Pesquisa científica revela interação entre tartarugas e borboletas. Foto: Alonso Júnior
O espetáculo ‘Borboletas bebem lágrimas de tartarugas’, criado, dirigido e interpretado por Ítalo Rui, em temporada em Manaus (AM), aproxima o público de um fenômeno pouco conhecido da natureza amazônica. A obra, transforma em linguagem cênica uma relação real entre espécies e propõe reflexões sobre memória, território e ancestralidade: a lacrifagia.
Esse comportamento é observado por cientistas na região amazônica entre borboletas e tartarugas. As borboletas se alimentam das lágrimas de tartarugas, que eliminam o excesso de sal do organismo. A partir dessa interação, a dramaturgia constrói uma narrativa simbólica e sensível.
No palco — ou, neste caso, em meio à floresta — o público acompanha a história de Tapy, uma tartaruga que aprende sobre o tempo da vida, do rio e de si mesma. A personagem conduz uma jornada que dialoga com temas como pertencimento, identidade e os ciclos naturais.
Ítalo Rui interpreta sozinho diversos personagens, utilizando elementos do teatro de formas animadas, em que bonecos, corpo e texto se integram. A escolha estética contribui para criar uma atmosfera poética, ao mesmo tempo em que traduz conceitos científicos em experiências acessíveis ao público.
“Vi um vídeo em que apareciam borboletas sobrevoando as tartarugas, uma imagem linda e comecei a pesquisar mais sobre tartarugas. Foi quando descobri que elas depositam seus ovos nos mesmos bancos de areia em que nasceram. Percebi que há uma relação muito forte com o território, com o lugar de onde elas vieram e que as borboletas se nutrem das lágrimas delas”, conta o ator Ítalo Rui sobre a inspiração da apresentação artística.
O espetáculo tem dramaturgia assinada por Pricila Conserva e faz parte de uma linha de pesquisa artística do ator, que já desenvolveu outros trabalhos inspirados em animais. A proposta é utilizar a natureza como ponto de partida para discutir questões humanas universais.
Pesquisa no Inpa e imersão na Amazônia
Um dos diferenciais da montagem é o processo de criação, que envolveu uma imersão direta no ambiente científico. Durante um mês, a equipe artística acompanhou pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Museu da Amazônia (MUSA), participando de atividades práticas e observando de perto o comportamento das espécies.
No Inpa, os artistas tiveram contato com estudos sobre quelônios no Centro de Estudos dos Quelônios da Amazônia (CEQUA), enquanto no MUSA acompanharam o ciclo de vida das borboletas, desde a fase de lagarta até a metamorfose. A experiência permitiu que elementos científicos fossem incorporados com fidelidade à narrativa artística.
A interação entre artistas e cientistas contribuiu para enriquecer o processo criativo. Além da observação, a equipe participou de rotinas como alimentação dos animais e acompanhamento de estudos em laboratório, fortalecendo a conexão entre conhecimento acadêmico e expressão artística.
Ao levar a narrativa para ambientes naturais, a obra também convida os espectadores a observar a floresta sob uma nova perspectiva, reconhecendo as relações sutis que existem entre as espécies e a importância da preservação desses ecossistemas.
O Projeto REFLORA, iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), dá a largada para a campanha de plantio de 2026 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, no Baixo Rio Negro, em Manaus (AM). A ação é a estratégia central deste ano para avançar na meta de restaurar 200 hectares ao longo das áreas atendidas pelo projeto na unidade de conservação.
Para o sucesso desta nova etapa durante a janela chuvosa na região, a campanha une duas frentes logísticas e produtivas fundamentais que se complementam: a produção local em viveiros comunitários e uma complexa operação de transporte fluvial de mudas externas.
Projeto REFLORA inicia campanha de plantio 2026 na Amazônia. Foto: Sérgio de Andrade
A expectativa para a atual temporada é ampliar a recomposição florestal com mais de 17 mil mudas mobilizadas, superando os resultados de 2025, quando o projeto marcou seu primeiro ano em campo com 66,85 hectares implementados e 8 mil mudas plantadas.
A janela ideal de plantio ocorre justamente entre os meses de janeiro e maio, período em que se concentra a estação chuvosa na região amazônica, pois o solo mais úmido é fundamental para favorecer o enraizamento e o desenvolvimento inicial das espécies nativas nas áreas em recuperação.
Viveiros comunitários
Como um dos pilares do Projeto REFLORA, a estruturação de quatro viveiros comunitários entregues no fim de 2025 fortalece a autonomia das famílias na RDS e reduz a dependência de fornecedores externos a longo prazo. Mais de 9.000 mudas já foram produzidas localmente nestas estruturas e serão utilizadas nos plantios deste ano. As mudas incluem mais de 20 espécies nativas, entre madeireiras e frutíferas como itaúba, jatobá, cajuí, andiroba, cacau, café e cumaru.
Os próprios comunitários realizam diretamente todas as etapas da produção. Parte das sementes é coletada na floresta pelos moradores, para o uso de espécies adaptadas às condições locais. Após a coleta, eles fazem o preparo, a semeadura e o manejo, atuando como fornecedores do projeto ao produzir exemplares em tubetes, mais leves e baratos, o que facilita o transporte interno e a redução do lixo plástico, já que os tubetes são devolvidos e reutilizados.
Viveiro de Mudas na comunidade São Sebastião, RDS Puranga Conquista, Baixo Rio Negro em Manaus (AM). Foto: Sérgio de Andrade
Para isso, o projeto REFLORA investiu fortemente na formação técnica dos participantes, que passaram por capacitações voltadas à produção de viveiros e mudas, com conteúdo como coleta e beneficiamento de sementes, preparo de substratos, germinação e manejo de viveiros, conectando teoria e prática diretamente com a realidade dos territórios amazônicos. Parte dos recursos destinados à implantação dos viveiros teve apoio do Mais Unidos, por meio do Projeto Tucumã.
