Um filhote macho de raposa é o novo hóspede do Parque Ecológico Bosque dos Papagaios, na zona Leste de Boa Vista (RR). O animal foi resgatado e levado ao bosque após ser criado como um animal de estimação — uma prática ilegal.
Ele foi capturado por uma moradora enquanto atravessava uma estrada na área rural de Boa Vista em 2023. A mulher o criou como animal de estimação, mas depois fez entrega voluntária. O filhote tem um ano e não conseguiu se adaptar à natureza, por isso foi levado ao bosque. Agora, está em fase de adaptação no novo lar.
“A munícipe que pegou a raposa mora no bairro Nova Cidade e reclamou do forte odor de urina. Por isso, ela o entregou de forma voluntária e fizemos o resgate. É sempre válido reforçar que animais silvestres não são ‘pets’. Eles pertencem à natureza e quando são retirados, podem sofrer muito com a falta de adaptação”, disse o secretário municipal de Meio Ambiente, Alexandre Santos.
São variados os nomes para essa espécie de canídeo endêmico da América do Sul: raposa, cachorro-do-mato, graxaim-do-mato, entre outros. Já o científico é apenas um: Cerdocyon thous. Apesar da aparência encantadora e do tamanho pequeno, chegando a 65 cm de comprimento, esse animal é temperamental e pode morder ao se sentir ameaçado.
Após o resgate em 2023, o animal foi encaminhado para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS). Houve uma tentativa de devolução para a natureza, mas o pequeno se mostrou incapaz de sobreviver por conta própria. Por isso, sua nova casa é no Bosque dos Papagaios, onde foi construído um recinto especialmente para ele.
Foto: Andrezza Mariot/PMBV
“Sempre deixamos os espaços dos animais o mais próximo possível do habitat. Os alimentos são os que eles encontram na natureza. No caso da raposa, o cardápio é composto por carne vermelha e branca e frutas. Durante a adaptação, vamos analisar o comportamento. Caso precise de alguma alteração no recinto, faremos”, contou o diretor do Bosque dos Papagaios, Francisco Ibiapina.
A espécie é encontrada na América do Sul em áreas florestais, cerrados e campos. Distribui-se desde a Venezuela e Colômbia até o Sul do Uruguai e Paraguai, exceto nas regiões baixas da Bacia Amazônica.
Na natureza, tem hábitos noturnos e pode ser observado andando em duplas. Costuma caçar sozinho, porém quando jovem pode agir em grupos de até quatro indivíduos.
O Bosque dos Papagaios funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Aos sábados e domingos, o horário de funcionamento é das 14h às 18h. O local não abre nos dias de feriados.
Além disso, é proibido entrar no local com animais domésticos, alimentar os animais, entrar com bebida alcoólica, consumir alimentos nas trilhas, fumar e descartar resíduos de forma irregular.
O Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Operador Nacional do Registro de Sistema de Imóveis, firmaram acordo de cooperação técnica para desenvolver ações de combate ao desmatamento e grilagem de terras públicas na Floresta Amazônica.
Esse é um projeto piloto inicial, onde foram escolhidos para monitoramento dez municípios no estado do Pará e sete no estado do Amazonas, que estão entre os que mais desmatam ilegalmente no país. Essa experiência piloto terá prazo inicial de 24 meses.
As ações serão feitas por meio da digitação, digitalização, sistematização e estruturação de um banco de dados com as informações, inclusive espaciais, dos registros cartoriais de imóveis rurais, a fim de detectar irregularidades na titulação de terras.
O presidente do Conselho Nacional de Justiça, o ministro Luís Roberto Barroso, explicou como será o fluxo de informações, começando pelo ONR, o Operador Nacional do Registro do Sistema de Imóveis.
“A ONR apoiará a digitação e digitalização do acervo registral dos cartórios de imóveis dessas áreas e, na sequência, o ministério do Meio Ambiente irá realizar cruzamento com outras bases de dados fundiárias, e essas informações servirão de base para elaboração de políticas de enfrentamento ao desmatamento”.
