Home Blog Page 77

Cartografia cidadã: como mapas se tornaram ferramentas para reivindicação de direitos

0

Atlas do Chão: projeto de mapeamento digital identifica lugares no mundo relacionados com processos de colonização e urbanização. Imagem: Projeto Atlas do Chão/Ana Luiza Nobre e David Sperling (coords), 2020 – em andamento

Após mais de 15 anos de espera por um processo paralisado de demarcação de terras, em 2024 o povo indígena Borari, de Alter do Chão (PA), decidiu fazer por conta própria os mapas de seu território. O documento, elaborado com apoio técnico da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), incluiu rios, trilhas e áreas sagradas que não apareciam na cartografia estatal.

Já na comunidade de Poço da Draga, em Fortaleza (CE), os moradores utilizaram, em 2016, celulares e mapas digitais para registrar suas condições de saneamento e moradia. Os dados levantados contrariavam informações oficiais de censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Parte de um movimento global conhecido como virada espacial ou cartográfica, experiências como essas são analisadas pelo arquiteto e urbanista David Sperling, professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo e vice-coordenador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, no livro Cartografias críticas: Ensaios tecnopolíticos e geopoéticos (Rio Books).

Lançada em outubro, a obra é resultado de sua tese de livre-docência, defendida em 2023. No trabalho, o pesquisador mostra como nas últimas quatro décadas os mapas, que historicamente funcionaram como instrumentos de controle territorial por governos e organizações militares (ver Pesquisa FAPESP nº 318), foram ressignificados por comunidades, artistas e ativistas.

Tradicionalmente, os tipos de mapas mais comuns têm a pretensão de funcionar como espelhos da realidade: envolvem delimitações de fronteiras e divisões administrativas do território, relevo e elementos naturais na paisagem e também trazem informações sobre o clima, a população ou a economia de determinados lugares.

“Já os mapas contemporâneos, enquadrados no que chamamos de campo ampliado das cartografias, diferem dos tradicionais ao questionar sua natureza e função”, explica Sperling.

De acordo com o pesquisador, esses novos usos são marcados por duas dimensões. A primeira envolve a produção de mapas como ferramentas de disputa por territórios com o Estado e grandes corporações, misturando elementos físicos com aspectos culturais das pessoas que os habitam. Essa vertente compreende os mapas como construções sociais, priorizando a identificação de redes de relações socioespaciais, mais do que coordenadas geográficas e fronteiras políticas. Já a segunda dimensão abarca o uso simbólico e artístico de cartografias, entendendo esses documentos como plataformas para imaginar e criar novos mundos.

Para Sperling, essas transformações tiveram início nos anos 1980, quando um conjunto de geógrafos, filósofos, arquitetos, urbanistas e pesquisadores dos estudos sociais passou a questionar a ideia de que a cartografia era uma ciência objetiva.

Um dos marcos dessas reflexões foi o texto Deconstructing the map, escrito pelo geógrafo britânico Brian Harley (1932-1991), em 1989. Nesse trabalho, Harley se apoia em proposições de filósofos como Michel Foucault (1926-1984) e Jacques Derrida (1930-2004), que sustentam que mapas são dispositivos de poder e devem ser analisados tanto pelos elementos que incorporam como por aquilo que deixam de lado.

“Naquela década, ganhou força uma leitura que passou a enxergar a cartografia como uma construção ideológica atravessada por decisões políticas e estéticas. Assim, ela não apenas representa, como também produz realidades”, observa Sperling.

Outro marco dessa virada, de acordo com o geógrafo Renato Emerson Nascimento dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi a promulgação da Constituição de 1988, que passou a reconhecer as culturas, línguas, os costumes e as tradições de povos indígenas do país. Além disso, a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 1990, estabeleceu direitos de autodeterminação para comunidades tradicionais de todo o mundo. No Brasil, as duas medidas abriram caminho para que esses grupos começassem a incorporar novas formas cartográficas para representar as suas territorialidades.

Na esteira desse processo, o economista Henri Acselrad, da UFRJ, recorda que a partir dos anos 1990 um movimento significativo de demarcação e titulação de terras envolvendo comunidades e povos tradicionais emergiu em diversos países da América Latina. “Esse fenômeno esteve frequentemente associado à disseminação de práticas conhecidas como mapeamentos participativos ou cartografias sociais. Essas iniciativas implicaram uma ruptura simbólica e política com o monopólio estatal sobre a produção cartográfica”, diz Acselrad, coordenador do coletivo de pesquisa Desigualdade Ambiental, Econômica e Política daquela universidade.

Segundo o pesquisador, em vez de retratar o território com pretensões objetivas, como se os mapas fossem espelhos fiéis da realidade, essas novas formas de fazer cartografia propõem que os documentos devam incorporar os elementos que a própria comunidade considera relevantes. Entre eles, por exemplo, estão espaços considerados sagrados para comunidades indígenas e regiões de rios e lagos onde as pessoas pescam.

“Em um sentido filosófico, esse tipo de cartografia transcende a simples representação do espaço geográfico, transformando-se em um método de pesquisa que mapeia processos e conexões, especialmente visando à produção da subjetividade”, comenta a geógrafa Gisele Girardi, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Leia também: Entenda as etapas de demarcação de terras indígenas

Além desses movimentos, Santos, da UFRJ, aponta avanços tecnológicos registrados a partir da década de 1980 como outros fatores que motivaram a ampliação no uso e desenvolvimento de mapas.

“O cenário se transformou ainda mais entre os anos 1990 e 2000, com a disseminação de determinadas tecnologias. Sistemas de Informação Geográfica [SIG], dispositivos de posicionamento global [GPS], softwares de sensoriamento remoto e o livre acesso a bases de dados e imagens via internet ampliaram as possibilidades de atuação das comunidades”, reforça.

Com isso, segundo ele, a cartografia, que até então era restrita a instituições estatais e militares, passou a integrar práticas locais de planejamento e reivindicação territorial.

O projeto Quebradas Maps é voltado à cartografia de regiões periféricas de São Paulo Foto: Divulgação/ Quebrada Mapas

Nesse sentido, Santos menciona o projeto Grande Carajás, lançado pelo governo federal em 1982, que previa a construção de infraestrutura para exploração mineral na floresta amazônica, do Pará ao Maranhão. O mapa estatal elaborado para colocar a iniciativa em prática ignorava a existência de populações que viviam na região, como ribeirinhos, quilombolas e indígenas. Para questionar essas ausências, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), criou em 2003, em parceria com outras instituições do país, o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia.

A iniciativa, considerada pioneira no país, busca apoiar povos e comunidades tradicionais na criação de seus próprios mapas, utilizando ferramentas tecnológicas. Ao reunir registros construídos a partir da perspectiva desses grupos, o projeto pretende oferecer um retrato da ocupação territorial na região e funcionar como instrumento de fortalecimento de lutas sociais.

“Quando os povos originários e tradicionais da Amazônia foram apagados do mapa estatal no projeto Grande Carajás, eles decidiram produzir um documento alternativo como estratégia para dar visibilidade à sua existência e defender o seu território”, explica Girardi.

Inspiradas por essa experiência, outras comunidades têm criado suas próprias cartografias para contestar lacunas identificadas em mapas oficiais. O geógrafo Dorival Bonfá Neto, que hoje atua como técnico em assuntos educacionais na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), participa de algumas dessas iniciativas, acompanhando processos de autodemarcação territorial conduzidos por comunidades indígenas na região de Santarém (PA).

