Home Blog Page 64

Comunidade ribeirinha muda trajetória e se torna aliada na proteção das tartarugas-da-Amazônia

0

Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

Na comunidade Sacaí, o rio Branco é o protagonista — ele transporta os barcos, é a fonte de renda, de alimento e dita o estilo de vida dos 250 ribeirinhos que ali vivem. Localizada em uma região conhecida como Baixo Rio Branco, em Roraima, crianças, pescadores e lideranças da comunidade passaram a atuar como aliados na preservação de uma espécie que também precisa do rio para sobreviver: as tartarugas-da-Amazônia.

A transformação começou a partir das ações de educação ambiental do Projeto Quelônios da Amazônia (PQA), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que há 47 anos atua na proteção das áreas de desova da espécie na região. O Baixo Rio Branco tem 16 comunidades ribeirinhas.

Leia também: Infográfico – Saiba quantas e quais espécies de quelônios existem na Amazônia

Além do monitoramento dos ninhos e da soltura dos filhotes, o projeto investe em ações educativas dentro das próprias comunidades ribeirinhas, especialmente nas escolas. Em Sacaí, a iniciativa aproximou os moradores da conservação, transformou a relação antes marcada pela captura de quelônios e deu lugar a ações de proteção da espécie.

“O que a gente vê hoje é uma comunidade muito mais consciente do valor desses animais pro equilíbrio desse riozão”, explica o agricultor e pescador Josué Moreira, de 51 anos, presidente da associação comunitária de Sacaí.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Educação ambiental

Quelônio é todo réptil de casco, o que inclui jabutis, tracajás e cágados. O maior entre os que vivem fora da água salgada é a tartaruga-da-Amazônia, que na fase adulta pode chegar a 1 metro de comprimento e pesar até 65 kg. Além disso, vivem até 100 anos.

Este ano, graças à atuação do projeto, 150 mil tartarugas-da-Amazônia devem nascer até o fim de março nas praias do Baixo Rio Branco. O número de ovos registrados é considerado um recorde para Roraima.

Leia também: Tartarugas-da-Amazônia desovam em um dos maiores berçários naturais da América do Sul

A fiscal ambiental do município de Caracaraí, Jéssica Gois, que atua em parceria com o Ibama no projeto destacou que o trabalho de educação ambiental ajudou a mudar a forma como os moradores enxergavam as tartarugas na comunidade.

“A comunidade desconhecia o trabalho do PQA e a importância das tartarugas. Então, quando a gente traz essas informações, eles começam a enxergar de outra forma. Além disso, procuram preservar e proteger a espécie. Eles mesmos disseminam esse conhecimento que adquiriram aqui para outras comunidades próximas. É uma corrente do bem para proteger as tartarugas”, disse.

O projeto monitora ninhos em praias ao longo do Baixo Rio Branco — o acesso é feito apenas por horas navegando pelo rio. A iniciativa atua contra predadores e no combate à principal ameaça: o tráfico de tartarugas por criminosos conhecidos como “tartarugueiros”.

Comunidade na beira do rio

Casas em palafitas na comunidade Sacaí, no Baixo Rio Branco. Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

As casas em Sacaí são suspensas por palafitas de quase dois metros para a época de cheia do rio Branco. Não há ruas — as casas, todas de madeira, são alinhadas com o curso d’água. Não há carros nem motos, afinal, não tem ruas. Os moradores andam a pé, de bicicleta ou de canoas e barcos.

Para chegar a Sacaí, é necessário fazer uma viagem de barco que parte da sede do município de Caracaraí e dura cerca de 7 horas pelo rio.

A comunidade é formada principalmente por famílias que vivem da pesca e da agricultura voltada para o próprio sustento. Durante muito tempo, a captura de tartarugas e a coleta de ovos fizeram parte da cultura alimentar de muitas populações amazônicas. Mas nos últimos anos, essa realidade começou a mudar.

Josué Moreira, o presidente comunitário de Sacaí, afirma que o projeto do Ibama promoveu uma “mudança na mente” de todos ali. Ele explica que a comunidade, inclusive, deixou de ajudar os traficantes de tartaruga que tanto navegavam no rio Branco.

“Antes de conhecer o projeto, a comunidade era muito predatória. Hoje posso dizer que 99% das pessoas mudaram. Não tem mais aquela frequência de pescaria predatória de tartaruga como acontecia antes”.

Agricultor e pescador Josué Moreira, de 51 anos, presidente da associação comunitária de Sacaí. Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

Ação começa pelas crianças

Os cuidados com as tartaruguinhas na comunidade começam com as pessoinhas! Grande parte dessa transformação começa com os estudantes. As equipes do projeto passaram a visitar regularmente a escola municipal Oscar Batista dos Santos, que atende alunos de diferentes idades em Sacaí.

Durante as atividades, os estudantes aprendem sobre o ciclo de vida das tartarugas, o papel ecológico da espécie e os riscos enfrentados pelos animais na natureza.

Moradora da comunidade e secretária da escola, Nericiana de Moura, de 38 anos, afirma que as atividades despertaram curiosidade entre os alunos. Com isso, o aprendizado ultrapassa a sala de aula. Segundo ela, as crianças aprendem sobre a importância de proteger os quelônios e levam essas informações para casa, onde compartilham o conhecimento com os pais.

“Grande parte da comunidade vive da pesca. Então, quando as crianças aprendem sobre isso na escola, elas também ajudam a conscientizar os adultos”, explicou.

Para incentivar o engajamento de crianças e adolescentes, o projeto também promoveu atividades com estudantes da comunidade. Um dos momentos mais marcantes foi um concurso realizado entre alunos. A premiação foi uma experiência única: participar da soltura de filhotes nas praias onde os ninhos são monitorados.

