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Com acervo de 20 mil itens, Arquivo do Museu Goeldi apresenta pesquisas em coleções documentais

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Foto: Daniel Magno/ MPEG

Com um acervo de mais de 20 mil documentos, o Arquivo Guilherme de La Penha, mantido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), aderiu à 10ª Semana Nacional de Arquivos, entre 8 e 12 de junho. Para marcar a data, será realizada a mesa-redonda “Novos olhares sobre os arquivos: gênero, raça e etnia”, nesta terça-feira (9), das 9h às 12h, no Auditório Paulo Cavalcante, no Campus de Pesquisa do MPEG, em Belém (PA).

O evento se conecta com o tema proposto pelo Arquivo Nacional, “Arquivos, democracia e justiça social”, e traz temáticas atuais relacionadas a pesquisas em coleções documentais, como a mantida pelo Museu Goeldi.  

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O Arquivo Guilherme de La Penha integra a estrutura do Serviço de Arquivo e Memória (Searm), vinculado à Coordenação de Comunicação e Extensão (Cocex) e chefiado pela jornalista e doutora em museologia Lílian Bayma de Amorim. Ela será uma das participantes da mesa-redonda junto aos pesquisadores Nelson Sanjad, Márcio Couto Henrique, Iane Maria Batista, Cássia Moraes e Emílio Ribeiro, vinculados ao Museu Goeldi e à Universidade Federal do Pará (UFPA).

“A semana é um evento promovido pelo Arquivo Nacional, ao qual o Museu Goeldi aderiu, cadastrando como evento, este ano, a mesa-redonda. Nossa proposta é dar um enfoque maior na divulgação de pesquisas sobre esse olhar do arquivo como um lugar de pesquisa histórica relacionada a gênero, raça e etnia”, disse Lilian Bayma.

Não haverá inscrição prévia para o evento. O acesso é liberado a qualquer pessoa interessada, bastando que se identifique na portaria do Campus, apresentando documento de identificação.

Democratizando o acervo

Em relação à aderência da atividade e do cotidiano do Arquivo Guilherme de La Penha ao tema nacional, Lilian Bayma ressalta o caráter democrático do setor, que está acessível para consultas da população, sendo mantidos os cuidados necessários para a conservação do acervo. “Está aberto a estudantes de nível médio, universitários e demais pesquisadores que queiram fazer pesquisa na região amazônica. Nós temos um acervo enorme sobre trabalhos desenvolvidos na região e fazemos essa abertura para toda a sociedade”, disse.

Lilia Bayma consulta um dos 1420 negativos de vidro da coleção fotográfica. Foto: Daniel Magno/MPEG

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Nelson Sanjad, curador das coleções documentais históricas do Museu Goeldi, ressalta que a política de acesso da instituição também inclui a visibilidade a coleções pouco conhecidas:

“Temos, atualmente, uma política bem definida no sentido de adquirir, conservar e incentivar pesquisas em coleções documentais relacionadas a povos indígenas, populações tradicionais e mulheres. Estamos, por exemplo, organizando coleções especiais relacionadas a uma pioneira da ciência amazônica, Emília Snethlage, e a um dos poucos indígenas que deixaram um arquivo pessoal, o Sabino Munduruku”.

Na Brasiliana Fotográfica

Ainda em relação à democratização do arquivo do Museu Goeldi, Lilian lembra que parte do acervo fotográfico já está na Brasiliana Fotográfica, ao alcance de qualquer pessoa que tenha acesso à internet.

A instituição de pesquisa foi a 15ª a aderir à plataforma, no final do ano passado, sendo a primeira da Amazônia a manter acervo nesse ambiente digital. No início deste ano, foi lançado um álbum sobre a cidade de Belém (em comemoração ao aniversário da cidade).

Logo depois, foi divulgada, dentro da série “Feministas, graças a Deus”, o álbum sobre Emília Snethlage, ex-diretora do Museu Goeldi, acompanhado do artigo Uma alemã que amava a Amazônia, do historiador Nelson Sanjad. 

Consulta presencial

Quem desejar pesquisar no acervo do Arquivo Guilherme de La Penha deve solicitar o agendamento da visita direto no Searm, por meio do e-mail arquivo@museu-goeldi.br. A pessoa deve dar informações básicas sobre o que deseja pesquisar, como tema, período, tipo de documentação.

O Searm faz uma busca no acervo e, caso exista o material solicitado, faz o agendamento da consulta presencial. De acordo com a chefe do setor, Lilian Bayma, há um esforço para digitalizar documentos, de maneira a torná-los mais acessíveis e também para garantir a preservação do acervo. “Em casos específicos, como quando a solicitação é de pesquisadores do exterior, digitalizamos o documento e enviamos”, disse. 

Um dos 1420 negativos em vidro que integra o acervo do Arquivo Guilherme de La Penha. Foto: Daniel Magno/MPEG

Fragmentos de uma memória de quase 160 anos

Pela capacidade de reunir diferentes materiais e temas, o acervo tem sido fonte para diversas pesquisas científicas, jornalísticas e educativas. O acervo de mais de 20 mil itens – entre documentos institucionais, cartas e imagens reproduzidas em papel, fototipias, diapositivos (slides), contatos e fotos digitais, em negativos de vidro e flexíveis – guarda fragmentos de uma história de quase 160 anos do Museu Goeldi, criado em 1866. Além disso, o acervo extrapola o caráter institucional, reunindo uma memória do processo de institucionalização da ciência na Amazônia, suas cidades, paisagens e habitantes. 

O servidor técnico Pablo Borges, formado em administração com especialização na área arquivística, é uma das pessoas que trabalham no arquivo. Ele explica que o Arquivo Guilherme de La Penha exerce a função de um arquivo central dentro da instituição, responsável pela implementação da gestão documental no MPEG (arquivos corrente e intermediário – documentos institucionais em uso), além de guardar o arquivo permanente (a coleção histórica).

Mas nem sempre foi assim. Pablo Borges lembra que o arquivo, durante os primeiros anos da instituição, era um local de apoio à administração que fazia a guarda dos documentos administrativos. A documentação tem sido guardada desde os anos 1890, mas só veio a receber um tratamento arquivístico na década de 1980. Foi nesse momento que, segundo o técnico, o então diretor Guilherme de La Penha começa a estruturar o espaço como uma unidade de documentação que passa a, além de dar um apoio à administração, servir como apoio à pesquisa científica.