Foto: Reprodução/TV Brasil
A Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, cita que um dos desafios é melhorar o acesso, a transparência e a integração dos registros cartoriais de imóveis rurais.
“Como resultado da fragilidade em nossa governança, a fiscalização de eventuais irregularidades pelos órgãos competentes fica comprometida, potencializando casos de terras públicas que foram ilegalmente registradas em cartórios como imóveis privados”.
De acordo com Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, as 17 cidades escolhidas para este projeto piloto representam 29% da taxa de desmatamento ilegal registrado no período de agosto de 2022 a julho de 2023 quando se considera todos os 772 municípios amazônicos.
Optar pela renovação da licença da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, vencida em 2021, sem mudanças expressivas na governança e operação das barragens seria o semelhante a assinar pela continuidade de uma catástrofe ambiental e humana na região. O alerta, publicado em artigo de perspectiva na revista científica “Perspectives in Ecology and Conservation” em 24 de maio, é de pesquisadores de dez instituições, entre elas, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Ministério Público Federal (MPF) de Altamira, no Pará.
Além de sugerir mudanças na governança de Belo Monte, os especialistas defendem que hidrelétricas com 10 MW ou mais de capacidade instalada não devem mais ser construídas na região amazônica.
O trabalho contextualiza os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fica próxima ao município de Altamira (PA), com dados da literatura científica e de ações do MPF. Desde a inauguração da última das 18 turbinas, em 2019, a hidrelétrica desvia água do rio Xingu através de um canal que deixou um trecho de 130 quilômetros de uma região do rio, conhecida como Volta Grande, com menos de 30% de sua vazão natural anual. Isso, segundo a análise, evita a inundação em determinada época do ano de 86% da área total originalmente coberta por igapós, um tipo de vegetação sazonalmente inundada.
Dentre as consequências desse desvio, relatadas pelos especialistas, está o declínio da reprodução dos peixes e quelônios da região, diminuindo rendimentos pesqueiros, perda de vegetação adaptada às cheias e aumento do risco de extinção de espécies endêmicas, além de mudanças nos padrões de sedimentação do rio que afetam a qualidade da água. Estima-se, também, que esse processo causou impactos sociais, com o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas para assentamentos urbanos na periferia da cidade de Altamira, segundo dados do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
O biólogo Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA e coautor do texto, comenta que outro problema urgente é a ameaça à segurança alimentar de três grupos indígenas e diversas populações ribeirinhas que habitam a Volta Grande.
“Essas comunidades dependem dos peixes e quelônios para sua alimentação, além de serem grupos evoluídos culturalmente para viver com o ritmo do rio. A água é o recurso-rei desses povos e isso está sendo perdido”, enfatiza.
Segundo explicam os especialistas, o desvio de Volta Grande é mantido para priorizar a plena capacidade de geração da casa de força principal de Belo Monte e faz parte do plano de engenharia original, elaborado pela Norte Energia, empresa que administra o complexo. A legalidade do processo de licenciamento da hidrelétrica, no entanto, é contestada em 22 ações movidas pelo Ministério Público Federal. Em uma delas, de setembro de 2022, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a construção de Belo Monte violou a lei brasileira ao não realizar consultas com os povos indígenas e tradicionais da Volta Grande para a instalação das barragens.
A preocupação é se o governo atual seguirá com a renovação da licença de Belo Monte, e se alguma mudança na operação da barragem será exigida. “As administrações dos últimos anos têm passado por cima, forçando a continuidade da hidrelétrica, e sem que muitas das condicionantes que a empresa prometeu fazer tenham sido cumpridas. E sem nenhuma penalidade”, diz Fearnside.
Para mitigar os impactos de Belo Monte, segundos os especialistas, seria preciso mudanças na operação que garantam que uma quantidade adequada de água volte a fluir pela Volta Grande, de forma que seu trajeto se aproxime do ciclo e duração natural das cheias do rio. Além disso, uma mudança na governança da hidrelétrica também seria necessária, de modo a envolver povos indígenas e ribeirinhos locais no monitoramento das operações e no processo de licenciamento da hidrelétrica. “É evidente que a barragem não será destruída, mas se quisermos preservar os ecossistemas e povos existentes na região, as comunidades locais e a sociedade civil devem ter maior participação”, finaliza Fearnside.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
Nem só de natureza se vive a região mais verde do planeta. A gastronomia é um dos pontos fortes da Amazônia. E essa diversidade é um destaque no Festival Brasil Sabor que, este ano, tem como tema ‘Pra Toda Gente e Pra Todo Gosto’.
