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Mulheres mantém tradição da fabricação de chocolate a partir da produção orgânica do cacau em Tefé

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Foto: Tácio Melo

Na Comunidade da Missão, em Tefé (AM), 22 mulheres mantêm viva a tradição da produção orgânica de cacau. A prática garante a produção de barras de chocolate e ovos de Páscoa de forma sustentável, valorizando saberes tradicionais e o manejo adequado da floresta. 

Em uma área extensa de floresta protegida pelas próprias mulheres, o cultivo ocorre em sistemas agroflorestais, sem o uso de insumos sintéticos, integrados aos quintais produtivos — um modelo que imita a dinâmica natural da floresta.

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Trata-se de uma produção orgânica e agroecológica, baseada em técnicas e práticas tradicionais sustentáveis que vem sendo fortalecidas e incentivadas pelo Instituto Mamirauá na comunidade desde 2020. 

“Através do assessoramento técnico, temos contribuído com o fortalecimento da produção orgânica, com cursos que envolvem a prática do manejo agroecológico de diversas espécies frutíferas naquela região, incluindo o cacau, como também acompanhamos as etapas de certificação e acesso às políticas públicas voltadas a essas iniciativas”, destacou Fernanda Viana, coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá. 

Leia também: De “fruta de sobrevivência” à potencial antioxidante: conheça a versatilidade do cacau-jacaré

 A partir de 2019, as mulheres passaram a buscar o reconhecimento de seus produtos orgânicos e, em 2021, conquistaram a certificação, tornando-se o primeiro grupo da região de Tefé a alcançar a certificação orgânica. O grupo inicialmente se consolidou como Organização de Controle Social (OCS) e pouco tempo depois como Sistema Participativo de Garantia (SPG).

A conquista foi resultado de um processo que incluiu visitas de verificação da conformidade orgânica, visitas de pares e o preenchimento do Plano de Manejo Orgânico (PMO), etapa exigida para a certificação junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). 

O acesso às políticas públicas de alimentação conta com o apoio do Instituto Mamirauá, do IFAM e com contribuições de instituições como o SEBRAE, SEMPA, Prefeitura Municipal de Tefé, a Rede Maniva de Agroecologia (REMA) e a empresa Na’Kau que seguem fortalecendo e ampliando o acesso das mulheres a oportunidades e serviços. 

Foto: Tácio Melo

Produção do cacau na comunidade: chocolate sustentável 

A produção segue um processo cuidadoso que envolve todas as etapas do manejo do cacau, desde a poda e seleção dos frutos até a fermentação, secagem, torra e moagem das amêndoas. Na comunidade, cada produtora realiza o processamento em sua própria casa, utilizando fornos artesanais e moinhos manuais.

Um método de trabalho que mantém a qualidade e a identidade do produto, com técnicas que combinam conhecimentos tradicionais e formações técnicas adquiridas ao longo dos anos. 

“Esse trabalho vem das nossas mães, dos nossos antepassados. A gente aprendeu com elas a cuidar da terra, a produzir sem destruir e a valorizar o que é nosso. Hoje, com ajuda de parceiros e instituições, a gente continua fazendo com muito orgulho, porque sabe que é daqui que sai o alimento das nossas famílias e a nossa força”, afirma Bernadete Araújo, coordenadora do Grupo de Produção Orgânica da Comunidade. 

Atualmente, as mulheres produzem a barra de cacau, uma pasta obtida a partir da amêndoa do cacau torrado, que também serve de base para outros produtos derivados.

Além disso, elaboram diversas preparações a partir do chocolate, como bombons de castanha com chocolate, barras de chocolate e ovos de Páscoa. Tanto a barra de cacau quanto esses produtos são comercializados na própria comunidade e na cidade de Tefé, localizada a cerca de 8 quilômetros. 

Leia também: Empresa desenvolve chocolate amazônico com impacto socioambiental no Amazonas

Mulheres mantém tradição da fabricação de chocolate a partir da produção orgânica do cacau em Tefé
Foto: Tácio Melo

Preparativos para a Páscoa 

Para o período da Páscoa, as produtoras adentram a floresta para colher o fruto no mês de dezembro e, a depender do clima, iniciam o processo de retirada das amêndoas para colocá-las para secagem no período do verão amazônico. É a partir dessa etapa que as mulheres avaliam a quantidade de produtos, barra de cacau e chocolates que serão destinados à venda. 

Para este ano, as mulheres apostam na grande venda de seus produtos, que têm ganhado vantagem sobre os produtos industrializados. Além de serem produtos orgânicos e totalmente artesanais, há uma grande diferença em relação aos chocolates industrializados — são ainda mais baratos e carregam carinho, história e o sabor da floresta. 

Foto: Tácio Melo

Além da comercialização, o chocolate na comunidade também passou a inspirar iniciativas culturais e lúdicas. Na ocasião, as mulheres irão realizar, junto a parcerias, a 1ª Caça aos Ovos de Páscoa da Comunidade da Missão, para crianças da comunidade, prevista para o dia 4 de abril, além da instalação de um estande para a venda de ovos de Páscoa. 

