Uma técnica antiga, criada a partir da necessidade de conservar alimentos em regiões sem acesso à energia elétrica, segue viva até hoje na rotina dos ribeirinhos da Amazônia: o preparo do pirarucu seco, também conhecido como “bacalhau da Amazônia”.
O processo, além de preservar o peixe por longos períodos sem refrigeração, ainda realça o sabor da carne, deixando-a mais intensa e saborosa. Com semelhanças ao famoso bacalhau português, essa forma de preparo virou preferência em muitas mesas da região.
O chef Pedro Bagattoli ensina o passo a passo de como realizar a técnica para usar o pirarucu em diversa receitas, confira:
O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo e é muito valorizado na culinária amazônica. Ele tem pouca espinha e uma carne firme e fibrosa, o que facilita o corte em mantas grossas e o preparo no processo de salga e secagem.
Pirarucu da Amazônia. Foto: Smithsonian
Como fazer o pirarucu seco
Ingredientes e materiais necessários:
Mantas de carne de pirarucu (com até dois dedos de altura)
Sal grosso em grande quantidade
Local fresco, arejado e protegido de insetos (com telas finas)
Preparar o peixe: limpe bem o pirarucu e retire as escamas. Corte a carne em mantas com até dois dedos de altura, mantendo a pele.
Salgar: cubra cada manta com bastante sal grosso, dos dois lados.
Secar: pendure as mantas em um local fresco e ventilado, protegido com telas para evitar insetos. É importante que o peixe fique inclinado para escorrer todo o líquido durante o processo.
Tempo de secagem: o peixe precisa secar de 20 a 30 dias. Ao final, a carne ficará bem rígida, com coloração amarelada e um cheiro forte, semelhante ao do bacalhau.
Armazenamento: depois de completamente seco, o pirarucu pode ser guardado em embalagens bem fechadas, fora da geladeira, por meses.
Antes de cozinhar, o pirarucu seco precisa ser dessalgado — assim como se faz com o bacalhau tradicional.
Passo a passo para dessalgar:
Corte o peixe em pedaços e coloque de molho em água fria, dentro da geladeira.
Troque a água três vezes ao dia.
O processo leva de 2 a 3 dias, dependendo da espessura das mantas.
Modo de preparo: Após o dessalgue, o pirarucu pode ser cozido inteiro ou desfiado, conforme a receita desejada. É comum refogar com alho, cebola, azeite ou manteiga, e outros temperos regionais, para dar sabor e umidade à carne.
Celebração tradicional no Parque das Tribos. Foto: g1 AM
Em meio ao contexto urbano de Manaus, o Parque das Tribos resiste como um símbolo de preservação cultural. Localizada na Zona Oeste, a comunidade reúne cerca de 35 etnias que enfrentam os desafios de manter vivas as tradições indígenas. Mesmo em meio a agitação da cidade, costumes, ritos e idiomas são passados de geração em geração como forma de valorização da própria identidade.
Fundado em abril de 2014, o Parque das Tribos começou como uma ocupação organizada por diferentes indígenas, que hoje abriga 5 mil pessoas de 860 famílias, provenientes de diversas etnias da Amazônia e de outros estados do Brasil, como Roraima, Pará e Acre.
Um dos líderes do local, o cacique Ismael Munduruku, explicou que a comunidade não foi criada por uma única pessoa, mas sim por várias lideranças, que se mobilizaram para ocupar a área de 37 hectares.
“Nós temos outras comunidades indígenas dentro de Manaus, no entorno também, mas nós queríamos uma maior, uma que pudesse realmente se tornar um bairro, se tornar uma referência, onde a gente pudesse construir projetos, constituir família, criar raízes”, enfatizou Ismael Munduruku.
Cacique Ismael Munduruku mora no Parque das Tribos. — Foto: Acervo pessoal
A diversidade étnica é uma das principais caracterísitcas do Parque das Tribos. Entre as etnias que vivem na comunidade há os Munduruku, Sateré-Mawé, Tikuna, Tucano, Baniwa, Tarianos, Dessanos, Curripaco, Wanano, Mura, Cambeba e Marubo.
Para os moradores, a preservação da cultura é um modo de vida. “Nós praticamos a nossa cultura aqui da mesma foram que fazíamos no interior, de onde viemos”, disse o cacique Ismael Munduruku.
Uma das bases dessa preservação é o ensino dos dialetos nativos. Cada povo mantém o idioma dos ancestrais, que são repassados para as novas gerações. Eliza Sateré, também liderança local, explica que esses ensinamentos acontecem no cotidiano familiar.
“Quando vamos pedir algo, como comida ou água, falamos na nossa língua. Em público, também usamos o nosso idioma para nos comunicarmos com nossos filhos de uma forma que os outros não saibam”, conta.
A culinária tradicional é outro elemento que ajuda na preservação cultural no Parque das Tribos. Pratos típicos, como a quinhapira, apelidada de “comida dos deuses”, são parte essencial das refeições.
“Eu gosto de comer quinhapira, que é como se fosse uma caldeirada. O acompanhamento é beiju [tipo de tapioca], que eu faço, e bastante pimenta”, enfatizou Helena do Carmem, da etnia Tariano.