Além de servidores capacitados no campo arquivístico, o setor ganha um novo status, passando a ser um departamento no organograma da instituição e não mais apenas uma sala que guarda documentos administrativos (arquivo corrente). Pela quantidade de registros históricos mantidos durante décadas, nota-se que havia um trabalho de documentar a memória da instituição. No entanto, a preocupação com a preservação dessa memória nos moldes atuais se manifestou a partir da gestão de Guilherme de La Penha e, por isso, o arquivo recebeu o seu nome.

No caso da coleção fotográfica, Pablo informa que ela ganhou destaque com a chegada de Emílio Goeldi ao museu.  “Algumas fotografias foram tiradas pelo próprio Goeldi, outras por Jacques Huber. Em 1897, Goeldi contrata um profissional da área, o fotógrafo alemão Ernst Lohse. Então, a partir daí, há vários registros fotográficos, tanto do entorno da cidade, quanto das atividades que eram desenvolvidas no Museu. Hoje, parte desses registros estão salvaguardados aqui no arquivo, e compõe a coleção fotográfica”, disse.

De acordo com o servidor do Arquivo, a coleção fotográfica inclui 1.420 negativos em vidro, que era a tecnologia usada entre final do século XIX e meados do século XX. Eles tratam de diversos temas.

“Nós temos registros da cidade de Belém, registros das coleções científicas, do Parque Zoobotânico, em diversas ocasiões, entre outros. Hoje o Arquivo Guilherme de La Penha, é um dos serviços do Museu Goeldi que salvaguarda uma das coleções científicas da instituição, que são as coleções históricas documentais. Além da gestão de toda a documentação institucional, nós temos o compromisso de preservar essa documentação e de trabalhar na divulgação desse acervo”, ressaltou.

*Com informações do Museu Paraense Emilio Goeldi

De pacu à dourado: conheça a peixaria de Roraima que tem cardápio formado de acordo com a pesca do dia

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Peixes são escolhidos pelos clientes no Bar da Rosinha. Foto: Tiago Côrtes/Rede Amazônica RR

Dos saberes tradicionais indígenas e da relação construída ao longo da vida com os rios, Rosinete de Oliveira, de 54 anos, conhecida como Dona Rosinha, garante renda. Há quase dois anos, ela transformou a paixão por peixe e a confiança no que o rio Branco oferece em um empreendimento: o Bar da Rosinha, às margens do principal rio de Roraima.

Localizado no bairro Jardim das Copaíbas, zona Oeste de Boa Vista, no Bar da Rosinha, a principal atração não são as bebidas, mas os peixes fritos feitos no fogão à lenha. É como se o rio definisse o cardápio, já o cliente escolhe o peixe que vai comer entre as espécies disponíveis no dia.

Pratos dependem da pesca do dia e custam a partir de R$ 25. Foto: Tiago Cortês/Rede Amazônica RR

Ela compra os peixes de pescadores que trabalham na região. Depois, limpa, corta, empana, frita e serve ao cliente com baião, farofa, vinagrete e molho caseiro das pimentas cultivadas pela própria Rosinha. A refeição é feita debaixo das mangueiras e com a vista das águas que banham Roraima. A sensação é de estar em um sítio no interior, mas sem sair da cidade.

“Sempre varia [os peixes], é aquilo que Deus dá. Às vezes vem pacu, cabeça gorda, branquinha. Vem peixe de pele também, como por exemplo, dourado, surubim e até sardinha”, conta Rosinha.

O preço da comida também varia conforme o peixe escolhido e depende do quanto ela pagou aos pescadores. A partir disso, a refeição é negociada a partir de R$ 25. Atualmente, o bar recebe uma média de 200 clientes por fim de semana, realidade bem diferente de 2024, quando começou. Para Rosinha, o segredo para atrair tantos clientes está na simplicidade do negócio.

“No primeiro dia, trouxe só uma caixa de isopor, coloquei debaixo da mangueira e coloquei para vender, sem ninguém. Estava só mato, tudo sujo, mas consegui vender um pouco e me animei. Não são essas comidonas difíceis. É o mais simples do simples, é isso. E isso é maravilhoso”, lembra Rosinha.

Leia também: Conheça alguns peixes que não podem faltar na mesa do amazônida

Peixes, cerveja e música

A ideia surgiu do desejo de oferecer às pessoas aquilo de que ela gosta: comer peixe frito, beber cerveja e escutar forró.

“Não achei que daria esse tanto de gente querendo. Se eu soubesse tinha colocado há mais tempo. Todo mundo quer comer um peixe frito na lenha”, disse.

A proposta em que o próprio cliente escolhe qual peixe quer comer nasceu de forma espontânea. “Comecei a colocar os peixes e as pessoas perguntavam o que tinha e levava a pessoa para escolher. O carro chefe é a matrinxã e outros peixes pequenos, tipo as piabas.”

Assim como Rosinha, outras 26 mil mulheres comandam o próprio negócio em Roraima. O número representa 30% dos 86 mil empreendimentos formalizados no estado, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Rosinha trabalha no estabelecimento ao lado das filhas, do marido, das irmãs e de outros familiares. Ela conta que o momento mais gratificante é quando entrega o prato ao cliente. “Gosto de montar meus pratos e entregar para que a pessoa primeiro coma com os olhos. Depois, encha a barriga”, diz.

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Toda a família da Rosinha contribui para o funcionamento do bar. Foto: Rosinete de Oliveira

Experiências e desafios

Mesmo localizado dentro da cidade de Boa Vista, no Bar da Rosinha o sinal de telefone oscila e nem sempre funciona. O trajeto para chegar lá é sem asfalto e a energia elétrica é fornecida por um gerador. Mas isso não é um problema para ela. Pelo contrário, faz parte do que torna o local diferente dos convencionais.

“Empreendimentos que contam histórias verdadeiras conseguem se conectar mais com as pessoas. Esse modelo de negócio está crescendo, e essas características naturais e regionais não podem ser vistas em outro lugar, apenas no bar da Dona Rosinha”, avalia a gestora de projeto Trade Turístico do Sebrae em Roraima, Kamyla Brasil.

Além disso, manter um empreendimento nesses moldes requer capacidade de adaptação, por enfrentar desafios que estão fora de controle. Sobretudo, ao depender da natureza, como avalia Kamyla.

“Empreender com produtos que dependem da natureza exige uma capacidade de adaptação maior que os negócios tradicionais, porque ela precisa lidar com fatores que estão fora do controle, como por exemplo, o clima, período de reprodução das espécies e até se o rio está cheio ou seco”, destacou.

Ela explica ainda que o modelo de gestão de negócio da Rosinha é uma inovação que valoriza mais a experiência do que o produto final, o que acaba sendo valorizado pelo mercado.

