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Pesquisa mostra que sedimentos da costa do Maranhão registram alterações bruscas no transporte de calor do Atlântico

Cristiano Chiessi colhe amostra de coluna de sedimento marinho. Foto: Dana Pittauerova

O principal sistema que transporta calor de uma ponta a outra do oceano Atlântico pode sofrer alterações bruscas de intensidade, motivadas por mudanças climáticas semelhantes às que estamos vivenciando agora – inclusive quando já enfraquecida –, segundo um novo estudo liderado por pesquisadores do Brasil e da Alemanha.

A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico, mais conhecida pela sigla em inglês AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation), é um enorme sistema de correntes oceânicas que funciona como uma esteira transportadora de calor pelo oceano Atlântico. Ao levar águas quentes das regiões equatoriais e tropicais para altas latitudes do Atlântico Norte, ela ajuda a regular o clima em ambos os hemisférios, amenizando temperaturas na Europa e em partes da América do Norte, além de influenciar os regimes de chuva nas regiões intertropicais da África e da América do Sul.

O aquecimento global vem enfraquecendo gradualmente a AMOC, mas pesquisadores alertam há décadas para o risco de a circulação atingir um limiar crítico que desencadearia uma desaceleração abrupta, alterando radicalmente o clima em várias regiões do planeta. Até agora, as pesquisas indicavam que a circulação poderia permanecer nesse estado enfraquecido e relativamente estável por milhares de anos. Um novo estudo, porém, mostra que a AMOC pode ser muito mais dinâmica do que se imaginava e que a sociedade precisa se preparar não apenas para uma mudança climática abrupta, mas para uma série delas.

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Liderado pelos pesquisadores Cristiano Mazur Chiessi, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), e Stefan Mulitza, da Universidade de Bremen, Alemanha, o estudo encontrou sinais de dois episódios de grande intensificação da AMOC entre 17,8 e 14,8 mil anos atrás.

Durante esse intervalo, conhecido como “Heinrich Stadial 1”, a circulação era, na maior parte do tempo, muito mais fraca do que atualmente. No entanto, a análise de sedimentos marinhos da equipe alemã-brasileira concluiu que a AMOC teve dois pulsos abruptos de fortalecimento ao longo do período: um entre 16,5 e 15,8 mil anos atrás, e outro, mais curto, com cerca de cem anos de duração, em torno de 15,4 mil anos atrás. Durante o último episódio, a circulação chegou a superar sua intensidade atual.

Esses resultados foram publicados em maio na revista Nature Communications.

“É a primeira vez que se mostra que a AMOC pode sofrer pulsos de fortalecimento em períodos em que está enfraquecida”, afirma Chiessi, especialista em paleoceanografia e paleoclimatologia (ciências que estudam o passado do oceano e do clima). “Como escreveu um dos revisores do artigo, isso muda completamente a forma como compreendemos a Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico.”

O principal motor da AMOC é o afundamento de águas frias e salinas nas proximidades da Groenlândia. Essas águas profundas seguem para o sul e voltam à superfície principalmente no oceano Circumpolar Antártico, onde fortes ventos favorecem sua ressurgência. Correntes superficiais transportam então parte dessa água de volta para o norte, fechando o circuito.

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Atualmente, o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa está enfraquecendo essa circulação. O derretimento das geleiras da Groenlândia, o aquecimento do oceano Ártico e o aumento das chuvas na região estão reduzindo a salinidade e a densidade das águas superficiais, dificultando seu afundamento.

Apesar de preverem que esse processo pode levar a um grande enfraquecimento súbito da AMOC, os pesquisadores ainda não sabem quando e com que intensidade isso poderá ocorrer. Até pouco tempo atrás, mesmo os melhores modelos climáticos avaliados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas não conseguiam prever a evolução da AMOC com precisão suficiente.

Em abril deste ano, porém, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Bordeaux, na França, publicou na revista Science Advances uma versão melhorada dessas previsões, baseada em novos dados observacionais. De acordo com eles, a AMOC pode enfraquecer entre 43% e 59% até 2100, mesmo que todos os países cumpram seus compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Um enfraquecimento da AMOC dessa magnitude não acontece desde o final da última Era do Gelo. Durante o último máximo glacial (o período mais frio da última Era do Gelo), entre 23 mil e 19 mil anos atrás, grande parte da Eurásia e da América do Norte estava coberta por gigantescas geleiras com mais de 3 mil metros de altura, que alcançavam a latitude da cidade de Chicago, nos Estados Unidos. O enorme volume de água retido em gelo fez o nível do mar descer 120 metros abaixo do atual. Mesmo durante esse período, a AMOC tinha uma força semelhante à de hoje.

Mas um longo período de deglaciação começou quando mudanças climáticas, desencadeadas por uma variação natural na órbita da Terra, aumentaram a temperatura global. Após cerca de mil anos de derretimento das geleiras, a AMOC sofreu uma queda abrupta de intensidade, da qual só voltaria a se recuperar 3 mil anos depois, no final do evento Heinrich Stadial 1 (HS1).

Chiessi ressalta que o fato de a AMOC ter demorado mil anos para enfraquecer subitamente no passado não significa que ela demorará o mesmo tempo agora. “As condições climáticas eram totalmente distintas”, explica. “Nesse período, a concentração de gás carbônico na atmosfera era mais baixa do que a da era humana pré-industrial. Podemos aprender com os eventos do passado, mas eles não são análogos perfeitos.”

Pesquisa mostra que sedimentos da costa do Maranhão registram alterações bruscas no transporte de calor do Atlântico
Conchas de foraminíferos vistas ao microscópio. Diferenças de idade entre bentônicos (à esquerda) e planctônicos (direita) revelaram mudanças na AMOC. Imagem: Cristiano Chiessi

Pesquisa revela reconstrução do passado

O estudo analisou uma coluna de sedimentos marinhos coletada no Atlântico equatorial, a uma profundidade de 1.367 metros, a cerca de 189 quilômetros da costa do Maranhão, durante um cruzeiro do navio oceanográfico alemão RV Maria S. Merian, em 2012. Durante o evento HS1, assim como em outros períodos de AMOC enfraquecida, a precipitação no Nordeste brasileiro aumentou muito, enquanto diminuiu drasticamente no norte da Amazônia e em outras regiões mais ao norte.

“A taxa de sedimentação onde coletamos foi alta, porque choveu, erodiu e depositou muito lá”, explica Chiessi. “Isso nos permitiu fazer muitas análises. É como ter um filme com muitos quadros por segundo, de altíssima resolução.”

Para estimar a força de correntes oceânicas do passado, a equipe de Chiessi e Mulitza decidiu utilizar um método sofisticado e custoso, mas muito preciso, chamado de datação de ventilação por radiocarbono. A técnica calcula há quanto tempo a água profunda do oceano está isolada da atmosfera, permitindo medir a velocidade das correntes.

Em cada camada de sedimento, os pesquisadores identificaram e dataram conchas de dois tipos de microrganismos (ambos denominados foraminíferos) usando carbono 14 (radiocarbono). Como esse isótopo é produzido na atmosfera e absorvido por microalgas apenas na superfície do mar, a “idade” aparente dessas conchas reflete a profundidade em que se formaram.

