Avanços refletem a ampliação da prevenção contra o HIV combinada, com maior oferta de medicamentos e expansão da testagem rápida e do autoteste. Foto: Reprodução/Agência de notícias do Acre.
A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) iniciou, nesta segunda-feira, 1º, as ações do Dezembro Vermelho, campanha nacional dedicada à prevenção, ao diagnóstico e ao enfrentamento do HIV, da aids e das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Durante todo o mês, serão intensificadas atividades educativas, haverá oferta de testagem rápida, bem como mobilizações comunitárias e estratégias de prevenção combinada em todo o estado.
Dados divulgados pelo Departamento de Vigilância em Saúde mostram que o Acre apresentou tendência de queda nas notificações de HIV em 2025. Após 317 casos registrados em 2023 e 353 em 2024, o estado contabilizou 283 novos casos este ano. A redução também é observada entre gestantes: foram 23 casos em 2023, 14 em 2024 e 13 em 2025, resultado que reforça a possibilidade de certificação do Acre para eliminação da transmissão vertical do HIV.
Pacientes que utilizam a PrEP realizam exames de rotina e acompanhamento médico.Foto: Izabelle Farias/Sesacre
Segundo o chefe do Núcleo de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Sesacre, Jozadaque Beserra, os avanços refletem a ampliação da prevenção combinada, com maior oferta de profilaxia pré-exposição (PrEP), medicamento tomado todos os dias por pessoas que não têm HIV, mas querem reduzir o risco de infecção, e profilaxia pós-exposição (PEP), tratamento de emergência para quem pode ter sido exposto ao HIV, além da expansão da testagem rápida e do autoteste, e do fortalecimento dos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e dos Serviços de Assistência Especializada (SAE) no interior.
“Os dados deste ano mostram que estamos avançando na prevenção e no cuidado das pessoas que vivem com HIV no Acre. A queda nas notificações e a redução dos casos entre gestantes refletem o fortalecimento da nossa rede de testagem, do acesso à PrEP e da ampliação dos serviços especializados. O Dezembro Vermelho é um momento estratégico para reforçar que o diagnóstico precoce e o tratamento contínuo salvam vidas e interrompem cadeias de transmissão”, destaca Beserra.
Durante todo o mês, serão intensificadas atividades educativas, haverá oferta de testagem rápida, bem como mobilizações comunitárias e estratégias de prevenção combinada em todo o estado Foto: Luan Martins/Sesacre
Apesar dos avanços, a Sesacre alerta para outro desafio: o abandono do tratamento. Muitas pessoas iniciam a terapia antirretroviral, mas interrompem o acompanhamento, comprometendo o controle da carga viral e aumentando o risco de evolução da doença e de transmissão.
“Temos motivos para celebrar, mas também precisamos reforçar que o cuidado não pode parar. Muitas pessoas começam o tratamento e, por diversos motivos, acabam abandonando. Nosso papel é acolher, orientar e garantir que ninguém enfrente isso sozinho. Procurar o CTA ou o SAE é o primeiro passo, todos os serviços do SUS estão prontos para apoiar, com respeito e sigilo”, completa Jozadaque.
Onde buscar atendimento e apoio
A rede pública de saúde do Acre oferece testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites em todas as unidades. Já os CTA e os SAE, instalados em Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Sena Madureira e outros municípios, disponibilizam testagem e aconselhamento; início e manutenção da terapia antirretroviral (Tarv); acompanhamento clínico especializado; acesso à PrEP e PEP; e apoio para pessoas que desejam retomar o tratamento. Todos os serviços são gratuitos, sigilosos e garantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
*O conteúdo foi originalmente publicado na Agência de Notícias do Acre.
Ocupado por humanos há pelo menos 13 mil anos, o território amazônico abrigou uma população da ordem de 10 milhões de pessoas, que construíram cidades, domesticaram plantas e produziram biodiversidade
A arqueologia da Amazônia vive um processo absolutamente revolucionário. A ideia de um ‘inferno verde’, que teria sido habitado por uma população escassa, mal alimentada e culturalmente atrasada, foi inteiramente desmentida pela pesquisa arqueológica. As descobertas realizadas nas últimas décadas mostraram que o território amazônico foi povoado por nada menos do que 8 a 10 milhões de pessoas.
O que mais se sabe sobre a Amazônia?
“De maneira muito resumida, sabemos hoje que a presença humana na Amazônia remonta há pelo menos 13 mil anos; que a região foi um centro independente de domesticação de plantas; que plantas muito importantes foram cultivadas pela primeira vez lá; que as primeiras cerâmicas das Américas também foram produzidas lá.
Eduardo Góes Neves. Foto: Erika de Faria
Além disso, há evidências de formas de urbanismo de baixa densidade; de grande diversidade cultural, expressa nas línguas, estilos cerâmicos, sistemas de manejo e formas de ocupação do território; e de algo que chamo, talvez de maneira ainda um pouco tímida, de produção de abundância, ou seja, de sistemas que não apenas sustentavam populações numerosas, mas criavam paisagens altamente produtivas e biodiversas”, responde o antropólogo Eduardo Góes Neves, professor titular e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).
Um dos mais importantes pesquisadores sobre o passado da região amazônica, autor de Sob os Tempos do Equinócio: 8.000 anos de história na Amazônia Central e Arqueologia da Amazônia e coeditor de Unknown Amazon: Culture in Nature in Ancient Brazil, dentre cerca de 130 publicações, entre livros, artigos, capítulos de livro e textos de divulgação, Neves apresentou, na terça-feira (02/12), a conferência ‘A produção social da natureza por povos indígenas’ na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025: Humanidades, Ciências Sociais e Artes.
Segundo o pesquisador, a arqueologia vem demonstrando que a Amazônia, tal como a conhecemos hoje, foi profundamente moldada por povos que habitaram a região ao longo de milênios. “Não é apenas um território ‘natural’, mas também cultural e histórico”, disse. E acrescentou que essa revolução científica vem acompanhada de uma urgência política: compreender a história profunda da Amazônia é uma das chaves para protegê-la no presente.
“Aprendemos muito sobre o passado nestes últimos 40 anos. Mas, ao mesmo tempo, perdemos cerca de 20% da Floresta Amazônica brasileira no período. Ser testemunha, de um lado, de um desenvolvimento científico incrível e, de outro, da crise ecológica e social que vivemos hoje é algo muito forte e desafiador. Isso me levou ao lugar em que estou agora: tentar fazer boa pesquisa científica, mas usar esse conhecimento como ferramenta para me envolver com o mundo real e ajudar a prevenir mais destruição na Amazônia”, enfatizou.
Floresta Nacional do Amapá. Foto: Rafael Aleixo/Rede Amazônica AP
Segundo Neves, a arqueologia é uma ferramenta poderosa para entender como chegamos à crise ecológica e social de agora. E para pensar caminhos de saída. “Admitir que a Amazônia foi, de fato, profundamente transformada pela atividade humana ao longo de milênios nos faz pensar que, se quisermos proteger a Amazônia atual, é indispensável levar em conta a ação indígena. Não há outro caminho.”
O pesquisador demonstrou seu ponto explorando vários subtemas. Em primeiro lugar o da domesticação de plantas e da agroecologia amazônica.
“Se buscarmos a origem de diferentes plantas hoje importantes, localizamos vários centros de domesticação na Amazônia. A mandioca, provavelmente originária do sudoeste amazônico [Rondônia, Mato Grosso, sul da Bolívia], hoje é cultivada em praticamente todo o cinturão tropical do planeta, na América, na África e na Ásia. O cacau, cujas primeiras evidências microbotânicas em sítios arqueológicos foram encontradas no Equador, com cerca de 5 mil anos, deve ter sido domesticado ali, levado depois para a Mesoamérica [México, Guatemala] e hoje é cultivado também na África e em outras regiões. O tabaco, cultivado do norte da Argentina ao Canadá quando os europeus chegaram às Américas, também teve sua região de origem no sudoeste amazônico“, explicou.
Mais exemplos importantes: o açaí, provavelmente domesticado pela primeira vez na região da foz amazônica; o guaraná, originário da região de Maués e Parintins; o bacuri e o cupuaçu, também de origem amazônica. “Ou seja, a Amazônia foi um centro de biodiversidade agrícola. Muitas plantas importantes globalmente foram domesticadas ali. Quando pensamos em agricultura, logo nos vem à mente as monoculturas de grãos: arroz, trigo, milho, soja.
Amazônia. Foto: Reprodução/G1
Mas, na Amazônia, grande parte das plantas manejadas eram árvores frutíferas; raízes e tubérculos [mandioca, batata-doce, inhame etc.]; e, mais tarde, grãos como o milho, que veio da Mesoamérica e chegou à Amazônia há cerca de 6 mil anos”, informou Neves.
