Pesquisadores não encontraram espécies semelhantes em banco de dados internacional. Foto: Divulgação/Ueap
Uma nova espécie de parasita foi identificada no peixe piaba ou ‘lambari‘, por pesquisadores da Universidade do Estado do Amapá (Ueap).
O organismo batizado como Ceratomyxa tessaloniensisleva o nome do local onde foi encontrado, no Rio Flexal, na área rural da comunidade Tessalônica, próxima ao município de Porto Grande, distante cerca de 111 quilômetros de Macapá.
A espécie foi encontrada durante uma pesquisa de campo. Saturo Cardoso, que é biomédico, disse ao Grupo Rede Amazônica que após análise microscópica e comparação com o banco internacional de dados, os pesquisadores não encontraram registros da espécie.
“Havia uma diferença na morfologia, tanto no comprimento quanto na largura. Além disso a gente fez uma análise molecular para a extração do DNA desse parasito, com esse DNA ele foi amplificado e depois comparado com um banco internacional, onde não encontramos similaridades”, disse.
Nova espécie de parasita foi encontrada no peixe lambari. Foto: Divulgação/Ueap
Após análise filogenética, que funciona como uma árvore genealógica, foi visto que a maioria dos organismos Ceratomyxa semelhantes a esta espécie são registrados em animais de água salgada. Apenas um pequeno e raro grupo faz parte da água doce.
Apesar de se tratar de um parasita, os pesquisadores constataram que não há registro de doenças causadas por ele ou semelhantes a espécie.
“A gente sabe que o consumo de pescado na Amazônia é um dos maiores, é muito comum. Então não há o registro até hoje de alguma zoonose ou de alguma doença causada por esse parasita”, destacou o biomédico.
Nova espécie de parasita foi encontrada no peixe lambari. Foto: Divulgação/Ueap
Pesquisa de qualidade do pescado
A Abthyllane Amaral, que é engenheira de pesca, disse que nos últimos anos, 10 novas espécies de parasitas foram registradas durante mapeamento de peixes. Para 2025, a estimativa é encontrar mais 5 ou 6 espécies.
“Depois que a gente descreve essas novas espécies, a gente vai descobrir um pouquinho mais, sobre ciclo de vida, como é que ela vem evoluindo ao longo do tempo, então a nossa pesquisa é uma pesquisa base, de descoberta. Ela vem auxiliar na sanidade em relação ao pescado no Amapá”, contou.
Pesquisa foi realizada em diversos municípios do AP. Foto: Divulgação/Ueap
O projeto de mapeamento já passou por diversos municípios do estado do Amapá, sendo eles Tartarugalzinho, Macapá tanto a área rural quanto urbana, Santana, Mazagão, Ferreira Gomes e Calçoene.
“Em Calçoene […] por ser uma região costeira, a gente tá ali naquele ambiente de transição de água doce e de água salgada, que a gente acha que vai ter alguns achados bem interessantes”, completou a engenheira.
Mapeamento das regiões com o pescado analisado. Foto: Divulgação/Ueap
O trabalho que é realizado desde 2021, teve reconhecimento internacional em uma revista científica. A engenheira conta que a publicação não apenas contribui para o entendimento da biodiversidade, mas para a preservação e monitoramento da saúde ambiental dos rios.
“O nosso trabalho é um trabalho de descrição de novas espécies e descrevendo essas novas espécies […] O que a nossa pesquisa traz pro estado é conhecimento da nossa biodiversidade”, contou.
*Por Isadora Pereira e Mayra Carvalho, da Rede Amazônica AP
Os estudos estão entrando na reta final da primeira etapa da pesquisa onde fica propriamente a construção da casa. Foto: Jhon Martins/GEA
Durante nova escavação nas obras de reforma da antiga Residência do Governo do Amapá, no Centro da capital, arqueólogos encontraram uma moeda do ano de 1773, além de novos artefatos históricos.
Anteriormente, os pesquisadores encontraram uma moeda 20 réis do ano de 1775, nova descoberta remete ao ano de 1773. Além da moeda, louças europeias importadas e cachimbos fazem parte do acervo encontrado.
Segundo os estudos, as louças europeias achadas tem origem de Portugal e Inglaterra dos séculos 18 e 19. Os objetos são de faianças, louças de cerâmica, barro, argila ou pó de pedra. Os pesquisadores também identificaram cachimbos de fabricação inglesa e holandesa do período de 1751 a 1840.
Os itens encontrados serão encaminhados ao Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas do Amapá (Cepap) da Unifap para serem analisados e registrados.
As descobertas são anteriores ao fim das obras da Fortaleza de São José de Macapá e da criação da política cambial brasileira, que só começou em 1808. A pesquisa aponta que mesmo antes da presença dos portugueses, comunidade dos povos indígenas já habitavam a região.
Nova descoberta inclui moeda do ano de 1773 e louças europeias de Portugal e Inglaterra. Foto: Jhon Martins/GEASegundo pesquisadores, os achados são as maiores coleções de cachimbos e louças europeias associadas ao período de escravidão na Amazônia. Foto: Jhon Martins/GEA
Segundo pesquisadores, os achados são as maiores coleções de cachimbos e louças europeias associadas ao período de escravidão na Amazônia, resultado da escavação de um sítio arqueológico histórico no estado.
“Isso revela que existe um centro histórico invisível em Macapá e talvez não se tenha uma coleção dessa na Amazônia, com esses cachimbos de fabricação holandesa e inglesa que ampliam o patrimônio e o acervo histórico e cultural”, explicou Kleber Souza, arqueólogo e coordenador dos estudos.
Os estudos estão entrando na reta final da primeira etapa da pesquisa onde fica a construção da casa, para em seguida iniciarem as escavações em outras áreas. Uma empresa contratada pelo Governo do estado é a responsável por fazer a escavação em diversos pontos ao redor da residência.
No primeiro achado, foram encontrados mais de 30 itens dos séculos 17 e 18, como anéis, ossos de animais e cachimbos de origem holandesa.
A obra continua, seguindo as normas de preservação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), enquanto a Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinf) estão concentrados os trabalhos na finalização da estrutura da cobertura de forro e na aplicação da estrutura de madeira.
*Por Francisco Pinheiro, estagiário sob supervisão de Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP
Artistas e influenciadores dançam o ‘noiadance’, ritmo criado em Porto Velho. Foto: Reprodução/TikTok-marifernandezoficial
O ‘noiadance‘, ritmo que nasceu em regiões periféricas das zonas Leste e Sul de Porto Velho (RO), ganhou destaque internacional após viralizar nas redes sociais. Com menos de um mês de lançamento, “Santinha” entrou no ranking das músicas virais do Spotify Brasil e Portugal.
A música é composta por Caroliny Silva Campos e interpretada por Canal Remix, Felipe Morais, Mc Leoa e Mc Sapinha. O hit foi produzido por Felipe Morais, DJ portovelhense de 24 anos que trabalha como produtor musical há cerca de oito anos e acompanhou de perto a ascensão do ‘noiadance’.