As conchas de foraminíferos planctônicos (nativos da superfície) apresentam uma idade mais recente do que as de foraminíferos bentônicos (que vivem no fundo do oceano). Essa diferença de idade ocorre porque o carbono 14 só chega às profundezas transportado pelas águas superficiais que afundam na região da Groenlândia.

Atualmente, o tempo que essa água leva para circular – a chamada “idade de ventilação” da AMOC – é de 350 anos no Atlântico equatorial. Por isso, como conclui Chiessi: “A diferença de idade entre a concha formada na superfície e a formada no fundo é um indicador direto de quão intensa é a AMOC”.

As análises realizadas pelos pesquisadores Partha Sarathi Jena, durante seu pós-doutorado na EACH-USP, e Ines Beese, em seu pós-doutorado na Universidade de Bremen, concluíram que, logo antes do evento HS1, a diferença de idade aparente entre foraminíferos planctônicos e bentônicos era de 325 anos. Durante a maior parte do evento, a diferença aumentou para 960 anos, em função do enfraquecimento da AMOC. No primeiro episódio de intensificação, porém, ela diminuiu para 450 anos; e no segundo, para 200 anos.

A equipe comparou seus resultados com os de outros estudos paleoclimáticos, especialmente com as estimativas de precipitação durante o HS1, obtidas pela análise de estalagmites coletadas na Caverna Jaraguá, em Bonito, Mato Grosso do Sul, e na Gruta da Paixão, em Andaraí, na Bahia. Os dois picos de intensificação da AMOC encontrados coincidem com dois períodos em que chuvas intensas deram lugar a um clima mais seco no continente, reduzindo o volume de água doce que chegava ao oceano.

Os picos também coincidem com aumentos na concentração de gás carbônico na atmosfera, registrados por estudos de bolhas de ar presas no gelo da Antártica durante o HS1. Chiessi e seus colegas sugerem que as duas intensificações da AMOC podem ter transportado para o oceano Circumpolar Antártico águas profundas ricas em gás carbônico, que se encontravam relativamente paradas no Atlântico quando a AMOC estava fraca. Uma vez lá, o gás carbônico foi liberado para a atmosfera.

Chiessi espera que seu trabalho ajude a melhorar as previsões sobre a AMOC, com o objetivo de desenvolver sistemas de identificação de sinais do clima que antecipem mudanças abruptas, permitindo que a sociedade consiga tomar medidas precoces de adaptação.

“Precisaremos de muita resiliência, mas ainda podemos evitar que o pior aconteça se atuarmos na redução maciça das emissões de gases estufa”, considera.

O trabalho foi conduzido no âmbito do Centro de Pesquisa em Resiliência a Crises e Desastres Climáticos (CLIMARES), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP. Também recebeu apoio por meio de outros três projetos financiados pela Fundação (18/15123-4, 23/00355-5 e 25/05117-0).

O artigo Centennial-scale intensifications of the Atlantic Meridional Overturning Circulation during Heinrich Stadial 1 pode ser lido em: nature.com/articles/s41467-026-73364-x.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Igor Zolnerkevic  

Inpa e Musa inauguram exposição e lançam livro sobre cogumelos da Amazônia

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Foto: Reprodução/Inpa

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e o Museu da Amazônia (Musa) abriram a exposição “Cogumelos da Amazônia: Sob as Lentes de Michael Dantas” e lançaram o livro “Série Mycelia: Álbum de cogumelos para Micoturismo – Volume 7 – Museu da Amazônia”. A programação foi realizada neste domingo (21), no Musa, em Manaus (AM).

A iniciativa integra ciência, arte e educação ambiental para aproximar o público da micodiversidade amazônica. A exposição traz registros fotográficos do biólogo e fotógrafo Michael Dantas, com curadoria científica do Grupo de Pesquisa Cogumelos da Amazônia – GP-CA/Inpa. As imagens revelam formas, cores e texturas de fungos que costumam passar despercebidos nas trilhas.

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Para o diretor do Inpa, Henrique Pereira, a iniciativa revela “uma nova forma de olhar para a Amazônia”. Ele ressalta o papel dos fungos como pilares dos ecossistemas florestais, responsáveis pela decomposição e reciclagem de nutrientes, e celebra a trajetória do Grupo de Pesquisa Cogumelos da Amazônia, liderado pela pesquisadora do Inpa, Noemia Ishikawa, o trabalho da pesquisadora Ruby Vargas-Isla e do fotógrafo Michael Dantas. 

Pereira destaca, ainda, que, para o Inpa, a exposição e o livro são instrumentos estratégicos de educação, conservação e micoturismo, construídos de forma colaborativa com pesquisadores, estudantes, comunidades e parceiros.

“Ninguém protege aquilo que não conhece. E ninguém valoriza aquilo que permanece invisível. Que cada visitante à exposição saia com um novo olhar sobre a floresta e compreenda que, muitas vezes, os maiores tesouros da Amazônia estão justamente naquilo que quase nunca vemos”, observa o diretor.

musa floresta cogumelos
MUSA, em Manaus. Foto: Divulgação

Leia também: Indígena Sateré-Mawé apresenta dados inéditos sobre espécies de cogumelos consumidos pelo seu povo

Livro reúne observações de cogumelos

Em paralelo, será lançado pela Editora Inpa o Volume 7 da Série Mycelia, organizado pela micóloga e gestora do projeto CNPq, Ruby Vargas-Isla, e colaboradores. O livro reúne registros feitos nas trilhas do Musa e foi elaborado como um convite ao micoturismo – turismo voltado à observação de cogumelos.

“A Série Mycelia nasceu do desejo de revelar, em imagens, a diversidade de cogumelos da Amazônia. O volume 7 é um agradecimento ao professor Ennio Candotti e apresenta a micologia que se encontra nas trilhas do Musa e no Fungário, espaço criado para os fungos no museu”, diz Vargas-Isla.

Para o Inpa e o Musa, a programação reforça o compromisso com a divulgação científica e a valorização da biodiversidade amazônica, conectando pesquisa, arte e educação ambiental. A exposição está prevista para permanecer por vários meses no Musa, sem data de encerramento divulgada até o momento.

*Com informações do Inpa

Quais lendas inspiraram as toadas dos bois no Festival de Parintins 2026?

Lendas do curupira e pindova’úmi’ga serão retratadas por Caprichoso e Garantido no Festival de Parintins 2026. Arte: Bruna Azevedo/Rede Amazônica AM

O Bumbódromo de Parintins (AM) será palco de um mergulho profundo nas raízes místicas e na ancestralidade da Amazônia. Isso porque os bois Caprichoso e Garantido prometem levar, para as três noites do Festival Folclórico de Parintins, duas narrativas que serão destaque absoluto nas toadas deste ano: no lado azul, a lenda do Curupira, guardião supremo da floresta, e pelo lado vermelho, a odisseia de Pindova’úmi’ga, a saga mitológica do xamã e guerreiro ancestral do povo indígena Parintintin.

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Além do espetáculo visual, as composições deste ano se apoiam em densas pesquisas antropológicas e históricas, transformando o folclore em um manifesto de preservação ambiental e exaltação aos povos originários.

