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ZFM, 58 anos: galeria dos superintendentes responsáveis pelos primeiros passos do Polo Industrial de Manaus – Parte III/IV

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Foto: Reprodução/Suframa

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Nesta parte a coluna descreve o período sob gestão de Delile Guerra de Macedo, Manoel das Silva Rodrigues (engenheiro eletrônico dos quadros da Suframa egresso do Centro de Tecnologia Aeronáutica – CTA) e Mauro Costa. Neste caso, escândalos de corrupção que determinaram a extinção da SUDAM e SUDENE respingaram aqui (golpes do colarinho branco e máfia do açúcar). A SUFRAMA foi salva graças à intervenção do então ministro do Planejamento do governo FHC, José Serra, que nomeou o jovem Mauro Costa para a missão de sanear e reestruturar o órgão. Graças à excelência do trabalho levado a cabo tais escândalos jamais voltaram a se repetir.

Delile Guerra de Macedo, ex-presidente do Banco da Amazônia (Basa), como superintendente marcou o fim da intervenção na Suframa. Anunciado pelo ministro do interior, Ronaldo Costa Couto, no dia 2 de junho de 1986, tomou posse no dia 5, em Brasília, viajando em seguida para Manaus. Reestruturou a Autarquia, criou um Plano de Cargos e Salários para os Servidores, atualizou normas e procedimentos e desenvolveu intenso trabalho de divulgação da ZFM no país e no exterior voltado à atração de novos investimentos. Sua administração também ficou marcada pela forte atuação na informatização de sistemas e controles operacionais, que permitiu o recadastramento das empresas importadoras aqui estabelecidas. Projetou excelente imagem pública da Suframa e da ZFM ao promover eventos fora de Manaus para discutir problemas e apontar soluções, mostrando ao Brasil os produtos fabricados no então Distrito Industrial (DI). Permaneceu no cargo até 4 de agosto de 1987, quando pediu afastamento ao então presidente da República, José Sarney, e retornou à presidência do Basa.

Manuel Silva Rodrigues assumiu a superintendência em 4 de agosto de 1992, permanecendo no cargo até 10 de maio de 1996. Na sua gestão são fixados os primeiros processos produtivos básicos (PPB) provisórios e alguns definitivos; foram implantadas as Áreas de Livre Comércio de Guajará-Mirim/RO e Macapá-Santana/AP. Em 1994 elaborou o 1º Planejamento Estratégico da Zona Franca de Manaus, a partir de audiências promovidas junto a diversos públicos internos e externos, com vistas a redefinir a Missão e os Objetivos da Suframa como agência de desenvolvimento sub-regional. Inicia-se o processo de modernização e automação no Distrito Industrial (DI). O faturamento das empresas bate todos os recordes, mas o nível de empregos cai (resultado da automação das linhas de produção). Nesse período, sob a presidência do engenheiro Aluizio Barbosa, a FUCAPI viveu sua fase mais rica em soluções tecnológicas e no campo do ensino técnico.

Mauro Costa, empossado em 10 de maio de 1996, com a missão de fortalecer a ZFM e a imagem pública da Suframa, procedeu ações de modernização da entidade a partir da revisão do Planejamento Estratégico, fortalecendo a atuação da autarquia como agência promotora de investimentos na Amazônia Ocidental e de ações voltadas à atração de investidores por meio da participação em eventos de negócios no país e no exterior; assinou convênio com o Ministério das Relações Exteriores para viabilizar a participação da Autarquia e das empresas da ZFM em eventos do Programa Nacional de Promoção Comercial.

Costa priorizou o estabelecimento de novos critérios para aplicação de recursos por meio de projetos de pesquisa, ensino e extensão, estudos, promoção das exportações e infra-estrutura, com vistas a interiorização do desenvolvimento; bem como a realização de Estudos das Potencialidades Econômicas através da FGV para suporte a projetos econômicos locais e a criação do CBA em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Ciência e Tecnologia; a criação do Programa de Exportação da Amazônia Ocidental – Pexpam; e a reconstrução da sede da Suframa, que havia sido consumida por um incêndio em maio de 1994.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Indígenas do Amapá catalogam peças levadas para a Suécia há 100 anos

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Foto: Gabriel Baena/Unicamp

Três indígenas das etnias Palikur e Galibi Marwono estão na Suécia para catalogar peças enviadas do Amapá para a Europa em 1925. A iniciativa da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) busca fazer a repatriação digital – que é o retorno do patrimônio cultural em formato digital às comunidades de origem.

Atualmente, as peças indígenas estão expostas no Museu da Cultura Mundial, em Gotemburgo. Elas foram enviadas por Curt Nimuendajú, etnólogo que visitou a região do município de Oiapoque e é considerado um dos maiores especialistas dos povos indígenas no Brasil, com atuação na primeira metade do século 20.

Um dos objetivos é a criação de materiais didáticos a partir dos artefatos, como documentos e fotos digitalizados pelos pesquisadores indígenas, que são professores, artesãos e artistas.

Ao longo de três semanas o grupo indígena vai identificar e descrever a importância do uso desses artefatos nas respectivas etnias.

Os indígenas amapaenses são acompanhados por membros dos projetos “Digital Repatriation”, financiado pelo Swedish Research Council (Conselho Científico Sueco), e pelo “Energia Limpa, Vida Sustentável”, financiado pelas fundações Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), de Amparo à Pesquisa do Amapá (Fapeap) e de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) pelo programa Amazônia +10.

