Por meio de sua plataforma Geobosques, o Programa Florestas do Ministério do Meio Ambiente (Minam) no Peru monitora continuamente cerca de 67,5 milhões de hectares, o que corresponde a 100% das florestas tropicais da Amazônia no país.
Segundo Daniel Castillo, chefe da Área de Monitoramento Florestal do referido programa setorial, esta iniciativa utiliza análise de imagens de satélite, software especializado para processamento de imagens de satélite e sistemas de informação geográfica, o que permite gerar informações precisas e oportunas sobre a cobertura florestal. Com base nesses dados, são gerados alertas precoces sobre a perda florestal.
O sistema está em funcionamento contínuo desde 2016 e é de acesso gratuito para o público em geral. Ele fornece dados abertos para apoiar a tomada de decisões.
Até o momento, em 2025, 19 pacotes de alerta foram publicados em todo o país. “Essas informações são fundamentais para a conservação, o monitoramento e o planejamento do uso da terra”, informa o Minam.
Atualmente, essa ferramenta digital conta com mais de 6.700 usuários inscritos em seu sistema de alertas, que recebem notificações personalizadas sobre mudanças detectadas em suas áreas de interesse.
Escritórios regionais de monitoramento da floresta
Foto: Reprodução/Ministério do Meio Ambiente no Peru
O Programa implementou três escritórios regionais de monitoramento em Huánuco, Puno e Amazonas (no Peru), graças a um investimento de aproximadamente S/ 1,7 milhão (moeda peruana). Cada escritório está equipado com tecnologia avançada, permitindo que essas regiões monitorem diretamente 5,6 milhões de hectares da floresta amazônica. Dessa forma, contribui para a detecção precoce de ameaças e para a coordenação oportuna com os governos regionais para a conservação florestal.
Até o final deste ano, está prevista a abertura de três novos escritórios descentralizados em Loreto, Junín e Pasco. Isso ampliará a rede de monitoramento e fortalecerá a capacidade técnica dos governos regionais, segundo o Minam.
A COP30 chegou em Belém (PA) este mês e, durante duas semanas são esperadas mais de 50 mil pessoas na cidade, segundo o Ministério do Turismo. Além de participar do evento que trata das mudanças do clima no mundo, é possível conhecer um pouco da Amazônia paraense.
O visitante tem diversas opções que contam com suas próprias programações expondo a história, a versatilidade e a efervescência cultural da capital paraense.
Estação das Docas
Inaugurada em 13 de maio de 2000, a Estação das Docas é referência nacional, o espaço congrega gastronomia, cultura, moda e eventos na orla fluvial do antigo porto de Belém. O complexo turístico é quase uma “parada obrigatória” da cidade.
Considerada a maior feira aberta da América Latina, o Mercado Ver-o-Peso é um dos ícones de Belém. As ervas, banhos, frutas e muito muito mais são responsáveis por atrair centenas de visitantes diariamente ao local. O Complexo de 25 mil m² é formado por construções históricas como o Mercado de Carne, Praça do Relógio, Doca, Feira do Açaí e a Ladeira do Castelo.
O Museu Paraense Emílio Goeldi, desde sua fundação em 1866, concentra-se no estudo científico dos sistemas naturais e socioculturais da Amazônia, bem como na divulgação de conhecimentos e acervos relacionados à região. O Parque Zoobotânico do museu é o primeiro parque do gênero no país. O local é um dos escolhidos também para receber ações da COP30.
O curta ‘Yuri‘(doc, 10 min, 2025), produzido por estudantes em oficina de audiovisual em Caracaraí (RR) foi selecionado para compor a programação de uma das maiores Mostras de Cinema do país. A programação da 21ª edição da Mostra Internacional do Cinema Negro de São Paulo (MICINE/SP), que será realizada de 3 de novembro à 22 de dezembro de 2025, exibindo filmes brasileiros e de outros países.
A Mostra acontecerá presencialmente em diversos pontos de São Paulo, como no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP; Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS/SP); Diversitas – Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos, da Universidade de São Paulo; no LabArte/FEUSP; Cine REAG Belas Artes e; na Faculdade Sesi de Educação.