“A clientela busca exatamente aquilo que ela oferece alí. Ela transformou a experiência em exclusividade, ao aproximar o consumidor da cultura local, da atividade pesqueira e dos saberes tradicionais [indígenas], que não depende de tecnologia, mas dos elementos do território”, explicou.

No Bar da Rosinha o cliente escolhe entre os peixes disponíveis na pesca do dia. Foto: Tiago Côrtes/Rede Amazônica RR

Raízes indígenas

Rosinha é indígena do povo Macuxi. Foto: Rosinete de Oliveira

Nascida em Bonfim, no Norte de Roraima, Dona Rosinha é indígena do povo Macuxi e cresceu às margens do rio Tacutu. Ainda criança, mudou-se com a família para Boa Vista para estudar. Anos depois, já casada e mãe de quatro filhos, decidiu retomar a conexão com a natureza e transformou esse desejo no Bar da Rosinha.

“Como a gente gosta de estar pescando, estar na beira do rio pegando peixe, por que normalmente quem é indígena gosta de estar na beira de rio, viemos para o bairro Jardim das Copaíbas. Daí, tivemos acesso ao rio”, afirmou.

O Bar da Rosinha também pode ser classificado como parte do turismo gastronômico por colocar o alimento no centro da motivação da viagem. Mesmo localizado na capital, o bar fica longe do centro turístico tradicional e é uma alternativa para quem busca conhecer manifestações culturais genuinamente roraimenses.

O início de tudo

Rosinha vendia na praia, junto com a família. Foto: Rosinete de Oliveira

No Jardim das Copaíbas, começou com um comércio em que vendia churrasquinho e dindin na praia que, na época, formava na margem do rio. Até que a matriarca da família, Deolinda de Oliveira decidiu morar na região.

“Quando ela e meu pai chegaram aqui, começaram a pescar para a própria alimentação e vendiam um pouco. Passaram a morar aqui, construíram uma casinha e ficaram”, destacou.

Rio dita o cardápio de peixes

No verão, quando o rio está baixo, todo o espaço do bar é utilizado pelos clientes. Já no inverno amazônico, com a cheia do Rio Branco, Rosinha guarda mesas e cadeiras para evitar que sejam levadas pela água, e o atendimento passa a ocorrer por agendamento, já que o acesso é feito apenas por canoas.

O Rio Branco influencia não apenas o cardápio, mas também o abastecimento do empreendimento. Na seca, Rosinha compra os peixes de pescadores da região. Durante o período do defeso, o fornecimento vem de criadores de tanques.

Saiba mais: Saiba quais peixes amazônicos são mais ricos em ômega 3, 6 e 9

peixes
Peixes são comprados de pescadores da região. Rosinha limpa, corta, empana, frita e serve aos clieintes. Foto: Tiago Côrtes /Rede Amazônica RR

Rosinha diz que conduzir o bar é estar perto do que sempre gostou: da família, do rio e da natureza. “É uma satisfação imensa Deus ter me dado essa oportunidade de morar na beira do rio, sempre quis isso. Comer sempre um peixe fresco e estar em contato com essa natureza maravilhosa vendo esse rio passar”, afirmou.

Lá, os peixes servidos dependem da pesca do dia e o ritmo das águas continua a definir o funcionamento do negócio que, genuinamente, pertence ao território roraimense.

*Por Tiago Côrtes, da Rede Amazônica RR

O Caso Agenor: “Isso que dá defender pobre”

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Agenor de Carvalho, o advogado assassinado em Porto Velho. Foto: Reprodução

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Naquela noite quente de 9 de novembro de 1980, Porto Velho estava em festa. As luzes brilhavam no jantar de eleição do diretório regional do PDS, o partido do governador Jorge Teixeira. A música alta, a cerveja à vontade e as risadas criavam uma atmosfera de celebração e poder.

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Mas, enquanto os convidados brindavam, um acontecimento sombrio pairava sobre a cidade. Poucas horas antes, o secretário-geral do partido de oposição (o PMDB) havia sido brutalmente assassinado. A notícia se espalhou rapidamente, mas não foi suficiente para interromper a festa dos governistas. Estava sinalizado o desprezo pelas causas que a vítima representava.

Agenor Martins de Carvalho é, hoje, um nome emblemático na luta pelos direitos dos sem-teto e dos sem-terra. Conhecido como o ‘advogado dos pobres’, o goiano de Porangatu — cidade do norte de Goiás, às margens da rodovia Belém-Pará — chegou a Rondônia no começo da década de 1970 e foi morto a tiros às 4h30 daquele domingo.

Agenor de Carvalho, o advogado assassinado em Porto Velho. Foto: Reprodução
Agenor de Carvalho, o advogado assassinado em Porto Velho. Foto: Reprodução

Ainda jovem, com 34 anos, aparentava mais idade devido ao jeito sóbrio e compenetrado de levar a vida, ao vasto conhecimento que possuía e às responsabilidades de ser pai de três filhos. Ele estava em sua casa, na rua Júlio de Castilhos, no centro de Porto Velho, dormindo com a esposa, quando foi chamado à porta. Ao atender, levou um tiro certeiro no coração, disparado por uma arma calibre .32 duplo. A perícia apontou o uso de ‘bala de barão’, um projétil de metal bastante caro para a época. Agenor morreu a caminho do hospital.

O caso ganhou repercussão na imprensa nacional e seu nome ficou marcado na história. Atualmente, um bairro, uma rua e um presídio levam o nome de Agenor de Carvalho na capital rondoniense. Ele também era político e despontava como pré-candidato a deputado federal para as eleições de 1982. Por essa razão e por convicção, atendia a tantos necessitados gratuitamente.

O corpo foi transladado para Goiás. No aeroporto de Porto Velho, centenas de pessoas se reuniram para o embarque do féretro, em uma última e emocionante homenagem. O jornalista Eurípedes Cleiton notou quando um homem simples, de cabeça baixa, comentou tristemente: ‘Isso que dá defender pobre’.

Título de um texto publicado no jornal “Movimento” (RJ), por José Neumar da Silveira, assessor da Contag em Rondônia. Imagem: Reprodução

Demandas ganhas

O advogado atuava em causas coletivas de reintegração de posse. Ele defendia mais de 900 famílias de sem-teto da capital contra a imobiliária Empreendimentos da Amazônia S/A, de Carlos Figueiredo e Francisco Fernandes Sorviersoki — que haviam mandado derrubar palhoças e expulsar moradores em uma área entre as avenidas Sete de Setembro, Rio de Janeiro e Rio Madeira (atual Chiquilito Erse).