Outro aspecto relevante apontado pelo pesquisador: muitas dessas espécies foram de fato domesticadas, isto é, modificadas geneticamente ao longo do tempo; porém, outras permaneceram silvestres, embora manejadas intensamente. O açaí é um exemplo: hoje fruto central na economia e na alimentação amazônica, permanece uma espécie silvestre. O que obriga a repensar o conceito de domesticação.
“Na arqueologia, o termo ‘Neolítico’ costuma designar o momento em que deixamos de ser caçadores-coletores e nos tornamos agricultores. A domesticação de plantas e animais, segundo esse modelo, seria um passo fundamental, uma forma de impor uma ordem cultural à natureza.
Porém, quando começamos a olhar os dados amazônicos, vimos algo diferente: sistemas agroecológicos em que plantas domesticadas convivem com plantas silvestres manejadas. Houve um momento em que alguns de nós pensaram: ‘Nem Neolítico a gente ‘produziu’ aqui direito. Que fracasso!’. Mas, reinterpretando, percebemos que se trata de outro modelo: um gradiente entre o doméstico e o silvestre, em sistemas altamente diversos e resilientes, que funcionam há pelo menos 6 mil anos e ajudaram a produzir a Amazônia que conhecemos hoje”, explicou.
E lembrou um texto da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha sobre a diversidade de plantas em roças e quintais indígenas.
“Se você entra em um jardim indígena ou em um quintal tradicional amazônico, a quantidade de espécies cultivadas é impressionante. Isso não se explica apenas por uma necessidade ecológica de produzir comida. Há um valor estético, um prazer em cultivar um espaço exuberante, cheio de vida. Se há alguma lição que podemos trazer da arqueologia para o presente, talvez seja essa: pensar sistemas produtivos que incorporam a natureza, em vez de tentar impor uma ordem cultural totalmente rígida, que elimina a diversidade”, sublinhou Neves.
O pesquisador explorou também o subtema das terras pretas de índio: solos antropogênicos construídos ao longo de milênios.
Floresta amazônica. Foto: Governo do Peru
“Essas terras cobrem entre 2% e 3% da Amazônia, uma área enorme, equivalente à do Estado do Rio de Janeiro. Em escavações, vemos perfis com camadas de solo muito escuro, repletas de fragmentos de cerâmica, carvão, restos orgânicos. São solos extremamente produtivos e estáveis. Solos tropicais, em geral, sofrem lixiviação intensa, perdem nutrientes rapidamente e precisam ser adubados a cada dois ou três anos. As terras pretas, ao contrário, mantêm sua fertilidade por séculos, até milênios. Sabemos que as terras pretas foram produzidas por povos indígenas, com acúmulo de restos de comida, resíduos orgânicos, cerâmica quebrada, estruturas de combustão etc. E hoje elas são muito importantes para comunidades contemporâneas, afirmou”
Um exemplo: a terra preta existente na Terra Indígena Tenharim. “A Terra Indígena Tenharim é uma das poucas áreas de floresta preservada no que chamamos de arco do desmatamento. Trabalhamos diretamente com eles. Os Tenharim passaram por um processo muito difícil: com a abertura da rodovia Transamazônica, nos anos 1970, houve muita violência, doenças, mortes. Alguns grupos se refugiaram na floresta e permaneceram em isolamento; outros foram pressionados para viver próximos à estrada. Uma prática central para os Tenharim é a produção de um certo tipo de pamonha de milho, explicou.
Eles plantam grandes roças de milho e fazem esse alimento, que é parte essencial de sua identidade. Dizem que, enquanto puderem plantar milho e produzir sua pamonha, resistirão como grupo autônomo na Amazônia. Onde eles plantam esse milho? Em sítios arqueológicos com terras pretas. Eles sabem que não foram eles que produziram aquele solo tão fértil, que outras pessoas viveram ali no passado, e aproveitam essa herança para sustentar sua vida hoje. Então, vemos uma ligação direta entre transformações indígenas da natureza no passado e o uso contemporâneo desses mesmos lugares”, relatou.
Durante muito tempo, estruturas amazônicas de origem antrópica foram confundidas com formações naturais: montículos, ilhas artificiais, plataformas e canais eram interpretados como relevos geológicos. A arqueologia recente mostrou o contrário. Um exemplo são as estruturas chamadas de tesos ou montículos artificiais, muitas vezes comparadas a sambaquis de terra. Neves relatou várias ocorrências desse tipo de formação, como o sítio Teso dos Bichos, na Ilha do Marajó, com cerca de 250 metros de extensão, todo ele construído por ação humana.
No Acre, outros tipos de sítio, com geoglifos, vêm sendo descobertos. “Em fotos de satélite, eles aparecem como grandes figuras geométricas, quadrados, círculos e retângulos marcados no solo. Esses lugares estavam cobertos por floresta até a década de 1970. Com o desmatamento, as formas ficaram visíveis. O professor Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, foi um dos primeiros a registrar essas estruturas. Hoje conhecemos mais de mil geoglifos, graças a imagens de satélite, Google Earth e LIDAR [light detection and ranging, uma tecnologia óptica de detecção remota]. Na Bolívia deve haver tantos ou mais”, expôs Neves.
E disse que essas estruturas não são figuras isoladas. Há montículos residenciais, organizados em torno de praças centrais. As imagens mostram também estradas lineares retas, conectando diferentes sítios, em escala de quilômetros.
A tecnologia LIDAR, baseada em pulsos de laser emitidos de drones ou aviões, revolucionou o estudo de áreas florestadas. O método permite ultrapassar a copa das árvores e revelar o que estava escondido no solo. Estruturas impressionantes já foram descobertas por esse meio no Equador e na Bolívia. Algumas também no Brasil. Foi nesse contexto que surgiu o projeto “Amazônia Revelada” (Amazon Revealed), coordenado por Neves e financiado pela National Geographic Society.
Antes de começarem a sobrevoar a área, ele e sua equipe fizeram algo que consideram fundamental: “Fomos a campo conversar com as comunidades que vivem nesses territórios – povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores. Explicamos o que era o projeto, discutimos prós e contras e pedimos autorização. Isso é importante para não reproduzir um modelo colonial de pesquisadores, que “chegam com dinheiro, voam, produzem artigos e vão embora”, explicou.
Um dos resultados já obtidos foi descobrir uma grande estrutura geométrica totalmente coberta por floresta, do tamanho do estádio do Maracanã, mas de formato quadrado.
“Na região da Terra do Meio, no Pará, entre o rio Tapajós e a Transamazônica, sobrevoamos um tributário de um tributário do Amazonas, sem esperar grandes achados. Mas o LIDAR mostrou pequenas elevações circulares e marcas no relevo. Fomos a campo, escavamos e encontramos evidências de antigas aldeias: casas já desaparecidas, mas com montículos ao redor de praças centrais, solos escurecidos, cerâmica e carvão”, contou.
O pesquisador conseguiu, agora, apoio filantrópico para continuar e trabalhar, entre outras áreas, ao longo da BR-319, a estrada que liga Manaus a Porto Velho. Há fortes pressões para reabri-la completamente, o que pode ter impactos enormes.
“Nosso objetivo é usar a arqueologia como uma espécie de ativismo científico, orientando a pesquisa a partir de problemas políticos e ambientais concretos. É isso que pretendo fazer com o tempo que ainda tenho de carreira: usar minha experiência como arqueólogo e professor para tentar fazer da arqueologia uma alternativa para o futuro, não apenas um estudo do passado”, concluiu.
*O conteúdo foi originalmente publicado na Agência Fapesp.
Mais de 10 milhões de pessoas viviam em trechos de vias sem árvores em favelas e comunidades urbanas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Em favelas e comunidades urbanas do país, 64,6% dos moradores (10,4 milhões de pessoas) viviam em trechos de vias sem árvores, enquanto 35,4% (5,7 milhões de pessoas) moravam em trechos de vias com arborização. Em locais fora de favelas e comunidades urbanas, 69,0% dos moradores viviam em trechos de vias com arborização.
A diferença é grande também quando analisados trechos com 5 árvores ou mais: 10,5% dos moradores de favelas e comunidades urbanas viviam em vias com essa arborização, enquanto 33,5% dos moradores de fora de favelas e comunidades urbanas viviam em ambientes com essa característica.
Censo Demográfico 2022: Favelas e Comunidades Urbanas: Características urbanísticas do entorno dos domicílios divulgado. Fonte: IBGE
A pesquisa abrange 16,2 milhões de pessoas residentes em 12,3 mil favelas e comunidades urbanas em 656 municípios do país. As comparações são restritas a municípios com favelas e comunidades urbanas.