“Tartarugas são importantes para a natureza”

Os estudantes vencedores puderam acompanhar de perto o trabalho das equipes do projeto e participar da devolução de cerca de 5 mil tartaruguinhas ao rio. Para a estudante Maria Isabela Sampaio, de 12 anos, foi uma experiência “mágica”.

Bruno de Souza, de 16 anos e Maria Isabela Sampaio, de 12 anos, crianças da comunidade Sacaí que participaram da soltura de tartarugas-da-Amazônia. Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

“Foi muita alegria e emoção, porque eu nunca tinha participado de algo assim. Aprendi que as tartarugas são importantes para a natureza”, disse.

O estudante Bruno de Souza, de 16 anos, também participou da soltura e destacou a importância da atividade para garantir a sobrevivência dos animais.

“Muitas tartarugas não conseguem chegar até o rio por causa dos predadores. Poder ajudar soltando os filhotes e dando uma nova chance de vida para elas é muito especial”, afirmou.

Mudança de mentalidade na comunidade

A presença constante do projeto e o diálogo com os moradores ajudaram a construir uma nova relação entre a comunidade e os animais. O pescador Mário Jorge Oliveira, de 47 anos, avalia que preservar as tartarugas significa também preservar a própria história da região.

“Antigamente, há uns 20 ou 25 anos, a gente via muito mais quelônios no rio. Hoje já não é assim. Por isso a gente entende a necessidade de proteger esses animais”.

Ele afirma que a conservação também é uma forma de garantir que as próximas gerações tenham contato com a natureza da mesma forma que os moradores mais antigos tiveram: “Se a gente não preservar, as novas gerações não vão ver o que a gente viu. Preservando, eles vão poder admirar a natureza como ela é linda”, afirma.

Segundo ela, no passado era comum a presença de pessoas de fora que vinham até o Baixo Rio Branco para capturar tartarugas ou retirar ovos das praias.

A dona de casa Maria Francisca Moura, de 63 anos, mora na comunidade há mais de duas décadas e diz que percebeu uma mudança significativa no comportamento dos moradores desde que o projeto começou a atuar na região.

“A comunidade se conscientizou muito mais. Não tem mais aquela caça predatória de tartaruga como tinha antes”, afirmou.

“Hoje a gente vê as placas do projeto e ninguém quer mexer. Pelo contrário, a gente apoia. Eu sou muito a favor disso”, disse.

Maria Francisca diz que os próprios moradores passaram a defender a preservação da espécie e a respeitar as regras de proteção nas áreas de reprodução.

O PQA tem uma história multifacetada com um foco central na conservação das tartarugas amazônicas. O projeto foi criado para proteger os ninhos e filhotes, garantindo a segurança durante a fase inicial de vida e salvou cerca de 100 milhões de filhotes no Brasil.

Projeto Quelônios da Amazônia

A região onde o PQA atua é considerada uma área protegida, com proibição da pesca, principalmente com redes do tipo malhador, durante o período reprodutivo.

O projeto é uma iniciativa do Ibama, mas tem parceria da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh), especialmente na região do Baixo Rio Branco, dentro das unidades de conservação estadual.

Em Roraima, as equipes em campo são compostas por servidores do Ibama, pilotos de barcos, policiais para a segurança dos servidores e colaboradores locais.

Um dos resultados mais significativos do PQA é que a tartaruga-da-Amazônia está saindo da lista de animais ameaçados de extinção.

O projeto tem com o apoio da Companhia Independente de Policiamento Ambiental (Cipa), que monitora atividades ilegais e medeia conflitos com pescadores e ribeirinhos.

*Por Caíque Rodrigues, da Rede Amazônica RR

Polo Industrial de Manaus tem maior produção de motos em 15 anos no 1º bimestre de 2026

0

Ao todo, 348.732 unidades foram fabricadas entre janeiro e fevereiro no PIM, segundo a Abraciclo. Foto: Josney Benevuto/ Rede Amazônica AM

O Polo Industrial de Manaus (PIM) registrou a maior produção de motocicletas dos últimos 15 anos no primeiro bimestre de 2026. Ao todo, 348.732 unidades foram fabricadas entre janeiro e fevereiro, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo). O volume é 1,7% maior que o registrado no mesmo período de 2025.

“O desempenho do primeiro bimestre reforça o bom momento vivido pela indústria de motocicletas. O setor mantém um ritmo consistente de produção, alinhado ao planejamento das fabricantes e impulsionado pela demanda do mercado”, afirmou o presidente da Abraciclo, Marcos Bento.

Leia também: Com maior faturamento da história, PIM registra R$ 227,6 bilhões em 2025

Em fevereiro, foram produzidas 164.104 motocicletas. O número é 7,1% menor que o registrado no mesmo mês do ano passado e 11,1% inferior ao de janeiro.

“A retração já era prevista, em razão do feriado de Carnaval, que reduziu o número de dias úteis do mês e impactou o ritmo de produção”, explicou Bento.

As motocicletas da categoria Street lideraram a produção no primeiro bimestre, com 180.488 unidades fabricadas. O volume representa 51,8% do total produzido no período.

Na sequência aparecem os modelos Trail, com 19,4% da produção, e as Motonetas, com 13,3%.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A maior parte da produção foi de motocicletas de baixa cilindrada, com 270.919 unidades fabricadas, o equivalente a 77,7% do total. Os modelos de média cilindrada representaram 19,5% da produção.