O sucesso começou no aplicativo de vídeos TikTok. Artistas e influenciadores como Carlinhos Maia, Álvaro, Mari Fernandez e Rafa Kalimann usaram o ritmo em vídeos e ampliaram ainda mais o engajamento.
Internautas de Porto Velho comentaram na publicação de Mari Fernandez destacando que a produção nasceu na cidade rondoniense. Foto: Reprodução/TikTok-marifernandezoficial
Sucesso em ascenção
Ao Grupo Rede Amazônica, o DJ Felipe Morais informou que não esperava por esse sucesso, pois era apenas uma música feita para tocar nas noites portovelhenses, mas que acabou “saindo da bolha”.
“Não esperava que tivesse essa repercussão toda pelo Brasil, eu nem estava preparado para isso. Fui pego de surpresa com várias notificações nas minhas redes sociais e conhecidos me mandando mensagens, falando que a ‘Santinha’ estava bombando”, disse.
De acordo com o DJ, essa é uma oportunidade de levar o hit portovelhense para o Brasil e até para outros países. Agora, o objetivo é ultrapassar as barreiras e popularizar ainda mais o noiadance.
“A ideia desse álbum era ser algo diferente, algo jamais feito aqui na região. Eu quis deixar bem claro que foi feito em Porto Velho, que é algo da minha terra, da nossa terra, e que, querendo ou não, representa parte de Rondônia atualmente”, ressaltou.
Dutch House
Segundo os DJs e produtores Lucas Ferraz, Kelvin Douglas, Yuri Lorenzo e o administrador do Canal Remix, Carlos Eduardo, a vertente eletrônica chamada ‘Dutch House’ nasceu em 2009 e ganhou força em Rondônia no ano seguinte, em 2010.
“Produzir o Dutch House não é uma tarefa fácil. Exige empenho, criatividade e muita paciência para conseguir criar algo envolvente a cada remix”, explicaram ainda em 2021, quando o ritmo já ganhava destaque.
Um produtor conhecido como ‘Yvan Serano’ adaptou o estilo com elementos mais envolventes como Moombahton, Latin House e Funk. Foi quando surgiu o estilo único da música eletrônica característica de Porto Velho, segundo os DJs e produtores.
O ritmo, que foi apelidado pelos portovelhenses de ‘noiadance’, mas também é conhecido como ‘leskerray’, chegou primeiro no coração dos moradores das zonas Leste e Sul de Porto Velho.
Marginalizado por vários, durante muitos anos, a vertente de música eletrônica era uma das principais características das festas dessas regiões.
Nos últimos anos, o ‘noiadance’ chegou na região central da capital rondoniense e encontrou espaço em todas as datas comemorativas, além de ser um dos estilos mais pedidos nas festas da cidade.
Criar novas batidas para hits que já estão em alta é uma das marcas do ‘noiadance’, além de aproveitar sucessos adormecidos.
De acordo com os produtores do Canal Remix, as músicas de maior sucesso nas plataformas de streaming ganham força em Porto Velho quando viram um remix.
“Geralmente fazemos remix das músicas que são de maior sucesso nas plataformas de streaming. O trabalho vale muito a pena quando conseguimos os resultados esperados e a satisfação do nosso público”.
Direitos autorais
Além das músicas internacionais, sucessos nacionais também fazem parte da lista de remixes produzidos pelo grupo. Yuri Lorenzo, editor do canal, explicou como a equipe faz quanto aos direitos autorais.
“Infelizmente algumas músicas acabam sendo excluídas por conta dos direitos autorais. Mas muitas delas são produzidas de acordo com a política de direitos autorais, que nos permite de postar e produzi-las tranquilamente. Algumas vezes reivindicamos a denúncia feita pelo detentor do copyright da música e em torno de 30 dias eles fazem a liberação novamente pra gente”, explica.
O remix da música ‘Major Lazer – Be Together’, produzido pelo DJ Guilherme Morais, foi um dos maiores sucessos do Canal Remix em 2021.
*Por Amanda Oliveira e Thaís Nauara, da Rede Amazônica RO
Pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia visitam produtor no município de Alto Paraíso. Foto: Jucilene Cavali
A aquicultura emite dez vezes menos gases de efeito estufa e utiliza entre 20 e 100 vezes menos terra por tonelada de proteína animal produzida do que a pecuária. Por essa e outras razões, pode ser uma forma de se obter segurança alimentar de forma mais sustentável na Amazônia.
É o que aponta um estudo publicado na revista Nature Sustainability por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, parte deles apoiada pela FAPESP.
“A aquicultura teve uma série de incentivos na Amazônia a partir dos anos 1980 e se expandiu exponencialmente desde esse período. Tem como vantagem ser uma alternativa mais sustentável à criação de gado, responsável por cerca de 80% do desmatamento da Amazônia nos últimos 30 anos. Ao mesmo tempo, precisa ser mais estudada quanto a seus impactos, até mesmo para alcançar mercados internacionais”, conta Felipe Pacheco, pesquisador do programa Eric & Wendy Schmidt AI in Science da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e primeiro autor do artigo.
Os pesquisadores reuniram dados sobre a atividade em cinco países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) dos oito que abrigam a Amazônia. Entre eles, o Brasil é o maior produtor de peixes, sendo o Estado de Rondônia responsável pela maior parte da produção de espécies nativas.
“O tambaqui tem um mercado consolidado na região Norte e sua rusticidade, aliada às altas taxas de crescimento e eficiência na conversão alimentar, reforça seu potencial de expansão para outras regiões do país e até mesmo para mercados internacionais”, aponta Marta Ummus, analista da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas (TO), que também assina o paper.
Além da FAPESP, o estudo contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (FAPT) e da Fundação de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa do Estado de Rondônia (Fapero), no âmbito da Iniciativa Amazônia+10.
“Precisamos aprimorar os dados existentes sobre a atividade para que uma eventual expansão seja feita sobre bases científicas sólidas, conhecendo e respeitando os limites que o ambiente pode suportar”, afirma Jean Ometto, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos coordenadores do projeto.
Expansão, desde que sustentável
Segundo os autores, a atividade ainda tem potencial para ser expandida na região amazônica, mas precisa levar em conta alguns fatores. Um deles é a dificuldade de entendimento dos processos de licenciamento ambiental da prática, que variam de um Estado para outro, além da necessidade de um monitoramento contínuo para aumentar a assertividade dos processos e garantir a conformidade e sustentabilidade da produção.
O barramento de igarapés para a criação de peixes, por exemplo, por muito tempo foi permitido e ainda é realizado em alguns locais. A prática impacta a conectividade dos corpos d’água e prejudica a biodiversidade aquática, inclusive de espécies economicamente importantes para a pesca.
Outros exemplos incluem o cultivo desrespeitando protocolos de sanidade animal e do ambiente. Administrar a ração em excesso, por exemplo, pode levar ao acúmulo de matéria orgânica no fundo dos viveiros e a um consequente aumento na emissão de gases de efeito estufa, como o metano. O excesso de nutrientes pode ainda ser carreado para os rios e desestabilizar as cadeias alimentares.