No total, foram 380 peças coletadas em 1925 por Curt Nimuendaju, das quais 67 são analisadas pelos pesquisadores. Elas foram retiradas dos rios Uaça, Urukauá, Oiapoque e Curipi.

Os projetos de repatriação digital são coordenados pela pesquisadora Lilian Rebellato, do Programa de Antropologia e Arqueologia (PAA) da Ufopa.

“Curt Nimuendajú, através de Erland Nordenskiöld, que era diretor do Museu Etnográfico na época, enviou os artefatos com o objetivo de colecionar e registrar as sociedades nativas da América do Sul. Não havia ainda uma legislação de proteção do patrimônio de 1925, que passa existir no Brasil apenas em 1937. Decreto esse criado para proteger o patrimônio histórico e artístico nacional de interesse público de nosso país”, explicou a pesquisadora.

Um dos indígenas é Natã dos Santos (Palikur), de 51 anos. Ele confecciona bancos utilizados em rituais. Essa técnica, herdada de gerações antepassadas, carrega um simbolismo muito grande. Natã é bisneto do Pajé (Ihamwi em Palikur e Piai em Galibi Marworno), de quem o Curt Nimuendajú comprou e estabeleceu contato, em 1925.

Depois do falecimento do seu pai, Natã Palikur contou que passou a fazer esse trabalho para não perder a tradição da sua cultura.

“Quando fazemos o banco, ele não serve para sentar-se em cima. Ele serve para quando tiver uma festa, por exemplo, uma Festa de Turé. Essa festa da nossa cultura acontece quando a lua estiver grande, nova, aí nós fazemos uma dança”, descreveu o indígena.

Estão na Suécia também os professores indígenas Euvécio Labonte dos Santos (Palikur) e Milton Galibi Nunes (Galibi Marworno). Eles farão a confecção de materiais didáticos para as escolas das aldeias.

“Minha intenção é de chegar lá, é trazer, avistar com os meus próprios olhos se realmente é a cultura dos nossos antepassados. Quando eu chegar lá, tenho a intenção de fazer registro para poder trazer de volta para o nosso povo. E fazer materiais para os alunos, para ensinar isto: a cultura dos nossos antepassados”, disse Euvécio Palikur.

“Meu foco principal está relacionado a nossa dança tradicional que é o Turé. Muitos objetos que estão na Suécia, são praticamente desconhecidos pelos nossos jovens na comunidade. Estou indo procurar saber o significado das marcas, do próprio formato dos artefatos, dos materiais os quais foram produzidos, para levar essa realidade para o meu povo novamente. Para tentar trabalhar o resgate cultural em si”, disse Milton Galibi.

Busca por objetos nos séculos 19 e 20

Lilian Rebellato explicou que no início do século 20 era comum a prática de buscar objetos de culturas nativas. E foi com esse “espírito do tempo”, que o Museu Etnográfico de Gotemburgo e de Estocolmo, hoje chamado de Museu da Cultura Mundial, tiveram a ideia de colecionar as materialidades de culturas nativas.

“Acredito que na década de 1990, mudaram o nome do Museu que de Etnográfico. Com todas as críticas que possam ser feitas e esse conceito singular. No final do século 19 e início do século 20 viajantes, colecionadores, pesquisadores e curiosos saíram em busca de artefatos representativos de culturas nativas ao redor do mundo, pois acreditavam que, com o capitalismo, sociedades tradicionais desapareceriam e com isso também essa cultura material e todo esse conhecimento”, disse.

A pesquisadora destacou que foi nesse contexto que Nordenskiöld veio para América Latina, com levantamentos importantes de países como Bolívia, Argentina, Panamá, enquanto Nimuendajú permaneceu grande parte de sua vida entre as sociedades indígenas localizadas principalmente onde hoje é o Brasil.

Nimuendajú nasceu como Curt Unckel em 1883 na Alemanha. Aos 20 anos migrou para o Brasil, onde participou de inúmeras expedições. Em uma delas foi adotado por uma família indígena, onde recebeu o nome “Nimuendajú”.

Veja artefatos já identificados:

Wanamyo

O vasilhame, chamado Wanamyo, serve para colocar o caxixi (bebida fermentada da mandioca) durante as festas e cerimônias sendo é ideal para servir até 4 pessoas. Feitos com argila, são impermeabilizados com breu, evitando assim a evaporação dos líquidos.

Apesar de serem elaborados para cerimônias especiais, esses artefatos continuam sendo utilizados para armazenar água após as festas. Ricamente decorado com grafismos representado pássaros, peixes ou outros animais, expressa um senso estético de seus criadores.

Kwi

As cuias são decoradas em baixo-relevo e servem tanto para oferecer o caxixi no interior do Wanamyo quanto para beber água, tomar tacacá ou chibé. Dentro da cosmologia Galibi Marworno, também são utilizadas para que seres de outro mundo bebam o caxixi.

Tukutku

Recipiente para colocar líquidos como caxixi. De acordo com os Palikur, por ser um vaso duplo o liquido parece que fica mais frio, com o tanque de reserva mais cheio, o liquido fica mais gelado. Geralmente, há um tubo de cerâmica que interliga os dois vasos. Seu nome onomatopeico ajuda a entender o som que faz quando entornado ao se derramar o líquido de seu interior.