A mostra é uma realização da Fiesp/SP, com apoio da Fundação Roberto Marinho, Globo Filmes, Canal Futura, Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, com curadoria do professor, livre docente da USP e antropólogo, Dr. Celso Luiz Prudente.
Dirigido pelos cineastas Leandro Monte e Éder Santos, o curta ‘Yuri’ foi idealizado e roteirizado por adolescentes que participaram de duas oficinas de cinema em Caracaraí (RR). A equipe de produção é composta por estudantes do município, como parte das atividades da Mostra de Cinema “A Moda é Viver”, realizada em abril desse ano, com apoio de emenda parlamentar do deputado federal Zé Haroldo (PSD).
“Estamos felizes e honrados com a seleção de um de nossos curtas. Participar de uma mostra internacional que valoriza experiências da Amazônia é um reconhecimento importante para quem vive no interior do estado de Roraima e acredita na cultura como instrumento de superação e oportunidade para os jovens”, afirma Alda Araújo, que é presidente do Instituto A Moda é Viver.
Foto: Divulgação
O diretor e cineasta, Éder Santos, explica que a comunidade em Caracaraí é a protagonista nesse processo.
“A partir das atividades da Mostra local em Caracaraí foi despertado o interesse dos alunos para fazer audiovisual, envolvendo uma rede de amigos, familiares, professores e gestores da escola do município. Cinema é coletividade. O cinema negro é o cinema das maiorias minorizadas e Roraima estará bem representado”, comemorou.
O curta
Yuri conta a história de luta de uma adolescente local, Luciana Paiva, que após enfrentar vários dramas pessoais, como a separação dos pais, o falecimento do pai em um acidente, a descoberta da gravidez e o nascimento de seu filho, Yuri, superou o preconceito e os desafios para finalizar seus estudos.
O MPF quer que o Estado conclua o processo de tombamento e apresente plano de preservação da ferrovia. Foto: Reprodução/Rede Amazônica RO
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação na Justiça para pedir a proteção e o tombamento definitivo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), em Rondônia. O órgão quer que o Estado conclua o processo de tombamento e, junto com a União e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), apresente um plano de preservação da ferrovia.
O MPF também pede que os responsáveis paguem R$ 6 milhões por danos morais coletivos, dinheiro que deve ser usado em projetos de valorização do patrimônio histórico.
A ferrovia, que liga Porto Velho a Guajará-Mirim (RO), é um dos principais símbolos da história de Rondônia e está até no brasão do Estado. Parte do conjunto — como os trilhos, o pátio ferroviário, as Três Caixas d’Água e o Cemitério da Candelária — já é protegida pelo Iphan desde 2007.
Mesmo assim, o MPF afirma que o tombamento estadual ainda não foi concluído, porque o governo de Rondônia não terminou o processo formal exigido por lei. Segundo a ação, A Secretaria da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer do Estado (Sejucel) informou que o tombamento é definitivo, mas o MPF contesta essa informação e diz que falta documentação e ações práticas de preservação.
Durante a investigação, o MPF também apontou falta de diálogo com o governo estadual e ausência de medidas concretas para proteger o local. Segundo o órgão, a situação de abandono da ferrovia tem piorado com o tempo.
A EFMM, considerada um dos marcos históricos mais importantes da Amazônia, sofre há anos com roubos, depredações e ocupações irregulares. Trilhos e pontes metálicas foram levados, dormentes foram usados em outras construções e locomotivas estão abandonadas.
Na ação, o MPF pede que a Justiça determine:
Que o Estado de Rondônia inicie o processo de tombamento em 30 dias e conclua tudo em até um ano;
Que o Estado, a União e o Iphan elaborem em 180 dias um plano conjunto para recuperar e proteger os trilhos, estações e locomotivas;
Que os réus paguem indenização, sendo R$ 1 milhão pelo Estado e R$ 5 milhões pela União e pelo Iphan juntos;
E, se o tombamento não cobrir todos os 366 km da ferrovia, que a União recolha os materiais restantes (como trilhos e dormentes) em até um ano, respeitando o direito à moradia das famílias que vivem nesses locais, com apoio da Defensoria Pública.