Já as motocicletas de alta cilindrada somaram 9.725 unidades no primeiro bimestre, o que corresponde a 2,8% da produção total. O volume é 22% maior que o registrado no mesmo período do ano passado.

pim polo industrial de manaus
Produção de motos no PIM. Foto: Reprodução/Acervo Rede Amazônica AM

Vendas

Os licenciamentos de motocicletas também registraram crescimento no início do ano. Entre janeiro e fevereiro, foram emplacadas 350.110 unidades no país, o maior volume já registrado para o período. O número representa alta de 13,7% na comparação com o mesmo bimestre de 2025.

Somente em fevereiro, as vendas no varejo somaram 171.548 unidades. O volume é 10% maior que o registrado no mesmo mês do ano passado, mas 3,9% menor que o de janeiro.

Segundo a Abraciclo, a queda em relação ao mês anterior também está relacionada ao menor número de dias úteis, de 21 em janeiro contra 18 em fevereiro. A média diária de vendas foi de 9.530 motocicletas.

Exportações do PIM

As exportações de motocicletas produzidas no Polo Industrial de Manaus também cresceram no início de 2026.

Nos dois primeiros meses do ano, foram embarcadas 8.015 unidades para o mercado externo, alta de 43,1% na comparação com o mesmo período de 2025.

Somente em fevereiro, as associadas da Abraciclo exportaram 4.748 motocicletas, volume 70% maior que o registrado no mesmo mês do ano passado e 45,3% superior ao de janeiro.

*Com informações da Rede Amazônica AM

Fundação Rede Amazônica lança campanha Consciência Água e reforça preservação dos recursos hídricos na Amazônia

0

Foto: Divulgação

A Fundação Rede Amazônica (FRAM) lançou a campanha institucional Consciência Água, iniciativa que busca sensibilizar a população sobre a importância da preservação dos recursos hídricos, especialmente no contexto da Amazônia — região que abriga uma das maiores reservas de água doce do planeta e desempenha papel fundamental no equilíbrio ambiental global.

Veiculada em televisão, rádio e plataformas digitais, a campanha amplia o alcance da mensagem e promove reflexão sobre a relação entre sociedade, meio ambiente e sustentabilidade. A iniciativa também integra as mobilizações da Semana da Água, celebrada mundialmente em torno do Dia Mundial da Água, em 22 de março, data criada para chamar atenção para a gestão sustentável desse recurso indispensável à vida. Veja:

Preservar a água é proteger a Amazônia

Na Amazônia, os rios exercem papel central na dinâmica ambiental e social da região. Eles sustentam comunidades tradicionais, atividades econômicas, a biodiversidade e contribuem diretamente para o equilíbrio climático.

Nesse contexto, iniciativas de conscientização pública são fundamentais para estimular práticas sustentáveis e fortalecer o compromisso coletivo com a proteção desse patrimônio natural.

Segundo Anderson Mendes, gerente de Conteúdos Especiais da Fundação Rede Amazônica, a campanha nasce justamente da necessidade de ampliar essa consciência.

“A Amazônia é conhecida no mundo inteiro pela abundância de água, mas isso não significa que esse recurso seja infinito ou que esteja protegido. A água conecta a floresta, os rios, a biodiversidade e a vida de milhões de amazônidas. Cuidar da água é cuidar da própria Amazônia”, destaca.

Campanha alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

A iniciativa também dialoga com a Agenda 2030 das Nações Unidas, contribuindo para a promoção de três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável:

ODS 6 – Água Potável e Saneamento, voltado à gestão sustentável e ao acesso seguro à água;

ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis, que incentiva o uso consciente dos recursos naturais;

ODS 14 – Vida na Água, dedicado à proteção dos ecossistemas aquáticos e da biodiversidade.

De acordo com Anderson Mendes, a proposta da campanha é estimular atitudes simples que podem gerar impactos positivos para a preservação dos recursos naturais.

“Preservar rios, evitar desperdício e descartar corretamente resíduos são atitudes que ajudam a proteger um dos maiores patrimônios naturais do planeta. Quando falamos de água, falamos de vida, de futuro e de responsabilidade coletiva”, afirma.

Ao mobilizar sua rede de comunicação e dialogar com milhões de pessoas, a Fundação Rede Amazônica reforça seu compromisso com a educação ambiental, a mobilização social e o desenvolvimento sustentável da Amazônia, incentivando a sociedade a refletir sobre o papel de cada cidadão na preservação dos recursos naturais.

Sobre a Fundação Rede Amazônica

A Fundação Rede Amazônica (FRAM) é o braço institucional do Grupo Rede Amazônica e atua na promoção do desenvolvimento sustentável da região por meio de iniciativas nas áreas de educação, cultura, inovação, empreendedorismo e sustentabilidade. Com projetos realizados em diferentes estados da Amazônia, a instituição articula parcerias e mobiliza a sociedade em torno de ações que contribuem para a preservação ambiental, a formação cidadã e o fortalecimento das comunidades amazônicas.

Estudo comprova resultados do Bolsa Verde na redução do desmatamento

0

Foto: Reprodução/Greenpeace

Pela primeira vez, cientistas calcularam a contribuição do Bolsa Verde para a redução do desmatamento na Amazônia: a derrubada de floresta primária caiu 30% nos assentamentos e unidades de conservação de uso sustentável participantes da primeira fase do programa, que ocorreu de 2011 a 2016, com os primeiros pagamentos começando em 2012.

O resultado consta em artigo científico publicado no Journal of Environmental Economics and Management. A autoria é compartilhada por pesquisadoras do Reino Unido, do Cazaquistão, da Noruega e do Brasil, com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Leia também: Desmatamento ameaça santuário das árvores gigantes da Amazônia

Segundo o estudo, a área total de desmatamento evitado pelo programa entre 2012 e 2015 soma 22,6 mil hectares. Já as emissões evitadas chegam a 8,3 milhões de toneladas de gás carbônico, avaliadas pelas especialistas em 199 milhões de dólares, o equivalente a 2,8 vezes o custo total da primeira fase do Bolsa Verde.