*Por Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP

Manuel Rodrigues do Nascimento: um português formado na Universidade Livre de Manáos

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Grupo de formando e professores da Universidade Livre de Manaós, 1918. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br 

Manuel Rodrigues do Nascimento, que nasceu no dia 12 de dezembro de 1886, foi durante muito tempo diretor do Corpo Cênico do Luso Sporting Club. O destino deste lusitano marca de forma profunda a história da Universidade Livre de Manáos. Seu pai, o imigrante português Lourenço do Nascimento, imigrou para o Brasil, cujo destino final era a cidade de Manáos, em 1889, tendo deixado em Portugal sua esposa Maria Rodrigues e seu filho Manuel Rodrigues do Nascimento.

Lourenço Nascimento, seu pai, já em Manaus, logo começa a trabalhar no Mercado Adolpho Lisboa com uma pequena banca de verduras e frutas. Distante da família que ficara em Portugal, logo constitui nova família em Manaus e, tempos depois, sua esposa Maria Rodrigues embarcou com o filho Manuel Rodrigues do Nascimento (com aproximadamente sete anos de idade). Aqui chegando tomou conhecimento da nova família que seu esposo havia constituído.

Tentou a todo custo uma reconciliação, porém o objetivo não foi alcançado. Após contrair grave doença, Maria Rodrigues vem a falecer. Manuel Rodrigues do Nascimento fica órfão de mãe aos oito anos de idade desta forma não quis ir morar com o pai e a madrasta. Apesar de muito jovem começa cedo a trabalhar ajudado por “patrícios” nos afazeres gerais.

Manuel Rodrigues do Nascimento, 1918. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

O tempo passa e o jovem Manuel Rodrigues do Nascimento tornou-se balconista no Mercado Adolpho Lisboa. Tendo recebido convite dos padres para viajar pelo interior do Estado e, logo, os padres impressionados com a inteligência do menino, proporcionam-lhe o retorno aos estudos, com formação religiosa e a conclusão dos estudos, ele aos dezoito anos retorna a Manaus.

Portador de uma inteligência rara, começa logo a se envolver em atividades culturais no Luso Sporting Club, tendo se destacado como ator do Corpo Cênico e diretor da referida Instituição, onde permaneceu atuando até o seu retorno para Portugal.

Em Manaus trabalhou duro buscando seu crescimento profissional. Para sua subsistência inicia uma nova profissão: a de barbeiro. Homem extremamente generoso, nas horas vagas ajudava arrancando dentes, para atender os “patrícios” menos favorecidos e principalmente pessoas pobres que o procuravam.

Inscreveu-se no Curso de Odontologia na Universidade Livre de Manáos, tendo iniciado seus estudos no ano letivo de 1917/1918, formando-se em 23 de dezembro de 1918. Contraiu matrimônio duas vezes, tendo ficado viúvo em ambos. Após a viuvez, conheceu a jovem Ermelinda Soeiro de Carvalho, também de nacionalidade portuguesa, natural de Guedeiras (Colônia de Sendim/Viseu), com quem contraiu matrimônio. A diferença entre eles era de nove anos. Seu primeiro filho com Ermelinda nasceu em Manaus.

Grupo de formando e professores da Universidade Livre de Manaós, 1918. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Regressou definitivamente para Portugal em 1923, instalando seu consultório odontológico em sua residência em Moimenta da Beira, Distrito de Viseu. Ainda nesta casa nasce o segundo filho. Mais tarde resolveu alugar uma casa em Braga, localizada no Campo da Vinda, nº 49, para onde mudou-se com toda família. Nesta casa exerceu com dignidade e profissionalismo o sacerdócio de médico dentista. O tempo passa e Deus proporcionou ao casal mais quatro filhos.

Após sua morte, esta casa foi ocupada pelo filho mais velho Diógenes, o único a nascer em Manaus, que como pai tornou-se médico dentista como é o ensino em Portugal e passou a ocupar o consultório deixado pelo pai.

Seus filhos Demóstenes, Tereza e Manuel imigraram para o Brasil. Demóstenes tornou-se industrial na cidade do Rio de Janeiro, aonde veio a falecer. Manuel reside em Belém do Pará e Tereza residiu em Manaus, até falecer.

Manuel Rodrigues do Nascimento foi um homem com enorme contribuição ao Diretório do Centro Republicano Português, em cujas sessões foi sempre um eloquente orador. No Luso Sporting Club escreveu sua história fruto do labor coletivo e a partilha das encenações teatrais, onde alimentado pelo prazer criativo da bela arte, deu vida a seus personagens, que permanecem silenciosamente nas paredes do centenário clube, cujas lembranças continuam vivas no cenário imaginário de nossas mentes.

No dia 29 de maio de 1920, em virtude da preparação em seu regresso a Portugal, renunciou a diretoria do clube. Igual participação atuou em defesa da classe de Odontologia na Associação Amazonense de Cirurgiões Dentista.

Seus filhos Ilcia, Aristóteles e Diógenes residem em Portugal. O Luso Sporting Club, quando de sua partida definitiva para Portugal, prestou significativa homenagem. No dia 29 de fevereiro de 1920, perdia o Amazonas um grande homem e ganhava Portugal um excelente profissional. Manuel Rodrigues do Nascimento faleceu na cidade de Braga, em Portugal, no dia 20 de janeiro de 1946.

*Informações obtidas pessoalmente pelo autor quando de sua visita a cidade do Porto em Portugal, onde nesta ocasião foram prestadas por sua sobrinha (filha) senhora Maria Ermelinda Faria de Carvalho.