Logística e transporte fluvial
Para somar forças à produção comunitária e dar a escala necessária à campanha de plantio, o REFLORA executou paralelamente uma operação estratégica para transportar aproximadamente 8 mil mudas de espécies nativas. O volume desta remessa externa foi adquirido de uma startup de biotecnologia vegetal focada em espécies adaptadas às condições da região.
A logística envolveu o deslocamento inicial em caminhão saindo de Iranduba (AM) até o Porto do Gelão, em Manaus. De lá, as mudas foram embarcadas em um barco preparado para esse tipo de carga, em uma jornada fluvial de cerca de 8 horas pelo Rio Negro até a RDS.
Devido à sensibilidade de diversas espécies, como pau rosa, violeta, preciosa e copaíba, a operação exigiu cuidado extremo no manuseio e proteção contra o sol excessivo e acúmulo de água para preservar a integridade da carga até as áreas de plantio.
Resultados e próximos passos
Em 2025, marcando o primeiro ano de execução em campo, o REFLORA implementou 66,85 hectares de áreas em recuperação com o plantio de 8 mil mudas. Para este ano, a expectativa da campanha é dar um salto significativo e ampliar a escala de restauração utilizando as mais de 17 mil mudas prontas mobilizadas nas duas frentes.
Projeto REFLORA inicia campanha de plantio 2026 na Amazônia. Foto: Sérgio de Andrade
Para isso o projeto contratou sete comunitários para se juntarem à equipe de campo, fortalecendo o seu modelo de atuação participativa. Essa integração valoriza o trabalho local, sendo que parte desses comunitários contratados também recebe o projeto em suas áreas, conectando a recuperação ambiental à geração direta de oportunidades.
Sobre o Projeto REFLORA
O Projeto REFLORA é uma iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas, financiada pelo Edital Amazonas – Floresta Viva.
O Floresta Viva é uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinada a apoiar projetos de restauração ecológica nos biomas brasileiros.
Equipe de campo do projeto composta por comunitários da RDS. Foto: Sérgio de Andrade
O edital 02/2023 conta com o FUNBIO como parceiro gestor. O apoio financeiro é realizado pelo BNDES, pela Eneva S.A. e pela Cooperação Alemã, por meio do KfW. A iniciativa conta ainda com o apoio financeiro do Governo do Brasil. A SEMA, a APCT e a Natura também atuam como parceiras no projeto.
O Museu Internacional do Presépio vem se consolidando como um dos espaços culturais mais singulares de Porto Velho (RO), reunindo em um só lugar elementos que atravessam gerações: arte, espiritualidade e tradição. Localizado na Associação São Tiago Maior, na zona Leste da capital, o museu chama atenção pela grandiosidade do acervo e pela diversidade de peças que encantam os visitantes logo na chegada.
Criado em 1998, o espaço nasceu inspirado na tradição italiana dos presépios e hoje carrega reconhecimento como Patrimônio Artístico do Estado de Rondônia. Ao longo dos anos, o museu ampliou seu acervo e passou a ocupar posição de destaque no cenário do turismo religioso e cultural da cidade.
Fundador da Associação São Tiago Maior e criador do museu, o padre Enzo Mangano explica que o espaço foi sendo ampliado ao longo dos anos e hoje reúne um acervo expressivo.
“Contamos com mais de mil presépios vindos de diversas partes do mundo. O destaque é o presépio monumental permanente, considerado o segundo maior do mundo em seu gênero, que retrata toda a história da salvação. É um conjunto artístico em cerâmica de grande valor cultural e religioso”.
Espaço nasceu inspirado na tradição italiana dos presépios. Foto: Wesley Pontes/ Secom – Porto Velho
Atrações do Museu do Presépio
Entre os principais atrativos está o presépio monumental, considerado o maior do Brasil e o segundo maior do mundo. Ao todo, o local reúne cerca de mil presépios e mais de 2,8 mil peças artísticas, produzidas por artistas de mais de 50 nacionalidades. As obras apresentam diferentes formas de representar o nascimento de Cristo, com estilos, materiais e técnicas que refletem a identidade cultural de cada região.
Mais do que um espaço de exposição, o museu funciona como um ambiente de memória e aprendizado. Cada peça carrega uma história e contribui para ampliar o olhar do público sobre a diversidade cultural e religiosa presente no mundo. O passeio proporciona uma experiência que envolve contemplação, conhecimento e conexão com diferentes tradições.
O espaço também se apresenta como uma alternativa acessível de lazer para famílias, estudantes e turistas que buscam atividades culturais em Porto Velho. A visita pode ser feita de terça a domingo, no período da tarde até a noite, no bairro Socialista, facilitando o acesso de quem deseja conhecer de perto esse patrimônio.
Com um acervo que atravessa fronteiras e valoriza a arte sacra em suas múltiplas expressões, o museu integra o roteiro turístico da capital e fortalece a identidade cultural da cidade, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de educação e entretenimento para a população.
O educador Dzoodzo Baniwa fotografado em setembro, em São Paulo, por ocasião do Prêmio Fundação Bunge. Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP
Em 2018, foi criada a Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri, sediada no Amazonas, e naquele mesmo ano assumi sua secretaria executiva. Ela representa hoje 85 comunidades, 10 escolas e três coletivos de mulheres desses dois povos indígenas, os Baniwa e os Koripako.