Os pesquisadores ressaltam que uma eventual expansão da atividade poderia se aproveitar de pastagens degradadas para a instalação de novos tanques, sem aumentar o desmatamento. Estudos já demonstraram que a ocupação dessas áreas pela aquicultura emite menos gases de efeito estufa do que simplesmente deixá-las abandonadas. Além disso, a atividade é mais produtiva. Produzir uma tonelada de peixe demanda menos terra do que uma tonelada de carne bovina.
“A aquicultura não pode repetir o que fez a pecuária em Estados como Rondônia, em que se abriram muitas áreas para pastagens e, hoje, muitas são pouco produtivas ou mesmo foram abandonadas. No entanto, tem a vantagem de poder utilizar essas mesmas áreas já abertas com uma atividade muito mais sustentável”, diz Carolina Doria, professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e coautora do estudo.
Competição das exóticas
No cenário da aquicultura mundial, a Amazônia brasileira se destaca por produzir espécies nativas, como o tambaqui, a pirapitinga, o pacu e o pirarucu. No mundo todo, a introdução no ambiente natural de espécies exóticas, como a tilápia, trazidas pela aquicultura, causa uma série de problemas, como a competição por recursos e a predação das nativas.
Mas há forte pressão de produtores em todas as regiões do país para a liberação do cultivo de tilápia, uma vez que a espécie possui um grande mercado consumidor e um pacote tecnológico consolidado que potencializa sua produção.
Essas vantagens são fruto de um desenvolvimento tecnológico realizado fora do país, que hoje permite que a espécie seja cultivada em várias partes do globo. O Brasil, por exemplo, é o 4º maior produtor mundial de tilápia, espécie que corresponde a 65% da produção nacional de peixes.
Nesse sentido, os autores do estudo ressaltam o potencial do tambaqui, cujas populações selvagens podem fornecer genes para variedades mais produtivas e resistentes a doenças, por exemplo. Sua fuga para o ambiente natural, embora não seja desejada, também tem menor potencial destrutivo do que a de peixes exóticos (leia mais em: agencia.fapesp.br/37902).
“A aquicultura na Amazônia pode trazer segurança alimentar ao mesmo tempo em que melhora a vida das pessoas, trazendo uma fonte de renda menos incerta do que outras atividades como a própria pesca, por exemplo. Políticas voltadas para o setor, porém, precisam ter em vista tanto pequenos como médios e grandes produtores”, encerra Pacheco.
Parque Nacional da Serra do Divisor está distribuído nos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Porto Walter, Rodrigues Alves e Marechal Thaumaturgo, no Acre, e faz fronteira com o Peru. Foto: Marcos Vicentti / Secom-AC
Unidades de conservação (UCs) na Amazônia Legal perderam 87.591 km² de áreas protegidas nos últimos 24 anos, área equivalente a 57 cidades de São Paulo. Um levantamento da InfoAmazoniarevela que, entre 2000 e 2024, as legislações do Brasil destinadas à proteção desses territórios sofreram 60 alterações por meio de projetos de lei e judicialização, enfraquecendo sua efetividade.
A reportagem identificou que essas alterações legislativas reduzem os limites, flexibilizam o uso ou extinguem completamente essas áreas protegidas. Essas ações são conhecidas como PADDD (sigla em inglês para Protected Area Downgrading, Downsizing, and Degazettement), nome dado por acadêmicos de conservação ambiental nos anos 2000 para esse processo que engloba desde a redução até a extinção de áreas legalmente protegidas. O levantamento inclui 106 PADDD no período, sendo que 46 foram cancelados e 60 efetivados – somente nove foram revertidos.
O levantamento daInfoAmazonia tem como base os dados da plataforma colaborativa PADDDtracker.org, criada pela WWF, uma organização de conservação global, em parceria com a Conservation International. A ferramenta é alimentada com informações governamentais dos países mapeados, estudos científicos, decisões políticas e informações obtidas por organizações locais e internacionais, que permitem monitorar padrões e tendências desses eventos.
A reportagem também atualizou os dados de PADDD até 2024, isso foi possível por meio da análise de processos em andamento e consultas a registros oficiais no legislativo relacionados aos eventos na Amazônia Legal. Em 2025, sete propostas ainda tramitam no Congresso Nacional e na Justiça e buscam reduzir territórios ou flexibilizar regras, abrindo espaço para exploração agropecuária, madeireira e mineral. Caso sejam aprovadas, essas mudanças poderão impactar 13.448 km², uma área nove vezes maior que o território da cidade de São Paulo.
Muitas vezes, os projetos de lei para redução de território, diminuição do grau de proteção ou extinção de áreas protegidas não são acompanhados de uma avaliação dos impactos socioambientais. Há casos em que as decisões políticas são baseadas em interesses econômicos, sem uma análise técnica adequada.
No Brasil, as Unidades de Conservação (UCs) são regulamentadas pela Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). A gestão das UCs federais é responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
As UCs dividem-se em duas categorias principais: Proteção Integral e Uso Sustentável. As de Proteção Integral, como os Parques Nacionais, têm como objetivo a preservação da natureza, permitindo apenas o uso indireto de seus recursos naturais, como pesquisas científicas e turismo ecológico. Já as UCs de Uso Sustentável, como as Áreas de Proteção Ambiental (APAs), buscam conciliar a conservação da natureza com o uso sustentável de parte dos recursos naturais, permitindo atividades econômicas controladas.
A reclassificação de um Parque Nacional para uma APA representa um enfraquecimento na proteção ambiental, uma vez que amplia as possibilidades de uso e ocupação humana, comprometendo potencialmente a integridade dos ecossistemas antes protegidos de forma mais restritiva.
No Acre, o PL 6024/2019 pretende transformar o Parque Nacional Serra do Divisor, uma UC de Proteção Integral, em APA, o enfraqueceria a proteção ambiental, abrindo espaço para desmatamento e exploração econômica, por exemplo. O texto do PL 6024/2019 também prevê a redução da Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, que pode perder 7.758 hectares.
No Amapá, o PL 3087/2022 propõe retirar 8 mil hectares do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque para o Distrito Parque de Vila Brasil, enfraquecendo a legislação vigente na região. No Amazonas, a APA dos Campos de Manicoré sofre pressão para liberação da exploração mineral, com investigações do Ministério Público Federal sobre possíveis crimes ambientais.
O Parque Estadual Cristalino II, localizado no Mato Grosso, enfrenta uma disputa judicial que pode levar à redução de seus limites para expandir a agropecuária. No Pará, a Floresta Nacional de Jamanxim, que já perdeu 57% de sua área original por alterações legais anteriores, pode sofrer novos cortes com o PL 8107/2017. No Tocantins, embora ainda não exista um projeto de lei formalizado, há discussões no Senado sobre a redução do Parque Nacional do Araguaia. Especialistas alertam que essas propostas podem acelerar o desmatamento, comprometer a preservação da biodiversidade e ameaçar o modo de vida das comunidades tradicionais.