A divulgação ocorre no Centro de Direitos Humanos Franco Pellegrini (CEDHU), em Salvador (BA), com transmissão pelas redes sociais e Portal do IBGE. Os resultados são acessíveis via Sidra e Plataforma Geográfica Interativa (PGI).
A pesquisa trouxe, também, dados sobre a distribuição dos moradores em relação à arborização de acordo com cor ou raça da população que residia nas favelas e comunidades urbanas. Entre os moradores que se declaravam de cor ou raça preta, 68,0% viviam em trechos sem árvores, enquanto 9,4% dessa população viviam em trechos com 5 ou mais árvores.
Já 64,4% das pessoas de cor ou raça parda moravam em trechos sem arborização e 10,4% em locais com 5 ou mais árvores. O percentual de moradores de cor ou raça branca que viviam em trechos sem árvores era de 63,2% e 11,4% residiam em locais com 5 ou mais árvores.
“Não há variações expressivas, mas vale destacar que o percentual de pessoas que se declararam de cor ou raça preta e residiam em trechos de vias sem árvores era 4,8 pontos mais alto que o percentual de pessoas que se declararam de cor ou raça branca e residiam em vias com essa característica. Em relação à presença de árvores, o IBGE classificou a informação em três categorias: ‘1 ou 2 árvores’, ‘3 ou 4 árvores’ e ‘5 ou mais árvores’. Em todas elas, o percentual foi ligeiramente mais baixo para a população preta, indicando possível desigualdade em relação a esse quesito no conjunto desses territórios”, pontua Larissa Catalá, Chefe do Setor de Suporte a Favelas e Comunidades Urbanas.
Considerando o tamanho populacional de favelas e comunidades urbanas, aquelas com menor número de moradores apresentaram maior percentual de residentes em trechos de vias com arborização. Em favelas e comunidades urbanas com até 250 moradores, 45,9% da população residia em trechos de vias com árvores. Esse percentual diminui gradativamente, até atingir os menores valores nas favelas e comunidades urbanas com 5.000 a 10.000 moradores (31,7%) e naquelas com mais de 10.000 moradores (31,8%).
Entre as 20 maiores favelas e comunidades urbanas do país em número de residentes, a Sol Nascente, em Brasília (DF), foi a única com mais de 70% dos moradores vivendo em trechos de vias com arborização (70,7%). Todas as outras apresentavam menos de 60%, sendo as com menor proporção de moradores vivendo em trechos de vias com árvores: Rio das Pedras – Rio de Janeiro (RJ), com 3,5%; Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, em Manaus (AM), com 12,0%; Paraisópolis, em São Paulo (SP), com 12,0%; Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ), com 12,3%; e Heliópolis, em São Paulo (SP), com 18,0%.
Favela em Manaus. Foto: William Duarte/Rede Amazônica
Entre os estados, 13 apresentaram menos de 40,0% de seus moradores em favelas e comunidades urbanas residindo em trechos de vias com arborização. Entre eles: Santa Catarina (22,9%), Bahia (25,3%), Pernambuco (25,6%), Alagoas (26,4%) e Rio de Janeiro (28,4%).
Por outro lado, um estado da Região Norte e todos da Região Centro-Oeste, além do Distrito Federal, tinham mais de 60,0% de seus moradores em favelas e comunidades urbanas residindo em vias com a presença de árvores: Tocantins (80,1%), Mato Grosso do Sul (76,9%), Distrito Federal (69,1%), Mato Grosso (69,0%) e Goiás (64,3%). Em todos os estados havia um percentual menor de moradores em favelas e comunidades urbanas em trechos de vias com arborização em relação aos moradores que não viviam em favelas e comunidades urbanas.
Considerando as grandes concentrações urbanas em que havia baixo percentual de moradores em trechos de vias com arborização em favelas e comunidades urbanas, destacam-se Florianópolis/SC (17,5%), Salvador/BA (21,2%), Recife/PE (24,7%), Maceió/AL (25,3%), Belo Horizonte/MG (26,5%) e Rio de Janeiro/RJ (26,5%).
Quatro grandes concentrações urbanas apresentaram uma diferença entre o percentual de moradores em trechos de vias fora e dentro de favelas e comunidades urbanas com arborização maior que 40 pontos: Belo Horizonte/MG (76,1% contra 26,5%), Rio de Janeiro/RJ (70,0% contra 26,5%), Porto Alegre/RS (83,2% contra 40,8%) e São Paulo/SP (70,5% contra 29,9%).
Vias com calçada mostram disparidade entre dentro e fora das favelas
Enquanto fora das favelas e comunidades urbanas do país, 89,3% dos moradores viviam em trechos de vias com calçada ou passeio, o percentual cai para 53,9% dos moradores que viviam nesses territórios.
Roraima foi o único estado que apresentou percentual abaixo de 75% de moradores que residiam em trechos de vias com calçada ou passeio fora de favelas e comunidades urbanas: 63,6%. Dentro dessas áreas, somente três estados apresentaram percentual superior a 75% de moradores residindo em trechos de vias com calçada ou passeio: Maranhão (76,2%), Sergipe (83,2%) e Piauí (84,0%). Em todos os estados havia um percentual menor de moradores em favelas e comunidades urbanas em trechos de vias com calçadas ou passeio em relação aos moradores que não viviam nessas áreas.
Entre as 20 maiores favelas e comunidades urbanas em população residente, 3 apresentaram mais de 90% de seus moradores vivendo em vias com a presença de calçada ou passeio: Cidade Olímpica, em São Luís (MA), Zumbi dos Palmares/Nova Luz, em Manaus (AM), e Vila São Pedro, em São Bernardo do Campo (SP), com percentuais iguais a 99,3%, 94,1% e 90,3% respectivamente. Já Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ), Pernambués, em Salvador (BA), e Paraisópolis, em São Paulo (SP), apresentaram os percentuais mais baixos para esse quesito, 12,1%, 16,8% e 22,7%, respectivamente.
Moradores em domicílios particulares permanentes ocupados nos setores censitários selecionados para a Pesquisa de Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, em Favelas e Comunidades Urbanas, total e em trechos de vias com calçada ou passeio – 20 maiores Favelas e Comunidades Urbanas em relação ao número de moradores, 2022
20 maiores Favelas e Comunidades Urbanas
Em Favelas e Comunidades Urbanas
Total
Em trechos de vias com calçada ou passeio
Em trechos de vias com calçada ou passeio (%)
Total
847 632
522 760
61,7
Sol Nascente (ARIS – Sol Nascente) – Brasília (DF)
As grandes concentrações urbanas que apresentaram as maiores diferenças entre os percentuais de moradores em vias com calçada e passeio para fora e dentro de favelas e comunidades urbanas foram Campo Grande/MS (80,0% contra 6,2%), Florianópolis/SC (84,1% contra 28,3%) e São José dos Campos/SP (95,4% contra 33,8%).
Quanto maior o tamanho da população das favelas e comunidades urbanas, o percentual de moradores que viviam em vias com calçada ou passeio aumenta. Em áreas com até 250 moradores, 47,3% viviam em vias com calçada. Esse percentual aumenta gradativamente até atingir 61,4% nas favelas e comunidades urbanas com mais de 10.000 moradores.
Maioria dos idosos em favelas e comunidades urbanas residia em vias com obstáculo em calçadas
A pesquisa revelou que dentro de favelas e comunidades urbanas, apenas 3,8% dos moradores viviam em trechos de vias com calçadas sem obstáculos no país. O número é quase 6 vezes menor que o percentual fora dessas áreas: 22,4%. Aproximadamente 15,5 milhões de pessoas residiam em domicílios localizados em trechos de vias sem calçada ou com calçada com obstáculo nas favelas e comunidades urbanas.
O levantamento também aponta que em todas as grandes regiões, o percentual de moradores com mais de 60 anos que viviam em trechos de vias com calçada sem obstáculos foi maior nas áreas fora de favelas e comunidades urbanas do que dentro dessas áreas.
“Nas cinco grandes regiões, menos de 15% dos moradores de favelas e comunidades urbanas com 60 anos ou mais viviam em trechos de vias com calçada sem obstáculo, revelando um cenário bastante desfavorável que impacta diretamente a mobilidade e a segurança da parcela mais envelhecida da população nessas áreas”, destaca Filipe Borsani, chefe do Setor de Pesquisas Territoriais.