No total, 20 restaurantes, de diferentes bairros de Manaus e de Parintins, municípios do Amazonas, compõem o roteiro gastronômico da 18ª edição, em 2024. Confira:
MANAUS
Risoto de pirarucu com farelo de castanha – Vumbora Culinária Amazônica Avenida Ajuricaba, n°. 877, Cachoeirinha
Tambaqui ao molho branco – Bem Assados Restaurante e Choperia Avenida Itaúba, n°. 12, Jorge Teixeira
Tambaqui Bier – Biergarten Porto de Manaus Avenida Vivaldo Lima, Porto de Manaus, Centro
Charuto de Vinagreira – Boteco do Libanês Alameda Cosme Ferreira, n°. 866, Coroado
Pirarucu da Maninha – Cachaçaria do Dedé & Empório Manauara Shopping Avenida Mário Ypiranga, n°. 1300, Manauara Shopping
Tambaqui Amazônico – Tacacá da Tia Socorro Rua Heisei, n°. 96, Parque Dez
Fraldinha Suprema – Rei do Churrasco Cachoeirinha Avenida Castelo Branco, n°. 839, Cachoeirinha
PARINTINS
Pirarucu Fit – Fit Parintins Rua Cordovil, n°. 466, Centro, Parintins
Festival Brasil Sabor
O evento é realizado pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), tem patrocínio da Ambev, Friboi, Picpay, Seara e apoio da Prefeitura de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Eventos e Turismo – Manauscult e Vereador William Alemão.
Segundo Rodrigo Zamperlini, presidente da Abrasel no Amazonas, o evento tem a proposta de movimentar restaurantes e ampliar o interesse do público a partir dos pratos especiais elaborados pelos chefs de cada casa inspirados na Amazônia com ingredientes da região.
“O festival vem para destacar a relevância social do setor de alimentação que ainda está em fase de recuperação”, define.
Ao participar do seminário ‘Porto Velho: Oportunidades & Investimentos’, realizado no dia 17 de maio, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista, o CEO do Grupo Rede Amazônica, Phelippe Daou Jr., ressaltou que o desconhecimento sobre a Amazônia é ainda um desafio da comunicação na região.
“O que a gente sempre discute e o grande desafio nosso, creio, é resolver o desconhecimento sobre a Amazônia. Temos duas hidrelétricas no mesmo município (Porto Velho), e isso não é comum, mas é pouco conhecido e valorizado. Temos um desafio da comunicação e desde a década de 1970 que estamos atuando em Porto Velho e seguimos investindo a apostando em Rondônia e na sua capital”, disse o CEO.
Realizado pelo Jornal Valor Econômico, o seminário reuniu empresários e investidores, com a apresentação das potencialidades de Porto Velho.
Daou Jr. disse ainda que “a Rede Amazônica é um grupo regional com um foco na Amazônia e o nosso propósito é servir à Amazônia. E isso é promover o desenvolvimento e a integração da região ao resto do país. Nossa empresa nasceu em 1974 e a gente sabe exatamente o desafio que foi enfrentado para chegar aonde chegamos hoje, diante de empresários na Fiesp, falando de Porto Velho”.
Por fim, o empresário fez uma recomendação:
“Invistam em Rondônia, é um Estado promissor, de um povo que sabe acolher as pessoas e onde temos a certeza de estarmos integrados no sucesso e no crescimento da região”.
Anderson Guedes jogou a isca com a intenção de pegar um peixe, mas o que veio foi algo totalmente inesperado: um jacaré. Para não deixar o animal com o anzol preso na boca, o pescador esportivo rondoniense precisou ‘brigar’ com o jacaré para tirar ele da água.