Alguns disseram que preferem saborear o prato típico com a crocância da formiga saúva. A coleta dos insetos, conhecidas também como “tanajura”, é uma prática que se intensifica a partir de setembro.
Os moradores contaram que vasculham os formigueiros e assim que conseguem capturar o inseto os colocam em garrafas PET. Eles explicam que a formiga é rica em gordura natural e, misturada com farinha, a iguaria já pode ser saboreada.
Quinhapira é um dos pratos típicos mais consumidos no Parque das Tribos — Foto: g1 AM
Além da gastronomia, as tradições culturais são expressas em celebrações como a “Dança dos Mascarados” e as festas de santos, que unem a comunidade em momentos de devoção e alegria.
“Cada evento que a gente faz dentro da comunidade, a gente procura reunir as lideranças, procura reunir a maior quantidade de “parentes” que moram aqui, porque a cultura é bem diversificada. É uma mais linda que a outra. Então é um aprendendo com o outro e sempre um respeitando a cultura do outro. E essa convivência, essa união com eles nos fortalece cada vez mais”, afirmou Eliza Sateré.
A Maloca, construída em meio a comunidade, desempenha um papel central na preservação das tradições e funciona como um coração que pulsa a cultura dos povos nativos. Ismael Munduruku conta que é no espaço que ocorre os principais eventos sociais, políticos e religiosos do Parque das Tribos.
Lá, os diferentes povos indígenas, que vivem na comunidade, celebram as datas comemorativas, como o Dia dos Povos Indígenas, em 19 de abril, e o Dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto.
Maloca desempenha um papel central na preservação das tradições — Foto: g1 AM
Apesar da comunidade ter acesso a água encanada e ter um uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para atendimento da população local e bairros adjacentes, o Parque das Tribos ainda enfrenta desafios na infraestutura, como educação, transporte e saneamento.
Na educação, Ismael Munduruku destaca a falta de uma escola que oferte o ensino médio. Outro desafio é a oferta escassa de linhas de transporte público que circulem pela região.
Ismael diz ainda que toda comunidade deseja oportunidades iguais para seus moradores e sonha com um local que, além de ser um símbolo da cultura indígena, também seja reconhecido como um lugar de conhecimento e desenvolvimento.
“Nós não queremos nenhum privilégio, só queremos ser medidos da mesma forma que o restante do nosso país. Queremos ter as mesmas oportunidades e queremos dar às pessoas daqui essa mesma oportunidade”, finalizou.
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. Foto:Fábio Rodrigues Pozzebom
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, afirmou no dia dos povos indígenas que a pasta está fazendo um trabalho inédito na construção das ações para valorizar os povos indígenas no país. Em postagem nas redes sociais, a ministra celebrou o Dia dos Povos Indígenas, comemorado hoje.
Sonia destacou que, ao longo de 27 meses de governo, teve o desafio de “colocar de pé” um ministério para correr atrás de demandas que foram negligenciadas.
“Nem sempre é fácil, mas não tenho dúvidas da necessidade e urgência do que estamos fazendo. A cada 19 de abril, reforço minha certeza de que o que estamos fazendo aqui é algo inédito”, afirmou.
A ministra também agradeceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por um ministério forte, representativo e atuante. “A existência de um ministério para os povos indígenas era uma coisa que poderíamos sonhar, mas era difícil pensar que seria concretizado. Fruto da nossa luta e reconhecimento do presidente Lula. completou a ministra.
Em nota divulgada hoje (19), o Ministério dos Povos Indígenas apontou desafios para a proteção dos povos indígenas. A pasta direciona esforços para a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que será realizada em novembro, em Belém.
O ministério pretende apostar em negociações ambiciosas para consolidar o multilateralismo e a implementação de ações para proteger o meio ambiente e os segmentos sociais impactados pelas mudanças climáticas.
“O MPI e a presidência da COP30 vêm criando caminhos para que as vozes indígenas sejam mais escutadas e que suas demandas possam ser incorporadas com maior celeridade nas agendas e encaminhamentos da COP. A razão é que a COP 30 precisa proporcionar legados para além de apenas um evento na Amazônia”, destaca a pasta.
A busca de financiamento para apoio de organizações que atuam na defesa dos indígenas também é alvo das ações do ministério.
“Na agenda de ação, o MPI e o governo brasileiro estão engajados em anunciar novos mecanismos financeiros, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e a renovação da Promessa, onde países e setores da filantropia se comprometem em apoiar organizações indígenas e políticas indigenistas”, informou o ministério.
O governo federal planeja interconectar todas as unidades de saúde indígena do Brasil até o fim de 2026, garantindo que todos os estabelecimentos públicos responsáveis pela atenção primária à saúde dos povos originários tenham acesso à internet de qualidade.
“Nosso objetivo é chegar até o final do ano que vem com a universalização da conectividade em todas as unidades de saúde indígenas do nosso país”, afirmou o secretário nacional de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, Weibe Tapeba.
Segundo Weibe, melhorar a conectividade dos territórios permitirá, entre outras coisas, que o Poder Público implemente a infraestrutura de telessaúde nas comunidades, garantindo que os indígenas tenham acesso a médicos especialistas sem precisar deixar suas aldeias.