Essa etapa do programa também alcançou um baixo custo de emissões evitadas por tonelada de gás carbônico, nivelando em 8,6 dólares o preço da tCO2, que varia entre 40 e 190 dólares no mercado internacional voltado à mitigação.

“Nossas estimativas sugerem que as emissões evitadas custaram cerca de 8,6 dólares por tonelada, um resultado excepcional de custo-benefício em comparação com a maioria das ações climáticas. Em um momento em que o desmatamento continua a pressionar as florestas tropicais, essas descobertas mostram que programas como o Bolsa Verde podem gerar impacto real — um exemplo claro de que políticas sociais e ambientais podem e devem caminhar juntas”, avalia Po Yin Wong, pesquisadora da Universidade Queen Mary, em Londres, e principal autora do estudo.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Estudo avalia avanço do desmatamento

Na época, o Bolsa Verde remunerava com 300 reais por trimestre famílias em extrema pobreza que residiam nas áreas prioritárias ou eram beneficiadas por elas, como as populações extrativistas. Algumas deixaram de receber o benefício ainda em 2016 por terem saído da extrema pobreza – definida pela renda familiar mensal de até 77 reais.

O estudo avalia que a primeira fase do programa funcionou como um complemento à fiscalização formal, alcançando áreas de difícil acesso na Amazônia e contribuindo para a condicionalidade coletiva, já que o pagamento só ocorre se a área toda estiver em conformidade com o Código Florestal.

desmatamento amazonia 2025 foto Marizilda Cruppe acervo Greenpeace
Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

“O que observamos é que o Bolsa Verde influenciou positivamente a governança das áreas. Nas Unidades de Conservação, por exemplo, houve aproximação entre as famílias atendidas e os gestores, fortalecendo o diálogo e a presença institucional. Ao mesmo tempo, o programa estimulou a articulação interna entre os próprios beneficiários, com a criação de associações e outras formas de organização coletiva”, diz Ana Carolina Pessôa, pesquisadora do IPAM e uma das autoras.

As especialistas acrescentam que, com a retomada do programa em 2023, o valor pago às famílias foi dobrado e o alcance geográfico expandido.

Leia também: Pesquisadores desenvolvem IA que identifica desmatamento na Amazônia

Como o estudo foi feito

Para a realização do estudo, foram analisadas 317 áreas beneficiadas pelo Bolsa Verde de 2012 a 2015, totalizando 21 mil famílias participantes, localizadas principalmente no “Arco do Desmatamento”.

As pesquisadoras aplicaram uma modelagem econométrica, além de testes de robustez, para identificar de forma causal o impacto do programa sobre o desmatamento, o que assegura a consistência metodológica e a validade dos resultados.

Foram utilizados dados integrados de desmatamento derivados de imagens de satélite, do INPE, de bases geoespaciais oficiais do Bolsa Verde, do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e de infrações ambientais registradas pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), além de informações socioeconômicas de população e renda.

*Com informações do IPAM Amazônia

Ministério do Meio Ambiente e prefeituras instalam bases de proteção à floresta em 70 cidades amazônicas

0

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Em 2025, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apoiou a instalação de escritórios de governança ambiental em municípios prioritários da Amazônia para fortalecer o controle do desmatamento e da degradação ambiental.

A iniciativa integra o Programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais na Amazônia (UcM), contemplando as 70 cidades que aderiram à iniciativa voluntariamente.

Criado pelo Decreto nº 11.687, de 5 de setembro de 2023, o UcM estabelece ações de prevenção, monitoramento, controle e redução do desmatamento e da degradação florestal no bioma Amazônia, bem como prevê a implementação de medidas específicas nos municípios prioritários para fortalecer o enfrentamento ao desmatamento.

Leia também: Parceria busca fortalecer combate ao desmatamento em 70 municípios prioritários da Amazônia

Os escritórios são dedicados ao monitoramento do desmatamento e dos incêndios florestais. A implementação dos espaços incluiu a capacitação de equipes municipais, suporte técnico contínuo e a entrega de mais de 1.800 equipamentos às prefeituras.

“As lideranças nos municípios são parte fundamental na promoção do desenvolvimento sustentável e no controle do desmatamento. Quando Governo do Brasil, estados e prefeituras trabalham juntos, conseguimos mais efetividade nas políticas, além de criar melhores condições de vida para a população”, reforçou o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do MMA, André Lima.

O projeto conta com orçamento de R$ 61 milhões, financiado pelo Fundo Verde para o Clima (GCF), no âmbito do Projeto Floresta+ Amazônia. A execução envolve também agências implementadoras, como o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM).

Foto: Fernando Donasci/MMA

Na Amazônia, Pará lidera no número de municípios

O Pará lidera o ranking de estados com maior número de cidades participantes no Programa União com Municípios. Entre elas está Altamira, o maior município em extensão territorial do país, que tem registrado queda contínua no desmatamento: de 626 km² em 2022 para cerca de 130 km² em 2025, segundo o sistema Prodes, do Inpe.

“Contar com um espaço dedicado ao monitoramento e à análise de informações ambientais — equipado com computadores, veículos e outros instrumentos — permite que a equipe identifique áreas com indícios de desmatamento e planeje ações de fiscalização mais estratégicas”, destacou o prefeito de Altamira, Loredan Mello.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Já em Mato Grosso, Aripuanã é um dos 21 municípios do estado que aderiram ao programa. A prefeita Seluir Peixer Reghin acredita que essa decisão contribuiu para as ações do poder público local para a preservação do meio ambiente.

