A presença portuguesa na colonização da Amazônia

A conquista europeia e a posse da Amazônia, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, se realizaram sob um intenso processo de luta e disputa entre portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses.

Trabalhadores e a mecanização das fábricas. Fonte: www.significados.com.br/revolucao-industrial/

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

A conquista europeia e a posse da Amazônia, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, se realizaram sob um intenso processo de luta e disputa entre portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses.

Os portugueses, por sua vez, acabaram dominando o delta e a maior parte da Calha Central do Rio Amazonas e, naturalmente, os seus primeiros afluentes, ao norte e ao sul, enquanto os espanhóis procuraram fixação na Cordilheira Andina seduzidos pelas minas de prata e ouro encontradas no litoral transandino; consolidaram a sua conquista na periferia setentrional dos vales dos rios Içá (Putumayo), Japurá (Caquetá) e o alto rio Negro (Guayana); e a montante, no oeste e sudoeste do alto Amazonas e as suas nascentes, por meio de importantes tributários, rios Ucayale e Marañon. Os franceses, ingleses e holandeses acabaram confi-nados nos estreitos limites da região das Guianas.

Vale apenas ressaltar que, no plano interno, a grande luta foi a consolidação dessa conquista, principalmente em face da rebeldia da população indígena, que não aceitava o processo de aprisionamento e escravidão. Todo esse trabalho era promovido pelas tropas de resgate que procuravam incorporar a mão de obra barata nos trabalhos de colonização e assentamento dos núcleos e povoamentos.

Ressalta-se, ainda, que tantos os portugueses como os espanhóis, no processo de conquista e ocupação, difundiam os valores e símbolos das próprias culturas. A sociedade nativa, ao receber o impacto dominante desses valores e sistemas imperiais, acultura-os, por via de submissão, acomodados, assimilação ou conflito, sobrepondo-os ou integrando-os à sua própria cultura primitiva. De outro lado, os conquistadores que penetraram na Amazônia, a serviço da fé do Império, tiveram de ceder e adaptar-se ao mundo tropical para poder sobreviver em um ambiente diferente, com incertezas e agressividade de um ambiente exótico e desconhecido.

[…] A colonização e expansão portuguesa na Amazônia foi uma tarefa dura e penosa que exigiu a mobilização de soldados, capitão-general, sargento-mor, sertanistas, missionários, colonos e indígenas ao longo de mais de duzentos anos de presença nas colônias do Grão-Pará, Maranhão e Rio Negro. Durante esses dois séculos, a influência portuguesa se fez sentir de forma profunda na vida e na cultura da região.1

Final do século XIX e início do século XX

O Luso Sporting Club foi fundado por portugueses em 1912. Para historizá-lo problematizaremos antes um pouco do contexto histórico, a questão da imigração e o Amazonas no período delimitado.

O processo de Imigração marcou a História do Brasil, principalmente a partir da crise de mão de obra iniciada com a proibição do tráfico negreiro e da tentativa de “embranquecimento” da população brasileira durante meados do século XIX.

Segundo afirma Barreto, com relação ao processo de imigração na sociedade ocidental,

[…] Além da civilização ocidental ser condicionada por um fator – “fronteiras abertas”- , teria que haver ainda um componente ideológico: a liberdade de migrar. Esse componente só foi conquistado com a Revolução Francesa, a partir do que os laços de solidariedade entre os membros de uma comunidade e de uma família foram esmorecidos, permitindo que se buscassem, em outras localidades novas oportunidades. Aliado a este, a industrialização e a urbanização efetuada na Europa permitem […] movimentos migratórios campo-cidade, assim como movimentos transoceânicos.2

Dessa forma, podemos entender que vários foram os fatores que influenciaram esses imigrantes a virem para o Brasil, para se estabelecerem como colonos. Porém, sem se desligarem de suas raízes culturais vividas naquele período em seus países de origem. Já no caso dos portugueses, devido o fato do Brasil ter sido colônia e ter a mesma língua, a emigração foi frequente.

Durante o Século XVII a imigração de portugueses para o Brasil foi pouco significativa. Nesse período vieram para o Brasil portugueses de todos os tipos, que segundo Maia, desde o rico fazendeiro, passando por aventureiros, prostitutas, mulheres órfãs, degredados e empresários falidos3.