Confira a história das lendas:

Boi Caprichoso – Trilha do Curupira

Lenda do curupira
Lenda do Curupira será apresentada pelo Caprichoso durante o Festival de Parintins 2026. Arte: Bruna Azevedo/Rede Amazônica AM

“Teus pés em remoinho formarão a assombração, assombração, assombração”. A nova toada do Boi Caprichoso constrói uma narrativa envolvente que mistura suspense e crítica social, ambientada nas profundezas da Floresta Amazônica. A inspiração é lenda do Curupira.

Descrito como um menino de cabelos vermelhos e pés virados para trás, o Curupira é considerado o guardião das florestas e dos animais. Segundo a lenda, os pés invertidos servem para confundir caçadores e invasores, deixando rastros que indicam a direção oposta à que ele realmente segue.

De acordo com a tradição popular, o Curupira protege a natureza castigando quem caça por diversão, derruba árvores de forma ilegal ou desrespeita a floresta. Embora no imaginário popular o Curupira seja frequentemente reduzido a uma “história para assustar crianças”, a antropologia e a história enxergam a narrativa sob outra perspectiva.

A primeira menção escrita à entidade foi feita pelo padre jesuíta José de Anchieta, em 1560. Na época, sob o olhar colonizador e católico, os jesuítas o descreviam como um “demônio” que aterrorizava os indígenas. A toada é repleta de versos que fazem referência direta ao personagem clássico do folclore brasileiro, como no trecho “De onde vem o assovio?”, que se refere à tática do Curupira para confundir caçadores e invasores com sons agudos e imprevisíveis. O refrão explosivo “Fogo de Curupira! Bota pra correr!” marca a obra como um grito de resistência.

A composição do Boi Caprichoso reinterpreta o guardião da mata por meio de símbolos da cosmologia indígena. Os pés invertidos, descritos no verso “Teus pés em remoinho formarão a assombração”, representam o poder de despistar quem tenta seguir seus rastros. Na segunda metade, a toada se transforma em um manifesto ecológico. O trecho “Rasga a mata viva o monstro correntão” denuncia o uso da corrente de aço arrastada por tratores — uma das práticas mais destrutivas do desmatamento ilegal.

Leia também: 6 lendas folclóricas para conhecer a cultura na Amazônia Internacional

Boi Garantido – Pindova’úmi’ga

Odisséia de Pindova’úmi’ga será apresentada pelo Garantido durante o Festival de Parintins 2026. Arte: Bruna Azevedo/Rede Amazônica AM

“No segundo céu, se tornará Yvá’gan’ga… o povo que veio do céu é Parintintin”. A nova toada do Boi Garantido mergulha nas origens místicas da Amazônia e celebra a espiritualidade indígena. Na crença dos indígenas Parintintin, Pindova’úmi’ga é um grande chefe xamã.

A lenda conta que o guerreiro indígena viajou entre o céu e as profundezas das águas para criar os Yvága’nga, o povo do céu, que se manifestam através da fumaça, caminham pelas águas, transformam-se em animais sagrados como a onça-pintada e atuam como protetores das matas e das águas da Amazônia.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA) a lenda foi difundida em povos originários dos rios Madeira, Maicí e Ipixuna, no Amazonas. A toda mergulha na jornada xamânica do guerreiro que atravessa os três mundos — o céu, o rio subterrâneo e a terra — em busca do local ideal para erguer sua okara, a praça central que simboliza o coração da aldeia.

A narrativa poética descreve suas metamorfoses espirituais: revestido de uma armadura feita de pele de arraia e escamas afiadas, o herói mergulha nas águas amazônicas para desvendar os segredos dos peixes encantados. Ao retornar à superfície, transforma-se em onça-pintada, enfrentando visagens e espíritos da floresta.

Mas, como lembra a letra, “em todos os cantos da terra já tinham donos e guardiões”, e o pajé precisa buscar outro destino. Guiado por Kawnadu, a harpia divina, ele atravessa a barreira entre mundos, alcança o “segundo céu”, onde ergue sua aldeia.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

Árvore da campinarana amazônica resiste à seca, mas sofre com alagamento prolongado, revela estudo

Foto: Lyon Oreste Demarchi

Mudas de Aldina heterophylla, árvore dominante das campinaranas amazônicas e classificada como vulnerável à extinção, sobrevivem bem a longos períodos de seca, mas morrem quando ficam muito tempo alagadas. É o que mostra um estudo publicado na revista Environments por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e parceiros.

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O trabalho, liderado pela doutoranda Sthefanie Gomes Paes, investigou como a espécie responde a dois extremos que estão ficando mais frequentes na Amazônia: seca intensa e alagamento prolongado. Os frutos foram coletados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã e os experimentos com as mudas foram realizados em casa de vegetação durante a germinação e o crescimento inicial, consideradas as fases mais críticas do ciclo da planta.

A pesquisa descobriu que na seca, todas as mudas sobreviveram. A estratégia foi “economizar água”, pois a planta derrubou as folhas para reduzir a perda e manteve o acúmulo de biomassa estável. Foi constatado que a Aldina heterophylla também investiu mais nas raízes, usando reservas de amido e proteína armazenadas nas sementes.

Árvore da campinarana amazônica resiste à seca, mas sofre com alagamento prolongado, revela estudo
Foto: Lyon Oreste Demarchi

No alagamento, a reação foi diferente. As mudas amarelaram, perderam folhas e formaram lenticelas no caule – pequenas estruturas que ajudam a captar oxigênio quando o solo fica encharcado. Houve um ganho temporário de biomassa nas raízes, mas o alagamento longo diminuiu drasticamente a biomassa do caule e elevou à mortalidade.

“A Aldina heterophylla mostrou maior tolerância à seca do que ao alagamento prolongado. O excesso de água também pode representar uma ameaça para espécies típicas das campinaranas”, resume a pesquisadora.

Leia também: Conheça as vegetações não florestais do bioma Amazônia

Campinaranas são importante para o clima

De acordo com o estudo, as campinaranas são florestas sobre areia branca, com solo pobre e lençol freático que sobe e desce ao longo do ano. Com as mudanças climáticas alterando o regime de chuvas na Amazônia, esses ciclos podem ficar mais extremos.

“Compreender como espécies como a Aldina respondem à seca e ao alagamento é fundamental para prever impactos sobre a biodiversidade e o funcionamento ecológico das campinaranas”, explica a doutoranda.

Fotos: Sthefanie Gomes

A árvore é considerada chave para o ecossistema: estrutura a floresta, abriga orquídeas e outras epífitas e cria microambientes para diversos organismos. Tem distribuição restrita, sofre pressão da exploração madeireira e está na lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

“As espécies amazônicas respondem de maneira muito particular aos extremos climáticos. Para Aldina heterophylla, a falta de oxigênio nas raízes durante o alagamento foi mais prejudicial que a seca. Cada espécie carrega adaptações moldadas pelo seu habitat”, conclui Sthefanie.

A pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), via Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração Peld-Maua e contou com apoio do grupo de Ecologia, monitoramento e uso sustentável de áreas úmidas (Maua/Inpa), Instituto Cesumar de Ciência, Tecnologia e Inovação e  Universidade Cesumar (Iceti/UniCesumar), Laboratório de Anatomia Vegetal da Universidade federal do Amazonas (LAV/Ufam) e Laboratório de Fisiologia Vegetal da UnB. Sthefanie recebeu bolsa PIBIC/CNPq-Inpa. 

*Com informações do Inpa

“O Governo do Brasil está preparado”, afirma ministro Capobianco sobre combate ao El Niño

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O ministro também aproveitou a entrevista para fazer um apelo direto à sociedade, destacando que a maioria das queimadas começa por ação humana. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em entrevista ao programa “Bom Dia, Ministro” de 11 de junho, o titular do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, detalhou a estratégia do Governo do Brasil para combater os efeitos de um novo fenômeno El Niño, previsto para ainda este ano. Uma das ações em andamento é a implementação de um modelo de monitoramento contínuo e consultas periódicas com especialistas climáticos do Brasil e do exterior.

“O El Niño é um fenômeno natural, ele sempre ocorreu. O problema é que agora ele se associa à mudança do clima. Então ele tem potencial de ser mais intenso. O que temos hoje é uma indicação de que há aproximadamente 80% de chance de probabilidade de ser um El Niño muito intenso. Então, o que deveríamos fazer? Aguardar 100% de certeza? Claro que não. O Brasil nunca trabalhou assim. E agora estamos muito melhor preparados do que nos anos anteriores”, afirmou João Paulo Capobianco.

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Segundo o ministro, atualmente, o governo trabalha com a projeção de 80% de probabilidade de um El Niño muito intenso. Para não esperar o cenário se consolidar, foi instalada uma sala de situação permanente coordenada pela Casa Civil, envolvendo 13 ministérios e órgãos públicos. Essa estrutura aciona o planejamento de recursos extraordinários para preparar as Forças Armadas, Polícia Federal, Ibama e ICMBio, além de articular ações diretas com estados e municípios.

Por ser um fenômeno potencializado pelas mudanças climáticas, o El Niño acaba gerando um desbalanço severo no clima do Brasil, dividindo os impactos do país em duas realidades extremas: redução de chuvas e secas intensas, com suscetibilidade a incêndios florestais, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; e aumento expressivo de chuvas que potencializa inundações e deslizamentos nas regiões Sul e Sudeste.

Leia também: NOAA declara o El Niño global ativo e alerta que ele pode ser um evento de grande intensidade

El Niño acende alerta para enfrentamento a incêndios

Capobianco detalhou os esforços na antecipação e planejamento contra as queimadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal, impulsionado pela aprovação da Lei do Manejo Integrado do Fogo.

“A nova legislação estabelece o princípio da corresponsabilidade, dividindo atribuições claras entre a União, estados, municípios e proprietários rurais. Na prática, isso quer dizer que, pela lei, os estados e municípios precisam elaborar os seus planos de manejo integrado do fogo para cada área do seu estado e municípios. E os proprietários rurais também passam a ter responsabilidade na prevenção”, disse o ministro.

Além do reforço de monitoramento, outras respostas já foram adotadas diante desse cenário, como o aumento do número de aeronaves e equipamentos de prevenção e combate. O Governo do Brasil também já destinou mais de meio bilhão de reais aos corpos de Bombeiros dos estados onde há mais riscos de incêndios florestais.

incêndios na amazônia - el niño
Foto: Christian Braga/Greenpeace

Responsabilidade da população

O ministro aproveitou a entrevista para fazer um apelo direto à sociedade, destacando que a maioria das queimadas começa por ação humana.

“Mesmo quando o fogo se inicia por um acidente corriqueiro, como a queima de lixo ou a limpeza de um pequeno pasto, a atual situação climática faz com que as chamas saiam de controle facilmente. Nada substitui a ação da sociedade. Faço aqui o apelo, cada cidadão agora se torna corresponsável pelo manejo integrado do fogo. Ou seja, não use fogo a partir de julho agora, porque a situação climática vai tornar isso uma situação muito perigosa”, alertou.

Incêndios criminosos 

Para os casos em que o fogo é utilizado de forma deliberada e ilegal, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima afirmou que o governo já intensificou as ações de repressão.

“Hoje, o Governo do Brasil, por meio da Polícia Federal, estabeleceu um procedimento muito rigoroso de monitoramento e acompanhamento que está permitindo identificar, pela primeira vez, quem causou o início do incêndio. Isso está permitindo o estabelecimento de processos de investigação e de punição daqueles que fizeram isso criminosamente”, destacou.

Assista a entrevista na íntegra:

*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Chef Manoel Brelaz ensina receita de supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi

Supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi no programa Sabores da Amazônia. Foto: Reprodução/Amazon Sat

A temporada 2026 do programa Sabores da Amazônia, do canal Amazon Sat, explora muito mais que ingredientes e receitas. Agora, o programa se aprofunda na trajetória dos chefs e ensina, com mais detalhes e alguns segredos, as receitas selecionadas.

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O chef Manoel Brelaz é um dos convidados que mostra que a gastronomia além de contar histórias também traz recompensas pela dedicação e esforço. 

“Já fui homenageado na Assembleia Legislativa, onde vou ser homenageado de novo. A gente não precisa pular etapas, faça a etapa correta, que a gratificação e a conquista vêm muito melhor. Então, busco sempre estar em contato com a gastronomia, estudando e me capacitando, não só me capacitando, mas também as pessoas que estão junto de mim”, declarou o chef.

Manoel Brelaz já participou do programa na temporada 2026, e para conferir a história completa do chef é só clicar aqui. 

Chef Manoel Brelaz no programa Sabores da Amazônia. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Leia também: Série l Superfrutas da Amazônia: cupuaçu, o sabor da Amazônia

A receita do episódio é um supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi. De acordo com o chef, o prato é regionalidade pura, por conter tucupi, um alimento mais amazônico impossível. Confira: 

Ingredientes

Proteína:

  • 200 g de frango

Vinagrete de banana:

  • 1 unidade de banana pacovã
  •  sal a gosto
  • 100 g de mel
  •  limão a gosto
  • 30 g de pimentão amarelo
  • 30 g de pimentão verde
  • 30 g de pimentão vermelho
  • azeite a gosto

Base aromática:

  • 100 g de cebola
  • 50 g de alho
  • 50 g de pimenta-do-reino
  • 50 g de chicória
  • 30 g de pimenta de cheiro
  • 30 g de cebolinha
  • 30 g de cheiro-verde

Molho (velouté de tucupi):

  • cheiro verde
  • pimenta de cheiro
  • alho
  • ajinomoto
  • 5 ml de tucupi
  • 30 g de amido de milho
  • 100 g de margarina 
Supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi no programa Sabores da Amazônia. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Leia também: Da damurida ao pudim: como as mulheres da Serra da Lua reinventaram o uso do tucupi

Modo de preparo do supremo de frango: 

Frango

Faça cortes superficiais em formato de xadrez na superfície dos filés de peito de frango, primeiro em um sentido e depois na diagonal. Tempere com sal e pimenta-do-reino a gosto.

Em uma frigideira, derreta a manteiga e acomode os filés. Grelhe em fogo baixo, virando de tempos em tempos, até ficarem dourados e cozidos por completo ou  entre 20 e 30 minutos.

Vinagrete de banana pacovã

Pique em cubos pequenos a banana pacovã, a cebola roxa, o cheiro-verde e a cebolinha. Misture todos os ingredientes em uma tigela.

Tempere com sal, suco de limão e um fio de azeite. Mexa bem e reserve.

Prepare o tucupi

Em uma panela, coloque o tucupi e acrescente alho, chicória, cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, uma pequena quantidade de ajinomoto e sal para corrigir o tempero.

Deixe ferver até apurar os sabores. Se o tucupi já estiver previamente preparado, cerca de 30 minutos são suficientes. Caso esteja começando do zero, cozinhe por aproximadamente uma hora.

Velouté de tucupi

Após o tucupi estar bem apurado, prepare a redução até obter um molho mais encorpado, formando o velouté de tucupi. Reserve para a montagem.

Montagem do supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi:

Disponha o velouté de tucupi no prato, formando um espelho de molho. Coloque o supremo de frango grelhado sobre o molho.

Supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi do chef
Supremo de frango ao vinagrete de banana e velouté de tucupi no programa Sabores da Amazônia. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Acrescente o vinagrete de banana pacovã ao lado. Finalize com crisps de couve para dar textura e acabamento.

“A Amazônia, gente, está na veia, está para a gente, está no mundo, está no foco e é uma honra e uma satisfação levar isso para fora de Manaus e para vocês”, finalizou o chef.

Pesquisador do Inpa é o primeiro brasileiro a receber a Le Cren Medal, principal prêmio mundial da ciência dos peixes

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Foto: Keiny Andrade / Fundação Bunge

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Adalberto Luis Val, é o primeiro brasileiro a receber a Le Cren Medal, honraria máxima da Fisheries Society of the British Isles – FSBI. A cerimônia será no dia 30 de julho, na Universidade de Southampton, Inglaterra. A medalha Le Cren reconhece pesquisadores e equipes com contribuição destacada para a biologia, conservação e divulgação pública da ciência dos peixes. 

A distinção é concedida em homenagem à carreira, vida e trabalho dedicados à pesquisa. Para a Fisheries Society of the British Isles, a trajetória de Val deu visibilidade global à ciência produzida na Amazônia e ampliou a compreensão de como peixes tropicais respondem a extremos ambientais.

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“É um momento super especial na minha carreira. Coroa um trabalho conjunto de mais de 40 anos na região. Esse prêmio é compartilhado com o pessoal do laboratório, estudantes de mestrado, doutorado, pós-doutorandos e colegas de outras instituições, do Inpa e do Brasil. A ciência é uma atividade social, e todos os nossos estudos são desenhados olhando para a sociedade onde estamos inseridos”, afirma Val.

O pesquisador Adalberto Val também é o primeiro latino-americano a receber a Le Cren Medal, prêmio que faz referência a de David Le Cren, um dos nomes clássicos da ecologia de peixes.  

Leia também: Adalberto Val: pesquisador revela origem de seu fascínio pelos peixes da Amazônia

Pesquisador está há 40 anos desvendando os peixes da Amazônia

Com quase cinco décadas de atuação, Val construiu uma trajetória dedicada às adaptações fisiológicas de peixes amazônicos a oxigênio baixo, acidez, temperatura, cheias e secas. Ao investigar os limites biológicos dessas espécies, sua pesquisa ajuda a prever os impactos das mudanças climáticas em ecossistemas aquáticos tropicais.

“Em um mundo de aquecimento e eventos extremos, a Amazônia funciona como um laboratório natural para entender o futuro dos rios tropicais”, explica o pesquisador.

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Foto: Divulgação

Quem é Adalberto Val

Natural de Campinas, no interior de São Paulo, chegou a Manaus em 1981 com sua esposa, a também pesquisadora, Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, para o mestrado e doutorado no Inpa. Em 1982 tornou-se servidor do Instituto. Juntos fundaram o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), referência em fisiologia e evolução de peixes amazônicos.

Números: O pesquisador possui 44 anos no Inpa, mais de 280 artigos científicos, 22 livros, sua produção acumula mais de 10 mil citações e já foi reconhecida com importantes prêmios nacionais e internacionais, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society. Atualmente coordena projetos sobre efeitos das mudanças climáticas na maior bacia hidrográfica do mundo.

Saiba mais sobre a pesquisa de Adalberto Val

Global change and physiological challenges for fish of the Amazon today and in the near future  – revisão sobre aquecimento, perda de oxigênio e acidificação na Amazônia. 

Fish mortality in the Amazonian drought of 2023: the role of experimental biology in our response to climate change – explica a mortandade em massa durante a seca extrema, conectando laboratório e impactos climáticos. 

Overcoming the coupled climate and biodiversity crises and their societal impacts  – publicado na Science, defende abordagem integrada das crises climática e de biodiversidade.

*Com informações do Inpa

Boi de Rua do Caprichoso: o tradicional cortejo que desfila a paixão azul pelas ruas de Parintins

Criado oficialmente em 2001, o tradicional cortejo do Boi Caprichoso foi inspirado no brincar de boi pelas ruas da cidade amazonense. Foto: Lucas Silva/Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas

Considerada uma das principais celebrações que antecedem o Festival Folclórico de Parintins, o tradicional Boi de Rua do Caprichoso permanece com a missão de manter a essência de brincar de boi no lado azul da Ilha da Magia. O evento, que integra o calendário oficial da temporada bovina na cidade, reúne anualmente milhares de torcedores apaixonados pelo Touro Negro para a popular caminhada pelas ruas do bairro do Palmares.

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Em 2026, o tradicional cortejo acontece neste sábado (20) e terá como novidade o retorno do formato em trajeto único. A concentração inicia na Avenida Senador José Esteves e o encerramento na Avenida Nações Unidas, com percurso entre a rua Sá Peixoto, Avenida Amazonas e rua Cordovil.

A caminhada conta com o som da Marujada de Guerra e a presença de itens oficiais e artistas do Caprichoso, reforçando a tradição cultural de acompanhar o boi pelas ruas parintinenses.

Leia também: Boi de Rua: tradição, memória e orgulho azul tomam as ruas de Parintins

Como surgiu o Boi de Rua?

Criado oficialmente em 2001, o Boi de Rua foi inspirado em antigas manifestações que eram comuns em Parintins nos anos 1980: levar o boi às ruas para o contato direto com seus torcedores. Tais manifestações, inclusive, fazem parte do surgimento da brincadeira de boi bumbá no início do século XIX.

Com essa proposta de resgatar a tradição popular e aproximar o boi Caprichoso de sua torcida, o então presidente do Conselho de Artes do Touro Negro, João do Carmo, idealizou o Boi de Rua. Desde então, o cortejo virou símbolo da relação afetiva entre o boi e os fãs, até se tornar uma das principais celebrações culturais da cidade, com tambores, alegria e muita emoção.

Boi de Rua do Caprichoso
Boi de Rua leva milhares de torcedores do Boi Caprichoso para as ruas de Parintins. Foto: Marcely Gomes/Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas

Tradição reforça resgate cultural

De lá para cá, o que era uma celebração popular se consolidou como um dos momentos mais aguardados da temporada bovina. Num show de enfeites, bandeiras e adereços nas cores azul e branco, o Boi de Rua traz o resgate da brincadeira de boi bumbá, em que o boi Caprichoso saía às ruas para dançar em frente às casas das famílias.

Casas são enfeitadas para receber o Boi de Rua há poucos dias do início do festival. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Além de relembrar à história, o Boi de Rua também se tornou um “pré-show” antes do Festival, reunindo personagens típicos, cavalinhos da vaqueirada, itens alegóricos e a tão esperada Marujada de Guerra. Itens oficiais e artistas do Caprichoso também compõem a festa.

Tripa Alexandre Azevedo é o responsável por dar vida ao Boi Caprichoso. Foto: Sabrina Rocha/Rede Amazônica AM

O tripa do Touro Negro, Alexandre Azevedo, reforça a importância do Boi de Rua para a preservação cultural e histórica da brincadeira de boi bumbá, além de relembrar a origem do boi Caprichoso.

“O Boi Caprichoso começou fazendo só esse percurso na rua, depois se transformou nessa magnitude que tem. O Caprichoso preserva a tradição e todo ano sai e passa na frente da casa dos seus torcedores, que não podem ir até o curral.”, disse o artista, que possui “sangue azul”, já que toda sua família carrega um legado de atuações artísticas no Boi da Francesa.

*Com informações da Rede Amazônica AM

Para proteger a Amazônia, Brasil precisa fortalecer suas universidades na Região Norte, defendem pesquisadores

Campus da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, uma das mais novas instituições de ensino superior da Amazônia: universidades da região atendem majoritariamente estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, que precisam de políticas de incentivo consistentes para permanecerem nos bancos escolares. Foto: Divulgação/UNIFESSPA

Quando líderes mundiais, cientistas e representantes da sociedade civil se reuniram em Belém (PA) para a COP30, em 2025, uma mensagem ganhou força: não há caminho viável para enfrentar as mudanças climáticas sem considerar a Amazônia. A floresta concentra cerca de 10% da biodiversidade conhecida do planeta, abriga a maior bacia hidrográfica do mundo e desempenha um papel decisivo na regulação do clima global. Ao mesmo tempo, tornou-se um espaço estratégico para discussões sobre bioeconomia, transição ecológica, segurança alimentar, energia renovável e desenvolvimento sustentável.

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Mas há uma pergunta que continua sem resposta adequada: como o Brasil pretende liderar a agenda climática global sem fortalecer as instituições que produzem conhecimento sobre a Amazônia?

Essa reflexão esteve no centro da Reunião Anual da ANDIFES Norte, realizada em junho de 2026, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA, em Marabá. O encontro reuniu reitores e reitoras das universidades federais da região e resultou na Carta de Marabá, documento que atualiza e amplia os compromissos assumidos anteriormente nas Cartas de Boa Vista (2023) e de Porto Velho (2025).

O texto propõe uma agenda nacional para a Amazônia baseada em ciência, inovação, inclusão social e desenvolvimento sustentável.

A universidade chegou onde o Estado não chegava

Há quatro décadas, grande parte do interior amazônico estava praticamente excluída da educação superior pública. Um levantamento realizado em meados da década de 1980 identificou aproximadamente 25 mil professores atuando fora da região metropolitana de Belém. Apenas 150 possuíam formação compatível com as funções que exerciam. Foi diante dessa realidade que surgiu o movimento de interiorização das universidades.

Campi foram implantados em municípios como Marabá, Santarém, Altamira, Cametá, Bragança e Abaetetuba. Posteriormente, esse processo resultou na criação de novas instituições federais, entre elas a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA, a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA) e a Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT).

Leia também: Pesquisa inédita inicia mapeamento na Região Norte sobre desafios de saúde mental em universidades

Campus Tapajós da Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém. Foto: Comunicação Ufopa / Divulgação
Campus Tapajós da Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém. Foto: Comunicação Ufopa / Divulgação

Os resultados transformaram regiões inteiras. Atendendo majoritariamente estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, as universidades amazônicas já diplomaram mais de 20 mil profissionais.

Os impactos alcançam a renda, a mobilidade social e a qualidade de vida de milhares de famílias, além de gerar benefícios econômicos amplos: segundo o IPEA, cada R$ 1,00 investido na formação universitária retorna, em média, R$ 3,28 para a economia, contribuindo para a redução da pobreza e o fortalecimento da qualificação profissional nas regiões onde atuam.

O desafio é que os mecanismos de financiamento continuam baseados em parâmetros que ignoram a realidade amazônica. Não se trata de uma questão regional. Trata-se de reconhecer que produzir ensino, pesquisa e extensão na Amazônia custa mais caro. Ao mesmo tempo, somos sempre comparados com índices e ranqueamentos que não levam isso em consideração.

Por isso, a Carta de Marabá defende a consolidação permanente do chamado Custo Amazônia e a criação definitiva do Fator Amazônia nas matrizes nacionais de financiamento universitário e de assistência estudantil.

Permanência estudantil é investimento, não assistência

Se a expansão ampliou o acesso, a permanência tornou-se o principal desafio. Nas universidades federais da Amazônia, estudam alguns dos segmentos mais vulneráveis da população brasileira. Em várias instituições da região Norte, mais de 70% dos estudantes têm renda per capita inferior a um salário mínimo. Esse perfil social exige políticas robustas de permanência.

Durante a reunião da ANDIFES Norte, uma pesquisa realizada com quase 10 mil estudantes demonstrou que a evasão entre alunos vulneráveis sem acesso à assistência estudantil alcança 44%. Quando esses mesmos estudantes recebem apoio por meio de bolsas, alimentação, moradia ou outras ações de permanência, a evasão cai para apenas 8%.

Por essa razão, a Carta de Marabá estabelece como prioridade máxima a recomposição permanente do orçamento da Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), a universalização dos restaurantes universitários, a ampliação dos auxílios estudantis e a criação de programas específicos para estudantes indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e de populações do campo. Também propõe financiamento permanente para ações de saúde mental e de acolhimento psicossocial, temas cada vez mais presentes na realidade universitária.

Não existe bioeconomia sem conhecimento

Nos últimos anos, a bioeconomia tornou-se uma das palavras mais repetidas nos debates sobre o futuro da Amazônia. Mas existe uma contradição evidente: fala-se muito sobre a importância de aproveitar a biodiversidade amazônica, embora grande parte dela ainda permaneça desconhecida.

Pesquisadores participantes da reunião apresentaram um dado preocupante: aproximadamente 54% da Amazônia ainda não possui informações científicas sistematizadas sobre biodiversidade. Em outras palavras, mais da metade da floresta permanece invisível à ciência.

Ao mesmo tempo, pesquisadores da Amazônia recebem proporcionalmente muito menos recursos para estudar esse patrimônio natural. Os números apresentados durante o encontro indicam que cientistas do Sul e do Sudeste recebem até 15 vezes mais recursos para pesquisas sobre biodiversidade do que os que trabalham diretamente na região amazônica.

Leia também: Confira cursos voltados à Amazônia ofertados por instituições de ensino superior do Amazonas

Campus da Universidade Federal do Tocantins em Araguaína. Foto: Reprodução/Prefeitura de Araguaína

Essa desigualdade gera consequências práticas. Sem conhecimento científico não há bioeconomia sustentável, não há inovação baseada na biodiversidade, não há agregação de valor aos produtos da floresta e não há desenvolvimento sustentável.

Com suas pesquisas nas mais diversas áreas, as universidades amazônicas já demonstraram que o que falta não é capacidade científica. As instituições amazônicas estão entre as que mais produzem conhecimento sobre a Amazônia, mas seguem recebendo proporcionalmente muito menos recursos para estudar, proteger e transformar esse conhecimento em soluções para a própria região. O que falta é ampliar investimentos e garantir que essas instituições tenham protagonismo nas políticas nacionais de ciência, tecnologia e inovação.

Por isso, a Carta de Marabá reivindica a criação de editais específicos para a Amazônia, a reserva de recursos nacionais para projetos coordenados por instituições da região e a criação de programas permanentes de modernização de laboratórios e de infraestrutura científica. Aumentar a fixação de doutores na Amazônia, especialmente no interior e em regiões de acesso mais remoto, é parte essencial dessa agenda. Essa agenda também exige o fortalecimento de redes científicas capazes de integrar instituições, territórios e diferentes formas de conhecimento.

Conectividade também é política ambiental

Durante décadas, a discussão sobre desenvolvimento amazônico esteve associada a estradas, hidrelétricas e grandes obras. Hoje, outro tipo de infraestrutura tornou-se igualmente estratégico: a conectividade digital. A transformação digital redefine a forma como produzimos conhecimento, realizamos pesquisas, ofertamos ensino e desenvolvemos inovação.

Sem conectividade adequada, regiões inteiras permanecem excluídas das oportunidades geradas pela economia do conhecimento. Por isso, a Carta de Marabá defende a aceleração do Programa Norte Conectado, a ampliação da infraestrutura digital dos campi do interior e o fortalecimento de cursos e programas em áreas como inteligência artificial, ciência de dados e transformação digital.

Internacionalização sem dependência

A COP 30 colocou definitivamente a Amazônia no centro das atenções internacionais. A questão agora é quem produzirá o conhecimento que orientará as decisões sobre a região. Historicamente, uma parte significativa das pesquisas sobre a Amazônia foi conduzida a partir de perspectivas externas.

Leia também: Revolução no conhecimento sobre a antiga Amazônia pode ajudar a proteger a floresta atual

Universidade Federal do Amazonas IUfam). Foto: Divulgação

As universidades amazônicas defendem outro caminho. A internacionalização deve fortalecer a capacidade científica já instalada na região e ampliar a soberania intelectual brasileira sobre temas estratégicos. Nesse contexto, ganham importância as redes amazônicas de pesquisa, a cooperação Sul-Sul e as parcerias construídas com universidades da África, América Latina e outros países do Sul Global.

A Carta de Marabá propõe o fortalecimento dessas iniciativas e o reconhecimento das universidades amazônicas como plataformas estratégicas de cooperação internacional em biodiversidade, clima, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.

Inclusão, diversidade e justiça social

A Amazônia abriga uma das maiores diversidades culturais e linguísticas do planeta. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e comunidades do campo produzem conhecimentos fundamentais para a compreensão dos ecossistemas amazônicos.

As universidades vêm ampliando a presença desses grupos por meio de políticas de ação afirmativa, licenciaturas interculturais, cursos de Educação do Campo e programas específicos de acesso. Entretanto, democratizar o ingresso é apenas o primeiro passo. Persistem desafios relacionados à permanência, ao racismo institucional, às barreiras linguísticas, às grandes distâncias territoriais e à necessidade de reconhecimento dos diferentes modos de produção do conhecimento.

Por isso, a Carta de Marabá propõe o fortalecimento das políticas de inclusão, permanência e êxito acadêmico, bem como o apoio à diversidade linguística, cultural e epistêmica da Amazônia.

Um pacto nacional para o futuro

As universidades federais amazônicas não reivindicam privilégios. Reivindicam reconhecimento: de que a Amazônia possui características únicas; de que produzir ciência na floresta exige políticas diferenciadas; e de que a inclusão social, a proteção ambiental e o desenvolvimento sustentável dependem diretamente da capacidade de gerar conhecimento a partir dos próprios territórios amazônicos.

A Carta de Marabá aponta nessa direção. No fundo, a mensagem é simples: investir nas universidades amazônicas é investir na soberania nacional, na redução das desigualdades regionais, na produção de conhecimento científico e na proteção da maior floresta tropical do planeta.

A Amazônia tornou-se central para o futuro do mundo. As universidades da Amazônia precisam ocupar o mesmo lugar nas prioridades do Brasil.

Autores

  1. Aldenize Ruela Xavier – Reitora, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
  2. Airton Sieben – Reitor, Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT)
  3. Francisco Ribeiro da Costa – Reitor, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa)
  4. Geone Maia Corrêa – Vice-reitor, Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
  5. Gilmar Pereira da Silva – Professor Titular e Reitor, Universidade Federal do Pará (UFPA)
  6. Janae Gonçalves – Reitora pro tempore, Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração de seis pesquisadores. Leia o original AQUI.

Estudo revela papel do agronegócio na expansão das florestas brasileiras

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Foto: Márcio Nagano/Imazon

O agronegócio brasileiro, que já é responsável por grande área de conservação por meio de Reserva Legal, pode ser um dos principais vetores da expansão das florestas no país nas próximas décadas. Essa é uma das conclusões da segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que traça um panorama completo sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no país, com recomendações sobre financiamento e políticas públicas.

O documento, que será apresentado este ano nas três Conferências das Partes da ONU (as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação), defende que a produção agropecuária, a conservação e a expansão florestal não são agendas opostas, mas complementares.

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Segundo o estudo, além de parte importante da conservação ambiental brasileira estar dentro das propriedades rurais – por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) -, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária que podem ser destinadas à restauração florestal. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por florestas plantadas para a produção de bioenergia.

A segunda edição da publicação foi realizada por uma coalizão de instituições formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia. Um dos objetivos é influenciar a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática) para que reconheça as florestas como centrais para remoção e armazenamento de carbono.

A nova versão recebeu o apoio formal da presidência da COP30. O material também serviu de insumo para as contribuições técnicas das organizações para o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, proposto pela presidência brasileira durante a COP30.

A primeira edição do documento, lançado durante a conferência em Belém, revelou que o Brasil pode inverter a curva do desmatamento e expandir florestas até 2035, passando de 517 milhões para uma cobertura florestal de 525 milhões de hectares em dez anos. O avanço de 8 milhões de hectares, equivalente a duas vezes o território da Suíça, teria impacto direto na ampliação dos estoques de carbono e reforçaria o papel estratégico do país no equilíbrio climático global.

Com uma visão abrangente das paisagens florestais do país, o documento tem o objetivo de mostrar os desafios e apontar os caminhos para que o Brasil reverta a perda histórica de cobertura vegetal e volte a ampliar suas florestas. A análise está organizada em três frentes (conservação, restauração florestal e silvicultura) e utiliza o conceito de “contínuo florestal”, adotado internacionalmente para compreender diferentes formas de uso e manejo das florestas ao longo do território.

Nesse modelo, coexistem desde áreas preservadas e manejo sustentável até sistemas de restauração e florestas plantadas com espécies nativas e exóticas, voltadas à produção econômica. Segundo o estudo, todas essas modalidades podem gerar benefícios ambientais e econômicos, seja pela preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, seja pela captura de carbono e pelo abastecimento de cadeias produtivas.

Nesta edição, os autores ampliaram o escopo da análise para incorporar informações sobre todos os biomas terrestres brasileiros. Além da Amazônia e da Mata Atlântica, o levantamento inclui Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira, pela importância dessas paisagens para remoção de carbono, proteção dos solos, regulação do ciclo hidrológico e conservação da biodiversidade.

Leia também: Governo apresenta números que apontam queda no desmatamento na Amazônia: “estamos trabalhando para termos o menor”

O relatório também destaca o papel estratégico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação das florestas brasileiras. Segundo dados do Imazon, as terras indígenas registraram apenas 3% de todo o desmatamento da Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre os diferentes tipos de territórios monitorados. Para os autores, fortalecer a governança territorial e ampliar o reconhecimento dessas populações como guardiãs das florestas será fundamental para avançar em conservação, restauração e produção sustentável.

Agronegócio e transição florestal

A conexão entre o agronegócio e a transição florestal se dá por muitos caminhos. Parte importante da conservação ambiental brasileira, por exemplo, está dentro das propriedades rurais privadas, por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) previstas no Código Florestal. A publicação reforça que o Brasil já demonstrou capacidade de reduzir o desmatamento sem prejudicar a produção agropecuária. Entre 2004 e 2012, a taxa de desmatamento da Amazônia caiu 80%, enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. No período, mais de 55 milhões de hectares foram protegidos por unidades de conservação.

As florestas também são essenciais para manter as condições climáticas que sustentam a agricultura brasileira, especialmente por meio dos chamados “rios voadores”, correntes de umidade que levam chuvas da Amazônia para o Centro-Sul do país. A publicação cita um estudo internacional divulgado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, segundo o qual a Amazônia Legal brasileira gera precipitações avaliadas em cerca de US$20 bilhões por ano para a agricultura.

Observatório agronegócio
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Outra oportunidade para a produção do agronegócio está na restauração florestal. Segundo o documento, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária – como terrenos muito inclinados ou degradados – que podem ser destinadas à recuperação florestal. Além de gerar benefícios para o clima e para a biodiversidade, a restauração ajuda produtores rurais a regularizar passivos ambientais previstos no Código Florestal e ainda cria oportunidades de geração de créditos de carbono e novas fontes de renda no campo. Até 2050, de acordo com uma projeção feita pela WRI, a restauração pode gerar US$141 bilhões no Brasil, montante que inclui carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.

Um levantamento preliminar conduzido pela Agroicone em parceria com o movimento Floraz, iniciativa empresarial criada para estruturar o setor de restauração florestal no Brasil, identificou milhões de hectares com potencial para projetos de restauro em áreas ligadas ao agronegócio, especialmente em pastagens degradadas. O estudo cruzou bases públicas e privadas de dados geoespaciais para mapear regiões aptas à recuperação com espécies nativas, considerando critérios como baixa aptidão agrícola, ausência de desmatamento recente, tamanho das propriedades e distância de polos industriais de madeira. Em um cenário mais conservador, o trabalho identificou cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para restauração distribuídos em aproximadamente 8 mil propriedades rurais.

O avanço do etanol de milho no Brasil tem aumentado, em algumas regiões, a demanda por biomassa florestal — especialmente eucalipto e pinus — utilizada para geração de energia térmica nas usinas, fortalecendo a interface entre silvicultura, bioenergia e estratégias de descarbonização. Na safra 2024/2025, a produção de etanol de milho representou 22% da produção total de etanol do país, alcançando 8,2 milhões de metros cúbicos. A previsão do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) é de que o volume chegue a 22,55 milhões de metros cúbicos até 2034/2035.

Adaptação: florestas para além do carbono

A agenda florestal global começa a passar por uma mudança de foco. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado na captura de carbono e na geração de créditos negociáveis, agora os impactos físicos das mudanças climáticas colocam a adaptação no centro da discussão econômica. Os autores destacam que secas prolongadas, incêndios florestais, eventos extremos e crises hídricas já afetam diretamente cadeias produtivas, infraestrutura e finanças públicas.

Por isso, as florestas passam a ser vistas como uma espécie de “infraestrutura natural”, capaz de reduzir riscos climáticos, regular regimes de chuva, proteger solos e dar estabilidade à produção agrícola, energética e logística. Segundo o documento, o valor econômico das florestas vai além do carbono e está cada vez mais ligado à capacidade de garantir resiliência e continuidade econômica em um cenário de maior instabilidade climática.

Os autores alertam, no entanto, que o financiamento da agenda florestal ainda está muito aquém da necessidade global. Embora exista um maior reconhecimento sobre o papel estratégico das florestas para estabilidade climática, segurança hídrica e biodiversidade, o capital privado ainda se concentra em mercados considerados menos arriscados, deixando projetos florestais subfinanciados. A publicação aponta que ampliar o fluxo de recursos não será suficiente sem mudanças estruturais na forma de financiar a agenda florestal.

O documento defende modelos de blended finance (que combinam recursos públicos e privados), além de mecanismos de “de-risking”, garantias financeiras e estruturas inspiradas em project finance para tornar os projetos mais atrativos aos investidores. Um destaque importante é a crescente atenção a fundos destinados a povos indígenas e comunidades locais, reconhecidos como atores centrais para resultados ambientais duradouros. O relatório aponta que o futuro do financiamento florestal dependerá da combinação inteligente desses instrumentos, e não da aposta em uma única solução.

Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú

“Precisamos fazer com que o capital natural e as soluções baseadas na natureza deixem de ser vistos apenas como uma agenda ambiental e passem a ocupar um lugar central na economia. As florestas brasileiras têm potencial para se consolidar como uma classe de ativos altamente atrativa para o mercado financeiro, gerando valor por meio de carbono, água, resiliência climática, biodiversidade e segurança alimentar. O desafio agora é criar mecanismos financeiros capazes de transformar esse patrimônio natural em ativos reconhecidos e valorizados globalmente.”

Beto Veríssimo, cofundador do Imazon

“O Brasil concentra cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, domina tecnologias de conservação, restauração e silvicultura e reúne condições únicas para liderar a agenda global de soluções baseadas na natureza. Nossas florestas armazenam carbono, regulam chuvas, sustentam a produção agrícola, a geração de energia e o abastecimento de água. Quando falamos em clima, segurança alimentar e resiliência econômica, estamos falando diretamente da importância estratégica das florestas brasileiras.”

Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone

“O estudo mostra que conservação florestal, restauração e produção agropecuária não são agendas concorrentes. O Brasil já possui uma das maiores áreas conservadas dentro de propriedades privadas rurais e pode ampliar sua liderança global ao conectar agricultura, florestas e soluções climáticas em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.”

Confira a publicação completa aqui.

*O texto foi originalmente publicado pelo Imazon