Secretário de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, Weibe Tapeba, informou que mais de 700 pontos de conectividade já foram implementados. – Fernando Frazão/Agência Brasil
“Isso também nos permitirá expandir a tecnologia da telessaúde, com a qual podemos evitar as remoções de pacientes indígenas para fora dos territórios”, acrescentou o secretário.
Dos 34 atuais Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), 19 já dispõem do serviço de consultas à distância, que utiliza internet banda larga do Programa Conecta Brasil, do Ministério das Comunicações. E que, segundo o MPI, reduz o deslocamento dos pacientes, que podem realizar exames de rotina e consultas com cardiologistas, oftalmologistas, dermatologistas, pneumologistas e outros especialistas a partir dos polos bases já devidamente equipados. Segundo a Sesai, a iniciativa tem potencial para beneficiar a mais de 781 mil indígenas.
Divididos estrategicamente por critérios territoriais, tendo como base a ocupação geográfica das comunidades indígenas, os Dseis são unidades gestoras descentralizadas do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS). Cada um reúne um conjunto de serviços e atividades, prestadas por meio das Unidades Básicas de Saúde Indígenas (UBSIs), polos-bases e Casas de Saúde Indígena (Casais).
“Além de garantir a inclusão dos dados [clínicos] nos sistemas de informações [nacionais], a conectividade das unidades de Saúde é uma forma de permitir que os profissionais de saúde que vão atuar nestas localidades mantenham contato com seus familiares”, acrescentou Weibe Tapeba ao falar sobre a dificuldade de manter os profissionais não indígenas nos territórios distantes dos grandes centros urbanos.
“Temos territórios de difícil acesso, onde o recrutamento não é um processo fácil, pois o profissional precisa praticamente ficar morando no território por um longo período, às vezes, por meses. Por isso, temos buscado melhorar e garantir as condições de trabalho, incluindo a parte de infraestrutura”, garantiu o secretário.
Ele detalhou que mais de 700 pontos de conectividade já foram implementados e frisando que estas e outras iniciativas da pasta exigem maior aporte de recursos financeiros. “Assumimos a secretaria [em 2023, primeiro ano da atual gestão federal] em meio a um cenário de desmonte. Ainda durante a transição [entre os governos Bolsonaro e Lula], a proposta orçamentária enviada ao Congresso Nacional previa o corte de 59% do orçamento da Sesai.
Conseguimos não só recompor o orçamento, como, nos dois primeiros anos, incrementamos o Orçamento em cerca de R$ 1 bilhão”, afirmou Weibe, detalhando que R$ 500 milhões foram aportados em 2023, e outros R$ 500 milhões em 2024, elevando para cerca de R$ 3 bilhões o total atualmente destinado ao subsistema do Sistema Único de Saúde (SUS).
“É o maior orçamento da saúde indígena de todos os tempos. Mesmo assim, temos uma demanda reprimida, um passivo, sobretudo em termos de infraestrutura, especialmente na área do saneamento básico”, admitiu o secretário, informando que cerca de 60% dos territórios indígenas no Brasil ainda não têm acesso à água potável.
“Há vazios assistenciais. Locais onde as ações de saúde são a [única ou das poucas] materialização da presença do Estado brasileiro. E com a quantia disponível, mantemos cerca de 22 mil profissionais de saúde indígena e todas as unidades de saúde indígena; investimos no sistema de saneamento e custeamos os contratos que os Distritos Sanitários Especiais Indígenas [Dseis] mantém, o que inclui horas-voos e locação de veículos [para transporte de pacientes, profissionais e suprimentos”, disse o secretário, apontando que uma redução do orçamento disponível poderia inviabilizar a prestação do serviço de saúde para a população indígena.
“Temos um estudo que aponta que para darmos conta do passivo e resolvermos os vazios assistenciais, especialmente na Amazônia, seriam necessários quase duas vezes mais recursos do que os que já vínhamos recebendo. A necessidade real seria de cerca de R$ 5 bilhões ou R$ 6 bilhões”, frisou Weibe.
De acordo com a Sesai, o número de atendimentos a indígenas, incluindo consultas médicas, vacinações, atendimentos odontológicos, entre outros serviços, vem aumentando ano após ano, tendo saltado de 9,18 milhões em 2018 para 17,31 milhões no ano passado.
Diante desse cenário, a Sesai tem buscado alternativas para otimizar a gestão e ampliar a assistência. “Começamos a reorganizar a secretaria, buscando apoio e parcerias com instituições; realizando termos de execução direta e TEDS [Termos de Execução Descentralizada] com universidades e com outras instâncias do governo brasileiro, além de acordos de cooperação técnica com instituições importantes”, concluiu o secretário.
Luis e Greccia se apresentando no evento “Esquina Livre” — Foto: Arquivo Pessoal
“A música é um tesouro universal, ela serve para nos unir”. Essa é a filosofia dos irmãos Santiago Valentin Palma Páez, de 28 anos, Luis Palma Páez, de 26, e Greccia Palma Páez, de 21. Juntos, eles formam o Trio Pémon, com repertório que transita das canções tradicionais do povo Pémon a clássicos da música europeia, como Bach e Beethoven. Indígenas da Venezuela, apostam no som e na arte como formas de romper fronteiras e aproximar culturas ancestrais – especialmente com o Brasil, onde vivem atualmente.