A presença portuguesa na colonização da Amazônia
Interior do Bar Americano, na Av. Eduardo Ribeiro, 1913. Fonte: Instituto Oswaldo Cruz

O primeiro foco dessa imigração foi a região nordeste do Brasil, já que as plantações de cana-de-açúcar estavam em pleno desenvolvimento. Essa imigração colonizadora ficou marcada pela masculinidade da população: as mulheres portuguesas raramente emigravam, pois na Europa, o Brasil possuía a imagem de uma terra selvagem e perigosa, onde apenas os homens poderiam sobreviver.

A partir do século XVIII, a imigração portuguesa no Brasil alcança cifras jamais vistas. Os fatores para esse crescimento imigratório foram: a descoberta de ouro nas Minas Gerais, e o aprimoramento dos meios de transporte aquáticos. No início do século XVIII, as minas de ouro tornaram-se a principal economia da colônia. O desenvolvimento e riqueza trazida pelo ouro atraíram para o Brasil um grande contingente de colonos portugueses em busca de riqueza. Nessa época, surge o mineiro, que era o colono português que enriqueceu no Brasil graças ao ouro.4

Avenida Joaquim Nabuco, esquina com Sete de Setembro (canto do Quintela), vendo-se a esquerda a primeira mercearia A Renascença, 1926. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

O surto urbano que se deu na colônia graças à mineração, fez crescer as ofertas de emprego para os portugueses. Antes, os colonos eram quase que exclusivamente rurais, dedicando-se ao cultivo da cana-de-açúcar, mas agora surgiriam profissões como de pequenos comerciantes.

A maior parte da emigração foi de pessoas originárias do Minho. De início, a Coroa Portuguesa incentivou a ida de minhotos pobres para o Brasil, onde se fixaram principalmente na região de Minas Gerais e na Região Centro-Oeste do Brasil, onde foram encontradas minas de ouro. Porém, a emigração tomou proporções altíssimas, e a Coroa passou a controlar a ida de portugueses para o Brasil. Pela vinda em larga escala de colonos, a língua portuguesa tornou-se dominante no Brasil em meados do século XVIII, em substituição ao tupi-guarani, ou língua geral.

É importante perceber também as peculiaridades de cada região, como afirma Barreto, ao discorrer sobre o Sul do Brasil e a emigração de alemães e italianos que,

no caso de Santa Catarina, a colonização baseada na pequena propriedade foi realizada principalmente a partir da iniciativa de particulares, pois o Estado não dispunha de meios para financiar a vinda desses imigrantes.5

Com a retração da mineração, no final do século XVIII, a imigração portuguesa teve uma queda, mas voltou a crescer no início do século XIX com a vinda da monarquia portuguesa. Após a Independência do Brasil, em 1822, criou-se no país uma certa xenofobia contra os portugueses, ficando a emigração decaída. Mas, com o passar do tempo, o fluxo de imigrantes portugueses para o Brasil, ao invés de diminuir, cresceu drasticamente. Em grande parte, isto se deve ao fim do tráfico de escravos africanos em 1850. Com o fim do tráfico, adveio uma carência de mão de obra no Brasil, e ao mesmo tempo ocorreu a expansão das plantações de café no país, necessitadas de trabalhadores.

A partir da metade do século XIX, a imigração portuguesa no Brasil tomou caráter quase que exclusivamente urbano e, ao contrário dos imigrantes alemães e italianos que estavam sendo mandados para trabalharem na agricultura, os portugueses passaram a rumar para dois destinos preferenciais: as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.6

Uma expressiva parcela dessa população era oriunda de regiões interioranas do norte de Portugal, notadamente entre Beira Alta e Alto Trás-os-Montes e eram, em sua maioria, extremamente pobres, vindos em família, com grande número de mulheres e crianças. Ao chegarem no Brasil, procuravam parentes ou se instalavam em pequenos cortiços. A maior parte desses imigrantes se dedicaram ao comércio: pequenas vendas e padarias, chegando ao ponto de dominarem essas duas atividades em várias regiões do Brasil. Outros, se tornaram operários nas nascentes indústrias brasileiras.

Os portugueses que se deslocaram para Amazônia eram, em sua enorme maioria, pobres, e vieram de aldeias do interior de Portugal. Não tinham instrução, o que não os impediu de construir aqui uma sólida carreira comercial que garantiu aos seus descendentes melhores perspectivas de estudo e emprego. A maioria da comunidade de portugueses em Manaus se dedicava ao comércio através da rede de importação e exportação da borracha e, praticamente, monopolizava o intercâmbio de mercadorias pelas chamadas casas aviadoras.

