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Filme retrata luta de mulheres na Amazônia e explora pertencimento e responsabilidade

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Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Saberes, o cuidado com a família e a relação profunda com o território onde vivem. Esses aspectos do cotidiano aparecem no filme ‘Mulheres que Sustentam a Amazônia‘, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Arquidiocese de Santarém (PA).

A produção contou com o apoio do curso de Geografia da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), ligado ao Instituto de Ciências da Educação (Iced).

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O filme reúne depoimentos de mulheres da comunidade Jatobá, no município de Mojuí dos Campos (PA), e do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Serra Azul, em Monte Alegre (PA).

O curso de geografia auxiliou na produção a partir do diálogo contínuo com as lideranças mulheres e ida de professores e alunos às comunidades. Nas dinâmicas de grupo, buscavam instigar a compreensão das mulheres com relação às suas realidades, sua relação ao pertencimento e a sua responsabilidade no campo.

Imagem colorida mostra vista aérea de campus da Ufopa para falar sobre filme
Foto: Divulgação/ Ufopa

Também houve abordagens sobre a função dessas mulheres na luta contra o avanço de setores vinculados aos monocultivos da agricultura capitalista.

O filme foi lançado no último dia 6 de fevereiro na Unidade Rondon da Ufopa – Campus Santarém, quando houve a primeira exibição da obra.

Sobre o filme

A produção busca potencializar as vozes das mulheres que vivem e resistem nos territórios amazônicos. Mais do que registrar histórias, o filme tem como objetivo evidenciar o papel fundamental das mulheres na sustentação da vida, da cultura e da resistência na região.

As vozes que conduzem a narrativa surgem da roça, da floresta e do coração das comunidades, revelando um cuidado que vai além das tarefas diárias: trata-se de um modo de viver, transmitido entre gerações, que preserva a saúde, a memória, a educação dos filhos e o afeto comunitário.

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O filme destaca que, para essas mulheres, o cuidado é um ritmo constante, comparado ao cultivo da terra: plantar, proteger, esperar e colher.

Os saberes tradicionais, herdados das avós — como o uso de plantas medicinais e práticas de cura — aparecem como expressões de resistência e identidade.

Da mesma forma, a educação dos filhos é apresentada como um ato de proteção, para que as novas gerações não percam suas raízes diante dos desafios do mundo exterior.

Em breve, a obra será disponibilizada na Internet para acesso público. Outras informações no site da Arquidiocese de Santarém.

*Com informações da Ufopa

Expedição é realizada para mapear riscos ambientais em 50 comunidades do Médio Solimões

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Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

A ‘Expedição de Mapeamento de Riscos e Desastres no Médio Solimões‘ partiu de Tefé, no Amazonas, no dia 20 de janeiro, com destino a 50 comunidades ribeirinhas e indígenas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e ao longo do Rio Solimões, passando pelos municípios de Tefé, Uarini, Alvarães, Juruá e Fonte Boa.  

A expedição, realizada até o dia 11 de fevereiro, propôs entrevistar mais de 500 pessoas com o objetivo de analisar os fenômenos naturais e desastres ambientais que têm ocorrido na região, além de compreender como as populações ribeirinhas da região se adaptam e enfrentam esses cenários.  

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Durante as visitas às comunidades, os pesquisadores realizam entrevistas com líderes comunitários e famílias para coletar informações detalhadas sobre cheias e secas, fenômenos de terras caídas, formação de praias, quedas de árvores, qualidade do solo, perda do pescado, além de dificuldades de locomoção e acesso à alimentação, escassez de água potável e surgimento de doenças.   

Além das entrevistas, o grupo de pesquisadores realiza registros fotográficos e utiliza drones para mapeamento e reconhecimento das áreas, com a finalidade de descrever as características geográficas das comunidades e identificar, de forma técnica, os riscos ambientais enfrentados por cada uma delas. Imagens de satélites também deverão ajudar na análise.   

Para Paula Silva, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais da Amazônia, do Instituto Mamirauá, ouvir as comunidades é fundamental para um mapeamento ainda mais aprofundado.   

“A ideia é ir além do diagnóstico técnico. Para isso, precisamos ouvir os relatos dos comunitários, a fim de compreender melhor como eles se adaptam e enfrentam esses eventos extremos”, explica.  

Segundo a pesquisadora, durante as visitas foi possível coletar informações de moradores mais antigos, que trouxeram narrativas comparativas entre o presente e o passado de seus territórios. “Alguns entrevistados relataram o aumento do calor durante o verão e como as chuvas e corredeiras têm se tornado mais intensas”, acrescenta.  

Para o tuxaua da Aldeia Laranjal, Paulo Miranha, é fundamental que as comunidades sejam ouvidas, já que cada uma carrega experiências e vivências importantes.   

“Vejo essa pesquisa como uma oportunidade de falar sobre os desafios e problemas enfrentados aqui na aldeia. Agradeço pela presença de vocês, pois é ouvindo nossas vozes que será possível compreender melhor as dificuldades e as transformações que nossos territórios vêm passando”, afirma.  

Necessidade da pesquisa  

Os territórios amazônicos passam por constantes transformações. A Amazônia sempre enfrentou fenômenos naturais como terras caídas, corredeiras, cheias e secas. No entanto, essas áreas têm se tornado ainda mais sensíveis com o avanço do aquecimento global, o que afeta diretamente a maioria dos povos amazônidas, que vivem, em grande parte, às margens de rios e lagos.  

Nesse sentido, a expedição, alcançando 50 comunidades da região do Médio Solimões, busca, por meio de relatos e mapeamentos, produzir novas informações sobre as mudanças climáticas e ambientais nesses territórios, contribuindo para a formação de políticas públicas voltadas à melhoria da qualidade de vida dessas populações.  

Ainda sobre o mapeamento, a partir de entrevistas, relatos e imagens, o grupo de pesquisa deve descrever de forma detalhada os níveis de riscos, os desastres e os problemas enfrentados por cada comunidade em relação às mudanças climáticas e fenômenos naturais.