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Amigos encontram espada francesa do século 19 por acaso durante banho em rio no Amapá

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Espada francesa. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

Uma descoberta surpreendente foi feita no interior do Amapá pelos amigos Rafael Gomes e Jamacel de Jesus. Durante mergulho no rio Calçoene, eles encontraram uma espada francesa do século 19 próximo à ponte das Sete Ilhas.

A dupla encontrou a espada durante um banho de rio, na cidade que fica distante cerca de 356 quilômetros de Macapá.

A espada, que mede 63,5 centímetros de comprimento e tem uma lâmina de 48,5 centímetros, é um exemplar raro da antiga espada curta da infantaria francesa do período de Napoleão Bonaparte, em 1828.

Rafael Gomes, de 39 anos, que é lojista e minerador, contou ao g1 sobre o momento em que encontrou o artefato.

“Nós estávamos no dia de lazer, de banho, vimos próximo à uma pedra, a ponta dela estava para fora e nós desenterramos. Nesse mesmo local já encontramos diversas moedas e até uma rapieira – espada longa usada por mosqueteiros”, disse.

O lojista, ao encontrar a espada, fez uma breve pesquisa para confirmar suas suposições. Ele constatou que se tratava de uma rara antiga espada curta usada em batalhas sangrentas para a disputa de territórios e riquezas.

“Isso é parte da nossa história, sem falar na conservação desse artefato. Está perfeito, é um material duradouro que a gente poder estar expondo em algum local aqui do nosso Estado”, contou.

O Contestado Franco-Brasileiro

De acordo com o historiador Célio Alício, a espada pode ter sido usada durante o período do Contestado Franco-Brasileiro, um conflito territorial que ocorreu entre o Brasil e a França no século 19.

O Contestado Franco-Brasileiro foi um conflito territorial que ocorreu entre o Brasil e a França no século 19. A disputa começou em 1713, quando o Tratado de Utrecht estabeleceu a fronteira entre os domínios portugueses e franceses na América do Sul.

Imagem: Reprodução/ResearchGate

“Esse artefato não deixa de ser algo típico em uma região onde durante mais de 200 anos foi alvo de disputa, política, militar e diplomática, primeiramente entre Portugal e França no começo do século 17, e a partir da independência do Brasil, no século 19 entre França e Brasil, tanto que a partir daí esse episódio passa a ser chamado na França de Contestado Franco-Brasileiro”, contou o historiador.

No entanto, após a independência do Brasil, a França reabriu a questão em 1825, no século 19. Alegando que a fronteira deveria ser estabelecida no rio Amazonas. O conflito se arrastou por décadas, até que os direitos do Brasil foram defendidos no tratado assinado em 1897.

“Essa disputa entre Portugal e França e depois Brasil e França é justamente por uma área com uma terra no extremo norte do Brasil entre o atual Amapá e a Guiana Francesa que muito rica em Minério despertou a cobiça não só de portugueses e franceses mas também de outros países, já visto que além de França e Portugal outros países também incursionaram por essa região em busca das suas riquezas naquele período”, explicou o historiador.

A sentença final do Conselho Federal Suíço, em 1900, definiu que a solução brasileira deveria ser adotada integralmente, estabelecendo o rio Oiapoque como a fronteira entre os dois países.

Registro da História

O historiador destacou ainda que o achado é de grande importância para o registro da história amapaense, e leva a ajudar na compreensão do contexto da disputa por riquezas. A disputa pelas riquezas da região foram custaram a vida de muitas pessoas ao longo de mais de 200 anos.

Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

“Ocasionalmente se encontram restos daquele período, assim como essas espadas e documentos, moedas e outros artefatos, outras coisas, outros objetos daquela época, que demonstram muito bem não somente a realidade dos fatos, o que realmente ocorreu e, contudo, para estudos mais aprofundados, mais detalhados”, finalizou.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Portal Amazônia responde: o que é a Foz do Amazonas?

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Foto: Marcus Cunha/ICMBio

A Foz do Amazonas tem ganhado evidência nos últimos meses por uma série de discussões ambientais. Mas você sabe o que é a Foz do Amazonas? 

A Foz é o local onde um corpo de água fluente, como um rio, desagua em outro ponto, no caso do rio Amazonas por exemplo, ele deságua no Oceano Atlântico. Na altura da ilha do Marajó, no Pará, suas águas entram 200 km no Oceano. É uma área rica em biodiversidade, com recifes de corais e comunidades tradicionais. 

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A Bacia da Foz do Amazonas fica localizada no extremo noroeste da margem equatorial brasileira, e faz fronteira com a Guiana Francesa. Ela abrange o litoral do Estado do Amapá e parte do Estado do Pará.

A Foz tem limite geologicamente com o platô de Demerara, que é uma plataforma continental localizada na margem passiva da Guiana e da França, no Oceano Atlântico Equatorial. A noroeste e faz limite geográfico com a Bacia do Pará-Maranhão a leste.

 Caranguejos-uçá  — Foto: ICMBio/Divulgação
Foto: Divulgação/ICMBio

Recentemente, a Foz do Amazonas tem se tornado um território de disputas e discussões nacionais. Desde 2020 a Petrobras tenta a autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para iniciar a exploração da região. Em 2023, o Instituto negou à Petrobras a licença para perfuração na Bacia da Foz do Amazonas.

Saiba mais: A dualidade da exploração de petróleo na Margem Equatorial: o que é e como afeta a Amazônia?