Um desses projetos envolveu o povo Borari, em Alter do Chão, que aguardava a demarcação de seu território pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desde 2009. Os mapas oficiais utilizados no processo não abarcavam lugares centrais à vida da comunidade, incluindo áreas consideradas sagradas e outras no rio Tapajós utilizadas para pesca.

Entre o começo de 2024 e fevereiro de 2025, os indígenas Borari decidiram elaborar uma cartografia alternativa, por meio de apoio técnico do Núcleo de Pesquisas sobre Espaço, Política e Emancipação Social (Nepes), vinculado ao curso de geografia da Ufopa, onde Neto atuava como docente naquele ano. O projeto, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), envolveu a realização de sobrevoos com drones, mapeamentos por imagem, registros de uso e ocupação do solo, além da coleta de dados geográficos orientados por memórias e narrativas de famílias locais.

A partir dessas informações, foi elaborado um novo mapa, propondo a autodemarcação da Terra Indígena Borari de Alter do Chão (ver abaixo). O documento passou a fazer parte do processo oficial de demarcação da Funai e poderá subsidiar ações jurídicas, como demandas ao Ministério Público Federal (MPF).

Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP sobre imagem de FERNANDES, R. Z. (coord.). Relatório de autodemarcação da Terra Indígena Borari de Alter do Chão. 2025

“A produção dessas cartografias dá visibilidade a territórios historicamente marginalizados e fortalece a capacidade de comunidades de reconhecer, nomear e defender seus próprios espaços”, enfatiza a arquiteta e urbanista Mariana Quezado Costa Lima, que faz doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC). No estudo, ela investiga de que forma comunidades urbanas de Fortaleza têm usado mapas como ferramentas para defender direitos, incluindo a negociação de planos diretores, a cobrança de infraestrutura e a resistência a remoções.

Um exemplo nesse sentido aconteceu em 2016, quando um grupo de moradores da comunidade Poço da Draga, na capital cearense, realizou um censo, incluindo variáveis como situação da moradia, escolaridade e renda da população. O resultado revelou discrepâncias com os dados oficiais. Outro exemplo citado pela pesquisadora é o uso de mapas pelo Observatório da Zeis Bom Jardim, organização de um conjunto de comunidades invisibilizadas e localizadas na periferia sudoeste de Fortaleza, para pressionar a gestão estatal a melhorar as condições de saneamento e moradia da região.

Girardi, por sua vez, comenta que o mapeamento de regiões vulneráveis se disseminou pelo país, especialmente com o uso de plataformas on-line como GoogleMaps e OpenStreetMap, sendo o Quebrada Maps uma iniciativa significativa elaborada na cidade de São Paulo desde 2015. O projeto trabalha com comunidades da periferia para criar mapas que destacam a cultura local, as histórias e os desafios enfrentados nesses espaços.

A arquiteta e urbanista Clarissa Sampaio Freitas, da UFC, explica que para realizar esse tipo de mapeamento as comunidades precisam, muitas vezes, apoiar-se em parcerias com universidades e organizações não governamentais. “Essas instituições oferecem oficinas de capacitação técnica para ensinar as pessoas a trabalhar com ferramentas para a elaboração de mapas, incluindo programas como o QGIS e o Google Earth”, comenta Freitas, ao pontuar que Fortaleza tem um dos maiores índices de assentamentos informais precários do Brasil.

Sobre iniciativas promovidas em outros países, Sperling menciona o projeto Iconoclasistas, criado em 2006 na Argentina com a proposta de articular metodologias de mapeamento colaborativo com comunidades periféricas e indígenas. Essa iniciativa oferece oficinas de formação, reúne e divulga resultados de processos de cocartografia que aliam saberes locais e acadêmicos, muitas vezes com apoio de instituições culturais e universidades públicas (ver mapas abaixo).

“No mundo, há mapeamentos feitos por skatistas que propõem repensar o direito da juventude à cidade, mapas feitos em tricô por grupos de mulheres para denunciar o descaso do poder público com inundações, plataformas com imagens on-line para combater o assédio sexual, denunciar crimes do Estado e de corporações econômicas contra populações minoritárias”, complementa Girardi.

Ela destaca que algumas dessas experiências foram compiladas no livro This is not an Atlas, publicado pelo grupo alemão Kollektiv Orangotango, em 2018.

Em relação a projetos que elaboram propostas de caráter artístico, Sperling menciona o Canal Motoboy, criado em 2006 por Antoni Abad. O artista catalão distribuiu celulares com câmeras para motoboys percorrerem espaços públicos e privados do estado de São Paulo, registrando imagens e vídeos que são publicados em um site. Ao descreverem seus registros com palavras-chave, esses profissionais colaboram para a construção de uma base de dados multimídia coletiva. “O projeto funciona como uma espécie de cartografia audiovisual da metrópole vista a partir do banco da moto, revelando percursos, ritmos e modos de vida dos motoboys”, propõe Sperling.

O pesquisador cita, ainda, o Atlas do Chão, plataforma colaborativa criada em 2020 por ele e pela arquiteta e urbanista Ana Luiza Nobre, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). A ideia é mapear pontos ligados a processos de colonização, descolonização e urbanização, permitindo que os usuários possam criar conexões entre lugares e compartilhar narrativas geográficas.

Outra iniciativa são os trabalhos do artista plástico brasileiro Marcelo Moscheta, que utiliza deslocamentos e fronteiras como matéria estética. Moscheta, que atualmente faz doutorado em arte contemporânea na Universidade de Coimbra, em Portugal, percorre trajetos mapeados por GPS e realiza coleta de dados no solo e por meio de geolocalização para criar obras que discutem “a precisão da cartografia e a falibilidade da experiência sensível”.

Um dos exemplos nesse sentido é a obra Fixos e fluxos, desenvolvida após uma residência artística realizada no deserto do Atacama, no Chile, em 2013. Em entrevista por telefone, Moscheta explicou que a obra tem como referência conceitos do geógrafo Milton Santos (1925-2001), segundo os quais os pontos fixos são representados por espaços de permanência e pela estrutura dos lugares, enquanto os fluxos são os deslocamentos que atravessam esses territórios.

Partindo dessas ideias, o artista percorreu de carro trechos do deserto chileno com o GPS ligado, gravando na tela a sua rota. Depois, buscou essas coordenadas no Google Earth, realizou capturas de tela em alta resolução e imprimiu-as sobre placas de alumínio. Em cada quadrante da imagem, ele inseriu uma chapa de cobre para criar uma composição que sobrepõe a representação algorítmica do satélite com a experiência corpórea do espaço. “Cartografia não é exatidão. É sempre uma interpretação, seja do cartógrafo, seja do artista”, sugere Moscheta.

Fixos e fluxos, obra do artista visual Marcelo Moscheta desenvolvida no deserto do Atacama, no Chile, com o uso de GPS e imagens de satélite. Imagem: Marcelo Moscheta/Galeria Vermelho/Divulgação

Sperling destaca, no entanto, que se por um lado a ampliação das cartografias impulsiona processos criativos e produção de mapas comunitários, por outro, grandes empresas do mundo da tecnologia, como o Google, que assentam seus negócios em aplicativos geolocalizados, convertem os dados gerados em mercadoria. No livro recém-lançado, o pesquisador da USP investiga as implicações políticas de tecnologias contemporâneas, questionando sua suposta neutralidade. “Sensores, sistemas de georreferenciamento e bancos de dados massivos são dispositivos atravessados por relações de poder, capazes de moldar comportamentos e intensificar mecanismos de vigilância e controle com base em algoritmos”, constata.