*Com informações do Instituto Mamirauá

Maior cruzeiro da temporada chega a Manaus com mais de 1,8 mil visitantes

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Foto: Maiko Mendonça/Amazonastur

O navio MS Marina chegou ao Porto de Manaus (AM), na região central da capital, na última sexta-feira (27), fortalecendo a temporada de cruzeiros marítimos 2025/2026 e a atividade turística no Amazonas. A embarcação recepcionada pelo Governo do Amazonas, por meio da Empresa Estadual de Turismo (Amazonastur), trouxe 1.125 passageiros e 720 tripulantes, totalizando 1.845 visitantes.

Antes de chegar à capital amazonense, o cruzeiro parou na comunidade Boca da Valéria, no município de Parintins. O navio saiu de Buenos Aires, na Argentina, no dia 7 de março.

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A recepção aos turistas contou com apresentação de músicas regionais, dançarinos com indumentárias indígenas e entrega de colares de sementes e mapas da cidade. No Porto de Manaus, o Centro de Atendimento ao Turista (CAT) funcionou em regime especial, com atendentes bilíngues, oferecendo orientações e informações sobre atrativos turísticos, serviços e programação cultural.

Segundo o presidente da Amazonastur, Marcel Alexandre, a chegada de cruzeiros internacionais amplia a visibilidade do Amazonas e fortalece a economia nos municípios que integram as rotas turísticas.

“A presença de grandes cruzeiros no Amazonas reforça o interesse do mercado internacional pelo nosso destino e gera impactos positivos diretos na economia local. São visitantes que movimentam o comércio, utilizam serviços turísticos e contribuem para geração de emprego e renda, e isso faz com que a gente continue colocando o Amazonas no ranking em alta do turismo internacional”, destacou.

Leia também: Como é a experiência de um cruzeiro na Amazônia?

A turista Irina, da Austrália, está pela primeira vez no Brasil e destacou as expectativas para a visita ao Amazonas. “Estamos muito interessados na história do Brasil. Queremos conhecer sítios arqueológicos, visitar o Teatro Amazonas, o Centro Histórico e ter a experiência de nadar com os botos”, afirmou.

A programação da temporada prevê ainda a chegada de mais uma embarcação dia 8 de abril. Ao longo do calendário, 4.043 passageiros e 2.353 tripulantes devem passar por Manaus e Parintins, totalizando 6.396 visitantes.

Após a estadia na capital, o navio MS Marina segue viagem com destino a Parintins, dando continuidade ao roteiro turístico da temporada, que se encerra no dia 7 de abril, em Miami, nos Estados Unidos.

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Maior cruzeiro da temporada chega a Manaus com mais de 1,8 mil visitantes
Foto: Maiko Mendonça/Amazonastur

Movimentação econômica dos cruzeiros

Estimativas da Amazonastur apontam que a temporada de cruzeiros marítimos 2025/2026 deve gerar receita direta de aproximadamente 260 mil dólares, o equivalente a cerca de R$ 1,38 milhão. A receita indireta está estimada em R$ 6,93 milhões, resultando em movimentação econômica total prevista de R$ 8,31 milhões no Amazonas.

Os impactos econômicos alcançam setores como turismo, comércio, transporte, artesanato e serviços. A atividade contribui para geração de renda, fortalecimento do mercado local e desenvolvimento dos municípios inseridos nas rotas de cruzeiros.

*Com informações da Amazonstur

Projeto de conservação de peixe-boi no Pará ganha reforço logístico

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Foto: Reprodução/ Agência Pará

No mês em que se celebra o Dia da Preservação do Peixe-Boi da Amazônia, instituído pela Lei Estadual nº 10.322/2024, o esforço para proteger o mamífero aquático mais ameaçado da bacia amazônica ganhou um novo capítulo em Santarém, na região Oeste do Pará.

Em cerimônia realizada no Zoológico do Centro Universitário da Amazônia (ZooUNAMA), no final de março, foi anunciado o início da construção de uma nova base flutuante na Comunidade Igarapé do Costa, ampliando a infraestrutura de reabilitação da espécie, que agora é patrimônio do Estado.

Leia também: Peixes-boi da Amazônia e Marinho são declarados patrimônios culturais naturais de natureza imaterial do Pará

A iniciativa faz parte de um pacote de investimento da Alcoa para proteger o peixe-boi, anunciado em setembro do ano passado, totalizando um aporte de mais de R$ 860 mil reais. A empresa também realizou a entrega de um veículo 4×4 para realização de atividades logísticas.

Presente no evento, o governador do Pará, Helder Barbalho, destacou a importância da união entre diferentes setores para a causa ambiental.

“Estou feliz de poder cumprir a missão de preservar espécies e de garantir a reprodução de espécies naturais do bioma amazônico. Por isso, é fundamental a parceria com a pesquisa, com a ciência e com o conhecimento, por meio da Secretaria de Meio Ambiente, junto com a Alcoa e com a UNAMA. Temos a certeza de que estas ações fortalecem as iniciativas de preservação do meio ambiente, das espécies e dos nossos rios, conjugando com a estratégia de proteção da floresta”, afirmou.

O evento também marcou a inauguração do Memorial Peixe-Boi da Amazônia, um espaço físico com uma linha do tempo detalhada que narra a trajetória do projeto iniciado em 2008. O memorial funcionará como um ponto de conscientização para visitantes e acadêmicos, destacando os mais de 150 animais que já passaram pelo processo de atendimento e cuidado na instituição.