Agenor conseguiu a reintegração em Brasília, no Supremo Tribunal Federal (STF), por um placar unânime de 7 a 0. Diante da derrota, Figueiredo e seu sócio, conhecido como ‘Chico da Coringa’, ficaram revoltados.

A atuação de Agenor estendia-se ao interior do estado, ao longo da BR-364, onde atuava como assessor jurídico da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). Em Cacoal, no ano de 1978, ele recebeu ameaças de morte do pistoleiro José Joaquim dos Santos, o “Zé Bahia”.

O criminoso comandava um grupo de jagunços a serviço do Condomínio Bonanza (de Lins/SP) na Gleba Prosperidade — área que hoje fica dentro do perímetro urbano de Cacoal. Eles haviam expulsado 55 famílias de colonos do local, que ainda estava em processo de demarcação pelo Incra. Mais uma vez, a Justiça determinou que a terra pertencia aos posseiros. Negligência das autoridades

Agenor de Carvalho, o advogado assassinado em Porto Velho. Foto: Reprodução

Leia também: Caso Delmo: Relembre o crime que chocou o Amazonas

À medida que ganhava reputação como um defensor combativo, Agenor acumulava a antipatia de pessoas poderosas. Antes do golpe fatal, ele já havia sido alvo de outros atentados. Em 1975, registrou a primeira ocorrência após ter seu carro alvejado; as suspeitas recaíram sobre José Milton Rios.

Na época, Agenor denunciou os episódios à OAB e declarou ao Jornal do Brasil que a Secretaria de Segurança Pública agia com total negligência: “Fazem vistas grossas às ações de milicianos e assassinos que atuam nas áreas de conflitos agrários, dando a entender que Rondônia é uma terra sem leis. Além do mais, os chefes de polícia têm demonstrado animosidade em relação a mim”.

Em 1976, ele representou contra o comandante da Polícia Militar, coronel Ivo Célio da Silva, por abuso de autoridade no despejo de cem famílias na fazenda de Fernando Iberê, na comunidade de Abaitará, em Pimenta Bueno. No Parque Aripuanã, também em Pimenta Bueno, Agenor defendeu 156 famílias despejadas pela Funai de uma reserva indígena devidamente demarcada. Neste caso específico, a Funai venceu a demanda no STF, pois a terra pertencia, de fato, à comunidade originária.

Conluio

O estopim para a morte do advogado foi um conluio liderado pelo cearense José Milton de Andrade Rios. Homem violento, Rios já havia determinado, em 1968, o massacre de dez indígenas Cintas-Largas próximo ao Rio Roosevelt durante uma pesquisa mineral — um processo que acabou esquecido pela Justiça e pelo qual ele nunca foi punido.

O conflito com o advogado se acirrou quando Agenor o denunciou por manter um arsenal de armas de grosso calibre, de uso restrito das Forças Armadas, no Seringal Muqui (atual município de Presidente Médici). Descontrolado ao ser confrontado, Rios decidiu eliminá-lo.

O seringalista e latifundiário utilizava seu poder bélico e o apoio de jagunços para expulsar pequenos agricultores do Seringal Muqui. A maioria das 250 famílias locais já possuía documento de posse emitido pelo Incra e sobrevivia da agricultura familiar, cultivando café, mandioca e feijão. Rios, no entanto, pleiteava 21 mil hectares daquela área para si.

Na época, o lendário capitão Sílvio Gonçalves de Farias, peça fundamental nas políticas agrárias do território, era o coordenador regional do Incra. Provocado pelas ações jurídicas de Agenor, o capitão Sílvio também se tornou um estorvo para José Milton Rios ao priorizar o cronograma técnico de distribuição de terras para quem nelas trabalhava, rejeitando as investidas do latifundiário.

As ações de Agenor surtiam efeito real, e isso selou o seu destino. Rios e Figueiredo uniram-se e contrataram, na região de Ji-Paraná, o pistoleiro que executaria o advogado. Posteriormente, todos os envolvidos foram condenados, e os mandantes foram obrigados a indenizar a viúva e os três filhos por danos morais.

Ulysses e CEB’s

O assassinato repercutiu na política nacional. O presidente nacional do PMDB, deputado federal Ulysses Guimarães, denunciou o crime e exigiu uma investigação rigorosa. Na imprensa, sobravam críticas ao governo federal, acusado de estimular o fluxo migratório para a região sem estruturar o Incra para receber os novos contingentes. O crescimento demográfico desordenado agravava os conflitos agrários, a violência urbana e a degradação ambiental.

Em 1980, Rondônia contava com cerca de 600 mil habitantes. Posseiros, indígenas, garimpeiros e representantes de colonizadoras disputavam o território “na base da bala” — um cenário de desvantagem crônica para as parcelas mais vulneráveis. Em meio às tensões sociais, a Igreja Católica também desempenhou um papel central por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), oferecendo forte apoio às causas defendidas por Agenor.

Leia também: Ashmead e Merrill: os fotógrafos da estrada de ferro Madeira-Mamoré

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista.

Coletivo do Amapá transforma biodiversidade em moda e leva produção ao cenário nacional

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Material dos artistas ficaram expostos no Sebrae durante o 10º Modamazon. Foto: Mariana Ferreira/Rede Amazônica AP

O reaproveitamento de recursos da biodiversidade da Amazônia vira matéria-prima para a moda autoral de artistas do coletivo amapaense Modamazon. Com peças que valorizam traços regionais, as produções ganham destaque no cenário nacional e mostram que a moda vai muito além do mercado financeiro de luxo.

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O projeto criado em 2018 reafirma raízes ancestrais e promove o reconhecimento da identidade amazônica por meio do vestuário. Participam estilistas, designers de acessórios e artesãos.

Em cada peça há um pouco do Amapá: sementes colhidas na mata viram colares, caroços de açaí se transformam em detalhes de roupas, e símbolos do Norte — muitas vezes alimento — passam a vestir e dar cor às criações cheias de personalidade e estilo.

O estilista Driko Peixoto, criador do coletivo, define a moda como ato de amor e representatividade. Para ele, a troca entre artistas e floresta materializa uma união que carrega mais que o potencial da economia criativa: é a moda como ferramenta de valorização cultural.

“A gente precisa cuidar para que sempre exista. Nossa moda é quase 100% artesanal, já que o Estado não é industrializado. Boa parte dos processos é manual, incorporando sementes e fibras. Trabalhamos com o que a natureza nos oferece, e disso surgem experimentos que viram produtos grandiosos, com valor agregado imensurável”, disse Peixoto.

