A via está sendo contemplada com cerca de 2 km de pavimentação. Foto: Francisco Sena/PMBV
As melhorias de infraestrutura avançam no bairro Bela Vista com a chegada do asfalto à avenida Rio São Francisco. A via já recebeu mais de 600 metros de drenagem e, agora, está sendo contemplada com cerca de 2 km de pavimentação. Na próxima etapa, receberá serviços de urbanização, incluindo mais de 1,7 km de meio-fio, 1,7 km de sarjeta e 1,8 km de calçadas.
De acordo com a secretária municipal de Obras, Kaynara Carvalho, as intervenções também contemplam os bairros Jóquei Clube, Jardim Tropical, Airton Rocha, Operário e Nova Cidade. Os investimentos integram um convênio de R$ 24 milhões, viabilizado por meio do Ministério das Cidades e de emenda parlamentar, com o objetivo de ampliar a infraestrutura urbana e melhorar a qualidade de vida da população.
As intervenções também contemplam os bairros Jóquei Clube, Jardim Tropical, Airton Rocha, Operário e Nova Cidade. Foto: Francisco Sena/PMBV
Ela destacou ainda, que a avenida Rio São Francisco é uma das principais vias do bairro Bela Vista e está passando por uma transformação completa.
“Agora avançamos com a pavimentação e na sequência, executaremos toda a urbanização da avenida, com canteiro central, calçadas, meio-fio e sarjetas. Estamos entregando uma obra completa, que vai melhorar a mobilidade, proporcionar mais segurança e acessibilidade, valorizar os imóveis e oferecer mais qualidade de vida para os moradores”, destacou a secretária.
“É um trabalho que a prefeitura faz pensando na população”, garantiu a comerciante Clarisse Sampaio. Foto: Francisco Sena/PMBV
Moradores comemoram chegada do asfalto
“Vai melhorar o tráfego de veículos e até o movimento do meu comércio. Sem falar que também ajuda as crianças a irem para a escola e a creche. É um trabalho que a prefeitura faz pensando na população que precisa desse serviço”, garantiu a comerciante Clarisse Sampaio, moradora do bairro Bela Vista.
O repositor Ramiro Ferreira, que mora na avenida Rio São Francisco, também agradeceu pelas melhorias no bairro. “As obras começaram com a drenagem e, quando vi as máquinas chegando com o asfalto, fiquei muito feliz. Minha casa ficará mais valorizada”, ressaltou.
As mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental e se tornaram um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. O aumento contínuo das temperaturas, as chuvas irregulares, as ondas de calor e a poluição do ar estão alterando o comportamento de doenças infecciosas e exacerbando problemas respiratórios, cardiovasculares e de saúde mental em diversas regiões do mundo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que, entre 2030 e 2050, o aquecimento global poderá causar aproximadamente 250 mil mortes adicionais por ano devido à desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico. Essa situação é agravada pela disseminação de doenças transmitidas por vetores, como dengue, zika e chikungunya, que prosperam em climas mais quentes e úmidos.
Fernando Siles, professor do programa de Medicina da Universidade Franz Tamayo (Unifranz), explica que as épocas de chuvas criam condições ideais para a proliferação de doenças infecciosas.
“Em Cochabamba, doenças respiratórias como resfriados e gripes são comuns devido ao aumento da umidade. Doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e malária, também são prevalentes devido à proliferação desses insetos em criadouros de água parada”, observa o médico.
Altas temperaturas e chuvas intensas favorecem a reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya. O preocupante é que o inseto começou a se adaptar a áreas onde antes não conseguia sobreviver.
“Nos últimos anos, temos observado que o mosquito se adaptou a novas áreas geográficas; embora não sejam casos excepcionais, trata-se de uma mudança que deve suscitar preocupação”, alerta o Dr. Froilan Mamani Ch., também professor da Unifranz.
Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a América Latina atravessa um de seus períodos mais desafiadores em relação às doenças transmitidas por vetores, devido à combinação de mudanças climáticas, urbanização acelerada e mobilidade humana. As temperaturas mais elevadas permitem que os mosquitos expandam sua área de distribuição geográfica e permaneçam ativos por mais meses do ano.
Até uma década atrás, a presença do mosquito Aedes aegypti acima de 2.550 metros de altitude era considerada improvável. Hoje, cidades e regiões antes consideradas seguras começam a registrar casos.
“Durante a estação chuvosa, os casos de certas doenças aumentam, sendo as mais relevantes a dengue, o zika e a chikungunya. Isso ocorre porque a umidade e a água parada levam à proliferação de mosquitos”, explica Mamani.
A dengue continua sendo uma das doenças mais perigosas. A OMS estima que ocorram entre 100 e 400 milhões de infecções em todo o mundo a cada ano. Em casos graves, o vírus pode causar hemorragias, choque e morte em poucas horas se não houver atendimento médico imediato.
Mas o impacto das mudanças climáticas na saúde não se limita a doenças infecciosas. Ondas de calor também aumentam o risco de insolação, desidratação e complicações cardiovasculares, especialmente em idosos e pessoas com doenças crônicas. O relatório Lancet Countdown alertou que a exposição prolongada ao calor extremo se tornou uma ameaça crescente para as cidades devido ao efeito de “ilha de calor urbana”, causado pelo acúmulo de concreto e pela falta de áreas verdes.
A poluição atmosférica é outro fator crítico. A OMS estima que cerca de sete milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças associadas à poluição do ar. Os incêndios florestais, cada vez mais frequentes e intensos devido às secas e às temperaturas extremas, agravam os problemas respiratórios e cardiovasculares.
Além disso, especialistas começam a alertar sobre o impacto psicológico da crise climática. Fenômenos como incêndios, inundações e secas geram ansiedade, estresse e uma crescente sensação de incerteza, especialmente entre os jovens. A chamada “ecoansiedade” é hoje reconhecida como uma resposta emocional ligada ao medo da degradação ambiental.
Foto: Divulgação
Diante desse cenário, a prevenção surge como a principal ferramenta para reduzir os riscos. Siles enfatiza a importância da adoção de medidas diárias de proteção à saúde e controle de vetores.
“Essas doenças podem aumentar durante a estação chuvosa devido à proliferação de mosquitos em criadouros de água parada”, destaca o acadêmico.
Eliminar recipientes com água acumulada, usar repelentes, reforçar a vigilância epidemiológica, expandir as campanhas de vacinação e melhorar a infraestrutura de saúde são algumas das ações recomendadas por organizações internacionais e especialistas.
As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. Seus efeitos na saúde humana são visíveis em hospitais, bairros e comunidades ao redor do mundo. A grande questão não é mais se elas impactarão a saúde pública, mas sim o quão preparados estarão os sistemas de saúde e as sociedades para enfrentar uma crise que se intensifica a cada grau de aumento da temperatura.
Maior felino das Américas e espécie-chave para o equilíbrio dos ecossistemas, a onça-pintada depende da conservação dos habitats naturais para sobreviver. Foto: João Marcos Rosa
Uma pesquisa recente do Instituto Vida Livre, em parceria com a Quaest, aponta aquilo que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) presencia diariamente em suas unidades de conservação (UCs) federais, centros de pesquisa e ações em campo: os brasileiros demonstram preocupação crescente com os animais silvestres e reconhecem a importância da conservação ambiental.