“Esperamos que as informações geradas possam subsidiar políticas públicas de gestão de riscos e desastres, assim como ações voltadas à agenda climática, além de apoiar o trabalho de órgãos como a Defesa Civil”, acrescentou Ayan Fleishmann, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais da Amazônia, do Instituto Mamirauá. 

A iniciativa, além de aproximar as comunidades da pesquisa científica, fortalece a articulação entre instituições de pesquisa e universidades. Participaram da expedição pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas, de Tefé e Tabatinga, e da Universidade Internacional da Flórida, dos Estados Unidos.  

Financiamento da expedição e apoio  

Realizada pelo Instituto Mamirauá, a expedição é financiada pela Gordon and Betty Moore Foundation, com apoio da Florida International University e da Universidade do Estado do Amazonas, Polo Tefé. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

Mais de 50 mil foliões em Parintins: Carnailha celebra sucesso em 2026

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Foto: Reprodução/Amazon Sat

Considerado o segundo maior evento de Parintins, cidade mundialmente conhecida pelo Festival Folclórico e pela histórica disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido, o Carnailha se consolida como uma das mais tradicionais manifestações culturais do município amazonense. A festa é realizada anualmente no domingo, na segunda e na terça-feira de Carnaval, reunindo milhares de foliões “na avenida”.

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Na disputa do Grupo Irreverente, sete blocos competem: Invasão na Folia, Os Belezuras, As Tiazinhas, Pantera Cor de Rosa, Lagarto Salgado, Chitara da Chapada e Os Piratas. Já na Chave Especial, seis blocos disputam o título de campeão: Os Metralhas, Bad Boy, Império do Palmares, FAX, Unidos do Itaúna e Rubro Negro.

De acordo com a vice-prefeita de Parintins, Vanessa Gonçalves, a expectativa é que mais de 50 mil pessoas tenham passado pela cidade para participar do circuito carnavalesco ao longo da programação, já que em 2026, o Carnailha teve uma estrutura ampliada e um forte esquema de segurança. A prefeitura deve divulgar os dados consolidados até o fim da semana.

O investimento foi de cerca de R$ 2 milhões para garantir a realização do evento, além do suporte da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros, da Guarda Municipal, do Ministério Público e do Conselho Tutelar, que garantiram a organização do circuito e a proteção do público.

Segurança reforçada nas três noites

Foto: Pedro Coelho/Secom Parintins

Ao todo, o 11º Batalhão da Polícia Militar empregou 108 policiais, com média de 50 agentes por noite, além de seis viaturas e três motocicletas distribuídas em pontos estratégicos da cidade.

Além disso, de acordo com o capitão Almeida, o 19º Grupamento de Bombeiros Militar trabalhou com força operacional completa, disponibilizando três viaturas, entre unidades de combate a incêndio e de resgate.

Segundo o Sargento Luiz Carlos Miranda, a Guarda Municipal de Parintins contou com 40 agentes, que foram responsáveis, principalmente pela segurança interna do evento, e atuaram nas entradas de arquibancadas e camarotes garantindo a organização.

De acordo com a prefeitura, o Ministério Público e o Conselho Tutelar também participaram com ações de fiscalização, voltadas à prevenção de irregularidades e no acompanhamento de eventuais ocorrências envolvendo o público infanto-juvenil. 

Leia também: Sete locais para visitar em Parintins durante o Carnailha 2026

Estrutura e planejamento

Segundo Kill Serrão, membro da Comissão Organizadora, a estrutura do circuito carnavalesco teve aproximadamente 200 metros, com arquibancadas, 50 camarotes, praça de alimentação e ordenamento das barracas.

A montagem envolveu aproximadamente 50 trabalhadores responsáveis pela instalação de camarotes, arquibancadas, sistema de som e iluminação.

Foto: Reprodução/Amazon Sat

Além disso, o diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), Marquinho da Luz, informou que, para garantir o fornecimento de água durante a festa, o SAAE executou uma operação especial com mais de 30 poços tubulares.

Além disso, a estrutura de saúde também foi intensificada, com aproximadamente 300 profissionais mobilizados nas frentes de atendimento e prevenção, divididas entre unidades de Pronto Atendimento, equipes de resgate, hospital e Vigilância em Saúde, durante toda a programação.

Participação dos bois-bumbás na avenida

Os bois de Parintins também participam do evento carnavalesco com a famosa noite dedicada ao Carnaboi, que representa o início da temporada bovina na cidade.

O Boi Caprichoso levou cerca de 700 brincantes, entre eles, 140 marujeiros e 120 dançarinos, além de quatro alegorias e os itens oficiais, como Patrick Araújo, Edmundo Oran, Caetano Medeiros e Jr. Paulain.

Já o Boi Garantido desfilou com mais de 100 batuqueiros, além de também levar alegorias e, claro, os itens oficiais como Sebastião Júnior, Israel Paulain, David Assayag e o amo João Paulo Faria. 

Leia também: 6 conquistas culturais do Carnailha que o tornam único

Galeria: confira momentos das três noites do Carnailha 2026
Foto: Reprodução/Amazon Sat

Carnaval Amazônico

O projeto Carnaval Amazônico é uma iniciativa do Grupo Rede Amazônica que conecta o público com a essência do Carnaval da região Norte, com o apoio do Governo do Estado do Amazonas.

Confira momentos das três noites do Carnailha 2026; Fotos

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Fotos de Dayson Valente, Edley Ribeiro e Diego Andreolleti

Segunda maior festa cultural de Parintins, no Amazonas, o Carnailha é marcado pela irreverência e diversão dos blocos carnavalescos na avenida.

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A alegria contagia o público com diversos temas levados para a avenida pelos blocos do Grupo Irreverente e da Chave Especial, além, é claro, do Carnaboi, que abre a temporada bovina.