As imagens registradas do “confronto” inusitado, mostram o jacaré submerso na água, preso após morder uma isca artificial, usada pelo pescador para atrair peixes. O animal chega até a se aproximar do caiaque onde Anderson está e tenta saltar em direção à superfície.
A aventura aconteceu em 2023 durante uma viagem de Anderson fez no Estado do Amazonas. No entanto, o vídeo, que repercutiu na internet, só foi postado em suas redes sociais no início desta semana.
Enquanto isso, o rondoniense segura a vara de pesca e realiza manobras com a ajuda de seus colegas para levar o jacaré para a margem do rio. No vídeo, o pescador explica: “tem que levar ele para a parte rasa”.
Pescador rondoniense luta contra jacaré para conseguir retirar anzol da boca do animal em rio no Amazonas. Foto: Reprodução/Instagram-Anderson Guedes
Na margem, um dos rapazes que participava da pescaria cobre os olhos do jacaré com um pano e “monta” sobre ele para levá-lo até a parte de areia. Com o jacaré em suas mãos, ele remove o anzol e solta o animal novamente na água.
“Com todo cuidado conseguimos remover a isca do animal e soltar ele novamente na água. Não deixar o animal com a isca na boca, é muito importante na pesca esportiva. A gente tem essa consciência”, explica Anderson Guedes.
*Por Jaíne Quele Cruz e Emily Costa, do g1 Rondônia
Qual o perfil das comunidades que vivem no entorno da região da Foz do Rio Amazonas, que abrange o arquipélago de Marajó, estado do Pará, passa pelo litoral do Amapá e pode alcançar a Guiana? E qual o tamanho da biodiversidade daquelas águas difusas e sua importância para os diversos ecossistemas que dela se nutrem? E o potencial energético de suas águas, profundezas e subsolo, é dimensionável e explorável? Esses foram alguns dos apontamentos feitos no seminário ‘A Foz do Amazonas – Pesquisas, Conservação e Futuro’, que aconteceu em Belém (PA) nesta quinta-feira (23).
A foz em questão é o fim da linha do rio mais extenso do mundo. É quando o Amazonas desemboca no Oceano Atlântico depois de percorrer 7 mil quilômetros. E ali despeja um volume estimado em 300 milhões de litros de águas doce, capaz de se esparramar por cerca de 200 quilômetros mar adentro e formar uma das bacias mais ricas e cobiçadas em termos de biodiversidade e potencial energético.
A ponto de formar pelo menos três correntes de divergentes opiniões, inclusive, entre autoridades brasileiras. Uma parte que defende que a capacidade de ampliação energética do país ali submersa não pode ser desperdiçada. Outra que se posiciona em sentido oposto, sob o argumento do alto risco socioambiental embutido numa eventual exploração. E uma terceira que defende o aprofundamento das pesquisas para que se possa formar uma certeza em torno de uma decisão.
Foto: Divulgação/Governo do Amazonas
De acordo com o diretor do Museu Emílio Goeldi, Nilson Gabas Jr., o calor da polêmica estimula setores da comunidade científica a retomar a criação de um centro de pesquisas sobre a foz do Rio Amazonas. “Esse certamente será um dos assuntos que a gente vai tratar, mas o seminário será muito mais do que isso”, diz Gabas Jr.
Segundo ele, a discussão tem o apoio de pessoas representativas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).
O evento foi transmitido pelo canal do Museu Goeldi no YouTube. O museu é ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
A área de floresta degradada na Amazônia foi a maior em pelo menos 15 anos no primeiro quadrimestre de 2024, conforme o monitoramento por imagens de satélite do instituto de pesquisa Imazon divulgado no dia 21 de maio. Do total de 2.846 km² degradados entre janeiro e abril, 99% foram detectados em Roraima devido às queimadas.