De acordo com o estudo, para 92% dos brasileiros, preservar os animais silvestres é algo “muito importante” (83%) ou “importante” (9%). Além disso, 68% da população acredita que a proteção da fauna deve estar entre as prioridades do país.
Mais do que revelar empatia pela fauna, a pesquisa evidencia um desafio central para a conservação no país: transformar este sentimento em participação ativa. Isso envolve desde atitudes cotidianas e engajamento social até o fortalecimento das políticas públicas ambientais, das unidades de conservação e das ações de pesquisa, monitoramento e fiscalização.
Nas unidades de conservação e centros de pesquisa do Instituto Chico Mendes, essa questão é prioritária aos trabalhos de quem atua para evitar o desaparecimento silencioso de espécies ameaçadas.
“O resultado dessa pesquisa mostra que a sociedade brasileira compreende algo que a ciência vem alertando há décadas: não existe futuro possível com florestas vazias e espécies desaparecendo diante dos nossos olhos”, salienta Marcelo Marcelino, diretor de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade (DIBIO) do ICMBio.
Segundo ele, quando uma espécie desaparece, não se perde apenas um símbolo da natureza brasileira. “Quando uma onça perde território, quando uma arara desaparece de um bioma, não estamos falando apenas da perda de um animal simbólico – estamos falando do enfraquecimento dos ecossistemas que sustentam a vida, a água, o clima e a própria segurança ambiental da população”, afirma.
Entre os animais silvestres, a pesquisa mostra que a onça-pintada (33%) e a arara (20%) são as espécies que mais representam o Brasil para a população. No ICMBio, projetos desenvolvidos em diferentes biomas ajudam a conservar essas espécies silvestres e também muitas outras que, mesmo menos conhecidas, são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas brasileiros.
“A proteção da fauna silvestre depende de políticas públicas permanentes, investimento em pesquisa, fiscalização, conservação dos habitats e fortalecimento das unidades de conservação”, destaca Marcelo Marcelino.
Onça, símbolo da fauna silvestre
No Parque Nacional do Iguaçu (PR), o segundo mais visitado do país em 2025, uma das mais importantes populações de onça-pintada da Mata Atlântica sobrevive graças a um esforço contínuo de pesquisa, monitoramento, proteção territorial e cooperação institucional.
“A onça-pintada é uma espécie-chave para o equilíbrio dos ecossistemas e sua presença no Parque Nacional do Iguaçu é um importante indicador da qualidade ambiental da unidade de conservação”, coloca o chefe da unidade, Ulisses dos Santos.
Predadora de topo da cadeia alimentar, a onça regula populações de outras espécies e ajuda a manter processos ecológicos fundamentais para a floresta. Sem ela, o equilíbrio ambiental começa a se desfazer em cadeia. “Onde há onça, há vida”, resume Ulisses.
No Parque Nacional do Iguaçu, ações de monitoramento e conservação ajudam a proteger uma das mais importantes populações de onça-pintada da Mata Atlântica – Foto: Adriano Gambarini
Mas proteger grandes mamíferos exige muito mais do que admiração pública. A perda e fragmentação dos habitats, os atropelamentos, os conflitos com atividades humanas e a redução dos remanescentes florestais seguem entre os maiores desafios enfrentados pela espécie. É nesse ponto que se apresentam os trabalhos do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) do ICMBio.
Embora a onça-pintada seja o animal mais conhecido, o centro atua também na conservação de espécies menos visíveis – e muitas vezes mais vulneráveis – como ariranhas, jaguatiricas, gato-palheiro-pampeano, gato-macambira, raposinha-do-campo e lobos-guará. Para o coordenador do centro, Rogério Cunha, um dos maiores paradoxos da conservação no país é justamente a distância entre o discurso ambiental e o apoio efetivo às ações de campo.
“Todo mundo acha bonito, acha importante proteger, mas quando a gente fala de realmente investir em ações de conservação, em disponibilizar recursos, cadê essas pessoas?” questiona.
Segundo Rogério, muitos projetos de conservação ainda dependem de redes de apoio externas, parcerias e campanhas de financiamento coletivo para fortalecer iniciativas de proteção da fauna. O desafio, afirma, é fazer com que a grande mobilização emocional que os animais despertam também se converta em maior engajamento da sociedade geral e do setor privado com a conservação.
O pesquisador também chama atenção para outro desafio crescente: a disseminação de conteúdos sensacionalistas e fake news envolvendo animais silvestres. Vídeos que tratam onças, lobos e outros carnívoros como atrações turísticas ou animais domesticáveis acabam reforçando uma percepção equivocada da fauna e dificultam estratégias de conservação baseadas em ciência e coexistência responsável.
Para ele, apoiar a conservação também significa defender políticas públicas ambientais e cobrar compromisso institucional dos setores que geram impactos sobre os habitats naturais.
Araras que ajudam a reconectar a cidade com a floresta
No coração de uma das maiores metrópoles do país, o Parque Nacional da Tijuca (RJ) convive diariamente com esse encontro entre pessoas e fauna silvestre. Ali, em meio à Mata Atlântica cercada pela cidade, histórias como as das araras Fátima e Sueli ajudam a aproximar o público urbano da biodiversidade brasileira – e transformam aves em símbolos vivos da conservação.
Além de personagens carismáticas, as araras representam também o trabalho contínuo de conservação, monitoramento e educação ambiental desenvolvido pelo ICMBio. Em uma floresta inserida dentro de uma grande área urbana, proteger a fauna exige pesquisa, manejo, acompanhamento técnico e, principalmente, a construção de uma relação mais consciente entre sociedade e natureza.
Fátima e Sueli, araras-canindé do Parque Nacional da Tijuca e símbolos da conservação da fauna silvestre em meio à Mata Atlântica urbana – Foto: Flávia Zagury/Reprodução ICMBio
A chefe do parque nacional, o mais visitado do país, Viviane Lasmar, vai ao encontro de Marcelino. “Os dados da pesquisa refletem a nossa rotina no Parque Nacional da Tijuca: o brasileiro tem um forte laço afetivo com a fauna silvestre, mas esse sentimento precisa virar cuidado concreto”, diz.
O parque convive com desafios permanentes relacionados à coexistência entre pessoas e vida silvestre. O avanço das construções da cidade, a circulação intensa de visitantes e práticas inadequadas no contato com os animais impactam diretamente a fauna e os ecossistemas protegidos.
É por isso que, segundo Viviane, “proteger essas espécies e combater a síndrome da floresta vazia é um compromisso urgente que depende diretamente das escolhas práticas de cada cidadão”. Ela lembra que pequenas atitudes fazem diferença direta na proteção da fauna: não alimentar animais, respeitar trilhas, descartar corretamente o lixo e compreender que espécies silvestres não pertencem ao ambiente doméstico nem ao entretenimento humano.
“O passo a ser dado, além do afeto, é transformar a empatia pelos bichos em respeito real, educação ambiental e engajamento permanente com o habitat deles”, recomenda Viviane.
Nesse processo, o trabalho do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE) do ICMBio estrutura estratégias de conservação em escala nacional. Como um dos 14 centros de pesquisa do Instituto, avalia o estado de conservação das espécies, elabora Planos de Ação Nacional (PANs), e atua no monitoramento populacional e em ações voltadas à proteção das aves brasileiras ameaçadas.