Veja alguns momentos da festa que reuniu milhares de foliões entre os dias 15 e 17 de fevereiro na ilha da magia:

Galeria: confira momentos das três noites do Carnailha 2026

Leia também: Parintins além do Carnailha: dicas do que fazer na cidade além de aproveitar o Carnaval

Carnaval Amazônico

O projeto Carnaval Amazônico é uma iniciativa do Grupo Rede Amazônica que conecta o público com a essência do Carnaval da região Norte, com o apoio do Governo do Estado do Amazonas.

Fungo amazônico pode controlar doenças agrícolas e gerar novos antibióticos

Alguns compostos biotecnológicos são inéditos e ainda não descritos na literatura científica. Foto: Felipe Rosa

Uma nova espécie amazônica de fungo descoberta por pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental, no Amazonas, revelou potencial para o desenvolvimento de bioprodutos de uso na agricultura. Batizado de Trichoderma agriamazonicum, o fungo combina aptidão para o controle biológico com aplicações biotecnológicas, uma vez que produz compostos naturais inéditos, ainda não descritos na literatura científica. Isso lhe confere dupla funcionalidade: na defesa de plantas e na promoção de crescimento vegetal.

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O nome Trichoderma agriamazonicum reflete tanto a origem amazônica quanto a vocação agrícola da nova espécie. O fungo foi identificado a partir de amostras coletadas em uma espécie madeireira nativa da Amazônia e pertence ao gênero Trichoderma, amplamente estudado por sua atuação no controle biológico de doenças e pragas agropecuárias.

A nova espécie se diferencia das demais por apresentar características genéticas próprias, que ampliam as possibilidades de uso em sistemas produtivos sustentáveis.

Trichoderma agriamazonicum foi identificado, em 2023, pelos pesquisadores Thiago Fernandes Sousa e Gilvan Ferreira da Silva, e vem sendo alvo de novas pesquisas desde então. Na época, Sousa era doutorando do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e bolsista da Embrapa Amazônia Ocidental, sob a orientação de Silva. 

Estudos mais específicos realizados no Laboratório de Inovação em Microbiologia Aplicada da Amazônia (AmazonMicro-Biotech), da Embrapa, têm confirmado o desempenho promissor desse microrganismo, inclusive sua aplicabilidade na medicina. Essa característica advém dos peptídeos (pequenas cadeias de aminoácidos) encontrados nessa espécie, que revelam ação antimicrobiana com eficácia superior a antibióticos comerciais. 

Leia também: Nem todo fungo é vilão: a importância de sua preservação ao longo da BR-319

Testes com a nova espécie mostram ainda eficiência em laboratório (in vitro) no controle de nove diferentes espécies de fitopatógenos, que são agentes causadores de doenças nas folhas de diversas culturas agrícolas.

Segundo Sousa, o isolado de fungo foi extensivamente caracterizado durante a sua tese de doutorado, defendida em 2025, e os dados morfológicos e filogenéticos sustentaram a sua proposição como nova espécie fúngica.

“Os resultados mostram que ela é capaz de inibir o crescimento micelial de fitopatógenos, tanto por micoparasitismo quanto pela produção de compostos orgânicos voláteis (COVs), com destaque para a inibição de Corynespora cassiicola e Colletotrichum spp.(que atacam culturas como soja e frutas, por exemplo)”, explica. 

Compostos inéditos e ação contra superbactérias

Fotos: ScienceDirect

Um dos destaques das pesquisas com T. agriamazonicum reside na mineração genômica de seus agrupamentos de genes biossintéticos (BGCs, na sigla em inglês), que são conjuntos de genes que funcionam como uma “fábrica química” codificada para a defesa e a interação no ambiente.

Esse trabalho permitiu a predição e síntese de peptaibols (peptídeos não ribossomais) com atividade antimicrobiana inédita. A abordagem empregou o algoritmo PARAS (previsor de especificidade de substrato de domínios de adenilação, em inglês), para predizer a sequência de aminoácidos dos peptaibols antes mesmo de seu isolamento, com precisão. 

Essa metodologia, seguida da síntese química dos compostos preditos, vem sendo denominada syn-BNP (Synthetic Bioinformatic Natural Product) e representa uma nova fronteira na descoberta de produtos naturais. Ela acelera significativamente o processo de identificação de moléculas bioativas ao eliminar a necessidade de cultivo extensivo e da purificação química tradicional.

Os resultados indicam que esses peptaibols possuem potencial biotecnológico como agentes antimicrobianos, com eficácia comparável ou até superior a antibióticos comerciais.

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Em ensaios controlados, um peptaibol de 18 aminoácidos sintetizado quimicamente com base em predição a partir do genoma de T. agriamazonicum mostrou-se ativo contra Streptococcus sp. e Klebsiella pneumoniae, bactérias que provocam infecções como pneumonia.

Além da aplicação médica, o peptaibol de 18 aminoácidos também demonstrou eficiência antifúngica no biocontrole agrícola, inibindo o crescimento do fitopatógeno fúngico Pseudopestalotiopsis sp., agente causal de mancha foliar em guaranazeiro.

Potencial para o crescimento vegetal

No que diz respeito à promoção de crescimento vegetal, uma linhagem do T. agriamazonicum se destacou pela sua capacidade de sintetizar hormônios vegetais, os chamados fitormônios. Em testes in vitro, o isolado produziu 60,53 microgramas por mililitro (µg/mL) de ácido indolacético (AIA), um fitormônio essencial que estimula o desenvolvimento da planta. Esse resultado o posicionou no grupo dos isolados com maior produção de AIA testada.

No entanto, a pesquisa em casa de vegetação indicou que, apesar da alta produção de AIA, o desempenho dessa linhagem de T. agriamazonicum na promoção de crescimento do pimentão não superou significativamente o controle negativo no experimento.

Isso sugere que múltiplos mecanismos estão envolvidos na promoção de crescimento vegetal e que a produção de AIA por si só não tem relação direta com a eficiência de crescimento da planta em campo. A importância de T. agriamazonicum reside, portanto, em seu vasto potencial como fonte de moléculas bioativas específicas.