O nome da organização traz a palavra Nadzoeri, que é a junção das sílabas iniciais de três divindades: Ñapirikoli, Dzooli e Eeri. Elas fazem parte da mitologia da nossa comunidade, que vive ao norte do estado, às margens do rio Içana. Ele, por sua vez, deságua no rio Negro, na região do município São Gabriel da Cachoeira, que concentra grande número de indígenas.
A Nadzoeri, como nossa organização é mais conhecida, está vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro [Foirn]. Uma das primeiras atividades que realizamos foi um diagnóstico socioambiental, feito de forma coletiva, ainda em 2018. A meta era entender as potencialidades locais e incentivar atividades voltadas para o desenvolvimento sustentável.
Uma das demandas veio dos moradores da comunidade de Nazaré do Rio Cubate, localizada na Terra Indígena do Alto Rio Negro. Eles queriam conhecer melhor a diversidade de aves daquela região, tendo em vista um futuro projeto de ecoturismo de base comunitária para observação de pássaros.
Essa ideia se desdobrou. No ano seguinte, firmamos uma parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa] para elaborar um inventário de avifauna da região. O trabalho entre pesquisadores do órgão e as comunidades rendeu o livro Espécies de aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro, escrito em nheengatu, baniwa e português. A obra reúne 310 espécies e apresenta descrições físicas e comportamentais, além de relatos sobre o significado desses animais para o nosso povo.
Tenho orgulho de ser um dos organizadores dessa obra, publicada pelo próprio Inpa. No ano passado, o livro recebeu o prêmio Jabuti Acadêmico na área de ciências biológicas, biodiversidade e biotecnologia. É um reconhecimento que celebra essa construção coletiva de conhecimento, mas que, em âmbito pessoal, também reafirma a importância da educação na minha trajetória.
Nasci em 1985 e cresci na aldeia Santa Isabel, às margens do rio Ayari, na bacia do rio Içana. Só fui para a escola aos 10 anos e entrei em uma classe de educação infantil, com crianças bem mais novas do que eu. Para completar, meu professor só falava em português, língua que eu não dominava na época.
O educador e pesquisador indígena Dzoodzo Baniwa. Foto: Divulgação/Fundação Bunge
Eu tinha medo de ir para a escola e só não desisti pela insistência do meu pai. Ele tem um profundo conhecimento sobre a floresta, mas sentiu na pele as consequências de ser analfabeto. No passado, chegou a ser submetido à condição de trabalho análogo à escravidão por não saber ler e escrever.
Aos 15 anos, me transferi para a então recém-inaugurada Escola Indígena Baniwa e Koripako Pamáali. Criada em 2000, ela é resultado de um longo processo de discussão sobre currículo, metodologia e calendário escolar, que contou com a participação efetiva das comunidades.
Essa foi a primeira escola indígena de ensino fundamental II do nosso território. Como eu era um pouco mais velho do que meus colegas, comecei a participar de projetos agroflorestais, de piscicultura e de meliponicultura. Em 2004, quando terminei o ciclo do fundamental, acabei sendo contratado como técnico no laboratório de criação de peixes da escola, onde permaneci até 2010.
No ano seguinte, aos 20 anos, fui para Manaus cursar o ensino médio na modalidade supletivo. Pela primeira vez tive aulas teóricas formais de química, biologia e física e me surpreendi ao perceber que já aplicávamos alguns princípios dessas disciplinas em atividades na nossa comunidade, como, por exemplo, na criação de peixes ou nos sistemas agroflorestais.
Educador investe em conexões
Foi movido pelo desejo de ampliar as conexões entre os saberes tradicionais indígenas e a ciência que optei pela licenciatura intercultural em física. Fiz essa graduação no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas [Ifam], em São Gabriel da Cachoeira.
Em 2016, após terminar o curso, voltei para a minha aldeia disposto a colocar em prática o que tinha aprendido no curso de física. O primeiro projeto a que me dediquei foi inspirado por uma lembrança da minha mãe carregando água do rio até a aldeia para cozinhar. Para facilitar essa atividade, desenvolvi um sistema de bombeamento simples e sustentável, que não usa eletricidade, mas a energia do fluxo da água. Nos últimos anos, melhoramos o sistema, incluindo uma bomba elétrica movida a energia solar fotovoltaica e implementamos o kit [bomba e placas solares] em cerca de 40 aldeias no território do rio Içana.
O educador Dzoodzo Baniwa com os demais organizadores do livro ‘Espécies de aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro‘, durante a cerimônia do prêmio Jabuti Acadêmico, em 2025. Foto: Divulgação/Prêmio Jabuti Acadêmico
A água foi tema da minha pesquisa de mestrado, concluída em 2021, no curso de Pós-graduação de Mestrado Profissional para o Ensino de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. No estudo tratei dos significados cultural e cosmológico desse recurso natural para o povo Baniwa e do direito a ele na perspectiva dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas [ODS-ONU]. Além disso, discuti como a questão da água pode ser mais bem explorada no currículo integral da escola indígena.
Eventos extremos como ondas de calor, secas e inundações já são realidade em nosso território. No meu trabalho como educador, tenho defendido a adoção de metodologias participativas, que envolvam as crianças e jovens nos processos de monitoramento da natureza e os preparem para responder a esses desafios ambientais. É o que eu chamo de educação territorializada, onde a escola assume um papel ativo na busca de solução criativa aos problemas da comunidade e, nesse sentido, se torna uma fonte de oportunidades para as pessoas e para o local.