A produção marcada pelo trabalho manual, deixa o resultado, muitas vezes mais caro, porém garante exclusividade: cada peça é única. Esse é um dos desafios dos profissionais: firmar marcas e conquistar valorização.

Leia também: Moda com insumos da floresta é transformada em estratégia de geração de renda no Amazonas

Coletivo do Amapá transforma biodiversidade em moda e leva produção ao cenário nacional
Desfile da 10º Modamazon no Amapá. Foto: Divulgação/Modamazon

“Nosso produto sai 50% mais caro que o do Sul e Sudeste. Temos desafios com matéria-prima, pois não trabalhamos apenas com recursos da natureza. Precisamos de outras superfícies que muitas vezes não encontramos aqui, e isso encarece o produto”, explicou Driko.

São vestidos, colares, bolsas e sapatos com a identidade do Amapá. As cores e traços dão forma a sonhos de profissionais que começam pequenos, enfrentam dificuldades, mas conquistam espaço em passarelas nacionais, como a Brasil Eco Fashion Week, referência em moda sustentável.

“O Norte é muito rico nessa perspectiva. Desde sempre evidenciamos isso, descentralizando eixos e trazendo as nuances da região”, destacou Daniel Mendes, diretor de relacionamento do evento.

O caminho até a estruturação dos profissionais conta com apoio do Sebrae. Segundo a gestora de projetos Larissa Queiroz, o Amapá tem cerca de 3.400 profissionais da moda autoral cadastrados.

“Começamos com o básico, ajudando na formalização. Quando o profissional amadurece, buscamos mercados, como feiras e rodadas de negócios, que são ações fundamentais”, afirmou Larissa.

Do ateliê para as passarelas no Amapá

Em 2026, o Modamazon celebrou sua 10ª edição, expandindo horizontes e dando visibilidade à moda sustentável. O coletivo recebeu mais de 400 inscrições de modelos. A diversidade é um dos diferenciais: na passarela, pessoas negras, PCDs e idosos de até 75 anos.

Desfile da 10º Modamazon no Amapá. Foto: Divulgação/Modamazon

Mais que um evento de moda, o Modamazon é um movimento de resistência, inovação e pertencimento, consolidando a Amazônia como território de expressão autêntica e potência criativa.

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Documentário mostra o impacto do plástico e do microplástico na avifauna de rios no Amazonas 

Cena do documentário ‘O Impacto do Plástico e do Microplástico na Avifauna dos Rios Negro e Solimões’. Foto: Reprodução/youtube Instituto Soka Amazônia

O Instituto Soka Amazônia lançou o documentário Entre Fios Invisíveis: O Impacto do Plástico e do Microplástico na Avifauna dos Rios Negro e Solimões‘, uma produção que investiga como a poluição plástica vem afetando as aves na Amazônia.

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A narrativa tem como eixo a RPPN Dr. Daisaku Ikeda e três comunidades ribeirinhas e indígenas localizadas nos rios Negro e Solimões. Ao longo do percurso, o documentário conecta ciência, educação ambiental e saberes tradicionais para mostrar, de forma sensível e direta, como o plástico tem alterado comportamentos, habitats e ciclos naturais da avifauna da região.

O aumento de resíduos plásticos nos rios amazônicos já representa uma ameaça concreta à biodiversidade. Um exemplo disso é o uso de fios de nylon e fragmentos plásticos na construção de ninhos — como no caso do ninho de japú encontrado na RPPN Dr. Daisaku Ikeda —, evidenciando uma adaptação forçada das espécies às interferências humanas.

Leia também: Reserva Particular do Patrimônio Natural Dr. Daisaku Ikeda em Manaus ganha guia de aves

Documentário mostra o impacto do plástico e do microplástico na avifauna de rios no Amazonas
Foto: Reprodução/youtube Instituto Soka Amazônia

Documentário dá visibilidade aos impactos

Mais do que apresentar dados, o documentário busca dar visibilidade a essa realidade a partir de uma abordagem socioambiental integrada, ampliando a percepção sobre os impactos do plástico e do microplástico na Amazônia e promovendo a conscientização ambiental em âmbito nacional e internacional.

O lançamento fez parte de uma série de atividades desenvolvidas pelo Instituto, dentro do calendário da Semana do Meio Ambiente 2026, de 1º a 6 de junho, e com apoio de diversos parceiros: Universidade do Estado do Amazonas, Vem Passarinhar Manaus, UEA, INPA, Programa de Coleções Científicas Biológicas (PCCB), SEMED Manaus, E.M Alfredo Linhares, Oca do Conhecimento Ambiental, SEMED Careiro, E.M Francisca Góes, Comunidade 3 Unidos.

Leia também: Microplástico e mudanças climáticas: ameaças aos rios amazônicos

*Com informações do Instituto Soka Amazônia

Programação que antecede o Festival de Parintins 2026 começa a se intensificar; veja a agenda

Foto: Divlgação/Arquivo Secom AM

O calendário oficial de eventos do Festival Folclórico de Parintins 2026 começa a se intensificar na cidade amazonense. Para quem pretende aproveitar a ilha da magia antes da disputa no fim de junho, a programação reúne diversas atividades dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido abertas ao público.

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Segundo a organização do evento, o calendário ainda está sujeito a alterações de datas, horários e locais, mas já é possível se programar para curtir o clima de festa para o 59º festival em Parintins.

Leia também: Dicas para Parintins 2026: como se preparar para viver o maior festival folclórico da Amazônia

parintins, cidade que sedia o festival folclórico dos bois caprichoso e garantido no amazonas
Foto: Reprodução/Amazon Sat

Programação em Parintins

  • 8 de junho – Saída das alegorias do Garantido da Cidade Garantido para a área de concentração;
  • 12 de junho – Saída tradicional do Garantido pelas ruas de Parintins;
  • 15 de junho – Início do translado das alegorias do Caprichoso para a área de concentração;
  • 16 a 19 de junho – Ensaios técnicos do Caprichoso – Curral Zeca Xibelão;
  • 17 a 19 de junho – Ensaios técnicos do Garantido – Curral Lindolfo Monteverde;
  • 18 de junho – Ensaio técnico do Caprichoso no Bumbódromo (fechado);
  • 19 de junho – Ensaio técnico do Garantido no Bumbódromo (fechado);
  • 20 de junho – Sorteio da ordem de apresentação dos bois;
  • 20 de junho – Ensaio técnico do Garantido no Bumbódromo (fechado);
  • 20 de junho – Boi de Rua do Caprichoso;
  • 21 de junho – Passagem de som do Garantido no Bumbódromo (aberta ao público);
  • 22 de junho – Ensaio técnico do Caprichoso no Bumbódromo (fechado);
  • 23 de junho – Passagem de som do Caprichoso no Bumbódromo (aberta ao público);
  • 24 de junho – Ladainha e São João do Garantido;
  • 25 de junho – Coletiva de imprensa do Caprichoso sobre o projeto artístico de arena;
  • 25 de junho – Coletiva de imprensa do Garantido sobre o projeto artístico de arena;
  • 26, 27 e 28 de junho – Festival Folclórico de Parintins 2026, no Bumbódromo.