Comendador Joaquim Gonçalves de Araújo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Extração do látex. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Quando os portugueses vieram para a Amazônia, durante o período áureo da economia gomífera, incentivaram de forma extremamente dinâmica, o sistema mercantil da região. Foi através da emigração portuguesa que se tornaram possíveis diálogos entre mundos distintos, pois, seria também através do comércio em várias áreas da região Amazônica que o processo de europeização da população cabocla se tornaria possível.

A imigração portuguesa para Amazônia foi incentivada pelos governantes locais que viam nela a possibilidade do surgimento de rostos mais europeus frente à sociedade local, tão marcadamente tapuia. Apesar desta intenção, os portugueses logo seriam incorporados à região através dos casamentos interétnicos, ocorridos regularmente entre brasileiros e portugueses, devido ao número baixo de mulheres portuguesas. Outra peculiaridade da imigração portuguesa para Amazônia é o tamanho da comunidade portuguesa que, em 1920, representava 13% da população das cidades de Manaus e Belém.7

A obra da comunidade portuguesa em Manaus é outro ponto de destaque que estes imigrantes deixaram na cidade. Os exemplos maiores disso foram a Sociedade Beneficente Portuguesa e a Santa Casa de Misericórdia que, eram instituições administradas diretamente pela comunidade portuguesa, receberam consideráveis ajudas financeiras dos imigrantes portugueses residentes de Manaus.

A partir de 1910, apesar da retração da economia gomífera que se abateu sobre a região, a população local, possuindo outros meios de sobrevivência financeira, não foi muito afetada, ao contrário da migração de nordestinos. Em primeiro lugar, porque a economia da borracha não contribuiu para a melhoria do nível de renda das populações locais que eram, e continuaram sendo, muito pobres.

Apesar disso,

[…] a retração da economia provocou o refluxo de parte dos imigrantes nordestinos para a região de origem, diminuindo a pressão sobre as fontes de alimentos. Finalmente houve certo aumento na produção de outros produtos extrativos, especialmente a castanha e a madeira que absorveu a mão-de-obra liberada dos seringais.8

Mas há uma dimensão espacial neste processo, pois a resistência veio da população nativa (não necessariamente indígena, mas cabocla) ou dos que já haviam se fixado e adaptado à região, e tinham, por isso, conhecimentos sobre o espaço, conseguindo estabelecer novas formas de sobrevivência. Neste sentido, a borracha levou à destruição, mas também criou os mecanismos da resistência. Isso parece tanto mais verdadeiro quando comparado ao impacto ocasionado no interior da Amazônia e nos dois principais centros urbanos do norte do Brasil: Belém e Manaus.

Isso ocorreu porque as cidades são espaços produzidos socialmente, são produtos datados, e por isso refletem as condições específicas do lugar e dos conflitos a ele inerente, que não podem ser considerados exclusivamente econômicos, pois têm dimensões culturais, políticas e ideológicas e retratam o vivido de quem as constrói.9

As cidades amazônicas que foram criadas ou dinamizadas a partir da economia da borracha, embora pequenas e com pouca ou nenhuma importância para as outras regiões do país, têm organização e estrutura que extrapolam sua dimensão específica, configurando formas e estilos que estão além da circunscrição do lugar, refletindo o lugar no mundo e o mundo no lugar.10

Nessas cidades, encontravam-se instituições regionais, nacionais e até internacionais, influenciando de forma direta, ou indireta, a sua dinâmica. Todavia tinham especificidades que não escapam ao lugar em que estavam sendo produzidas. Portanto, é preciso entendê-las por meio de características específicas, tentando não vê-las como pedaços de uma cultura mais geral, nem com a mesma dimensão e complexidade dos núcleos urbanos mais dinâmicos. Em outras palavras, as cidades amazônicas eram tempos e espaços produzidos a partir do específico, tendo dimensões gerais.

Os imigrantes portugueses tiveram ainda, importante função na modelagem da sociedade e da economia amazônica, tanto na cidade como no interior. Naturalmente como classe política dominante e com o surgimento das atividades agrícolas e florestais extrativistas, tornaram-se agentes decisivos, suprindo essa atividade de liderança empresarial necessária, como produtores, mercadores, exportadores e comerciantes, alcançaram posições oligopolista, que se manteve da atividade socioeconômica baseada na borracha até o advento de novas correntes e grupos culturais mais dinâmicos e inovadores.11

Portanto, durante a fase áurea do látex, no fim do século XIX e na primeira década do século XX, milhares de imigrantes lusos atraídos pela fortuna conquistada por meio do trabalho, foram pioneiros na organização do sistema mercantilista de intercâmbio, cuja maior atuação era representada pelo comércio típico das casas aviadoras.