“Esse apoio e estrutura com equipamentos, capacitação técnica e disponibilização de dados atualizados de satélite ampliaram a capacidade de resposta do município e consolidaram uma gestão ambiental mais eficiente e integrada”, afirmou.

Os benefícios do programa também são realidade em municípios do Acre. O vice-prefeito de Feijó, Juarez Leitão, avalia que a estrutura já apresenta resultados práticos. Ele cita como exemplo o uso de drones entregues pelo projeto, possibilitando a ágil identificação de focos de queimadas mesmo a dezenas de quilômetros de distância da área urbana.

“Pela primeira vez temos uma equipe mais estruturada. Hoje tem um computador bom, dois laptops, câmera fotográfica, drone, caminhonete. É uma realidade completamente diferente”, reforçou o vice-prefeito.

Altamira, no Pará. Amazônia.
Município de Altamira. Foto: Reprodução/Prefeitura de Altamira

No ano passado, o Brasil reduziu a área desmatada na Amazônia pelo terceiro ano consecutivo. Os números tornam-se ainda mais expressivos quando analisados apenas os municípios que participam do União com Municípios.

Entre 2022 e 2025, enquanto em toda a Amazônia Legal, com 773 municípios, a diminuição acumulada no desmatamento foi de aproximadamente 50%, a redução ultrapassou os 65% nas 70 cidades que aderiram ao programa.

Para a coordenadora-geral do Departamento de Ordenamento Ambiental Territorial do MMA, Nazaré Soares, esses resultados comprovam o acerto em fortalecer a parceria com as prefeituras.

“O MMA tem ações que impactam diretamente o dia a dia das pessoas. Com o União com Municípios, além dos escritórios de governança, projetos de pagamento por serviços ambientais, recuperação de vegetação e regularizações ambientais e fundiárias são caminhos para transformar, efetivamente, a vida de quem vive na Amazônia”.

União com Municípios

O Programa União com Municípios reconhece o protagonismo dos gestores locais na redução do desmatamento e de incêndios florestais na Amazônia.

Os municípios listados como prioritários para o controle do desmatamento podem aderir voluntariamente. Com cerca de R$ 800 milhões do Fundo Amazônia e do Projeto Floresta + Amazônia (parceria entre MMA, PNUD e GCF), o programa realiza projetos de regularização fundiária e ambiental, implementação de escritórios de governança, pagamento por serviços ambientais e recuperação da vegetação nativa.

*Com informações do MMA

MPF recomenda à Secretaria de Meio Ambiente e municípios de Mato Grosso proteção ao patrimônio arqueológico

0

Sítio arqueológico em MT Foto: Reprodução/Iphan

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou ao estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Meio Ambiente (Sema/MT), e aos 142 municípios mato-grossenses que passem a consultar obrigatoriamente o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em todos os processos de licenciamento ambiental. A consulta deve ser feita, inclusive, nos processos já em andamento, sempre que houver possibilidade de impacto sobre bens culturais acautelados em âmbito federal. 

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A medida atinge empreendimentos que possam incidir sobre sítios arqueológicos e outros bens protegidos, ainda que não estejam previamente identificados, registrados ou cadastrados em bancos de dados públicos.

O documento, assinado pelo procurador da República Gabriel Infante Magalhães Martins, aponta que a Instrução Normativa Sema nº 1/2017, que trata sobre o assunto, vinha sendo interpretada de forma restritiva, condicionando a consulta ao órgão federal apenas à existência de bens já registrados.

A prática, segundo o MPF, contraria a legislação federal que determina que todos os sítios arqueológicos são bens da União e integram o patrimônio cultural brasileiro, independentemente de cadastro prévio.

Sitio arqueológico Pedra Preta, Mato Grosso
Sítio Arqueológico de Pedra Preta – Paranaíta (MT). Foto: Acervo Iphan

Leia também: Conheça três sítios arqueológicos na Amazônia que são considerados patrimônio cultural do Brasil

O MPF recomenda que a Sema/MT adote três providências principais. Primeiro: não interpretar o termo ‘acautelado’ como sinônimo de registrado ou cadastrado, realizando consulta ao Iphan em todas as hipóteses em que o empreendimento possa incidir sobre bens culturais, mesmo que não identificados faticamente ou anotados em banco de dados público.

O órgão estadual também deve alterar o artigo 3º, inciso I, da IN SEMA nº 1/2017, suprimindo a expressão ‘bens devidamente anotados e registrados na forma da lei’, para deixar claro que o conceito de bem acautelado independe de registro prévio.

A Sema/MT deve ainda revogar o artigo 10 da mesma norma, que permitia, excepcionalmente, a consulta ao Iphan em casos onde a área de influência do empreendimento não interviesse em bens acautelados, eliminando qualquer dúvida interpretativa.

“O licenciamento ambiental deve atuar como instrumento efetivo de identificação e salvaguarda dos bens culturais acautelados, impedindo que o interesse meramente econômico prevaleça sobre a proteção de bens culturais não renováveis e, consequentemente, ocorra a completa dilapidação de inúmeros bens culturais de relevância nacional, como vem ocorrendo em território mato-grossense”, frisa a recomendação.

Municípios

Aos 142 municípios mato-grossenses, representados pela Associação dos Municípios Mato-grossenses (AMM), o MPF recomenda que, independentemente de atos normativos municipais, passem a consultar o Iphan nos licenciamentos ambientais municipais, nas mesmas condições estabelecidas para o órgão estadual.

A AMM deverá encaminhar a recomendação a todos os municípios associados, compilando as respostas e justificativas para envio ao MPF. O documento sugere ainda que a matéria seja apresentada durante o II Encontro Mato-Grossense de Municípios, marcado para os dias 25 a 27 de março, em Cuiabá.

Discrepância estatística

Segundo a recomendação, entre 2021 e 2024, a Sema/MT emitiu 3.074 licenças ambientais para empreendimentos de alto impacto, enquanto o Iphan recebeu apenas 243 Fichas de Caracterização de Atividade (FCA) no mesmo período.

Leia também: Preciosidade arqueológica: conheça a cidade indígena que existe embaixo do bairro Nova Cidade, em Manaus

Sítio Arqueológico de Pedra Preta – Paranaíta (MT). Foto: Acervo Iphan

A discrepância estatística, classificada pelo MPF como ‘alarmante’, evidencia que a norma estadual tem afastado a participação da (entidade) federal especializada do processo de licenciamento, transferindo ao empreendedor ou à própria secretaria a responsabilidade técnica de avaliar a existência de patrimônio arqueológico, que se encontra predominantemente abaixo da superfície.

Danos concretos

A recomendação reúne casos emblemáticos em que a ausência de consulta prévia ao Iphan resultou em danos ao patrimônio cultural. Na Rodovia MT-130, sítios arqueológicos foram diretamente impactados por obras de pavimentação sem qualquer estudo prévio. No Centro de Eventos localizado na MT-251, em Cuiabá, o sítio Serra Abaixo foi mutilado durante obras de acesso. Já na Usina Hidrelétrica de Colíder, pesquisas realizadas após o início da implantação revelaram grande quantidade de vestígios arqueológicos em uma região onde não havia cadastro prévio, demonstrando que a ausência de registro não significa ausência de patrimônio.

Sítio Arqueológico de Pedra Preta – Paranaíta (MT). Foto: Acervo Iphan

Foi concedido prazo improrrogável de 45 dias corridos, contados do recebimento da recomendação, para que os destinatários respondam sobre o acatamento, com comprovação das providências adotadas, ou apresentem razões justificadas para a recusa parcial ou total.

*Com informações do Ministério Público Federal.

Análise revela: menos árvores na Amazônia, mais nos Andes

0

Pesquisador estima altura de árvores na Amazônia. Foto: Léo Ramos Chaves /Revista Pesquisa FAPESP

Uma grande análise de dados coletados por projetos de campo de longo prazo indica que o norte dos Andes e a Amazônia ocidental estão ganhando espécies de árvores, de acordo com um estudo liderado por pesquisadores das universidades de Liverpool e de Leeds, no Reino Unido, com a participação de instituições brasileiras.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Enquanto isso, a parte central da cordilheira, a região centro-oriental da Amazônia e o escudo das Guianas perdem diversidade.

As partes da floresta que sofreram maior aumento anual de temperatura nesse período perderam mais espécies vegetais, enquanto as que mantiveram umidade e constância climática ganharam.

Amazônia, vista aérea
Foto: Diego Monsores

Amazônia e Andes X desmatamento

As florestas que mantêm o padrão de chuvas e aquelas menos fragmentadas se mostraram mais protegidas, o que ressalta a importância de evitar o desmatamento.

O aumento de temperatura atingiu 90% das 406 parcelas analisadas, mais intenso nas regiões centro-leste e sul da região amazônica.

Como as árvores reagem lentamente, a biodiversidade atual pode não ser uma medida duradoura. A análise foi publicada na Nature Ecology & Evolution, em 23 de janeiro. Leia AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp

Antropologia cultural da Amazônia é investigada em livro

0

Livro ajuda a pesquisar sobre antropologia da Amazônia. Foto: Divulgação

Explorar a complexidade das crenças e a riqueza das tradições que pulsam no coração da Amazônia é a proposta central de ‘Saberes em Diálogo’, livro do professor Manoel Moraes, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PPGCR), do Centro de Ciências Sociais Educação (CCSE) da Universidade do Estado do Pará (Uepa).

Publicado pela editora Alta Books, a obra é fruto de um ciclo de pesquisa iniciado em 2016 e marca o movimento do professor como autor: a transição de discussões da filosofia da religião para uma imersão na antropologia cultural, com foco especial na realidade paraense.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O livro é o resultado de anos de dedicação acadêmica e de campo, consolidando estudos realizados na Uepa, em sua experiência no mestrado, e na Universidade Federal do Pará (UFPA) sob a influência de referências como o antropólogo Raimundo Heraldo Maués.

Segundo o professor, a motivação para o trabalho surgiu da necessidade de aprofundar o olhar sobre as vivências locais.

UEPA fachada. Foto: Divulgação

“O livro surge no encerramento de um ciclo de pesquisa que começou aproximadamente em 2016, num deslocamento de discussões de filosofia da religião para antropologia cultural na Amazônia”, explica Manuel.

Nesse percurso, ele se debruçou sobre as expressões ameríndias de grupos como os Aikewaras, povos do Tapajós e os Ka’apor, no Maranhão, próximos aos Tembés do Pará.

Destaques do livro

livro mistura antropologia e amazônia
Capa do livro. Foto: Divulgação

A obra destaca-se por ser uma construção coletiva, nutrida por cooperações com diversos pesquisadores e alunos de doutorado. Entre as colaborações que deram corpo ao texto estão estudos sobre mulheres que curam em contextos ribeirinhos e indígenas, etnomusicologia em Bragança, educação e ritualidade Kaiapó, além da chamada “pagelança quilombola” na região do Capim. Manuel ressalta que o conhecimento compartilhado por professores indígenas foi fundamental para sedimentar a pesquisa.