Os estados com as maiores diferenças entre os percentuais de moradores em trechos de vias com calçadas sem obstáculos, comparando fora e dentro das favelas e comunidades urbanas, foram o Rio Grande do Sul (32,8% contra 5,0%) e o Mato Grosso do Sul (29,2% contra 1,4%). Já o estado com a menor diferença entre essas áreas foi o Acre (6,5% contra 3,2%). Ressalta-se que, neste caso, a diferença foi menor devido ao percentual encontrado ser baixo também para fora das Favelas e Comunidades Urbanas: 6,5%.
Rua na comunidade Nossa Senhora de Fátima, Zona Norte de Manaus. Foto: Leandro Guedes/Rede Amazônica
Em relação às grandes concentrações urbanas, a pesquisa mostra que essa qualidade urbanística não está relacionada à grande região na qual elas estão localizadas. Os maiores percentuais de moradores em favelas e comunidades urbanas residindo em trechos de vias com calçadas sem obstáculos, entre as grandes concentrações urbanas, foram encontrados em todas as regiões do país: Curitiba/PR (9,6%), Sorocaba/SP (8,7%), Natal/RN (7,8%), Goiânia/GO (6,0%) e Belém/PA (5,3%). A Baixada Santista (SP) foi a concentração urbana com a maior diferença entre os percentuais para fora e dentro das favelas e comunidades urbanas, com 45,9% contra 6,0%.
Nas favelas e comunidades urbanas com até 250 pessoas, o percentual de moradores em trechos de vias com calçadas sem obstáculos atingiu o maior valor (4,4%) e, conforme aumenta a população nesses locais, o percentual diminuiu ou se manteve, até alcançar o menor valor nas favelas e comunidades urbanas com 10.000 moradores ou mais (3,5%), com exceção daquelas com mais de 5.000 a 10.000 moradores, com 3,9%.
A análise das 20 maiores favelas e comunidades urbanas em 2022 em população mostrou que 5 delas apresentaram o percentual de moradores vivendo em trechos de vias com calçadas sem obstáculos superior ao observado para o conjunto de favelas e comunidades urbanas do país (3,8%). O destaque foi a Baixadas do Condor, em Belém (PA), com o maior valor (11%). Por outro lado, Rocinha e Rio das Pedras, no Rio de Janeiro (RJ), foram as que tiveram os percentuais mais baixos (0,1% e 0,3%, respectivamente).
Mais de 95% dos moradores de favelas vivem em vias sem rampa para cadeirantes
Cerca de 15,7 milhões de moradores de favelas e comunidades urbanas viviam em trechos de vias sem rampa para cadeirantes na calçada, um percentual de 97,6%. Os moradores que viviam em trechos de vias com a presença da estrutura representavam 2,4% do total (391.024 pessoas). Já nas áreas fora de favelas e comunidades urbanas, 18,5% dos moradores viviam em trechos de vias com existência de rampa para cadeirantes na calçada.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Entre os estados, o destaque foi o Mato Grosso do Sul, onde apenas 2,0% dos moradores de favelas e comunidades urbanas residiam em trechos de vias com rampa para cadeirantes na calçada, enquanto fora desses locais o percentual chegava a 49,0%. Roraima tinha 14,7% de seus moradores em favelas e comunidades urbanas residindo em trechos de vias com rampa para cadeirantes na calçada, seguido por Paraná (10,8%), Mato Grosso (8,7%) e Tocantins (8,0%).
Por outro lado, os estados que apresentaram os menores percentuais referentes à existência dessa estrutura em favelas e comunidades urbanas foram Pernambuco (0,9%), Santa Catarina (1,0%), Amazonas (1,4%), Rio de Janeiro (1,4%) e Rondônia (1,4%).
Entre as grandes concentrações urbanas, havia baixo percentual de moradores em trechos de vias com rampa para cadeirantes na calçada em favelas e comunidades urbanas em Campo Grande/MS (0,8%), São José dos Campos/SP (0,9%), Recife/PE (1,0%), Sorocaba/SP (1,1%) e São Paulo/SP (1,2%).
O tamanho populacional das favelas e comunidades urbanas não mostrou uma relação com o percentual de moradores em trechos de vias com rampa para cadeirantes na calçada. Tanto em favelas e comunidades urbanas com até 250 moradores como aquelas com mais de 5.000 moradores e menos de 10.000 apresentaram percentuais próximos de moradores com essa estrutura em trechos de vias (3,0% e 3,2%, respectivamente). As favelas e comunidades urbanas com população entre 2.500 e 5.000 moradores foram as que apresentaram o menor percentual (2,1%).
A análise das 20 maiores favelas e comunidades urbanas mostra que todas apresentaram percentuais baixos de moradores em trechos de vias com rampa para cadeirantes na calçada. Vila São Pedro, em São Bernardo do Campo (SP), tinha o maior percentual (7,4%), seguida por Coroadinho, em São Luís (MA), com 4,2%, e Sol Nascente, em Brasília (DF), com 3,9%. Por outro lado, aquelas que apresentaram os menores percentuais foram Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ), com 0,0%, Grande Vitória, em Manaus (AM), com 0,0%, Paraisópolis, em São Paulo (SP), com 0,1%, e Pernambués, em Salvador (BA), com 0,1%.
A pesquisa também fez um levantamento do percentual de estabelecimentos de ensino e de saúde, dentro e fora de favelas e comunidades urbanas, situados em trechos de vias com presença de calçada com rampa para cadeirantes.
Os estabelecimentos de ensino em favelas e comunidades urbanas possuíam baixa presença desse elemento urbanístico nos trechos de vias em que estavam localizados, enquanto fora dessas áreas os percentuais observados foram superiores. Destaque para três regiões: Nordeste (8,8% contra 24,8%), Sul (22,7% contra 50,6%) e Centro-Oeste (30,8% contra 52,4%).
Os estabelecimentos de saúde apresentaram também grandes desigualdades quanto à presença do quesito nos trechos de vias em que estavam situados, comparando dentro e fora das favelas e comunidades urbanas. Destaque para Sul (27,6% contra 69,0%) e Centro-Oeste (15,6% contra 66,8%).
Menos de 1% dos moradores de favelas vive em vias sinalizadas para bicicletas
Em 2022, 0,9% dos moradores de favelas e comunidades urbanas vivia em trechos de vias sinalizados para bicicleta, totalizando 150.810 pessoas no país. Mais de 16 milhões residiam em trechos de vias sem essa característica nesses locais. Fora de favelas e comunidades urbanas, o percentual também era baixo, com 2,7% dos moradores encontrando essa infraestrutura urbana.
Entre as unidades da federação, todas apresentaram uma maior proporção de moradores em trechos de vias sinalizados para bicicleta fora das favelas e comunidades urbanas em comparação com moradores dessas áreas. As maiores discrepâncias estavam em Santa Catarina (7,2% contra 0,5%), no Amapá (4,6% contra 0,5%) e no Distrito Federal (4,4% contra 0,5%). Ceará e Pará apresentaram a maior proporção de moradores em trechos de vias sinalizados para bicicletas em favelas e comunidades urbanas, ambos com 2,2%. Roraima e Mato Grosso do Sul marcaram ambos 0,0% dentro das favelas e comunidades urbanas, mas fora tinham 1,6% e 1,4%, respectivamente, de moradores em trechos de vias sinalizados para bicicleta.
Entre as 20 maiores favelas e comunidades urbanas em população residente, Rio das Pedras, no Rio de Janeiro (RJ), e Colônia Terra Nova, em Manaus (AM), não apresentavam, em 2022, nenhum morador residindo em vias sinalizadas para bicicleta. Outras duas favelas e comunidades urbanas tinham mais de 4,0% dos moradores em trechos com essa infraestrutura urbana: Baixadas da Condor (6,6%) e Baixadas da Estrada Nova Jurunas (4,5%), ambas em Belém (PA).
Entre as grandes concentrações urbanas, os menores percentuais de moradores em trechos de vias sinalizadas para bicicleta nas favelas e comunidades urbanas foram observados em Campo Grande/MS (0,0%), São José dos Campos/SP (0,1%), Cuiabá/MT (0,1%) e Natal/RN (0,4%). As grandes concentrações urbanas com maiores discrepâncias foram Florianópolis/SC (7,9% contra 0,6%), Baixada Santista/SP (5,5% contra 1,2%) e Fortaleza/CE (6,3% contra 2,5%).
Considerando o tamanho populacional, o maior percentual de moradores em trechos de vias sinalizadas para bicicleta foi observado na menor e na maior classe de tamanho das favelas e comunidades urbanas (até 250 moradores e mais de 10.000 moradores, respectivamente) – ambas com 1,3%. O menor percentual (0,8%) esteve presente nas classes de 500 a 1.000 moradores e 5.000 a 10.000 moradores.
*O conteúdo foi originalmente publicado na Agência de Notícias do IBGE.
