FINALISTA
O Tempo Dança Onde a Terra Canta
FINALISTA
Os ‘índios’ que não tinham nome
FINALISTA
Os Nawa e o Desequilíbrio da Terra
FINALISTA
CATEGORIA 5 – iniciativa de comunicação de autoria de integrante(s) de comunidade tradicional
Iniciativa
Resultado
Kalunga do Rosário l Capitão Washington Luís (Kamugenan)
FINALISTA
Maraká Urbano
FINALISTA
Paiter Suruí, Gente de Verdade. Um projeto do Coletivo Lakapoy
FINALISTA
Podcast Viver Mumbucar
FINALISTA
RÁDIO E TV QUILOMBO
FINALISTA
CATEGORIA 6 – iniciativa de educação midiática envolvendo a proteção do meio ambiente, povos indígenas ou comunidades tradicionais
Iniciativa
Resultado
Do orum ao ayê – Publicação educativa para combate à desinformação sobre religiões de matriz africana – Volume 1 (Abril de 2026)
FINALISTA
Especiais do Armazém Memória
FINALISTA
IndiGenAI: Povos Indígenas e o Bem Viver Digital
FINALISTA
Podcast Crianças Sabidas – Série Trilhinhas Amazônicas
FINALISTA
Reaproprio-me de mim e Futuro Subjuntivo – Formação para educadores
FINALISTA
*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
O novo Terminal Hidroviário de Belém (THB), localizado no Armazém 10, foi entregue no dia 11 de junho. Construído pela Companhia de Portos e Hidrovias do Estado do Pará (CPH), o equipamento amplia a infraestrutura de transporte hidroviário da capital e fortalece a integração regional, passando a compor a rede de terminais que atende milhares de passageiros.
O novo terminal reforça o complexo hidroviário de Belém, que inclui os terminais da Tamandaré, Icoaraci, Belém e o Porto da Balsa de Icoaraci, ampliando a capacidade de atendimento e a conectividade entre a capital, as ilhas de Belém, o arquipélago do Marajó e Macapá (AP).
Com 4.800 metros quadrados distribuídos em dois pavimentos, o Terminal Hidroviário de Belém foi projetado para oferecer mais conforto, segurança e eficiência nas operações de embarque e desembarque. A obra recebeu investimento superior a R$ 53 milhões, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Foto: Rodrigo Pinheiro/Agência Pará
Para o presidente da CPH, Anderson Rocha, o novo equipamento representa um avanço para a logística portuária da capital.
“Este novo terminal é mais do que uma obra. É um espaço que garante mais conforto, segurança e dignidade para quem depende dos rios para viver, trabalhar e se conectar com o Pará”, afirmou.
Desenvolvimento econômico e serviços à população
Além de fortalecer a rede hidroviária estadual e facilitar a locomoção dos passageiros, o terminal contribuirá para o desenvolvimento da economia local, com espaços destinados a restaurantes, lanchonetes, farmácia, quiosques e comercialização de produtos paraenses.
Foto: Rodrigo Pinheiro/Agência Pará
A estrutura também conta com guichê para venda de passagens, áreas de embarque e desembarque, salas de espera, lojas, espaço de coworking, espaço multiuso, instalações da Secretaria de Estado de Justiça (Seju) e recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.