Além das vivências práticas, Saberes em Diálogo tem uma forte base pedagógica, tendo sido gestado a partir de anotações de aulas ministradas não apenas na Uepa, mas em programas de pós-graduação em instituições como a UFPA, a Universidade Metodista de São Paulo e a Universidade de Quebec. “Esse trabalho nasce também dessas notações de aula que também associam com pesquisa de conta”, revela o autor, conectando a teoria acadêmica à realidade observada em campo.

Apesar de já estar disponível pela Alta Books, o livro ainda não possui uma previsão de lançamento oficial. No entanto, a obra já se apresenta como um registro essencial para quem busca compreender as intersecções entre ciência da religião, saberes tradicionais e a identidade amazônica.

*Com informações de UEPA

Leguminosas da Amazônia colonizaram montanhas antes da formação de savanas

0

A leguminosa Chamaecrista hispidula que vive em áreas abertas no Cerrado, em restingas e dunas, e até em outros países da América do Sul. Foto: Henrique Moreira/ Fapesp

O amarelo das flores de Chamaecrista, um gênero de plantas da família das leguminosas, marca as paisagens abertas do Brasil, sobretudo nos campos rupestres, ambientes montanhosos de altitude associados a afloramentos rochosos antigos e solos pobres em nutrientes. O que não se sabia é que essas plantas descendem de uma linhagem amazônica, mesmo estando atualmente a 2 mil quilômetros de distância.

“Muito antes da expansão do Cerrado, no final do Eoceno e início do Oligoceno, entre 40 milhões e 35 milhões de anos atrás, essas plantas se dispersaram da Amazônia e colonizaram as áreas montanhosas”, explica a taxonomista Juliana Rando, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob) e primeira autora de um artigo publicado em janeiro na revista científica Journal of Biogeography. “Até então existia uma dúvida sobre a origem das plantas dos campos rupestres, que poderiam ter vindo do Cerrado e da Caatinga.”

Com quase 370 espécies descritas no mundo, Chamaecrista é um dos gêneros mais diversos de leguminosas das regiões abertas da América do Sul. No Brasil, essas plantas assumem formas variadas, indo de arbustos a árvores de grande porte, especialmente na Amazônia, onde ainda existem com menor diversidade.

Nos campos rupestres – em regiões de Minas Gerais e da Bahia, por exemplo – e no Cerrado, predominam espécies de pequeno porte adaptadas a solos pobres, ao fogo e às condições climáticas mais extremas, características que ajudam a explicar o sucesso do grupo nesses ambientes.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Embora não sejam plantas cultivadas para alimentação, muitas espécies do gênero mantêm associação com bactérias fixadoras de nitrogênio, um processo que melhora a fertilidade do solo. Por essa característica, o estudo do grupo também é relevante como fonte de conhecimento para leguminosas de interesse agrícola.

Para entender como essas plantas colonizaram as áreas montanhosas, os pesquisadores analisaram dados genéticos de 231 espécies de Chamaecrista, o equivalente a quase dois terços de todas as espécies conhecidas do gênero e mais de 70% das que ocorrem nos Neotrópicos (a região tropical do continente americano).

“O que a gente consegue ver atualmente é o DNA das plantas. Então partimos daí para inferir qual teria sido o caminho de relações ocorrido no passado”, explica o biólogo Eduardo Nery, pesquisador em estágio pós-doutoral na Universidade Federal do ABC (UFABC) e um dos autores da publicação.

Imagem colorida mostra leguminosas olesiphyllacrommyotricha
Espécies leguminosas C. olesiphylla, endêmica dos campos rupestres de Minas Gerais, na Serra Talhada em Congonhas do Norte (à esq.), e C. crommyotricha, específica do Cerrado brasileiro. Foto: Juliana Rando/Ufob e Henrique Moreira

Leia também: Revolução no conhecimento sobre a antiga Amazônia pode ajudar a proteger a floresta atual

O trabalho também incluiu dados de distribuição geográfica dessas espécies, reunidos a partir de bases de dados globais de coleções botânicas. Com esse conjunto de informações, os autores reconstruíram a filogenia – uma espécie de árvore genealógica das espécies – do grupo e testaram diferentes cenários para entender onde essas plantas se originaram e como se dispersaram pelo território brasileiro ao longo de milhões de anos.

A análise biogeográfica comparou nove modelos diferentes, que testavam hipóteses alternativas sobre quando os campos rupestres se tornaram disponíveis para colonização e se essas áreas foram ocupadas antes ou depois da expansão do Cerrado e da Caatinga, sempre considerando intervalos geológicos distintos e mudanças climáticas ao longo de dezenas de milhões de anos.

Os resultados indicam que os campos rupestres não funcionaram apenas como destinos para plantas vindas de outros biomas, mas são capazes de produzir e sustentar uma grande diversidade ao longo de muito tempo. “Esses ambientes até então eram vistos como um dreno de espécies, mas o que mostramos é que talvez eles sejam uma fonte”, afirma Rando.

Espécies leguminosas expandiram localização

Segundo a pesquisadora, essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que os campos rupestres concentram tantos grupos endêmicos e reforça o papel dessas áreas montanhosas como elementos centrais na evolução da flora brasileira.

Para a ecóloga evolutiva brasileira Cibele Cássia Silva, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, o estudo chama a atenção por abordar a biogeografia das plantas a partir da montagem dos ecossistemas ao longo do tempo.

“Nos campos que ocorrem em altitude há uma diversidade imensa não só de espécies, mas também de história evolutiva”, comenta ela, que não participou do estudo.