Fachada dos “ARMAZENS ROSAS” de J. G. Araújo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Fachada dos “ARMAZENS ROSAS” de J. G. Araújo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Praça Justo Chermont: Basílica de Nazaré, Belém (PA). Fonte: Acervo IBGE

É nesse período histórico da economia amazônica, que denominou Benchimol, a Era Jotas, em decorrência da preferência dessa letra nas iniciais das firmas pertencentes a portugueses de então, como, J.G. Araújo, J. S. Amorim, J. A. Leite, J. Soares, J. Rufino e tantos outros.12

É dentro desse contexto que se insere a Manaus da Belle Époque, uma cidade exaltada por sua elite, como a “Paris dos Trópicos”. Lembrada sempre pelas suas mudanças modernas comparadas com os centros urbanos europeus. Durante esse período, a pequena aldeia de indígenas manaós o antigo Lugar da Barra, se transformou em um dos mais importantes centros do mundo tropical, graças a vitalidade econômica da borracha, que lhe deu vida, riqueza e encanto. Cidade de suaves colônias, Manaus desdobra-se em vistas múltiplas para quem a cruza nas avenidas e ruas de um lúcido urbanismo.

E não deixa de impressionar a obra urbanizadora da capital, creditada ao governador Eduardo Ribeiro, a topografia da cidade, antes do governo dele, vislumbravam-se em cortes hidrográficos: era o igarapé do Salgado, o igarapé Castelhana, o igarapé da Bica, o igarapé do Espírito Santo, o igarapé de Manaus, o igarapé da Cachoeirinha, o igarapé de São Raimundo, o igarapé do Educandos, entre outros.

Praça de São Sebastião. Manaus, AM. Fonte: Acervo IBGE

Ao falar das transformações ocorridas na cidade, Otoni Mesquita destaca que, Eduardo Ribeiro aterrou os caudais em benefício do urbanismo funcional, que lutou contra a natureza até fazer secar os pequenos cursos d’água, transformados em amplas avenidas.13

Sobre as transformações arquitetônicas e urbanísticas ocorridas em Manaus, afirma Tocantins:

Cidade rica, progressista e alegre, calçadas de granito e pedras de liós trazidas de Portugal, sombreadas por frondosas mangueiras e de praças e jardins bem cuidados, com belas fontes e monumentos, tinha todos os requisitos de uma urbe moderna: água canalizada e telefonia; energia elétrica, rede de esgotos e bondes elétricos deslizando em linhas de aço espalhadas por toda a malha urbana e penetrando nas florestas até arredores mais distantes do bairro de Flores. O seu porto flutuante, obra-prima de engenharia inglesa, construído a partir de 1900, o qual recebia navios de todos os lugares e das mais diversas bandeiras.14

O movimentado centro comercial “regurgitava” de gente de todas as etnias (nordestinos, ingleses, peruanos, franceses, judeus, norte-americanos, alemães, italianos, libaneses) e as estatísticas do Censo de 1920, apontavam a existência, no Amazonas, de 8.376 portugueses, sendo (6.103 homens e 2.273 mulheres), o que muito facilitou o processo de miscigenação e de casamentos com mulheres nativas. Ao todo, os portugueses eram o mais numeroso grupo de estrangeiros.

A grande maioria deles provinha da região dos minifúndios do médio e norte de Portugal. Deixavam suas ideias, Freguesias e suas querências ao longo do rio Douro, Minho e Tejo: Vila Real, povoado do Varzim, Viana do Castelo, Vila Nova de Gaia e tantos outros pequenos lugarejos, vilas e conselhos, de onde se originavam a maioria dos portugueses que vieram estabelecer-se em Manaus, no Amazonas. Alguns desses nomes se tornaram muito familiares em nossa região, pois foram adotados por ocasião da fundação de vilas e cidades da Amazônia.15

Esses imigrantes, quase todos jovens e pobres, eram filhos de agricultores e sitiantes, de numerosas famílias patriarcais, com rígida educação doméstica e obedientes à tradição, valores familiares e devotos de Nossa Senhora de Fátima.