Foto: Inpe

Flora e Fauna 

O local tem uma rica diversidade em sua flora e fauna, como algumas espécies florestais comuns na região: mangue-branco, mangue-vermelho e mangue-negro.

Além de abrigar vários animais que estão ameaçados de extinção, entre eles: gato-do-mato, cuxiú-preto, tartaruga-verde, tamanduá-bandeira, onça-pintada, peixe-boi marinho e peixe-boi-da-Amazônia.

Onça fotografada na Estação Ecológica Maracá-Jipioca, na chamada 'Ilha das Onças-Pintadas', no Amapá — Foto: Girlan Dias/ICMbio
Foto: Girlan Dias/ICMbio

*Com informações do g1 Amapá e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

11 fatos que tornam a Reserva Florestal Adolfo Ducke importante para a ciência

Foto: Reprodução/Chico Batata

A Reserva Florestal Adolfo Ducke, localizada nos arredores de Manaus (AM), é uma das áreas protegidas mais estudadas da Amazônia.

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Criada em 1963, a reserva tem 10.000 hectares e presta homenagem ao entomologista e botânico Adolfo Ducke.

Confira algumas curiosidades sobre esse importante local de pesquisa:

1. A Reserva é considerada o maior fragmento florestal preservado dentro de uma área urbana no Brasil.

2. Localizada no bairro Cidade de Deus, oferece uma opção de contato e imersão com a natureza.

3. Faz parte da Rede de Pesquisa Ecológica de Longo Prazo (LTER), contribuindo para estudos sobre biodiversidade e fragmentação florestal.

Área verde da Reserva Florestal Adolfo Ducke se destaca no mapa. Foto: Reprodução/Google Maps

4. Contém parcelas de pesquisa permanentes que permitem o monitoramento detalhado da flora e fauna amazônica.

5. Sua localização entre as bacias do Rio Amazonas e Rio Negro permite estudos sobre diferentes ecossistemas e interações ambientais.

6. Devido à sua relativa intocabilidade e proximidade com Manaus, a reserva atrai cientistas do mundo inteiro.

7. O Museu da Amazônia (Musa) ocupa 100 hectares (1 km2) da Reserva Florestal Adolpho Ducke (do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA). Possui exposições interativas e torres de observação para apreciar a biodiversidade da floresta.

Leia também: 7 motivos para conhecer o Museu da Amazônia

Foto: Reprodução/Valter Calheiros

8. As trilhas e transectos em linha reta facilitam estudos sistemáticos de biodiversidade.

9. O Jardim Botânico Adolfo Ducke foi criado em 24 de outubro de 2000 e ocupa 5% da reserva, totalizando 5 km².

10. Suas parcelas de 25 km² estão inseridas em uma grade maior de 64 km².

11. Atualmente o espaço é administrado em parceria com o INPA e a Prefeitura de Manaus.

Arte parintinense perde mestre Jair Mendes, ícone do Festival Folclórico

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Foto: Paulo Sicsú/Divulgação

A arte parintinense perdeu o renomado artista do Festival Folclórico, mestre Jair Mendes. Ele morreu aos 82 anos, no hospital Delphina Aziz, em Manaus (AM).

A morte do artista plástico ocorreu neste sábado (15), às 12h30. De acordo com a família, ele já enfrentava problemas de saúde e estava internado há vários dias.

Legado cultural

Nascido em 12 de junho de 1942 na Ilha Tupinabarana, desde criança já integrava o grupo de brincantes do Boi Bumbá Garantido.

Aos 15 anos, Jair começou a pintar as alegorias do boi, que na época eram feitas com materiais pesados como madeira e cipó, dificultando a performance dos “tripas“.

Em 1978, com 36 anos, Jair revolucionou o Festival ao introduzir o “boi biônico”, uma versão mais leve e articulada do boi-bumbá.

O artista utilizou materiais como espuma e proporcionou movimentos mais realistas ao boi, permitindo que olhos, orelhas, cauda e boca se movessem de forma sincronizada.

Essa inovação encantou o público e elevou o nível artístico do festival, estabelecendo um novo padrão para as apresentações.

Leia também: Festival de Parintins e o impacto da rivalidade histórica dos bois Caprichoso e Garantido

Assim, ao longo de sua carreira, Jair Mendes contribuiu para ambos bois, Garantido e o Caprichoso, tornando-se referência pela habilidade em criar alegorias com movimentos realistas.

Homenagens em vida

Em reconhecimento ao seu legado, o Boi Garantido inaugurou, em abril de 2023, o ‘Espaço Mestre Jair Mendes’ no curral Lindolfo Monteverde, homenageando sua trajetória e influência na cultura parintinense.

Jair também dá seu nome à Medalha do Mérito Cultural na cidade de Parintins. Em 2023 foi homenageado pelo bumbá vermelho e branco durante a apresentação do tema ‘Garantido por toda vida’.

O atual prefeito de Parintins, Mateus Assayag, prestou homenagem ao artista em sua rede social.

“Seu legado permanecerá vivo na história e no coração de todos que celebram e valorizam a cultura amazônica, especialmente entre nossos artistas parintinenses”, afirmou Assayag.

O apresentador do Garantido, Israel Paulain, também prestou condolências.

6 combinações estranhas de alimentos típicas da Colômbia para experimentar

Fotos: Reprodução/ProColombia

Os colombianos têm orgulho de sua culinária e gostam que os visitantes experimentem um pouco de tudo, o que pode significar provar algumas combinações de comidas bem incomuns e talvez estranhas.