O Grupo Rede Amazônica entrou em contato com o Governo de Rondônia, a União e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
A ferrovia marcou a fundação da capital de Rondônia. Foto: Reprodução/Rede Amazônica RO
“Cemitério das locomotivas” em Rondônia
Parte da história de Porto Velho está esquecida, já que alguns veículos e vagões da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM) estão abandonados há mais de 50 anos nos trilhos da ferrovia. O que era para ser lembrado como história na fundação e desenvolvimento, hoje é conhecido como ‘cemitério das locomotivas’.
A ferrovia marcou a fundação da capital de Rondônia e tinha como objetivo o transporte do principal produto de exportação brasileiro da época: a borracha.
Segundo o historiador e professor Célio Leandro, após a desativação da EFMM na década de 70, cerca de nove locomotivas foram deixadas nos trilhos que ligavam Porto Velho a Guajará-Mirim, próximo do atual ‘cemitério da Candelária‘.
Além dessas, outros veículos do trem foram restaurados e estão localizados no Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no espaço alternativo da cidade e nas proximidades do Museu Rondon.
De acordo com Jorge Teles, presidente da Associação dos Ferroviários da EFMM, desde a desativação da ferrovia, há mais de 50 anos, as estruturas se deterioraram e acabaram sendo abandonadas e tomadas pelo matagal.
Ainda de acordo com o presidente, a Associação não tem o quantitativo de máquinas e peças dos veículos que foram deixadas pela malha ferroviária, mas destacou que a Associação entrou com um pedido de tombamento de preservação e agora, aguarda o retorno.
Inaugurada em 1° de agosto de 1912, a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré fazia parte do tratado de Petrópolis selado com a Bolívia, em 1903, após a compra de território boliviano pelo Brasil. O ‘combinado’ no tratado foi construir a ferrovia Madeira Mamoré em um prazo de quatro anos.
Depois de dois anos de lucro, a ferrovia em Rondônia entrou em declínio devido à queda vertiginosa da participação brasileira no mercado da borracha. Isso porque a concorrência asiática oferecia um produto de qualidade e de mais fácil extração, afetando assim a exportação brasileira.
Com 54 anos acumulando prejuízos, Humberto de Alencar Castelo Branco determinou a erradicação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que foi substituída por uma rodovia.
Mulheres são centrais para a transformação ecológica e justa na Amazônia. Essa é a tônica do projeto de Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, que tem mulheres quilombolas e catadoras de materiais recicláveis da região como foco.
O objetivo é fortalecer as capacidades desse grupo para a participação social, política e econômica nas agendas sobre clima e meio ambiente na região, reduzindo a situação de vulnerabilidade à violência e às múltiplas formas de discriminação.
O projeto tem sido desenvolvido em Belém do Pará, coração da Amazônia, nos territórios do Marajó e na Região Metropolitana de Belém.
Nomeado “Mulheres como Agentes-Chave para uma Transformação Ecológica e Socialmente Justa na Amazônia”, a iniciativa é implementada pelo Ministério das Mulheres e pela Agência Alemã de Cooperação (GIZ), com recursos do Ministério Federal da Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha.
Em outubro, o projeto realizou oficinas de planejamento com as quilombolas de diferentes comunidades localizadas na Ilha do Marajó, que integram a Malungu (Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará), e de autocuidado com 35 catadoras de diferentes cooperativas da Região Metropolitana de Belém. O tema de enfrentamento à violência e trabalho de cuidado guiou as atividades.
Nery Araújo, coordenadora de atendimento do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, participou das atividades e avaliou o momento como produtivo para os objetivos do projeto. “Muito proveitoso, estivemos desenvolvendo metodologias para avançar nas questões e na identificação dos pontos importantes para essas mulheres”, disse Nery, que atua na Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência do Ministério.
Ana Taila, que é quilombola da comunidade Balieiro, no município de Bagre, na Ilha do Marajó, contou que a expectativa é que o projeto consiga levar até elas políticas que normalmente não chegam a seus territórios.