O diretor regional do Grupo Ser Educacional, Eden Ferreira, reforçou que a parceria consolida a missão da universidade:

“Isso mostra que a UNAMA desenvolve suas atividades sempre compromissada com as pautas socioambientais. Entendemos que uma formação de qualidade precisa ter um impacto direto na sociedade”, comentou. O Reitor da UNAMA Santarém, Elzo Vieira, finalizou destacando o envolvimento local: “O projeto é humano. Esse sucesso só é possível pela parceria com a comunidade do Igarapé do Costa, que possui uma consciência ambiental admirável”.

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Foto: Divulgação

Investimento em tecnologia e campo para conservação do peixe-boi

O investimento estratégico foi dividido em duas frentes fundamentais. A primeira é a entrega imediata de uma caminhonete 4×4 para suporte logístico e manejo dos animais. A segunda frente é a construção de uma base flutuante moderna no Igarapé do Costa, que contará com tanques de reabilitação aquática aprimorados, permitindo que o ciclo de aclimatação ocorra em condições ainda mais próximas ao ambiente natural.

De acordo com o biólogo Hipócrates Chalkidis, gestor do ZooUNAMA, a parceria representa um salto na capacidade operacional.

“Isso significa um incremento substancial em todo o processo do manejo de peixe-boi aqui na nossa instituição. A doação desta caminhonete vai suprir nossa necessidade logística junto com a nossa base avançada, que agora estará melhor estruturada para receber muito mais”, destacou.

Patrimônio paraense

O Secretário Adjunto da SEMAS, Rodolpho Zahluth Bastos, enfatizou o peso simbólico da data. “O governador instituiu o Dia Estadual de Preservação do Peixe-Boi e editou a lei que instituiu a espécie como patrimônio cultural e ambiental imaterial do Pará. A SEMAS busca fortalecer essa rede de conservação já existente, apoiando iniciativas como a do ZooUNAMA”, pontuou.

Para a diretora de Relações Governamentais e Comunicação da Alcoa, Lucila Ribeiro, a iniciativa reforça o compromisso da companhia.

“A Alcoa entende que proteger espécies como o peixe-boi é proteger o equilíbrio dos ecossistemas e o futuro da Amazônia. Temos o compromisso de atuar de forma sustentável, conciliando a mineração responsável, a conservação ambiental e o desenvolvimento das comunidades onde atuamos, visando deixar um legado de excelência para as gerações futuras”, afirmou.

Pesquisador da Fiocruz Amazônia integra Lista de Consultores de Controle de Tabaco da OPAS/OMS 

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Foto: Reprodução/OPAS/OMS

O pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Lucas Manoel da Silva Cabral, foi selecionado para compor a Lista de Consultores de Controle de Tabaco da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), vinculado à Rede de Centros Colaboradores da OPAS/OMS. Pelos próximos dois anos, Lucas integrará o banco de especialistas de referência para o tema no Brasil e na América Latina.

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A lista foi criada para apoiar a implementação de atividades regionais de controle do tabaco em todos os países da América Latina e do Caribe.

Pesquisador já atuou com o consultor

Doutor e mestre em Saúde Coletiva, com ênfase em Política, Planejamento e Administração, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Lucas já atuou como consultor em políticas públicas em controle do tabaco no SUS, junto à Divisão de Controle do Tabagismo (DITAB), do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

O pesquisador integra há oito meses o Laboratório de História e Políticas Públicas de Saúde na Amazônia (Lahpsa), do ILMD/Fiocruz Amazônia, e possui formação complementar internacional nas áreas de monitoramento da indústria do tabaco, desenvolvimento de lideranças e tributação de produtos relacionados ao tabagismo, tendo participado de cursos oferecidos por instituições de referência no tema.

Atualmente, Lucas coordena o projeto de pesquisa “Integration and Innovation in Tobacco Control” (‘Integração e inovação no controle do tabaco’, em tradução livre), financiado pela organização internacional Vital Strategies.

Pesquisador Lucas Cabral - tabaco - fiocruz amazônia
Foto: Michell Mello/Fiocruz Amazônia

Para Lucas, a oportunidade de contribuir junto à Rede de Centros Colaboradores representa a possibilidade de introduzir a Fiocruz Amazônia na discussão acerca do controle do tabagismo em cenário nacional e internacional.

“O aumento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes no Brasil, evidenciado por dados recentes da IBGE, acende um alerta importante para a saúde pública. Estar nessa rede nos permite contribuir ativamente com evidências e estratégias para enfrentar esse desafio de forma qualificada, tanto no cenário nacional quanto regional”, destacou.

Leia também: Cipó-ambé: ‘cigarro de índio’ e uma fonte de água na floresta amazônica

A vice-diretora de Pesquisa e Inovação da Fiocruz Amazônia, Michele Rocha El Kadri, ressaltou que a indicação representa um reconhecimento relevante para a trajetória do pesquisador. “Trata-se de um reconhecimento importante que fortalece a visibilidade institucional e reafirma a excelência técnica do nosso ILMD/Fiocruz Amazônia”, enfatizou El Kadri.