Essa premissa me motivou a liderar o estabelecimento de um convênio assinado em 2022 entre a Nadzoeri e a Foirn com a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [FE-USP]. Por meio desse acordo, a Escola Municipal Baniwa Eeno Hiepole, onde sou professor de matemática, começou a participar do programa global Escolas2030, financiado pela Fundação Aga Khan, sediada em Genebra, na Suíça. No Brasil, essas atividades são coordenadas pela FE-USP e a organização de empreendedores sociais Ashoka.
Com duração de 10 anos, o programa busca catalisar a ação das escolas como laboratórios de uma educação integral e transformadora. Essa proposta tem a ver com a nossa escola, que defende a diversificação dos ambientes de aprendizagem.
Em setembro recebi o Prêmio Fundação Bunge. Fui agraciado na categoria Vida e Obra, no tema Saberes e práticas dos povos tradicionais e sua importância para a conservação dos recursos naturais.
Nós, indígenas, temos conhecimentos de assuntos como astronomia e ciclos da natureza, só que as nossas referências não estão nos livros, mas escritas nas pedras, no céu, na floresta. Talvez por isso nosso saber nem sempre seja respeitado e costume ser visto como inferior em relação ao conhecimento dos brancos.
Mas não desanimo. Espero que o diálogo entre o conhecimento ancestral, a ciência e o poder público se fortaleça. É a partir dessa tríade que podemos encontrar meios para enfrentar a emergência climática no planeta.
O depoimento do educador Dzoodzo Baniwa foi dado a Patricia Mariuzzo
Dados da redução expressiva fazem parte do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), desenvolvido pelo Imazon. Foto: Uêslei Araújo/Sema AC
A exploração madeireira no estado do Acre apresentou uma queda significativa de 49% entre agosto de 2023 e julho de 2024, em comparação com o período anterior. Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), desenvolvido pelo Imazon.
De acordo com o levantamento, foram mapeados cerca de 5,3 mil hectares com atividade madeireira no período analisado. Além da redução expressiva, o estudo destaca que toda a exploração registrada ocorreu em áreas autorizadas, o que indica avanço no controle e na regularização da atividade no estado.
O resultado aponta para um cenário de maior fiscalização e cumprimento das normas ambientais, com a exploração concentrada principalmente em imóveis rurais privados devidamente regularizados. A ausência de registros de exploração não autorizada reforça o papel das políticas públicas e dos mecanismos de monitoramento no combate a práticas ilegais.
Comparativo histórico
Dados históricos mostram que a atividade madeireira no estado vinha apresentando oscilações nos últimos anos, com picos e quedas entre 2020 e 2023. No entanto, o período mais recente se destaca pela combinação de redução na área explorada e maior conformidade legal.
Comparativo histórico da exploração madeireira no Acre. Foto: Divulgação
Informações do Projeto de Monitoramento e Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), também apontam que a taxa registrada no período de agosto de 2024 a julho de 2025 superou em 43% a meta estabelecida para 2025 no Plano de Prevenção, Controle de Desmatamento e de Queimadas do Acre (PPCDQ).
A área de desmatamento projetada pelo Plano era de aproximadamente 572 km ², no entanto, o total registrado ficou em torno de 320 km², indicando uma redução de 252 km² de área degradada em relação ao limite previsto.
O Simex utiliza imagens de satélite e análise técnica para identificar áreas de exploração florestal na Amazônia Legal, contribuindo para a transparência e o acompanhamento da atividade. As informações subsidiam ações de fiscalização e políticas de preservação ambiental.
Para o secretário de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, os dados comprovam o fortalecimento do licenciamento ambiental no estado e a consolidação de uma política voltada à promoção da conformidade no setor produtivo.
“Esse resultado consolida o avanço de uma política pública construída com planejamento estratégico e atuação integrada entre os órgãos ambientais. A redução de 49% na exploração madeireira, aliada ao fato de que toda a atividade identificada ocorreu exclusivamente em áreas autorizadas, demonstra que o Acre está avançando de forma concreta na qualificação do licenciamento ambiental e o manejo sustentável”, explicou.
Secretário estadual do Meio Ambiente, Leonardo Carvalho. Foto: Diego Gurgel/Secom Acre
Segundo Carvalho, mais do que coibir ilícitos, o Imac está estruturando um ambiente de segurança jurídica para quem produz de forma regular. “Temos investido na orientação técnica, na realização de mutirões para regularização ambiental e na ampliação do acesso ao Cadastro Ambiental Rural (CAR), garantindo que produtores possam se adequar às exigências legais e acessar políticas públicas’ salientou.
“Reforçando esse compromisso, em 2026 estamos intensificando ainda mais esse trabalho, com o fortalecimento das ações de campo e de inteligência territorial, por meio da Operação Amburana, em apenas sete dias de operação, foram apreendidos 24 metros cúbicos de madeira ilegal, resultado que evidencia a presença ativa e firme do Estado no combate às irregularidades”, concluiu Leonardo.
Fiscalização
O presidente do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), André Hassem, comentou sobre a redução dos índices de exploração madeireira.
“A redução da exploração de madeira no Acre demonstra que o fortalecimento da fiscalização contra os ilícitos ambientais, aliado ao avanço dos processos de licenciamento e monitoramento, tem gerado resultados concretos na proteção dos nossos recursos florestais”, afirmou.
Presidente do Imac, André Hassem. Foto: José Caminha/Secom
Segundo Hassem, o Imac segue atuando com responsabilidade para garantir que a atividade madeireira ocorra dentro da legalidade, promovendo o uso sustentável das florestas e combatendo práticas ilegais que causam danos ambientais e prejuízos à sociedade. “Nosso compromisso é desenvolver economicamente o estado de forma sustentável”, ressaltou o gestor.