A coordenadora do CEMAVE, Priscilla do Amaral, também alerta para o fato de existir uma distância significativa entre sensibilização e ação prática, e destaca que as aves possuem enorme capacidade de aproximar as pessoas da biodiversidade justamente porque fazem parte do cotidiano, inclusive em áreas urbanas.
“Elas carregam um forte simbolismo cultural associado à liberdade, beleza e equilíbrio ambiental, funcionando como importantes embaixadoras da conservação”, explica.
Além do simbolismo, o monitoramento das aves também funciona como ferramenta de medição da saúde ambiental dos ecossistemas. O desaparecimento ou redução populacional de determinadas espécies pode indicar desequilíbrios ambientais relacionados ao desmatamento, fragmentação florestal, poluição e/ou mudança do clima.
Rondônia passou a contar com um novo marco legal voltado à ciência, tecnologia e inovação após a aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 178/2026. A proposta foi aprovada por unanimidade durante sessão itinerante da Assembleia Legislativa de Rondônia (Alero), realizada no Parque Vandeci Rack, em Ji-Paraná, na 13ª Rondônia Rural Show Internacional.
O texto estabelece diretrizes para ampliar o apoio à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e ao empreendedorismo inovador no estado. A expectativa é que a legislação contribua para fortalecer o ambiente de inovação, incentivar a criação de startups e aproximar instituições de ensino e pesquisa do setor produtivo.
A proposta foi elaborada pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec) em conjunto com universidades, centros de pesquisa, representantes do setor empresarial e outras entidades ligadas ao ecossistema de inovação.
Segundo o governador Marcos Rocha, a nova legislação busca criar condições para que pesquisas desenvolvidas em universidades e centros de pesquisa tenham maior aplicação prática e possam gerar empregos, negócios e desenvolvimento econômico. Ele afirmou que a medida faz parte da estratégia do estado para estimular a modernização e a diversificação da economia.
Ciência, tecnologia e inovação
A aprovação unânime é resultado da mobilização conjunta entre o governo de Rondônia, Assembleia Legislativa, instituições de ensino, pesquisadores, empreendedores e representantes do ecossistema de inovação.
De acordo com o presidente da Fundação de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa do Estado de Rondônia (Fapero), Paulo Haddad, o novo marco legal fortalece a capacidade do estado de promover desenvolvimento econômico por meio do conhecimento.
“Rondônia agora tem uma base legal para exigir avanços que se tornam cada vez mais importantes no desenvolvimento econômico. Tão importante quanto a aprovação por unanimidade é a responsabilidade do Legislativo em apoiar as causas da ciência, tecnologia e inovação. Estudos que levaram ao Prêmio Nobel de Economia deixaram claro: só há desenvolvimento econômico nos tempos atuais se houver inovação”, enfatizou.
Com a aprovação da matéria, a próxima etapa será a regulamentação da legislação. A coordenadora de Ciência, Tecnologia e Inovação da Sedec, Elizeth Mesquita, informou que os trabalhos terão início imediato. “Agora vamos para mais uma etapa: a regulamentação. Contaremos com a contribuição de todos. Iniciaremos já com a elaboração de uma minuta de decreto.”
Mais investimentos
Entre os principais avanços da nova lei está a alteração da Lei Complementar nº 283/2003, que institui o Fundo de Investimento e Desenvolvimento Industrial (Fider). A medida determina a destinação mínima de 10% do orçamento anual do fundo para ações e projetos de inovação, além de ampliar as possibilidades de captação de recursos para o financiamento de iniciativas estratégicas.
A legislação também estabelece prioridade para projetos de tecnologia social voltados à redução de vulnerabilidades e à melhoria da qualidade de vida da população, além de autorizar a utilização de áreas públicas para implantação de ambientes de inovação, como incubadoras, aceleradoras, centros tecnológicos e parques tecnológicos.
Outro destaque é a criação de mecanismos modernos para contratação de soluções inovadoras pelo poder público, fortalecendo o empreendedorismo tecnológico e reduzindo barreiras para o surgimento de novos negócios. A iniciativa amplia as oportunidades para startups e empresas de base tecnológica atuarem no desenvolvimento de soluções para demandas da administração pública.
O secretário-adjunto da Sedec, Felipe Biasoli, ressaltou que a legislação garante mais segurança e previsibilidade para os investimentos no setor. “O governo do estado tem trabalhado para realizar entregas que mudam para melhor a vida das pessoas. Foi aprovada uma lei que dá diretrizes e previsibilidade aos investimentos em ciência e inovação.”
El Niño de 2026 pode ser o mais intenso em décadas e previsões indicam quais impactos podem chegar no Brasil como secas, enchentes e ondas de calor. Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa
Em 1877, um El Niño de intensidade excepcional desencadeou uma das maiores catástrofes humanitárias do século XIX. Estima-se que dezenas de milhões de pessoas morreram ao redor do mundo em decorrência de secas, fome e doenças associadas ao fenômeno. No Brasil, o Nordeste foi devastado por uma das piores estiagens da sua história, teve lavouras destruídas, êxodo em massa, e uma crise que marcou gerações.
Quase 150 anos depois, modelos climáticos indicam que o El Niño de 2026 pode atingir uma intensidade comparável. A diferença fundamental é que hoje temos ciência, tecnologia e capacidade de nos antecipar. As projeções divulgadas pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Naciona dos Estados Unidos) em maio de 2026 apontam 82% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho, e 96% de que o fenômeno se mantenha entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, o que significa impactos que podem se estender até pelo menos o segundo semestre de 2027.
A intensidade máxima ainda é incerta mas, o que pode definir a gravidade é, em grande medida, o nível de preparação e resiliência dos países, estados e cidades que serão atingidos. O El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical.
Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto) Fonte: BTR1/CPTEC/INPE
Esse aquecimento altera padrões de vento e chuvas em escala global, com efeitos opostos em diferentes regiões do Brasil. No Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste do país, o El Niño costuma reduzir as chuvas e elevar as temperaturas, o que deixa essas regiões mais vulneráveis à secas prolongadas e às queimadas.
No Sul, o efeito se inverte e traz chuvas mais intensas e concentradas, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. No Sudeste e Centro-Oeste, ondas de calor ficam mais frequentes, geralmente combinadas com baixíssima umidade do ar.
O que é o Super El Niño?
Um Super El Niño ocorre quando a anomalia de temperatura da superfície do mar ultrapassa +2°C em relação à média histórica. Nos últimos 150 anos, isso aconteceu apenas 4 vezes: 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Os modelos climáticos atuais indicam que 2026 pode ser o quinto. Caso se confirme, significará um intervalo de pelo menos 5 anos mais curto entre um Super El Niño e outro, o que pode estar associado ao aquecimento global e intensificação das mudanças climáticas.
O fenômeno do El Niño em si é natural e cíclico, e provavelmente acontece há milhões de anos, mas o que mudou nas últimas décadas é o contexto ambiental em que ele ocorre, contribuindo para o aumento na sua frequência e intensidade. Não é coincidência que entre 2023 e 2025 tenha-se registrado os maiores picos de ondas de calor no Brasil desde 1980, e que eles sejam ainda mais intensos em anos de El Niño.
O oceano é parte essencial desse mecanismo, pois regula o clima do planeta por meio de suas correntes, que distribuem calor ao redor da Terra, influenciando as temperaturas, as chuvas e os padrões climáticos em diferentes regiões.