Amazônia concentra 52% de toda massa total de carbono orgânico presente no solo brasileiro. Foto: Acervo/MMA
No Dia Mundial do Solo, celebrado nesta sexta-feira, 5 de dezembro, a rede MapBiomas revelou que o solo da Amazônia concentra 52% da massa total de carbono orgânico presente em território brasileiro. Os dados revelados pela plataforma detalham que o Brasil possui uma massa total de 37,5 gigatoneladas (Gt) de carbono orgânico do solo (COS), onde mais da metade se encontra na região amazônica.
O estudo, que será publicado no site oficial da plataforma, integra dados da nova Coleção 3 (beta) de mapas anuais do estoque de carbono orgânico do solo entre 1985 e 2024, além de mapas de granulometria, textura e profundidade de camadas pedregosas dentro de 100 centímetros do solo em todo o território brasileiro. O professor Alessandro Samuel-Rosa, um dos coordenadores do MapBiomas Solo, explica sobre os novos dados.
Brasil possui massa total de 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico, onde mais da metade está na Amazônia. Foto: Cecília Bastos/USP
“O solo é um arquivo do tempo: nele se acumulam sinais de clima, vegetação e relevo que moldaram o território ao longo da história. A distribuição do carbono orgânico é um exemplo disso. Compreender esses padrões é olhar para o país também pelo que se conserva abaixo da superfície”, destacou o professor.
Os dados revelam que 35,9% do solo brasileiro estoca entre 40 e 50 t/ha de carbono. A Mata Atlântica supera a média nacional de armazenamento por hectare, com 53,4 t/ha, onde se encontram as regiões de clima mais frio (como campos de altitude e florestas de araucária) e úmidas (como restingas e mangues) que favorecem o acúmulo de carbono abaixo da superfície. Em segundo lugar, está a Amazônia, com 46,3 t/ha, e depois o Pampa, com 43,7 t/ha. Nos dois biomas, os maiores estoques de carbono orgânico do solo estão em florestas de várzea, como aquelas próximas do Rio Negro na Amazônia, e na zona costeira.
Relação composição do solo x uso da terra
Para fins práticos, a composição do solo é usualmente agrupada em classes de textura, que refletem a relação entre areia, silte e argila. Os novos dados mostram que, na camada superficial de 0–30 cm, a textura média predomina em 63,4% do território brasileiro, seguida pelos solos argilosos (29,6%), enquanto as classes arenosa, siltosa e muito argilosa somadas representam apenas 7% da área nacional. Além das diferenças na superfície, os mapas permitem observar de maneira explícita como a textura do solo pode mudar em profundidade: entre 60 e 100 cm, o país se torna majoritariamente argiloso (63,6%).
A textura do solo brasileiro revela contrastes marcantes entre os biomas brasileiros. Na Mata Atlântica, predominam solos com teores de argila superiores a 60%, o que confere maior capacidade de armazenamento de água e de retenção de nutrientes e também contaminantes, além de permitir que o carbono orgânico permaneça estocado por longos períodos.
Em contraste, Cerrado, Caatinga e Pantanal concentram áreas com teores de areia acima de 60%, ou seja, em solos nos quais a capacidade de retenção de nutrientes e carbono são menores e a infiltração e evaporação da água ocorrem de forma mais rápida, refletindo em menor quantidade de água disponível no solo. Ao mesmo tempo, a facilidade de infiltração contribui para a recarga dos aquíferos durante o período chuvoso.
Textura do solo brasileiro revela contrastes marcantes entre os biomas brasileiros. Foto: Divulgação/ Ministério da Agricultura e Pecuária
Já os maiores teores de silte, geralmente inferiores a 30%, ocorrem sobretudo nas várzeas da Amazônia, associados a sedimentos transportados dos Andes pelos grandes rios que alimentam o sistema amazônico, onde também se acumulam grandes quantidades de carbono.
“Os dados ajudam a explicar por que diferentes ambientes respondem de maneiras distintas ao uso do solo e às condições climáticas. Por exemplo, a mudança da textura em profundidade pode ter efeitos distintos dependendo da cobertura ou uso da terra. Quando sob vegetação natural, cultivo perene ou com cobertura do solo abundante, ela pode aumentar a disponibilidade de água da chuva que infiltra lentamente no solo. Por outro lado, em solos descobertos, revolvidos ou com vegetação rala, a mudança textural tende a dificultar a infiltração e aumentar o risco de erosão do solo. Esse efeito aumenta, com eventos de precipitação extrema”, explica o professor Alessandro.
A análise conjunta desses mapas de solo e da série histórica de uso e cobertura da terra evidencia padrões de ocupação do território relacionados às características físicas do solo. Entre 1985 e 2024, a pastagem se expandiu principalmente sobre solos de textura média e arenosa, perdendo área nas regiões muito argilosas. Essas áreas foram majoritariamente ocupadas pela agricultura, que também cresceu preferencialmente sobre áreas com baixa pedregosidade nos primeiros 90 cmJá a silvicultura teve expansão mais expressiva em locais onde a pedregosidade aparece nas camadas superficiais (<50 cm).
Os novos dados mostram que 9% do território brasileiro (77 milhões de hectares) possuem solo com mais de 50% de seu volume ocupado por pedregosidade dominante nos primeiros 100 cm. Destes, em 27,6 milhões de hectares (3,2% do território), o solo tem, no máximo, cerca de 90 cm de profundidade.
Abaixo dessa profundidade, o solo encontra a rocha ou tem mais de 90% de seu volume ocupado por fragmentos de rocha, cascalho, nódulos ou concreções (pedregosidade extrema). Na Caatinga, em particular, o solo se torna progressivamente mais pedregoso a profundidades entre 10 e 50 cm. Quanto maior a pedregosidade do solo, menor tende a ser o espaço disponível para o crescimento das raízes e o armazenamento de água, além de dificultar a mecanização agrícola e obras urbanas de saneamento.
Relação textura do solo x estoque de carbono
As diferenças nos estoques de carbono orgânico do solo tornam-se ainda mais evidentes quando analisadas por textura. Em média, solos argilosos, muito argilosos e siltosos possuem os maiores estoques, frequentemente acima de 50 t/ha em todos os biomas, enquanto os solos arenosos têm estoque médio de 32 t/ha no país. Na Caatinga, por exemplo, solos muito argilosos têm em média o dobro do estoque de carbono de solos arenosos, chegando a 35 t/ha de diferença.
“No Brasil, a distribuição do estoque de carbono orgânico do solo é marcadamente heterogênea, refletindo a diversidade climática, hidrológica, geológica e ecológica do território. Essa heterogeneidade reforça a importância de compreender cada bioma em sua totalidade, considerando tanto o que ocorre acima quanto abaixo da superfície”, destaca o professor.
Repositório público de amostras de solo
Além do lançamento de novos mapas de propriedades do solo, o MapBiomas Solo também lançou uma plataforma inédita de visualização espacial de dados de amostras de solo. A plataforma (https://plataforma.soildata.mapbiomas.org/) permite ao usuário navegar pelo território brasileiro, identificar onde há amostras de solo coletadas por pesquisadores e técnicos no passado e descarregar esses dados para uso em suas atividades. O usuário encontra dados de textura do solo (argila, silte e areia), carbono orgânico, densidade do solo e volume de fragmentos grossos de mais de 45 mil amostras de 15 mil pontos de coleta.
Plataforma do MapBiomas Solo é o maior repositório público dos dados de pesquisa em solos realizados no Brasil. Foto: Reprodução MapBiomas
A plataforma faz parte do SoilData (https://soildata.mapbiomas.org/), o maior repositório público e de acesso aberto de dados de pesquisa em solos realizados no país.
“Trata-se de um recurso único para pesquisadores, gestores públicos, consultores e produtores rurais, que agora podem localizar rapidamente dados de referência, verificar lacunas de monitoramento e comparar resultados de diferentes regiões”, explica o professor Alessandro, coordenador do repositório.
Vila Restauração é a prova de que energia limpa e sustentabilidade geram desenvolvimento social e promovem qualidade de vida para comunidades ribeirinhas da Amazônia. Foto: Divulgação
O Brasil está sediando a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), aqui na região Norte do país, em Belém. O encontro reúne líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil que discutem ações para combater as mudanças do clima.
A Energisa também está presente na COP30 com o compromisso de contribuir para a descarbonização do Brasil, com atenção especial à Amazônia Legal.
Nosso propósito é mostrar como o ecossistema de soluções do Grupo pode acelerar a transformação energética de forma sustentável, inclusiva e conectada às necessidades locais, unindo inovação, fontes renováveis e desenvolvimento regional.