Eles são indígenas da comunidade Manak-krü, localizada na região Sul da Venezuela — próxima à cidade de Santa Elena de Uairén, na fronteira com Roraima. Originários do povo Pémon — homenageado no nome do trio —, os irmãos chegaram a Boa Vista, capital de Roraima, em 2022. Desde então, têm se dedicado a fortalecer e difundir a cultura por meio da música em todo o país.
No Dia dos Povos Indígenas, é celebrada a diversidade cultural das comunidades originárias e é por meio da música que o trio se conecta com o mundo, reforçando uma identidade coletiva marcada por história, cultura e ancestralidade.
“A universalidade do nosso som está até no significado do nosso nome: Pémon. É um nome geral para vários povos, e significa ‘pessoa’. São vários povos indígenas que compõem nosso povo. Quem canta as músicas antigas saberá que elas já foram compartilhadas há muito tempo em terras de Makunaima”.
“É sobre ensinar e lembrar que há muito tempo todos eram só um povo unido mas separados por linhas imaginárias”, disse Santiago Valentin, membro do Trio Pémon.
A história deles se entrelaça com a de outras centenas de famílias indígenas que migraram para o Brasil. Eles estão entre as 464 famílias indígenas venezuelanas que vivem atualmente nos municípios de Roraima, segundo dados mais recentes da Organização Internacional para as Migrações (OIM).
Roraima se destaca por apresentar a maior diversidade de povos indígenas vindos da Venezuela, sendo um dos estado brasileiro onde esses povos se estabelecem sem seguir para outras regiões do país. Apenas do povo Pémon, ao qual pertencem os irmãos músicos, mais de 69 famílias vivem hoje no estado, de acordo com o estudo.
A proposta do trio é criar fusões musicais que reflitam o contexto da migração indígena para Roraima. Para isso, cada irmão desempenha um papel fundamental na construção dessa sonoridade: Greccia assume o violino, Luis se dedica à viola, e Santiago, o multi-instrumentista, transita entre o piano, o violão e também o violoncelo, conforme a música pede.
Nas apresentações, eles tecem uma harmonia que resgata as raízes dos povos indígenas e transforma a vivência migratória em expressão artística.
“A gente não quer apagar a raiz, quer mostrar que ela continua viva, mesmo quando se mistura com outros instrumentos”, completa Luis.
No início de abril, mês em que se celebra o Dia dos Povos Indígenas, o trio lançou primeiro videoclipe para a música, “Wakü pe nak apororo nai”. A canção é originária do povo Pémon e os irmãos fizeram uma adaptação que mistura as raízes com os sons de instrumentos clássicos como a viola, o violino e o violoncelo.
Queremos unir a música da nossa ancestralidade como as outras técnicas e estilos que aprendemos enquanto continuamos a estudar — Santiago Valentin Palma Páez, músico de de 28 anos
Gravado no igarapé Água Boa, em Boa Vista, o vídeo mostra cenas dos irmãos com os instrumentos em meio à paisagem amazônica típica do estado. A ideia do vídeo é levar e adaptar a cultura da comunidade para o público geral. Assista abaixo:
Início de tudo
Os irmãos Pémon vieram da Venezuela para Roraima convidados a integrar uma orquestra indígena. Embora o projeto não tenha se concretizado, eles encontraram maneiras de continuar mantendo vivas as tradições do povo por meio da arte da música.
Greccia é a irmã mais nova e que começou primeiro na música, quando tinha apenas 6 anos. Ela fez parte de um programa na Venezuela que incentiva jovens a aprender instrumentos de orquestra.
À época, ela tocava flauta doce ao lado de Luis, que tinha 11 anos. Ele começou a participar dos ensaios quase por acaso — acompanhava a irmã como quem só iria levar, mas acabou sendo envolvido pela música, e uma coisa levou à outra.
Greccia Páez no clipe ‘Wakü pe nak apororo nai’ — Foto: Reprodução/YouTube: @TrioPémon
“Minha trajetória na música começou cedo e dura até hoje. É como se fosse uma paixão de criança. Hoje, é o que me une com os meus irmãos”, disse Greccia.
Ambos aprofundaram os estudos e atualmente tocam instrumentos totalmente diferentes dos que iniciaram eles no mundo da música. Greccia toca violoncelo e Luis toca Viola.
“Eu ia para as aulas junto com a Greccia, já que ela era muito nova para ir sozinha. Eu fui da flauta doce para a viola e uma coisa foi levando à outra”, disse Luis.
Santiago Páez no clipe no clipe ‘Wakü pe nak apororo nai’ — Foto: Reprodução/YouTube: @TrioPémon
Santiago seguiu um caminho diferente dos irmãos. Aos 12 anos, chegou em Boa Vista para tratar de uma apendicite e, durante a recuperação, acabou se encantando com os livros de teoria musical da mãe.
Desde então, nunca mais deixou de estudar ou praticar. Hoje, além de tocar violão, piano e outros instrumentos, também atua como professor de música.