Em 2021, um caso emblemático marcou as decisões jurídicas sobre o desmonte de unidades de conservação em Rondônia. A Procuradoria Geral do Estado de Rondônia (PGE-RO) ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra a Lei Complementar Estadual n. 999/2018, que extinguiu 11 áreas protegidas. A lei, inicialmente proposta para extinguir somente a Estação Ecológica Soldado da Borracha, foi ampliada pela Assembleia Legislativa do estado para incluir outras 10 unidades.
A Procuradoria argumentou que a extinção das unidades comprometia a biodiversidade amazônica e feria o interesse público, configurando um retrocesso ambiental. O processo legislativo que aprovou a medida foi aprovado às pressas, desrespeitando requisitos legais, como análises de impacto. Parte das áreas foi recriada pela Lei Complementar Estadual 1.089 de 2021, mas surgiram dúvidas sobre os limites territoriais e a abrangência das novas delimitações. O caso continua sendo debatido no âmbito jurídico, o que evidencia o conflito entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental na Amazônia.
As áreas protegidas desempenham um papel essencial na proteção ambiental, na mitigação do aquecimento global e na conservação da biodiversidade. A Amazônia Legal, que abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, abriga 359 unidades de conservação, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Juntas, elas somam 1,25 milhão de km² de florestas, uma extensão maior que a soma dos territórios da França e da Espanha.
As mobilizações social e política, além do trabalho do judiciário, resultaram no cancelamento de 46 propostas de eventos PADDD, entre 2008 a 2024, que poderiam ter impactado cerca de 172.052,84 km² – o equivalente a 14% das florestas protegidas na Amazônia brasileira.Um estudo publicado em fevereiro de 2024 na revista Nature, liderado pelo pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Bernardo Flores, mapeou as áreas da Amazônia mais vulneráveis a atingir pontos críticos, ou tipping points, nos quais mudanças climáticas e degradação comprometeriam a capacidade de regeneração da floresta.
A pesquisa destaca a importância das UCs e terras indígenas, que apresentam taxas mais baixas de desmatamento e degradação, na preservação da resiliência do bioma. Flores alertou que o processo de PADDD, que reduz a cobertura florestal, prejudica a reciclagem de água pela floresta e diminui a capacidade de transporte de chuvas, afetando a estabilidade do sistema.
Hidrelétricas ampliam desmatamento
Em artigo publicado em 2024, a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Silvia Mandai, juntamente com colaboradores, investigou os impactos do desmatamento em unidades de conservação, com foco na região das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira em Rondônia, e Belo Monte no Xingu (PA). Os resultados da pesquisa mostraram um aumento do desmatamento após a construção das usinas, principalmente em terras indígenas próximas a Belo Monte. Foram identificados 27 eventos PADDD, sendo quatro diretamente relacionados às usinas, permitindo a exploração madeireira e expansão agrícola.
Usina Hidrelétrica (UHE) Belo Monte. Localizada no Rio Xingu, no Pará Crédito: Joédson Alves / Agência Brasil
Entre as alterações destacadas, em 2011, há a Estação Ecológica Serra dos Três Irmãos (ESEC) e a Floresta Estadual de Rendimento Sustentável Rio Vermelho C (FERS), que tiveram seus territórios reduzidos para viabilizar a Usina Hidrelétrica Santo Antônio. No mesmo ano, a Resex Jaci-Paraná também sofreu alterações pelo mesmo motivo. Já em 2010, a Floresta Nacional (Flona) Bom Futuro teve parte de sua área suprimida para permitir a construção da Usina Hidrelétrica Jirau.
Em entrevista a InfoAmazonia, a pesquisadora destacou que “as áreas protegidas ao redor das hidrelétricas tiveram taxas de desmatamento maiores na fase de operação, quando o controle ambiental diminuiu e políticas ambientais foram enfraquecidas”. Mandai acrescentou que “eventos PADDD, especialmente no governo estadual de Rondônia, priorizaram projetos agropecuários e de infraestrutura em detrimento da preservação. Apesar de não causarem diretamente o desmatamento, as hidrelétricas atuam como vetores para atividades que pressionam as áreas protegidas, agravadas por fragilidades na gestão, fatores políticos e invasões”.
O estudo também apontou que o enfraquecimento das políticas ambientais e a crise democrática no Brasil agravaram o desmatamento após a operação das hidrelétricas. Segundo Mandai, “as terras indígenas ao redor de Belo Monte tiveram taxas de desmatamento maiores entre 2018 e 2020, provavelmente resultantes do desmonte das políticas ambientais e indígenas”.
Pressões políticas e socioambientais
O vice-presidente da organização não governamental Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), Marcelo Ferronato, alerta que as decisões políticas sobre a reclassificação das unidades de conservação têm ampliado a pressão socioambiental em Rondônia.
“No caso das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, os impactos acumulativos exemplificam como decisões políticas e econômicas, muitas vezes desconectadas das necessidades das comunidades locais, geram deslocamentos populacionais e mudanças nos modos de vida, além do enfraquecimento da proteção ambiental ao redor das obras”, afirma.
Ferronato destaca que a Ecoporé acompanha de perto os efeitos dos eventos PADDD e os conflitos socioambientais decorrentes das mudanças em áreas protegidas. “Um exemplo recorrente são as pressões por exploração de recursos naturais e expansão agropecuária, que frequentemente resultam em perda de biodiversidade, degradação ambiental e tensões sociais entre comunidades tradicionais, indígenas e outros atores locais”.
O monitoramento das propostas de PADDD é essencial para garantir que qualquer alteração seja conduzida de forma criteriosa. Caso haja real necessidade de implementá-las, é fundamental que sejam precedidas por estudos de impacto socioecológico detalhados, com base científica sólida e ampla participação social.
“É indispensável promover uma gestão eficaz das áreas protegidas, com financiamento adequado, fiscalização rigorosa e sua inclusão em planejamentos estratégicos, como a Avaliação Ambiental Integrada, para assegurar que as decisões não comprometam a conservação da biodiversidade e o bem-estar das comunidades locais”, destaca a pesquisadora Mandai.
Em alguns casos, a perda de proteção legal de áreas ambientalmente protegidas é compensada por ajustes territoriais, como um PADDD de 2024, envolvendo a Reserva Extrativista do Rio Ouro Preto e a Reserva Extrativista do Lago Cuniã, ambas em Rondônia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.039/2024, que reduziu o tamanho da Reserva do Rio Ouro Preto em aproximadamente 20 mil hectares, enquanto ampliou a Reserva do Lago Cuniã em cerca de 24 mil hectares.
A ONG Ecoporé tem promovido iniciativas para a recuperação de áreas degradadas, e mantém um dos maiores viveiros florestais de Rondônia, produz mudas que são destinadas à recuperação de áreas degradadas, mas Ferronato reconhece que os desafios políticos, e a falta de interesse de alguns setores locais em respeitar as normas ambientais, dificultam essa luta.