Projeto Amazônia Que Eu Quero promove primeiro Encontro de Embaixadores da Região Norte

Foto: Divulgação

A Fundação Rede Amazônica realizou, na tarde desta terça-feira (2), o 1º Encontro de Embaixadores do projeto Amazônia Que Eu Quero. Realizado de forma on-line, o evento reuniu embaixadores dos estados do Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima e Pará, além de representantes do Grupo Rede Amazônica nos estados onde o projeto é desenvolvido.

A iniciativa foi criada para fortalecer a rede de embaixadores do projeto, promover conexões entre os participantes e ampliar o alcance das discussões realizadas ao longo da temporada do Amazônia Que Eu Quero.

A abertura do encontro foi conduzida pela coordenadora do projeto, Ruthiene Bindá, que destacou a importância dos embaixadores para a disseminação dos debates promovidos pela iniciativa. “Os embaixadores desenvolvem papel fundamental no processo de divulgação do projeto. Desejamos que eles utilizem do alcance profissional, seja no setor empresarial ou institucional, para ampliar o conhecimento sobre essa iniciativa, que estimula reflexões sobre temas relevantes para os amazônidas e para todos que vivem na Amazônia”, afirmou.

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Durante o evento, a diretora-presidente da Fundação Rede Amazônica, Cláudia Daou Paixão, reforçou o propósito que deu origem ao projeto e sua contribuição para o fortalecimento da participação cidadã. “O programa foi idealizado com o objetivo de promover a educação política e ampliar a participação dos principais agentes e setores da sociedade, tanto públicos quanto civis, além de incentivar o envolvimento ativo da população por meio dos painéis e dos temas debatidos ao longo do ano”, destacou.

O encontro contou com a participação dos embaixadores Carolina Gregório (Rondônia), Isan Anijar (Pará) e Ilana Mivev (Amazonas), que compartilharam experiências e reflexões relacionadas ao tema da temporada 2026, “Democracia na Era Digital: o uso das novas tecnologias no processo eleitoral”.

Carolina Gregório, diretora-presidente das operações da Aegea em Rondônia, trouxe uma reflexão sobre a relação entre informação e coerência na construção da Amazônia que a sociedade deseja para o futuro. Já Isan Anijar, presidente da Associação Comercial do Pará, destacou que, embora a tecnologia seja uma ferramenta essencial para o desenvolvimento, são os valores, a ética e o compromisso com as próximas gerações que definirão o futuro da democracia e da região amazônica.

A diretora executiva da Fundação Rede Amazônica, Mariane Cavalcante, ressaltou que o Amazônia Que Eu Quero busca reunir diferentes segmentos da sociedade em torno de propostas concretas para o desenvolvimento regional. “O Amazônia Que Eu Quero envolve gestores públicos, lideranças sociais e representantes da iniciativa privada. A ideia é construir uma visão ampla sobre os desafios da região para que, ao final de cada edição, possamos deixar um legado para a Amazônia, com propostas viáveis, capazes de contribuir para a gestão pública e fortalecer a participação da sociedade”, afirmou.

O encontro marca o início de uma agenda de aproximação e fortalecimento da rede de embaixadores do projeto, ampliando a participação de lideranças regionais nos debates sobre o presente e o futuro da Amazônia.

Sobre o Amazônia Que Eu Quero

Criado em 2019, o Amazônia Que Eu Quero é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica e do Grupo Rede Amazônica que promove debates, escuta social e construção coletiva de propostas para o desenvolvimento sustentável da região. Ao longo de suas edições, o projeto reúne especialistas, gestores públicos, representantes da iniciativa privada, lideranças sociais e a população para discutir temas estratégicos para a Amazônia, transformando contribuições em Cadernos de Soluções entregues a autoridades e instituições responsáveis pela formulação de políticas públicas.

AmazonFace vai estudar como a Amazônia reage a ambiente rico em dióxido de carbono

Anéis em torno das seis parcelas da floresta amazônica em que serão feitas as pesquisas do AmazonFace sobre os efeitos de uma atmosfera enriquecida com CO2. Foto: Dado Galdieri/AmazonFace

Água, luz solar e dióxido de carbono (CO2) são os reagentes que servem de combustível para as plantas fazerem fotossíntese, processo que lhes fornece energia para crescer e se manter vivas. Como se comportaria a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, onde se estima haver 400 bilhões de árvores, se a quantidade de um desses ingredientes, o CO2, principal gás responsável pelo aquecimento global, fosse 50% maior do que a atual? Essa é a grande pergunta que vai orientar as atividades do principal experimento de campo do programa AmazonFace, uma colaboração internacional que se iniciou em 2011 e entra agora em sua fase mais importante.

Saiba mais: Portal Amazônia responde: como funciona o CO₂ na atmosfera?

Em junho, começam os testes finais das instalações que vão monitorar em detalhes, pelos próximos 10 anos, seis parcelas de floresta adulta e preservada na reserva ZF2, uma estação experimental do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), localizada a cerca de 70 quilômetros ao norte do centro de Manaus.

Torre de liberação de CO2 na atmosfera. Foto: João M. Rosa/AmazonFace

A tecnologia usada em campo é denominada free-air CO2 enrichment (Face) e serviu de inspiração para o nome do programa. Foi criada na década de 1990 nos Estados Unidos e tem sido empregada em estudos que tentam entender o impacto de uma atmosfera rica em CO2 sobre o comportamento de diversos tipos de vegetação.

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Em linhas gerais, um ar com mais dióxido de carbono produz nas plantas, em maior ou menor grau, um efeito similar ao emprego de um adubo no solo: promove seu crescimento. É como se o excesso de CO2 disponível atuasse como um fertilizante: as espécies vegetais retiram mais desse gás da atmosfera e contam com um combustível extra para fazer fotossíntese.

Os pesquisadores utilizam comumente a expressão “fertilização por CO2”. Ao retirar mais dióxido de carbono da atmosfera, um efeito benéfico ao aquecimento global e às mudanças climáticas, as plantas fixam mais carbono e tendem a produzir mais biomassa (troncos, galhos e folhas). Esse é o quadro genérico, derivado de estudos feitos em pequena escala, geralmente com uma ou poucas espécies vegetais.