Além de sua atuação na Fiocruz Amazônia, Lucas participa de iniciativas nacionais como a Secretaria Técnica da Rede Brasileira de Escolas de Saúde Pública (STE RedEscola) e o Grupo de Pesquisa Atenção Primária à Saúde (APS) em Territórios Rurais Remotos (Fiocruz).

*Com informações do ILMD/Fiocruz Amazônia

Igarapé-Miri se consolida como maior produtor de açaí, segundo estudo da Fapespa

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Foto: Francisco Costa/ Prefeitura de Igarapé-Miri

O município de Igarapé-Miri, no nordeste do Pará, consolidou sua posição como o maior produtor de açaí do mundo, de acordo com dados recentes divulgados pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa). A cidade se mantém na liderança nacional e internacional, com participação expressiva na produção do fruto, que é um dos principais produtos da economia amazônica.

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Segundo levantamento da Fapespa, Igarapé-Miri responde por cerca de 21,7% da produção brasileira do fruto, com volume superior a 420 mil toneladas em um único ano. O desempenho coloca o município à frente de outras regiões produtoras e reforça sua importância dentro da cadeia produtiva do fruto.

Além de Igarapé-Miri, outros municípios paraenses também aparecem entre os maiores produtores do país, como Cametá e Abaetetuba, consolidando o estado como principal polo de produção de açaí no Brasil.

Produção de açaí concentrada no Pará

Os dados apontam que o Pará concentra a maior parte da produção nacional de açaí. Em alguns levantamentos, o estado chega a representar mais de 90% do volume produzido no país, com cerca de 1,7 milhão de toneladas anuais.

Saiba mais: Pará mantém liderança na produção de açaí: 89,5% do total

Além de Igarapé-Miri no Pará, as cidades de Cametá tem 7,9% da produção nacional e Anajás, também no Pará, responde a 6,2% dessa produção. Cametá e Anajás ocupam o segundo e terceiro lugares no campo de produção de todo o país, respectivamente.

A nota técnica mostra que a consolidação dessas cidades paraenses é resultado da forte presença do fruto em áreas de várzea e do trabalho de produtores locais, especialmente em municípios da região do Baixo Tocantins. Igarapé-Miri se destaca nesse cenário como principal referência, sendo reconhecido oficialmente como a ‘Capital Mundial do Açaí’.

A cadeia produtiva envolve diferentes etapas, desde a coleta do fruto até o processamento e distribuição, movimentando a economia local e gerando emprego e renda para milhares de famílias. Confira a nota técnica:

*Com informações da Prefeitura de Igarapé-Miri e Fapespa

Livro didático reúne informações sobre vigilância e monitoramento da exposição mercurial em populações indígenas

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Livro reúne informações sobre a exposição de indígenas ao mercúrio. Foto: Divulgação/Fiocruz Amazônia

O Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) finalizou a produção do livro Mercúrio na Amazônia – Aspectos Introdutórios sobre Vigilância e Monitoramento em Populações Indígenas Expostas e Potencialmente Expostas‘.

A obra é resultado do Acordo de Cooperação Técnica celebrado entre Ministério Público do Trabalho, Procuradoria Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec).

O livro foi utilizado como material didático do Curso de Capacitação Profissional em Vigilância e Monitoramento da Exposição Mercurial em Populações Indígenas, oferecido pela Fiocruz Amazônia, com a finalidade de instrumentalizar trabalhadores da saúde atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS) nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) Porto Velho e Vilhena (RO), responsáveis por cuidados em saúde e socioambientais junto a indígenas dos estados do Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, historicamente atingidos pela contaminação mercurial.

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A autoria do livro é do pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, com coautoria da pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Lihsieh Marrero, e do supervisor do Centro de Formação do Museu das Culturas Indígenas de São Paulo, Aly David Arturo Yamall Orellana.

Orellana explica que o livro se propõe a discutir alguns aspectos introdutórios sobre a vigilância do mercúrio em terras indígenas na Amazônia, destacando que a poluição ambiental por contaminantes químicos se constitui, cada vez mais, como uma séria ameaça à saúde humana.

“O mercúrio, em particular, está entre os três contaminantes mais importantes, sendo que a maior fonte de exposição na Amazônia a esse metal é o garimpo de ouro. Há mais de 50 anos, diferentes gerações de amazônidas têm testemunhado e sido fortemente impactadas pela extração predatória do ouro na região, especialmente ribeirinhos e povos indígenas”, relata.

De acordo com o pesquisador, nas últimas três décadas, as estratégias e maquinário usado para a extração ilegal de ouro têm amplificado os danos ambientais, especialmente em solos e corpos d ́água o que, consequentemente, agrava ainda mais a exposição de populações reconhecidamente vulneráveis aos efeitos negativos da poluição ambiental.

“Exposições em quantidades acima do tolerável, segundo critérios da Organização Mundial da Saúde, podem resultar em danos aos sistemas nervoso central e periférico, renal, cardiovascular, digestivo, pulmonar, imunológico, endócrino e, até mesmo, à morte”, alerta.

Estudos sugerem que a exposição pré-natal ao metilmercúrio pode estar relacionada com atrasos cognitivos, quadros de retardo mental leve e até mesmo danos na audição e visão, após o nascimento.