Portugal não tinha, ao findar do século XIX, “muito futuro”. A região norte, terra agrícola dos minifúndios, pertencentes a proprietários de famílias numerosas, que não tinham como encaminhar seus filhos para a lavoura, uma vez que as parcelas de terras, com a subdivisão da herança, se tornaram tão pequenas que era praticamente impossível de sustentar uma família. A única opção para essas pessoas era emigrar para as colônias onde constava também o Brasil. Em Manaus, passavam a conseguir trabalhos através da confiança para ajudar administrar os negócios como: mercearias, padarias, açougues, bares, botequins, feiras, quitandas, lojas e pontos de comércio.

Mais tarde, esses parentes e amigos se tornaram sócios e parceiros no empreendimento. Assim, começavam sua ascensão social. No caso de Manaus, além desses estabelecimentos varejistas, os portugueses dominavam as casas aviadoras e o comércio da borracha e gêneros regionais. Assim, muitos imigrantes eram chamados para aprender seus ofícios como cacheiros, balconistas, viajantes e prepostos dos patrões, como pessoas de confiança.

Basílica Nossa Senhora de Fátima em Cotia-SP. Fonte: Wikipedia

Percebemos que os valores culturais trazidos de Portugal por parte desses imigrantes, tinha certa influência em nossa cidade. Traziam em suas bagagens, não apenas a vontade de trabalhar, mas também, um pouco de sua cultura. Pois em uma terra distante de seu país, de seus costumes, e principalmente, de sua cultura, era necessário que se organizasse uma comunidade, ou clubes, que pudessem oferecer um pouco da cultura de além-mar, pois como nos escreveu Laraia:

Cultura são sistemas (padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização política, crença e práticas religiosas, e assim por diante.16

Praça 15 de Novembro e Catedral Nossa Senhora da Conceição. Manaus, AM. Fonte: Acervo IBGE

Manaus, naquele período, era constituída de um emaranhado de culturas trazidas pelos imigrantes de todos os continentes. Porém, o que prevalecia, ainda em sua grande maioria, eram costumes que aqui foram implantados na Belle Époque pela cultura francesa.

Segundo Dias:

O espaço urbano pensado, idealizado e organizado para fazer conhecer, impressionar e atrair os investidores estrangeiros, ao mesmo tempo em que projeta para o mundo prosperidade e civilização dentro da visão burguesa de uma cidade ideal, cria também suas próprias contradições.17

É por isso que naquele período, para alguns observadores, o desenvolvimento e o progresso da cidade foram acompanhados de um quadro muito grande de miséria. Essa observação muitas vezes nos faz notar que, nos discursos dos grupos dominantes como o dos grandes comerciantes e políticos, Manaus aparece como uma cidade em harmonia e sem males sociais. Dessa forma, fica evidente que a imagem da cidade oferecida naquele momento ao mundo, era captada na exata proporção de sua finalidade. Ou seja, de informar ao mundo as grandes potencialidades da região, as oportunidades de investimentos que ela oferecia, e o desejo de mostrar a capacidade de acompanhar o mesmo ritmo de progresso e de prosperidade de outros centros.

Dessa forma, o espaço urbano de Manaus atraía os mais diferentes tipos de pessoas vindas de diversos pontos do país e do mundo, e que de certa forma, passavam a fazer parte do cotidiano da cidade mesmo que não tivessem condições de usufruir da vida de regalias que a borracha havia proporcionado à muitos, que no período áureo de sua extração se beneficiaram.

Foi essa população de imigrantes que vivenciou em Manaus o período da retração, e também fazia parte das classes menos favorecidas naquele contexto. Esse foi o espaço dentro da sociedade que não foi mostrado: um aspecto que o imaginário da elite extrativista não apresentava na época. Apesar de num primeiro momento esses segmentos pobres da população de Manaus não participassem da vida da cidade de uma forma organizada, mesmo assim eles registravam sua presença, manifestando sua insatisfação no espaço urbano, através de protestos e queixas contra toda estrutura que os excluíam.18

Voltando um pouco no tempo, a origem da cidade de Manaus remonta o século XVII. Naquele período, os portugueses passaram a explorar a região amazônica em busca de escravos indígenas, drogas do sertão e presença estrangeira na região. Porém, foi apenas a partir de meados do final do século XIX, que a antiga aldeia de indígenas sofreu um impacto urbano e populacional aos moldes do mundo capitalista industrial, e isso só foi possível devido ao boom da extração da borracha.

Manaus era a capital provincial localizada na região mais distante da administração central e para chegar até ela era necessário empreender longas e demoradas viagens fluviais. A pequena cidade era cercada por um vasto e rico território, e mantinha-se sempre na espera de braços para o trabalho, o que era o estímulo para a chegada constante de portugueses. Trabalhadores e pobres ocupavam a cidade, visualmente disfarçada, habitando vilas e cortiços de alvenaria, além de hospedarias, porões e casebres.

Ainda sobre os aspectos urbanos de Manaus antes da explosão da economia gomífera, afirma Mesquita, “até 1910 a comunicação entre alguns bairros era feita através de pontes de madeiras que quase sempre estavam necessitando de reparos”.19

Assim, concluímos que a capital do Amazonas não passava de uma cidade necessitando de reparos em sua urbanização, e que o grande aspecto urbanístico da cidade não era muito organizado, mas apenas um aglomerado definido por diversos igarapés que recortavam irregularmente a cidade, e naturalmente estabeleciam os limites de alguns bairros recortados por ruas precárias e esburacadas, cujos limites eram muitas vezes definidos por acidentes naturais.

Se no campo econômico daquele período, o Amazonas foi movimentado principalmente pela produção da borracha silvestre que, a partir de 1910, sofre uma baixa nas exportações, devido a concorrência da borracha asiática, levando assim a uma retração na economia regional – por outro lado, no campo político, o Amazonas, a exemplo de outras regiões, manipulava o poder para servir aos seus próprios interesses, o que se realizava por via de aliança com chamados donos do poder. A classe dominante conservava como gênese de sua dominação a propriedade da terra, tendo interesses associados à comercialização e exportação da borracha, e outros produtos extrativos.20

Como podemos perceber, os anos que antecederam a construção do Luso Sporting Club, foram anos de uma grande retração econômica, acompanhada de constantes crises políticas. Pois sua organização dava-se em 1912, num período em que a cidade de Manaus vivenciava uma parte da retração da exportação do látex por conta de uma série de acontecimentos na economia de produção exportadora, e principalmente, pela concorrência asiática, (com suas produções de borracha em larga escala e com um valor de seu produto no mercado, muito inferior ao nosso).

Fontes

  1. BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: formação social e cultural. Manaus: Valer, 1998, p. 64.
  2. BARRETO, Cristiane Manique. Fragmentos e Recortes: Formação de Elites em Itajaí no Início do Século. In. Revista Alcance. Itajaí: Univale, ano IV, n. 0, junho, 1997. p. 30.
  3. MAIA, Álvaro. Defumadores e porongas: pequenas estórias – ciclo da borracha – Amazonas. Manaus: Governo do Estado do Amazonas; Sérgio Cardoso, 1966.
  4. MAIA, Bueno. O século dos imigrantes. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 23, n.º 45, p. 313-316, 2003. Acervo Biblioteca da Rede Amazônica.
  5. BARRETO, Cristiane Manique. Op. Cit. p. 31.
  6. LOBO, Eulália Maria L. Migração portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar. 2003. p. 132-134.
  7. LOBO, Eulália Maria L. Migração portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2003, p. 56.
  8. BITTENCOURT, Ângelo. Chorographia do Estado do Amazonas. Manaus: Typographia Palácio Real do Estado do Amazonas, 1926. p. 36.
  9. Este argumento pode ser melhor observado em: BATISTA, Djalma. Cultura e sociedade. 3.ª ed. Manaus: Org. Tenório Telles, 2007.
  10. LOUREIRO, José Souto. Síntese da História do Amazonas. Manaus: Imprensa Oficial, 1978. p. 76.
  11. BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: formação social e cultural, Manaus: Valer, 1998. p. 70.
  12. BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: formação social e cultural, Manaus: Valer, 1998. p. 71.
  13. MESQUITA, Otoni Moreira de. Manaus história e arquitetura. Manaus: Edua, 1997. p. 208.
  14. TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. Manaus: Imprensa Oficial, 1989. p. 188-189.
  15. BENCHIMOL. Op. Cit. p. 131.
  16. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 19.ª ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. p. 8.
  17. DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do Fausto: Manaus 1890-1920. Manaus: Valer, 1999. p. 131.
  18. DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do Fausto: Manaus 1890-1920. Manaus: Valer, 1999. p. 145.
  19. MESQUITA, Op. Cit. p. 54.
  20. Este contexto pode se mais bem observado em: CUNHA, Temístocles. No país das Amazonas. Manaus: Editora Saraiva, 1995. p. 10-16.

    Leia também: Antônio José Pereira Sotto Mayor: presidente da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas – 1914

    Sobre o autor

    Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

    *O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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