Como exemplo dessa dinâmica, o pesquisador menciona plataformas como Airbnb, que, com o aluguel de estadias temporárias, valoriza determinados bairros. “A expansão desse tipo de locação tem intensificado processos de gentrificação, encarecendo o custo de vida e expulsando populações de áreas centrais, enquanto o turismo avança sobre espaços tradicionalmente residenciais”, comenta.

Com a proposta de elaborar um projeto cartográfico independente de tecnologias de grandes corporações, o sociólogo Sérgio Amadeu, da Universidade Federal do ABC (UFABC), desenvolveu em 2020 um mapeamento colaborativo de ações de solidariedade durante a pandemia de Covid-19. Na ocasião, ele identificou, com uma equipe de pesquisa interdisciplinar, iniciativas organizadas por associações de bairro, coletivos culturais, sindicatos e organizações não governamentais em periferias e favelas da Região Metropolitana de São Paulo. “Esses grupos buscavam suprir lacunas nas políticas públicas, oferecendo apoio material e emocional a pessoas em situação de vulnerabilidade”, comenta.

Assim, o Mapa das Práticas Colaborativas de Combate à Covid-19 foi criado em código aberto e hospedado em servidores independentes. Iniciativas como distribuição de alimentos, produção de marmitas e apoio psicológico podiam ser registradas na plataforma. “No auge da pandemia, mais de 1,8 mil iniciativas foram cadastradas no sistema”, conta o pesquisador. O projeto, no entanto, enfrentou dificuldades estruturais ao deixar de receber recursos da universidade em 2021, de forma que o mapa foi retirado do ar. “Hoje estamos tentando reconstituí-lo com a proposta de seguir difundindo ações de solidariedade. Entretanto, sem financiamento de longo prazo, iniciativas como essa não se sustentam, especialmente se pretendem funcionar sem depender de tecnologias de grandes empresas”, finaliza o sociólogo.

A reportagem acima foi publicada com o título “Cartografia ampliada” na edição impressa nº 357, de novembro de 2025.

Artigos científicos

ACSELRAD, H. e VIEGAS, R. N. Cartografía Social en Brasil y en la América Latina: Desafíos epistemológicos y metodológicos de mapeos contra-hegemónicos de los espacios y territoriosCuadernos de Geografia. v. 30. 2021.
COSTA LIMA, M. Q. e FREITAS, C. F. S. Do mapa à mobilização: Impactos da cartografia para reivindicação de direitos na periferia de Fortaleza. Anais do XXI Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Sessão Temática). Campina Grande: Realize Editora, 2025.
COSTA LIMA, M. Q. e FREITAS, C. F. S. Subvertendo Censo, museu e mapa: Narrativas insurgentes em territórios informais de Fortaleza. Anais do Quarto URBfavelas: Seminário Internacional de Urbanização de Favelas. São Paulo (SP). USP, 2024.
FROTA, N. e FREITAS, C F. S. Descolonizando o planejamento para a proteção socioambiental: uma experiência na periferia de Fortaleza, Brasil. Bitácora Urbano Territorial [S. l.], v. 34, n. 2, 2024.
GIRARDI, G. Da necessidade de retrabalhar a cartografia geográfica em novos termos. Terra Livre. [S. l.], v. 2, n. 63, 2024.
SANTOS, R. E. dos. et al. Sobre cultura e cidade: Lutas por memória e as gramáticas espaciais urbanas. Versus: Revista de Ciências Sociais Aplicadas do CCJE/UFRJ. v. 12, 2024.

Livro
SPERLING, David. Cartografias críticas: Ensaios tecnopolíticos e geopoéticos. Rio de Janeiro: Rio Books, 2025.

Relatório
FERNANDES, R. Z. (coord.). Relatório de autodemarcação da Terra Indígena Borari de Alter do Chão. Santarém, 2025.Republicar

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por

Foto rara mostra lenda do reggae Jimmy Cliff em show histórico em Roraima

0

Foto rara mostra a lenda do reggae Jimmy Cliff cantando no Ginásio Canarinho em 1991. Foto: Marinho da Luz/Acervo pessoal

O público roraimense à loucura, um bingo e… um astro internacional do reggae? É difícil de acreditar. Mas isso aconteceu e está presente na memória e na história de quem viveu Roraima nos anos 1990. A lenda jamaicana Jimmy Cliff cantou para uma multidão apaixonada em um show histórico no Estádio Canarinho, em Boa Vista.

O show aconteceu no dia 6 de outubro de 1991 em um evento promovido pelo Sindicato dos Taxistas, logo após um bingo com prêmios. Não havia celulares, câmeras digitais ou filmadoras portáteis na época. Por isso, registros do momento são raros de encontrar — quem curtiu o show, realmente curtiu o momento.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A imagem, tingida pelas luzes avermelhadas do palco e com textura típica de fotografia analógica, mostra Jimmy Cliff sorrindo, dançando com os braços, com energia e vestindo um traje característico, colorido, com detalhes que remetem à estética jamaicana.

A foto é do acervo pessoal do percussionista Marinho da Luz, de 56 anos, que – à época com 22 anos – tocou em uma das bandas que abriu o show de Cliff e pôde ver o astro do palco. O registro foi feito com uma câmera analógica emprestada de um amigo. Câmeras analógicas precisam que o filme seja revelado após tirar a foto.

“O show estava abarrotado. Era Jimmy Cliff, a lenda! Lotou de cabo a rabo aquele ginásio”, relembra Marinho.

Jimmy Cliff, lenda do reggae, morreu aos 81 anos, no dia 24 de novembro. De acordo com um comunicado divulgado pela mulher do cantor, Latifa, o músico sofreu uma convulsão seguida de pneumonia.

Ele é considerado um dos pioneiros do reggae e responsável por levar o gênero ao cenário internacional. O músico jamaicano ganhou dois Grammy com os álbuns Cliff Hanger (1985) e Rebirth (2012) – esse último também apareceu na lista dos “50 Melhores Álbuns de 2012” da Rolling Stone.

O show aconteceu em um momento que Cliff morava no Brasil. O artista tinha fortes relações com a Bahia: morou em Salvador, fez shows com Gilberto Gil, gravou com Margareth Menezes, Olodum e Ara Ketu, posou com a camisa do Bahia e teve uma filha em Salvador, a cantora e atriz Nabiyah Be.

Leia também: 5 lugares encantadores para conhecer em Roraima

“Quem viveu, viveu para contar”

Marinho conta que o palco foi montado com tábuas de madeira. O mastro de bandeiras do estádio aparece ao lado do cantor, reforçando o improviso daquela noite — e a grandiosidade do momento.

Na foto, é possível ver instrumentos de percussão, cabos, estruturas metálicas e parte do público que cercava o palco improvisado, elevado com tábuas de madeira.

A banda de Marinho fez o show de abertura e também o pós-show de Cliff. Ele destaca a forte comunidade maranhense que vive em Roraima e esteve em peso no show, afinal, São Luís do Maranhão é a capital nacional do reggae.

Leia também: Conheça o Museu do Reggae do Maranhão, único fora da Jamaica com essa temática

“Nós ficamos a metros dele, sentindo a vibração da banda, do público, do som. Não tinha ninguém tirando foto, ninguém filmando. Era para viver. A gente tocou antes, depois esperou, acompanhou. Eu tinha umas duas ou três fotos dessa noite, mas o tempo levou. Só sobrou essa e ainda bem que sobrou”.