Foto: Sérgio de Andrade

Como foi a descoberta do Trichoderma agriamazonicum

Sousa relata como a descoberta aconteceu: “No laboratório, estávamos realizando trabalhos de isolamento de microrganismos de diferentes habitats amazônicos. Esse Trichoderma foi isolado a partir da casca de cardeiro (Scleronema micranthum), uma espécie madeireira nativa. O isolado estava preservado em coleção de cultura desde 2004”.

“Quando começamos a identificar taxonomicamente esses fungos do gênero Trichoderma, nos deparamos com essa nova espécie. Caracterizamos o isolado detalhadamente e descobrimos que ele possui dupla importância: para a agricultura, no controle biológico de fitopatógenos, e para a biotecnologia, com a produção de peptídeos que nunca haviam sido descritos na literatura científica”, complementa Sousa.

Para os pesquisadores, esse caso exemplifica o vasto potencial ainda inexplorado da biodiversidade amazônica. Além de ser uma espécie nova para a ciência, T. agriamazonicum produz moléculas originais, com aplicações confirmadas no biocontrole agrícola e atividade promissora contra superbactérias, mas cujo potencial completo ainda está por ser desvendado.

“Com base na coleta desse único microrganismo, identificamos a possibilidade de gerar valor econômico a partir dessas moléculas e transformá-las em bioprodutos comerciais”, destaca Sousa.

A história dessa espécie de Trichoderma ilustra dois pontos críticos para a ciência brasileira. Primeiro, a fragilidade da biodiversidade: o fungo foi isolado de uma árvore madeireira que poderia ter sido cortada e completamente perdida antes que seu potencial fosse conhecido. Segundo, a importância estratégica das coleções biológicas: depois de quase duas décadas preservado, o isolado finalmente revelou seu valor científico e biotecnológico.

“Esse potencial poderia ter sido perdido para sempre se não houvesse a coleção de culturas que mantém o isolado viável ao longo do tempo. Isso reforça a necessidade urgente de investimento contínuo na conservação, pesquisa e aplicação dos nossos recursos genéticos”, enfatiza o pesquisador Gilvan Ferreira.

Para ele, descobertas transformadoras muitas vezes levam anos ou décadas para se concretizar e dependem de infraestrutura de conservação biológica para não desaparecerem antes de serem compreendidas.

Biodiversidade da Amazônia é rica em matéria-prima para inovações biotecnológicas

Foto: Felipe Rosa

A descoberta ocorreu no âmbito do Laboratório de Inovação em Microbiologia Aplicada da Amazônia (Amazon Micro-Biotech) da Embrapa Amazônia Ocidental. Os resultados de suas pesquisas reforçam a constatação da importância da biodiversidade da Amazônia como fonte de recursos estratégicos para o desenvolvimento de insumos agrícolas e farmacêuticos, e produtos biotecnológicos de última geração.

Alguns desses resultados mostram que a possibilidade da diversidade microbiana da Amazônia se traduzir em novas aplicações biotecnológicas para a agricultura sustentável está cada vez mais viável com a identificação de microrganismos e moléculas com capacidades multifuncionais. 

Nesse sentido, a equipe do Amazon Micro- Biotech vem desenvolvendo um significativo volume de pesquisas em que participam bolsistas de graduação, mestrado e doutorado, apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa

Fibra da bananeira é utilizada como ferramenta cultural e fonte de renda em Porto Velho

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Foto: Iara Umbelino/Acervo pessoal

Transformar o que seria descartado em fonte de arte, identidade e renda. Foi com esse olhar que a educadora ambiental Iara Umbelino, de Porto Velho (RO), participou de um curso de artesanato com fibra de bananeira na comunidade de Cambaúba, em Amargosa (Bahia).

A oportunidade surgiu de um convênio firmado entre a Prefeitura de Porto Velho, por meio da Semagric, e a Jirau Energia. A capacitação foi realizada dentro do projeto Arte Fibra, que reúne artesãs e promove a sustentabilidade através da utilização do pseudocaule da bananeira como matéria-prima.

Nove mulheres de Porto Velho foram selecionadas para a experiência, entre elas indígenas, ribeirinhas e artesãs da capital.

Leia também: Artesã indígena usa folhas e fibras de bananeira para conservar cultura ancestral

Experiência de aprendizado com a fibra de bananeira

Representando a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Sema), a servidora explica que a vivência foi muito além do aprendizado técnico.

“O que mais me chamou atenção foi a riqueza do processo de extração e aproveitamento de cada parte da bananeira. Ver como as mulheres da Bahia transformam esse material em peças de alto valor, com aceitação até no mercado internacional, foi inspirador. Mas, acima de tudo, percebi que o artesanato carrega identidade, pertencimento e valorização da história das mulheres artesãs”, destacou.

Nova experiência vai ampliar o leque de atividades desenvolvidas em Porto VelhoDurante o curso, as participantes aprenderam técnicas de desfibrar manualmente o pseudocaule, realizar a secagem adequada, preparar as fibras e confeccionar peças como bolsas, carteiras, caixas e cestas.

“São práticas simples e acessíveis, que podem ser aplicadas facilmente em oficinas comunitárias e escolares em Porto Velho”, completou a educadora.

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O artesanato com fibra de bananeira agrega valor a um resíduo agrícola abundante na região foto iara umbelino
Foto: Iara Umbelino/Acervo pessoal

Multiplicando conhecimento

De volta à capital rondoniense, a expectativa agora é planejar as primeiras oficinas de artesanato sustentável com fibra de bananeira. A Sema já desenvolve oficinas com materiais recicláveis em escolas e comunidades, e com essa nova experiência pretende ampliar o leque de atividades.

“O objetivo é mostrar às crianças, famílias e mulheres em situação de vulnerabilidade que algo descartado pode ser transformado em arte e renda. Essa é uma alternativa de geração de trabalho, mas também uma forma de sensibilizar para a sustentabilidade”, explicou Iara.