Em abril, há muitas datas que celebram a Literatura: temos, no dia 02.04, o Dia Internacional do Livro Infantil, enquanto no dia 18.04, comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil. Já no dia 09.04, celebra-se o Dia da Biblioteca, em honra aos espaços de leitura e o trabalho dos bibliotecários. Finalmente, no dia 23.04, o Dia do Livro, elemento central da Literatura, ganha destaque, uma homenagem feita pela UNESCO às vidas de William Shakespeare e Miguel de Cervantes.
Enquanto autor, considero esta uma data para relembrar das obras que causaram grande impacto na minha vida, que moldaram minha trajetória enquanto leitor até que me tornasse, também, um escritor.
Assim, gostaria de fazer uma breve retrospectiva das leituras que mudaram minha vida, a fim de compartilhar algumas das experiências que a Literatura me proporcionou ao longo desses últimos anos como quem olha para o passado e reconhece os amigos que fez ao longo do caminho.
Alguns se foram.
Alguns se perderam.
Alguns permaneceram.
Todos foram indispensáveis.
Nenhum chegou a ser esquecido.
Ruth Rocha conta ‘A Odisseia’
Imagem: Reprodução
Claro que, como uma boa criança brasileira, Maurício de Souza foi minha porta de entrada para a leitura, mas foi com a versão infantojuvenil que Ruth Rocha fez de “A Odisseia”, de Homero, que fui definitivamente batizado.
Minha história com esse livro começa num tempo em que bibliotecas em escolas públicas não eram espaços acessíveis, então os empréstimos eram feitos de modo informal pelos próprios professores quando a Secretaria de Educação enviava novos exemplares.
Não me orgulho do que vou dizer, mas também não me arrependo: eu fui um menino que roubava livros. Minha única entrada no mundo do crime se deu pelo encanto que tive com essa história, uma vez que me lembrou dos filmes que assistia com meu pai na Tela de Sucessos.
Não suportei a ideia de ficar sem as aventuras de Ulisses e suas disputas com os próprios deuses, então o livro simplesmente não retornou à escola no dia devido. Não me arrependo pois não era minha culpa se, na época, não tínhamos espaços nem profissionais adequados para que pudéssemos ler na própria escola, e meu delito chamou a atenção de meus pais para meu interesse pela leitura. Logo, ganhar livros no meu aniversário se tornou um costume, então algo de muito bom saiu disso tudo (crianças, não tem necessidade disso hoje, hein).
‘O senhor dos anéis’, de J.R.R. Tolkien
Imagem: Reprodução
Após “A Odisseia”, eu me tornei fanático por Fantasia. Então, quando assisti à adaptação de Peter Jackson da obra de J.R.R. Tolkien, me senti como Alice na toca do Coelho.
Lembro que ver o mago Gandalf, ali tão pequeno, enfrentando um gigantesco demônio de fogo às bordas de um abismo sem fundo não só foi para mim sinônimo da coragem suprema, mas também o exemplo definitivo da magia que pulsa na Fantasia.
Desnecessário dizer que, quando tive idade suficiente (e coragem para ler um livro da grossura de uma bíblia), “O senhor dos anéis” se tornou uma das obras fundamentais da minha vida, e quem é fã de Tolkien conhece o esquema de pirâmide que é acompanhar o seu trabalho: inevitável ler também “O hobbit”, “Silmarillion” e “Contos inacabados”.
Enquanto escritor, minha missão se tornou reproduzir em meus leitores a mesma sensação de encantamento que senti vendo Gandalf nos abismos de Moria.
‘Uma vela para Dario’, de Dalton Trevisan
Capa da adaptação em quadrinhos feita por Robson Vilaba, disponível em https://nanu.blog.br/uma-vela-para-dario/
Aqui, temos um caso interessante. Após a experiência com Fantasia na escola me catapultar para o curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Amazonas, conheci textos estranhos e impressionantes. Descobri que a realidade pode ser tão bizarra quanto a Fantasia, e a fronteira entre as duas pareceu mais fina.
Conheci obras de Machado, de Clarisse, de Hatoum, mas foi a prosa curta e afiada do paranaense Dalton Trevisan que fez o corte mais fundo.
Acredito que todo estudante de Letras já leu “Uma vela para Dario”, conto que mostra o quão absurda é a indiferença do ser humano diante da vida, tomado por uma passividade monstruosa por conta da dinâmica da rotina.
Isso me assustou mais do que as histórias de suspense e horror que lia na época, e me mostrou que, mesmo curtas, as narrativas podem ter um poder sinistro de impactar a nossa percepção de mundo.
‘A guerra dos tronos’, de George Martin, e “O feiticeiro de Terramar”, de Úrsula Le Guin
Na vida adulta, eu fiquei experimentando até encontrar o tipo de Fantasia que queria escrever. Tolkien não parecia moderno o suficiente, uma vez que o mundo tinha novos desafios e monstros para que eu enfrentasse, e a Terra Média não pareceu entender que dentro de mim também havia desafios e monstros.
Já no primeiro livro das “Crônicas de Gelo e Fogo”, de Martin, e na saga de Terramar, de Le Guin, encontrei histórias e personagens que precisavam lidar não só com as trevas do mundo, mas também com as do próprio coração. Encontrei neles autores que tinham algo a dizer sobre essa realidade violenta em que vivemos, e me deram as ferramentas para contar histórias que transformassem a dor em enredos. Le Guin, particularmente, ensina a encontrar luzes mesmo quando não parece existir nenhuma, enquanto Martin mostra, de forma brutal, que nada critica melhor a realidade do que a Fantasia.
Dia Mundial do Livro
Em honra ao dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro, convido você também, leitor ou leitora, a fazer sua própria retrospectiva, uma vez que as histórias que nos constroem são chave para entender quem nos tornamos, um exercício de autorreflexão que gosto bastante de fazer nesta época do ano.
Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).
Um filhote de macaco Mico rondoni surpreendeu quem estava em um espaço de eventos no dia 17 de abril, em Porto Velho (RO). O animal apareceu de forma inesperada, circulou pelo local e foi filmado.
O produtor Guilherme Gomes contou que organizava um evento quando notou a presença do macaco. Segundo ele, o responsável pelo espaço disse que o filhote tem aparecido com frequência no local há cerca de um mês.
A suspeita é de que o animal tenha se perdido do bando em uma área próxima, já que a região conta com mata preservada e presença de outros macacos. O espaço onde o filhote foi visto fica ao lado de um bosque, com muitas árvores, o que facilita a circulação e a permanência do mico.
De acordo com Guilherme, ao longo do dia o animal costuma ser visto circulando entre galhos e telhados, mas faz visitas frequentes ao local, especialmente no período da manhã. Segundo ele, o filhote tem comportamento dócil e curioso, se aproxima das pessoas e chega a subir nas mesas durante o café da manhã para pegar comida.
O Mico rondoni é um primata de pequeno porte, conhecido pela pelagem cinza e pelo comportamento ágil entre as árvores. A espécie é considerada única, pois existe exclusivamente no estado de Rondônia.
Descrito pela ciência apenas em 2010, o Mico rondoni está entre os primatas identificados mais recentemente no mundo. Antes disso, ele era confundido com outras espécies semelhantes. A confirmação como uma espécie distinta ocorreu após análises genéticas e morfológicas.
Além da raridade, o animal desempenha um papel importante no equilíbrio ambiental. Ao se alimentar de insetos e frutos, contribui para o controle de populações de pequenos animais e auxilia na regeneração de áreas degradadas, por meio da dispersão de sementes.
Apesar da importância ecológica, o Mico rondoni é classificado como vulnerável à extinção, principalmente devido à perda de habitat causada pelo desmatamento. Com a redução das áreas de floresta, encontros com a espécie em zonas urbanas têm se tornado mais comuns.
Especialistas alertam que, mesmo aparentando ser dócil, o contato com humanos deve ser evitado. A oferta de alimentos pode prejudicar a saúde do animal, aumentar o risco de transmissão de doenças e modificar seu comportamento natural.
O inverno amazônico, época de fortes chuvas na região Norte, é o período que mais contribui para as enchentes, fenômenos naturais que acontecem quando a água de rios, igarapés ou córregos transborda e alcança ruas e perímetros urbanos isolados. Tal cenário cria condições propícias para a proliferação de doenças através da água contaminada por bactérias, vírus e parasitas.
Por isso, o ambiente das enchentes gera grandes riscos à saúde, como a leptospirose, doença infecciosa causada a partir do contato direto de pessoas e animais com água, lama ou solo contaminado pela urina de rato.
Para a médica veterinária Jocilda Soares, é fundamental evitar qualquer tipo de contato com a água das enchentes, que geralmente se mistura com o lixo acumulado das ruas.
“As enchentes oferecem um grande risco de contaminação de doenças como leptospirose, hepatite A, diarreia, febre tifoide. A mais comum é a leptospirose, causada pela urina de rato e quando acometida a um paciente ou animal, é bem complicado reverter um quadro grave e evitar o óbito. Então, a gente tem que ter muito cuidado em não pisar na água e cuidar para que animais não tenham contato nem bebam dela para não contrair a doença”, explicou a médica.
Contato direto com água contaminada das enchentes pode provocar contaminação e transmissão de doenças. Foto: Dalton Pacheco
Jocilda destaca que, mesmo que tenha o contato inevitável com a água contaminada, é fundamental evitar a permanência por longos períodos, o que diminui o risco de contaminação da leptospirose.
“A melhor prevenção é evitar o excesso do contato com a água contaminada. Lembrando que o rato precisa estar com a doença, ele geralmente é o hospedeiro da doença, ou seja, não pega, mas transmite para o animal ou humano. Então, a gente não vai saber se a água está ou não contaminada, por isso o importante é: se puder evitar, melhor”, pontua.
Enchente não é diversão
Uma cena bem comum registrada durante as fortes chuvas são crianças pulando e nadando nas águas das enchentes. Apesar de parecer divertido, a prática esconde um grande risco à saúde dessas crianças, que vão deste a contaminação de doenças até acidentes fatais. Para Jocilda Soares, os pais precisam enxergar isso como um grande risco à vida humana e não como diversão.
“Infelizmente, é algo tão comum, mas que deveria ser evitado, principalmente com crianças. E é até meio difícil né, porque a gente vê até adultos brincando na água. Eles que têm mais entendimento, deveriam dar exemplo, mas até os adultos brincam nessa água suja”, lamenta.
Cena de crianças brincando na água é comum durante as enchentes. Foto: Reprodução/Portal Ambiente Legal
Orientações e tratamento da leptospirose
Além de evitar o contato com a água, Jocilda recomenda que os locais afetados pelas enchentes passem por um processo de limpeza com a utilização de produtos químicos.
“A primeira coisa é fazer a limpeza e desinfecção dos locais afetados pelas enchentes, usando água sanitária. É fundamental que as pessoas utilizem botas tipo galocha, capas e luvas para entrar na água e fazer este processo. Isso porque a bactéria está lá, não sabemos se ela vai estar ‘viva’, mas bactéria é bactéria, então existe a possibilidade de ter uma nova enchente e ela ser reativada”, explicou.
Utilização de botas é fundamental para evitar contato com água contaminada das enchentes. Foto: Reprodução/Unimed
Outro ponto importante, segundo Jocilda, são os sintomas após o contato com a água contaminada.