Que tal dar a essas combinações culinárias uma chance? Você pode descobrir um novo favorito:

Cachorro-quente e abacaxi

Os colombianos adoram um pouco de junk food, especialmente das barracas de rua que decoram a maioria das cidades colombianas depois do anoitecer. E nada é mais popular do que o humilde cachorro-quente, especialmente porque os colombianos têm um número recorde de molhos para servi-lo.

Entediados com o tradicional ketchup de tomate, maionese, rosé e mostarda, muitos optam pelo surpreendentemente delicioso molho de abacaxi.

Chocolate e queijo

Chocolate e queijo combinam como… eles combinam? Os bons cidadãos da capital da Colômbia parecem pensar assim. Chocolate e queijo são os favoritos tradicionais tanto em Bogotá quanto em outros lugares dos Andes e estão disponíveis em várias formas.

O mais popular é com pedaços de queijo macio mergulhados em uma tigela de chocolate quente fumegante, ideal para uma manhã fria andina. Sanduíches de chocolate e queijo também não são inéditos.

Canja de Galinha e Creme

Se você pensou que chocolate e queijo eram uma combinação estranha de alimentos, espere até ver o que os bogotanos fazem com sua mundialmente famosa sopa.

Esta sopa de frango e batata requer: frango, é claro; três variedades diferentes de batata; erva guascas; espiga de milho; um pouco de arroz; uma fatia de abacate e… creme. Trocar este último por creme de leite ou creme fraiche simplesmente não resolve.

Bandeja Paisa

Muitas combinações estranhas de comida no mesmo prato! Como se você precisasse de mais uma prova de que os colombianos gostam de misturar e combinar quando se trata de cozinhar, não é? Mas vamos considerar a infame bandeja paisa.

Este é certamente um dos pratos mais recheados do mundo, já que combina: carne moída, chouriço, carne de porco frita, ovo frito, morcela, feijão vermelho (cozido com carne de porco), banana-da-terra, arepa, arroz branco, molho hogao, limão e abacate. Sim, você leu corretamente. É tudo isso mesmo!

Ovo e arepa

Do distrito de café amante da bandeja paisa à costa caribenha amante de ovos e arepas. Uma das tradições culinárias é devorar uma tradicional arepa e ovo no seu café da manhã. Este saboroso lanche é basicamente um bolo de milho frito com um ovo frito dentro.

É feito fritando a arepa, ou bolo de milho, até que esteja quase pronto. Em seguida, você faz um pequeno furo e despeja um ovo cru dentro, antes de selá-lo novamente e devolver a arepa à fritadeira.

Leia também: Conheça a arepa, um alimento colombiano tradicional e versátil

Calentado

Calentado significa “aquecido” e agora você provavelmente entendeu que os colombianos não gostam de desperdiçar sua comida.

O calentado é basicamente feito combinando suas sobras, como feijão, arroz, ovos fritos, arepas, carne e chouriço.

Ao contrário da bandeja paisa, onde esses alimentos só compartilham o mesmo prato, o que pode ser misturado, é misturado. Nada faz um colombiano se sentir mais nostálgico do que isso.

*Com informações do Governo da Colômbia

Estudo mostra que indígenas tiveram papel crucial na disseminação da mandioca nas Américas

Foto: Siglia Souza

Os povos indígenas foram fundamentais para a geração de diversidade e dispersão da mandioca no continente americano, muito antes da chegada dos europeus. A conclusão é de um estudo publicado na revista Science no dia 7 de março que revela como se deu a evolução, a disseminação e o grau da diversidade genética da mandioca.

Leia também: Portal Amazônia responde: a mandioca é tóxica?

A pesquisa, conduzida por cientistas da Embrapa e de instituições dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Bolívia e Chile, analisou o genoma de 573 variedades da planta e identificou um forte parentesco genético entre elas. Segundo os pesquisadores, essa conexão foi impulsionada por práticas indígenas como a troca de variedades entre aldeias e a seleção de plantas espontâneas, garantindo a propagação de clones de alta qualidade ao longo dos séculos.

O pesquisador Fábio Freitas, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), um dos autores do estudo, explica que foram analisados os códigos genéticos de amostras de mandioca e de seus parentes silvestres, distribuídos desde os Estados Unidos até o Chile. O objetivo foi traçar um panorama da evolução da diversidade da mandioca no continente.

Amostra arqueológica de mandioca com 2 mil anos

Para isso, os cientistas recorreram a coleções de bancos genéticos, a amostras de exsicatas (parte seca e prensada contendo folhas e flores que identificam uma planta – veja imagem à esquerda) de herbários, variedades tradicionais cultivadas por povos indígenas e até a amostras arqueológicas. “Nós conseguimos sequenciar um leque muito amplo de espécies e variedades, tanto no espaço quanto no tempo. Temos amostras coletadas no ano passado, outras obtidas há mais de 100 anos e até uma amostra arqueológica com 2 mil anos”, destaca Freitas.

Segundo o pesquisador, a mandioca foi domesticada há mais de seis mil anos na borda sul da Amazônia, em uma área que hoje abrange os estados do Acre e de Rondônia. Dali, espalhou-se por todo o continente e além desse. Mas, diferente do que é normalmente encontrado em espécies de propagação sexual por sementes, como o milho, em que é possível identificar linhas evolutivas, para a mandioca isso não foi percebido. No milho as variações genéticas se aprofundam quanto mais distantes geograficamente as amostras estão do seu centro de origem, diferentemente do que foi registrado nesse estudo.