“A comunidade maranhense, que sempre amou reggae, estava inteira lá. Nunca vi o Canarinho como vi naquele dia. Quem viveu, viveu pra contar”, relembra o músico.

“Tocar antes de Jimmy Cliff parecia impossível. Eu tremia”

Outro músico que também participou de um dos shows que abriram para Jimmy Cliff foi Sousa Filho, hoje com 58 anos. Maranhense, ele havia se mudado há pouco tempo para Boa Vista. À época com 24 anos, tocou guitarra antes da lenda do reggae.

“Eu escutava Jimmy Cliff desde menino, lá no Maranhão. Era aquele sonho distante, inalcançável. Quando disseram que eu ia tocar antes dele, eu tremia. A gente ensaiava com medo de errar, medo de ser pequeno demais para um artista tão grande”.

“O estádio estava lotado de um jeito que eu nunca tinha visto. Era tanta gente que eu nem lembro se toquei certo”, relembra o músico que também assistiu a apresentação de Jimmy Cliff no palco.

Ele diz que a memória mais viva não é do que tocou, mas do que sentiu quando o cantor subiu ao palco. De acordo com Sousa, tinha gente que não conseguiu entrar no estádio e precisou apenas ouvir o show de fora.

“Quando ele apareceu, o estádio virou mar. Gente gritando, cantando, chorando, subindo em grade, em ombro, em arquibancada. Eu vi tudo de cima do palco, a poucos metros dele. E parecia mentira”.

Sousa relembra que o músico tentou encerrar o show três vezes — mas não conseguia, pois o público implorava por mais. Em um dos momentos mais emocionantes, Cliff voltou para o palco apenas com o tecladista e tocou a música “Peace”, que na época era sucesso por ser trilha sonora da novela “Felicidade”, de Manoel Carlos.

“Dizia tchau, virava as costas, e o público não ia embora. Parecia que ninguém aceitava que acabou. Quando as luzes quase apagaram, o tecladista puxou ‘Peace’, sozinho. Aí o estádio explodiu. Todo mundo voltou correndo, gritando, chorando, cantando”, relembra.

Foto rara mostra a lenda do reggae Jimmy Cliff cantando no Ginásio Canarinho em 1991 — Foto: Arquivo Pessoal/Marinho da Luz
Foto: Marinho da Luz/Acervo pessoal

“Eu cobri do palco. Ele era grande, mas simples”

A jornalista Consuelo Oliveira, hoje com 65 anos, tinha 31 anos, também estava ali cobrindo o evento pela Rede Amazônica (que à época se chamava TV Roraima). Ela não tem imagens, mas tem lembranças que nenhum arquivo poderia substituir.

Consuelo inclusive chegou a entrevistar Jimmy Cliff no hotel, antes do show. Algo que a jornalista relembra como uma “honra”.

“Você imagina a emoção bem pertinho dele, da banda, e vendo o público delirando, foi assim, uma coisa inesquecível, uma multidão mesmo, fantástico. Um dos pontos altos da minha carreira jornalística”.

Ela diz que o que mais marcou naquele dia não foi apenas o show, mas a pessoa por trás da lenda Jimmy Cliff.

“Se eu pudesse definir, seria isso: a simplicidade. Ele é um grande astro, né? Uma figura da dimensão dele, mas ele tinha uma simplicidade, atendeu a gente com uma tamanha gentileza, boa vontade, e também simplicidade na forma de olhar o mundo, de descomplicar as coisas, nas mensagens que ele deixava”.

Mesmo sem imagens, ela afirma que nada apaga o que viveu naquela noite, do hotel ao palco, do microfone à multidão.

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

Projeto reforça a resistência ancestral em Rondônia

0

Imersão em arqueologia pública e educação patrimonial em Costa Marques, Rondônia. Foto: Divulgação/UNIR

Durante o mês de novembro, o Quilombo Forte Príncipe da Beira, localizado no município de Costa Marques (RO), foi palco do evento A Terra é Meu Quilombo. A iniciativa promoveu uma imersão em arqueologia pública e educação patrimonial, unindo moradores e moradoras do quilombo, pesquisadoras da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), além de parceiros, em uma série de atividades que incluem escavações arqueológicas comunitárias, oficinas e rodas de conversa.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O principal objetivo do evento é utilizar a arqueologia como instrumento de luta e fortalecimento identitário. A proposta vai além da pesquisa acadêmica tradicional, adotando uma prática decolonial e antirracista, na qual o conhecimento científico dialoga de forma horizontal com os saberes tradicionais da comunidade.

Costa Marques, Rondônia
Quilombo Forte Príncipe da Beira, localizado no município de Costa Marques, em Rondônia. Foto: Divulgação/UNIR

Trata-se de uma iniciativa da Associação Quilombola do Forte Príncipe da Beira (ASQFORTE), em parceria com a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), por meio do curso de Arqueologia, e está vinculado ao projeto de pesquisa “Arqueologia Histórica em Porto Velho, Rondônia: Coisas, Pessoas, Conflitos, Apagamentos e Resistências”, sob a coordenação da professora Juliana Santi (UNIR).

As escavações ocorrerão em quintais familiares e em uma área coletiva, com participação direta dos quilombolas, transformando-se em um espaço de troca, aprendizado e reconstrução da memória.

“Não estamos apenas procurando fragmentos do passado. Estamos desenterrando as provas materiais da nossa longa existência aqui, resgatando uma história que foi sistematicamente apagada. Cada fragmento encontrado no nosso quintal é um fio que tece a narrativa da nossa resistência e fortalece o nosso direito a esta terra”, afirma Lulu, presidente da ASQFORTE.

Programação aberta à comunidade

Quilombo Forte Príncipe da Beira, localizado no município de Costa Marques, em Rondônia. Foto: Divulgação/UNIR

Além das escavações, o evento contou com uma programação diversificada e aberta ao público. Veja o que aconteceu na programação abaixo:

  • Oficinas de Audiovisual “Nós por Nós Mesmos”: Jovens quilombolas serão capacitados para produzir um documentário contando sua própria história.
  • Círculo de Mulheres “A Força que Vem da Terra”: Um espaço seguro para debater o papel central das mulheres na defesa do território.
  • Cine-Diálogo no Dia da Consciência Negra: Exibição de filmes seguida de debate sobre resistência e cultura negra.
  • Criação de um “Mapa da Memória”: Um painel coletivo que integrará os achados arqueológicos com as histórias de vida e os lugares sagrados da comunidade.

Sobre o Quilombo Forte Príncipe da Beira

É uma comunidade tradicional formada a partir do século XVIII por africanos e africanas escravizados, indígenas que estavam presentes no período da construção do Forte Príncipe da Beira e pessoas que fugiram de outros quilombos destruídos na região, como o Quilombo do Piolho. 

Localizado às margens do Rio Guaporé, na fronteira com a Bolívia, o quilombo é um dos nove territórios quilombolas oficialmente reconhecidos pela Fundação Palmares no estado de Rondônia.

Leia também: Estudo revela 632 territórios quilombolas na Amazônia Legal

Sua história é marcada pela resistência à escravidão e, atualmente, pela luta contínua pela titulação de suas terras tradicionais, essenciais para a preservação de seu modo de vida, que inclui agricultura itinerante, pesca, coleta e a manutenção de saberes ancestrais. O quilombo é, portanto, um guardião vivo da história afro-brasileira e um símbolo de resistência cultural na Amazônia.