De acordo com a profissional, é essencial ter atenção redobrada em casos de sinais suspeitos e procurar uma unidade de saúde o mais rápido possível.
“Se aparecer febre alta, dores no corpo, diarreia, é necessário se atentar a esses sintomas, procurar um posto de saúde com urgência para verificar se houve contaminação. Já os animais, é fundamental que eles tomem uma vacina chamada múltipla para evitar lepstospirose, assim como outras doenças”, finalizou.
Águas que transformam
A entrevista com Jocilda Soares faz parte do quadro ‘Águas que transformam’, do programa Estação CBN Belém, da rádio CBN Amazônia, na edição de 23 de abril.
O especial visa ampliar o diálogo com a população e a melhoria do serviço do fornecimento de água no estado.
Imagem: Reprodução/Youtube-CBN Amazônia
Com apresentação da jornalista Ize Sena, o quadro vai ao ar toda quarta-feira no Estação CBN Belém, na 102.3 FM e no YouTube. Confira a entrevista completa (a partir de 1:19):
Confira mais episódios do especial ‘Águas que transformam’ AQUI.
O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e a Shell Brasil formalizaram o lançamento do Centro de Inovação Biotecnológica para Recuperação de Áreas Degradadas (Cibrad), que será voltado para o desenvolvimento de soluções que ampliem a recuperação de áreas degradadas na Amazônia.
Com investimento inicial de R$ 18,7 milhões da Shell Brasil, via cláusula de PD&I da ANP, o objetivo é acelerar o desenvolvimento de tecnologias para soluções baseadas na natureza.
Sediado no Inpa, em Manaus, o Cibrad integrará pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e inovação, conectando governo, comunidade científica, empresas e startups. A proposta é fortalecer cadeias produtivas de espécies nativas, conservar recursos genéticos e estimular novos negócios ligados à restauração florestal e ao mercado de carbono. A iniciativa também prevê a modernização da infraestrutura de pesquisa do Inpa.
Segundo o secretário da Subsecretaria para a Amazônia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Dorival dos Santos, o Cibrad é um marco para a ciência brasileira e para o futuro da Amazônia.
“Tenho plena confiança de que o Centro se tornará uma referência internacional em biotecnologia aplicada à restauração florestal e à economia de baixo carbono. Mais do que um centro de pesquisa, o Cibrad nasce como um espaço de convergência entre ciência, inovação e compromisso com o futuro da Amazônia. Proteger a floresta, restaurar seus ecossistemas e gerar conhecimento a partir dela é investir diretamente no futuro do Brasil e do planeta”, destaca.
“A criação do Cibrad reforça como a inovação aberta é essencial para avançarmos em soluções concretas para desafios complexos, como a recuperação de áreas degradadas na Amazônia. A iniciativa nasce de uma parceria prévia entre Shell e Inpa, iniciada em 2022, quando se formou a rede de instituições e pesquisadores que vão atuar no referido centro. Esse é um exemplo de como a Shell Brasil, por meio de Pesquisa e Desenvolvimento, atua em parceria para transformar conhecimento em impacto positivo e acelerar o desenvolvimento de tecnologias baseadas na natureza”, afirma Alexandre Breda, gerente de Tecnologia e Inovação da Shell Brasil.
O Cibrad reúne um consórcio de projetos que abrangem instituições de pesquisa dos nove estados da Amazônia Legal. Entre as iniciativas estão o NanoRad’s 2.0, que aplica abordagens bio e nanotecnológicas para acelerar plantios florestais, e o Amazon GeneBank, dedicado ao apoio a programas de melhoramento genético e à conservação de sementes e microrganismos da Amazônia Legal.
“Com o Cibrad, estamos dando um passo além: sistematizar a pesquisa associada a plantios florestais com um objetivo maior, que é estruturar cadeias produtivas baseadas em espécies nativas. Isso envolve avançar em uma silvicultura de alta performance e conectar esse conhecimento a agendas estratégicas, como o mercado de carbono. Esse alinhamento é fundamental para o que esperamos construir nas próximas décadas na Amazônia”, ressalta o diretor do Inpa, Henrique Pereira.
Unidade do Inpa em Manaus. Foto: Reprodução/Inpa
Pesquisas do Inpa e parceiros ajudam na construção no centro
As pesquisas abrangem dez espécies florestais amazônicas de áreas degradadas de elevado potencial para restauração, como castanheira-da-Amazônia, andiroba, cumaru, mogno, copaíba e seringueira.
Além dos projetos conduzidos no âmbito do Inpa, o Cibrad também conecta iniciativas desenvolvidas em parceria com startups como Krilltech e Bioflore, ampliando o potencial de aplicação prática das pesquisas e fortalecendo o ecossistema de inovação voltado à restauração florestal na Amazônia.
A Amazônia tem cerca de 20% de áreas degradadas desflorestadas, equivalente a 1 milhão de quilômetros quadrados.
“O Cibrad se propõe a implementar não só o processo de domesticação de novas espécies, mas também de espécies que já têm cadeias produtivas consolidadas. Isso significa trazer processos de melhoramento genético, número de propágulos o suficiente para reflorestar grandes áreas e impactar não só o mercado de carbono, mas a indústria de produtos e processos”, conta o coordenador do Cibrad, o pesquisador do Inpa, José Francisco de Carvalho Gonçalves.
A coordenação dos projetos será acompanhada por um Conselho Diretor e supervisionada por um comitê técnico-científico composto por pesquisadores, cientistas e profissionais das empresas parceiras, assumindo uma governança moderna e identificada com os mais elevados princípios de transparência e compliance.