“Muitas vezes as nossas mulheres são esquecidas, as políticas não chegam até nós. Temos uma grande esperança de que ele venha nos trazer muitas oportunidades e nos fortalecer para buscar o nosso espaço e para conseguir esse espaço dentro da sociedade”, contou.
Claudinete de Assunção, da comunidade quilombola de Rosário, no município de Salvaterra, na Ilha do Marajó, vê no projeto a possibilidade de levar mais segurança para elas no território. “Envolver, capacitar e ter uma participação política ainda maior, fortalecer as nossas mulheres, as nossas comunidades e, acima de tudo, a nossa Vila do Marajó”, acrescentou Claudinete.
Até 2027, foram mapeadas uma série de oportunidades de atuação em âmbito local, nacional e internacional, como na COP30 (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), que acontece em Belém do Pará, em novembro de 2025, para garantir às catadoras e quilombolas espaços para a participação política, oportunidades de conquistar autonomia econômica e ações de prevenção à violência.
Também faz parte da parceria entre o Ministério das Mulheres e a GIZ, com o Sebrae, o apoio ao EcoCírio, por meio do Programa Pró-Catadoras e Pró-Catadores de Reciclagem Popular. Durante o Círio de Nazaré de 2025, a iniciativa envolveu 10 cooperativas e cerca de 200 pessoas catadoras de resíduos, estimulando o protagonismo das que desempenham essa função.
Além disso, a pasta coordena o Fórum Nacional de Mulheres Catadoras de Materiais Recicláveis, que reúne gestoras de cooperativas e movimentos de base em discussões sobre políticas públicas, condições de trabalho e reconhecimento profissional para a categoria.
Documento reunirá propostas de ações e reivindicações das comunidades amazônicas sobre mudanças climáticas, preservação da floresta e desenvolvimento sustentável. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM
Lideranças comunitárias, representantes de movimentos sociais e organizações da sociedade civil iniciaram, nesta quarta-feira (5), a construção da chamada “Carta da Amazônia” durante o primeiro dia de viagem do barco Banzeiro da Esperança, que partiu de Manaus (AM) rumo à COP30, em Belém (PA).
A “Carta da Amazônia” será o documento que reunirá propostas de ações e reivindicações das comunidades amazônicas sobre mudanças climáticas, preservação da floresta e desenvolvimento sustentável. O conteúdo será apresentado durante a Conferência da ONU sobre o Clima, marcada para ocorrer entre os dias 10 e 21 de novembro.
Com o tema “Banzeirou”, a programação começou com uma abertura oficial conduzida por representantes da organização da expedição, como a Fundação Amazônia Sustentável e a Virada Sustentável, além de uma apresentação cultural de artistas que participam da jornada.
Em seguida, a comitiva que viaja no barco participou de dinâmicas como a chamada “farinhada” – ato de produção da farinha – que foi usada como exemplo para que os participantes trabalhem em conjunto em prol da missão da expedição.
Durante a tarde, os debates para a construção dos manifestos coletivos que integrarão a carta final, a principal missão da expedição, têm início no “Banzeiro da Esperança”.
Barco levará ações para comunidades durante o trajeto. Foto: Divulgação/FAS
Carta da Amazônia
Um dos participantes dos debates e da expedição é o presidente da Associação Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, Carlos de Carvalho Gonçalves. Ele contouque se reuniu com lideranças antes de iniciar a viagem e reuniu as principais melhorias que o povo que vive na região precisa para que a floresta permaneça preservada.
“O povo tá muito preocupado com tudo aquilo que o mundo tá fazendo e tá olhando de uma forma a Amazônia. A Amazônia é importante, precisa nos ouvir pra poder falarmos realmente aonde precisa mudar e aonde precisa realmente colocar os pontos da necessidade. Eu acredito que a Amazônia está de pé, mas isso só é possível porque existe um povo que cuida, que protege e que mora nela. Então é junto com as instituições as quais o ‘Banzeiro da Esperança’ está levando, que a gente coloca o conhecimento tradicional e o científico”, disse Gonçalves.