Segundo o monitoramento, apenas em abril, foram identificados 693 km² de degradação em Roraima, o que equivale ao tamanho da cidade de Salvador. Já em março, o dano foi de 2.120 km² de degradação florestal, área maior do que a cidade de São Paulo. Ou seja, em somente dois meses o estado teve quase 3 mil km² de floresta degradados, o que representa quase 5 mil campos de futebol por dia com o dano ambiental. A devastação é a maior desde 2009, quando o Imazon passou a mapear a degradação além do desmatamento
A degradação florestal é diferente do desmatamento. Isto porque a degradação florestal é causada pelo fogo ou pela extração seletiva madeireira, já o desmatamento é quando ocorre a remoção total da vegetação, segundo o Imazon.
Em fevereiro e março deste ano, o estado bateu recorde nos focos de calor, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). À época, Roraima concentrou 30% de todos os focos de incêndio registrados no Brasil.
O fogo chegou a consumir casas, animais e a vegetação, mas com o início do período chuvoso, o número de focos caiu.
“Por isso, é muito importante que enquanto os governos federal e dos estados sigam intensificando o combate à derrubada da floresta, sejam realizadas ações específicas de enfrentamento às queimadas, focando principalmente em Roraima sugere Larissa Amorim, pesquisadora do Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon.
Além do estado ter concentrado a maioria das áreas degradadas pelo fogo nos últimos meses, também vem sofrendo com uma seca histórica. A seca severa, que atingiu Roraima no primeiro trimestre e aumentou as possibilidades de incêndio, reduziu a vazão dos principais rios e levou 14 dos 15 municípios a decretarem emergência.
“O risco de queimadas aumenta com o estresse hídrico, que tem sido um grande problema em Roraima. Segundo os nossos monitoramentos da superfície de água no bioma Amazônia, que apresenta dados desde 1985, o estado foi o mais afetado pela redução hídrica, onde as várzeas estão ficando mais secas a cada verão”, explica Carlos Souza Jr, coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon e responsável técnico pela iniciativa MapBiomas Água.
Início do período chuvoso em Roraima
O período chuvoso começou oficialmente em Roraima no mês de abril após o estado bater o recorde da série histórica de focos de calor nos meses de fevereiro e março de 2024. A chuva reduziu o número de focos e no mês de maio o estado ocupa a 15ª posição no ranking do país, com apenas 12 registros.
Com os incêndios, a qualidade do ar em Boa Vista chegou a ser considerada péssima e a capital ficou encoberta por fumaça por vários dias. No fim de março, o nível de poluição do ar chegou a superar São Paulo e capital do Vietnã.
Além da diminuição dos focos de calor, o início do período chuvoso causou o aumento do nível do Rio Branco, o principal de Roraima. Devido aos efeitos da seca no estado, intensificada pelo fenômeno El Niño, o curso d’água chegou a registrar 39 centímetros negativos, a segunda maior seca da história.
Agora, o rio voltou a atingir níveis positivos de acordo com a Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer), no dia 20 de maio, chegou a 5,01 centímetros. No Rio Branco, durante o período seco, as dunas de areia tomaram conta da paisagem e a água corrente deu lugar à praia extensa.
É Clara quem diz com toda a convicção: “o passado para mim morreu. Passado é passado. Para mim, o que importa é o futuro. Não quero saber do passado. Eu me sinto jovem e meu foco é o futuro”. Clara tem um pouco mais de 50 anos. É uma mulher com personalidade forte e bem comunicativa. No geral, tem bom astral, embora eu observe que o seu humor é um pouco oscilante. Ela odeia rotinas e está sempre procurando coisas novas, sendo difícil para ela ir até o fim em um projeto mais longo. Orgulha-se de parecer mais jovem do que a sua idade e investe tempo, energia e dinheiro nisso. Não gosta de cultivar lembranças. Decididamente, ela não tem uma boa relação com o passado.
Respeito a opinião e o jeito de ser de Clara, mas não concordo que o passado esteja morto. Nem quero que ele esteja. No passado, estão pessoas e acontecimentos importantes na minha vida.
Quando olho para a minha própria jornada, é evidente que o que vem pela frente é menor do que o caminho já percorrido, como também deve ser o caso de Clara. O que sou ou o que tenho hoje é mais ou é menos do que na juventude? Durante a caminhada, ficamos mais ricos ou mais pobres?
Concordo quando Viktor Frankl afirma que não há razão para se invejar os jovens. O que eles têm são possibilidades. Quem viveu mais tem realizações. O que vivenciamos, desfrutamos, conquistamos, está lá para ser acessado. Ninguém pode tirar isto de nós. Também as dificuldades e as perdas que ocorreram nos serviram e podemos tirar sempre o melhor proveito deles. Quanto aos erros, eles podem nos ajudar a ser melhor do que somos. Tudo vai para o nosso acervo e receberá o rótulo que dermos às coisas.
Focar no futuro é positivo. Significa olhar para frente, transformar sonhos em objetivos e metas e caminhar nesta direção. É algo que pode contribuir para a construção de felicidade. Tão ou mais importante é reaprendermos a viver o presente. Aqui, as tentações são grandes e vem de todos os lados: da tecnologia, de acontecimentos externos e de emoções internas de diversos tipos. Viver no presente é mais difícil do que parece.
Alguns afirmam que só temos o presente, o que não é verdade. O passado e o futuro são realidades, e não, abstrações. De onde viemos, onde estamos e para onde vamos? O que fomos, o que somos e o que queremos ser? São questões que costumam ser tratadas em um bom processo de coaching. Precisamos destas três dimensões: passado, presente e futuro para constituir um sentido de vida, o melhor remédio para o vazio existencial, para a propensão à tristeza crônica e para boa parte dos quadros depressivos.
No MCI, estimulamos as pessoas a buscarem a sua missão, a desenvolverem um propósito e a construírem um legado consciente, ajudando-as a viver com sentido, valorizando a sua própria história (passado), desfrutando o seu momento (presente) e cultivando sonhos e metas (futuro). Entendemos que esta é uma das principais práticas na construção consciente de felicidade.
Na linha do tempo, o passado crescerá sempre e o futuro será cada vez menor, ao menos, nesta existência. Não há como fugir desta realidade. O passado não existe para nos aprisionar, mas para nos empurrar para frente, enquanto protege tesouros que formos acumulando durante o caminho. Certamente, você, como eu e como a Clara, temos pessoas e momentos que desejamos que continuem a viver dentro de nós. Podemos estar tranquilos quanto a isso. Eles estão vivos e muito bem guardados.
Para terminar, uma pergunta para reflexão: como é a sua relação com o passado, com o presente e com o futuro?
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
A agricultora familiar Alcineia Pinho Cadete, de 43 anos, é Wapichana e, na comunidade Cauanaunim, onde vive, cultiva plantas tradicionais medicinais da cultura indígena, por isso, tem uma relação especial com as plantas. A comunidade dela, assim como a Malacacheta e a Tabalascada, no Norte de Roraima, participam de uma capacitação onde aprendem a técnica de plantio que usa sementes diversas para reflorestamento do lavrado — e também como forma de geração de renda.
O projeto ‘Produção de sementes nativas e restauração ecológica’ é uma iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA) que tem como objetivo incentivar as comunidades indígenas a restaurar a vegetação de áreas consumidas por queimadas e pelo desmatamento.
Para isso, os indígenas são introduzidos ao conceito de muvuca: uma técnica que mistura sementes de diversas espécies e tipos para plantio por semeadura direta no solo onde ela ficará. Alcineia não conhecia essa técnica, e já levará o que foi aprendido para a rotina na comunidade, onde junto com outras mulheres, cultiva as plantas medicinais.
“Utilizamos várias plantas em nossa produção. Entre as plantas para chás, temos o capim-santo, a cidreira e o capim-alho. Para as tinturas que tratam ferimentos, coletamos materiais na mata, como a copaíba, de onde usamos o óleo e a casca, a andiroba e a sapucaia. Há ainda muitas outras plantas que empregamos”.
Indígenas aprendem técnicas de plantio para reflorestamento em Roraima. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
“A muvuca se relaciona diretamente com a medicina tradicional. Essas plantas são utilizadas de várias formas em nossa comunidade, tanto como remédio quanto como alimento. O projeto de reflorestamento fortalece ainda mais a conservação das nossas florestas, nascentes e matas. Mesmo em áreas de lavrado, existe um ecossistema que precisa ser preservado”, disse a agricultora.