*Com informação da Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

Oreobates shunkusacha: Nova espécie de rã é descoberta no Parque Nacional Cordillera Azul no Peru

0

Rã da espécie Oreobates shunkusacha é considerado em perigo de extinção. Foto: Divulgação/Agência Andina

Uma nova espécie de rã foi descoberta no Peru, graças a uma pesquisa realizada por uma equipe de cientistas peruanos e internacionais. A espécie foi encontrada no Parque Nacional Cordillera Azul e recebeu o nome de Oreobates shunkusacha. Este último termo significa “Coração da floresta” na língua quíchua-lamista.

O trabalho que levou a esse resultado foi liderado por Ernesto Castillo-Urbina, cientista do Departamento de Herpetologia do Museu de História Natural da Universidade Nacional de San Marcos (UNMSM). 

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Cientistas da Universidade Técnica de Brunswick e da Coleção Zoológica do Estado de Munique, na Alemanha, também participaram deste trabalho de descoberta da espécia, que envolveu a Associação Nature Conserv’Action, na França, a organização não governamental Ararankha e comunidades locais organizadas.

A Cordilheira já é conhecida por abrigar espécies ainda não registradas: relembre AQUI.

Nova espécie de rã é descoberta no Parque Nacional Cordillera Azul no Peru
Oreobates shunkusacha: Nova espécie de rã é descoberta no Parque Nacional Cordillera Azul no Peru

O Parque Nacional Cordillera Azul está localizado entre os departamentos de San Martín, Loreto, Ucayali e Huánuco. A descoberta ocorreu em um de seus corredores ecológicos, localizado na zona de amortecimento.

Características da espécie

Ela habita as florestas primárias de planície das Yungas, localizadas a uma altitude entre 1351 e 1600 metros acima do nível do mar.

Leia também: Saiba quais Estados da Amazônia brasileira fazem fronteira com a Amazônia Internacional

A rã caracteriza-se pela pele dorsal granulosa, ausência de pregas dorsolaterais e de almofadas nupciais nos machos. Seus olhos possuem íris verde-dourada com reticulação preta.

Devido ao espaço que habita – estimado em menos de 500 quilômetros quadrados – esta espécie de rã é considerada em perigo de extinção.

O status foi confirmado por meio de análise genética do DNA mitocondrial e estudos morfológicos. Os detalhes dessa descoberta foram publicados na revista especializada Zenodo.

*Com informações da Agência Andina

Pesquisa destaca rede colaborativa como modelo para avançar o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica

0

Pesquisa destaca rede colaborativa como modelo. Foto: Reprodução/Arquivo/Secom AM

Uma pesquisa publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, dia 25 de novembro, traz evidências inéditas sobre o papel das redes científicas na produção de sínteses integradas da biodiversidade da Amazônia.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O estudo “Collaborative research networks as a strategy to synthesize knowledge of Amazonian biodiversity”, que apresenta o INCT-SinBiAm como caso de referência, reforça a urgência de políticas ambientais baseadas em ciência e marca um avanço estratégico para a conservação e a ecologia da maior floresta tropical do planeta.

Pesquisa “Collaborative research networks as a strategy to synthesize knowledge of Amazonian biodiversity”. Foto: Unifesspa

A publicação demonstra como redes colaborativas de pesquisa podem transformar a maneira como o conhecimento sobre a Amazônia é produzido, analisado e aplicado. Em um momento em que a região enfrenta pressões crescentes, como desmatamento, degradação de habitats e mudanças climáticas, o artigo destaca que apenas iniciativas científicas de grande escala, integradas e sustentadas por colaboração interinstitucional, são capazes de oferecer respostas consistentes para desafios tão complexos.

O INCT em Síntese da Biodiversidade Amazônica (INCT-SinBiAm) é apresentado como um modelo bem-sucedido dessa abordagem. A rede reúne 47 instituições do Brasil e do exterior, articulando pesquisadores, bases de dados, métodos e diferentes expertises científicas para produzir sínteses robustas e de alta relevância ecológica e política. Seu trabalho integra informações sobre florestas e ecossistemas aquáticos, identifica padrões de biodiversidade, mapeia ameaças e orienta práticas e políticas ambientais e educacionais.

Além de organizar e difundir conhecimento estratégico, a rede também atua na formação de novas gerações de cientistas, educadores e gestores, comprometidos com a conservação e o uso sustentável da Amazônia. Com isso, o INCT-SynBiAm se consolida como uma iniciativa fundamental para enfrentar os desafios socioecológicos das regiões tropicais, servindo de referência internacional para futuras redes de pesquisa colaborativa.

Dados da pesquisa

A UNIFESPA faz parte do INCT SinBiAm e de outras redes colaborativas como o Centro Integrado da Sociobiodiersidade Amazônica (CISAM) e do PPBIO da Amazônia Oriental (PPBIO AmOr), sua posição geográfica, missão institucional e crescente inserção em redes de pesquisa amazônicas reforça sua missão institucional de fazer a diferença com e para a população Amazônida.

Localizada em uma região-chave da Amazônia, marcada por desafios socioambientais complexos e historicamente sub-representada na infraestrutura científica nacional, a universidade desempenha um papel singular ao formar pesquisadores que conhecem o território, as comunidades e seus conflitos de perto.

O reitor da UNIFESSPA, professor Francisco Ribeiro da Costa, ressalta que, a universidade reúne busca contribuir de forma estratégica com redes colaborativas como o INCT-SinBiAm. Para ele, a presença da instituição no sudeste do Pará, aliada ao seu compromisso com a ciência amazônica, reforça seu papel na produção de conhecimento territorialmente enraizado:“Assim, a universidade não aparece como um mero receptor periférico de redes consolidadas, mas como um ponto de virada: uma instituição amazônica capaz de liderar, propor e articular ciência colaborativa a partir do próprio território, exatamente como defende o artigo.”

A publicação na Proceedings of the Royal Society B reforça, portanto, a importância da ciência produzida de forma integrada, colaborativa e comprometida com a sustentabilidade da Amazônia, um passo decisivo para unir conhecimento, tecnologia e políticas públicas na proteção da biodiversidade.

Leia a pesquisa na íntegra e conheça os resultados completos no link.

*Com informação da UNIFESPA

Banzeiro da Esperança na COP30: Encontro entre ciência e medicina ancestral é necessária para proteger conhecimento tradicional

0

Extratos naturais da medicina ancestral. Foto: Fernanda Soares/Rede Amazônica

A Amazônia é uma das maiores farmácias naturais do mundo, já que muito antes da criação de qualquer laboratório, os povos originários preparavam e ensinavam o uso de plantas para aliviar dores, tratar inflamações, combater infecções e enfrentar diversos problemas de saúde.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Marta Chagas Monteiro, professora do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenadora do projeto INCT PROBIAN Amazônia, explica que o uso das plantas na medicina ancestral dos povos originários já é algo documentado e amplamente praticado há séculos.

Esse conhecimento constitui um saber que hoje orienta e dialoga com pesquisas científicas que reforçam a importância de valorizar e proteger o conhecimento tradicional.

Para quem nasce na Amazônia, o uso de óleos, extratos e infusões naturais faz parte da rotina como ir ao mercado. No entanto, para estrangeiros e visitantes, essas práticas são vistas como exóticas ou até mesmo como lendas e reforçam a importância de valorizar e certificar esses usos. 