Segundo os organizadores, a ideia é que o documento reflita vozes de territórios que historicamente têm pouca participação nas tomadas de decisão sobre questões ambientais. As discussões no barco devem continuar ao longo de toda a viagem pelos rios da região.
“A gente está construindo, ao longo dessa jornada, uma visão que vai procurar colocar todos os que estão aqui dentro como autores. Essa carta vai trazer um manifesto desse universo, que obviamente não representa a Amazônia inteira, é uma amostra da Amazônia, mas é uma amostra que tem uma legitimidade importante para trazer a sua visão sobre como nós podemos esperançar, praticar o verbo de manter acesa a chama da esperança”, afirmou o superintendente geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Virgílio Viana.
A expedição faz parte da “Jornada COP 30”, mobilização que percorre rios da Amazônia com lideranças comunitárias, representantes de movimentos sociais, organizações da sociedade civil e instituições públicas, visando construir planos de ação climática a partir da realidade das comunidades amazônicas.
Segundo Eunice Venturi, gerente de Comunicação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o barco foi adaptado para a missão e transporta cerca de 230 pessoas:
“O Banzeiro da Esperança foi preparado para receber lideranças comunitárias de todo o Amazonas. Mais do que uma embarcação, ele representa uma jornada que começou no início do ano e que vai levar as vozes dessas comunidades até a COP30”.
Durante o trajeto, o barco funcionará como espaço de diálogo e construção coletiva, com oficinas e encontros sobre crise climática. As propostas debatidas serão reunidas em uma carta final a ser apresentada durante a COP 30, que acontece entre os dias 10 e 21 de novembro, em Belém.
“Essa carta vai reunir tudo o que foi debatido nessa jornada, trazendo as perspectivas de comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas. Queremos mostrar o ponto de vista de quem vive longe dos centros urbanos e sente mais intensamente os impactos das mudanças climáticas”, completou Venturi.
O povo indígena Tsimane, que habita regiões da Amazônia boliviana, tem despertado atenção da comunidade científica internacional por seus índices de envelhecimento saudável. Estudos apontam que os indígenas apresentam uma das menores taxas de doenças cardiovasculares do mundo.
Vivendo em comunidades isoladas, os Tsimane mantêm hábitos de vida distintos dos padrões urbanos modernos. A alimentação natural, o contato direto com a floresta e a rotina de atividades físicas são alguns dos fatores considerados determinantes para a longevidade.
Pesquisadores têm acompanhado essa população há mais de uma década, com levantamentos que envolvem exames clínicos, análises genéticas e estudos de campo. Os resultados revelam dados que contrastam com os números de países industrializados.
Entre as descobertas, os cientistas identificaram que os Tsimane possuem corações com sinais de envelhecimento muito mais tardios. Isso se reflete em uma expectativa de vida mais longa e com menos limitações de saúde.
Estilo de vida e hábitos alimentares
Os Tsimane vivem principalmente nas margens dos rios e em áreas de floresta, localizadas no departamento de Beni, na Bolívia. Estima-se que o grupo reúna cerca de 16 mil pessoas distribuídas em diferentes comunidades. A base da alimentação é composta por mandioca, banana, milho, peixe e carne de caça, além de frutas nativas da região. Esses alimentos garantem uma dieta rica em fibras e proteínas, com baixo consumo de gordura saturada.
Mesmo idosos continuam ativos em suas comunidades, desempenhando tarefas diárias sem interrupção. Esse padrão difere dos cenários urbanos, onde o sedentarismo é um dos principais fatores de risco para doenças crônicas.
Pesquisas realizadas pela Universidade da Califórnia e pelo Instituto Santa Fé, nos Estados Unidos, mostraram que mais de 85% dos adultos Tsimane apresentavam artérias em excelente condição, mesmo em idades avançadas. O estudo envolveu exames de tomografia computadorizada para avaliar o acúmulo de cálcio nas artérias coronárias, considerado um dos principais indicadores de problemas cardíacos.
Além disso, as taxas de obesidade e diabetes entre os Tsimane são extremamente baixas em comparação com populações urbanas da América do Sul. Isso reforça a hipótese de que os fatores ambientais e culturais desempenham papel central no envelhecimento saudável dessa população.