O Grupo Rede Amazônica acompanhou o primeiro contato dos indígenas com a técnica, em uma reunião no Malocão da comunidade Tabalascada, no município do Cantá, Norte de Roraima. A ideia do ISA é oferecer apoio inicial aos indígenas, oferecendo as sementes e criando o que chamam de “redário”, mas quem vai implementar e continuar o projeto são os próprios moradores.
Emerson Cadete é da comunidade Tabalascada e é o assessor técnico do ISA que vai tocar o projeto. Ele explica que inicialmente o projeto deve ser trabalhado com em dois eixos: produção de sementes nativas e restauração ecológica.
“A ideia é criar redes de coletores de sementes em três comunidades. Cada comunidade terá sua rede de coletores que vão escolher locais de coleta e aplicar as sementes no próprio território. Inicialmente, os coletores venderão as sementes ao ISA, que as comprará e retornará às comunidades para restauração”, explicou Emerson.
Emerson Cadete, assessor técnico do ISA é quem vai tocar o projeto nas comunidades em Roraima. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Produção de sementes nativas
O projeto surgiu no Parque Indígena do Xingu, com moradores do local para reflorestar áreas degradadas e ajudar os indígenas financeiramente — deu certo e o ISA resolveu levar para outros lugares. No Norte de Roraima, quem mais entende da vegetação do lavrado são os povos originários e, de acordo com Emerson, há grandes expectativas para o projeto no extremo Norte do país.
“Estamos num momento delicado, com alta taxa de desmatamento e queimadas intensas. Muitos fazendeiros e até indígenas, por falta de consciência, derrubam a mata para vender a madeira. O ISA fortalece as comunidades e a questão cultural”.
“Queremos incentivar não só a preservação, mas também a restauração, que também é essencial”, disse o assessor.
Indígenas aprendem a unir reflorestamento com geração de renda em oficina promovida pelo ISA. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
No primeiro momento, a participação do ISA será na distribuição e na compra dessas sementes produzidas pelos indígenas, mas sempre incentivando a independência para que os membros das comunidades sigam com o projeto de forma autônoma.
Para o tuxaua da comunidade Tabalascada, César da Silva, a ideia do ISA chega em boa hora para os indígenas, já que encontrar maneiras de unir desenvolvimento com recuperação ambiental é algo que interessa a todos.
“Esse projeto é algo que almejávamos há alguns anos, pois não tínhamos oportunidade até agora. Não temos uma instituição com CNPJ que nos permita acessar certos projetos. No ano passado, conseguimos uma parceria com o ISA, o que foi bastante importante para nós, pois finalmente tivemos a chance de realizar algo que desejávamos há muito tempo”.
“Falamos muito sobre preservação, mas nunca havíamos pensado em recuperar nossas áreas ou replantar árvores nativas. Esse projeto chegou em boa hora para nós. Apesar da seca severa e dos incêndios deste ano, agora temos a oportunidade de recuperar nossas áreas degradadas. Esse projeto, com a parceria do ISA é realmente importante para a comunidade”, disse o tuxaua.
Muvuca
O conceito de muvuca foi apresentado aos indígenas durante a primeira capacitação. A analista sênior de restauração ecológica do ISA, Danielle Celentano, foi quem introduziu os conceitos para as comunidades.
De acordo com ela, a restauração ecológica consiste em recuperar florestas, lavrados e outros ecossistemas nativos, trazendo de volta os benefícios que esses ambientes naturais oferecem para a humanidade. Ela destaca que esses benefícios são chamados de serviços ecossistêmicos, incluindo a provisão de alimentos, madeira, pesca, água, a regulação do clima e das águas, entre outros.
“Quando desmatamos, perdemos todos esses benefícios. A restauração tem como objetivo recuperar essa vegetação e trazer de volta os animais. Existem várias formas de fazer restauração ecológica, buscando que a área restaurada seja o mais parecida possível com o estado original antes de ser degradada”, explicou a analista.
Para isso, a muvuca é uma das saídas para restaurar áreas degradadas de diferente formas. Ela explica que sementes nativas estão presentes em áreas conservadas, preservadas por populações indígenas e comunidades tradicionais, pois “essas pessoas são as guardiãs das sementes”.
“Essa técnica envolve a mistura de dezenas de espécies diferentes, que são plantadas simultaneamente. Essa estratégia imita o mecanismo de regeneração natural da floresta, resultando em uma estrutura e diversidade muito semelhantes à floresta original. Além disso, permite um ganho de escala e fomenta uma economia baseada na sociobiodiversidade, ou seja, a economia das sementes nativas”.
A participação dos indígenas e a empolgação com o projeto é algo que animou Danielle, pois para ela, “trabalhar na formação de grupos e redes de coletores de sementes fortalece o conhecimento tradicional, valoriza a floresta e gera renda”.
Indígenas de três comunidades são ensinados sobre a muvuca de sementes em iniciativa do ISA. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
Redário
O outro conceito introduzido aos indígenas nesta primeira reunião foi o de “redário”. Quem explicou este processo foi o analista socioambiental e líder da iniciativa do redário Eduardo Malta. De acordo com ele, o redário nada mais é do que uma rede de distribuição de sementes diversas para ajudar na restauração florestal.
“Um dos grandes desafios apontados pelos estudos é a falta de sementes. Observamos que muitas redes de sementes de base comunitária começaram a surgir no Brasil, mas enfrentam dificuldades para se estruturar, se profissionalizar e se regularizar, fornecendo sementes de boa qualidade com todas as informações exigidas pelas normas para atender a essa demanda crescente”, explicou Eduardo.
De acordo com o analista socioambiental, a iniciativa é para ajudar os produtores de semente — como os que surgirão nas comunidades indígenas de Roraima — a se regularizar a fazer parte desta rede. Foi analisado que as dúvidas eram semelhantes e, por isso, a rede também incentiva a troca de experiências e conhecimentos na produção de sementes.
“O redário é um espaço de proteção e suporte onde as redes de sementes encontram um porto seguro. Estruturamos essa iniciativa com vários serviços: assistência técnica para cuidados específicos com cada semente, orientação sobre como se registrar e preencher a documentação necessária, identificação do nome científico das sementes, um sistema digital com aplicativo para marcar matrizes e áreas de coleta, além de gestão de estoque, controle de vendas e apoio na precificação das sementes”, explicou o analista.
Eduardo Malta, analista socioambiental e líder da iniciativa do redario do ISA. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
A ideia é que os indígenas do Norte de Roraima também façam parte desta rede. O redário, de acordo com o analista, facilita intercâmbios entre redes, promovendo trocas de conhecimento e visitas de campo, e apoia grandes projetos que precisam de um volume de sementes que uma única rede não pode fornecer.
Com o tempo, as três comunidades de Roraima devem também participar da rede de troca.
“Reunimos sementes de várias redes para atender essas demandas, facilitando tanto para o cliente quanto para as redes participantes. Assim, os clientes podem comprar sementes diretamente do Redário ou das redes individualmente”.
Futuro do projeto
Agora, com os conceitos e ideias do projeto introduzidos, o próximo passo é “colocar a mão na massa” escolhendo um local para armazenar, grupos que coletarão sementes e onde elas serão plantadas. Tudo isso demanda tempo e conhecimento mas, no que depender dos indígenas, tudo será feito com maestria.
Com os coletores de cada comunidade escolhidos, eles participarão de uma oficina, que oferecerá o suporte que eles precisam para o ofício.
Indígenas que participaram da capacitação do projeto “Produção de sementes nativas e restauração ecológica” do ISA. Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
“A partir deste seminário, os próximos passos incluem reunir e formar grupos de coletores e realizar oficinas nas comunidades. As oficinas tratarão do beneficiamento das sementes, desde a coleta, limpeza, retirada de fungos até a secagem, garantindo sementes de qualidade para venda”, explicou Emerson.
Caso a experiência nas três comunidades dê certo, os planos são construir uma rede de clientes para o comércio das sementes e apresentar o projeto para outras comunidades, criando uma rede e um redário próprio para Roraima.