A experiência adquirida na Bahia será aplicada em Porto Velho como exemplo de economia criativa. O artesanato com fibra de bananeira agrega valor a um resíduo agrícola abundante na região e abre novas oportunidades de renda.

“As oficinas que planejamos serão mais do que aprendizado técnico. Queremos levar para as comunidades a mensagem de que sustentabilidade é caminho, arte é identidade e que, quando unimos os dois, criamos alternativas para um futuro melhor”, concluiu Iara Umbelino.

*Com informações da SEMA Porto Velho

Museu de Arte Sacra preserva história e fé no Centro Histórico de Santarém

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Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

Uma verdadeira imersão na história da Igreja Católica, o Museu de Arte Sacra abriga um dos mais importantes acervos religiosos de Santarém (PA). O espaço reúne peças dos séculos XVIII e XIX, recebe visitantes de diferentes estados do Brasil e do exterior e está localizado ao lado da Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição, no Centro Histórico da cidade.

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Com arquitetura marcante, o museu conta com exposições organizadas em cinco setores, seguindo um percurso de visitação no sentido horário:

  • o primeiro setor é dedicado às imagens sacras;
  • o segundo apresenta a história da congregação;
  • o terceiro reúne indumentárias e vestimentas episcopais;
  • o quarto é voltado aos objetos metálicos;
  • e o quinto abriga quadros e pinturas religiosas.

Mantido pela Fundação Cultural Dom Tiago, o Museu de Arte Sacra recebe principalmente estudantes de escolas, universidades e instituições técnicas, além de turistas provenientes de estados como Amazonas, Mato Grosso e São Paulo.

Leia também: Conheça a Amazônia através de cinco museus da região Norte

Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

Museu é ferramenta de educação

Responsável pelo espaço há 20 anos, Werner Amazonas ressalta o papel educativo da instituição.

“O museu tem como objetivo principal a educação. Nosso trabalho se baseia em um tripé: comunicação, pesquisa e preservação da história da Igreja Católica, desde a sua fundação, em 22 de junho de 1661. As informações são didáticas e acessíveis, permitindo que o visitante adquira conhecimento ao longo da visita”, explica.

Inaugurado em 22 de junho de 2003, por iniciativa de Dom Lino Vombommel, então bispo de Santarém, o Museu de Arte Sacra tem passado por constantes melhorias ao longo dos anos. O espaço mantém-se alinhado aos princípios museológicos e reafirma seu compromisso com a preservação da memória religiosa e histórica do município.

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Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

Para o secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, o espaço desempenha papel fundamental na valorização do patrimônio cultural de Santarém.

“O Museu de História e Arte Sacra é um patrimônio fundamental da nossa cidade, pois preserva a memória, a fé e a identidade cultural de Santarém. Além de valorizar a história da Igreja Católica na região, o espaço fortalece o turismo cultural e educativo, atraindo estudantes e visitantes de várias partes do Brasil e do exterior. Nosso compromisso, enquanto gestão, é apoiar iniciativas como essa, que enriquecem a experiência do turista e reforçam Santarém como um destino de cultura, história e turismo ao longo de todo o ano”, pontua.

A entrada tem valor simbólico de R$ 5,00 por pessoa, e a visitação é limitada a grupos de até 20 pessoas, garantindo uma experiência mais organizada e qualificada ao público. A visitação ocorre de terça a sábado, das 8h às 11h30. Somente nos meses de janeiro e fevereiro, o museu recebeu mais de 300 visitantes.

*Com informações da Prefeitura de Santarém

Saiba quem foi Lauro Chibé, o construtor de 100 bois bumbás no Amazonas

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Lauro Chibé, o artista que construiu mais de 100 bois bumbás no Amazonas. Foto: Reprodução/Instituto Durango Duarte

Considerada uma das principais manifestações folclóricas do Brasil, o boi-bumbá faz parte da história cultural do Amazonas. O Festival Folclórico de Parintins, por exemplo, é o maior evento cultural à céu aberto do mundo protagonizado pelos bois bumbás Caprichoso e Garantido no estado.

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Trazido pelos imigrantes nordestinos durante o ciclo da borracha, entre os séculos XIX e XX, o boi bumbá passou por muitas mãos de talento antes de se tornar a maior celebração cultural do estado. Duas delas foi de Lauro Chibé, um dos nomes de destaque do folclore popular manauara, responsável pela construção de 100 bois bumbás no Amazonas.

Poucos registros históricos contam a trajetória do artista, que teve vasta contribuição no cenário cultural amazonense.

Quem foi Lauro Chibé?

Raro registro de Lauro Chibé. Foto: Instituto Durango Duarte

Natural de Bezerros (PE), Lauro Queiroz de Souza desembarcou em Manaus em 1916, junto com a sua mãe. Com pai ausente, ele e sua mãe se instalaram no bairro dos Tocos, atual Nossa Senhora Aparecida, na zona Sul da capital.

Com prováveis cinco anos de idade (não há registro preciso de nascimento de Lauro), ele passava o dia inteiro em casa enquanto a mãe vendia doces pelas redondezas do bairro.

Munido de papel e lápis, Lauro começou a rabiscar os primeiros traços do seu talento. Sozinho em casa, aprendeu a desenhar e ler através de gibis e revistas que o cercavam. Aos fins de semana, aproveitava a presença da mãe na residência para brincar na rua com as crianças do bairro.

Inclusive, foi numa dessas interações com os colegas da vizinhança que ele ganhou o apelido que ficaria marcado na sua vida. Sua aparência pálida e magra lhe renderam o codinome de Chibé, em alusão ao pirão de farinha com água, sal e pimenta, alimento de famílias que viviam em extrema pobreza. A partir de então, passou a ser chamado como Lauro Chibé.

Saiba mais: O chibé como marcador das identidades caboclas da Amazônia paraense

Primeiro contato com boi-bumbá

Aos sete anos de idade, Lauro Chibé assistiu uma apresentação de boi-bumbá pela primeira vez. Durante um arraial na Praça Bandeira Branca, o pequeno ficou encantado com o folguedo, espécie de festa popular que envolve manifestações culturais e folclóricas brasileiras.

Praça Bandeira Branca, localizada no bairro Aparecida, em Manaus. Foto: Reprodução/Instituto Durango Duarte

Na ocasião, teve seu primeiro contato com o bumba-meu-boi, manifestação predominante no Nordeste que celebra a morte e ressureição de um boi através da dança, música e teatro, sob influências indígenas, africanas e europeias.

Sua mãe, enquanto trabalhava numa barraca de doces, criou um origami (arte de dobrar papel japonesa para criar figuras de animais, plantas, objetos e formas geométricas) em formato de boi-bumbá, tornando-se o seu principal brinquedo desde então.

Ali já se desenhava uma grande paixão de Lauro com a arte. Prova disso era sua presença constante na Biblioteca Pública, onde dividia seu tempo para concluir os estudos e a leitura de livros sobre artistas plásticos da Idade Média. Ao que se sabe, Michelangelo, um dos maiores nomes do Renascimento Italiano, era o grande ídolo e referência de Chibé.

Leia também: Portal Amazônia responde: quais as diferenças entre o Boi Bumbá e o Bumba Meu Boi?

Início da carreira

Aos 20 anos, Lauro já era considerado à época um dos melhores artesãos de Manaus. Era constantemente procurado para esculpir o que lhe fosse pedido em madeira, desde miniaturas de barcos regionais à máscaras indígenas, animais e até escudos personalizados de clubes de futebol.

E por falar no esporte mais popular do mundo, Chibé, além das mãos, era bom com a bola nos pés. Ligeiro e com potências nas duas pernas, destacou-se como jogador do Luso Sporting Clube, agremiação portuguesa que se instalou em Manaus. Também defendeu as camisas da União Esportiva Portuguesa e General Osório, antes de largar definitivamente as quatro linhas para se dedicar somente à carreira de artesão, artista plástico e escultor.

Nos anos 1930, Lauro também já produzia obras retratando a rotina dos ribeirinhos amazônicos, até ficar encantado com ‘Presépio Maravilha’, do artista amazonense Leovigildo Ferreira, que continha movimentos atráves de bonecos.

Tal criatividade estimulou Chibé a estudar e preparar por quase dois anos uma obra com a mesma técnica: montou um sistema de roldanas com ligas de borrachas e carreteis que simulavam ribeirinhos produzindo farinha. A peça em miniatura foi tão elogiada e inovadora à época que se tornou atração fixa no seu quiosque para vendas de artesanato na Praça da Matriz. Apesar da obra pioneira, Chibé nunca quis colocá-la à venda para o público.

Veludinho, o 1º bumbá construído

O primeiro boi bumbá construído por Lauro Chibé que se teve conhecimento foi Veludinho, em 1946, informação essa que constava numa série de anotações pessoais que o artista registrada num pequeno bloquinho de papel. Segundo o registro manuscrito, que se perdeu no tempo, Veludinho media 150 centímetros e custou em torno de 1 mil réis.

Veludinho se tornou o pontapé para a construção de centenas de bumbás pelas mãos de Chibé. No ano seguinte, construiu mais três bumbás: Estrela D’Alva, Caprichoso e Coringa, este último dedicado ao bairro da Aparecida e considerado o primeiro boi articulado do folclore amazonense. Tinha dois miolos, balançava a cabeça e o rabo, comia capim e “fazia as suas necessidades”, uma revolução que transformou a brincadeira do boi-bumbá no estado.

Daí, Chibé desandou a fabricar bumbás: Galante, Corre Campo, Dois de Ouro, Guanabara, Flor do Campo, Mineirinho, Brinquedinho e Prenda Fina, Prenda do Areal, Tira Prosa, Treme Terra, Mina de Prata, Canarinho, Rica Prenda, Dominante, Malhado, Pai do Campo e Teimosinho, além de uma versão mais “turbinada do Veludinho.

Referência do folclore amazonense

Além dos bumbás, Lauro começou a fazer parte das produções de quadrilhas caipiras dos bairros. No bairro Morro da Liberdade, ajudou na tradicional festival das Pastorinhas do Oriente, colaborou na criação das Tribos dos Iurupixunas e foi dirigente por dois anos do bumbá Tira Prosa.

Lauro Chibé e uma amiga, em bar no bairro Educandos. Foto: Blog do Simão
Lauro Chibé e uma amiga frequentando um bar, no bairro Educandos. Foto: Blog do Simão

Nos anos 80, foi o criador de outra inovação que mudou a história do carnaval amazonense: a pedido do empresário Paulo Eugênio, confeccionou para a escola de samba GRES Uirapuru uma alegoria de um pássaro, com três metros de comprimento, que abria o bico, batia as asas, mexia os olhos e levantava as penas do rabo. Relatos contam que foi a primeira alegoria com movimentos reais feita no Amazonas.

Mesmo com tais trabalhos, Chibé continuou fabricando bumbás: Ponta de Ouro, Leão, Sete Estrelas, Raio de Sol, Raio de Sol, Diamante Negro, Pena de Ouro, Campineiro, Gitano, entre outros.

Ainda segundo relatos, sua vasta contribuição em prol da arte levou Chibé a ganhar o troféu “Jubilei de Prata”, criada pelo fundador do Festival Folclórico do Amazonas, o ex-vereador Bianor Garcia, no ano de 1961. Um reconhecimento pela atuação na cultura popular amazonense.

Morte

No dia 29 de dezembro de 1987, Lauro Chibé foi encontrado morto dentro de sua própria residência, no Morro da Liberdade, onde morava sozinho. O mau cheiro motivou os vizinhos a chamarem os bombeiros e, quando a corporação chegou ao local, encontraram Lauro caído no chão, sem vida.

As especulações da época apontam que nesse mesmo dia 29, o boi Gitano, um dos últimos feitos de Lauro, foi incendiado na Vila Mamão, comunidade localizada no bairro São Francisco, zona sul de Manaus, e também teve sua história interrompida.

Provavelmente aos 76 anos, Lauro Chibé deixava este plano para se tornar um dos maiores nomes do folclore amazonense e um dos precursores do boi bumbá no estado.

*As informações foram extraídas de registros do Instituto Durango Duarte e do Blog do Simão.

Amapá registra primeira Unidade de Conservação subnacional do Brasil na Lista Verde Internacional

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RDS do Rio Iratapuru recebe certificação Internacional do Lista Verde. Foto: Israel Cardoso/GEA

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Iratapuru, localizada no município de Laranjal do Jari, no Sul do Amapá, conquistou um marco inédito para o estado e para o país ao ser certificada no Programa Lista Verde da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). O Governo do Estado destaca que esta é a primeira unidade de conservação de gestão estadual do Brasil a integrar a lista internacional, reconhecida por elevados padrões de qualidade socioambiental e governança participativa.

Leia também: Governo do Amapá busca certificação da RDS do Rio Iratapuru em programa de conservação internacional

O reconhecimento celebra a excelência da gestão da RDS, que alia conservação da biodiversidade, transparência, participação comunitária e geração de benefícios socioeconômicos. Para receber a certificação, a unidade passou por uma rigorosa avaliação de indicadores, análise de evidências e validação por um grupo independente de especialistas.

No Amapá, o processo foi conduzido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), por meio da Coordenadoria de Gestão de Unidades de Conservação e Biodiversidade (CGUCBio), em parceria com comunidades locais, organizações sociais, como a Comaru e a Bio-Rio e instituições públicas e privadas. O percurso envolveu sistematização de documentos, visitas técnicas e diálogo permanente com o Grupo de Especialistas EAGL Brasil e com a UICN.

A secretária de Estado de Meio Ambiente, Taisa Mendonça, destaca que a certificação é um reconhecimento valoroso que enaltece o potencial do estado em sustentabilidade.

“Este reconhecimento nos coloca num patamar de alto nível, o Amapá está na vitrine global de modelo econômico sustentável, que alia desenvolvimento e proteção ambiental com uso responsável dos recursos naturais. Encerramos o ano de 2025 com mais uma grande conquista para o nosso estado”, comemorou Taisa.

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Reconhecimento internacional

A conquista posiciona o Amapá como referência internacional em conservação da Amazônia, destacando o modelo estadual que combina proteção da floresta, uso sustentável dos recursos naturais e valorização da sociobiodiversidade. Também amplia o potencial de atrair investimentos, parcerias e cooperações técnicas, além de orientar outras áreas protegidas do país a buscar a certificação.

Amapá registra primeira Unidade de Conservação subnacional do Brasil na Lista Verde Internacional
Foto: Israel Cardoso/GEA

Reconhecida pela forte integração entre conservação ambiental e economia local, a RDS tem no manejo da castanha-do-Brasil sua principal atividade produtiva e um exemplo de desenvolvimento sustentável. A certificação reforça essa trajetória, ao valorizar o protagonismo das comunidades, fortalecer a governança interna e ampliar a capacidade de enfrentar desafios como mudanças climáticas, pressões territoriais e necessidades de infraestrutura.

Para o coordenador de Gestão de Unidades de Conservação e Biodiversidade da Sema, Euryandro Costa, o processo de certificação foi também um momento de aprimoramento técnico e político.

“O processo da Lista Verde foi uma oportunidade de olhar com mais profundidade para a gestão da RDS, reconhecendo fortalezas e organizando melhor desafios. O principal ganho é o fortalecimento da governança com as comunidades, valorizando o protagonismo local na proteção de um território que é referência em manejo da castanha-do-Brasil e em resistência da sociobiodiversidade amazônica”, destacou Costa.

A certificação inaugura uma nova etapa para a RDS do Rio Iratapuru, marcada pelo compromisso de manter e avançar nos padrões reconhecidos. Para o Amapá, reafirma a liderança ambiental do Estado; para a Amazônia, demonstra que é possível conciliar conservação, justiça social e desenvolvimento sustentável.

RDS do Rio Iratapuru no Amapá

Amapá registra primeira Unidade de Conservação subnacional do Brasil na Lista Verde Internacional
Foto: Israel Cardoso/GEA

Criada em 1997, a RDS do Rio Iratapuru possui cerca de 806 mil hectares e abrange os municípios de Laranjal do Jari, Pedra Branca do Amapari e Mazagão. Gerida pela Sema e por um conselho gestor paritário, a unidade tem como missão conservar a biodiversidade e promover o uso sustentável dos recursos naturais, com orientação de seu Plano de Manejo.

Localizada no sudoeste do Amapá, integra um mosaico de áreas protegidas que inclui a FLOTA do Amapá, a ESEC do Jari e a Terra Indígena Wajãpi. É uma área de forte tradição extrativista, com destaque para a castanha-do-Brasil e o breu-branco, este último, envolvido em um contrato pioneiro de repartição de benefícios com a empresa Natura.

Desde 2012, faz parte do Programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA) e, desde 2019, realiza monitoramento da fauna e da flora por meio do Programa Monitora, acompanhando borboletas frugívoras, mamíferos de médio e grande porte, aves cinegéticas e espécies arbóreas, integrando ciência e participação comunitária na gestão da biodiversidade.

*Com informações da SEMA AP

Trilha das Preguiças e Jardim de Vitórias-Régias: atrativos de Turismo de Base Comunitária em Santarém

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Turismo de base comunitária marca os locais. Foto: Divulgação/Prefeitura de Santarém

Entre casas de palafitas, vegetação exuberante e o canto constante dos pássaros, o Canal do Jari revela um modo de vida que transforma a floresta de várzea em oportunidade para experiências amazônicas autênticas. A Trilha das Preguiças, na comunidade Jari do Socorro, conduzida por Rosângela Siqueira, e o Jardim de Vitórias-Régias, no Alto Jari, liderado por Dulce Oliveira, expressam a força do turismo comunitário e vêm atraindo visitantes de diferentes partes do Brasil e do exterior para Santarém (PA).