Luis Páez no clipe ‘Wakü pe nak apororo nai’ — Foto: Reprodução/YouTube: @TrioPémon
Luis e Santiago sempre transitaram entre o Brasil e a Venezuela, realizando shows e apresentações — especialmente em Pacaraima, região de fronteira entre os dois países. Em 2022, foram convidados a integrar uma orquestra formada exclusivamente por músicos indígenas, em Boa Vista.
A partir daí, passaram a viver no Brasil e, um ano depois, Greccia também se juntou aos irmãos para fazer parte da orquestra.
“Migramos porque tivemos uma oportunidade de buscar novos desafios e nos aperfeiçoar na música”, disse Luis.
Estilo, raízes e adaptações
Cena do clipe ‘Wakü pe nak apororo nai’ — Foto: Reprodução/YouTube: @TrioPémon
O repertório dos irmãos é diverso: vai de músicas indígenas, sinfonias clássicas, rock e, claro música popular brasileira — sempre com uma pitada de tradição. Para eles, a música é o que os une, independentemente da geração ou nacionalidade.
Interpretar canções com novas técnicas e sonoridades é uma forma de compartilhar esse “presente”, mas, segundo os irmãos, o mais importante é respeitar a origem da música, o estilo e o ritmo.
“Se eu colocar um violão nessa música indígena, ela deixa de ser indígena? Muitas pessoas tem opiniões diferentes sobre isso, mas o que fazemos é interpretar e deixar nossa identidade nessas músicas”, afirma Santiago.
A proposta dos irmãos, portanto, não é reinventar as canções, mas sim dialogar com elas — como se cada nota fosse uma ponte entre o passado e o presente. O resultado é um som que carrega tanto a ancestralidade quanto a vivência contemporânea.
Música rompendo fronteiras
Santiago se apresentando no evento “Esquina Livre” — Foto: Arquivo Pessoal
Atualmente Luis e Santiago trabalham e moram juntos na capital de Roraima. Santiago é professor de música, Luis atua como artista plástico e estuda artes da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Greccia está morado em Joinville, no estado de Santa Catarina, para estudar relações internacionais. Lá, ela trabalha como jovem aprendiz em uma empresa do ramo de metais.
Santiago trabalha totalmente com música, sendo professor de instrumentos, fazendo arranjos para outras bandas e também com apresentações e shows próprios.
Luis e Greccia se apresentando no evento “Esquina Livre” — Foto: Arquivo Pessoal
Luis, assim como seu irmão, também faz algumas apresentações e como artista plástico faz retratos e artes para diversos projetos e pessoas, vive da música e artes plásticas.
Mesmo vivendo em lugares diferentes, os irmãos seguem encontrando maneiras de se reunir e gravar juntos, mantendo viva a conexão através da música.
Quando a saudade bate e surge um tempo livre, Santiago e Luis costumam visitar os familiares na Venezuela, já que a comunidade fica 3 horas de distância de Boa Vista.
Planos para o futuro
World Tour? Disco de Platina? Apesar da música ser a paixão que une os três irmãos, cada um também tem seus pés em outros estilos de arte assim como planos únicos para o futuro. Apesar disso, todos eles têm um interesse em comum: seguir se aperfeiçoando na música.
Greccia, Luis e Santiago quando se apresentaram no evento “Esquina Livre” — Foto: Arquivo pessoal
Santiago quer incentivar os jovens a entrar no mundo da música e conhecer as tradições desse meio. Ele também quer fazer produções audiovisuais, gravando mais videoclipes, e espera usar a arte em aulas para ensinar sobre a ancestralidade.
“Quero que essa material possa ser usado em aulas, mostrando como mesmo com outros instrumentos incluídos ainda faz parte de uma identidade, que essa melodia e ritmo são originais de um povo” contou Santiago.
Greccia atualmente foca mais nos estudos e confessa que tem desejo de voltar a tocar em uma orquestra.
“Meus planos por enquanto são apenas me aperfeiçoar e continuar estudando música. Também gostaria de tocar novamente em uma orquestra um dia, é algo que eu realmente amo” disse ela.
Luis quer se aperfeiçoar tanto na música, quanto nas artes plásticas. A ideia dele é chamar a atenção dos jovens das comunidades indígenas para a própria cultura. Segundo ele, muitos jovens Pémon tem tem vergonha das origens e, por meio da arte, ele deseja que retomar o orgulho dos mais novos.
“Quero que eles vejam como é interessante, que eles se identifiquem. Como músico e artista plástico, quero recuperar o orgulho dos mais jovens em nossos valores e cultura” contou Luis.
*Estagiário sob supervisão de Caíque Rodrigues, do g1 RR
PL que regulamenta profissões de agente indígena de saúde e de saneamento avança na Câmara. Foto: Divulgação/Ministério da Saúde
A votação do projeto foi colocada em pauta no dia 9 de abril, na semana do 21º Acampamento Terra Livre (ATL), a maior mobilização indígena do Brasil que acontece anualmente para dar visibilidade às suas reivindicações junto aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. E contou com a presença de lideranças indígenas.
Os documentos que registram cada edição do Acampamento Terra Livre são fruto das discussões realizadas nas plenárias e expressam o posicionamento político e as reivindicações do movimento indígena.