Leia também: Mercúrio é detectado em peixes do rio Madeira; estudo alerta ribeirinhos para riscos à saúde

Livro representa preocupação com o cenário

Com 68 páginas, o livro está dividido em cinco capítulos/seções:

  • “Introdução à toxicologia do mercúrio e aspectos históricos”;
  • “Ciclo do mercúrio no ambiente e atividades antrópicas”;
  • “Exposição aguda e crônica ao mercúrio na Amazônia”;
  • “Principais ameaças e riscos do mercúrio à saúde humana”,
  • e “Desafios da vigilância do mercúrio em indígenas da Amazônia”.

Jesem Orellana observa que o preocupante cenário põe em evidência a importância não apenas de monitorar os efeitos da contaminação mercurial em indivíduos expostos ou potencialmente expostos, como também de prevenir ou manejar da melhor maneira possível a exposição humana ao mercúrio, em particular no segmento materno-infantil indígena.

“De um lado, pouco se sabe sobre o assunto e, de outro, permanecem substanciais desafios na atenção qualificada à saúde, o que inclui a formação profissional focada na contaminação/exposição ao mercúrio”, destaca.

Segundo Orellana, a produção do livro esteve articulada ao planejamento e oferta de um curso de capacitação profissional, alinhado às prioridades do Ministério da Saúde, contribuindo à exploração do tema na região.

Livro didático reúne informações sobre vigilância e monitoramento da exposição mercurial em populações indígenas
Capa do livro. Foto: Divulgação/Fiocruz Amazônia

Cursos nos DSEIs

Entre os últimos dias 17 e 25 de março, sob coordenação de Orellana, com o apoio da UEA, e dos docentes da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Cristiano Lucas de Menezes Alves e Maurício Viana Gomes de Oliveira, bem como o apoio direto de técnicos designados pelos DSEIs Porto Velho e Vilhena, foi conduzido um curso de capacitação profissional nos municípios de Cacoal (RO) e Humaitá (AM) sobre os riscos associados à exposição mercurial, estratégias de vigilância, monitoramento e mitigação dos dados nas populações potencialmente expostas e expostas a contaminação mercurial. O curso, com duração de 20 horas, foi preparado para trabalhadores de saúde atuantes na APS dos dois DSEIs.

“Foi uma experiência que utilizou estratégias de ensino e aprendizagem, centradas em metodologias participativas, que potencializam a fixação de novos conhecimentos, a partir da articulação com os saberes e vivências dos profissionais participantes”, destaca Lihsieh Marrero.  

Para Orellana, a pauta da exposição mercurial em populações indígenas ainda é pouco valorizada ou inexistente no processo formativo de trabalhadores de saúde, não apenas na região Amazônica, mas no Brasil como um todo.

“O uso indiscriminado do mercúrio existe, há pelo menos 40 anos, em garimpos ilegais, acarreta não apenas a destruição e contaminação dos nossos solos e águas, como também gera uma variedade de efeitos negativos à saúde humana, deixando populações historicamente vulneráveis como os indígenas da Amazônia Legal, em risco ou ameaça ainda maior”, enfatizou o pesquisador.

*Com informações do ILMD/Fiocruz Amazônia

Ufopa estuda estratégias para conservação e uso sustentável da planta unha-de-gato

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Foto: Nils Servientis/BioDiversity4All

A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) tem avançado na construção de uma estratégia integrada de conservação e uso sustentável da Uncaria tomentosa, conhecida como unha-de-gato. A espécie medicinal é amplamente utilizada na Amazônia e vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental. Essa erosão pode resultar em menor capacidade de adaptação, maior vulnerabilidade a doenças e risco de extinção da unha-de-gato.

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A iniciativa integra ações de pesquisa, extensão e inovação em saúde desenvolvidas no âmbito do projeto FarmaFittos, que envolve a Ufopa, a Arquidiocese de Santarém, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) de Santarém e instituições parceiras, como a Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), responsável por parte do desenvolvimento científico associado à conservação genética da unha-de-gato.

Estudos científicos, como os conduzidos pela professora Dra. Ana Maria Soares (Unaerp), apontam que a variabilidade genética da unha-de-gato  se encontra distribuída de forma desigual entre populações naturais, muitas vezes isoladas, o que pode comprometer a capacidade adaptativa da espécie e sua sobrevivência a longo prazo. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias que integrem conservação, cultivo e uso racional da planta, visando diminuir o processo de erosão genética.

Uncaria tomentosa é uma planta medicinal valiosa e de grande interesse do Sistema Único de Saúde (SUS). É conhecida por suas propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras.

Leia também: Medicina da floresta: pesquisador usa uxi amarelo, unha de gato, marapuama e outras plantas para tratamentos

Planta Unha-de-gato vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental.
Planta medicinal vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental. Foto: Acervo FarmaFittos

Ciência aplicada à conservação da biodiversidade

Na Ufopa, esse trabalho com a unha-de-gato vem sendo desenvolvido desde meados de 2024, a partir da implantação de um banco de germoplasma, uma estrutura para conservação da espécie, e de técnicas de multiplicação de plantas em ambiente controlado, no Laboratório do Núcleo de Bioativos do projeto de pesquisa e extensão Maniva Tapajós.