Grandes obras foram realizadas para interligar municípios do Acre ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Foto: Divulgação
A sustentabilidade não é um pilar isolado no Grupo Energisa: está integrada à estratégia, por meio da chamada Energia 5D. Cada D traduz umvetor de transformação que orienta as decisões da companhia: descarbonização, digitalização, descentralização, democratização e diversificação.
No Acre, a Energisa vem colocando esses princípios em prática com o programa de descarbonização, que já desligou seis termelétricas movidas a diesel e evitou a emissão de mais de 166 mil de toneladas de CO₂.
A conexão de Cruzeiro do Sul ao Sistema Interligado Nacional (SIN) encerrou o ciclo de integração de sistemas isolados conduzido pela Energisa na região. Antes da interligação, o município era o segundo maior sistema isolado do país e dependia de uma usina a diesel com capacidade de 20 MW, consumindo cerca de 54 milhões de litros de combustível por ano.
O início da operação da Linha de Transmissão que conecta Rio Branco a Cruzeiro do Sul marcou a conclusão, no fim de 2024, da primeira parte do Programa de Descarbonização da Amazônia Legal. A integração do município ao SIN, que também conectou Feijó e Tarauacá, possibilitou a desativação da usina termelétrica da cidade que era uma das maiores da Região Norte.
Quando se fala em atuação ambiental, o projeto que leva energia para a Vila Restauração é sempre referência. Durante décadas, as famílias da comunidade, distante sete horas de barco do município de Marechal Thaumaturgo, era sinônimo de escuridão.
A energia usada pelas cerca de 200 famílias que moram lá vinha de um gerador a diesel que funcionava apenas três horas por dia. À noite, era impossível estudar, conservar alimentos ou manter atendimentos médicos básicos.
Cerca de quatro anos depois da chegada da eletricidade permanente, a realidade mudou. Hoje, as famílias que vivem no meio da floresta têm luz 24 horas, internet, comércio fortalecido e novos serviços, como açougue, sorveteria e salão de beleza.
Os 580 painéis solares geram e as baterias de lítio armazenam a energia que a comunidade precisa. Uma verdadeira operação de guerra foi feita para transportar os equipamentos em caminhões, balsas e barcos até um dos pontos mais remotos da Amazônia. O objetivo era provar que era possível substituir o diesel por uma solução limpa e replicável em comunidades isoladas da região.
Nova realidadede energia
A escola passou a ter ventiladores, projetor e internet para as aulas, o que tornou a rotina mais produtiva e abriu novas possibilidades de aprendizado. O posto de saúde, que antes mal acionava a bomba d’água, hoje mantém vacinas armazenadas com segurança. As famílias conseguem conservar alimentos por mais tempo, muitos moradores passaram a assistir televisão à noite e o comércio local cresceu. A comunicação também avançou com a instalação de uma torre de telefonia celular, o que facilitou o uso de máquinas de cartão, o contato com fornecedores e os pagamentos sem necessidade de ir até a cidade.
Reconhecimento internacional
Energisa tem o compromisso de promover maior qualidade de energia alinhada com a sustentabilidade no Acre. Foto: Divulgação
O pioneirismo do modelo de energia na Vila Restauração ganhou destaque fora do Brasil. Em junho de 2023, o projeto venceu o “The Smarter E Award”, em Munique, na Alemanha, um dos prêmios mais importantes do setor de renováveis. Entre os sete finalistas, o trabalho brasileiro foi o único realizado no hemisfério sul, superando iniciativas da Europa, Estados Unidos e Ásia.
O diretor presidente da Energisa Acre, Ricardo Xavier, destaca que o compromisso real da empresa é com o futuro e com o desenvolvimento das comunidades onde está inserida.
“Na Energisa, acreditamos que a energia tem o poder de transformar. Quando investimos em fontes mais limpas, eficiência, inovação e educação ambiental, estamos cuidando das pessoas — das que estão aqui agora e das que virão depois de nós. Estamos olhando para a floresta em pé, para o desenvolvimento que respeita o território e para oportunidades que não sacrificam o amanhã”.
O Grupo Energisa acredita que o futuro da energia será construído por meio de uma matriz diversa e complementar, que combina diferentes tecnologias e fontes renováveis. Por isso, aposta na multipotencialidade como diferencial estratégico para ampliar o acesso à energia limpa, apoiar comunidades em áreas remotas e impulsionar um futuro energético mais justo, acessível e sustentável para todos.
Alerta sobre a degradação dos Solos. Foto: divulgação
Um estudo produzido pela Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) mostrou que 33% dos solos do mundo estão degradados. Apenas a erosão extingue de 25 a 40 bilhões de toneladas de solo por ano, diminuindo bastante a produtividade.
Estima-se uma perda de produção de cereais, por causa da erosão, na ordem de 253 milhões de toneladas, em 2050. Aproximadamente 50% dos solos latino-americanos sofrem atualmente com algum tipo de degradação.
Os solos são fundamentais para a sustentação da vida na Terra, pois constituem a base para o desenvolvimento agrícola, para as funções dos ecossistemas essenciais e segurança alimentar;
A sustentabilidade dos solos é fundamental para enfrentar as pressões de uma população em crescimento e, assim, a gestão sustentável pode contribuir para solos saudáveis para a segurança da produção de alimento a nível mundial e para os ecossistemas estáveis e sua utilização de forma sustentável;
Museu criado com apoio do Governo do Estado em Itacoatiara. Foto: Samuel: Rodrigues Barbosa
A boa gestão dos solos têm importância econômica e social determinante para a biodiversidade, agricultura sustentável e segurança alimentar, erradicação da pobreza, capacitação das mulheres, combate às alterações climáticas, melhoria da disponibilidade de água, salientando que a desertificação, a degradação dos solos e as secas são desafios de dimensão mundial, que continuam a representar sérios entraves para o desenvolvimento sustentável de todos os países, em especial, os países em desenvolvimento;
A necessidade urgente, em todos os níveis, de aumentar a consciencialização e promoção da sustentabilidade dos recursos limitados de solo, utilizando a melhor informação científica disponível e tomando como base todas as dimensões do desenvolvimento sustentável.
Para os agricultores, o solo é o ponto de partida para garantir a produtividade do cultivo. Neste contexto, o DNOCS não poderia deixar de memorar essa data. A reflexão fica para podermos nos conscientizar da importância de buscarmos ações para usar o solo de maneira responsável, sem ameaçar a segurança alimentar do mundo, a produção alimentar e a vida na Terra, de uma maneira geral. Neste Dia Mundial do Solo, propague a mensagem: “cuidar do solo é preservar a vida”.
Museu de Solos da Amazônia
Um espaço que promove o acesso a informações sobre a temática do solo, permite a troca de experiências, desperta responsabilidades socioambientais, e ideias e ações inovadoras, além da conscientização da preservação e conservação do solo: esse é o Museu de Solos da Amazônia (Musoam), que está localizado em Itacoatiara (176 KM distante de Manaus), no Amazonas.
Museu criado com apoio do Governo do Estado em Itacoatiara. Foto: Samuel: Rodrigues Barbosa
O projeto levado adiante por pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) do município visa a integração da ciência, educação e da natureza, por meio da disseminação do conteúdo sobre solos na região, com maior acessibilidade, interação e metodologias de fácil compreensão.
O acervo dispõe de mais de 50 monolitos de solos, que são perfis de solos preservados de interesse pedológico, de ambientes representativos da região amazônica, e que não tiveram a intervenção do homem no ambiente natural. No espaço também é possível conhecer a coleção de cores de solos, por meio de oficinas que demonstram as diferentes cores, sendo possível discutir e explicar sua origem.
O projeto é apoiado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). Sob a coordenação do doutor em Ciência do Solo, Luís Antônio Coutrim dos Santos, do Centro de Estudos Superiores de Itacoatiara (Cesit/UEA), o projeto foi fomentado pelo ‘Programa Biodiversa/Fapeam: CT&I para Ambiência e Biodiversidade no Estado do Amazonas’.
A entrega ocorreu na Escola Municipal Emília Rios Peixoto. Foto: PMBV
A semana iniciou de forma especial na Escola Municipal Emília Rios Peixoto, no bairro Cidade Satélite. Nesta última segunda, 1º, alunos participaram da inauguração do novo parque infantil da unidade, em um evento especial que contou até com piquenique. A entrega faz parte da parceria entre a Prefeitura de Boa Vista e a Fundação Abrinq, que está beneficiando cinco escolas da rede municipal com estruturas voltadas ao desenvolvimento infantil.
Além da Emília Rios, também recebem parques infantis o Núcleo de Creche Senador Hélio Campos, a Escola Antonio Airton Oliveira Dias, o anexo da Escola Newton Tavares e a Escola Pedro Ferreira Monteiro — juntas, essas unidades atendem mais de 2 mil crianças.