Longevidade e estudos científicos
Mas envelhecimento entre os Tsimane não está livre de desafios. Apesar da baixa incidência de doenças cardiovasculares, o artigo publicado em 2007 destaca ainda que eles enfrentam riscos relacionados a infecções, acesso limitado a cuidados médicos e mortalidade infantil elevada. Ainda assim, os idosos conseguem manter qualidade de vida por mais tempo, preservando funções cognitivas e motoras.
Este mesmo estudo destacou que o coração dos Tsimane envelhece cerca de duas décadas mais devagar em comparação ao de adultos de sociedades industrializadas. Isso significa que um idoso de 70 anos entre os Tsimane pode apresentar condições cardíacas semelhantes às de um adulto de 50 anos nos centros urbanos.
A ciência tem buscado entender como esse padrão pode contribuir para a prevenção de doenças em outras populações. Pesquisadores apontam que a combinação entre dieta tradicional, intensa atividade física e baixo nível de exposição a alimentos processados cria um ambiente biológico favorável para o envelhecimento saudável.
Foto: Tsimane Health and Life History Project Team
A pesquisa destaca ainda que os Tsimane também demonstram níveis reduzidos de inflamação crônica, considerada um dos fatores que aceleram o envelhecimento celular. Mesmo em casos de infecções recorrentes, o organismo desses indígenas apresenta uma resposta diferenciada, o que contribui para a proteção contra doenças degenerativas.
Atualmente, os estudos sobre os Tsimane seguem em expansão, envolvendo equipes multidisciplinares da Bolívia, dos Estados Unidos e de outros países. O objetivo é compreender melhor os mecanismos de saúde dessa população, mas, ao mesmo tempo, respeitar sua cultura e modo de vida.
Desafios dos Tsiname
Apesar dos benefícios naturais de seu estilo de vida, os Tsimane enfrentam pressões externas. O avanço de atividades extrativistas, o desmatamento e a aproximação com áreas urbanas têm trazido mudanças culturais e alimentares. A introdução de produtos industrializados em algumas comunidades já começa a alterar padrões de saúde observados por pesquisadores.
Organizações locais e internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), alertam para a necessidade de políticas que garantam a preservação do território e a proteção da cultura dos Tsimane. Manter os hábitos tradicionais é visto como fundamental não apenas para a sobrevivência do povo, mas também para a continuidade dos estudos científicos que ajudam a compreender o envelhecimento humano.
A longevidade dos Tsimane se tornou um campo de observação relevante para a ciência global. Seu modo de vida, baseado em práticas ancestrais, mostra como fatores ambientais e culturais podem moldar a saúde ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, o futuro desse povo depende da proteção de suas terras e de sua autonomia frente às mudanças externas que já começam a impactar suas comunidades.
As guaribas são uma espécie de primata comum na Amazônia. Foto: Beatriz Innocente/Acervo pessoal
Desde 2016, o professor Renato Richard Hilário, da Universidade Federal do Amapá (Unifap), lidera um estudo que mapeia a população de guaribas na floresta do Estado. A pesquisa busca entender os fatores que colocam a espécie em risco de extinção.
O estudo está na terceira fase e envolve seis pesquisadores orientados por Hilário. Eles identificaram grupos da espécie guariba-preta, conhecida como guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul).
A equipe se divide na floresta e usa os gritos dos guaribas para localizar os animais. A vocalização é tão forte que pode ser ouvida a até um quilômetro de distância. A direção do som é identificada com ajuda de uma bússola.
“Nos posicionamos em pontos estratégicos da mata e ouvimos os gritos. Registramos o horário de início e fim da vocalização. Assim, conseguimos saber se dois pesquisadores estão ouvindo o mesmo grupo”, explicou o professor.
Na primeira fase do estudo, o objetivo foi identificar as áreas onde os guaribas vivem e entender por que ocupam algumas regiões e outras não.
Ainda na primeira fase, o foco foi na região conhecida como Savana. Os pesquisadores encontraram entre 1 e 15 grupos de guaribas pretas em 19 áreas de Macapá e Santana.