Em campo, ainda mais em meio a uma floresta tão biodiversa como a amazônica, onde deve haver cerca de 16 mil espécies vegetais, ninguém sabe ao certo qual seria o impacto da fertilização por CO2 no ecossistema como um todo. É razoável pensar que a floresta turbinada por uma dose extra desse gás pode mudar a forma como as plantas interagem entre si, adaptam-se às mudanças climáticas e usam os insumos disponíveis, como água e nutrientes.

“O experimento é o primeiro no mundo que vai usar a tecnologia Face para estudar uma floresta tropical. Os outros trabalhos foram feitos em zonas de clima temperado, que têm uma vegetação diferente da Amazônia”, comenta o ecólogo e meteorologista David Lapola, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos dois coordenadores nacionais do AmazonFace. “Se não houver nenhum problema nos testes, deveremos iniciar oficialmente as medições contínuas nas seis parcelas de floresta em agosto”.

Uma estrutura significativa foi montada na estação do Inpa. Cada uma das seis parcelas é circundada por um anel com 30 metros (m) de diâmetro, formado por 16 torres de 35 m de altura conectadas a um tanque de armazenamento de CO2 líquido. Durante o dia, quando há luz solar e os vegetais absorvem dióxido de carbono para fazer fotossíntese, três parcelas serão “alimentadas” com ar enriquecido por uma dose extra desse gás.

Arte: Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

O reforço elevará a concentração diurna de dióxido de carbono no interior desse trio de anéis das atuais 420 partes por milhão (ppm) para 620 ppm, concentração que a atmosfera terrestre poderá atingir nos próximos 50 anos ou até o final do século, segundo algumas estimativas. Nos outros três anéis, que funcionam como uma espécie de grupo de controle, será aspergido ar com a quantidade atual de dióxido de carbono. O aumento na concentração de CO2 empregado no experimento é da mesma ordem de grandeza do que ocorreu no planeta entre o final do século XIX e hoje, quando a concentração atmosférica do gás se elevou em 50%, de 280 para 420 ppm.

No AmazonFace, será possível acompanhar a evolução ao longo do tempo das parcelas de floresta mantidas em um ar rico em CO2 com as que vivem sob uma atmosfera com a concentração atual desse gás. Os anéis foram instalados em pontos muito próximos da floresta, em ambientes praticamente iguais. Distam entre si cerca de 90 metros.

A única grande diferença é a quantidade extra de dióxido de carbono em três das seis parcelas. “Dentro de cada anel, há entre 50 e 70 árvores maduras, sem contar a vegetação de menor porte. Dificilmente existe mais de um exemplar de uma mesma espécie arbórea em cada parcela. Nos seis anéis, deve haver cerca de 400 espécies. Vamos ver no experimento, entre outras questões, quais espécies vão se dar bem ou mal no ambiente rico em CO2”, explica o engenheiro florestal Carlos Alberto Quesada, especialista em solos do Inpa, o outro coordenador nacional do AmazonFace.

“Os estudos com a tecnologia Face costumam ser feitos em áreas de floresta formadas por apenas uma ou duas espécies de árvores.” Na Austrália, por exemplo, está em curso um experimento desse tipo em uma mata nativa constituída predominantemente por eucaliptos, espécie originária da Oceania.

Visão da parte interna de um anel. Foto: João M. Rosa/AmazonFace

Uma série de dispositivos foram instalados nas parcelas para fornecer informações para os estudos e facilitar o trabalho dos cientistas. Diferentes tipos de sensores registram quase tudo que pode ser mensurado no ambiente sob influência dos anéis: temperatura, direção do vento, concentração de dióxido de carbono (entre outros parâmetros atmosféricos), taxa de fotossíntese nas folhas das plantas, dinâmica das raízes e presença de nutrientes no solo.

Medições periódicas da biomassa das plantas vão verificar se e quanto as árvores estão engordando com a dieta extra de CO2. Cada anel do AmazonFace conta ainda com os serviços de um guindaste especial de 45 m de altura, que foi usado para a construção das torres do sistema, e será empregado, de agora em diante, como meio de acesso à copa das árvores para a realização de medições.

De 2019 a 2022, o AmazonFace contou com seis pequenas câmaras de topo aberto, com diâmetro de 2,5 m e 3 m de altura, um tipo de estrutura que lembra uma estufa circular com um buraco no teto e é usado há décadas para estudar a reação de plantas a ambientes ricos em CO2. Instaladas a cerca de 100 m do trecho da floresta amazônica que abriga os anéis do experimento, as câmaras foram usadas para estudos específicos sobre o efeito da fertilização por CO2 em certas espécies vegetais ou em determinadas condições ambientais.

Um trabalho que usou dados das câmaras de topo aberto foi publicado no final de abril na revista Nature Communications. No estudo, os pesquisadores constataram que, após terem sido submetidas a um ar rico em dióxido de carbono por um período de oito meses a um ano, a comunidade de plantas de um sub-bosque da floresta – a vegetação de baixa estatura que cresce sob o dossel das árvores – adotou diferentes estratégias radiculares para se adaptar a essa condição atmosférica.

Na serrapilheira, camada sobre o solo onde se acumulam restos de plantas e de material orgânico vivo em decomposição, as raízes se tornaram mais compridas e com menor diâmetro, aumentando sua área de atuação. No solo, elas foram mais colonizadas por micorrizas arbusculares, fungos que melhoram a absorção de nutrientes.

“Essas alterações, tanto no solo como na serapilheira, sugerem que as plantas estão se adaptando para aumentar sua eficiência na aquisição de fósforo, um nutriente que, se estiver em falta, limita seu crescimento na Amazônia”, diz a pesquisadora brasileira Nathielly Martins, da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, autora principal do trabalho e integrante da equipe do AmazonFace.

No estudo, também foi encontrada uma menor quantidade de fósforo no solo perto das plantas, um indicativo de que as espécies parecem realmente ter elevado sua capacidade de retirar o nutriente quando submetidas a uma atmosfera com mais dióxido de carbono.

Leia também: ​Excesso de CO2 faz plantas crescerem mais: resultado poderá ser considerado em projeções de mudanças climáticas do IPCC

Para o botânico Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), que não participa do AmazonFace, o experimento ao ar livre ao norte de Manaus tem potencial de gerar descobertas interessantes sobre os impactos de um ambiente rico em CO2 na ecologia das plantas, ou seja, como elas se relacionam entre si na floresta e com o ambiente.

“Os efeitos fisiológicos de altas concentrações de dióxido de carbono sobre as plantas estão muito bem caracterizados e dificilmente haverá diferenças significativas nas respostas encontradas pelo AmazonFace. Nessas condições, as espécies aumentam a fotossíntese e o acúmulo de reservas energéticas [açúcares]”, afirma Buckeridge. “Mais de mil trabalhos científicos mostraram isso.”

Há mais de duas décadas, o pesquisador da USP estuda as reações fisiológicas de plantas cultivadas dentro de câmaras de topo aberto com ar enriquecido de dióxido de carbono (ver Pesquisa FAPESP nº 80).

Até agora, foram investidos cerca de R$ 80 milhões no AmazonFace. Metade da verba veio de uma série de fontes brasileiras: FAPESP, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Os outros 50% foram provenientes do MetOffice, o serviço de meteorologia do Reino Unido, cuja participação no programa teve início em 2019. O custo total da iniciativa deverá chegar a R$ 260 milhões nos próximos 10 anos. “Temos verbas garantidas para o funcionamento do AmazonFace por cinco anos”, diz Lapola.


A reportagem acima foi publicada com o título “Dando um gás na floresta” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Projeto

AmazonFACE: avaliação dos efeitos do aumento de CO2 atmosférico na ecologia da Floresta Amazônica (n° 23/09046-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável David Lapola.

Artigo científico
MARTINS, N.P. et alAmazonian understory forests change phosphorus acquisition strategies under elevated CO2Nature Communications. 28 abr. 2026.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Marcos Pivetta

Perigo à vista! Vocalização de diferentes espécies é usada como aviso em floresta no Peru

Foto: Reprodução/Salkantay Trilha

Aves de rapina do alto das árvores são as primeiras a fazer barulho quando avistam possíveis predadores, que podem ser até mesmo visitantes humanos passeando pela mata.

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O gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus) solta gritos agudos e repetidos, kiii-kiii-kiii, o gavião-bombachinha-grande (Accipiter bicolor) emite notas curtas rápidas, ki-ki-ki-ki-ki, e o falcão-de-coleira (Falco femoralis) um chamado agudo e ritmado, klee-klee-klee.

diferentes espécies se comunicam nas florestas
Foto: Reprodução/Andina

Outras aves próximas captam o chamado, emitem seus próprios sons e espalham o alarme. Rapidamente, diferentes espécies – e não apenas de aves – se conectam em uma rede de informações e fazem a floresta silenciar brevemente.

Leia também: Com bioma amazônico, Peru é um dos países com a maior variedade de aves do mundo

Diferentes espécies se ajudam

Espécies de aves do gênero Monasa, como o chora-chuva-preto (Monasa nigrifrons), são grandes propagadores de sinais de alarme após ouvirem chamados de outras espécies, que podem ser maiores, incluindo macacos-prego (Sapajus spp.) e macacos-aranha (Ateles spp.).

Biólogos da Suíça, da Austrália, do Peru e dos Estados Unidos reconstituíram essa “rádio floresta” analisando as interações entre 370 espécies de aves e 10 de primatas no Parque Nacional Manu, no Peru.

Para simular a propagação de alarmes, eles reproduziram chamados de uma ou mais espécies de aves e primatas e registraram a propagação de alarmes e as reações dos animais (Current Biology, 20 de abril).

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp

Desperdício de água no Amapá equivale a 15 piscinas olímpicas por dia, aponta estudo

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Dados do desperdício colocam o Amapá entre os estados com maiores níveis de perdas, reforçando que a região Norte é uma das áreas mais críticas. Foto: Crystofher Andrade/Rede Amazônica AP

O Amapá desperdiça diariamente o equivalente a 15 piscinas olímpicas de água ou 49,659 caixas d’água de 750 litros, segundo dados divulgados no dia 2 de junho pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados. O levantamento mostra que o Estado tem 39,27% de perdas na distribuição, índice praticamente igual à média nacional, de 39,53%. Os dados são referentes a 2024.

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No Amapá, a redução das perdas para a meta de 25%, prevista pela Portaria 788/2024, poderia garantir abastecimento para cerca de 225,588 pessoas. Em Macapá, as perdas chegam a 37,84% na distribuição, acima da meta nacional.

Cada ligação desperdiça em média 755 litros por dia, muito acima do limite de 216 litros. O desperdício equivale a 9 piscinas olímpicas ou 30,405 caixas d’água de 750 litros por dia. A redução poderia atender cerca de 34,062 pessoas.

O Amapá está entre os Estados com níveis elevados de perdas, o que reforça os desafios da região Norte. Na prática, grande parte da água produzida não chega às casas. O desperdício de água acontece quando o recurso é perdido antes de chegar às casas. Isso ocorre por vazamentos nas redes, erros de medição e consumos não autorizados.

Leia também: Amapá desperdiça mais da metade da água tratada, mostra estudo

Amapá tem desperdício de água mais da metade da água tratada, mostra estudo
Dados alertam sobre o desperdício de água no Brasil, especialmente na região Norte, como é o caso do Amapá. Foto: Reprodução/Instituto Trata Brasil

Esses problemas aumentam a pressão sobre os mananciais e elevam os custos de produção, além de reduzir a receita das empresas de saneamento. Em nota, a Concessionária de Saneamento do Amapá (CSA) informou que, quando assumiu a concessão em 2021, o índice de perdas era de cerca de 70%. O número caiu para 39,27%, conforme os dados divulgados.

Segundo a empresa, a redução é resultado de investimentos em modernização da rede, combate a vazamentos, regularização de ligações e melhoria da eficiência operacional do sistema de abastecimento.

Números do desperdício no Brasil

Entre as capitais, Goiânia (11,45%), Campo Grande (20,69%), Teresina (19,55%) e São Paulo (24,46%) estão dentro da meta. Já Belo Horizonte (68,29%), Maceió (64,05%) e Belém (58,96%) estão entre as piores no ranking do desperdício, com perdas muito acima da média. No Brasil, o volume desperdiçado em 2024 seria suficiente para abastecer 77 milhões de pessoas em um ano — mais que o dobro da população sem acesso à água potável (33 milhões).

A redução do desperdício para 25% das perdas poderia gerar R$ 47,3 bilhões em ganhos econômicos até 2033 e aumentar a resiliência hídrica diante das mudanças climáticas. O estudo conclui que o Brasil ainda tem um longo caminho para reduzir as perdas. A meta de 25% até 2033 exige medidas urgentes para garantir acesso à água potável e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP