O Amazonas ganha um novo espaço de projeção internacional da cultura, com a homologação do Núcleo Cultural Regional da Rede Sem Fronteiras no estado. A cerimônia marca a entrada oficial do estado na organização cultural internacional e acontece nesta quinta-feira, 19 de março, às 18h, no auditório da Universidade Estadual do Amazonas (UEA).
Segundo Kátia Colares, presidente da Rede Sem Fronteiras Núcleo Amazonas, a cerimônia representa um momento simbólico e estratégico para a cultura regional.
“A cerimônia marca a entrada oficial do Amazonas na Rede Sem Fronteiras, uma organização cultural internacional presente em mais de 30 países. Também abre um novo ciclo de cooperação cultural, permitindo que talentos amazônicos se conectem a uma rede global dedicada à promoção da cultura e da língua portuguesa”, destacou.
De acordo com Kátia, a criação do núcleo no estado surge da necessidade de ampliar a presença da produção cultural amazônica no cenário nacional e internacional.
Além disso, o núcleo também possui o propósito de aproximar artistas, escritores e produtores culturais locais de uma plataforma internacional de intercâmbio e visibilidade cultural, para que possam ter acesso a novas oportunidades de circulação e divulgação de suas obras.
“Por meio da Rede Sem Fronteiras, artistas e escritores passam a ter acesso a projetos editoriais, eventos culturais internacionais, coletâneas literárias e intercâmbios culturais. Isso amplia oportunidades de publicação, circulação de obras e participação em eventos culturais da lusofonia”, afirmou.
Visibilidade para o Amazonas
Assim, segundo a presidente, a chegada da organização ao Amazonas tem o intuito de fortalecer o intercâmbio cultural com outros países lusófonos, criando uma ponte direta entre a produção cultural da região e outros países que compartilham a língua portuguesa.
Além disso, a organização permite a realização de projetos colaborativos, participação em coletâneas internacionais, intercâmbio entre autores e eventos culturais conjuntos.
“A fundação do núcleo regional no Amazonas é um convite para que escritores, artistas e agentes culturais participem dessa construção coletiva e levem a cultura amazônica para além das fronteiras geográficas”, concluiu Kátia.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Você sabe qual foi a primeira lei ambiental instituída no Brasil? No país, a legislação voltada à proteção dos recursos naturais remonta desde o período colonial. Além disso, ao longo de mais de quatro séculos, diferentes normas foram criadas para regular o uso da terra, das florestas, da água e da fauna, focadas no desenvolvimento e na preservação ambiental.
De acordo com o pesquisador Deivison Molinari, a primeira norma ambiental do Brasil surgiu ainda no início do século XVII, quando o território brasileiro era colônia de Portugal.
Primeiras normas ambientais do Brasil
Em 1605 foi criado o ‘Regimento do Pau-Brasil‘, considerado a primeira lei de caráter ambiental do país, que buscava regulamentar a exploração do pau-brasil e controlar a derrubada descontrolada da madeira, evitando o esgotamento da árvore que havia se tornado um dos principais produtos de exportação da colônia.
“O Regimento foi instituído pelo rei Dom Filipe III, e posteriormente, foi elaborada uma legislação ligada também a madeiras, como a peroba, por exemplo”, explicou Molinari.
Regimento do Pau-brasil. Foto: Reprodução/Facebook-@Serviçoflorestalbrasileiro
De acordo com o Jusbrasil, no final do século XVIII, novas normas surgiram ampliando a preocupação com o uso do ambiente. Em 1797, uma carta régia destacou a necessidade de proteção de rios, nascentes e encostas, que passaram a ser considerados propriedades da Coroa Portuguesa.
Pouco tempo depois, em 1799, foi criado o Regimento de Cortes de Madeiras, que estabelecia regras rigorosas para o corte de árvores, medida que buscava controlar a exploração de madeiras consideradas nobres, como a peroba e outras espécies de grande valor econômico.
Outro marco importante aconteceu no século XIX com a promulgação da Lei nº 601 de 1850, conhecida como Lei de Terras. A legislação disciplinou a ocupação do solo brasileiro e estabeleceu regras para a aquisição de terras.
“Ela basicamente disciplina a ocupação do solo, estabelece o que é a terra da união. Então, a terra inicialmente é do Estado, depois que ela vai se tornando privada, a lei de terras é a primeira norma, de fato, efetiva”, explicou Molinari.
Já no século XX, a legislação ambiental brasileira passou a se desenvolver de maneira mais estruturada. Em 1911, foi criado o Decreto nº 8.843, responsável por instituir a primeira reserva florestal do país, localizada no antigo Território do Acre. No entanto, a reserva não foi implantada.
Primeira Reserva Florestal do Brasil. Foto: Reprodução/X- @serviçoflorestalbrasileiro
Poucos anos depois, em 1916, o Código Civil brasileiro passou a incluir algumas disposições relacionadas ao meio ambiente, composto por normas que refletiam a natureza como um bem econômico vinculado ao direito de propriedade.
A década de 1930 marcou um avanço significativo na legislação ambiental, já que em 1934, foram instituídos o primeiro Código Florestal e o Código de Águas, que estabelecem limites ao uso da propriedade privada, quando esta pudesse causar impactos ambientais. De acordo com o Jusbrasil, essas normas são consideradas o embrião da atual legislação ambiental do país.
Proteção ambiental no Brasil
O Código Florestal sofreu alterações ao longo das décadas, e uma nova versão foi promulgada em 1965, ampliando políticas de proteção e conservação da flora, e estabelecendo o conceito de Áreas de Preservação Permanente (APPs), como regiões que devem ser protegidas por sua importância ambiental.
Em 1967, foram criados os Códigos de Caça, Pesca e Mineração, além da Lei de Proteção à Fauna, medidas que ampliaram a regulamentação sobre o uso dos recursos naturais. Além disso, de acordo com o Jusbrasil, uma nova Constituição atribui à União, competência para legislar sobre jazidas, florestas, caça, pesca e águas, cabendo aos Estados tratar de matéria florestal.
Durante a década de 1970, a legislação passou a incluir também a preocupação com a poluição industrial e em 1975, o Decreto-Lei nº 1.413 determinou que empresas poluidoras deveriam prevenir e corrigir danos ambientais causados por suas atividades.
Um dos marcos mais importantes aconteceu em 1981, com a criação da Política Nacional de Meio Ambiente por meio da Lei nº 6.938, estabelecendo o meio ambiente como objeto específico de proteção jurídica ao criar instrumentos para controle e fiscalização ambiental.
A Constituição de 1988 e os avanços recentes
Em 1988, a nova Constituição brasileira passou a dedicar um capítulo inteiro ao meio ambiente. O artigo 225 determina que tanto o poder público quanto a sociedade têm o dever de defender e preservar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras.
Além disso, o Estatuto da Cidade, sancionado em 2001, trouxe instrumentos para que o desenvolvimento urbano ocorra sem comprometer o equilíbrio ambiental.
O conjunto de normas da legislação ambiental brasileira é considerado uma das mais completas, visto que é resultado de um processo que começou ainda no período colonial e evoluiu ao longo dos séculos.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
O Monte Roraima, um dos cenários mais fascinantes da Amazônia, está localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Seus tepuis, como são conhecidas suas montanhas e montes, ultrapassam os 2,7 mil metros de altitude se tornando um dos pontos mais elevados do território brasileiro.
O monte integra o conjunto de formações geológicas mais antigas da América do Sul, com rochas que remontam a bilhões de anos. O local é marcado por paredões verticais e formações rochosas esculpidas pelo vento que atraem aventureiros de diversas partes do mundo.
A região abriga também espécies endêmicas (que só existem naquela região) como resultado do isolamento natural do topo da montanha ao longo de milhares de anos, o que torna o ambiente um verdadeiro “laboratório natural” para estudos científicos.
Além disso, de acordo com tradições indígenas, o local é considerado o berço de Makunaima, figura ancestral descrita como um guerreiro corajoso.
Personagem José Alfredo (Alexandre Nero) com um diamante encontrado no Monte Roraima. Foto: Reprodução/ Tv Globo
Além da sua grandiosidade geográfica, o Monte Roraima desperta curiosidade por histórias que mesclam aventura, espiritualidade e supostas riquezas minerais.
Um dos questionamentos é sobre a existência de pedras preciosas no local, especialmente diamantes, uma ideia popularizada após a aparição da região na novela ‘Império’, exibida entre 2014 e 2015, na TV Globo. Mas o que dizem os especialistas?
Segundo o geólogo Fábio Luiz Wankler, do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), não existem pedras preciosas no topo do Monte Roraima.
“Geologicamente, o topo do Monte Roraima é composto de arenito. Não existem pedras preciosas no topo. A ideia de que há minas de diamantes no alto do monte, popularizada por novelas e por alguns guias locais, é um mito”, afirma o pesquisador.
O geólogo Jackson Douglas Silva da Paz, doutor em Geologia e também professor da UFRR, complementa a explicação com base em registros oficiais:
“Há fontes e registros oficiais que tratam da ocorrência de minerais e do potencial gemológico, mas não exatamente do Monte Roraima e, sim, do estado de Roraima em geral, dentro de levantamentos geológicos regionais mais amplos”.
A principal referência institucional é o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), responsável pelos levantamentos geológicos e inventários minerais do país. O órgão disponibiliza relatórios técnicos, mapas geológicos e metalogenéticos com dados de campo, análises laboratoriais e registros históricos de ocorrências minerais.
“O documento mais recente é ‘Geologia e recursos minerais do estado de Roraima’, publicado em 2025. É um bom ponto de partida porque traz a recorrência histórica das ocorrências minerais no estado”, destaca Jackson.
Minerais valiosos
Embora o topo do Monte Roraima não possua pedras preciosas, a região ao redor apresenta registros históricos de minerais valiosos.
“O diamante e o ouro da região ocorrem apenas em rochas conglomeráticas do embasamento do Monte Roraima (na base) e nos rios que as drenam, como nas localidades de Santa Elena de Uairén, Uiramutã e Tepequém”, explica Fábio Luiz Wankler.
Jackson Douglas Silva da Paz completa e detalha que essas ocorrências são, em grande parte, depósitos aluviais (referente a depósitos de sedimentos, como cascalho e areia, transportados e depositados por água corrente) associados ao Supergrupo Roraima (entenda AQUI).
“Na mesma publicação da SBG/CPRM, Geologia e recursos minerais do estado de Roraima, Mendes e colaboradores apontam que ouro e diamantes são encontrados em depósitos aluviais e sedimentos associados ao Supergrupo Roraima. Além disso, metais como estanho, nióbio, tântalo, titânio, vanádio e elementos de terras-raras ocorrem também, mas associados a corpos intrusivos regionais”, explicou.
No entanto, ele ressalta que isso não significa a existência de jazidas no topo do tepui, já que a morfologia do tepui indica que ele é muito mais um remanescente erosivo do que um centro mineralizador ativo. Além disso, maior parte das ocorrências registradas oficialmente em Roraima refere-se a áreas fluviais recentes ou a outras unidades geológicas do estado, não especificamente ao maciço do Monte Roraima.
De acordo com Wankler, os diamantes encontrados nessas áreas costumam ser pequenos, raramente ultrapassando dois quilates, e apresentam coloração translúcida ou levemente amarelada, e não há registros do “diamantes rosa”, popularizado na novela.
A composição predominante de arenito explica porque o Monte Roraima não apresenta condições favoráveis para a formação de pedras preciosas. Segundo Fábio Luiz Wankler, o arenito da área não é mineralizado, e o único cristal presente é o quartzo, formado pela recristalização do arenito devido a eventos tectônicos que afetaram as rochas do monte.
Esse tipo de fenômeno geológico, segundo ele, não é exclusivo do local e pode ser encontrado em outras áreas da região amazônica.
Assim, um dos pontos mais conhecidos do topo do Monte Roraima é o chamado ‘Vale dos Cristais’, uma área que reúne milhares de cristais de quartzo translúcidos, espalhados sobre as rochas.
“No topo existe um fenômeno chamado Vale dos Cristais, onde se caminha por trilhas rodeadas por rochas com milhares de cristais de quartzo. Trata-se de um sítio de interesse geológico, mas sem valor monetário significativo”, esclarece Wankler.
Vale dos Cristais. Foto: Alexsandro Seidler
Jackson Douglas Silva da Paz complementa sobre a formação do quartzo presente na área:
“O Supergrupo Roraima é formado por rochas sedimentares ricas em quartzo, com pouca influência de processos magmáticos ou metamórficos intensos, que são fundamentais para a gênese (origem) de muitos depósitos minerais”, explica.
Mineração proibida
De acordo com Fábio Luiz Wankler, embora os cristais não tenham um valor monetário significativo, o local é frequentemente depredado por visitantes que tentam levar exemplares.
Porém, além da ausência de pedras valiosas no topo, a exploração mineral é legalmente proibida. No Brasil, o Monte Roraima integra o Parque Nacional do Monte Roraima, uma Unidade de Conservação Federal que busca preservar um dos ecossistemas mais frágeis e únicos do planeta.
No lado venezuelano, o Monte está inserido no Parque Nacional Canaima, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, onde a mineração industrial também não é permitida.
Na Guiana, a atividade mineral é regulamentada pela Guyana Geology and Mines Commission, que exige licenças e estudos de impacto ambiental, respeitando áreas protegidas.
Sobre os riscos ambientais, Wankler alerta, que mesmo fora dos limites do parque, a mineração representa sérios riscos ambientais na região amazônica. Entre os principais impactos estão a contaminação da água pelo mercúrio, o desmatamento e a erosão do solo.
“A mineração pode contaminar rios e afetar diretamente o modo de vida dos povos originários. Além disso, atividades ilegais costumam atrair redes criminosas ligadas à lavagem de dinheiro, prostituição e tráfico humano”, alerta o pesquisador.
Foto: Reprodução/Embratur
De acordo com Wankler, existem diversos impactos já documentados, que destacam a contaminação por mercúrio em peixes, identificada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e o desmatamento monitorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que afeta o balanço hídrico local, causando a erosão dos solos e o assoreamento dos rios.
Além disso, estudos feitos em centros de pesquisa como a Universidade Estadual de Roraima (UERR), a Universidade Federal de Roraima (UFRR), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o INPA têm identificado esses impactos no estado.
Jackson Douglas Silva da Paz concorda que a mineração pode gerar danos e alerta que seus efeitos variam conforme método, escala, localização e controle ambiental.
“Agricultura, hidrelétricas, rodovias, turismo ou mineração, todos têm impactos que variam conforme método empregado, escala da atividade, localização ecológica e nível de controle/regulação. Esses fatores determinam a magnitude, a reversibilidade e a extensão dos efeitos ambientais”, afirmou.
De acordo com ele, a diferença entre atividades está menos na existência de impacto e mais na origem, intensidade e capacidade de mitigação de cada uma.
Os geólogos lembram que os impactos ambientais vão além da paisagem, já que a biodiversidade do Monte Roraima é extremamente sensível, e qualquer alteração pode provocar perdas irreversíveis.
Patrimônio natural ou potencial mineral?
Geologicamente, a região integra o Escudo das Guianas, que possui ocorrências minerais em escala regional. Porém, juridicamente e ambientalmente, o Monte Roraima está inserido em áreas protegidas e territórios indígenas.
“Nesse caso específico, a prioridade atual é a preservação, o que independe de qualquer potencial mineral. A resposta não é geológica nem moral: é normativa. Depende do marco regulatório vigente e das escolhas institucionais da sociedade”, comenta Jackson Douglas Silva da Paz.
Além disso, o especialista faz uma crítica à forma como a mineração costuma ser tratada no debate público. Para ele, o problema central não é a atividade em si, mas as desigualdades econômicas e a forma como ela é regulada e inserida no desenvolvimento do país.
“Por fim, fica uma crítica branda minha sobre a “demonização” da mineração o que contribui com subdesenvolvimento e subvalorização da educação técnica como meio para o desenvolvimento racional. Espero que vc abrace a ideia de uma pausa que mostre a mineração não como o grande problema e, sim, a desigualdade econômica. Na desigualdade dentro de um país, possibilita-se um negócio mais lucrativo de criar obstáculos para vender facilidades. Sugiro ver os casos da regulação da mineração com vistas ao desenvolvimento humano e nacional na Austrália, Canadá, África do Sul, Guyana e próprio Brasil. Vc verá que o problema não é a mineração”, conclui.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
As festas religiosas no Tocantins não são apenas momentos de devoção, mas sim encontros entre a tradição, a memória, a música, a dança e a identidade coletiva.
Além disso, muitas dessas celebrações atravessam séculos de história, como em toda a Amazônia Legal, e misturam elementos do catolicismo com heranças africanas e influências europeias.
O Portal Amazônia encerra a série especial sobre festas religiosas na Amazônia Legal com 5 festejos populares e tradicionais de Tocantins. Confira:
Romarias do Senhor do Bonfim em Natividade e Tabocão
A Romaria do Senhor do Bonfim, no município de Natividade, reúne milhares de romeiros que percorrem a pé um trajeto de cerca de 23 quilômetros entre a cidade de Natividade e o povoado de Bonfim. A caminhada é marcada por orações, promessas, agradecimentos e pedidos, refletindo a espiritualidade e o sacrifício dos fiéis.
A programação da romaria inclui missa, novenas, caminhadas penitenciais e procissões. De acordo com o Governo de Tocantins, a tradição teve início em 1750, quando um vaqueiro encontrou uma imagem de Cristo crucificado presa a um tronco na zona rural da região, e que ao levá-lo para casa, a imagem teria desaparecido e reaparecido misteriosamente no local original.
Romaria religiosa do Senhor do Bonfim. Foto: Tharson Lopes/Governo do Tocantins
O fato foi interpretado como um milagre e a partir daí, foi construída uma capela e, posteriormente, um santuário que deu origem ao povoado que hoje leva o nome de Bonfim.
Em Tabocão, às margens da BR-153, a Romaria do Senhor do Bonfim também mobiliza fiéis e visitantes. Além das celebrações religiosas, o evento conta também com cavalgadas, programação cultural e a tradicional Expo Tabocão, unindo a fé e a cultura local.
Festa do Divino Espírito Santo em Natividade
A Festa do Divino Espírito Santo em Natividade, com mais de um século de história, é uma das celebrações mais tradicionais do estado.
De acordo com o Governo do Estado, a celebração, que possui origem portuguesa e remonta ao século XIV, quando foi instituída oficialmente pela Rainha Isabel, em Portugal, como forma de agradecimento pela paz alcançada no reino, acontece na cidade desde 1904.
Procissão religiosa segue até a Igreja do Espírito Santo, onde é celebrada missa solene do Imperador. Foto: Suzana Barros/Adtur
Ao longo dos anos, mais de uma centena de imperadores do Divino assumiram a responsabilidade de manter viva a tradição, com apoio da Igreja e da comunidade.
Festa do Capitão do Mastro
A festa do Capitão do Mastro, um dos momentos de destaque da festa do Divino, começa com a celebração da Esmola Geral, em que bandeiras do Divino percorrem as casas dos fiéis arrecadando donativos. Após a missa solene acontece uma procissão em que o Capitão do Mastro e a Rainha são conduzidos pelas ruas sobre um mastro em forma de pirâmide, sacudido de forma festiva pelos participantes.
Procissão religiosa do Capitão do Mastro e da Rainha. Foto: Emerson Silva
A procissão é iluminada por velas de cera de abelha, luminárias de buriti e chamas alimentadas por azeite de mamona. Além disso, a música que embala os fiéis é tocada por sanfonas, zabumba e triângulo, enquanto grupos de sússia, uma dança de origem africana, embalam o cortejo.
No final da procissão, o Capitão oferece uma grande festa comunitária, com comidas típicas, licores e doces tradicionais.
Festa do Imperador
A festa religiosa do imperador, ponto alto institucional da Festa do Divino, começa com a coroação do Imperador, seguida por um cortejo que reúne símbolos religiosos, crianças vestidas de anjos e diversos fiéis.
Após a coroação, acontece a missa solene e o sorteio dos festeiros do ano seguinte, o que garante a continuidade da tradição, e a celebração se encerra com um grande almoço comunitário, preparado com donativos arrecadados ao longo do festejo.
Festejos de Nossa Senhora do Rosário em Monte do Carmo
Os festejos de Nossa Senhora do Rosário, em Monte do Carmo, são celebrados em outubro e se iniciam após a Missa do Divino Espírito Santo. De acordo com o Governo do Estado, a celebração é uma das expressões mais ricas da cultura popular do Tocantins, e tem como marco principal a tradicional caçada da rainha.
A celebração reúne milhares de fiéis que acompanham o cortejo animado por tambores e pela dança da sússia. A origem da caçada mistura referências africanas, europeias e lendas locais, incluindo o mito do desaparecimento e reaparecimento da imagem de Nossa Senhora do Rosário.
Festa religiosa de Nossa Senhora do Rosário. Foto: Rafael Trapp
A festa é composta por personagens como os Caretas, que possuem máscaras grotescas e comportamento irreverente, que acrescentam humor e crítica social à celebração. A coroação do novo rei e da nova rainha acontece à noite, em frente à Igreja Nossa Senhora do Carmo, seguida de missa solene e confraternização com café e bolos.
Folia de Reis
A folia de Reis, celebrada há mais de quatro décadas na região, recria a visita dos três Reis Magos ao Menino Jesus. Durante a celebração, grupos percorrem casas urbanas e rurais, entoando cânticos e músicas tradicionais que fortalecem os laços comunitários e mantém viva a expressão da religiosidade no estado.
Folia de Reis percorreno as casas dos fiéis. Foto: Fred Borges/Governo do Tocantins
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Em Roraima, as festas religiosas típicas são as mais ligadas ao catolicismo e possuem um papel fundamental na vida das comunidades da região, misturando espiritualidade, cultura e história.
Essas celebrações representam séculos de devoção que reúnem multidões em romarias e festejos que integram religiosidade aos costumes roraimenses.
A série sobre festas religiosas na Amazônia Legal chega em sua penúltima matéria com 6 festas religiosas para conhecer em Roraima:
Festa de Nossa Senhora do Carmo
Celebrada no dia 16 de julho, a Festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Boa Vista, é uma das mais tradicionais da cidade. As celebrações incluem missas especiais na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, localizada no centro da capital, reunindo devotos e lideranças religiosas que sustentam essa tradição.
No dia dedicado à padroeira, duas missas mobilizam os devotos, uma às 8h e outra às 18h, encerrando o dia de celebrações em honra à Nossa Senhora do Carmo.
A devoção à Virgem surgiu no século XVII, quando um grupo de eremitas, inspirados pelo profeta Elias e buscando uma vida próxima de Deus, se retirou para o Monte Carmelo, em Israel, onde criaram a ordem dos carmelitas e construíram uma capela dedicada à santa. Dessa tradição nasceu o escapulário, um símbolo de entrega e proteção.
Em 1725, os primeiros padres missionários carmelitas chegaram em Boa Vista e construíram a primeira capela, que se tornou a primeira igreja católica na região. Em 1856, uma capela maior foi construída, sendo elevada dois anos depois à condição de Matriz Nossa Senhora do Carmo.
Ao longo dos séculos, a comunidade cresceu com o trabalho de diversas congregações, incluindo os missionários da Consolata, que deram continuidade à missão e restauraram a estrutura original da Matriz.
Festa de Cristo Rei
A Festa de Cristo Rei, que encerra o Ano Litúrgico católico e antecipa o início do advento, é celebrada em Boa Vista e marca o aniversário da construção da igreja de Cristo Rei, e reúne diversos fiéis durante toda semana festiva. As celebrações incluem novenas, terços, orações e apresentações de corais e bandas, realizadas pelo Instituto Boa Vista.
O ponto alto da festividade acontece no último domingo de novembro, com missas campais que reúnem centenas de católicos que agradecem pela caminhada anual. A data da celebração era originalmente celebrada em outubro, no entanto, foi transferida para o último domingo do Ano Litúrgico após a reforma de 1969.
Romaria de Nossa Senhora Aparecida
A romaria de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, é realizada todos os anos no dia 12 de outubro e reúne milhares de fiéis em caminhadas pelas ruas da cidade. Organizada pelo Santuário Nossa Senhora Aparecida, em Roraima, a festa inclui novenas, missas durante todo o dia, quermesse, café comunitário e a tradicional troca do manto da santa, realizada na véspera da grande celebração.
As celebrações em homenagem à Nossa Senhora Aparecida começam com a novena, realizada de 1° a 10 de outubro, conduzidas por diferentes áreas missionárias. O manto da cerimônia de troca é confeccionado por irmãs carmelitas, responsáveis pelo manto da imagem original no Santuário Nacional.
A romaria sai da Igreja Consolata em direção ao Santuário e, durante o caminho, velas acesas iluminam o trajeto enquanto os fiéis cantam os hinos e rezam pelas graças alcançadas e pela renovação da esperança.
Festejo de São Sebastião
No município de Uiramutã, em Roraima, acontece o tradicional Festejo de São Sebastião, uma das celebrações mais importantes da região, que em 2025 chegou à sua 65ª edição. O evento reúne fé, cultura e até esporte, atraindo diversos moradores e devotos, inclusive de comunidades indígenas.
Foto: Reprodução/Diocese de Roraima
A festa começa com uma grande procissão pelas ruas do município, seguida de uma missa solene celebrada por missionários das comunidades indígenas. Além disso, no campo Mojo-Ui é realizado um torneio de futebol que mobiliza atletas de várias categorias.
Bandas de forró animam a população, que se reúne para dançar, comer e celebrar a festa de São Sebastião, protetor da cidade e símbolo de devoção entre os povos indígenas.
Festa de São Francisco
Procissão em honra a São Francisco. Foto: Reprodução/Diocese de Roraima
A comunidade de São Francisco, uma das mais tradicionais de Boa Vista, celebra nos primeiros dias de fevereiro, a festa de São Sebastião, padroeiro de Boa Vista.
A celebração reúne uma procissão, missa solene e o tradicional Jubileu do Vinho, que simboliza a gratidão e a renovação da fé dos devotos.
A procissão mobiliza jovens, adultos e idosos que mantêm promessas feitas ao santo. Após a missa, os fiéis continuam a festa no arraial que conta com comidas típicas, brincadeiras, música e bingo.
Festa de Nossa Senhora do Livramento
No município de Caracaraí, o Festejo de Nossa Senhora do Livramento é realizado anualmente entre os dias 15 e 24 de setembro, atraindo moradores locais. O ponto alto da celebração é a cerimônia de iluminação e bênção do Rio Branco, transformando a beira do rio.
Foto: Reprodução/Diocese de Roraima
Durante a celebração, luminárias são acesas e refletidas nas águas do rio, simbolizando a esperança, proteção e devoção à Nossa Senhora do Livramento. A missa de abertura fortalece a união da comunidade e o acolhimento de migrantes.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
As manifestações religiosas atravessam gerações e permanecem como parte essencial da identidade. Em Rondônia a religiosidade das comunidades ribeirinhas, urbanas e rurais transforma festas tradicionais centenárias em homenagens a santos católicos.
Algumas dessas celebrações de fé estão no calendário, como as festas dos santos padroeiros das cidades ou algum outro santo ou santa popularmente conhecidos na região.
A série sobre festas religiosas na Amazônia Legal chega em sua sétima matéria. Conheça cinco festividades rondonienses:
Romaria fluvial do Divino Espírito Santo
A romaria fluvial do Divino Espírito Santo, celebrada no Vale do Guaporé há mais de 130 anos, percorre o rio Guaporé e seus afluentes passando por comunidades no Brasil e na Bolívia. A romaria, que envolve 40 dias de intensa devoção, é a única do Brasil que é realizada totalmente nos rios.
Os devotos percorrem aldeias indígenas, povoados ribeirinhos e vilas do Brasil e da Bolívia, chegando até Porto Murtinho, em São Francisco do Guaporé, marcando o ponto alto da celebração.
Os símbolos que compõem o festejo, como a coroa de prata, a bandeira e os adereços remontam à antiga Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, de onde vem a herança do festejo.
Romaria fluvial do Divino Espírito Santo. Foto: Ésio Mendes
A tradição originou-se em Portugal, por volta do século XIV, em que as celebrações eram feitas através da oferta de banquetes às pessoas carentes e entrega de esmolas. A manifestação foi levada ao Vale do Guaporé por Manoel Fernandes, em 1888, e foi passada de pai para filho.
Organizada principalmente pelos devotos afro-brasileiros e bolivianos, a tradição religiosa foi reconhecida como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial de Rondônia por meio da Lei Estadual n° 5.252, de 11 de janeiro de 2022.
Festa de Nossa Senhora Auxiliadora
A festa religiosa de Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira de Porto Velho, Vilhena e Alto Paraíso, começou com a chegada de padres salesianos ao norte do país, que traziam consigo a influência de Dom Bosco e, difundiram a imagem de Maria Auxiliadora como protetora dos mais necessitados.
Procissão em honra à Nossa Senhora Auxiliadora. Foto: Arquidiocese de Porto Velho
Celebrado no dia 24 de maio, o feriado municipal em homenagem a padroeira foi instituído em 1967 graças a devoção à santa na região. Em Porto Velho, a programação da festa em homenagem à Nossa Senhora Auxiliadora inclui um novenário, procissão, missa campal e um show com artistas, realizado na catedral.
Festa da capela de Santo Antônio
A festa da capela de Santo Antônio, comemorada no dia 13 de junho, em Porto Velho, possui uma forte devoção religiosa na região, já que uma das capelas mais tradicionais da cidade leva o seu nome.
A programação da celebração reúne uma procissão em direção à Capela de Santo Antônio de Pádua, onde acontece a missa campal em homenagem ao padroeiro. Além disso, a festa também conta com apresentações juninas, quadrilhas, apresentação de grupos de boi-bumbá, forró, comidas típicas, bingos, rifas e brincadeiras.
Procissão em homenagem a São Pedro
A procissão de São Pedro, realizada desde 1954, é uma das mais tradicionais celebrações religiosas em homenagem ao padroeiro dos pescadores.
A procissão inicia com a saída do cortejo fluvial do porto do Porto do Cai n’Água até a margem esquerda do Rio Madeira, na comunidade de São Sebastião. Após a procissão fluvial, os devotos seguem por terra até a Igreja de São Pedro.
Procissão fluvial de São Pedro. Foto: Pedro Bnetes/G1 Rondônia
Os barcos são decorados, somente pelos pescadores, como forma de agradecimento pela proteção, com fitas azuis e brancas que representam a glória de Deus e o céu onde o apóstolo está depois de cumprir sua missão de pai e pastor da Igreja na Terra.
Festejo de São Sebastião
O festejo dedicado a São Sebastião, é uma tradição religiosa mantida há mais de 40 anos em Porto Velho. Durante o primeiro dia de festa, os fiéis colocam alimentos e objetos no mastro, que vai ser erguido, como forma de agradecimento pelas conquistas do ano.
Procissão de São Sebastião. Foto: reprodução/G1 Rondônia
O levantamento do mastro, ponto mais esperado da celebração, carrega no topo uma bandeira com a imagem de São Sebastião e os alimentos e objetos colocados anteriormente.
No último dia do festa religiosa, acontece a derrubada do mastro e os itens são distribuídos entre os devotos, em que o fiel que pega a bandeira assume a missão de confeccionar a nova para o ano seguinte.
*Com informações do Governo de Rondônia, G1 Rondônia e Arquidiocese de Porto Velho
**Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
As festas dedicadas à religiosidade fazem parte do cotidiano de diversos devotos paraenses. Boa parte dessas celebrações homenageia a Virgem Maria, sob os títulos pelos quais é conhecida, mas também outros santos e entidades da igreja.
Essas manifestações religiosas ultrapassam os muros das igrejas, e ocupam ruas, praças e até avenidas, reunindo famílias e mobilizando comunidades.
Algumas dessas celebrações de fé estão no calendário, como as festas dos santos padroeiros das cidades ou algum outro santo ou santa popularmente conhecidos na região.
Na sexta matéria da série sobre festas religiosas na Amazônia Legal, conheça nove festividades no Pará:
Círio de Nossa Senhora de Nazaré
O Círio é uma manifestação religiosa e de devoção à Nossa Senhora de Nazaré, realizada há mais de 200 anos em Belém. A celebração é a mais conhecida do estado, e acontece sempre no segundo domingo de outubro, além de outras doze procissões, como a trasladação, a romaria infantil e a romaria fluvial.
Procissão do Círio em honra à Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Reprodução/Arquidiocese de Belém
Milhões de fiéis vão às ruas de Belém para participarem das missas, vigílias de oração, do Arraial de Nazaré, do Círio Musical e da descida da imagem do achado para o Altar da Basílica Santuário, onde fica durante os quinze dias da festividade.
A história de devoção religiosa à Nossa Senhora de Nazaré começa em 1700 com o achado da imagem pelo caboclo Plácido, às margens de um riacho, onde hoje está localizada a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.
O relato do bispo Dom Frei João Evangelista, registrado em manuscrito atribuído ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, em Portugal, descreve o episódio de 1700 como um verdadeiro milagre. Plácido levou a pequena escultura para casa, mas, segundo o relato, a imagem desaparecia durante a noite e reaparecia no local original. O fenômeno, interpretado como sinal divino, ficou conhecido como o ‘milagre do retorno’.
Procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Roberto Castro/MTur
O Círio de Nazaré nasceu oficialmente em 1793, quando o capitão-general do Grão-Pará, Francisco de Souza Coutinho, devoto da santa, adoeceu e prometeu organizar uma grande celebração em agradecimento caso fosse curado. Após alcançar a graça, no dia 8 de setembro daquele ano mandou buscar a imagem no Palácio do Governo e organizou uma procissão solene até o local onde hoje está localizada a Basílica.
A procissão que foi acompanhada por tropas militares, autoridades civis e religiosas, e uma multidão estimada entre cinco e dez mil pessoas é considerada o primeiro Círio de Nazaré. A celebração incluiu missas, ladainhas e uma feira com produtos regionais que durou toda a semana.
A imagem original, que está guardada na Basílica, passou a ser substituída por réplicas nas procissões, e a primeira substituta pertenceu ao Colégio Gentil Bittencourt e foi usada até 1969, quando surgiu a atual Imagem Peregrina. Essa imagem, confeccionada especialmente para o Círio, tornou-se símbolo da romaria e participa das 12 procissões oficiais da festividade.
Em 2013, o Círio de Nazaré e a Basílica Santuário de Nazaré foram reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Com o passar dos anos, o Círio passou a ocorrer sempre no segundo domingo de outubro, e desde então, a celebração reúne milhões de fiéis que percorrem cerca de 3,6 quilômetros expressando sua fé, gratidão e realizando pedidos à Virgem de Nazaré.
Círio de Nossa Senhora das Graças
O Círio de Nossa Senhora das Graças acontece tradicionalmente no quarto domingo de novembro, reunindo milhares de fiéis nas cidades de Ananindeua e Icoaraci, ambas pertencentes à Arquidiocese de Belém.
Em Ananindeua, Nossa Senhora das Graças é a padroeira da cidade, e a devoção religiosa à santa foi iniciada antes mesmo da fundação do município. Em 1943, uma paróquia dedicada à Nossa Senhora das Graças foi fundada, e o Círio já dura mais de 80 edições.
Nossa Senhora da Conceição. Foto: Reprodução/Pascom Santuario das Gracas da Medalha milagrosa
Já em Icoaraci, a tradição surgiu em 1949, após o relato de um quadro que teria derramado lágrimas na casa de uma devota, onde hoje se encontra a Capela dedicada à santa, fato que deu início à procissão local, em 1952.
O Círio das Graças possui diversas celebrações religiosas, como as romarias, trasladações e missas campais, reafirmando o papel da fé na vida das comunidades
Círio de Vigia de Nazaré
Realizado há mais de 300 anos, sempre no segundo domingo de setembro, o Círio de vigia de Nazaré é considerado o mais antigo do Pará. A festividade religiosa reúne milhares de fiéis e mantém símbolos semelhantes ao tradicional Círio de Belém, como a berlinda, a corda, os fogos de artifício e os carros ornamentados.
A devoção à Nossa Senhora de Nazaré chegou a Vigia ainda no século XVII, trazida de Portugal por Dom Jorge Gomes d’Alamo, natural do Algarve, região onde já se venerava a Virgem. O registro mais antigo dessa fé data de 1697, quando o padre jesuíta José Ferreira visitou a vila e relatou a presença de uma milagrosa imagem da santa, cultuada por romeiros vindos de várias partes.
Foto: Bruno Cruz-Agência Pará
A Igreja de Nossa Senhora da Madre de Deus, dedicada a Nossa Senhora de Nazaré, foi construída em 1733 pelos jesuítas. O templo é o principal marco histórico da devoção e foi tombada em 1954 como Patrimônio da Cultura Nacional.
O Círio movimenta a cidade por 15 dias, e possui uma intensa programação que inclui romarias rodoviárias, fluviais e de motociclistas, e a trasladação da imagem da Igreja Matriz até o bairro do Arapiranga.
Círio da Conceição
A devoção religiosa à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santarém, no oeste do Pará, remonta a 1661, quando os jesuítas fundaram uma missão junto à aldeia dos indígenas Tapajós, e o padre João Felipe Bettendorff, fundador da cidade, ergueu uma igreja dedicada à Santa, de quem era devoto.
Nossa Senhora da Conceição. Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém
A Catedral de Nossa Senhora da Conceição foi construída em 1754 e concluída em 1881, e erguida na Praça Monsenhor José Gregório, era conhecida como a Praça da Matriz. Inicialmente, as homenagens à padroeira eram conhecidas como ‘Círio da Bandeira’, quando um estandarte com a imagem da Virgem percorria as ruas de Santarém, tradição que evoluiu para a grande procissão atual.
Nossa Senhora da Conceição. Foto: Reprodução/ Arquidiocese de Belém
O primeiro Círio oficial foi realizado no dia 28 de novembro de 1919, após a criação da Confraria de Nossa Senhora da Conceição, em 1844. Desde então, a festa se consolidou como um dos maiores eventos religiosos da região, movimentando a economia local por meio do turismo religioso.
A programação da festa religiosa inicia com a trasladação da imagem da Catedral para a Igreja de São Sebastião, onde fiéis passam a noite em vigília. Na manhã seguinte, acontece a grande romaria, acompanhada por milhares de devotos, muitos deles descalços pagando promessas e agradecendo milagres.
A imagem que percorre o Círio data da primeira metade do século XIX e foi esculpida em madeira oca no estilo espanhol. Sem articulações ou cabelos, ela é adornada com manto, coroa e peruca confeccionada com cabelos doados por devotas e a cada ano, um novo manto é ofertado por famílias em agradecimento às graças alcançadas.
Outro símbolo importante é a corda, introduzida em 1971 sob influência do Círio de Nazaré. Com cerca de 200 metros de comprimento, ela representa a ligação espiritual dos fiéis com Nossa Senhora da Conceição. Muitos devotos madrugam para garantir um lugar na corda, gesto considerado um ato de profunda fé e gratidão.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém
Outros elementos da celebração religiosa em honra à Nossa Senhora da Conceição incluem a ‘Barraca da Santa’, criada em 1932, onde são servidas comidas típicas como o pato no tucupi, e o tradicional ‘Círio das Crianças’, criado em 2007. Além disso, as homenagens à santa terminam com a queima de fogos sobre o rio Tapajós, encerrando os dias de profunda fé e comunhão.
A celebração, que originou o atual Círio da Conceição, é considerada a segunda maior manifestação religiosa do estado, reunindo fiéis de mais de 12 municípios da região.
Festa de São Sebastião Na ilha do Marajó
Realizada anualmente entre os dias 10 e 20 de janeiro, a Festa religiosa do Glorioso São Sebastião é uma das mais importantes celebrações religiosas da região do Marajó, no Pará. Com origens no período colonial e nas missões religiosas do século XVI, a celebração combina devoção, música, rituais e forte participação comunitária.
Marajoaras festejando São Sebastião. Foto: Reprodução/Facebook-@Diáriopedrosa
São Sebastião é reverenciado pelos marajoaras como protetor, intercessor e símbolo de resistência. Sua imagem é ornada com fitas e flores nas cores verde, vermelho e branco, ocupa altares nas igrejas e nas casas dos fiéis.
Os festejos começam com o tradicional ciclo de esmolação, quando grupos de foliões percorrem vilas e fazendas pedindo doações e entoando cantos e rezas que marcam o caminho da devoção.
Festividades São Sebastião na Região do Marajó. Foto: Edu Lyra
Durante os dias principais da festa religiosa, os fieis participam de novenas, procissões, levantamento e derrubada do mastro, além de grandes celebrações nos arraiais. Cada comunidade organiza as celebrações à sua maneira, em Cachoeira do Arari, por exemplo, é tradicional o consumo do leite de onça (bebida feita com álcool etílico e leite de búfala) durante o cortejo dos mastros e no arraial.
A celebração das festividades do Glorioso São Sebastião foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil, em 2013.
Festa de São Benedito – Marujada de Bragança
Realizada todos os anos no mês de dezembro, a Festa religiosa de São Benedito, em Bragança, nordeste do Pará, reúne uma multidão de fiéis, que durante oito dias participam de diversos ritos de fé. O ponto alto da festividade é a Marujada, considerada o símbolo maior da devoção bragantina e um dos principais patrimônios culturais do estado.
Saída do Andor da Igreja. Foto: Reprodução/IPHAN
A festa religiosa reúne missas, procissões, novenas e o tradicional arraial, com momentos de oração, música, dança e confraternização. A alvorada, marcada pela queima de fogos e o hasteamento do mastro, anuncia o início das comemorações.
São Benedito. Foto: Marco Santos / Ag. Pará
Outro destaque é a chegada das comitivas de esmoladores, que percorrem comunidades pedindo doações em nome do santo. Na Marujada, as mulheres, chamadas de marujas, desempenham um papel central, e vestidas com saias rodadas e fitas coloridas, elas dançam sob o comando da capitoa, representando a união, a fé e a força feminina.
O cortejo, acompanhado por tambores e cânticos, expressa a alegria do povo bragantino e a gratidão a São Benedito, considerado o santo protetor dos pobres e dos negros.
Realizado anualmente em agosto, o Círio de Santo Antônio é uma das principais manifestações religiosas e culturais de Oriximiná, no oeste do Pará. A festividade homenageia o padroeiro do município e reflete a forte relação da população com o rio Trombetas e com a tradição católica amazônica.
A devoção religiosa teve início em 1877, quando o padre José Nicolino de Souza celebrou a primeira missa na região e consagrou o local a Santo Antônio, dando origem ao nome Santo Antônio de Uruá-Tapera. Desde então, o santo é reconhecido como protetor da cidade.
Foto: Vitor Bemerguy SECOM PMO
As primeiras edições do Círio ocorreram por volta de 1936, em formato terrestre, e a imagem percorria as ruas da comunidade entre o dia 1º e 15 de agosto, com trezenas, ladainhas e visitas às residências dos fiéis. Em 1946, o Círio foi adaptado ao contexto ribeirinho e passou a ser realizado de forma fluvial, com autorização da Cúria de Santarém.
A procissão pelas águas do Trombetas tornou-se o principal símbolo da celebração, e a imagem é conduzida em uma balsa motorizada, acompanhada por dezenas de embarcações ornamentadas, orações e cânticos.
Ao chegar ao porto da cidade, a imagem é recebida com fogos e segue em procissão até a Igreja Matriz, onde ocorre a missa campal. Além da cerimônia principal, a programação inclui o ‘Pré-Círio’, com apresentações culturais, danças e manifestações populares que reforçam o valor religioso e social da festividade.
A festividade religiosa começa com uma caminhada de 8 km saindo da propriedade do morador conhecido como Zeca do Jorge, em direção ao local da celebração religiosa, a qual ocorre na Casa de Pedra, no interior do Parque.
Festejo do Divino Espírito Santo. Foto: Divulgação
A origem da Festividade tem várias versões. Uma delas é que a Casa de Pedra foi encontrada por exploradores conhecidos como galegos na década de 60. Um agricultor da região de São Geraldo do Araguaia, Teodomiro Pereira, que participou da expedição junto com os galegos, fez, em 1974, um voto em nome de uma amiga chamada Conceição, que à época sofria de um mal com sintomas de depressão.
A romaria reúne fiéis de todas as idades, moradores de comunidades do entorno, de municípios vizinhos e até mesmo do Tocantins. Durante a programação acontece o levantamento do mastro, o encontro de grupos das divindades e a missa dedicada à Santíssima Trindade.
O festejo também inclui atrações culturais, como festa junina, danças de carimbó, lindo e salambisco, cinema e apresentações teatrais.
Festa de São Pedro
No Distrito de Mosqueiro, no Pará, os devotos de São Pedro realizam uma das maiores homenagens religiosas ao santo na Amazônia. A festividade, considerada uma das mais populares e tradicionais do distrito, é diretamente ligada à atividade pesqueira da ilha e reúne milhares de pessoas.
Os mastros em homenagem ao santo são levantados antecipadamente na região da praia do Areião, ponto de encontro de pescadores da ilha, e de onde são retirados e levados em um cortejo. E no dia dedicado ao santo, 29 de junho, a festa continua com uma romaria fluvial e missa em homenagem à festividade.
Foto: Reprodução/Ascom Agência Distrital de Mosqueiro
A história da centenária festividade religiosa começou em 1918 com dona Isabel Palheta, sendo seguida por sua família com Diva Palheta e agora Luciana Palheta, neta da idealizadora. O objetivo é celebrar o padroeiro dos pescadores em agradecimento a fartura do pescado produzido em Mosqueiro.
A prefeitura de Belém sancionou a Lei Ordinária 9093, de 23 de abril de 2015, reconhecendo a Festividade de São Pedro do Areião como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Município de Belém.
*Com informações da Arquidiocese de Belém e de Santarém, Círio de Nazaré, Prefeitura de Santarém e IPHAN.
**Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Grande parte dos municípios do Maranhão fazem parte da Amazônia Legal. Com isso, diversas manifestações culturais influenciam na região, como as festas religiosas.
No estado, essas festas misturam ritos católicos, tradições afro-brasileiras, manifestações populares, música, dança e saberes ancestrais.
As celebrações da fé, da memória e da resistência cultural, acontecem em diferentes épocas do ano, e passam por ruas, praças, igrejas, terreiros e comunidades inteiras.
Na quinta matéria da série sobre festas religiosas na Amazônia Legal, conheça oito festividades do Maranhão:
Festa do Divino Espírito Santo
Realizada no município de Alcântara, localizado a 22km de São Luís, a Festa do Divino Espírito Santo acontece durante 12 dias do mês de maio, desde meados do século XIX. A festa, tradição rica de significados religiosos, percorre ruas, becos e casarões antigos do município.
A celebração religiosa inclui missas, ladainhas, alvoradas das caixeiras, cortejos, visitas às casas de moradores, hasteamento de mastros e rituais tradicionais. Um dos pontos altos acontece no salão nobre do Palácio Imperial de Alcântara, onde é montado um altar para a apresentação da corte do Divino.
Caixeiras durante a celebração religiosa do Divino Espírito Santo em Alcântara. Foto: Handson Chagas
Durante a festa, as caixeiras possuem um papel central, entoando cânticos em louvor ao Espírito Santo e acompanhando todas as etapas da cerimônia. Além disso, a festa mobiliza toda a cidade durante o ano inteiro, com a organização e a preparação de alimentos, bebidas e recepção aos visitantes.
De acordo com o Governo do Maranhão, o culto ao Divino Espírito Santo chegou ao estado com colonos açorianos e portugueses no século XVII e se consolidou em Alcântara no século XIX, espalhando-se depois por todo o estado.
Círio de Nazaré
O Círio de Nazaré, realizado em São Luís, teve início na capital maranhense há cerca de 30 anos, quando missionários levaram a imagem peregrina da santa às capitais brasileiras. Desde então, a procissão reúne mais de cem mil fiéis todos os anos.
A programação se estende por mais de 50 dias, composta por orações, missas, romarias, procissões, peregrinações da imagem a escolas, instituições, famílias e a igrejas de outros municípios. O Círio integra o calendário oficial de eventos do Maranhão, é Patrimônio Cultural Imaterial do Estado e foi reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional.
Celebração religiosa do Cirío de Nazaré em São Luís. Foto: Brunno Carvalho
Além das romarias tradicionais, a celebração inclui o Círio Ecológico, Solidário, Esportivo e das Crianças, além de romarias terrestres, ciclísticas e marítimas. O encerramento acontece com uma grande procissão seguida de missa campal no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.
Bumba meu boi
Reunindo religiosidade, música, dança, teatro e tradição, o bumba meu boi mobiliza comunidades inteiras com a devoção a santos populares do catolicismo como São João, São Pedro e São Marçal. A narrativa central gira em torno de Catirina e Pai Francisco, personagens que protagonizam a morte e a ressurreição simbólica do boi.
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o ciclo festivo se organiza em quatro etapas principais, como os ensaios, o batismo do boi, as apresentações e o ritual da morte. Cada fase carrega significados próprios.
Apresentação do Boi de Santa Fé. Foto: Roberto Castro/ MTur
O aspecto religioso da festividade está presente desde a concepção do boi até o encerramento das festividades. Durante a celebração, muitos grupos são criados por promessas ou obrigações espirituais, em que o boi é batizado em cerimônias que combinam elementos do catolicismo e das religiões de matriz africana.
O Bumba Meu Boi do Maranhão é Patrimônio Cultural do Brasil desde 2011 e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2019, como expressão de fé, identidade e resistência cultural.
Tambor de Crioula
O Tambor de Crioula é uma manifestação religiosa afro-brasileira praticada como forma de louvor a São Benedito, santo protetor dos negros. Considerado Patrimônio Imaterial Brasileiro desde 2007, o Tambor envolve dança circular, canto e percussão, com destaque para as coreiras, mulheres que dançam ao som dos tambores.
A prática acontece em praças, terreiros, festas populares e tem maior incidência durante o Carnaval e as festividades do Bumba Meu Boi. Embora muito conhecido em São Luís, o Tambor de Crioula apresenta variações em outros municípios, como Anajatuba, onde há diferenças no ritmo, na punga (um gesto de saudações e convite) e na participação masculina.
Manifestação religiosa do tambor de crioula. Foto: Reprodução/IPHAN
De acordo com o IPHAN, a apresentação do Tambor de Crioula costuma ser estruturada em três elementos principais, como o toque dos tambores, o canto das toadas e a dança das mulheres, tradicionalmente chamadas de coreiras, termo usado para designar aquelas que dançam no centro da roda, com saias rodadas e movimentos marcantes.
O Tambor de Crioula é um ritual, com pagamentos de promessas e expressões de fé, e um forte elemento de identidade das comunidades negras maranhenses.
Festejo de São Benedito
O Festejo de São Benedito acontece tradicionalmente no mês de novembro em vários municípios do estado. A festa reúne fiéis em celebrações que combinam devoção e atividades culturais, durante cerca de dez noites, em que são realizadas missas, procissões e apresentações culturais com artistas locais.
Festa religiosa de São Benedito. Foto: Reprodução/Assembléia Legislativa do Maranhão
De acordo com a Universidade Federal do Maranhão, em comunidades quilombolas, como Bacabal, em Anajatuba, a festa tem uma programação extensa, com início em setembro e terminando com o Tambor de Crioula na madrugada do dia 24 para o dia 25 de dezembro. A narrativa mais comum sobre o começo da festa, conta que uma senhora oriunda da Imbaúba iniciou uma batucada no dia de natal.
Toda a organização envolve trabalho comunitário, preparo de alimentos, rituais religiosos e transmissão de saberes ancestrais.
Festejo de São José de Ribamar
São José do Ribamar, padroeiro do Maranhão, é homenageado em romarias pelo estado. De acordo com o Governo do Maranhão, essas celebações tiveram origem no século XVII e se intensificaram ao longo dos séculos, como a romaria registrada em 1821.
O festejo acontece no mês de setembro, e conta com missas, novenas, romarias terrestres e marítimas, procissões, caminhadas e atividades culturais.
Romaria religiosa em honra a São José do Ribamar. Foto: Reprodução/Arquidiocese de São Luís
Durante a celebração multidões se dirigem ao Santuário para agradecer bênçãos, rogar graças, renovar votos e venerar São José de Ribamar.
Em 2024, o Festejo de São José de Ribamar foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão, por sua importância histórica, religiosa e cultural.
Festejo de São Marçal
Celebrado no dia 30 de junho, em São Luís, o Festejo de São Marçal acontece há mais de 90 anos e é considerado um dos eventos mais importantes do calendário cultural maranhense. A festa, que reúne dezenas de grupos de Bumba Meu Boi e de sotaque de matraca, realiza um grande cortejo pela Avenida São Marçal.
Festa religiosa em honra a São Marçal. Foto: Fernando dos Anjos
A celebração marca simbolicamente o encerramento do período junino e mistura devoção, tradição e resistência cultural. Durante o festejo, milhares de pessoas acompanham as apresentações desde as primeiras horas da manhã, em homenagem ao santo e à cultura popular.
Festa da Imaculada Conceição
A festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de São Luís, é celebrada com um extenso festejo que termina no dia 8 de dezembro, feriado municipal. A programação das celebrações incluem novenas, romarias, missas, visitas da imagem peregrina e a tradicional missa campal seguida de grande procissão até o Santuário no Monte Castelo.
Festa religiosa da Imaculada Conceição. Foto: Pascom Diocese de Zé Doca
A novena marca o inicio das celebrações campais, que precedem a grande celebração a céu aberto no dia da Padroeira.
De acordo com o Santúario da Conceição, o primeiro altar dedicado à Imaculada Conceição, em São Luís, foi erguido pela irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Mulatos, na lateral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Lá, foi depositada a imagem esculpida em madeira vinda de Portugal, a mesma que ainda hoje é venerada no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, no Monte Castelo.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Celebrações religiosas são realizadas em todo mundo como uma manifestação da fé e da crença de diversos povos. Na Amazônia a mistura de religiões revela uma forte ligação dos povos com tradições e expressões culturais.
Em Mato Grosso, as celebrações de religiosidade popular são construídas a partir desses encontros de diferentes povos, saberes e tradições, que ao longo do tempo foram se consolidando, reunindo comunidades em torno de santos, rituais, músicas, danças e até comidas típicas que fortalecem a religiosidade dos fiéis.
Na quarta matéria da série sobre festas religiosas na Amazônia Legal, seguimos para o Mato Grosso com quatro festividades populares no estado:
Festa de São Benedito
A festa de São Benedito, realizada pela comunidade da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, em Cuiabá, possui mais de 300 anos de história e reúne, ao longo de três dias, diversos fiéis. A programação da festividade inclui missas solenes, novenas, procissões, almoços e jantares com comidas típicas, além do tradicional ‘tchá cô bolo cuiabano’.
De acordo com o Museu de Arte Sacra do Mato Grosso, a devoção a São Benedito em Cuiabá remonta ao século XVIII, quando foi introduzido por escravos africanos. A primeira igreja construída em homenagem a São Benedito foi erguida em 1722, mas desmoronou em menos de uma década devido à fragilidade da obra.
A devoção ao santo se fortaleceu e a atual Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito foi construida no topo de um morro onde funcionam as antigas minas de Cuiabá. Embora o santo seja padroeiro oficial da capital, é amplamente revereciado como ‘protetor da cidade’.
Festa de São Benedito, uma das celebrações religiosas mais relevante de Cuiabá. Foto: Reprodução/Gcom-MT
Inicialmente a festa era uma manifestação de grupos socialmente marginalizados, que encontravam na celebração um espaço de expressão da fé e da resistência. Com o passar do tempo, a festa passou a atrair fiéis de diversos lugares e se tornou um patrimônio cultural da região.
Entre os elementos mais marcantes da festa estão a exposição da relíquia da pele de São Sebastião, trazida de Roma em 1983, e a ‘sala dos milagres’, onde os devotos deixam objetos em agradecimento às graças alcançadas. Além disso, a presença de uma imagem do santo no largo da igreja também se destaca, representando a união entre a fé, a história e a identidade do povo cuiabano.
Festa de São Francisco de Assis
A Festa de São Francisco de Assis, realizada na comunidade rural de Ponta Alto, em Chapada dos Guimarães, é uma das mais antigas celebrações religiosas de Mato Grosso. De acordo com a Prefeitura de Chapada do Guimarães, a festividade foi criada em 1900 por famílias migrantes do Ceará, e chegou a sua 111ª edição, tornando-se referência no calendário religioso do estado.
A festa, organizada pela Irmandade de São Francisco de Assis e realizada pelo Instituto Realize, tem como um dos principais símbolos da celebração a oferta gratuita de café da manhã, almoço e jantar a todos os participantes. Esse gesto representa o espírito franciscano de acolhimento, solidariedade e partilha.