Parte desse material genético foi introduzido por meio de cooperação com a Unaerp e vem sendo reproduzido localmente, garantindo a preservação de diferentes genótipos da espécie.

Leia também: Ufopa é reconhecida como universidade mais sustentável da Região Norte

Ufopa
Ufopa articula saberes e políticas públicas para o cultivo da unha-de-gato. Foto: Divulgação/Ufopa

Segundo os pesquisadores envolvidos, o objetivo não é apenas conservar a planta, mas também criar condições para seu uso sustentável da unha-de-gato, evitando a pressão sobre populações naturais.

“O trabalho tem sido desenvolvido com foco na conservação da diversidade genética associada ao cultivo orientado, o que permite reduzir a coleta predatória e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso seguro à planta para uso medicinal”, afirma o professor Dr. Wilson Sabino, docente do Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Ufopa e coordenador do Grupo de Extensão FarmaFittos.

Produção em escala e fortalecimento comunitário

Atualmente, o projeto entra em uma nova fase, com a meta de produção de aproximadamente 1.000 mudas de Uncaria tomentosa até o final de 2026. Essa etapa será realizada em parceria com o Projeto Saúde e Alegria e com agricultores familiares de comunidades ribeirinhas do Alto Tapajós.

Além da produção, a iniciativa envolve processos de capacitação comunitária, com foco no cultivo sustentável da espécie e na valorização dos sistemas produtivos locais.

A proposta é que as mudas da unha-de-gato produzidas a partir de material geneticamente conservado sejam incorporadas aos territórios, promovendo uma alternativa ao extrativismo predatório e contribuindo para a geração de renda e o fortalecimento da autonomia das comunidades.

Integração com o SUS e institucionalização da política

As ações do FarmaFittos passaram a integrar uma estratégia institucional vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de um termo de cooperação técnica firmado entre a Prefeitura de Santarém, a Ufopa e a Arquidiocese de Santarém.

O acordo prevê a implementação da primeira fase do programa Farmácia Viva, incluindo a produção de insumos vegetais, elaboração de protocolos clínicos, mobilização comunitária e fornecimento de mudas, em conformidade com as diretrizes nacionais de fitoterapia no SUS.

Essa articulação estabelece uma governança compartilhada, na qual a universidade atua na base científica, a gestão pública na coordenação e financiamento das ações, e a Arquidiocese na mobilização social e territorial.

Atualmente, o projeto trabalha com as plantas erva-baleeira, chambá, erva-penicilina, folha-da-fortuna, açafrão, e outras espécies, que estão sendo cultivadas em um espaço da Arquidiocese de Santarém, o Centro de Formação Emaús, localizado à rodovia Curuá-Una.

*Com informações da Ufopa

“Não são lendas, são crenças”: afirma pesquisador paraense sobre figuras amazônicas

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Foto: Divulgação

O paraense Marcio Neco, professor e pesquisador licenciado em História Faculdade Faveni de Belém e com pós-graduação em Ciências da Religião pela mesma instituição, é o autor do livro ‘COP30 nas Escolas’. Ele destaca a importância de figuras como a Matim-Taperê e o Boto como parte da cultura espiritual dos povos indígenas.

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Em 2025, Neco recebeu a Comenda “Ernesto Cruz”, a maior honraria concedida a historiadores em Belém. Confira a entrevista completa cedida à Um grau e meio, do IPAM.

Quais são as lendas mais conhecidas da floresta amazônica e o que elas revelam sobre a relação histórica das populações com a natureza?

Marcio Neco: Acredito que essas figuras têm um papel que vai além do religioso, elas também são profundamente pedagógicas. Personagens como o Curupira, a Matim-Taperê e o Anhangá ensinam, por meio das narrativas, valores como o respeito à natureza, aos animais e aos limites do que devemos retirar da floresta.

Por exemplo, o Curupira pune quem desmata, e o Anhangá protege os animais em situações vulneráveis, como na amamentação. Isso mostra uma ética muito clara: usar a natureza com equilíbrio e responsabilidade.

Essas lendas surgem de observações do cotidiano da floresta? Que elementos da vida amazônica costumam dar origem a essas narrativas?

Marcio Neco: Antes de tudo, é importante lembrar que a Amazônia sempre foi habitada por diversos povos originários, cada um com suas próprias crenças. Com a colonização, essas crenças foram demonizadas e reduzidas a “lendas” ou “folclore”.

Mas figuras como Curupira, Matim-Taperê e Boto não são apenas lendas, são crenças desses povos, ligadas à vida na floresta e ainda presentes entre comunidades ribeirinhas. Por isso, é importante desconstruir essa visão colonizadora e reconhecer esses saberes como legítimos.

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Muitas dessas histórias trazem personagens que protegem a natureza ou punem excessos humanos. O que isso nos diz sobre a ética ambiental presente nas culturas tradicionais?

Não são lendas, são crenças: afirma pesquisador paraense sobre figuras amazônicas
Foto: Divulgação

Marcio Neco: Ao analisar as crenças dos povos originários, percebemos que cada divindade está ligada a uma força da natureza e também cumpre uma função pedagógica. A Matim-Taperê, por exemplo, não é uma “bruxa”, mas uma entidade ligada aos espíritos e à proteção da floresta. 