Por muito tempo tratados como uma simples variação do Cerrado, ela ressalta que os campos rupestres vêm sendo reconhecidos mais recentemente como ambientes singulares com estratégias ecológicas próprias, o que exige mais estudos e políticas públicas de conservação.

Além do Brasil, as leguminosas do grupo Chamaecrista também ocorrem em países africanos, asiáticos e na Austrália. Rando iniciou a pesquisa que resultou no artigo de janeiro ainda durante o doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) há cerca de 12 anos, e agora busca entender como esse gênero se dispersou para fora do continente americano.

“Essa filogenia que fizemos no artigo é a mais abrangente hoje para o gênero, mas ainda existe uma lacuna, principalmente em relação aos outros continentes.” Atualmente, ela realiza estágio pós-doutoral no Kew Gardens, os jardins botânicos reais da Inglaterra, em Londres, onde aprofunda o estudo dessas conexões globais. “O foco agora é justamente entender essas dispersões, usando mais dados e comparando com outros grupos que também fizeram esse caminho”, diz ela.

A reportagem acima foi publicada com o título “Da Amazônia para as montanhas” na edição impressa nº 361 de março de 2026.

Projetos
1.
 Biogeografia de Chamaecrista Moench. e filogenia e revisão de Ch. sect. Chamaecrista ser. Coriaceae (Benth.) H.S. Irwin & Barneby (Leguminosae-Caesalpinioideae) (nº 09/16434-4); Modalidade Bolsa de doutorado; Pesquisador responsável José Rubens Pirani (USP); Beneficiária Juliana Gastaldello Rando; Investimento R$ 198.061,22.
2.
 Efeitos sinérgicos de múltiplos mutualistas nas plantas: como bactérias, formigas e abelhas contribuem para a evolução de um grupo de leguminosas (nº 19/19544-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Programa Biota; Pesquisador responsável Anselmo Nogueira (UFABC); Investimento R$ 3.264.584,53.
3.
 Quais são as características das plantas e os fatores ambientais que impulsionam a evolução das leguminosas superfixadoras de nitrogênio? (nº 2024/16735-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Cooperação Instituto Serrapilheira; Pesquisador responsável Anselmo Nogueira (UFABC); Investimento R$ 307.140,56.

Artigo científico
RANDO, J. G. From rainforests to open-vegetation: The biogeographic history of Chamaecrista (Leguminosae) in the NeotropicsJournal of Biogeography. v. 53, n. 1, e70137. 14 jan. 2026.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Guilherme Costa

Escola de Boa Vista conquista Selo ODS Educação 2025

0

A rede municipal de ensino desenvolve projetos alinhados à sustentabilidade e inovação. Foto: Jonathas Oliveira/PMBV

A Escola Municipal do Campo Balduíno Wottrich, localizada no Monte Cristo, em Boa Vista, conquistou a certificação do Selo ODS Educação 2025, reconhecimento nacional concedido a instituições que desenvolvem práticas pedagógicas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).

O reconhecimento é resultado do projeto pedagógico “Ciências em Campo: Conectando Saberes por Meio de Projetos”, desenvolvido pela escola, através de ações de formação continuada de professores, parcerias institucionais e a realização da Feira de Iniciação Científica Escolar, onde os alunos apresentaram projetos relacionados à sustentabilidade e à preservação ambiental.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A vice-gestora, Leidymar Cunha, vai participar da cerimônia de certificação em Recife. Foto: Jonathas Oliveira/PMBV

A vice-gestora da escola, Leidymar Cunha, destacou que a conquista é fruto de um trabalho construído ao longo de todo o ano letivo. “Desde o início do projeto, todo o nosso planejamento foi voltado para esse reconhecimento, com formações para professores, parcerias e atividades que incentivaram os alunos a desenvolver projetos ligados à realidade do campo e à sustentabilidade”, explicou.

Para a coordenadora pedagógica, Jéssica Fernandes, a certificação reconhece práticas que já fazem parte do cotidiano da unidade.

“Receber esse prêmio é muito satisfatório. Somos uma escola do campo, nós trabalhamos muito com desenvolvimento sustentável, de forma natural. Então o selo só traz a certificação de que o nosso trabalho está sendo executado com excelência”, disse.

A escola participará do Evento Nacional de Certificação do Selo ODS Educação, que ocorrerá nos dias 17 e 18 de março, em Recife (PE), onde será realizada a cerimônia oficial de entrega do reconhecimento às instituições certificadas.

Alunos da Escola do Campo fazem atividades pedagógicas ao ar livre. Foto: Jonathas Oliveira/PMBV

Rede municipal incentiva projetos ligados a sustentabilidade

O reconhecimento conquistado pela escola é resultado do trabalho desenvolvido pela rede municipal com projetos educacionais alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre as iniciativas está o projeto “Meu Primeiro Código”, voltado para os mais de 14 mil alunos do 1º e 2º ano do ensino fundamental.

A proposta trabalha o pensamento computacional de forma lúdica, com programação em blocos e uso de robôs educacionais, sem necessidade de telas, conforme destacou o assessor pedagógico da Gerência de Programas e Projetos Educacionais (GPPE), da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), Paulo Santos.

Leia também: Boa Vista amplia qualidade nutricional da merenda escolar

O projeto “Meu Primeiro Código” atende toda a rede municipal de ensino. Foto: Jonathas Oliveira/PMBV

“O material didático da rede municipal de ensino sempre traz um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como tema central, como o ODS 4, que trata da educação de qualidade. Esse selo nacional mostra que estamos alinhados à Agenda 2030 e às metas de desenvolvimento sustentável, promovendo uma educação de qualidade para os alunos”, destacou.