“Eu sou daqui e venho de uma comunidade que se utilizava de produtos naturais. Então, para mim é um orgulho trazer esse saber e unir com a ciência para ver até que ponto, na verdade, de uma certa forma, esses saberes são comprovados cientificamente”, comentou Monteiro. 

Coleta do murumuru, por exemplo, também garante a renda de diversos lares. Foto: Pedro Devani/Secom AC

Leia também: Conheça quais plantas são mais utilizadas na fitoterapia e como remédios naturais

O reconhecimento desse saber ancestral exige não apenas validação científica, mas também processos legais que garantem os direitos das comunidades.

Por isso, o INCT PROBIAN mantém uma advogada especializada em comunidades tradicionais, responsável por mediar e formalizar o processo de utilização do conhecimento e da repartição justa desses benefícios.

Segundo a professora, é preciso ter muito cuidado com os interesses que existem por trás desses conhecimentos, já que muitas vezes as indústrias farmacêuticas e de cosméticos nem sempre possuem a percepção de que esse saber vem de uma comunidade tradicional.

A ciência e o potencial das plantas

Nem toda descoberta científica parte de um saber ancestral, embora muitas delas tenham essa origem. Dessa forma, os estudos desenvolvidos pelas equipes da UFPA e de instituições parceiras, como o Museu Emílio Goeldi e o Instituto Evandro Chagas, combinam a relação entre a ciência e os saberes tradicionais com trabalho de campo e análises laboratoriais. 

Em alguns casos, a pesquisa começa diretamente com o saber ancestral, já em outros casos, começa do zero, por meio de mapeamentos e screenings, testes iniciais que avaliam se um extrato ou óleo apresenta atividade contra bactérias, fungos, vírus ou processos inflamatórios

“Você pode fazer esses screenings baseados, muitas vezes, na característica daquele extrato, daquele óleo. Aí você direciona para uma determinada doença que você imagina, que você tenha essa percepção que possa ter atividade, ou que possa desenvolver uma melhora clínica”, explica a professora. 

Assim, de acordo com Monteiro, o processo começa com a identificação de componentes e, baseado neles, avalia-se a possibilidade de ter atividade antimicrobiana, antiparasitária e imunológica. Em alguns casos, a ciência apenas comprova aquilo que as comunidades tradicionais já sabem instintivamente, como com a andiroba e a copaíba.

Leia também: Remédios naturais: o poder de cura com ervas da Amazônia

Andiroba, remédio ancestral, em comércio do Amazonas. Foto: Heloise Bastos/Portal Amazônia

Além disso, o processo de utilização do conhecimento ancestral diz que:

  • Toda pesquisa que utiliza saber comunitário precisa indicar a origem.
  • Sistemas, como o Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (Sisgen), exigem o cadastro das informações genéticas acessadas e o reconhecimento das comunidades envolvidas.
  • Qualquer benefício gerado – comercial, tecnológico ou intelectual -, precisa ser repartido.

A comprovação científica exige etapas rigorosas, já que antes de um fitoterápico chegar até as pessoas, ele precisa passar por testes de toxicidade, estudos pré-clínicos, desenvolvimento farmacêutico, formulação adequada e avaliação e autorização da Anvisa.  

Proteção do saber ancestral

As diversas propriedades das plantas amazônicas foram estudadas e patenteadas por pesquisadores estrangeiros, muitas vezes sem reconhecimento da origem do conhecimento. Mas, segundo a legislação brasileira, nenhum recurso natural que constitui o conhecimento popular ancestral pode ser patenteado, nem planta, nem extrato e nem óleo.

O que eu posso patentear são as atividades que aquele extrato apresentou, mas não posso patentear os princípios ativos, porque aquilo é intrínseco da planta. A não ser que você faça uma modificação química naquele constituinte, mas aqui no Brasil não há possibilidade de patente de produtos que venham da natureza. Eu não posso patentear uma bactéria, porque ela é fonte desse bioma, então, o que nós patenteamos? O uso”, esclarece Marta. 

Ou seja, o que pode ser patenteado é o uso descoberto pela pesquisa científica, ou uma formulação farmacêutica desenvolvida a partir dele. Isso significa que uma pomada, um comprimido ou uma modificação química inédita pode receber patente, mas a planta, os óleos e os extratos em si, não.

Leia também: A floresta que cura: entre o saber ancestral e a ciência que transforma

Marta explica também que em vários países, como o Japão, patentes desse tipo são permitidas e por isso algumas patentes estrangeiras já foram revertidas após a comprovação que o conhecimento ancestral vinha de comunidades tradicionais.

“Algumas patentes de fora já foram revertidas para a nossa legislação. Porque eles foram, patentearam, e nós provamos que eram produtos provenientes da Amazônia e dos biomas daqui do Brasil, e por isso foi possível reverter”.

Por fatores como esse, ferramentas como o Sisgen e novas exigências legais buscam assegurar que as comunidades tradicionais recebam o reconhecimento e a repartição justa dos benefícios quando seus conhecimentos ancestrais forem utilizados em pesquisas e produtos.

Especial COP30

A entrevista com a coordenadora do projeto INCT PROBIAN Amazônia, Marta Monteiro, faz parte de uma sequência especial dedicada à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – Conferência das Partes (COP30) do programa ‘Bate-papo na CBN’, da rádio CBN Amazônia Belém (102,3 FM ).

Com o olhar de quem vive na região, o programa reuniu informações e entrevistas sobre toda a movimentação da 30ª edição do encontro mundial realizado em Belém (PA), realizado entre os dias 10 e 22 de novembro. 

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Bate papo CBN especial sobre conhecimento ancestral e ciência
Foto: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia

Além da ciência e do conhecimento ancestral, o especial também debateu a diversificação da matriz energética mundial, que segue ainda altamente dependente de combustíveis fósseis nocivos ao meio ambiente.

O doutor em engenharia elétrica e membro do Centro Excelência em Eficiência Energética da Amazônia (Ceamazon), Bruno Albuquerque, explicou o que e quais são os benefícios das fontes de energia renovável, os desafios de cada tecnologia e a importância de combinar diferentes tipos de fontes para melhorar o sistema energético.

O professor também comentou as pesquisas desenvolvidas pelo Ceamazon envolvendo microredes, mobilidade elétrica e soluções energéticas para comunidades isoladas.

Com oito episódios, os programas da rádio, apresentados pela jornalista Brenda Freitas, também ganharam versões especiais no canal Amazon Sat e no Portal Amazônia.

Assista as entrevistas completas no quarto episódio da edição especial do programa:

Veja outras matérias da série:

Banzeiro da Esperança

A iniciativa Banzeiro da Esperança é uma parceria entre Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Rede Amazônica (FRAM) e Virada Sustentável, com patrocínio do Banco da Amazônia (BASA). Esta edição do Banzeiro da Esperança é uma jornada de conexão, troca de saberes e transformação com foco na COP30.


Festa da Revolução Acreana do bairro 6 de Agosto é patrimônio imaterial de Rio Branco

0

Apresentação de comemoração da Revolução Acreana do bairro 6 de Agosto. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

A comemoração da Revolução Acreana, feita anualmente no bairro 6 de Agosto, em Rio Branco (AC), passa a ser patrimônio cultural imaterial do município. A decisão está na Lei Municipal nº 2.615, sancionada e publicada no dia 25 de novembro no Diário Oficial do Estado, e garante proteção às expressões que marcam a festa histórica, como dança, vestuário, vocabulário, costumes e desfiles.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O texto aponta que o município deve promover ações de preservação e valorização por meio de políticas públicas, editais, pesquisas, programas culturais e iniciativas que assegurem a continuidade das manifestações.

Além disso, o objetivo é garantir que a tradição permaneça viva e registrada, mantendo as práticas relacionadas à memória da Revolução Acreana e à formação da comunidade local.

O reconhecimento consolida também uma tradição que atravessa décadas e está diretamente ligada à formação do bairro, criado há 121 anos no Segundo Distrito, cujo nome faz referência direta à data em que o conflito começou. A região, inclusive, foi criada dois anos após o início da Revolução Acreana.

Além do desfile cívico, moradores costumam distribuir alimentação gratuita. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

Uma das festas mais antigas da cidade

Seis de Agosto é um dos primeiros bairros de Rio Branco e foi onde as primeiras comunidades da capital se estruturaram e cresceram. Em 2025, o bairro completou 121 anos.

A comunidade faz, há cerca de 40 anos, uma programação que reúne desfile cívico, atividades culturais, jogos tradicionais e ações comunitárias que mobilizam moradores e reforçam vínculos locais.

Leia também: Consciência Limpa encerra com balanço positivo em Rio Branco: “vimos as crianças engajadas”

A rua principal da região é considerada uma das mais antigas do Acre, elemento que também reforça o valor histórico da celebração. Ao longo dos anos, a festa passou a simbolizar pertencimento e resistência.

Revolucionários sobre o comando de Plácido de Castro - revolução acreana
Revolucionários sobre o comando de Plácido de Castro durante operação na selva acreana em 1903. Foto: A Epopéia do Acre Silvio Augusto de Bastos Meira. 2° edição /Acervo: Liberalino Alves de Souza/ Acervo Digital: Deptº de Patrimônio Histórico e Cultural – FEM

Leia também: Bairros de Rio Branco tem ruas que levam nomes de coronéis da Revolução Acreana

Ligação com a Revolução Acreana

A escolha da data da festa não é aleatória. No dia 6 de agosto de 1902, há 123 anos, começaram os confrontos que marcaram a Revolução Acreana, movimento liderado por brasileiros que viviam na região e resistiam ao controle boliviano sobre o território.

O conflito teve origem na disputa pela exploração do látex, que desde a década de 1870 atraía migrantes vindos do Nordeste para a área então chamada de “Aquiry”.

Os confrontos se estenderam até 1903, quando o Acre foi incorporado ao Brasil após o Tratado de Petrópolis. A data também coincide com o dia da independência boliviana, o que na época ajudou a surpreender tropas adversárias durante o início da ofensiva.

*Por Jhenyfer de Souza, da Rede Amazônica AC

Guardião: onça-pintada do Amazonas está entre os felinos mais velhos em cativeiro no Brasil

0

Nascido em 2001 em Tabatinga, no interior do Amazonas, Guardião chegou ao Cigs em 2007 e se tornou símbolo de resistência, força e adaptação. Foto: Fernanda Soares/Rede Amazônica AM

Guardião, uma onça-pintada que vive no Zoológico do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus (AM), tem mais de 20 anos e está entre os felinos mais velhos em cativeiro no Brasil. Nascido em 2001 em Tabatinga, no interior do Amazonas, o animal chegou ao CIGS em 2007 e virou símbolo de resistência e adaptação.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Segundo o Zoológico, a onça-pintada Guardião é o macho mais velho vivo sob cuidados humanos no país. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), porém, ressalta que o zoológico não integra o Programa de Conservação ex situ, o que impede uma confirmação oficial. Em nota, o órgão afirmou:

“Não temos informações precisas sobre os animais mantidos por esta instituição, mas sabemos informalmente sobre o macho que entrou no zoo jovem em 2001. Então, podemos dizer que estas são as duas onças mais velhas do Brasil de que temos informação”, em referência ao Guardião e à fêmea Luna, que vive em Limeira (SP).

A longevidade dos dois chamou atenção após a morte de Sansão, onça-pintada do Instituto Nex, em Goiás, que morreu em junho aos 25 anos.

Leia também: Dia da Onça-Pintada: Onçafari celebra marcos na reintrodução e monitoramento da espécie

Ativo e com boa saúde

Mesmo com idade avançada, Guardião segue ativo. No recinto, com vegetação alta e áreas de sombra, ele caminha, nada e pula plataformas diariamente.

“O score do Guardião, pela idade dele, está muito bom. Se jogarmos um pedaço de carne, ele vem atrás”, afirma Eliane.

Por conta da idade, a equipe evita sedar a onça-pintada. As avaliações são feitas à distância e incluem estímulos como trilhas de cheiro com canela e mudanças no local da alimentação para estimular movimento e cognição.

Leia também: Onças-pintadas participaram de treinamento militar do CIGS? Saiba a verdade

Guardião toma sol diariamente, faz até quatro refeições e utiliza as trilhas do recinto. Ele vive sozinho desde 2020, quando o companheiro castrado morreu.

“Eles viveram juntos até 2020. O outro morreu e achávamos que ele fosse morrer em seguida, mas ele segue até hoje”, contou a bióloga.

O CIGS é o lar de diversas onças pintadas em Manaus. Foto: Divulgação/ Exército Brasileiro

Por que ele vive tanto?

A tenente Eliane Carvalho explicou que onças-pintadas raramente ultrapassam 15 anos na natureza. Isso ocorre porque os animais enfrentam disputa por território, perdas dentárias, dificuldade de caçar com o envelhecimento e longos períodos sem alimento.

“No zoológico, devido ao tratamento e à inspeção periódica desses animais, eles duram mais. O histórico de onça-pintada mais velha no Brasil chegou a 30 anos, em zoológico”, disse.

Guardião, segundo ela, já superou com folga a expectativa natural e segue sendo monitorado de perto. “Ele já é um idosão”, resumiu.

Leia também: Guardiões da Onça: conheça iniciativas que protegem um dos maiores felinos do mundo no Brasil

*Por Sabrina Rocha, da Rede Amazônica AM 

Novas tecnologias para aumentar produção de tambaqui, tracajá e camarão são apresentadas no Amapá

Pesquisadores da Embrapa Amapá apresentaram avanços tecnológicos que podem transformar a produção de espécies regionais como tambaqui, tracajá e camarão-da-amazônia. As pesquisas também incluem soluções para reduzir a mortalidade, melhorar a imunidade dos animais e ampliar a segurança no processo produtivo.

As tecnologias foram debatidas durante o 5º Seminário de Aquicultura da Embrapa Amapá, realizado nos dias 26 e 27 de novembro, em Macapá.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Entre as novidades estão o melhoramento genético do tambaqui, que garante crescimento mais rápido, menor consumo de ração e maior lucratividade, além de sistemas de cultivo para o camarão-da-amazônia, espécie que enfrenta queda nos estoques naturais.

Novas tecnologias para aumentar produção de tambaqui, tracajá e camarão são apresentadas pela embrapa no Amapá
Camarão-da-Amazônia. Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará

Uma das descobertas recentes é a identificação da virose necrosante da carapaça, que tem provocado mortes em camarões, tanto em ambientes naturais quanto em cativeiro.

“Essa descoberta é fundamental porque permite orientar os produtores sobre medidas de biosseguridade e manejo, para reduzir perdas e garantir a continuidade da produção do camarão regional”, explicou o pesquisador da Embrapa, Marcos Tavares.

Treinamento na Embrapa

Durante a apresentação da pesquisa, houve um curso de treinamento para identificar a virose, que tem afetado populações naturais e de cultivo de camarões.