Parceria que amplia oportunidades para a primeira infância
Para Consuêlo Sales, a iniciativa reforça o compromisso com a educação infantil. Foto: PMBV
Para Consuêlo Sales, secretária-executiva de Primeira Infância, a iniciativa reforça o compromisso do município em buscar aliados para ampliar investimentos na educação infantil. “Sabemos o quanto um espaço como esse contribui para o desenvolvimento das crianças e para a prática pedagógica dos professores. E nos deixa muito felizes ver a cidade avançando com excelência na educação”, destacou.
A alegria das crianças
Os estudantes foram os primeiros a testar o novo parque e aprovaram a novidade. A pequena Emanuelle Oliveira, 6 anos, não escondeu a empolgação. “Eu adorei o parquinho. Vou brincar muito aqui. Gostei principalmente do escorregador. Eu amo a minha escola, a merenda, os amigos”, disse.
Para Zion Mendes, 5 anos, o balanço foi o brinquedo preferido. “O parquinho é lindo. O balanço é bem legal. Vou brincar muito aqui”, contou.
Formação garante uso pedagógico do parquinho
Irlis Luiz reforçou que os professores estão preparados para utilizar o espaço. Foto: PMBV
A Fundação Abrinq também ofereceu formação aos profissionais das escolas contempladas. Os encontros o ocorreram on-line e abordaram temas como o papel do brincar no desenvolvimento infantil, práticas pedagógicas inclusivas e o brincar como ferramenta de aprendizagem.
A gerente de Educação Infantil da Rede Municipal, Irlis Luiz, reforçou que os professores estão preparados para utilizar o espaço de forma intencional e educativa.
Espaço contempla toda a comunidade escolar. Foto: PMBV
“Os professores participaram de uma formação que tratou de forma aprofundada a relação entre brincar, desenvolvimento infantil e aprendizagem. O parque garante novas possibilidades para o desenvolvimento psicomotor, cognitivo e social das crianças”, explicou.
Ela acrescenta ainda, que o equipamento atende todas as turmas da unidade. “Aqui na Emília Rios, o parque beneficia desde as crianças da creche, com dois anos, até os alunos da pré-escola, com cinco anos. É um espaço que contempla toda a comunidade escolar”, destacou.
Pesquisas da Embrapa mostram que a farinha parcialmente desengordurada e o concentrado proteico de castanha-do-brasil apresentam alto teor de proteínas e têm potencial promissor para o mercado de produtos de origem vegetal. No caso da farinha, o teor proteico é cerca de 60% superior ao da feita com trigo. Os ingredientes foram aplicados na formulação de hambúrgueres, quibes e proteína texturizada, que tiveram boa avaliação de sabor, textura e aparência. A tecnologia está pronta para ser testada em escala comercial.
“A busca por maior diversidade de fontes proteicas nacionais têm estimulado pesquisas voltadas à exploração sustentável da biodiversidade brasileira. Além de contribuir para o aproveitamento de recursos naturais e a geração de emprego e renda, essas iniciativas buscam novos ingredientes para a indústria alimentícia”, afirma Ana Vânia Carvalho, pesquisadora da Embrapa. O trabalho integra o Programa Biomas do The Good Food Institute (GFI) Brasil, com financiamento do Fundo JBS pela Amazônia.
Castanha. Foto: Embrapa
Os processos de obtenção da farinha parcialmente desengordurada, do concentrado proteico e da proteína texturizada, utilizada como substituta de produtos cárneos, foram desenvolvidos no Laboratório de Agroindústria da Embrapa Amazônia Oriental (PA).
A pesquisadora conta que a primeira etapa do trabalho, que está publicado em boletim técnico, foi entender profundamente a matéria-prima. Com aproximadamente 15% de proteína bruta, 67% gorduras, 7% carboidratos e valor energético de 751 kcal/100g, a castanha-do-brasil desponta como um produto promissor para o mercado de proteínas alternativas.
“A castanha-do-brasil é um símbolo da sociobiodiversidade amazônica e surge como alternativa nacional de alto valor agregado. Isso pode fortalecer cadeias produtivas amazônicas, gerando valor para pequenos produtores e indústrias regionais”, acredita Carvalho.
Farinha da castanha-do-brasil. Foto: Embrapa / Ronaldo Rosa
De subproduto a ingrediente de alto valor
A pesquisadora explica que a remoção parcial do óleo da castanha – usado majoritariamente pela indústria cosmética – gera uma torta, que é a base para os novos ingredientes. “A torta da castanha é um resíduo do processo de extração do óleo. Um subproduto da indústria”, conta. A pesquisa utilizou também castanhas que não tinham padrão para comercialização in natura – quebradas ou em pedaços, ampliando o aproveitamento das castanhas e reduzindo desperdícios.
Após a extração do óleo, o teor de proteína da castanha, originalmente de 15%, saltou para 32,4% na farinha, um aumento de cerca de 116%. Em 100 gramas de farinha de trigo integral, por exemplo, estão cerca de 13 gramas de proteína, um pouco mais que a tradicional farinha de trigo “branca”. Já 100 gramas de farinha de castanha apresentam quase 33 gramas de proteína, valor 60% maior que a de trigo.
Castanha-do-brasil. Foto: Embrapa /Ronaldo Rosa
A partir dessa farinha, os pesquisadores produziram o concentrado proteico que obteve até 56% de proteína. O concentrado e a farinha foram testados na formulação de produtos para o consumidor final. “Nós avaliamos hambúrguer e quibe usando tanto a farinha quanto o concentrado proteico. Já a proteína texturizada fizemos só com o concentrado, em um blend de proteína de castanha-do-brasil e proteína de soja”, complementa a cientista.
O trabalho destaca que os novos ingredientes apresentam propriedades funcionais adequadas para aplicações alimentícias e elevados teores de aminoácidos, além de serem ricos em selênio – mineral abundante na castanha.
Quibe e hambúrguer de castanha
Na Embrapa Agroindústria de Alimentos ( RJ), foram desenvolvidos o quibe e o hambúrguer, ambos vegetais e com características sensoriais – sabor, textura e aparência – semelhantes aos feitos com produtos de origem animal. O trabalho foi publicado pela instituição e está disponível para download.
Nas receitas dos dois alimentos foram utilizados a farinha parcialmente desengordurada e o concentrado proteico obtido a partir da mesma farinha. “Conseguimos utilizar um coproduto da cadeia de produção da castanha-do-brasil e transformar em um produto para consumo direto, com foco nos públicos vegetarianos, veganos e flexitarianos”, explica a pesquisadora da Embrapa Janice Lima.
Para a formulação do quibe foi usada a farinha com composição em torno de 6% de óleo, 32% de proteínas e 10% de fibra total. Os demais ingredientes da receita podem ser encontrados em supermercados, mercearias e afins. Em caso de preparo doméstico, o produto deve ser consumido logo após ficar pronto. Já a comercialização inclui as etapas de embalagem e congelamento. O alimento pode ser comercializado congelado, cru ou pré-assado, a critério do fabricante.
Hambúrguer feito de castanha-do-brasil. Foto: Embrapa / Kadijah Suleiman
Na formulação do hambúrguer vegetal, os resultados de pesquisa propõem a utilização do concentrado proteico de castanha-do-brasil. Tipicamente, o concentrado apresenta em torno de 7% de óleo, 56% de proteínas e 13% de fibra total. Assim como para o quibe, os demais ingredientes do hambúrguer são comerciais. Depois de moldados, os produtos devem ser embalados em sacos plásticos individuais e, em seguida, congelados.
Na composição final, e de acordo com a Instrução Normativa nº 75, de 8 de outubro de 2020, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o quibe é considerado um produto de alto conteúdo de fibras, com 6,8 gramas de fibras a cada 80 gramas do produto, enquanto o hambúrguer pode ser considerado fonte de fibras, com 4,5 gramas de fibras a cada 80 gramas do produto.
Texturizado de castanha é similar ao de proteína de soja
Além desses alimentos de origem vegetal, também foi obtido um ingrediente texturizado proteico vegetal à base de castanha-do-brasil e soja, contendo cerca de 56% de proteína, que é similar, em uso, à tradicional proteína texturizada de soja (PTS). Segundo a pesquisadora Melicia Galdeano, da Embrapa, o resultado materializa um dos principais objetivos do projeto: desenvolver ingredientes proteicos alternativos a partir de matéria-prima nacional, promovendo a diversificação das fontes proteicas vegetais no Brasil para o mercado plant-based brasileiro.
