Dia Mundial do Livro: qual obra mudou a sua vida?

Enquanto autor, considero o Dia Mundial do Livro uma data para relembrar das obras que causaram grande impacto na minha vida, que moldaram minha trajetória enquanto leitor até que me tornasse, também, um escritor.

Foto: Apoena Fotografia

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Em abril, há muitas datas que celebram a Literatura: temos, no dia 02.04, o Dia Internacional do Livro Infantil, enquanto no dia 18.04, comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil. Já no dia 09.04, celebra-se o Dia da Biblioteca, em honra aos espaços de leitura e o trabalho dos bibliotecários. Finalmente, no dia 23.04, o Dia do Livro, elemento central da Literatura, ganha destaque, uma homenagem feita pela UNESCO às vidas de William Shakespeare e Miguel de Cervantes.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Enquanto autor, considero esta uma data para relembrar das obras que causaram grande impacto na minha vida, que moldaram minha trajetória enquanto leitor até que me tornasse, também, um escritor.

Assim, gostaria de fazer uma breve retrospectiva das leituras que mudaram minha vida, a fim de compartilhar algumas das experiências que a Literatura me proporcionou ao longo desses últimos anos como quem olha para o passado e reconhece os amigos que fez ao longo do caminho.

Alguns se foram.

Alguns se perderam.

Alguns permaneceram.

Todos foram indispensáveis.

Nenhum chegou a ser esquecido.

Ruth Rocha conta ‘A Odisseia’

Imagem: Reprodução

Claro que, como uma boa criança brasileira, Maurício de Souza foi minha porta de entrada para a leitura, mas foi com a versão infantojuvenil que Ruth Rocha fez de “A Odisseia”, de Homero, que fui definitivamente batizado.

Minha história com esse livro começa num tempo em que bibliotecas em escolas públicas não eram espaços acessíveis, então os empréstimos eram feitos de modo informal pelos próprios professores quando a Secretaria de Educação enviava novos exemplares.

Não me orgulho do que vou dizer, mas também não me arrependo: eu fui um menino que roubava livros. Minha única entrada no mundo do crime se deu pelo encanto que tive com essa história, uma vez que me lembrou dos filmes que assistia com meu pai na Tela de Sucessos.

Não suportei a ideia de ficar sem as aventuras de Ulisses e suas disputas com os próprios deuses, então o livro simplesmente não retornou à escola no dia devido. Não me arrependo pois não era minha culpa se, na época, não tínhamos espaços nem profissionais adequados para que pudéssemos ler na própria escola, e meu delito chamou a atenção de meus pais para meu interesse pela leitura. Logo, ganhar livros no meu aniversário se tornou um costume, então algo de muito bom saiu disso tudo (crianças, não tem necessidade disso hoje, hein).

‘O senhor dos anéis’, de J.R.R. Tolkien

livro O senhor dos anéis de J.R.R. Tolkien
Imagem: Reprodução

Após “A Odisseia”, eu me tornei fanático por Fantasia. Então, quando assisti à adaptação de Peter Jackson da obra de J.R.R. Tolkien, me senti como Alice na toca do Coelho.

Lembro que ver o mago Gandalf, ali tão pequeno, enfrentando um gigantesco demônio de fogo às bordas de um abismo sem fundo não só foi para mim sinônimo da coragem suprema, mas também o exemplo definitivo da magia que pulsa na Fantasia.

Desnecessário dizer que, quando tive idade suficiente (e coragem para ler um livro da grossura de uma bíblia), “O senhor dos anéis” se tornou uma das obras fundamentais da minha vida, e quem é fã de Tolkien conhece o esquema de pirâmide que é acompanhar o seu trabalho: inevitável ler também “O hobbit”, “Silmarillion” e “Contos inacabados”.

Enquanto escritor, minha missão se tornou reproduzir em meus leitores a mesma sensação de encantamento que senti vendo Gandalf nos abismos de Moria.

‘Uma vela para Dario’, de Dalton Trevisan

Capa da adaptação em quadrinhos feita por Robson Vilaba, disponível em https://nanu.blog.br/uma-vela-para-dario/

Aqui, temos um caso interessante. Após a experiência com Fantasia na escola me catapultar para o curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Amazonas, conheci textos estranhos e impressionantes. Descobri que a realidade pode ser tão bizarra quanto a Fantasia, e a fronteira entre as duas pareceu mais fina.

Conheci obras de Machado, de Clarisse, de Hatoum, mas foi a prosa curta e afiada do paranaense Dalton Trevisan que fez o corte mais fundo.

Acredito que todo estudante de Letras já leu “Uma vela para Dario”, conto que mostra o quão absurda é a indiferença do ser humano diante da vida, tomado por uma passividade monstruosa por conta da dinâmica da rotina.

Isso me assustou mais do que as histórias de suspense e horror que lia na época, e me mostrou que, mesmo curtas, as narrativas podem ter um poder sinistro de impactar a nossa percepção de mundo.

‘A guerra dos tronos’, de George Martin, e “O feiticeiro de Terramar”, de Úrsula Le Guin

Na vida adulta, eu fiquei experimentando até encontrar o tipo de Fantasia que queria escrever. Tolkien não parecia moderno o suficiente, uma vez que o mundo tinha novos desafios e monstros para que eu enfrentasse, e a Terra Média não pareceu entender que dentro de mim também havia desafios e monstros.

Já no primeiro livro das “Crônicas de Gelo e Fogo”, de Martin, e na saga de Terramar, de Le Guin, encontrei histórias e personagens que precisavam lidar não só com as trevas do mundo, mas também com as do próprio coração. Encontrei neles autores que tinham algo a dizer sobre essa realidade violenta em que vivemos, e me deram as ferramentas para contar histórias que transformassem a dor em enredos. Le Guin, particularmente, ensina a encontrar luzes mesmo quando não parece existir nenhuma, enquanto Martin mostra, de forma brutal, que nada critica melhor a realidade do que a Fantasia.

Dia Mundial do Livro

Em honra ao dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro, convido você também, leitor ou leitora, a fazer sua própria retrospectiva, uma vez que as histórias que nos constroem são chave para entender quem nos tornamos, um exercício de autorreflexão que gosto bastante de fazer nesta época do ano.

Então, quais livros mudaram sua vida?

jan santos autor amazonense
Foto: Apoena Fotografia

Leia também: Contos com cheiro de terra molhada

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Macaco que só é visto em Rondônia faz visita inesperada em espaço de eventos

O macaco Mico rondoni está entre os primatas identificados mais recentemente no mundo. Antes disso, ele era confundido com outras espécies semelhantes.

Leia também

Publicidade