O evento reuniu especialistas de vários estados e contou com parceria do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e da Secretaria de Pesca e Aquicultura do Amapá, com foco na transferência de conhecimento para produtores locais.

A ideia é que as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa possam ser aplicadas diretamente na piscicultura. Segundo o organizador técnico, Dr. Jô de Farías Lima, o objetivo é aproximar ciência e setor produtivo.

Leia também: Espécies de maracujá são mapeadas no Amapá

“Temos colegas da Amazônia e de outras regiões do Brasil. Um deles, do Maranhão, é especialista em sanidade de crustáceos e veio tratar das doenças que afetam o camarão-da-amazônia, cuja população natural está em queda. O objetivo é trazer esse debate para a comunidade acadêmica e, principalmente, para os produtores, criando um diálogo direto com o setor produtivo”, afirmou.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Coronel José Cardoso Ramalho Júnior, o Sereníssimo Grão-mestre do Amazonas entre 1914-1917

0

Coronel José Cardoso Ramalho Júnior. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br 

Sereníssimo Grão-mestre com grande experiência na Administração da GLOMAM, tendo como Eminente Grão mestre Adjunto o irmão Nicolau Tolentino. O Coronel José Cardoso Ramalho Júnior foi iniciado maçonicamente no dia 9 de agosto de 1890 na Grande Benemérita Loja Simbólica Esperança e Porvir n.° 1, tendo sido por vários anos seu Venerável Mestre e dando dignidade ao primeiro malhete da loja.

Sua vida maçônica fora de grande importância no Amazonas. No dia 5 de março de 1899, a Grande Benemérita Loja Simbólica Aurora Lusitana, pelos bons serviços prestados conferiu-lhe o titulo de membro honorário. Admitindo como filiado livre na Grande Benemérita Loja Simbólica Amazonas n.°2 no dia 11 de março de 1899, foi agraciado no dia 1 de maio de 1899, como título de membro honorário do Grande Oriente do Supremo Conselho do Brasil. No dia 30 de agosto de 1900, toma posse como membro fundador do Consistório de Príncipes do Real Segredo do Estado do Amazonas.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Foi admitido como filiado livre da Grande Benemérita Loja Simbólica Aurora Lusitana no dia 11 de novembro de 1901. Foi agraciado com a patente de Grande Inspetor Geral da Ordem do Grau 33 no dia 5 de maio de 1911, foi investido no Grau 32 pelo Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa, no dia 7 de outubro de 1901. Foi lhe concedido o título de Benemérito da Grande Benemérita Loja Simbólica Esperança e Porvir n.° 1. No dia 25 de junho de 1906, foi admitido como filiado livre da Grande Benemérita Loja Simbólica Fraternidade Amazonense no dia 14 de junho de 1910, tendo exercido nesta Loja por sucessivas administração o autocargo de Venerável Mestre.

No dia 4 de fevereiro de 1933, por ato do Sereníssimo Grão-mestre da Grande Loja do Estado de Pernambuco é nomeado seu Grande Representante daquela Grande Loja como também garante de amizade junto ao Grande Oriente do Estado do Amazonas e Acre. Eleito Grande Comendador do Consistório do Sublimes Príncipes do Real Segredo do Estado do Amazonas. No dia 15 de agosto de 1936, tornou-se Membro Benemérito da Grande Benemérita Loja Simbólica União e Perseverança, foi também membro honorário do Grande Oriente do Amazonas e Acre.

No dia 9 de setembro de 1910 o Presidente da República do Brasil fez publicar no Diário Oficial da República, na coluna do Ministério dos Negócios Estrangeiros na Concessão do Honroso Titulo de Comendador da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo em reconhecimento aos inestimáveis serviços prestados ao país.

O Coronel teve participação efetiva de seus esforços para que o Brasil mantivesse a soberania do território do Acre. Foi um maçom dedicadíssimo, tendo como marca de sua administração o coração generoso, sempre voltado para ajudar os irmãos.

Coronel José Cardoso Ramalho Júnior, o Sereníssimo Grão-mestre do Amazonas entre 1914-1917
Coronel José Cardoso Ramalho Júnior. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

“[…] O Coronel José Cardoso Ramalho Júnior do Amazonas nasceu a 7 de abril de 1866, falecendo no Rio de Janeiro a 18 de setembro de 1952. Foram seus pais José Cardoso Ramalho e Maria Francisca da Conceição, ele português, ela brasileira.

Ramalho Júnior fez seus estudos primários em Manaus e os preparatórios em Portugal.

Regressando a sua terra, empregou-se no comércio, ao mesmo tempo ajudando o seu genitor nas labutas da correspondência e prestação de contas de mestre de obras. Dinâmico e inteligente, não lhe foi difícil abrir caminho nos arraiais da politica, contando com as influências dos próceres da época situando-se ao Partido Democrata. Foi eleito Deputado a Assembleia Legislativa. Seu nome foi indicado para vice-governador do estado, na chapa do capitão Fileto Pires Ferreira para governador no quatriênio de 1896-1900.

Entra na função do cargo. Acontece, porém, que o governador Fileto Pires, em 1896 transmite o poder ao seu substituto legal, viajando para a França, com a devida permissão do congresso Legislativo e por motivo de moléstia. Em Manaus tudo ficará em paz e em plena confiança. Uma vez chegando a Paris, o congresso, o mesmo Congresso Foguetão, aceita um pedido de renúncia de Fileto Pires Ferreira, pedido escandalosamente falso.

O Coronel Ramalho, substituto passa a ser o efetivo, até o fim do mandato. A renúncia foi uma das maiores farsas praticadas em nome da lei e do regime republicano. Campos Salles era Presidente da República.

Outros grandes acontecimentos de âmbito nacional atinentes ao Amazonas, se passaram no interregno da administração do Coronel Ramalho Júnior. Sem dúvidas o maior foi a Revolução do Acre, na qual o Brasil ganhou a partida, mas, o Amazonas perdeu grande parte do seu território, essa área que constituiu o território do Acre e há pouco, o estado do Acre, tudo contra o estatuto em nossa Carta Magna de então.

O Governo Federal parecia ter o propósito de entregar o Acre à Bolívia, outra coisa não significando a ordem de se permitir a instalação de uma alfândega mista em zona que disputávamos.

Mas Ramalho Júnior não concordava com esse esbulho. Levantou-se, mandou recurso para que a luta continuasse, o que sucedeu, dando lugar ao Tratado de Petrópolis. O manifesto que no auge da camonha, o governador amazonense mandou ao povo acreano, desconhecido, foi há pouco descoberto e estampado no jornal estado do Acre, da cidade do Rio Branco, de 12.12.1963.

Ramalho Júnior casou-se três vezes. O terceiro casamento foi com sta. Leonarda Antônia Malcher, filha de Leonardo Malcher. Deixou três filhas, Judith Ramalho Viana, viúva do sr. Manoel Esperança Viana. Magnólia casada com o dr. Júlio Nery, ex-integrante Federal no Amazonas, Myosotis, casada com o sr José Victor Sobrinho.

O Coronel José Cardoso Ramalho Júnior morreu pobre e tranquilo, pondo a larga durante a vida o seu grande coração e seu patriotismo dentro daquela boemia espiritual que sempre foi digno do seu temperamento”.

    Leia também: Desembargador Raymundo da Silva Perdigão: sereníssimo Grão-Mestre de 1904 a 1908

    Sobre o autor

    Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

    *O conteúdo é de responsabilidade do colunista