“Os povos indígenas precisam de todos os Poderes constituídos para terem os seus direitos efetivados. A Câmara dos Deputados está fazendo o seu papel de colocar em pauta projetos que beneficiam a população indígena. É muito bom saber que essa proposta está avançando nas comissões”, afirmou a presidenta da Funai, Joenia Wapichana, autora do Projeto de Lei 3514/19 durante o seu mandato como deputada federal.
Segundo o texto, para exercer as funções de AIS ou de Aisan, o profissional deverá ser indígena, residir na área da comunidade de atuação, ter idade mínima de 18 anos, dominar a língua da comunidade e conhecer os costumes e sistemas tradicionais de saúde do povo indígena. Será exigida ainda a conclusão do ensino fundamental e de curso de qualificação específico definido pelo Ministério da Saúde.
O Agente Indígena de Saúde atuará na prevenção de doenças e na promoção da saúde das populações indígenas. As ações serão domiciliares ou comunitárias, individuais ou coletivas, seguindo as diretrizes do SUS. Os AIS devem atuar para prevenir doenças, monitorar a saúde dos indígenas, prestar primeiros socorros e mobilizar as comunidades.
Já o Agente Indígena de Saneamento trabalhará com a mesma finalidade atuando especificamente em saneamento básico e ambiental. Entre as atribuições do Aisan estão o monitoramento e a manutenção de sistemas de saneamento e ações de saneamento para prevenir doenças.
O deputado Airton Faleiro defendeu a aprovação do substitutivo da Comissão de Saúde para o Projeto de Lei 3514/19 com subemendas.
As mudanças do relator permitem que os profissionais de saúde indígena tenham outros empregos com horários compatíveis, além de ampliar para quatro anos o prazo para AIS e Aisan se adequarem às novas leis.
Faleiro destaca que a Nota Técnica 23/24, da Coordenação-Geral de Demandas de Órgãos Externos da Saúde Indígena, sustenta que o prazo de adequação deve considerar que a Secretaria de Saúde Indígena atua em áreas remotas e de difícil acesso.
“A ampliação para quatro anos possibilitará o melhor planejamento das ações de saúde e dos cursos de capacitação dos agentes, sem prejudicar o acesso das comunidades indígenas aos serviços”, diz o relator.
Por fim, o relator propõe que a contratação dos profissionais seja feita conforme as regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por meio de parcerias com entidades sem fins lucrativos que apoiam os direitos indígenas na saúde, educação e assistência social.
De acordo com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), há cerca de 20 mil trabalhadores de saúde em atuação em terras indígenas, dos quais mais de 7 mil são agentes indígenas de saúde ou de saneamento.
Monitor do fogo do MapBiomas. Imagem: Reprodução/PrevisIA
Entre janeiro e março de 2025, o Brasil registrou 912,9 mil hectares queimados. O dado faz parte da nova atualização do Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas que utiliza imagens de satélite para mapear e quantificar a extensão das áreas queimadas em todo o território nacional. O número representa uma redução de 70% em relação ao mesmo período de 2024, o que equivale a 2,1 milhões de hectares a menos queimados.
Segundo o levantamento, 78% da área queimada entre janeiro e março foi em vegetação nativa, com destaque para as formações campestres, que responderam por 43% da área total atingida pelo fogo. Entre as áreas de uso agropecuário, as pastagens concentraram 137 mil hectares queimados no trimestre.
A Amazônia foi o bioma com maior área queimada no período, com 774,5 mil hectares, ou 84% do total registrado no país. O estado de Roraima liderou o ranking estadual, com 415,7 mil hectares queimados, seguido por Pará (208,6 mil ha) e Maranhão (123,8 mil ha). Juntos, esses três estados concentraram 81% de toda a área queimada no país no primeiro trimestre. Os municípios de Pacaraima (RR) e Normandia (RR) foram os que mais queimaram no período, com 121,5 mil e 119,1 mil hectares, respectivamente.
“O estado de Roraima concentrou a maior parte das áreas queimadas no Brasil. Esse padrão se deve ao fato de que Roraima apresenta um regime climático distinto: enquanto a maior parte do território nacional enfrenta o período chuvoso neste trimestre, Roraima vivencia sua estação seca no início do ano, o que torna o estado particularmente vulnerável às queimadas nesse período. Os dados do primeiro trimestre de 2025 refletem essa sazonalidade climática, com Roraima despontando como o principal foco de fogo no país”, explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do MapBiomas Fogo.
Brasil teve redução de 70% na área queimada primeiro trimestre de 2025. Foto: Victor Moriyama/Amazônia em Chamas
No mês de março de 2025, foram queimados 106,6 mil hectares, o equivalente a 10% da área total queimada no ano até o momento. O número representa uma queda de 86% em relação a março de 2024, com 674,9 mil hectares a menos queimados.
A vegetação nativa representou 68,6% da área atingida em março, sendo as formações campestres o tipo mais afetado, com 37% do total. Nas áreas agropecuárias, os cultivos agrícolas responderam por 12,8% da área queimada.