“Na mandioca, toda a diversidade existente entre as diferentes amostras estão mais ou menos espalhadas de forma uniforme, independentemente do quão distantes estão da borda sul da Amazônia, de onde saíram as primeiras populações domesticadas”, ressalta. “É como se todas as plantas fossem parentes muito próximas, muitas das quais como mãe e filha. Por exemplo, comparamos uma amostra coletada em Cuba, em 1904, e constatamos que, geneticamente, ela é filha de outra planta coletada na Amazônia, em 1961. Isso mostra como a dispersão dessa cultura, promovida pelos povos indígenas e, ao mesmo tempo, a manutenção de determinadas variedades geração após geração, foi extremamente eficiente ao longo dos séculos”, explica.

Diversidade genética e cultura indígena

Para entender como isso aconteceu, é preciso conhecer um pouco essa cultura. A mandioca é propagada predominantemente por clonagem, ou seja, novos cultivos são formados a partir de pedaços da planta original, chamados manivas, sem a necessidade de sementes. Isso quer dizer que plantas com o mesmo código genético podem ser cultivadas durante anos. Esse tipo de reprodução traz muitas vantagens, mas poderia levar à perda de diversidade genética pelo acúmulo de mutações deletérias (uma alteração no DNA que pode diminuir a capacidade reprodutiva e de adaptação de um organismo), no entanto, a pesquisa revelou que a mandioca manteve uma variabilidade surpreendente ao longo do tempo.

Isso ocorre porque a mandioca apresentou um nível de heterozigosidade acima do esperado (até mesmo maior do que a espécie silvestre). Isso quer dizer que uma mesma planta pode ter variação genética entre os dois alelos do mesmo gene contidos nos pares de cromossomos homólogos, mesmo sendo clonada. Ou seja, um clone, às vezes pode apresentar a característica herdada pela planta mãe e outras vezes pelo pai. Esse fator funciona como um “buffer” genético, uma espécie de seguro natural que protege a cultura de mutações prejudiciais e a torna mais resistente a mudanças ambientais, como seca, pragas ou solos pobres.

Além disso, práticas tradicionais das comunidades indígenas contribuíram para a preservação e ampliação da diversidade genética da mandioca. Um exemplo disso é a Casa de Kukurro, uma tradição do povo Waurá, habitantes do Território Indigena do Xingu, no estado de Mato Grosso. Parte do ritual consiste em reunir todas as variedades de mandioca em dois montes ou covas a cerca de 40 metros um do outro, acreditando-se que essa prática fortalece a energia das plantas. Na prática, a Casa de Kukurro permite o cruzamento de diferentes variedades, promovendo o surgimento de novas plantas, essas de forma espontânea, por semente, as quais são avaliadas, selecionadas e, se aprovadas, incorporadas na coleção de variedades de mandioca que já possuem.

Na aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu, o agricultor Tapaiê Waurá (foto à esquerda) realiza esse ritual sempre que abre um novo campo de cultivo de mandioca. Em 2018, o evento foi registrado pela primeira vez em vídeo pelo pesquisador Fábio Freitas e pelo videomaker Celso Viviani, da produtora Rentalpix. Voltaram à aldeia em 2019 para acompanhar a colheita e a seleção de novas variedades. O material resultou no documentário Casa de Kukurro, disponível no YouTube.

Mais do que um ritual, a Casa de Kukurro representa uma estratégia eficiente de melhoramento genético da mandioca. “Essa tradição do povo Waurá funciona como um banco genético que permite não apenas a conservação das variedades que já possuem, mas também estimula o surgimento de novas variedades e a ampliação da diversidade da cultura no local. Os povos tradicionais multiplicam e selecionam novos materiais, mantendo aqueles que apresentam características agronômicas, culturais e nutricionais de interesse para a aldeia”, explica Freitas.

Esforço histórico de coleta garante resultados

Os resultados do estudo só foram possíveis graças a um esforço histórico da pesquisa agropecuária na coleta e análise de amostras de espécies silvestres do gênero Manihot e de variedades da espécie cultivada. O sequenciamento de 573 genomas foi viabilizado pela ampla diversidade das coleções de mandioca da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, da Embrapa Cerrados e da Embrapa Mandioca e Fruticultura, que reúnem plantas de diversas procedências geográficas e coletadas ao longo de um extenso período.

“Diversos pesquisadores e técnicos trabalharam e ainda pesquisam há décadas esse gênero, que hoje é preservado em bancos de conservação (foto abaixo) espalhados por diferentes Unidades da Embrapa, além de coleções de DNA e herbários”, conta Freitas. O herbário da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, por exemplo, abriga a maior coleção de amostras de parentes silvestres da mandioca.

Na visão do pesquisador, o aprofundamento do estudo sobre a história evolutiva e a diversidade da mandioca permitirá compreender melhor suas características e, assim, aprimorar estratégias de conservação e melhoramento da espécie.

Câmara fria da Embrapa Mandioca e Fruticultura, onde plantas de mandioca são conservadas e utilizadas em pesquisas de melhoramento genético Foto: Léa Cunha

Pesquisa abre novas perspectivas para o melhoramento genético da mandioca

A diversidade presente nos bancos de sementes do solo e a seleção de variedades espontâneas têm sido fundamentais para gerar novos genótipos (indivíduos que, após cruzamentos, podem se tornar variedades).