A localização dos primatas para o estudo é identificada pela vocalização. Fotos: Manuella Cid-Harguindey, Roginey Silva e Joilquerson Sousa
De acordo com Hilário, a quantidade de grupos é baixa e não garante a sobrevivência da espécie na floresta amazônica, o que indica risco de extinção. Entre as áreas mapeadas estão os quilombos do Curiaú, Igarapé do Lago e do Rosa.
O mapeamento ajuda a entender quais ambientes os guaribas preferem e como eles são afetados pela caça, principal ameaça à espécie.
“Os dados mostram que os guaribas escolhem certos tipos de ambiente. A presença humana, principalmente por causa da caça, afeta diretamente esses animais. Eles estão entre os mais caçados da região”, disse o pesquisador.
Depois da Savana, os pesquisadores passaram a estudar as áreas de várzea, que incluem as margens do Rio Amazonas no Amapá e ilhas do Pará.
“Queremos entender melhor o risco de extinção da espécie com base na estimativa populacional. Isso também nos dá uma referência para acompanhar mudanças futuras na região”, explicou Hilário.
Fases do estudo:
Identificar áreas de floresta com presença da guariba preta e analisar o ambiente;
Visitar locais já conhecidos para contar os grupos de guaribas;
Estudar as florestas de várzea, nas margens do Rio Amazonas e nas ilhas da foz.
Principais ameaças:
Desmatamento e perda da vegetação nativa;
Expansão urbana e agrícola;
Caça ilegal;
Baixa reprodução e isolamento dos grupos.
Esses primatas são essenciais para o equilíbrio das florestas, pois ajudam na dispersão de sementes e na biodiversidade. A proteção da espécie depende de ações de conservação, fiscalização e educação ambiental.
É o terceiro ano seguido que Tartarugalzinho sofre com a seca e o aumento das queimadas. Foto: Divulgação/Prefeitura de Tartarugalzinho
A seca que atinge Tartarugalzinho, no Amapá, tem prejudicado a rotina de cerca de 800 pescadores da Região dos Lagos. Segundo a colônia local, eles estão conseguindo pescar apenas para o próprio consumo. A pesca é uma das principais atividades econômicas da cidade.
É o terceiro ano seguido que Tartarugalzinho sofre com a seca e o aumento das queimadas. Imagens feitas na semana passada mostram que o principal rio da região virou uma poça d’água.
A Prefeitura decretou situação de emergência em 27 de outubro. O objetivo é conseguir apoio dos governos estadual e federal, com estrutura e recursos financeiros, para reduzir os impactos da estiagem.
Pescadores, agricultores familiares e produtores rurais são os mais prejudicados. A crise afeta diretamente a economia local, que depende da produção para abastecer outras regiões do Estado.
De acordo com Ana Paula Pantoja Foro, presidente da colônia de pescadores, entre as comunidades afetadas estão: a Logo Novo, Aporema e Terra Firme.
“A situação está muito difícil. Os pescadores vendem pouco peixe e não conseguem sustentar suas famílias. Eles vivem disso. Sem venda, não há renda. Estão pescando só para consumo”, disse Foro.
Segundo Foro, cada pescador costuma ganhar cerca de R$ 1.400 por mês. Com a seca, o prejuízo total já passa de R$ 1 milhão.
Em tempos normais, os pescadores vendem os peixes para atravessadores, que passam pelas comunidades e revendem o produto.
“Sem peixe, não tem trabalho nem para os pescadores nem para os atravessadores. Eles nem estão indo mais às comunidades”, afirmou Foro.
A colônia está mapeando as áreas mais atingidas para direcionar recursos com apoio da Defesa Civil municipal.
Cidade enfrenta a seca pelo 3º ano. Foto: Divulgação/Colônia de pescadores de Tartarugalzinho
Seca severa
A seca é tão forte que o caminho antes usado pelos ribeirinhos virou um trecho de lama, segundo imagens recentes. Um vídeo mostra um pescador encostando o remo no fundo do rio, que antes era fonte de renda. Além da falta de peixe, há risco de escassez de água potável e isolamento das comunidades.