O Curupira protege as matas, o Anhangá cuida da caça, e o Boto, além de estar ligado aos rios, também orienta questões de educação sexual. Já o Curupira aparece como uma divindade da fecundidade e das colheitas. Outro conceito importante é o dos “encantados”, seres que transitam entre o mundo espiritual e o material.

Ao longo do tempo, essas narrativas foram sendo tratadas apenas como “folclore”. O que se perde quando elas deixam de ser compreendidas como formas de conhecimento?

Marcio Neco: Hoje, essas divindades podem ter um papel didático muito eficaz na educação. O processo de demonização e imposição de uma religião única fez com que essas divindades fossem reduzidas a “lendas” e inseridas no folclore. Com isso, perde-se o respeito pela religião desses povos e a compreensão dos valores que essas entidades transmitem. Essa redução gera confusão e apaga parte importante da cultura.

O senhor trabalha o conceito de “imaginação amazônica”. Como ele ajuda a entender por que essas histórias seguem vivas, mesmo em um mundo cada vez mais urbano e tecnológico?

Marcio Neco: Mesmo no mundo urbano e tecnológico, também produzimos nossas próprias lendas, como as lendas urbanas. Elas não têm um autor específico e fazem parte do imaginário coletivo, muitas vezes com base em histórias que circulam com variações.

Um exemplo é a “moça do táxi”, que aparece em diferentes versões pelo Brasil, inclusive em Belém e São Paulo, sempre com mudanças na narrativa, mas mantendo uma estrutura semelhante. Essas variações mostram como essas histórias se adaptam aos contextos locais e continuam sendo reproduzidas.

Em um cenário de crise climática e degradação ambiental, como as lendas da floresta podem contribuir para novas formas de educação ambiental e sensibilização?

Marcio Neco: A crise climática também está ligada à falta de uma educação ambiental que reconheça a relação entre o ser humano e a natureza. Hoje, até se tenta resgatar esses símbolos, como o Curupira, mas ainda muitas vezes ele é visto apenas como folclore. Esse resgate é importante, pois essas crenças têm grande potencial educativo e de conscientização.

Utilizar essas divindades e seus ensinamentos pode nos ajudar no combate às crises climáticas, promovendo respeito, cuidado e uma relação mais equilibrada com a natureza.

Que ensinamento central as lendas amazônicas deixam para quem vive fora da Amazônia e tenta compreender a floresta à distância?

Marcio Neco: Muitas das nossas ideias sobre povos indígenas vêm de uma educação equivocada desde a infância, que reforça estereótipos, como associar o indígena apenas a arco, flecha ou oca. Isso cria uma visão limitada e incorreta, ignorando a diversidade desses povos, seus modos de vida e suas escolhas.

Com a chegada dos portugueses, houve um processo de demonização e distorção dessas crenças, apagando sua verdadeira dimensão cultural e religiosa. Por isso, é importante estudar e ressignificar esses conhecimentos para compreender que eles fazem parte de sistemas de crença legítimos, que existiam muito antes da colonização.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Suellen Nunes

Manaus, capital da ZFM: tormenta tropical escancara miséria das favelas que tomam conta da cidade

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Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Em sua clássica obra “Tristes Trópicos” (1955), Claude Lévi-Strauss, um dos antropólogos mais influentes do século XX e figura central na fundação da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou sociologia entre 1935 e 1938, com base em suas experiências no Brasil (1935-1939) consolidou visão crítica, melancólica e estruturalista sobre a urbanização rápida e o contraste com o passado. Para ele, as cidades latino-americanas eram basicamente “implantadas para serem rapidamente renovadas, o que resultava em uma “doença crônica” de má construção”.

Diferentemente das cidades europeias, que amadurecem com o tempo, “as americanas passavam da juventude à decadência sem nunca chegarem a ser saudáveis; evoluíam ‘da frescura’ à ‘decrepitude’ sem passar pela antiguidade”. Portanto, “não amadurecem, apenas envelhecem precocemente devido à má construção, que gera constante necessidade de renovação rápida”.

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O evoluir do tempo demonstrou certo exagero em tais assertivas, visto que importantes núcleos urbanos, no decorrer da história, esquivaram-se dessa visão conjuntural do mestre. Ao que me parece, entretanto, Manaus, a capital do Amazonas, e outras cidades latino-americanas e amazônicas, em particular, apontam sinais de enquadramento no determinismo histórico e sociológico do antropólogo francês. Ao menos foi o que deixou evidente, mais uma vez, as chuvas torrenciais que na quarta-feira, 25, se abateram sobre a capital amazonense.

Toda a população ficou estarrecida e amedrontada com tal volume de água, quanto com seu poder destrutivo da infraestrutura urbana da cidade. Dados das estações meteorológicas da Prefeitura de Manaus revelam que a tempestade tropical resultou num acumulado de chuva que chegou a 160 milímetros (o equivalente a 160 litros de água em cada metro quadrado (m²) de área) no bairro Santa Etelvina, Zona Norte da capital.