“O estudo demonstrou que o cultivo tradicional da mandioca pode fornecer informações valiosas para o desenvolvimento de novos clones superiores e abre amplas possibilidades para a seleção de combinações parentais que maximizem a variância e a média de atributos agronômicos importantes”, explica Éder Jorge de Oliveira, pesquisador e melhorista da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA), centro que contribuiu com dados genéticos de sua coleção de trabalho e com análises prévias da diversidade da mandioca.

A ênfase na diversidade genética também pode ser essencial para enfrentar desafios emergentes, como a vassoura de bruxa, recentemente identificada no estado do Amapá. “A conservação de genótipos geneticamente diversificados pode facilitar a identificação de genes de resistência, permitindo o desenvolvimento de cultivares mais tolerantes a essa e outras ameaças”, explica Oliveira.

A Embrapa Cerrados, por sua vez, levou ao estudo materiais provenientes cultivados e preservados há gerações por comunidades da região do Cerrado, além de acessos de melhoramento genético com características distintas, como variações na cor da polpa e da raiz, resistência a pragas e doenças, diferenças nos teores de ácido cianídrico e variedades de mandioca açucarada, entre outras.

“A ideia era que, com essa base, pudéssemos estudar a diversidade genética da mandioca de forma mais ampla”, destacou o pesquisador Eduardo Alano, que também assina o artigo. 

Alano faz parte da equipe que atua no programa de melhoramento genético da mandioca para as condições do Cerrado brasileiro e tem como base genética o banco de germoplasma da Unidade, que atualmente conta com 300 acessos representativos da diversidade genética da cultura no bioma. “Para o estudo, buscamos fazer uma amostragem da melhor forma possível para representar a diversidade genética do nosso banco de germoplasma”, explicou.

Para ele, os resultados obtidos são extremamente valiosos, pois permitem avanços mais rápidos no programa de melhoramento genético. “Esse conhecimento nos ajuda a entender o passado, compreender o presente e projetar o futuro da cultura da mandioca. Esse tipo de trabalho é essencial para isso”, ressaltou. 

Povos indígenas foram fundamentais para a geração da diversidade que atualmente encontramos na mandioca. Foto: Celso Viviani

Você comeria um clone?

A resposta é sim! Todos os dias, consumimos clones sem perceber. Mas esqueça os filmes de ficção científica ou a novela O Clone, da Rede Globo. Na ciência, um clone nada mais é do que uma cópia genética exata de um organismo, ou seja, um ser vivo com o mesmo DNA do original.

Foto: Léa Cunha

A clonagem é extremamente comum no reino vegetal. Muitas espécies, como batata, banana, abacaxi e mandioca, são cultivadas a partir de pedaços de suas próprias estruturas, como caules ou raízes. No caso da mandioca, planta-se um pedaço do caule, a maniva (foto à direita), de onde nascem novas plantas geneticamente idênticas à original.

Essa reprodução por clonagem tem vantagens para a agricultura, pois garante uma produção padronizada e previsível. No entanto, a falta de diversidade genética pode ser um risco: se todas as plantas forem idênticas, uma doença ou outra condição adversa pode devastar uma plantação inteira.

A mandioca, no entanto, desafia essa lógica. O estudo publicado na Science demonstrou que essa cultura manteve uma diversidade genética surpreendente graças ao seu alto grau de heterozigosidade. Isso significa que, mesmo sendo clonada, a mandioca possui diferentes alelos em seus genes em cada planta, tornando-a mais resistente a doenças, pragas e variações ambientais.

Saiba mais no artigo ‘Historic manioc genomes illuminate maintenance of diversity under long-lived clonal cultivation‘.

19 Instituições de oito países participaram do estudo:

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa

Vídeo: Puma é avistado no Parque Nacional Serra do Divisor em Loreto, no Peru

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A conservação de puma em áreas como o Parque Sierra del Divisor é vital para manter a saúde do ecossistema amazônico. Foto: Reprodução/Sernanp

Durante um exercício de monitoramento de rotina da flora e fauna no Parque Nacional Serra do Divisor (PNSDV), na região de Loreto, no Peru, um puma ou onça-parda (Puma concolor) foi avistado no setor Cashioya, refletindo a rica biodiversidade deste ecossistema amazônico.

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Capturado em vídeo e fotografias pelos guardas florestais, este momento reflete o trabalho duro e marca um avanço significativo nos esforços de conservação do parque.

“Foi um momento mágico que reafirma nossa missão de proteger este ambiente natural “, disse Erick Gutiérrez Holguín, um dos guardas do parque.

Este não é o primeiro registro desta espécie. Em 2023, sua presença foi registrada em diversas áreas durante o monitoramento biológico. Em 2024, armadilhas fotográficas em zonas de regeneração no setor Callería documentaram tanto o puma quanto a onça-pintada (Panthera onca), destacando a necessidade de proteger áreas degradadas.

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Predador de topo

A presença do puma, como predador de topo, é um indicador do estado de conservação do parque, que se mantém em 99,97%, dados que refletem os esforços contínuos das autoridades ambientais.

Este registro simboliza o comprometimento coletivo dos guardas florestais, que trabalham para proteger esse patrimônio natural.

“Isso nos motiva a continuar trabalhando para conservar a biodiversidade, demonstrando que nossos esforços estão dando frutos”, acrescentou Gutiérrez.

*Com informações da Agência Andina