Se você nunca saiu do Brasil, é bem provável que nunca tenha visto um crocodilo na natureza. Isso porque, em território brasileiro, só existem espécies de jacarés. Mas você saberia dizer qual é a diferença entre eles e os crocodilos, dois animais frequentemente confundidos?
Segundo informações do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, ambos fazem parte do grupo dos crocodilianos, ao lado dos menos conhecidos gaviais. Esse termo abrange os membros de três famílias distintas: Crocodylidae (crocodilos), Alligatoridae (jacarés, aligátores e caimães) e Gavialidae (gaviais).
Apesar de apresentarem características em comum — como agilidade, habilidades de submersão e um sistema de comunicação surpreendentemente complexo — existem diferenças visíveis entre os principais representantes desse grupo. A seguir, confira três formas fáceis de distingui-los:
Focinho
A principal maneira de identificar crocodilos e jacarés está no formato da cabeça. Os jacarés possuem focinhos largos e arredondados, enquanto os crocodilos têm focinhos mais estreitos e compridos. Essa diferença está ligada à dieta e ao tipo de presa que cada espécie consome.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Lençóis Paulistas/Marineland Crocodile Park
Dente visível
Uma característica bastante curiosa está na disposição dos dentes. Todos os crocodilianos possuem um quarto dente inferior proeminente. Nos jacarés, esse dente se encaixa em uma cavidade da mandíbula superior e fica oculto quando a boca está fechada. Já nos crocodilos, a ponta do dente fica visível mesmo de boca fechada, o que ajuda bastante na identificação.
Foto: Reprodução/Brendha Arruda/Marineland Crocodile Park
Comportamento defensivo
Embora todos sejam animais selvagens, os jacarés tendem a ser mais reclusos e menos agressivos que os crocodilos. Isso não significa que sejam inofensivos: ao se sentirem ameaçados — especialmente ao defenderem ninhos ou território — eles podem reagir com rapidez e força. Acidentes com humanos, no entanto, são raros e geralmente ocorrem por invasão de habitat natural, como rios e igarapés.
A Amazônia abriga uma das maiores diversidades biológicas do planeta, com espécies que desafiam nosso olhar sobre o que é comum ou previsível na natureza. Entre elas, há animais com adaptações tão peculiares em forma, cor e comportamento que se assemelham a criaturas de ficção científica.
Esses organismos são frutos de milhões de anos de evolução em ambientes complexos e variados, o que resulta em estratégias surpreendentes para sobreviver, se alimentar e se reproduzir. Neste texto, vamos conhecer cinco espécies amazônicas que, de tão extraordinárias, poderiam facilmente habitar outros mundos — mas, sorte nossa, são animais reais da nossa rica floresta.
Acari-zebra (Hypancistrus zebra): o stormtrooper dos rios
Com o corpo coberto por listras pretas e brancas em alto contraste, esse pequeno peixe de até 10 centímetros, também conhecido como zebrinha, é um verdadeiro stormtrooper dos rios amazônicos — e ainda tem aquela carinha simpática de quem jamais acertaria um tiro.
Endêmico do rio Xingu, o acari-zebra vive escondido entre as rochas em águas rasas, bem oxigenadas e de correnteza moderada a forte. É mais ativo durante a noite, quando sai para se alimentar de pequenos invertebrados e restos orgânicos.
Sua beleza e raridade fizeram dele um dos peixes ornamentais mais cobiçados do mundo, o que, somado à construção de barragens em seu habitat, o colocou entre as espécies ameaçadas de extinção.
Acari-zebra (Hypancistrus zebra): o pequeno acari-zebra, espécie endêmica do rio Xingu, com seu visual “stormtrooper” e comportamento noturno, é um dos peixes ornamentais mais cobiçados da Amazônia. Foto: Art Parola
Matamatá (Chelus fimbriata): o mestre Yoda dos igarapés
Se os Jedi tivessem um representante nos rios da floresta, seria com certeza a matamatá. Esse quelônio de aparência pré-histórica chega a medir 50 centímetros e pesar até 15 quilos, com uma carapaça irregular e uma cabeça triangular coberta por franjinhas que a ajudam a se camuflar entre folhas e galhos submersos.
Vive nos igarapés e áreas de águas calmas da Amazônia e do Orinoco, sendo ativa principalmente ao entardecer e à noite. Alimenta-se de peixes, que captura com um “golpe de sucção” surpreendentemente rápido, engolindo a presa inteira em um movimento só — quase como um truque da Força!
Apesar da aparência excêntrica, ela é inofensiva e extremamente bem adaptada ao ambiente aquático onde habita.
Matamatá (Chelus fimbriata): com seu visual pré-histórico e habilidades de camuflagem dignas de um mestre Jedi, a tartaruga matamatá é uma especialista em emboscadas nos igarapés amazônicos. Foto: Jan Richtr
Papa-vento-narigudo (Anolis phyllorhinus): um alienígena infiltrado
Esse pequeno lagarto amazônico, que nem chega a ultrapassar 10 centímetros (sem contar a cauda), parece ter sido escalado como figurante especial em algum episódio de Star Wars. Com um “nariz” alongado que mais parece uma antena sensorial alienígena, o papa-vento-narigudo habita o alto das árvores em florestas de terra firme no norte do Brasil.