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Esta reportagem foi realizada com o apoio do Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC), que atua para amplificar ações climáticas locais e busca desempenhar um papel central no debate climático global. A InfoAmazonia faz parte da coalizão “Fortalecimento do ecossistema de dados e inovação cívica na Amazônia Brasileira” com a Associação de Afro Envolvimento Casa Preta, o Coletivo Puraqué, PyLadies Manaus, PyData Manaus e a Open Knowledge Brasil.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Fernanda Pessoa
As regiões Sul, Sudeste e Nordeste foram surpreendidas com uma forte onda de calor, que manteve a temperatura acima da média até o início de março. Em contraste, Rondônia enfrentou dias chuvosos e rios cheios. Mas porque isso acontece?
Durante a onda de calor, cidades como São Paulo e Curitiba bateram recordes de temperatura, segundo dados do Climatempo:
Na capital paulista, a máxima registrada foi de 34,8°C, o que é a maior temperatura já vista em um mês de março.
Curitiba teve o dia mais quente do ano no domingo (2), com 32,6°C.
Já em Porto Velho, entre 7 e 8 de fevereiro, choveu 123 milímetros, o esperado para 7 dias.
Ao Grupo Rede Amazônica, a meteorologista Andrea Ramos informou que essa quantidade corresponde a quase 40% do esperado para o mês de fevereiro, que era 316 milímetros.
O rio Madeira, que há cinco meses chegou ao menor nível da história, entrou na cota de alerta de cheia em fevereiro. E na região central de Rondônia, o rio Machado transbordou, tirou famílias de suas casas e chegou muito próximo de atingir o maior nível desde que começou a ser observado: 11,85 metros.
Para explicar essa discrepância entre o Norte e as demais regiões do país, duas especialistas em tempo e clima foram consultadas. E o principal fator é que de outubro a abril o estado de Rondônia passa pelo “inverno amazônico”. Entenda:
O inverno amazônico é o período mais chuvoso na região Norte do Brasil. Apesar do nome, não significa frio, mas sim um aumento das chuvas e da umidade. Durante esse período, rios como o Madeira atingem seus níveis mais altos devido às chuvas intensas na Amazônia e nos Andes.
“O Brasil é um país muito grande onde diferentes sistemas e condições meteorológicas podem acontecer simultaneamente em diferentes regiões, como é o caso da região Norte em comparação ao Sul e Sudeste neste momento”, explica Isabella D. Valenti, meteorologista e especialista em convecção na Amazônia.
De acordo com a especialista, a região Norte também possui um período chuvoso mais prolongado em relação a outras regiões do país e, por conta da formação de nuvens, comum nessa época do ano, há a diminuição da radiação solar, o que explica a temperatura mais amena.
Alguns fenômenos interferem no tempo e clima:
El Niño: Aquece as águas do Pacífico e altera os ventos, deixando algumas áreas mais secas e outras mais chuvosas.
Rios Voadores: Massas de ar úmido da Amazônia que levam chuva para outras regiões do Brasil.
ZCAS e ZCIT: Sistemas de ventos que influenciam as chuvas e podem prender o calor em algumas áreas, alterando a precipitação.
Mas, além dos fenômenos naturais, a ação humana também interfere, tornando o clima mais instável e imprevisível, segundo etnoclimatologista Alba Rodrigues.
“A ação humana no ambiente natural gera impactos ambientais, alguns irreversíveis […]. As queimadas na Amazônia, em 2024, nos alerta para uma questão muito séria, que é a alteração na capacidade da floresta em pé de captar emissões de carbono, e que isso já se modificou, é alarmante, pois está emitido mais gases de efeito estufa do que pode absorver”, aponta.
Isabella Valenti também aponta o aquecimento global como risco, principalmente para as regiões tropicais, onde está localizada a Amazônia.
“Os efeitos das mudanças climáticas já são uma realidade, e regiões tropicais, como Rondônia, estão especialmente vulneráveis. O aquecimento global intensifica a frequência e a severidade dos eventos meteorológicos, podendo resultar tanto em períodos de chuvas extremas quanto em estiagens mais prolongadas”, relata a especialista.
Segundo Alba Rodrigues, a floresta, além de gerar umidade e micropartículas de água que formam as nuvens para precipitação, também têm papel regulador no sistema e regime de águas. A etnoclimatologista aponta que para evitar desastres, o governo precisa parar de negar o problema e criar planos de prevenção e emergência.
“Melhorar somente a médio e longo prazo, somente se houver uma força tarefa para que a humanidade terráquea tome consciência que ela não é a espécie principal, e que mude a forma-pensamento antropocêntrica de se relacionar com a vida que pulsa e se interliga”, conclui.
Painel com pintura no sítio rupestre Bico de Pedra, em Lajeado. Foto: Genilson Nolasco/Arquivo Pessoal
Uma pesquisa realizada no Tocantins busca ampliar o conhecimento sobre os sítios rupestres da Área de Proteção Ambiental (APA) Serra do Lajeado e sensibilizar o público para a urgência da criação de estratégias voltadas à conservação desse patrimônio. Para isso, a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), por meio do Núcleo Tocantinense de Arqueologia (Nuta), realizou a Exposição ‘Ecos da Serra: a arte rupestre na APA Serra do Lajeado’, financiada pelo Governo do Tocantins, por meio da Fapt.
A exposição é um dos desdobramentos do projeto ‘Mapeamento e levantamento do estado de conservação de sítios arqueológicos rupestres cadastrados na Área Estadual de Proteção Ambiental Serra do Lajeado’, desenvolvido pelo Nuta/Unitins e por meio do ‘Edital Fapt/Naturatins – Meio Ambiente’. O projeto teve início em maio de 2023 e segue até o próximo mês de julho.
O projeto já identificou cinco novos sítios rupestres, que serão cadastrados junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de um sítio cerâmico localizado em situação de risco, exigindo o resgate do material para evitar sua destruição. Após a conclusão desta pesquisa, será elaborado um novo projeto específico para o resgate do material cerâmico identificado, explica o curador do Nuta, professor doutor Genilson Nolasco.
Registros fotográficos dos sítios rupestres da APA Serra do Lajeado foram reunidos, destacando painéis rupestres, o contexto ambiental e os desafios para a conservação desse patrimônio cultural. As imagens foram produzidas ao longo do trabalho de campo, revelando o potencial arqueológico da região e os vetores de impacto da arte rupestre.
Ainda segundo o professor, a pesquisa e a exposição representam um avanço na compreensão e conservação dos sítios rupestres da APA Serra do Lajeado, trazendo subsídios para a gestão desse patrimônio arqueológico.
“A ausência de registros detalhados sobre o estado de conservação desses sítios evidenciou a necessidade de um levantamento que permitisse avaliar os danos acumulados ao longo do tempo, compreender os principais vetores responsáveis por sua degradação e propor estratégias para minimizar esses impactos. A pesquisa identificou vetores naturais e antrópicos que contribuem para a degradação dos sítios. Entre os impactos naturais, destacam-se a erosão eólica e fluvial, desplacamento de rochas, descamação, exsudação, proliferação de fungos e o intemperismo. No âmbito das ações humanas, práticas como pichações e o uso inadequado das áreas arqueológicas têm agravado o estado de conservação dos sítios. A queimada, por sua vez, seja ela de origem antrópica ou natural, tem se mostrado um dos vetores mais críticos, intensificando os danos às superfícies rochosas e promovendo alterações químicas e físicas que aceleram a deterioração das pinturas rupestres”, completou Nolasco.