Igreja de São Francisco de Assis, onde é realizada as celebrações religiosas de São Francisco. Foto: Reprodução/Governo do Mato Grosso
A programação da festa é diversificada e combina religiosidade com cultura popular, como missas solenes, procissões, levantamento de mastros, cavalgadas, leilões, gincanas, apresentações culturais, shows regionais e bailes festivos. A entrada do evento é gratuita e atrai devotos e turistas interessados na fé e na hospitalidade franciscana.
Além do aspecto religioso, a Festa de São Francisco beneficia comerciantes, artesãos, produtores rurais e prestadores de serviços. Além disso, a festa é reconhecida como patrimônio imaterial da comunidade, promovendo inclusão social, preservação e desenvolvimento cultural.
Festa do Senhor Bom Jesus de Cuiabá
A Festa do Senhor Bom Jesus de Cuiabá reúne fé, história e tradição, entre os dias 5 e 8 de abril, com uma programação intensa de atividades religiosas, culturais e históricas realizadas em diversos pontos urbanos e rurais da região.
De acordo com a Arquidiocese de Cuiabá, a Cavalgada do Senhor Bom Jesus, a Rota do Ouro e a Missão, que relembra o percurso das bandeiras paulistas na descoberta do ouro no Arraial da Forquilha, atual Coxipó do Ouro, estão entre os destaques da festividade.
Devotos das celebrações religiosas em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Foto: Luiz Alves/Secom Cuiabá
Além disso, a programação também conta com carreatas de carros antigos, pedal ciclístico, encontro de motos, romaria fluvial e uma caminhada da fé acompanhada de momentos de reflexão espiritual.
O encerramento ocorre com celebrações religiosas, feira gastronômica e artesanal, apresentações culturais e um culto macro ecumênico. A programação busca reviver a rica história da fé cuiabana e envolver a comunidade em celebrações que unem tradição e religiosidade.
Cururu e Siriri
O festival religioso e cultural de Siriri e Cururu, realizado em Cuiabá, reúne grupos que expressam as raízes indígenas, afro-brasileiras e religiosas de fiéis mato-grossenses.
A festa possui entrada gratuita e acontece no Ginásio Aecim Tocantins e conta com apresentações de grupos tradicionais de Cuiabá, Várzea Grande e Santo Antônio de Leverger.
Apresentação de um grupo de dança do Festival de Siriri e Cururu, uma das celebrações religiosas da religião. Foto: Reprodução/Governo do mato Grosso
De acordo com Governo do Mato Grosso, ao todo, 12 grupos participam do festival, apresentando espetáculos que preservam e renovam essas expressões culturais. O protagonismo dos mestres e artistas é um dos principais destaques, fortalecendo a cultura regional.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Arena do Bumbodrómo. Foto: Divulgação/Prefeitura de Parintins
A tradicional disputa entre os bois CaprichosoeGarantido transforma o município de Parintins, no Amazonas, em um grande palco a céu aberto e um dos destinos mais concorridos da região no fim de junho. Por isso, viajar até a ilha tupinambarana para conhecer o Festival Folclórico de Parintins requer um planejamento, que quanto mais cedo começar, melhor será a experiência.
O Festival Folclórico de Parintins acontece no último final de semana do mês de junho, mas a cidade começa a sentir o impacto da festa dias antes, já que o fluxo de turistas, artistas e brincantes aumenta de forma intensa, afetando principalmente o preço de passagens, hospedagens e serviços.
Em 2026, o festival vai acontecer nos dias 26, 27 e 28 de junho, e por isso, o Portal Amazônia procurou algumas dicas de como se preparar para viver essa experiência. Confira:
Monitorar o preço das passagens e comprar com antecedência
Para chegar a Parintins, o caminho mais comum é via Manaus (AM) ou Santarém (PA), que é de onde partem os voos e os transportes fluviais, por isso é importante sempre ficar de olho nos preços.
De acordo com Vitória Mascarenhas, frequentadora assídua do festival, como não existem voos diários para Parintins é importante acompanhar as informações das companhias aéreas para saber quando e quantos voos serão disponibilizados.
Além do avião, o transporte fluvial também é uma alternativa bastante utilizada. As lanchas rápidas, por exemplo, fazem o trajeto Manaus-Parintins em cerca de oito horas, já os barcos de linha possuem viagens que podem durar até 24 horas, dependendo da embarcação.
Além disso, durante o período do festival, esses barcos ficam ancorados na orla da cidade e muitos passageiros utilizam redes ou camarotes para pernoitar, economizando em hospedagem na cidade.
As passagens de ambos os transportes costumam iniciar as vendas meses antes do festival.
“Caso vá por meio fluvial, a venda de passagens de lanchas a jato, navio motor e ferry boat se iniciam logo após o Carnaval. É possível comprar diretamente no Porto de Manaus, Balsa Amarela ou via WhatsApp, pois certos barcos e lanchas possuem redes sociais e divulgam”, comentou Vitória.
Foto: Lucas Silva/ Amazonastur
Hospedagem: o maior desafio do Festival
A hospedagem é apontada como o maior desafio para quem pretende ir a Parintins, já que a cidade praticamente dobra de população durante o Festival, e a oferta de hotéis é limitada. Por isso, garantir um lugar para ficar com antecedência é fundamental.
O Amazon River Resort, localizado no bairro Santa Rita, é considerado o maior hotel da cidade, mas há ainda hotéis como Avenida, Palace, Amazonas, Brito e Pérola. A maioria trabalha com pacotes fechados para o período do festival, vendidos com mais de seis meses de antecedência.
Para atender à demanda, alguns moradores alugam quartos ou casas inteiras, por meio do projeto ‘Cama e Café da Manhã’, e plataformas de aluguel online ajudam a identificar opções disponíveis, mas o contato direto com anfitriões costuma ser fundamental para negociar valores, inclusive com bastante antecedência.
Isso porque, de acordo com Vitória Mascarenhas, muitos lugares já ficam reservados desde o ano anterior, e várias pousadas da ilha não possuem redes sociais. Porém também é possível encontrar contatos por meio do Google Maps ou por indicações de influenciadores locais que divulgam acomodações durante o período do festival.
Ingressos para o Bumbódromo
Quando o assunto são os ingressos para acompanhar o Festival no Bumbódromo, a orientação é ficar atento às redes sociais da empresa responsável pela venda, a Amazon Best.
As vendas costumam começar entre dezembro e janeiro, os ingressos se esgotam em pouco tempo e não há como antecipar a compra antes da abertura oficial.
Isso exige atenção redobrada e organização prévia, para não perder a oportunidade de assistir ao espetáculo dentro da arena.
Mas vale lembrar que a parte da arquibancada em que as Galeras, torcidas dos bois, ficam, é gratuita, no entanto há a necessidade de esperar na fila, com algumas horas de antecedência, para conseguir entrar e curtir o espetáculo.
O que não pode faltar na mala para Parintins
Outro ponto essencial para quem vai a Parintins é a preparação da mala, já que calor intenso e a programação extensa exigem cuidados específicos.
De acordo com Vitória, é importante levar itens como boné, óculos de sol, protetor solar, sapato confortável e roupas leves, já que segundo ela, o sol é constante durante o dia e, quando dá trégua, geralmente vem acompanhado de chuvas fortes, típicas do período na região.
“Óbvio que não pode faltar os looks das noites, indo de galera ou arquibancada/camarote, é sempre bom levar um look leve porque de noite o calor persiste também. Além disso, é legal levar acessórios da cor do seu boi, para usar tanto andando pela ilha, quanto para usar nas três noites”, sugeriu.
Itens como capa de chuva, água, frutas e dinheiro em espécie também são indispensáveis, uma vez que com o aumento do número de visitantes, é comum que o sinal de internet apresente instabilidade, o que dificulta pagamentos por pix ou mesmo cartão.
Além disso, manter a hidratação é fundamental para enfrentar as altas temperaturas e aproveitar os dias de festa com disposição. Em alguns dias, água é disponibilizada de graça para os visitantes por meio de ações realizadas durante a festa.
Parintins não é uma viagem barata, avisa Vitória, mas é considerada por muitos visitantes como uma experiência única no mundo. Por isso, ela reforça que com planejamento, informação e antecedência, quem pretende ir em 2026 pode transformar a viagem em uma vivência inesquecível.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar