Debate sobre protagonismo indígena nas telas e novas lideranças reúne especialistas em Manaus

Debate sobre o protagonismo indígena destacou lideranças, juventude e o uso das telas como ferramenta de visibilidade e resistência cultural na Amazônia.

Foto: Jackeline Lima/Amazon Sat

A valorização das vozes indígenas e o fortalecimento de novas lideranças foram o centro da roda de conversa ‘O protagonismo indígena nas telas e em novas lideranças’, debate realizado na sede da Rede Amazônica em Manaus (AM). O encontro aconteceu no dia 24 de abril, em alusão ao mês dos povos indígenas, e reuniu a ativista e liderança indígena Eliza Sateré Mawé, o professor da Ufam Raimundo Nonato Pereira da Silva, e outras representantes indígenas. O evento contou com a mediação da jornalista Ruthiene Bindá.

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O debate destacou como a presença indígena nos meios de comunicação, especialmente nas redes sociais, tem ampliado a visibilidade de histórias, culturas e lutas que, por muito tempo, foram invisibilizadas. Para Eliza Sateré Mawé, as telas se tornaram uma ferramenta essencial de conexão entre povos e territórios.

Por meio das telas eu posso conhecer e me identificar com a luta de outras mulheres, lutas parecidas com a nossa, que fortalecem com o protagonismo“, declarou.

Ela ressaltou ainda que acompanhar outras mulheres indígenas, mesmo à distância, cria uma rede de apoio e fortalecimento coletivo, permitindo que diferentes realidades se encontrem, promovendo identificação e pertencimento.

Eliza também citou exemplos concretos dessa conexão, como o acompanhamento do trabalho de artistas indígenas nas redes sociais, reforçando que a visibilidade digital contribui para valorizar a cultura e ampliar o alcance dessas produções.

Identidade e protagonismo indígena

Um dos pontos mais marcantes do encontro foi protagonizado por Elizete Tikuna, que cantou o Hino Nacional Brasileiro na língua Tikuna.

Outro ponto de destaque na discussão, foi o papel das mulheres indígenas como protagonistas dentro e fora das comunidades. Segundo os participantes, embora exista uma visão histórica que associa a figura do ‘guerreiro’ ao homem, na prática, são as mulheres que sustentam a organização social, cultural e familiar.

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Rede Amazônica promove debate sobre protagonismo indígena nas telas e novas lideranças
Rede Amazônica promove debate sobre protagonismo indígena nas telas e novas lideranças. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

O encontro também debateu o protagonismo da juventude indígena nas redes sociais, um espaço que, ao mesmo tempo em que oferece visibilidade, também expõe esses jovens a críticas e distorções.

Eliza destacou que ainda existe um olhar preconceituoso sobre jovens indígenas que utilizam essas plataformas. “Quando a juventude começa a ganhar esse protagonismo, já vem aquele olhar de que é um desocupado. Não enxergam que é uma forma de mostrar sua luta e como ele vê o mundo”, destacou.

Para o professor Raimundo Nonato, essa questão está diretamente ligada a uma luta histórica por autonomia e reconhecimento:

“A luta é pra dizer quem eu sou e não quem você quer que eu seja”, afirmou Nonato.

Foto: Rebeca Almeida

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De acordo com ele, os povos indígenas vêm batendo de frente com ideias antigas e cheias de estereótipos, que tentam dizer o que é ou não ser indígena a partir do olhar de quem está de fora, e não de quem vive essa realidade no dia a dia.

A presença indígena na universidade também foi destacada como um espaço de resistência e reconstrução de narrativas. Elizete Tikuna evidencia que a educação, ao ocupar espaços historicamente negados, os indígenas passam a produzir conhecimento, disputar narrativas e reivindicar protagonismo.

Ela também destaca sobre o processo de apropriação, que reforça a importância da auto-representação. “Muitas vezes outras pessoas vão falar sobre o que o indígena vive, vão pegar a história dele, se apropriar e colocar como sendo delas, na visão delas”, comentou.

Tecnologia como aliada

A visão dos participantes é que a tecnologia surge como uma ferramenta fundamental para garantir visibilidade e autonomia na construção de narrativas.

“O celular é uma ferramenta onde nós podemos nos expressar, mostrar a nossa cultura e contar a nossa prória história”, destacou Eliza.

Ruthiene Bindá destacou que o preconceito contra os povos indígenas é histórico e está enraizado na forma como a sociedade foi educada: “Esse preconceito é tão forte ainda, que vem desde o que a gente aprendeu lá atrás. O próprio indígena hoje ainda tem medo de dizer que ele é indígena”.

“Hoje a gente percebe o protagonismo e uma valorização de dizer ‘eu sou indígena’. Nós mesmos, enquanto amazônidas, estamos aprendendo a valorizar o que é nosso”, afirmou.

Representatividade

A presença indígena em programas de televisão e nas redes sociais também foi apontada como um fator importante de identificação e orgulho. A representatividade contribui para quebrar estereótipos e reforçar a diversidade cultural da Amazônia.

Elizete Tikuna. Foto: Rebeca Almeida/Portal Amazônia

Ao falar sobre a importância da visibilidade, Eliza fez um apelo direto à sociedade:

“Nós não somos um bicho de sete cabeças, nós somos que nem vocês, mas do nosso jeito. A gente não se fantasia, a gente não se caracteriza, a gente é natural. Dizer quem é, mostrar e dizer, viver o que sou e saber quem sou”, afirmou Eliza.

*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

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