A proposta dos pesquisadores é de que sejam adotadas medidas que não apenas amenizem ou impeçam o processo de degradação, mas que também promovam o conhecimento sobre esse patrimônio e sua importância para a ciência, educação, identidade cultural, o turismo e para a história da região.
Nuta
O Nuta atua no desenvolvimento de pesquisas no campo da arqueologia e do patrimônio cultural. Os resultados dessas pesquisas têm contribuído para a ampliação do conhecimento científico sobre a presença humana na região, com sítios arqueológicos datados em aproximadamente 12 mil anos e sobre os patrimônios culturais produzidos pelos mais diversos contextos sociais existentes no Tocantins.
O Nuta está localizado no bairro Jardins dos Ipês, quadra 20, lote 65, Anel Viário da Rodovia TO-050, em Porto Nacional.
No fim dos anos 1990, fui eleito vereador na cidade de Manaus e aprendi várias lições e talvez a maior delas foi de hoje compreender melhor o comportamento de certos políticos, se é que é possível compreendê-los.
À época fui procurado por uma instituição oficial que representava empresas, além de fazer entrega de mercadorias, encomendas, cobranças, entrega de correspondências e relativos. O grande problema era a numeração das casas particulares, empresas e oficiais. Havia mais de duas mil ruas com o mesmo nome, por exemplo: 28 ruas chamadas ‘Manaus’, ‘Amazonas’, ‘Rio Negro’, e muitas mais.
A numeração não respeitava as normas técnicas, tornando tudo uma bagunça generalizada. A proposta era de organizar e ordenar para que os domicílios fossem alcançados dentro do mais breve tempo possível.
Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
Muitos exemplos podem ser citados: uma correspondência simples poderia levar de 30 dias a mais de um ano até chegar ao seu destino se fosse endereçado à rua ‘Manaus’. Se, por sorte, fosse a primeira procurada, era fácil. Mas se fosse a número 28… Sem esquecer que na época sequer existia o código postal (CEP).
Assim, fui em busca de quem mais entendia de endereço: os Correios. Foi solicitado então o auxílio de uma equipe técnica especializa do Correio, que ficou na cidade por oito meses fazendo o levantamento. Ao término, foi apresentado mais de 2,8 mil ruas que deveriam ser regularizadas e me foi apresentada uma norma para regularização dos números.
Segundo eles, o Brasil tinha adotado o sistema inglês de numeração de logradouros. Do início da rua, a primeira casa a esquerda seria a número ‘1’ e a primeira a direita seria a número ‘2’, assim sucessivamente, fácil de compreender.
Com as pesquisas na mão e a fórmula tecnicamente elaborada por profissionais, apresentei na Câmara Municipal de Manaus a proposta de organização dos nomes das ruas, que foi aprovada por unanimidade, tornando-se a Lei 343 de 12 junho de 1996, sancionada pelo prefeito e partimos para a execução.
Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
Foi escolhido o competente vereador Expedito Teodoro, que junto com a comissão especializada iniciaria o projeto de renomear as referentes ruas repetidas. Segundo a legislação vigente na época, foi feito um edital publicado nos veículos de comunicação, convocando os moradores ou seus referidos representantes das ruas a serem modificadas.
Durante os longos sete meses apenas 20% se apresentaram. O tempo passava e tínhamos um prazo para a entrega das renomeações. Com isto, Expedito criou um grupo-tarefa para em regime de urgência buscar entre as pessoas não vivas que tinham de alguma forma prestado serviço ao Amazonas, nomes que pudessem ser usados nas ruas, e assim foi feito.
Assim, Manaus conseguiu regulamentar nomes e números ordenados. Mas acredite: na execução da lei, somente as áreas principais foram arrumadas e o resto da cidade foi esquecida.
Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
Portanto, hoje passados já muitos anos da implementação da lei que orgulhosamente criei com ajuda de muitos, não tem mais operacionalidade.
Como a legislação permite a troca de nome de ruas quantas vezes for solicitado (respeitando algumas pequenas regras), o mais comum nesta terra é mudar nome de bairro e de rua e numerar de forma arbitrária.
Por exemplo: existem ruas com nomes e números diferentes na prefeitura, nos registros de energia e de água. Mesmo com o código postal, quando a rua muda de nome o sistema não atualiza imediatamente. Quando este problema será resolvido?
Mas eu repito: batizei muitas ruas!
Por hoje é só! FUUUUUUUIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Sobre o autor
Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Desde 2001, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) localizada na zona leste de Manaus (AM), no bairro Colônia Antônio Aleixo, está registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Sítio Arqueológico Daisaku Ikeda. A região abriga vestígios arqueológicos significativos, que contribuem para a compreensão da história indígena e da ocupação humana.
A descoberta de artefatos arqueológicos cerâmicos na área, incluindo uma urna funerária e um alguidar (tipo de panela tradicionalmente usada por povos indígenas da região amazônica), levou ao reconhecimento do local como patrimônio histórico.
Estudos indicam que esses achados pertencem às fases Guarita, Cerâmica e Paredão, datadas de aproximadamente 2.000 anos. As pesquisas multidisciplinares realizadas no local buscam compreender as técnicas de produção, uso e descarte dessas vasilhas.
O Sítio Arqueológico Daisaku Ikeda está inserido em uma região rica em patrimônio arqueológico, com outros três sítios registrados nas proximidades: o Sítio Arqueológico Porto do Encontro das Águas, o Sítio Arqueológico Lages, que apresenta uma alta concentração de artefatos cerâmicos, e o Sítio Arqueológico Ponta das Lajes, frequentemente submerso nas margens do Rio Negro.
Esses sítios cerâmicos da região indicam uma ocupação possivelmente ininterrupta desde o início da era cristã até os dias atuais, atravessando períodos de contato com europeus e influências modernas.
O Sítio Arqueológico Daisaku Ikeda, situado em uma área florestada próxima ao Encontro das Águas, parece ser contemporâneo ao Sítio Ponta das Lajes, sugerindo que ambos foram ocupados pelos mesmos grupos indígenas no passado.
Como chegar
O acesso ao sítio se dá a partir da rotatória Gilberto Mestrinho (conhecida como ‘Bola do Coroado’ ou rotatória do Coroado), seguindo pela Alameda Cosme Ferreira, passando pela Maternidade Ana Braga e continuando pela mesma via no bairro Zumbi dos Palmares até se tornar Estrada do Aleixo. O trajeto inclui pontos de referência como o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), campus Zona Leste, e o Refúgio Sauim Castanheira, até a chegada à Avenida Desembargador Anízio Jobim, n° 980.
No auge da temporada das queimadas, entre junho e dezembro de 2024, as favelas e comunidades urbanas Conjunto Antônio Jorge, Conjunto João Pedro, Rabo da Cobra e Shan, no município de Boca do Acre, no sul do Amazonas, foram as mais impactadas pela poluição da fumaça da Amazônia, especificamente entre as populações em situação de vulnerabilidade social.
Juntas, essas quatro favelas registraram os piores índices de poluição na Amazônia causados pelas partículas tóxicas da fumaça, cientificamente chamadas de material particulado fino (PM2.5), no segundo semestre do ano passado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para evitar doenças respiratórias, a exposição diária ao PM2.5 não deve ultrapassar 15 µg/m³. No entanto, nessas áreas de Boca do Acre, a concentração de fumaça atingiu uma média de 113 µg/m³ em setembro do ano passado, valor 653% acima do considerado seguro.
Para entender a relação da fumaça com a poluição causada pelo material particulado fino na região, a InfoAmazonia coletou registros do serviço de monitoramento da atmosfera Copernicus (CAMS), do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF). Depois, identificou os territórios urbanos mais impactados a partir do cruzamento com os dados de favelas e comunidades urbanas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — leia aqui a metodologia da análise.
De 1º de julho a 31 de dezembro de 2024, a concentração média de poluição por fumaça nas favelas e comunidades urbanas de Boca do Acre foi de 40,2 µg/m³, índice 168% acima do limite recomendado pela OMS.
Localmente, a população se refere a essas quatro regiões apenas como “bairros” da cidade, embora a classificação de favelas e comunidades urbanas siga os critérios do IBGE. Na divisão geográfica adotada pelos moradores de Boca do Acre, a cidade é separada em duas áreas: a “cidade baixa”, que inclui os conjuntos Antônio Jorge, João Pedro e a região conhecida como Rabo da Cobra; e a “cidade alta”, onde fica Shan, uma área localizada em Walterlândia, a 7 km do centro.
Localizada na confluência dos rios Purus e Acre, a cidade de Boca do Acre tem uma população de 35.447 habitantes, de acordo com o Censo Demográfico de 2022. Lá, a maioria das casas são de palafita, erguidas em madeira numa altura que cabe até um carro para fugir das inundações em épocas de chuvas.
O levantamento também identificou outras favelas e comunidades urbanas na Amazônia onde a população foi severamente atingida pela fumaça na temporada: Guajará-Mirim, no interior de Rondônia, registrou 37 µg/m³, a segunda maior média da temporada. Em seguida, aparece Igarapé do São Francisco, em Rio Branco, no Acre, com 31 µg/m³.
Bairro Antônio Jorge, em Boca do Acre, foi um dos mais atingidos pela fumaça durante a estiagem de 2024 no Amazonas. Foto: Josimar Silva/Arquivo pessoal
O pico de fumaça nessas regiões de Boca do Acre foi no mês de setembro — mesmo período de alta na Amazônia, conforme o levantamento. No entanto, julho, agosto e outubro também registraram índices acima do limite considerado seguro pela OMS.
Moradores ouvidos pela reportagem relatam que toda a cidade enfrenta precariedade na infraestrutura, com ruas sem asfalto e falta de saneamento. Na parte urbana, 40% dos domicílios estão sujeitos a risco de inundação, conforme levantamento do Instituto Água e Saneamento, entidade que cobra mais acesso ao esgotamento sanitário no Brasil. Esses problemas são ainda mais evidentes nas quatro favelas e comunidades onde a concentração de fumaça foi mais alta.
“Difícil viver com tanta fumaça”
Moradora do conjunto Antônio Jorge, umas das regiões mais afetadas pelo material particulado, a estudante de biologia Nayane Andrade de Souza não guarda boas lembranças de setembro de 2024, época em que a região estava tomada por fumaça.
“Foi uma situação muito ruim, agoniante”, contou. Ela lembra que o problema foi tão grave que a população local precisou recorrer ao uso de máscaras nos meses da temporada de queimadas, como nos tempos da pandemia de Covid-19.
“Para quem tinha sua rotina de caminhar à tarde foi difícil. Passear com as crianças era impossível. Para não inalar fumaça, saímos de máscara e, mesmo assim, era impossível não ser atingido. Tivemos falta de ar, olhos lacrimejando, tosse. A população teve que passar por isso”, lembra.
População de Boca do Acre conviveu com queimadas e fumaça ao longo entre julho e novembro de 2024 Crédito: População de Boca do Acre conviveu com queimadas e fumaça ao longo entre julho e novembro de 2024. Foto: Josimar Silva / Arquivo pessoal
Nielly Vieira Mota, cabeleireira e moradora do mesmo bairro de Nayane, relatou à reportagem que a situação ficou insustentável em diversos momentos. “Foi muito ruim, principalmente pra quem sofre com falta de ar”, afirma. Ela lembra de ter sentido ardência nos olhos e dor de cabeça nos dias com maior intensidade de fumaça.
A cabeleireira é mãe de uma menina e afirma que as aulas foram canceladas por um mês, entre setembro e outubro de 2024, devido às condições atmosféricas. “As aulas passaram a ser online porque estava insuportável. Mesmo dentro de casa era difícil viver com tanta fumaça”.
A realidade nas quatros regiões de Boca do Acre foi ainda mais desconfortável para aqueles que não tinham acesso a ar-condicionado, relembra Nielly: “Quem tinha ar-condicionado podia se proteger um pouco, mas eu não tinha. Era em frente ao ventilador mesmo, mas o vento piorava a falta de ar”. Ela precisou interromper o trabalho em setembro porque não tinha condições de receber os clientes.
Impactos à saúde
O dentista José Carlos Lopes, que à época atendia pacientes na Unidade Básica de Saúde (UBS) Francisca Amélia, zona oeste de Boca do Acre, lembra de ter ouvido relatos de pessoas com problemas respiratórios. Atualmente, ele é o diretor do hospital estadual Dona Maria Geni, localizado na região.
“Na atenção básica, percebi, como cirurgião dentista, um aumento significativo dos atendimentos de doenças respiratórias, principalmente entre crianças e idosos. As aulas foram paralisadas, as atividades físicas ficaram de lado, começamos a sentir os efeitos do clima até no ambiente de trabalho, pois o ar-condicionado piorava tudo”, lembra Lopes.
Queimadas fizeram a cidade de Boca do Acre ter entre agosto e setembro os piores índices de poluição atmosférica de toda a Amazônia Crédito: Josimar Silva / Arquivo pessoal
Ele conta que, à época, principalmente em setembro, a fumaça deixava a cidade com pouca visibilidade. Devido ao calor, as pessoas precisavam de ambientes refrigerados, o que se somava ao problema.
“Sentimos bastante ardência nos olhos, problemas de rinite e outros respiratórios. Fora o desafio de viver em um ambiente insalubre, com pouca visibilidade e clima extremamente seco”, completa Lopes.
Convivendo com a fumaça, dor de cabeça e ardência nos olhos, a rotina dos moradores da cidade de Boca do Acre foi insalubre por meses. Foto: Josimar Silva / Arquivo pessoal
Martha Gomes, técnica de informática e moradora da região próxima a Shan, conta que o “principal sintoma foi dor de cabeça”. Ela também diz que as duas filhas, de 6 e 10 anos, ficaram cerca de duas semanas sem ir à escola. Nesse período, as aulas foram feitas por vídeo.