O prefeito da cidade, Bruno Mineiro, informou que foi criada uma força-tarefa com apoio da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Vigiágua.
“Mais um ano difícil. Já é o terceiro seguido de seca. Muitos poços estão secos e as comunidades pedem socorro”, disse o gestor.
Poços artesianos já foram abertos em parceria com a Codevasf. Novos poços estão previstos para atender as áreas mais afetadas. Técnicos também avaliam a qualidade da água na cidade.
Iniciativa amplia o alcance e o reconhecimento das ações conduzidas por povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais na Amazônia Legal. Foto: Divulgação/Agência Brasil
O Comitê Orientador do Fundo Amazônia (Cofa) aprovou, no dia 29 de outubro, a criação do Prêmio Fundo Amazônia “Conhecer e Reconhecer”. O objetivo é ampliar o alcance e o reconhecimento das iniciativas conduzidas por povos indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais, fortalecendo institucionalmente os premiados e estimulando a mobilização de outros atores sociais.
Coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Fundo Amazônia, maior iniciativa mundial de redução de emissões por desmatamento e degradação florestal (REDD+), é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Formado por representantes do governo federal, dos nove estados da Amazônia Legal e pela sociedade civil, o Cofa aprovou a premiação como uma nova forma de reconhecer publicamente experiências e organizações que contribuem para a conservação da floresta, o uso sustentável dos recursos naturais e o fortalecimento da economia dos povos da Amazônia.
Serão até 25 organizações premiadas, contemplando uma organização por categoria — Povos Indígenas, Quilombolas e Povos e Comunidades Tradicionais — em cada um dos estados da Amazônia Legal.
“Povos indígenas e quilombolas e comunidades tradicionais prestam um serviço essencial para a conservação da Amazônia e de sua biodiversidade, o que beneficia todos os brasileiros e brasileiras”, disse a ministra Marina Silva.
A ministra Marina destacou, ainda, que o prêmio “valoriza os modos de vida dessas populações, com protagonismo aos conhecimentos tradicionais e soluções ancestrais, e fortalece as bases de uma economia sustentável que prova ser possível manter a floresta em pé e ser remunerado por isso. Com a iniciativa, também avançamos na construção da justiça climática em nosso país, dando visibilidade e dignidade para quem menos contribui para a crise climática e mais sofre com seus impactos”.
“O Fundo Amazônia chega à COP30 com uma história de 17 anos e resultados concretos: mais de 650 instituições apoiadas e centenas de municípios beneficiados. Agora, damos um novo passo com o Prêmio ‘Conhecer e Reconhecer’, reforçando o compromisso com quem vive e cuida da floresta, gerando conhecimento e soluções que inspiram o mundo”, afirmou Aloizio Mercadante, presidente do BNDES.
Prêmio quer fortalecer ações das comunidades. Foto: Reprodução/Embrapa
“O Prêmio ‘Conhecer e Reconhecer’ é uma forma de dar visibilidade à sabedoria e às soluções que nascem dos territórios. Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais têm mostrado que é possível produzir com equilíbrio e garantir renda sem destruir a floresta. O Fundo Amazônia quer ampliar essas vozes e fortalecer quem constrói a transição ecológica de baixo para cima”, destacou Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES.
Ao fortalecer institucionalmente os premiados, a iniciativa busca transformar essas histórias em referências inspiradoras para outras comunidades e políticas públicas voltadas à geração de trabalho e renda sustentáveis. O Prêmio também aprofunda o conhecimento sobre a realidade das economias da floresta, ampliando o diálogo sobre práticas produtivas que substituem o desmatamento e reforçam o papel do Fundo Amazônia como parceiro relevante na valorização de soluções locais e no fortalecimento das bases da transição ecológica justa.
A Comissão de Seleção será formada por representantes do MMA, BNDES, Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Ministério da Igualdade Racial (MIR), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Fboms), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), contanto com representação dos Estados da Amazônia Legal.
*Com informações da Agência BNDES de Notícias e do MMA