“Atualmente predominam no mercado de proteínas vegetais opções como a soja e a ervilha. Esse trabalho caminha para o aproveitamento sustentável da castanha, incentivando seu plantio e beneficiando comunidades locais”, destaca Galdeano.
Texturizado de castanha-do-brasil. Foto: Embrapa / Kadijah Suleiman
Consumidores testam e demonstram boa aceitação
O teste de aceitação sensorial avaliou a aplicação dos coprodutos da industrialização da castanha-do-brasil em preparações alimentícias e mostrou boa aceitação pelos consumidores participantes. “Os análogos vegetais, quibe, hambúrguer e texturizado proteico vegetal à base de castanha-do-brasil e soja, apresentaram aparência, sabor e textura característicos de suas versões convencionais, o que indica o potencial de utilização dos coprodutos do processamento da castanha-do-brasil como ingredientes alternativos em produtos desenvolvidos para o público de alimentos plant-based”, finaliza a pesquisadora Daniela Freitas de Sá.
*Com informações da Embrapa Amazônia Oriental, escrito por Ana Laura Lima.
A Cota permite que a regularização ambiental, muitas vezes vista como obstáculo, se transforme em oportunidade. Foto: Bruno Cecim / Agência Pará
https://portalamazonia.com/amazonia/cota-de-protecao-ambiental-no-para/A política ambiental do Pará chega a 2025 com um novo capítulo. Após duas décadas da promulgação do Macrozoneamento Ecológico-Econômico do Estado, a Cota de Proteção Ambiental (CPA) – prevista no Código Florestal Brasileiro e regulamentada no Pará pelo Decreto Estadual nº 4.613/2025 – começa a apresentar resultados concretos. Criada para valorizar as unidades de conservação e oferecer uma alternativa legal para a regularização ambiental de propriedades com passivos consolidados até 2008, a CPA já beneficia produtores, fortalece a gestão ambiental e abre caminho para uma nova relação entre economia e floresta.
Floresta nativa. Foto: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Cada cota corresponde a um hectare de área preservada em unidades de conservação de proteção integral. Hoje, o Pará possui cerca de 5,9 milhões de cotas disponíveis. Ao adquirir cotas, produtores compensam sua reserva legal, regularizam o imóvel e contribuem para a manutenção de áreas protegidas. O pagamento pode ser anual – R$ 100,00 por hectare – ou à vista, R$ 900,00 com 40% de desconto. Também há cotas não compensatórias, de caráter voluntário, ao custo de R$ 60,00 por hectare.
O assessor técnico do Ideflor-Bio, Thiago Valente, explicou que o mecanismo é duplamente vantajoso. “A CPA conecta produção e conservação, ao mesmo tempo em que garante a manutenção das unidades de conservação com recursos permanentes”, destacou. Segundo ele, isso assegura sustentabilidade financeira ao Sistema Estadual de Unidades de Conservação (Seuc), amplia a proteção da biodiversidade e oferece segurança jurídica ao produtor rural.
Na prática, o produtor que tem passivo consolidado até julho de 2008 pode compensar sua reserva legal com CPAs, sem precisar reflorestar a própria área. O avanço já aparece nos números: aproximadamente 22 mil cotas foram adquiridas, beneficiando mais de 5 mil propriedades rurais. Municípios com forte atividade agropecuária, como Redenção (no Sul) e Dom Eliseu (Sudeste), estão entre os que mais aderiram, convertendo um cenário de insegurança jurídica em oportunidade de adequação ambiental. Diversos processos de regularização já foram concluídos, e novos pedidos estão em análise.
Cotas de proteção ambiental ajudam os bovinos. Foto: Bruno Cecim / Ag.Pará
O marco mais simbólico ocorreu com a entrega dos primeiros certificados emitidos oficialmente pelo Estado. A Fazenda Goiabeiras, em Pau D’Arco (Sul), e a Fazenda Recanto, em Novo Progresso (Sudoeste), foram as primeiras propriedades a regularizar seus passivos via CPA. O momento foi celebrado como um divisor de águas, colocando o Pará entre os pioneiros na aplicação prática do instrumento previsto no Código Florestal.
Para os produtores, a mudança traz alívio e perspectiva. “Eu tinha vontade de regularizar, mas não tinha como recuperar sozinho toda a área de reserva. Com a cota, consegui cumprir a lei, manter a propriedade funcionando e ainda contribuir para a proteção da floresta. É justo para quem produz, e justo para a natureza”, assegurou o agricultor José Abílio Lopes, de Dom Eliseu.
Cotas de proteção ambiental beneficiam as florestas. Foto: Fernando Sette / Divulgação
Convergência
Segundo o presidente do Ideflor-Bio, Nilson Pinto, a CPA se consolida como um ponto de encontro entre agendas historicamente vistas como opostas. No Pará, onde a produção rural ocupa papel estratégico na economia, e a floresta é patrimônio mundial, a política revela que é possível equilibrar os dois lados. E que a regularização ambiental, muitas vezes vista como obstáculo, pode se transformar em oportunidade.
Ele afirma, ainda, que o modelo cria um novo elo entre conservação e economia. “A CPA é uma inovação que fortalece a gestão das unidades de conservação e amplia a segurança jurídica para os produtores rurais. É uma solução que aproxima a conservação da biodiversidade da economia do campo, garantindo benefícios para toda a sociedade paraense”, disse Nilson Pinto.
Além de canalizar recursos financeiros para a gestão de unidades de conservação, a CPA inaugura uma lógica de mercado baseada em serviços ambientais. Em vez de enxergar áreas protegidas como barreira ao desenvolvimento, produtores agora podem vê-las como parte da solução. A política cria um ciclo virtuoso: quem produz financia a preservação, e quem preserva recebe recursos para manter a floresta em pé.
*Contém informações da Agência Pará, por Vinícius Leal (IDEFLOR-BIO)
Ação contra mosca-da-carambola. Foto: Divulgação / Secom Roraima
A partir do dia 9 de dezembro, o Governo de Roraima dará início a uma ação conjunta para reduzir a presença da mosca-da-carambola em Boa Vista. A iniciativa é coordenada pela Aderr (Agência de Defesa Agropecuária de Roraima), em parceria com o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e a Defesa Civil municipal.
Roraima foi recentemente autorizado a liberar novas áreas de produção livres da praga, mas vem registrando aumento da população da mosca em alguns bairros da capital, fator que pode ampliar o risco de dispersão para regiões ainda não afetadas.
Operação contra mosca-da-carambola. Foto: Divulgação / Secom Roraima
As equipes iniciarão o trabalho com a instalação de armadilhas nos bairros Cambará, Asa Branca, Equatorial, Caimbé e Silvio Botelho, com o objetivo de reduzir a infestação e evitar o avanço da praga.
O diretor de Defesa Vegetal da Aderr, Marcos Prill, destacou a importância da participação da população na força-tarefa.
“Nossos profissionais estarão identificados e irão coletar frutos caídos ou que não serão consumidos pelos moradores nas plantas hospedeiras da praga. Esses frutos podem conter ovos e larvas. É fundamental que os moradores facilitem o acesso aos quintais para a instalação das armadilhas e aplicação das iscas atrativas”, ressaltou.
Mosca-da-carambola. Foto: Danilo Nascimento
Além das armadilhas, os técnicos aplicarão iscas em pontos estratégicos e realizarão monitoramento contínuo para avaliar a evolução da infestação. A operação começará pelos cinco bairros inicialmente selecionados, com possibilidade de ampliação para outras áreas de Boa Vista.
Sobre a mosca-da-carambola
A mosca-da-carambola é uma praga quarentenária presente em apenas três Estados do Brasil, incluindo Roraima, e ataca diversas frutas, tornando inviável sua produção. Por isso, seu monitoramento e controle são realizados oficialmente pela Aderr e pelo Mapa.
Para o monitoramento, são utilizadas armadilhas do tipo Jackson e McPhail, que empregam produtos atrativos, além de armadilhas reaproveitamento de garrafas PET e fita adesiva amarela em locais com maior ocorrência da praga. As armadilhas são instaladas em árvores hospedeiras e não devem ser manipuladas pela população, pois o trabalho de inspeção é feito exclusivamente por técnicos.
O controle da praga também envolve a pulverização das árvores hospedeiras com produtos químicos, coleta de frutos e armazenamento em sacos plásticos por sete dias antes do descarte e enterro dos frutos, seja em aterro sanitário, ou em valas abertas especificamente para esse fim, assim evitando a proliferação.
A colaboração da população para evitar o transporte irregular de vegetais vindos de outros Estados ou de Roraima é essencial para o sucesso da ação e para proteger a produção local e nacional de frutas.
*As informações da Secretaria de Comunicação de Roraima, escrito pelo repórter Elias Venâncio