Você sabia que uma cidade do Amazonas separa o Brasil da Colômbia por uma avenida?

De Tabatinga, no Amazonas, para Letícia, na Colômbia, o vaivém de pedestres e motoristas é constante e não exige documentação, revista ou qualquer tipo de burocracia para que se entre ou saia dos dois países: basta atravessar a rua.

Placa que marca o encontro entre Letícia e Tabatinga. Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas

A cidade de Tabatinga, no interior do Amazonas, desafia as noções tradicionais de fronteira. Por lá, a divisão entre o território brasileiro e a cidade de Letícia, na Colômbia, não é feita por muros ou rios intransponíveis que separam os dois países, mas sim por uma simples via: a Avenida da Amizade.

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Nesta fronteira seca, o vaivém de pedestres e motoristas é constante e não exige documentação, revista ou qualquer tipo de burocracia para que se entre ou saia dos dois países: basta atravessar a rua.

No local, apenas um letreiro simboliza essa divisão, que só divide mesmo na teoria. Na prática, a integração é tão profunda que pesquisadores a definem como uma “cidade gêmea” ou um organismo urbano único.

“A fronteira não é apenas um limite político-administrativo, mas um espaço vivido, onde as identidades se misturam e as práticas cotidianas ignoram as linhas dos mapas”, destaca o sociólogo e pesquisador, José Albuquerque.

Essa dualidade é sentida no comércio: de um lado, o português e o real; do outro, o espanhol e o peso colombiano.

Na comunicação, o “portunhol” é a língua franca que domina as interações sociais. Mas se engana quem pensa que isso gera problemas para quem vive no local.

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Conheça a cidade do Amazonas que separa o Brasil da Colômbia por uma avenida
Entrada de Tabatinga na fronteira com a Colômbia. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM

A professora de espanhol e Miss Tabatinga, Maria Rita, define a vivência na região como uma experiência que ignora as divisões cartográficas tradicionais. Para ela, a fronteira é sentida mais pela cultura do que pela burocracia.

“Viver na tríplice fronteira é experimentar uma geografia que desafia os mapas. Na prática, a fronteira é invisível na rotina. Atravessar a rua não é um ato burocrático de mudar de país, é um movimento natural de quem vive em um organismo único, onde Tabatinga e Letícia funcionam como bairros de uma mesma grande metrópole amazônica”, afirma Maria Rita.

Maria ainda diz que a condição de “cidade gêmea” reflete não apenas a proximidade física, mas uma estrutura mental diferenciada para quem nasce na região. Ela explica que a identidade de quem vive no extremo Oeste do Amazonas é ampliada pelo convívio binacional.

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“Eu me sinto profundamente brasileira, mas ser de Tabatinga é possuir uma singularidade que o restante do país nem sempre compreende: eu sou uma brasileira da fronteira. Como pesquisadora, entendo que o cidadão que nasce e cresce aqui desenvolve uma estrutura cognitiva e cultural diferenciada. Nosso olhar para o mundo é mais ‘elástico’, porque fomos alfabetizados nesse contexto linguístico e pela convivência com o outro”, ressalta.

Desafios e potencialidade

Segundo José Albuquerque, apesar da riqueza cultural e da posição estratégica, a cidade enfrenta desafios proporcionais à sua complexidade. A segurança pública e a logística de transporte, que depende quase exclusivamente do Rio Solimões ou de voos, são temas recorrentes nas pesquisas acadêmicas locais.

Por outro lado, o potencial turístico é vasto. Quem visita Tabatinga pode:

  • Cruzar a fronteira a pé: basta caminhar pela Avenida da Amizade para trocar de país em segundos.
  • Explorar o Rio Solimões: passeios de barco que conectam comunidades indígenas e áreas de preservação.
  • Gastronomia mista: saborear desde o tacacá amazonense até a famosa patarashca colombiana, prato típico a base de peixe.

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Veículo do exercito brasileiro com as bandeiras brasileiras e colombianas. Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas

Maria Rita ressalta que o acesso a serviços e opções de lazer em Letícia, na Colômbia, é feito sem burocracias, o que torna a rotina dos moradores mais diversificada. Para ela, a cidade vizinha funciona como uma extensão do quintal de casa.

“O acesso ao lazer e aos serviços na fronteira é vivido com total naturalidade. Não vemos como ‘ir a outro país’, mas como aproveitar o que a nossa cidade vizinha oferece de melhor. É uma dinâmica muito simples e funcional: usufruímos da gastronomia e da cultura de Letícia com a mesma facilidade com que circulamos em Tabatinga”, destaca Maria Rita.

Além da vizinhança terrestre com a Colômbia, Tabatinga também estabelece o limite do território brasileiro com o Peru. No entanto, a dinâmica com os peruanos ganha um contorno diferente: em vez de uma rua, a fronteira é ditada pelas águas do Rio Solimões. A travessia para a ilha de Santa Rosa, a localidade peruana mais próxima, é feita em poucos minutos por meio de pequenas embarcações, conhecidas na região como “peque-peques”.

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Porta de entrada para tráfico internacional de drogas

Tabatinga também sofre com ações de organizações criminosas, a cidade apontada por estudos como o ponto inicial da chamada “Rota do Solimões”, um dos principais corredores de tráfico internacional de drogas na Amazônia. Devido a localização, a cidade funciona como porta de entrada da cocaína produzida nos países vizinhos, que segue pelos rios até Manaus e depois para outras regiões do Brasil e do exterior.

A vulnerabilidade social e a ausência de fiscalização permanente tornam o território estratégico para facções criminosas. De acordo com o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam o controle da região, aproveitando-se da extensa fronteira fluvial e da circulação livre entre Tabatinga, Letícia, e Santa Rosa, no Peru.

Militares usam balaclava nas fiscalizações para se protegerem do crime organizado. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM

A dinâmica na fronteira entre os territórios também proporcionou com que organizações criminosas brasileiras expandissem a atuação com dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Em entrevista, o coronel colombiano Rodriguez Contreras Carlos detalhou que facções como o CV e o PCC mantêm parcerias estratégicas com guerrilheiros para o controle de crimes ambientais e o tráfico de drogas na região de fronteira.

“Esses grupos estão presentes na região fazendo negócio, narcotráfico, garimpo ilegal. Essas estruturas, esses grupos já ultrapassaram fronteiras”, afirmou.

Mesmo com as problemáticas, a via que une Brasil e Colômbia ainda consegue fazer sobressair na rotina dos moradores o significado que carrega no nome: a amizade entre duas nações.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

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