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Com o objetivo de dialogar com os empreendedores, conhecer de perto as vivências oferecidas e desenvolver estratégias para reduzir os impactos da sazonalidade, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), realiza visitas técnicas dentro do projeto ‘Santarém: Turismo o Ano Inteiro’.

A iniciativa busca manter o fluxo de visitantes, fortalecendo o destino em todas as estações, com produção de conteúdo digital, divulgação promocional e capacitações por meio do FormaTur.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é turismo de base comunitária?

Trilha das Preguiças: imersão na floresta de várzea

A cerca de 35 minutos de lancha do centro de urbano, no distrito de Arapixuna, a comunidade Jari do Socorro guarda um refúgio onde a natureza dita o tempo. É ali que Dona Rosângela Siqueira Pinto, há mais de 30 anos recebe visitantes com o mesmo cuidado de quem acolhe amigos antigos. O acesso é apenas pelo rio e já na chegada o som da mata e o balanço das águas anunciam a experiência.

A casa de palafita, simples e cheia de personalidade, revela detalhes que contam histórias: placas e pinturas rústicas, ornamentos feitos à mão e, na sala, a imponente cabeça de jacaré que desperta curiosidade. Ao lado, a loja de artesanato expõe talentos locais. Na cozinha, entre café passado na hora e boas risadas, a equipe de visitantes se prepara para aventura: a Trilha das Preguiças.

Trilha das Preguiças e Jardim de Vitórias-Régias: atrativos de Turismo de Base Comunitária em Santarém
Foto: Divulgação/Prefeitura de Santarém

Depois da acolhida, a trilha se inicia. São 20 a 30 minutos de imersão na várzea, em um percurso que muda conforme o ciclo do rio. Na cheia, a canoa desliza entre árvores alagadas. Na seca, a caminhada em terra firme permite observar com calma cada detalhe da floresta. A recomendação é simples: roupas confortáveis, sapatos fechados e disposição para desacelerar.

Pelo caminho, surgem árvores centenárias, como a imponente castanheira-sapucaia, com cerca de 400 anos. As preguiças nem sempre se mostram de imediato e isso faz parte do encanto. Já os macacos-de-mão-amarela costumam aparecer em grupos, agitando os galhos e arrancando sorrisos. Dependendo do clima, biguatingas, garças, socós, urutaus, gaviões, coruja-jacurutu, ciganas, canarinhos, andorinhas e até jacarés completam o cenário.

“Eu amo estar aqui, cercada pelos animais. Abro a janela e tenho a vista mais bela possível. Sou rica, e não é de dinheiro. Faço amigos e compartilho experiências. É muito prazeroso trabalhar com turismo”, afirma Dona Rosângela.

Entre março e julho, com o rio cheio, o passeio ganha contornos ainda mais marcantes. A trilha sai no valor de 30 reais por pessoa. A comunidade também oferece café da manhã, almoço e café da tarde mediante agendamento prévio pelo WhatsApp (93) 99141-1729 ou pelo Instagram @rosangela_trilha_das_preguicas.

Jardim de Vitórias-Régias: inovação e gastronomia sustentável

Seguindo pelo rio Amazonas, chega-se à comunidade do Alto Jari, onde Dulcecléia Oliveira cultiva vitórias-régias. O trabalho pioneiro começou como um jardim ornamental, mas logo ganhou novos contornos e chegou à cozinha. A planta aquática deixou de ser apenas um símbolo da Amazônia para se transformar em ingrediente, uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC) reinventada pelas mãos da anfitriã.

Flor, folha, caule e semente são utilizados de forma criativa em preparações que surpreendem o paladar: vinagrete, picles, batatinha-régia, tempurá, geleia, conserva, pizza, brownie, espaguete, paçoca, rabanada, quiche, moqueca, salada de flores, tapioca, licor, bombons, pudim, gelatina, pão e até pipoca. Ao todo, são 21 receitas desenvolvidas com foco no aproveitamento  integral, unindo sabor, inovação e sustentabilidade.

Dulce trabalha com turismo há 12 anos e  recebe cada visitante com brilho nos olhos, explica o cultivo, conta sua trajetória e abre espaço para fotos e memórias.

“Aqui acontece de tudo, porque eu moro no tudo”, diz, sorrindo. Essa frase resume o espírito do lugar.

Foto: Divulgação/Prefeitura de Santarém

O espaço funciona com energia solar e dispõe de três quartos para hospedagem. A diária para casal é de R$ 300, com jantar e café da manhã inclusos. Passeios extras podem ser contratados à parte.

Foi a busca por qualidade de vida que trouxe Dulce ao Canal do Jari. Após se afastar da Marinha do Brasil por questões de saúde, mudou-se para a comunidade em 2013. No ano seguinte, começou a cultivar as vitórias-régias e a construir a casa que hoje recebe visitantes do Brasil e do exterior. Desde o início do projeto, mais de 10 mil pessoas já passaram pelo jardim.

A alta temporada vai de maio ao início de outubro, quando o nível do rio permite receber até 120 visitantes por dia. O passeio pode incluir ainda observação de aves e jacarés.

Em 2024, a maior seca dos últimos 50 anos afetou o cultivo. Atualmente, Dulce já trabalha na germinação das sementes e no replantio, determinada a ver o jardim florescer novamente.

As visitas acontecem de terça a sábado, das 10h às 14h, com duração média de uma hora por grupo. A taxa de visitação é de R$ 40, destinada à sustentabilidade e à manutenção do espaço, e inclui chá e degustação dos “belisquetes”. O agendamento pode ser feito pelo WhatsApp (93) 99182-9492 ou pelo Instagram @dulce_jardimvitoriaregia.

*Com informações da Prefeitura de Santarém