O fenômeno El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico. — Foto: NOAA
As emissões pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pela pecuária vem aquecendo o planeta, e os oceanos absorvem a maior parte desse calor. Com os mares em temperatura cada vez mais alta, o El Niño passa a ocorrer em condições mais extremas do que as de décadas anteriores. Assim, embora o El Niño continue sendo um fenômeno natural, seus efeitos são amplificados por um clima cada vez mais desequilibrado. Por isso, proteger os ecossistemas marinhos é, diretamente, fortalecer a resiliência climática de populações costeiras e ribeirinhas.
As florestas também têm papel fundamental nessa equação e, quando degradadas, elas perdem a capacidade de regular a temperatura, reter umidade e influenciar na formação de chuvas. Em anos de seca severa, a floresta em pé e conservada funciona como uma proteção climática. Quando a seca aperta em algumas regiões, cresce muito a probabilidade de incêndios florestais em áreas com mata degradada, que não consegue impedir o avanço do fogo, muitas vezes provocado por ações humanas.
O El Niño de 2023/2024 não chegou a ser considerado “Super”, mas sim como “Forte”. Nesse período, o Brasil enfrentou sua maior seca recente em extensão e 4.748 municípios (mais de 80% dos municípios do país) registraram algum grau de estiagem, dos quais quase 1.400 em níveis severos ou extremos. Em 2024, na Amazônia e no Pantanal, incêndios de grandes proporções devastaram extensões territoriais recordes. Comunidades no Norte respiraram ar com concentrações de partículas finas que superaram registros de grandes metrópoles globais, situação documentada em detalhe no relatório Céus Tóxicos, do Greenpeace.
No oceano, o calor extremo também provocou o 4º evento global de branqueamento em massa de corais já registrado, afetando recifes em diferentes regiões do Brasil e deixando os corais expostos a meses consecutivos de estresse térmico. Quando esses ambientes entram em colapso, populações costeiras se tornam mais vulneráveis a perdas econômicas, insegurança alimentar, danos à infraestrutura e aumento do custo de vida, aprofundando desigualdades sociais em cidades e territórios que dependem diretamente do oceano.
No Sul, por exemplo, o Rio Grande do Sul viveu um dos maiores desastres climáticos de sua história. Enchentes de escala inédita destruíram casas, infraestrutura e vidas.
Além das tragédias, o El Niño traz consequências econômicas também. O Banco Central reconheceu o impacto inflacionário do evento sobre os preços dos alimentos, especialmente produtos in natura. Famílias que já comprometem grande parte do orçamento com despesas básicas sentiram diretamente no bolso o custo da estiagem, das queimadas e das enchentes. E reagir depois de instalada a crise custa muito mais do que investir em prevenção antes.
O que esperar em 2026 e 2027 no Brasil
Com base nas análises do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN) divulgadas em 19 de maio, os padrões esperados para o próximo ciclo seguem o comportamento histórico dos Super El Niños anteriores.
Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste: Redução de chuvas, temperaturas mais altas e maior vulnerabilidade a secas prolongadas. Os efeitos sobre a geração de energia hidrelétrica nas bacias do Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia são uma preocupação concreta. Menos água nos rios significa menos energia e mais pressão sobre os preços, além da degradação da qualidade da água, do ecossistema, e dos impactos da seca para a população local.
Ainda nessas regiões, sobretudo na Amazônia Legal e no Pantanal, as temperaturas elevadas e a possibilidade de secas prolongadas aumentam significativamente os riscos de incêndios florestais, frequentemente agravados pelo uso inadequado ou criminoso do fogo. Embora o cenário para o bioma Amazônia ainda seja incerto para este ano – devido ao elevado volume de chuvas incomum para a época – permanecem em estado de alerta as áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado e, principalmente, o Pantanal.
O alerta, inclusive, já foi reforçado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino intimou a União e os estados dessas regiões a informarem, no prazo de até 10 dias úteis, quais providências e planejamentos estão sendo adotados diante das projeções já divulgadas.
Sul: aumento significativo no volume e na intensidade das chuvas entre setembro e dezembro. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná concentram os maiores riscos de enchentes, enxurradas e deslizamentos. Porto Alegre segue como área de atenção máxima, com infraestrutura ainda em recuperação.
Sudeste e Centro-Oeste: ondas de calor mais frequentes combinadas com baixa umidade, impactando saúde pública, produção agrícola e segurança hídrica.
Oceano: Dados do NOAA mostram que 10% das áreas monitoradas no mundo já registram branqueamento de corais em 2026 e o El Niño pode agravar a situação. Duas estações no Brasil, Maracajaú (RN) e Todos os Santos (BA) já estão sob alerta de branqueamento inicial.
Em todos os casos, os impactos mais severos tendem a recair sobre quem tem menos recursos para se proteger: comunidades periféricas, indígenas, ribeirinhas, costeiras e agricultores familiares.
O que fazer agora?
A diferença entre o El Niño de 1877 e o de 2026 não está apenas no tempo que passou, está também na capacidade de agir com base em informação antecipada. Segundo dados da plataforma AdaptaBrasil, dois em cada três municípios brasileiros têm baixa ou muito baixa capacidade adaptativa às mudanças climáticas, evidenciando fragilidades na preparação e resposta a eventos extremos e suas consequências, e isso pode fazer a diferença entre uma crise gerenciável e uma tragédia anunciada.
Para que os eventos previstos não repitam o que vimos em 2023/2024, governos federal, estaduais e municipais precisam agir agora:
Ampliar o orçamento em adaptação climática, prevenção e resposta a desastres;
Garantir que governos federal, estaduais e municipais estejam preparados para prevenir e combater incêndios florestais, especialmente em biomas sob maior risco, como Pantanal, Cerrado e áreas de transição da Amazônia;
Implementar infraestrutura verde e azul nas cidades – recuperação de rios, parques alagáveis, áreas permeáveis, reflorestamento urbano;
Fortalecer a proteção costeira e marinha por meio de áreas marinhas protegidas que incluam corredores migratórios, áreas de alta biodiversidade e ecossistemas estratégicos como recifes de coral e manguezais,
Fortalecer sistemas de defesa civil, monitoramento climático e resposta rápida a eventos extremos;
Barrar retrocessos na legislação ambiental e o avanço de medidas que enfraqueçam ainda mais a fiscalização, o licenciamento ambiental e a capacidade do Estado de prevenir crimes ambientais e queimadas ilegais.
Garantir que as comunidades mais vulnerabilizadas participem das decisões, não apenas sofram as consequências.
Curta reúne vozes da ciência indígena e acadêmica para mostrar que soluções baseadas na natureza não apenas existem, como já estão sendo implementadas. Foto: Reprodução/Youtube-WWF-Brasil
Em meio ao avanço do desmatamento, da degradação florestal e da crise climática, o curta documental ‘Ponto de Virada da Amazônia’, produzido pelo WWF-Brasil, traz uma mensagem urgente: ainda é possível evitar o colapso da maior floresta tropical do planeta – mas o tempo para agir está se esgotando.
Codirigido por Fer Ligabue, Jacqueline Lisboa e Solange Azevedo, o filme reúne vozes da ciência indígena e acadêmica para mostrar que soluções baseadas na natureza não apenas existem, como já estão sendo implementadas por povos e comunidades que protegem a floresta há gerações.