“Os dados do primeiro trimestre de 2025 refletem a sazonalidade climática nos biomas brasileiros, com o período de chuvas na maior parte dos biomas resultando em um uma redução geral das áreas queimadas. No entanto, o Cerrado apresentou a maior área queimada no primeiro trimestre em comparação aos últimos anos, o que reforça a necessidade de estratégias específicas de prevenção e combate ao fogo de cada bioma.” Vera Arruda, pesquisadora do IPAM e do MapBiomas Fogo.
A Amazônia concentrou 51% da área queimada em março (55,1 mil hectares), seguida pelo Cerrado (37,8 mil ha). Roraima (37,3 mil ha), Minas Gerais (10,5 mil ha) e Pará (9 mil ha) foram os estados que mais queimaram no mês. Normandia (RR), Pacaraima (RR) e Mateiros (TO) lideraram entre os municípios, com 10,5 mil, 6,9 mil e 5,9 mil hectares queimados, respectivamente.
“A redução expressiva da área queimada na Amazônia é uma boa notícia. Entretanto, é importante entendermos que a estação seca de 2025 que se aproxima possivelmente ainda será forte, o que pode reverter essa condição de redução” alerta Ane Alencar, Diretora de Ciência do Ipam e coordenadora do Mapbiomas Fogo.
Amazônia: 774 mil hectares queimados no trimestre — queda de 72% em relação ao mesmo período de 2024. A classe de formação campestre foi a mais atingida, com cerca de 360 mil hectares queimados, superando a área de pastagem (121,4 mil ha).
Cerrado: 91,7 mil hectares queimados, aumento de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. O valor também é 106% superior à média histórica desde 2019.
Pantanal: 10,9 mil hectares queimados — redução de 86% em relação a 2024, com 70,4 mil hectares a menos.
Mata Atlântica: 18,8 mil hectares queimados, com 82,5% da área em uso agropecuário.
Caatinga: 10 mil hectares queimados, uma queda de 8% em relação ao mesmo período de 2024.
Pampa: 6,6 mil hectares queimados — aumento de 1.487% em relação ao primeiro trimestre de 2024, com 92% da área afetada em formações campestres.
Dados por bioma – março de 2025
Amazônia: 55,1 mil hectares queimados no mês, redução de 92% em relação a março de 2024. Vegetação herbácea e arbustiva representou 63,7% da área queimada. Pastagens responderam por 7,1% (3,9 mil ha).
Cerrado: 37,8 mil hectares queimados. As formações savânicas e campestres foram as mais atingidas (15% e 14,4%, respectivamente). A agropecuária concentrou 52,6% da área queimada.
Pantanal: março concentrou 5% da área total queimada no trimestre, com 80% em formação campestre.
Mata Atlântica: 9,2 mil hectares queimados, aumento de 80% em relação à média histórica. Pastagens foram a classe mais impactada (2,6 mil ha).
Pampa: 6 mil hectares queimados em formações campestres.
Caatinga: A maioria das áreas queimadas esteve em formações savânicas, totalizando 67,4% da área afetada.
Sobre o Monitor do Fogo: o Monitor do Fogo é o mapeamento mensal de cicatrizes de fogo para o Brasil, abrangendo o período a partir de 2019, e atualizados mensalmente. Baseado em mosaicos mensais de imagens multiespectrais do Sentinel 2 com resolução espacial de 10 metros e temporal de 5 dias. O Monitor de Fogo revela em tempo quase real a localização e extensão das áreas queimadas, facilitando assim a contabilidade da destruição decorrente do fogo.Acesse o Monitor do FogoeoBoletim Mensal de janeiro
Sobre MapBiomas: iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa:mapbiomas.org.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo MapBiomas
Cacau silvestre renasce da Reserva Chico Mendes. Foto: divulgação
Depois de dois anos seguidos sem safra, por conta de uma grande alagação e uma seca extrema, famílias extrativistas da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Sena Madureira (AC), voltaram a colher e beneficiar cacau silvestre da Amazônia. A retomada da produção em 2025 marca também a chegada dos primeiros frutos plantados em áreas de floresta restaurada — um sinal de resiliência ecológica e comunitária, fruto de trabalho contínuo com apoio técnico da SOS Amazônia e do fundo LIRA / IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).
O cacau silvestre é um fruto nativo da Amazônia, encontrado em áreas de várzea e valorizado por seu aroma e sabor únicos. Suas amêndoas são fermentadas e secas artesanalmente pelas comunidades e vendidas a empresas que reconhecem o valor da floresta em pé e do trabalho tradicional. Uma dessas parceiras é a Luisa Abram Chocolates, que disponibilizou um técnico para acompanhar e orientar as etapas de quebra, fermentação e beneficiamento.
“A gente sabia que o cacau estava lá, mas a floresta precisava de tempo. Quando vi que os frutos tinham voltado, fui atrás, mobilizei os vizinhos e pedi apoio para retomar tudo de novo. Inclusive, o técnico da Luisa Abram veio dar um curso na comunidade para nos ensinar a fermentar corretamente cada lote de amêndoas. Agora está acontecendo de verdade. Meu plano é continuar todo ano. Quem quiser parcerias ou quiser vir conhecer nossa área, nosso portão está aberto, porque eu não vou desistir desse projeto”, conta Seu Caru, liderança da AMOPRESEMA (Associação dos Moradores e Produtores da Reserva Chico Mendes) e pai do presidente da associação.