“Tivemos que ficar mais tempo em casa. Foi mais difícil principalmente para quem tem filhos porque muitas vezes não dava para eles irem à escola de tão irrespirável que estava o ar”, explica.
Na área onde Marta mora, as pessoas atingidas pela alta concentração de fumaça “não têm estrutura e as famílias realmente ficam num grau de vulnerabilidade bastante alto”, como explica Josimar Silva, diretor executivo do Instituto Amazoniar, uma iniciativa local que atua com a defesa do meio ambiente, o combate à pobreza e a valorização da cultura local em Boca do Acre. O bairro surgiu a partir de loteamento irregular.
“Não tem asfalto, são só as ruas de chão batido mesmo, tem uma escola próxima, mas é pequena”, diz, acrescentando que, como a região não tem transporte público, quem precisa “fazer uma locomoção mais rápida, tem que pegar mototáxi ou táxi”.
Resposta do governo do Amazonas foi criticada pela população. O estado ainda não conta com plano para emergência climática. Foto: Reprodução/Secom-AM
O pneumologista Mário Sérgio Monteiro Fonseca, que atua na unidade de clínica médica do Hospital Universitário Getúlio Vargas da Universidade Federal do Amazonas, que integra a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (HUGV-Ufam/Ebserh), explica quando uma pessoa saudável é exposta por um tempo prolongado cronicamente à fumaça, em níveis não recomendados como os registrados em Boca do Acre, corre o risco de evoluir com doenças crônicas do aparelho respiratório.
“Pode, por exemplo, evoluir com uma inflamação dos brônquios, que é a bronquite, isso no corpo mais leve. Mulheres gestantes saudáveis podem apresentar parto prematuro, com baixo peso da criança ao nascer. Então, a fumaça como um todo é lesiva, além de causar irritação ocular, irritação nasal, pode causar também dor de cabeça, são vários os fatores relacionados que podem levar a dano e prejuízo a uma pessoa saudável”, alerta.
Todos os moradores ouvidos na reportagem afirmam que a situação só melhorou quando começou o período de chuvas, em novembro.
A fumaça no organismo
As diretrizes da OMS sobre a exposição humana ao material particulado foram atualizadas em setembro de 2021. A organização alertou para os riscos dos danos que a poluição atmosférica causa à saúde humana, incentivando governos e comunidades a adotarem medidas para melhorar a qualidade do ar.
Desde a última atualização, em 2005, evidências científicas indicam que a poluição do ar está associada a uma variedade de problemas de saúde, incluindo doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, doenças respiratórias e câncer de pulmão. A OMS estima que a exposição à poluição do ar cause aproximadamente 7 milhões de mortes prematuras anualmente.
O pneumologista Mário Sérgio ressalta que o material particulado no organismo torna as pessoas mais suscetíveis a processos inflamatórios.
“A fumaça é dividida em duas partes, existe o material particulado e o material que não é particulado. O material não particulado tem o formaldeído, tem o monóxido de carbono, tem as substâncias que a gente chama de aromáticas que são cancerígenas, e o material particulado que é a fuligem e outras substâncias, todos eles causam dano e processo inflamatório na traqueia, nos brônquios”, explicou.
A exposição prolongada a altos níveis de material particulado é extremamente prejudicial à saúde, podendo levar a várias doenças pulmonares. Foto: Josimar Silva / Arquivo pessoal
Reforçando a explicação de Mário, o epidemiologista Jesem Orellana acrescenta que a multiplicação de focos de calor na Amazônia não causa apenas impacto ambiental, mas também agrava problemas de saúde que poderiam ser prevenidos.
“Milhares de atendimentos evitáveis se fazem necessários, consumindo recursos que poderiam estar sendo investidos no combate a doenças e desafios sanitários prioritários, especialmente junto a crianças, idosos e pessoas com comorbidades”, avalia Orellana também, que também é pesquisador e chefe do Laboratório de Modelagem em Estatística, Geoprocessamento e Epidemiologia (Legepi) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia.
Em casos de exposição a níveis de fumaça como os registrados em Boca do Acre, o epidemiologista orienta que, se possível, as pessoas usem máscaras reforçadas, como as PFF2 ou N95, que possuem filtros capazes de reter o material particulado.
“Os serviços de saúde, por sua vez, precisam alterar sua rotina, dando maior atenção para as ações de saúde na atenção primária à saúde, treinar pessoal, equipar as unidades de saúde e dar condições para que as pessoas afetadas pelo efeito tóxico da fumaça possam ser acompanhadas e tratadas da melhor forma possível, o que inclui planos de contingência realistas e formulados com meses de antecedência os períodos mais críticos”, sugere.
O que diz o governo do Amazonas
Apesar da fumaça das queimadas ter sido intensa no ano de 2023 com indicadores de que a crise climática poderia se repetir em 2024, o governo do Amazonas demorou a se posicionar publicamente com orientações sobre o problema. Um comunicado explicativo só foi divulgado para a imprensa e publicado em sites oficiais do governo em 18 de setembro de 2024, na segunda quinzena do pico da exposição.
Em nota enviada para a reportagem, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) afirmou que, em 2024, viabilizou a aquisição de sensores de monitoramento da qualidade do ar para todos os 62 municípios do Amazonas, dos quais 49 já foram instalados, com apoio da Defesa Civil do Amazonas. De acordo com a Sema, conforme os resultados de concentração de material particulado em suspensão, a secretaria entra em contato com a Defesa Civil, para articulações junto à Secretaria de Estado em Saúde.
Em 2024, segundo a Sema, foram realizadas 196 prisões relacionadas às queimadas. Também foram embargados 24 mil hectares e aplicados R$ 214 milhões em multas. Por fim, 433 autos de infração foram expedidos. O Corpo de Bombeiros afirma ter combatido 2.575 focos de calor no Amazonas no ano passado, incluindo Boca do Acre.
Embora o problema tenha ocorrido em todo segundo semestre do ano passado, apenas em janeiro deste ano, o governador Wilson Lima (UB) tornou permanente o Comitê de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais no Amazonas. Além disso, apenas agora, segundo a Sema, os órgãos estaduais se reuniram para discutir a elaboração do Plano Estadual de Mudanças Climáticas, além do Plano de Emissão Atmosférica e Gestão da Qualidade do ar.
Questionada ao longo das últimas duas semanas sobre ações de preventivas ou mitigadoras junto à população, a Secretaria de Estado em Saúde não enviou resposta.
Procurados, o ex-prefeito de Boca do Acre entre os anos de 2021 e 2024, José Maria Silva da Cruz (PP), conhecido como Zeca Cruz, não quis responder às perguntas. Ele repassou contatos de ex-integrantes da prefeitura durante a gestão, os ex-secretários de saúde, Manuel Barbosa e meio ambiente, Antônio Jony da Costa Noronha, mas eles não retornaram as perguntas da reportagem.
*O conteúdo foi publicado pela InfoAmazonia, escrito por Fred Santana