O curta acompanha iniciativas do povo Paiter Suruí, na Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia, que conciliam conservação ambiental, fortalecimento cultural e geração de renda sustentável. Produção de café, cacau, banana e castanha são algumas das atividades apresentadas no filme como exemplos de uma economia capaz de manter a floresta em pé.
“Essas iniciativas de produzir com responsabilidade e de forma sustentável são um modelo que a gente está propondo para a Amazônia”, afirma o cacique geral Almir Suruí no documentário.
Curta documental Ponto de Virada da Amazônia direciona o olhar para soluções concretas capazes de evitar esse cenário de colapso ao bioma. Foto: Reprodução/Youtube-WWF Brasil
Mais do que retratar experiências locais, o curta reforça que a proteção da Amazônia é estratégica para o equilíbrio climático global. O bioma abriga mais de 10% da biodiversidade terrestre do planeta, influencia o regime de chuvas em toda a América do Sul e armazena entre 250 e 300 bilhões de toneladas de carbono. No entanto, cientistas alertam que partes da floresta já apresentam sinais de ruptura ecológica.
Curta reforça riscos na Amazônia
O tema dialoga diretamente com o curta documental anterior do WWF-Brasil, Ponto de Não Retorno da Amazônia, premiado no Concurso de Filmes Yale Environment 360 de 2025, que alerta para o risco de a Amazônia atingir um estágio irreversível de degradação, perdendo sua capacidade natural de regeneração e passando a emitir mais carbono do que absorver.
Se o documentário anterior evidenciava os impactos devastadores da destruição ambiental, Ponto de Virada da Amazônia direciona o olhar para soluções concretas capazes de evitar esse cenário.
Entre os entrevistados do novo curta estão Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia, e Ivaneide Bandeira Cardozo, cofundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. Ambos reforçam que povos indígenas e comunidades tradicionais desempenham papel fundamental na proteção do bioma e no enfrentamento da crise climática.
O documentário também destaca dados do estudo Nova Economia da Amazônia, segundo o qual investimentos em bioeconomia e conservação podem gerar até 833 mil novos empregos e mais de R$ 40 bilhões anuais para o PIB da Amazônia Legal até 2050, além de reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa.
Filme reúne vozes da ciência indígena e acadêmica para mostrar que soluções baseadas na natureza não apenas existem, como já estão sendo implementadas. Foto: Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
Ao conectar conhecimento ancestral, ciência e soluções econômicas sustentáveis, Ponto de Virada da Amazônia reforça uma mensagem central: a floresta em pé vale mais do que destruída – ambiental, social e economicamente.
“A maior economia está na floresta em pé. A maior economia está na vida garantida. A maior economia é a economia de um futuro habitável também”, destaca Txai Suruí no filme. “E que dá para produzir. Mas também proteger.”
Em um momento em que a Amazônia se aproxima de limites críticos, o curta evidencia que proteger o bioma não é apenas uma questão ambiental, mas uma decisão essencial para o futuro climático, econômico e humano do planeta.
Altamira, no sudoeste do Pará, sedia o Chocolat Xingu, no Centro de Eventos Vilmar Soares entre 11 e 14 de junho. Essa será a quinta passagem do evento – que é considerado o maior do setor na América Latina – pela Região Transamazônica, importante rota turística e econômica do estado e principal polo cacaueiro do Brasil. A programação será gratuita e aberta para o público geral.
Produtores rurais, agricultores familiares, lideranças setoriais, empreendedores e chefs de cozinha paraenses participarão do evento defendendo a força produtiva e a culinária local, com exposição, degustação e comercialização de uma variedade de produtos de origem do cacau, como chocolate artesanal, nibs, geleias, manteiga e mel de cacau.
Para o Chocolat Xingu são esperados mais de 100 expositores de Altamira e de outros municípios do estado, como a capital, Belém, Medicilândia, maior produtor nacional de cacau, Brasil Novo, Placas, Vitória do Xingu, Anapu, Uruará, Novo Repartimento, Barcarena e Santarém.
Programação do Chocolat Xingu 2026
O Chocolat Xingu 2026 contará com diversas atrações gastronômicas, culturais e formativas. Para essa edição já estão confirmadas a Cozinha Show e Cozinha Kids, com aulas técnicas de preparação de receitas e experiências degustativas para o público adulto e infantil. A grade contará com grandes chefs regionais e nacionais, entre eles Katyana Xipaya, líder indígena, defensora da culinária tradicional e empreendedora. Os chefs André Cabral, Carlos Motta, Léo Modesto, Bárbara Luanny, Rita Aguiar e Luíza Tabosa também integram a atividade.
O Ateliê do Chocolate retorna para a 5ª edição do Chocolat Xingu, valorizando os símbolos culturais da região através da confeitaria artística. Esculturas gigantescas, feitas 100% de chocolate, serão construídas durante o evento pelo chocolatier Léo Vilela e o público poderá acompanhar o processo em tempo real.
Outras atividades previstas são o “Concurso de Melhor Chocolate Paraense e de Produtos Derivados de Cacau e Chocolate do ChocolatXingu 2026”, com premiação para os agricultores e produtores que trabalham com o cacau fino de alta qualidade, e o Túnel Sensorial, experiência imersiva que, através de um sistema de paisagismo, reproduz os sons, aromas e texturas de uma plantação de cacau.
O Chocolat Xingu também conta com rodadas de negócios B2B e programação técnica, com uma série de palestras com temas como inovação, sustentabilidade e o futuro da cacauicultura brasileira, a exemplo do Fórum Origem e Origem Day, que trarão painéis de debates com especialistas e autoridades do setor.
De acordo com Marco Lessa, idealizador do Chocolat Festival e CEO da MVU Empreendimentos, a expectativa é de que a feira receba milhares de pessoas e movimente milhões em negócios diretos e futuros. Para o empresário, o evento se estabelece como um grande vetor econômico para o Norte do país, alavancando setores como agronegócio, turismo e bioeconomia.
“O Chocolat Festival chega à sua 5a edição em Altamira, consolidado como a principal vitrine do cacau e do chocolate de origem na Região de Integração do Xingu. O festival fortalece a bioeconomia amazônica ao valorizar o cacau sustentável, gerar renda local e ajudar a manter a floresta viva. Reúne produtores, marcas autorais e compradores, ampliando acesso a mercados nacionais e internacionais. Atraindo dezenas de milhares de visitantes, movimenta turismo, hotelaria e gastronomia na capital paraense. As rodadas de negócios e a programação técnica impulsionam milhões em vendas e parcerias futuras. Assim, o Chocolat Xingu se afirma como instrumento estratégico de desenvolvimento e projeção da região Norte no mapa mundial do chocolate de origem”, disse Lessa.
Foto: Divulgação
Altamira, potência na produção de cacau
Maior município brasileiro em extensão territorial (159.533 km²), Altamira está localizada na Rota de Integração do Xingu, na região da Transamazônica, que engloba outras
cidades que juntas detém o título de maior polo cacaueiro do país.
Atualmente o estado do Pará responde por mais da metade da safra nacional do cacau, que produz cerca de 150 mil toneladas por ano. Deste montante, Altamira é responsável por 7 mil toneladas, colocando a cidade no ranking dos 10 maiores produtores do Brasil.
Com o objetivo de transformar a cadeia produtiva do cacau em um polo de inovação, turismo e economia criativa, o Chocolat Xingu se consolidou no calendário de eventos da Amazônia. Só no Pará, o festival conta com edições em Belém e Altamira, totalizando quase 50 edições no Brasil e no exterior.
O Chocolat Xingu 2026 é uma realização da Prefeitura de Altamira, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura (Semagri) e da Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), em parceria com o Governo do Pará, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca do Pará (Sedap) e com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cacauicultura do Pará (Funcacau). A organização é da MVU Promoções e Eventos, idealizadora do Chocolat Festival.
Entrada é gratuita, mediante a doação de 1 Kg de alimento não perecível para instituições filantrópicas.
Iniciativa Amazônia+10 assina carta de investimentos na Amazônia. Foto: MME – Ministério de Minas e Energia
Representando Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas participou, no dia 27 de maio, da assinatura da carta de investimentos do programa “Desafios da Amazônia” para impulsionar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação voltados à solução de desafios concretos das cadeias socioprodutivas da Amazônia Legal. O programa será coordenado pela Iniciativa Amazônia+10.
A ação será viabilizada com recursos do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O documento de aprovação foi assinado durante cerimônia de realizada no Estaleiro Juruá em Iranduba (distante a 27 km de Manaus).
Participaram da cerimônia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o Governador do Amazonas, Roberto Maia Cidade Filho; a diretora-presidente da Fapeam, Márcia Perales Mendes Silva; o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco; a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos; além da diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Luciana Costa.
Com um aporte de R$ 150 milhões, o programa visa financiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), com foco na solução de desafios concretos das cadeias socioprodutivas da Amazônia Legal.
Iniciativa Amazônia+10 assina carta de investimentos de R$ 150 milhões para fortalecer a pesquisa e inovação na Amazônia. Foto: Ricardo Oliveira/BNDES
A diretora-presidente da Fapeam ressaltou que a assinatura do acordo representa um avanço estratégico para a consolidação da Iniciativa Amazônia+10 e para o fortalecimento das políticas de ciência, tecnologia e inovação voltadas à Amazônia Legal.
“A assinatura de hoje é mais um passo importante em direção à consolidação da Iniciativa Amazônia+10, cujo principal objetivo é, por meio da ciência, tecnologia e inovação, fomentar pesquisas no âmbito da Amazônia Legal em parceria com outros estados e países para o fortalecimento da área e para a busca de respostas às questões vistas como problemáticas, aos óbices que a gente encontra aqui e que queremos superar. A pesquisa efetivamente, é uma forma imprescindível na busca dessa superação. O Confap agradece aos ministérios envolvidos e reitera o seu compromisso com este que é um dos seus programas mais relevantes no combate às assimetrias regionais”, comentou a diretora-presidente da Fapeam.
O programa, implementado também em parceria com a Fundação Arthur Bernardes, prevê o lançamento de até duas chamadas públicas para apoiar pelo menos 18 projetos colaborativos, com investimento médio de R$ 7 milhões por projeto. As iniciativas deverão reunir, no mínimo, duas Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs) e uma Organização Socioprodutiva (OSP), todas sediadas na Amazônia Legal, podendo contar ainda com a participação de ICTs de todo o território nacional.
Em seu primeiro edital, os recursos destinados ao Programa apoiarão o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas às cadeias do açaí, cacau, castanha, cupuaçu e pescado, com foco na agregação de valor, desenvolvimento sustentável, fortalecimento da bioeconomia e geração de renda para populações amazônicas. O programa também prevê apoio à implementação das soluções nos territórios, fortalecimento institucional e concessão de bolsas de pesquisa, incluindo bolsas comunitárias.
Iniciativa Amazônia+10 assina carta de investimentos de R$ 150 milhões para fortalecer a pesquisa e inovação na Amazônia. Foto: Reprodução/Agência BNDES
Entre os resultados esperados estão o desenvolvimento de cerca de 36 soluções tecnológicas para gargalos das cadeias produtivas amazônicas, a participação direta de pelo menos 72 instituições científicas e tecnológicas da região e o envolvimento de cerca de 630 pesquisadores da Amazônia Legal.
Os projetos devem ser liderados por instituições de ciência e tecnologia da Amazônia Legal, mas podem reunir instituições de pesquisa de todo o Brasil. São elegíveis para compor os projetos universidades públicas e privadas sem fins lucrativos, instituições de pesquisa, institutos federais, em parceria com associações comunitárias e cooperativas.
Sociobioeconomia
Criado em 2008, o Fundo Amazônia financia ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, além de iniciativas de conservação e uso sustentável da Amazônia Legal. Desde 2023, após quatro anos paralisado, o Fundo Amazônia ampliou o apoio a projetos voltados à bioeconomia, povos indígenas, ciência, inovação, restauração florestal e desenvolvimento sustentável na região amazônica.
Desde 2023, já foram destinados mais de R$ 1,6 bilhão do Fundo a atividades produtivas sustentáveis, com expectativa de beneficiar mais de 100 mil pessoas e apoiar cerca de 300 organizações locais em todos os estados da Amazônia Legal. Em sua trajetória, o instrumento acumula 287 mil pessoas beneficiadas, R$ 364 milhões em receitas geradas e apoio a 600 instituições, consolidando-se como um dos principais mecanismos de financiamento à bioeconomia e à conservação florestal no país.
Em compromisso com a transparência, o site do Fundo Amazônia disponibiliza informações sobre todos os projetos apoiados.
Iniciativa Amazônia+10
A Iniciativa Amazônia+10 é um Programa de fomento à pesquisa, em parceria com o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência Tecnologia e Inovação (Consecti) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). No Amazonas, a chamada é executada pelo Governo do Amazonas, via Fapeam.
Iniciativa Amazônia+10 assina carta de investimentos de R$ 150 milhões para fortalecer a pesquisa e inovação na Amazônia. Foto: Divulgação
O Programa tem o objetivo de apoiar pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico em instituições de ensino e pesquisa e em empresas sobre os problemas atuais da Amazônia, que tenham como foco o estreitamento das interações natureza-sociedade para um desenvolvimento sustentável e inclusivo da região amazônica.
Entre as linhas temáticas, estão: Territórios como infraestrutura e logísticas que facilitam o desenvolvimento sustentável em dimensão multiescalar; Povos da Amazônia como protagonistas do conhecimento e da valorização da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas; e Fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis pelos amazônidas.
*Com informações da Fapeam (e dados do MMA, MCTI, BNDES E MME)
Depois de um dia intenso de trabalho no seringal, um seringueiro chega em um bar em Assis Brasil, limite entre Acre com ‘os peruanos’, na cidade de Inãpari. Aquele homem, que veio do nordeste, chegou na Amazônia atrás do “ouro branco”, a borracha. Com saudades de casa e desiludido com tanta exploração, ele vai atrás de ouvir uma música que lembre de casa. “Mulher Rendeira”, era sua favorita. Até que, cerca de 200 metros de onde está, ele ouve alguns acordes familiares. Era “Mulher Rendeira”, a mesma melodia, mas cantada em espanhol peruano.
O seringueiro chega no bar e ouve o som, que dizem ter sido composta pelo próprio Lampião, o cangaceiro mais famoso do Brasil. Dizem que foi dedicada a Maria Bonita. Na tríplice fronteira acreana, que junta Brasil, Bolívia e Peru, Juaneco López misturou com seu som tradicional local, como a cumbia amazônica. Ritmo sincopado que vem dos povos originários, que serve como uma base melódica. Sobre essa base, foram se inserindo outros gêneros: a cumbia original da Colômbia, o chachachá e o rock, que traz sua influência a partir do uso da guitarra elétrica.
Enquanto do lado de cá, os seringueiros, sob lideranças como Valdiza Alencar, Wilson Pinheiro e Chico Mendes se levantavam contra os proprietários de terras que queriam desmatar a Floresta, no Peru, a história também é sangrenta. Um dos maiores genocídios documentados aconteceu no território peruano, na época da borracha.
Os barões da borracha, donos de extensos territórios ou se apoderavam deles, e escravizavam povos originários entres as árvores de seringa. Indígenas e outros países também eram sequestrados e levados para lá. Por lá também chegaram brasileiros e, dessa proximidade cultural que existiu nesse encontro, também chegou essa sonoridade.
Tríplice fronteira sonora
“Os ritmos caribenhos também entraram nessa mistura. Tudo isso é uma confluência feliz que faz com que se crie, justamente, a cumbia amazônica”, explica o produtor cultural peruano Carlos Marin, que é cineasta, nascido na Amazônia Peruana.
Vindo da cena alternativa, ele está produzindo um longa-metragem que retrata a história dos criadores da cumbia psicodélica, gênero criado em Pucallpa, acompanhando grupos como Juaneco y su Combo.
“A música deles soava em algumas festas como, por exemplo, na festa de San Juan, em 24 de junho. O tema da festa de San Juan aqui é Juaneco y su Combo. Também na semana jubilar de Pucallpa, que é a data em que se recorda a criação da cidade,Juaneco volta a tocar. No entanto, o grupo nunca era levado em consideração”, diz Marin.
Festival Varadouro. Foto: Hannah Lydia
Não existe muita documentação sobre toda a história do coletivo, mas nos últimos anos, eles se mantêm presentes em festivais e bares, como no Festival Varadouro, um festival de música independente do Acre.
“Sinto que essa cumbia psicodélica está presente neste pedaço da fronteira. Há uma relação próxima entre o Juruá, a região de Cruzeiro do Sul e Pucallpa, porque muita gente fez esse movimento de ir e vir antigamente, quando havia menos pressão de tráfico”, defende Karla Martins, produtora do evento.
Para ela, os acreanos se identificam com o repertório, como as produções de Juaneco, porque tem esse som fronteiriço, “que mexe com a gente e faz requebrar”. Karla continua falando que essa identidade sempre aconteceu na região amazônica como um todo. “Do contrário, a lambada não seria um sucesso, nem a guitarrada [ritmo presente, principalmente, em Belém do Pará], que também chega para nós”.
No lado boliviano e peruano, a cumbia amazônica (ou chicha) mistura a psicodelia das guitarras elétricas dos anos 70 com cadências tropicais e influências andinas. Na Bolívia, a cumbia contemporânea, ou “cumbia boliviana”, caracteriza-se pelo uso de sintetizadores e por ser acelerado, dominando as festas populares e as mixagens de DJs em Cobija, cidade boliviana que também faz fronteira com o Acre. Ritmos brasileiros, como o forró e o samba, também acabam entrando no caldeirão de ritmos.
Carlos Oliveira, mais conhecido como Carlão, é um sambista na faixa de fronteira do Acre com a Bolívia, no município de Epitaciolândia. Com quase 20 anos de carreira, desde pequeno é compositor. Atualmente, ele é gestor na escola em que trabalha. Mas, nas noites de Cobija, ele canta samba e pagode em bares, aniversários (durante a entrevista, ele parou para marcar sua presença em um, inclusive) e outros eventos.
“O meu gênero preferido é o samba […] Onde a gente toca, os amigos da Bolívia vêm, já conhecem o nosso trabalho, tanto que a gente vai até lá e faz o nosso pagode também”, explica. Pensando nesta adesão do público boliviano, Carlão conduz algumas melodias em espanhol para o pagode e o samba e sua banda canta sucessos brasileiros na língua espanhola.
Na fronteira da Bolívia, o músico Carlão Oliveira toca samba em espanhol para o público. Foto: Carlos Oliveira/Acervo pessoal
Bases para a melodia do presente
As sonoridades desta zona trinacional estão enraizadas em cosmologias milenares. Som e imagem estão interligados para povos como os Shipibo, que desenham cantos, literalmente, por meio de seus kenês, ensinados pela Anaconda, em um de seus contos. Os rituais de cura de povos como Pano, Nukini e Huni Kuin, também reverberam esta expressão artística em sua concepção.
Projetos contemporâneos de artivismo, como o podcast “Vozes da Floresta”, organizado pela Rede de Comunicadores Indígenas do Acre, fortalecem essas narrativas frente à pressão da criminalidade e do apagamento social-histórico. E o conjunto musical Shane Yamã Keneya do povo Shanenawa e os Manchineru também reinventam a cena com a ancestralidade de sua cultura.
Outra característica desta sonoridade fronteiriça é que ela é poliglota. O “portunhol” une faixas de reggaeton com samba e com outros gêneros amazônicos que ganham espaço em lugares de festa por toda a região.
“Essas fluências do ir e vir, esses ritmos populares, eles se concentram e se encontram na medida que as pessoas fazem as cruzes de fronteira. Eu diria que esse intercâmbio sempre aconteceu, sempre esteve próximo e que faz todo sentido entre essas cidades fronteiriças”, diz Karla Martins.
Esta circulação é marcadamente informal por meio da venda de CDs e pendrives em comércios populares em Cobija e Inãpari, divulgando os DJs que ainda não chegaram nas plataformas digitais, pelas rádios locais e, claro, pelo Youtube e também por grupos de WhatsApp, que funcionam como repositórios de mixes.
Se na “Belle Époque”, a ocupação pela extração da borracha, na segunda metade do século 19, gerou um processo de urbanização, depois do Tratado de Petrópolis, em 1903, o Acre viveu marcos diplomáticos, como a fundação da cidade de Assis Brasil, em 1976, que antes era o seringal Paraguaçu. Nesse período, as cidades de fronteira viraram “cidades gêmeas”, por conta da linha divisória pequena. Era Assis Brasil-Inãpari, era Epitaciolândia-Brasiléia-Cobija.
“Assim, chegamos mais ou menos aos anos 2000, 2005, quando se pode encontrar em mercadinhos da América Latina e até da Europa algumas coletâneas em fita cassete de música peruana dos anos 70. Nelas, há grupos de rock emblemáticos como Los Saicos e Los Belkings. Também se encontram Los Destellos, considerados os fundadores da cumbia peruana, que surgiu quase ao mesmo tempo que a cumbia amazônica”, esclarece Marin.
O programa de rádio “Correspondente Difusora”, da Rádio Difusora, permitia que moradores de seringais distantes e comunidades de difícil acesso recebessem notícias de familiares e ouvissem dedicatórias. Nessas coletâneas radiofônicas também havia o Grupo Celeste, embrião de uma cumbia mais limenha, ligada à Lima, capital do Peru, que depois se consolidou com Los Shapis.
Nos anos 80, com o advento da violência urbana, muitos artistas peruanos de cumbia viajaram para a Argentina e estabeleceram os pilares da bailanta argentina. No caso do Brasil, Juaneco também seguiu pelos rios e chegou a zonas bastante afastadas. “Eu diria que a música brasileira chegou primeiro ao lado peruano e, depois, o resultado desse encontro retornou pelos rios para estados como o Pará, onde se pode escutar músicas com influências da cumbia peruana”, explica.
Contudo, poucos restam hoje em dia, por conta da morte, idade avançada e doenças. Um exemplo são os Los Wembler’s de Iquitos, que misturaram sons tradicionais da selva peruana com batidas tropicais brasileiras. Depois da construção da Ponte de Integração, em 2010, uma nova camada de interculturalidade se iniciou, motivada, principalmente, pelo boom da internet no território, tendo como exemplos mais atual, a banda L4.
Carlão conta que, mesmo em 2026, o samba raiz ainda é o que levanta seu público na Bolívia, como os clássicos dos anos 90, como Raça Negra, Só pra Contrariar, Negritude Júnior. Mas nomes atuais, como o cantor Ferrugem também fazem sucesso. Um dos motores para esta mistura são as universidades de medicina, que possuem muitos estudantes brasileiros.
“Quando você canta um repertório de pagode dos anos 90 agrada bem mais, assim como o pagode atual […] A gente tem que unir uns três gêneros para tentar agradar a todos. Além disso, também pegamos aquele sertanejo mais tocado e transformamos em pagode, e aí a galera vai junto com a gente também”.
Harmonias interrompidas pelo preconceito
A produtora cultural Karla Martins. Foto: Hannah Lydia
Programas de incentivo à cultura estão presentes na Tríplice Fronteira Amazônica. Contudo, o acesso continua limitado, por questões financeiras, como aponta Karla. Para a entrevistada, o desafio é arcar com despesas como passagens aéreas que dificultam a chegada desses artistas em regiões mais afastadas do país. Além disso, ela avalia que o Brasil precisa entender sua real intensidade.
“Às vezes, a gente acaba se embatendo na ideia de que o agro ganhou força por ser uma narrativa estética e política, enquanto essas outras narrativas parecem se perder por não estarem na grande mídia. Mas eu acho que, na hora em que o Brasil olhar para essa foto real, ele vai se entender, porque a cultura conversa entre si independentemente de qualquer língua”.
Quando a cumbia surgiu nos anos 70, havia muita marginalização, sobretudo das produções musicais que eram criadas para fazer o povo dançar. Carlos Marin relembra que termos como “serrano, provinciano, colonheiro” eram empregados de forma pejorativa para quem escutava. “Agora, o fato é que você pode ouvir cumbia em uma festa de brancos, entre aspas, em festas de classes sociais altas; já é algo aceito. Antes se duvidava da qualidade, mas agora não. Hoje existem estudos e, além disso, tem o fato de essa música ter viajado sozinha para o exterior”, explica o cineasta.
Este processo se deu, justamente, pela aglutinação de todo este histórico cultural em festas de pessoas mais ricas. Mas o entrevistado afirma que esta conversa se encontra em melodias mais calmas.
“Pertence a todos. Agora mesmo, se você for ao centro de uma cidade como Pucallpa, a música é mais roqueira, mais hegemônica; você vai ouvir mais gente escutando reggaeton e tudo mais. Mas, se você for um pouquinho além, nas periferias, o pessoal continua escutando sua cumbia dos anos 70, dançando e aproveitando”.
Uma só voz (amazônida)
No Brasil, festivais com o Varadouro e o Jovens do Futuro estão dispostos a abraçar essa característica fronteiriça em seus artistas convidados. “Aqui a gente vai nos baques acreanos, a guitarrada e o carimbó, nos ritmos que têm ali na Venezuela e os caribenhos das Guianas”, evidencia Karla Martins.
Para o Marins, você escuta o carimbó, por exemplo, e a primeira coisa que te dá vontade de dançar. Escuta a cumbia e a primeira coisa que quer é dançar. Mas é preciso que existam “varadouros” (nome do festival, mas também nome dos caminhos que os seringueiros usavam para coletar seringa) tanto no Brasil quanto no Peru, que possibilita a chegada de expressões, como as toadas de Parintins. O produtor até cita que já existem alguns concursos de toada em terras peruanas, embora poucos.
Felipe Cordeiro, artista paraense e atração do Festival Varadouro de 2025, também mistura estes sons em sua “cozinha musical”, como diz Carlos Marin. A organizadora do Varadouro, porém, tem uma análise mais profunda sobre o papel do nosso país nessa discussão. “Falta o Brasil olhar para si de forma menos colonizada, com menos complexo de vira-lata; olhar para si mesmo em vez de estar olhando para o que está longe, para o que está fora. Se enxergar. Eu acho que isso é o mais importante e é o que faz a Tríplice Fronteira se entender.”
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Victor Manoel
Um hidromel inspirado na bebida “consumida pelos vikings” e um mel premium produzido a partir da florada de cipó-uva do cerrado de Rondônia estão entre os produtos apresentados pela agroindústria Mel do Cerrado de Rondônia durante a 13ª Rondônia Rural Show.
O projeto reúne pequenos produtores da agricultura familiar de municípios como Colorado do Oeste (RO), Cabixi (RO), Cerejeiras (RO) e Pimenteiras (RO). Segundo Sérgio Assu, responsável pela agroindústria, o projeto surgiu para regularizar produtores que antes trabalhavam sem selo e não conseguiam comercializar os produtos nos mercados.
“Eles trabalhavam de forma irregular, faziam tudo manualmente e não tinham condições de colocar os produtos no mercado”, explicou.
Ao todo, 15 produtores se uniram para montar a agroindústria, onde o mel passa por processamento, envase, rotulagem e embalagem com fiscalização, boas práticas de fabricação e responsável técnico.
O grupo utiliza selo compartilhado, o que permite comercializar os produtos em 23 municípios do estado. Entre os destaques apresentados está o hidromel, bebida fermentada considerada uma das mais antigas do mundo.
“Os vikings tomavam, os celtas também. Pela mitologia, era considerada a bebida dos deuses”, contou Sérgio.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Porto Velho
Mel além do doce
A bebida passa por um processo de fermentação de 90 dias e possui teor alcoólico entre 14% e 20%. Neste ano, o grupo levou um barril de 50 litros para degustação do público durante a feira. “O pessoal adorou. Ano que vem a ideia é trazer já com rótulo, certificação e pronta para comercialização”, disse.
Outro diferencial apresentado foi a separação do mel por floradas. Segundo Sérgio, a maior parte dos produtores mistura todos os méis, enquanto eles, decidiram separar os produtos de acordo com a origem da florada.
Um dos méis apresentados é produzido a partir do cipó-uva, florada encontrada na região do cerrado de Rondônia. “O pessoal está gostando muito porque ele é mais claro, muito denso e não tem um sabor tão forte”, afirmou.
Segundo o produtor, dependendo da época da colheita, a região pode produzir até quatro tipos diferentes de floradas.
A agroindústria faz parte de uma associação com mais de 60 integrantes entre agroindústrias e artesãos. Dentro do grupo, foi criada a Casa do Mel, reunindo os produtores que trabalham exclusivamente com apicultura.
*por Quetlen Caetano, Bruno Erpidio – da Rede Amazônica Rondônia