Cacau silvestre renasce da Reserva Chico Mendes. Foto: divulgação
Além dos frutos que crescem espontaneamente na floresta, parte da colheita de 2024 vem de sistemas agroflorestais implantados há quatro anos com mudas de cacau nativo e outras espécies, como banana, açaí e castanheira. As áreas foram restauradas com apoio técnico e fazem parte de uma estratégia de longo prazo para conciliar recuperação ambiental e renda local.
“A floresta respondeu. E o mais importante é que a comunidade também respondeu — com conhecimento, com vontade, com organização. Essa safra é pequena, mas cheia de significado”, afirma Adair Duarte, gerente do Programa de Restauração da Paisagem Florestal da SOS Amazônia.
O projeto Nossabio – Territórios Conservados atua em cinco Unidades de Conservação no Acre e Rondônia, beneficiando cerca de 315 famílias. Com apoio do LIRA/IPÊ, a iniciativa promove o uso sustentável dos recursos naturais, oferece capacitações, estrutura núcleos de beneficiamento e fortalece a governança comunitária.
“O cacau é um símbolo potente: ele exige manejo paciente, cuidado técnico e conexão com o tempo da floresta. Ver os frutos voltando — inclusive nas áreas restauradas — mostra que o investimento feito está dando retorno social, ambiental e econômico”, avalia Fabiana Prado, gerente do LIRA/IPÊ.
Cacau silvestre renasce da Reserva Chico Mendes. Foto: divulgação
O beneficiamento das amêndoas segue padrões técnicos definidos em cartilha da SOS Amazônia. As etapas vão desde a colheita, quebra e fermentação até a secagem em barcaças e o transporte por barco e estrada até os pontos de venda. Todo o processo é manual e envolve o conhecimento acumulado por gerações. A produção também se alinha ao movimento de valorização de ingredientes nativos da Amazônia no mercado brasileiro e internacional.
“A floresta voltou a dar frutos, mas isso não acontece por acaso. O que sustenta esse processo é a continuidade: anos de apoio técnico, presença de parceiros e, principalmente, a vontade das famílias de seguir em frente, mesmo diante dos impactos das mudanças climáticas”, diz Neluce Soares, coordenadora do LIRA/IPÊ.
A expectativa é que, nos próximos anos, mais famílias possam colher frutos das áreas restauradas e ampliar a escala da produção. A parceria com empresas como a Luisa Abram, que pagam acima do valor de mercado e atuam diretamente com as comunidades, contribui para garantir uma relação comercial justa e duradoura.
“O LIRA/IPÊ aposta em cadeias da sociobiodiversidade porque elas conectam conservação, conhecimento tradicional e desenvolvimento. O que estamos vendo no Acre é o resultado concreto dessa aposta — e isso precisa ser valorizado, replicado e protegido”, reforça Fabiana
Tambaqui na brasa com vinagrete de milho de verde — Foto: Rede Amazônica
A “Sexta-feira Santa”, data na qual os cristãos católicos recordam o dia da morte e crucificação de Jesus Cristo, é celebrando como forma de penitência, pois muitos fiéis não consomem carne de animais de sangue quente, como o boi, o porco e o frango, e optam pelo peixe.
Pensando em te ajudar no cardápio, o chef Pedro Bagattoli ensina uma receita de um tambaqui na brasa e na folha de bananeira com um vinagrete de milho verde. Confira:
A Casa Azul também foi utilizada para fins de repressão, sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e um presídio militar.Foto: Reprodução/Denise Costa
Durante a década de 1970, auge da ditadura militar, o imóvel foi utilizado como centro clandestino de detenção, tortura e execução de presos políticos. Guerrilheiros que atuavam na região do Araguaia e camponeses suspeitos de envolvimento com a resistência foram levados à força para o local, onde enfrentaram interrogatórios brutais e condições desumanas. Para mascarar sua verdadeira função, a Casa Azul abrigava, oficialmente, o extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), numa tentativa de manter a fachada institucional.
Segundo o livro Direito à Memória e à Verdade, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal em 2001 identificaram quatro bases militares clandestinas na região sul e sudeste do Pará. Em Marabá, além da Casa Azul, também foram utilizados para fins de repressão a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e um presídio militar. Em São Domingos do Araguaia, o presídio da Bacaba era responsável pela triagem de camponeses suspeitos — muitos dos quais acabavam sendo levados para a Casa Azul.
Em Marabá, além da Casa Azul, também foram utilizados para fins de repressão a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e um presídio militar. Foto: Reprodução/Agência Pará
Além de serem brutalmente torturadas, algumas vítimas eram forçadas a colaborar com os militares, ajudando, sob ameaça, na rotina da Casa Azul. Os relatos, ainda hoje, são dolorosos e muitas vezes silenciados pelo medo e pela ausência de justiça plena.
A existência da Casa Azul permanece como um lembrete de que, por trás de prédios comuns e nomes inofensivos, se pode esconder uma história de sofrimento e resistência. Em tempos de negacionismo e revisionismo histórico, manter viva a memória desses lugares é um dever de todos que acreditam nos direitos humanos, na democracia e na verdade.