Osinfor destacou o trabalho realizado pela comunidade Coriteni Tarso na gestão sustentável das florestas e afirmou que esse trabalho pode servir de modelo. Foto: Reprodução/Agência Andina
A Agência de Supervisão dos Recursos Florestais e da Vida Selvagem (Osinfor) no Peru destacou o trabalho realizado pela comunidade Ashaninka Coriteni Tarso na gestão sustentável das florestas, tornando-se seu melhor aliado para avançar, e afirmou que esse trabalho pode servir de modelo para a Selva Central.
A entidade não apenas destacou o trabalho da comunidade, mas também dedicou uma crônica a ela detalhando o importante trabalho que realizam. Cercada pelas montanhas exuberantes da selva de Junín, onde o canto dos pássaros se mistura com o poderoso som do rio Tambo, a comunidade nativa de Coriteni Tarso, em Satipo, aprendeu a transformar seu destino. O que antes era incerteza agora é um exemplo: um povo Ashaninka que está emergindo como referência na gestão legal e sustentável das florestas.
Há 10 anos, entre trilhas de lama e árvores gigantes, a comunidade começou suas atividades madeireiras com mais dúvidas do que certezas. Nessa estrada, cometeram algumas infrações que afetaram suas florestas. A selva era generosa, mas também vulnerável.
Brandon Mahuanca Ramírez, um jovem Ashaninka membro do comitê de vigilância. Foto: Reprodução/Agência Andina
“No começo, não sabíamos como realizar a vigilância correta dos nossos recursos, os empresários nos enganaram sobre o volume da nossa madeira”, recorda Brandon Mahuanca Ramírez, um jovem Ashaninka membro do comitê de vigilância, enquanto segura folhas de coca entre os dedos e observa o vasto horizonte das montanhas de sua floresta com uma mistura de orgulho e memória.
A floresta, que sempre foi seu lar, começou a se tornar um território de risco. A falta de conhecimento técnico não apenas afetou sua renda, mas também levou a que recebessem duas sanções que hoje fazem parte de sua história como uma experiência de aprendizado que conseguiram reverter.
O medo não era apenas econômico, mas também cultural e ambiental. A comunidade entendia que, se continuassem assim, poderiam perder muito mais do que dinheiro: controle direto de seus recursos, seu território e sua identidade. Cada árvore mal usada também representava uma ameaça ao equilíbrio que protegiam por gerações.
Treinamento da Osinfor para comunidade Ashaninka. Foto: Reprodução/Agência Andina
Diante dessa ameaça silenciosa, a comunidade Ashaninka tomou uma decisão transcendental: aprender. Assim, em 2017, iniciou uma mudança de atitude e adotou novas práticas para a gestão sustentável de suas florestas.
Esse processo foi acompanhado pela Agência de Supervisão dos Recursos Florestais e de Vida Selvagem (OSINFOR), que, por meio da Mochila Florestal, promoveu o fortalecimento de capacidades com uma abordagem intercultural.
Os dias de aprendizado eram realizados na floresta da comunidade. Entre homens e mulheres Asháninka, aprenderam a cortar a madeira em cubos, registrar em cadernos de campo e, acima de tudo, a importância de extrair seus recursos legalmente. “Estou muito feliz com o apoio da OSINFOR. Com o treinamento deles, aprendemos nosso papel principal e, acima de tudo, não devemos nos deixar enganar”, diz o chefe da comunidade, Nelbyn Izaguirres Camaiteri.
Com novas ferramentas em mãos, a comunidade assumiu o controle direto da gestão de seu território florestal. Brandon, agora com GPS e um caderno de campo, viaja quilômetros sob o sol e a chuva.
“Graças às oficinas que aprendi a colocar cubos, preencher cadernos de campo, agora monitoro a extração da madeira da minha floresta”, diz ele com grande determinação.
A organização também foi fortalecida. Eles decidiram trabalhar com um regente florestal para garantir a rastreabilidade da madeira e proteger as árvores com sementes. “Realizamos o inventário e rastreamos o processo legal de extração, sempre protegendo as árvores sementes”, explica Brayan Dolores Camargo, engenheiro florestal que tecnicamente acompanha a comunidade.
Graças a esse esforço, a comunidade não apenas foi fortalecida internamente, mas também conseguiu se consolidar formalizando seus acordos e negociando em termos mais justos com empresas externas que aproveitam seus recursos madeireiros.
Os resultados não demoraram a se tornar visíveis. Nos anos de 2017, 2019, 2024 e 2026, a comunidade passou com sucesso nas supervisões florestais. No último ano, obteve um certificado de cumprimento das obrigações, reconhecimento do esforço para implementar boas práticas no uso sustentável de seus recursos florestais. Mas as mudanças não estão vistas apenas em documentos.
Hoje, a comunidade tem uma qualidade de vida melhor: estradas que facilitam o comércio, acesso à internet, infraestrutura comunitária e novas oportunidades em piscicultura e agricultura, de modo que sua floresta ainda está de pé e, com ela, seu futuro próspero. “Os verdadeiros Asháninka conservam suas florestas, porque na floresta há vida e sustento”, diz Brandon, com orgulho.
A experiência da comunidade transcende suas próprias fronteiras e é projetada como uma mensagem viva para outros povos da selva peruana. “Deixe outras comunidades aprenderem, que sejam treinadas”, convida o jovem líder Asháninka com convicção.
Assim, essa comunidade demonstra que o uso sustentável é uma prática que exige compromisso e profundo respeito pela natureza. Porque em cada árvore que permanece de pé e em cada decisão tomada com responsabilidade, vence uma verdade simples, mas poderosa: cuidar da floresta é, de fato, tarefa de todos.