A tormenta provocou 59 de alagamentos; bueiros entupidos, erosões de alta gravidade; 13 desabamentos de muros e casas; 24 deslizamentos de barrancos; rachaduras, tromba d’água e outros sérios danos, especialmente nas zonas faveladas da cidade.

De acordo com o Censo do IBGE de 2022, Manaus registrou um crescimento expressivo no número de favelas, 60% delas concentradas na capital amazonense. Bairros como Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, na Zona Norte, é a quarta maior favela do Brasil, com mais de 55 mil moradores, seguida pela comunidade São Lucas.

Os estudos apontam que, dentre as principais áreas vulneráveis da cidade encontram-se a Comunidade São Lucas (Bairro São José, Zona Leste), concentrando mais de 53 mil pessoas; Zumbi dos Palmares/Nova Luz (Zona Leste), com mais de 11 mil domicílios; a Compensa (Zona Oeste), com altos índices de risco, conforme mapeamento geológico.

As pesquisas revelam que Manaus lidera o ranking nacional de áreas urbanizadas em favelas. No período 1985/2024, verificou-se um crescimento de 160% na ocupação dessas comunidades enquanto a expansão urbana ocorreu de forma brutalmente desigual e improvisada, sem a necessária e obrigatória observância dos direcionamentos estabelecidos no Plano Diretor Urbano e Ambiental do Município de Manaus, instituído pela Lei Complementar Nº 2/2014.

Os dados censitários (Ibge 2022) revelam que o Amazonas possui 398 favelas, registrando o maior crescimento populacional nessas áreas do Brasil, indicando que Manaus é uma das capitais com a maior proporção de moradores em comunidades. O levantamento mostra que entre as 20 favelas mais populosas do Brasil, seis estão localizadas nas zonas Leste e Norte da capital. Aqui se concentram os setores mais críticos de moradias precárias e áreas de risco. Os dados do IBGE sinalizam que o aumento das favelas reflete a necessidade de regularização fundiária e pesados investimentos em saneamento básico e infraestrutura urbana, para poder conferir um mínimo de dignidade à massa populacional vítima das intempéries.

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Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Atlas lançado na COP15 mostra rotas migratórias de aves vulneráveis das Américas

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Uma ferramenta que mapeia rotas de migração, locais de parada e repouso mais importantes para 89 espécies de aves migratórias das Américas foi lançada, no dia 26 de março, na programação da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), em Campo Grande (MS).

Disponível online, o Atlas de Rotas Migratórias das Américas vai ajudar a identificar locais onde os esforços de governos e cooperação internacional são mais necessários.

“Em termos de políticas públicas, a gente consegue definir, com maior precisão, áreas geográficas que precisam de mais atenção para a conservação, para criação de áreas protegidas, públicas ou privadas”, explica o diretor de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Braulio Dias.

Leia também: COP15 discute relação de áreas úmidas e proteção de espécies migratórias

Christopher Wood, diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, participa do lançamento do Atlas de Rotas Migratórias das Américas - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Braulio Dias, diretor do Departamento de Conservação e Biodiversidade do MMA, destacou a importância do Atlas de Rotas Migratórias das Américas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O processo de licenciamento ambiental para empreendimentos como os de geração de energia com linhas de transmissão ou torres eólicas também será beneficiado com as informações disponibilizadas pela ferramenta, afirma Braulio Dias.

“Se a localização dessas linhas de transmissão e das torres eólicas não for muito bem-feita, pode resultar em alta mortalidade de aves e também de morcegos”, reforça.

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As áreas de concentração de aves (ACAs) podem ser visualizadas em um mapa interativo que demonstra, por espécie, a trajetória percorrida em cada época do ano. “Também tem o uso para a sociedade em geral. Quem gosta de aves, quer fazer uma atividade de turismo numa região, já pode consultar ali para saber que espécies são mais comuns em um local, onde procurar”, detalha o diretor do MMA.

Dados das aves migratórias

A base de dados faz uso de milhões de registros gerados por ciência-cidadã na plataforma eBird e deverá ser ampliada, chegando a 622 espécies que percorrem 56 países nas rotas migratórias das Américas, que se estendem do Ártico canadense à Patagônia chilena.

Um exemplo de ave catalogada pelo atlas é o pássaro conhecido como veste-amarela ou pássaro-preto-de-veste-amarela, que em sua jornada passa pelo Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. A espécie sofre com declínio acentuado da sua população e, por isso, integra a lista de espécies ameaçadas de extinção da Convenção de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS).

Christopher Wood, diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, participa do lançamento do Atlas de Rotas Migratórias das Américas - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Christopher Wood, diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, participa do lançamento do Atlas de Rotas Migratórias das Américas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

“Este atlas mostra o que é possível quando se reúne milhões de observações de aves, a partir da contribuição de pessoas de toda a América”, ressalta o diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, Christopher Wood, que participou da equipe de desenvolvimento da ferramenta.

O atlas é resultado de uma iniciativa do secretariado da CMS, em parceria com o Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS).

Durante o lançamento, a secretária executiva da CMS, Amy Fraenkel destacou que o atlas reforça o compromisso compartilhado de fortalecer conectividade ecológica além fronteiras em um momento em que as espécies migratórias precisam de ações coordenadas.

*Com informações da Agência Brasil