É ativo durante o dia, quando sai em busca de pequenos insetos, e usa sua protuberância nasal em disputas territoriais ou como parte do ritual de acasalamento. Seu corpo esguio, olhos atentos e movimentos ágeis o tornam um verdadeiro espião camuflado no meio da floresta — um alienígena infiltrado que poucos têm a sorte de observar.
Papa-vento-narigudo (Anolis phyllorhinus): o curioso papa-vento-narigudo, com seu “nariz” alongado, é um lagarto amazônico que parece ter vindo de uma galáxia distante. Uma verdadeira raridade entre as folhas altas da floresta. Foto: Christopher Borges
Arraia-de-fogo (Potamotrygon motoro): a Millennium Falcon dos rios amazônicos
Com seu corpo em forma de disco e padrões circulares alaranjados distribuídos como luzes em uma nave espacial, a arraia-de-fogo parece uma versão subaquática da Millennium Falcon, cruzando as águas da floresta com discrição e elegância.
Habitando os fundos arenosos dos rios amazônicos, essa arraia passa boa parte do dia enterrada, ficando quase invisível, e ganha vida à noite, quando sai para caçar pequenos peixes, moluscos e crustáceos. Pode atingir um tamanho máximo de até 1 metro de diâmetro e possui um ferrão venenoso na cauda, usado apenas em situações de defesa.
Além do visual hipnotizante, que a torna uma verdadeira nave alienígena da natureza, ela é extremamente bem adaptada ao seu habitat e exerce papel fundamental no equilíbrio ecológico dos rios que percorre.
Arraia-de-fogo (Potamotrygon motoro): padrões psicodélicos e corpo em forma de disco: essa é a arraia-palhaço, uma espécie fluvial que parece uma nave espacial deslizando no fundo dos rios da Amazônia. Foto: Marcel Burkhard
Preguiça-real (Choloepus didactylus): a prima amazônica do Chewbacca
Com pelos longos, movimentos lentos e um olhar calmo que transmite sabedoria ancestral, a preguiça-real é a nossa versão amazônica do Chewbacca — e parece mesmo um primo distante do wookie mais querido da galáxia!
Vivendo nas copas das árvores das florestas úmidas da Amazônia, esse mamífero pode medir de 85 cm a 1 metro e pesar de 6 a 9 quilos. É principalmente noturno e passa a maior parte do tempo pendurado nos galhos, alimentando-se de folhas, brotos e frutos. Seus pelos grossos abrigam algas e pequenos invertebrados, formando um verdadeiro ecossistema ambulante.
Apesar da lentidão, é extremamente bem adaptada à vida nas alturas e quase invisível aos olhos dos predadores, mas não se deixe enganar, quando ameaçada a preguiça real usa todo o seu poder jedi para se defender com garras afiadas e muito fortes!
Preguiça-real (Choloepus didactylus): peluda, de aparência serena e de movimentos lentos, a preguiça-real parece mesmo um parente do Chewbacca. Um dos mamíferos mais carismáticos da floresta! Foto: Retirada do artigo “Candidiasis in Choloepus sp. – a Review of New Advances on the Disease”, autoria de Marina Sette Camara Benarrós e Felipe Masiero Salvarani, DOI: 10.20944/preprints202407.0375.v1
O fantástico, o estranho e o extraordinário
A Amazônia, com toda sua diversidade, é um lembrete de que o fantástico, o estranho e o extraordinário não estão só nas galáxias distantes. Eles vivem aqui, entre nós, em cada canto da floresta. Que a Força (da natureza) esteja com você até o próximo encontro com os seres incríveis da nossa galáxia amazônica! Abraços de sucuri pra vocês e feliz Star Wars Day!
Sobre a autora
Luciana Frazão é pesquisadora na Universidade de Coimbra (Portugal), onde atua em estudos relacionados as Reservas da Biosfera da UNESCO, doutora em Biodiversidade e Conservação (Universidade Federal do Amazonas) e mestre em zoologia (Universidade Federal do Pará).
Desmatamento na Amazônia Legal. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
Um estudo sobre desmatamento na Amazônia apresenta recorte temporal e abrangência de área territorial inédita sobre o impacto na região a partir das métricas de compacidade (como as áreas desmatadas se apresentam geograficamente) e raios equivalentes (manchas desmatadas, ou seja, áreas que foram removidas ou degradadas ao longo do tempo). O trabalho, publicado em abril na revista científica Forest Ecology and Management, evidencia o preocupante cenário de falhas na preservação de toda a Amazônia Legal.
Entre 1985 e 2021 as taxas de desmatamento atingiram níveis alarmantes de até 25.000 quilômetros quadrados por ano. A taxa média anual de desmatamento nas mais de três décadas de análise foi de 11.152 quilômetros. Com exceção de 2005 a 2012, as taxas não mostraram sinais de redução.
A redução do desmatamento em 2005 pode ser amplamente atribuída a iniciativas governamentais como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal. Nesse período de 2005 a 2012, o Brasil reduziu as taxas de desmatamento na floresta amazônica em 84% quando comparado ao pico de 2004. No entanto, desde 2013, as taxas de desmatamento vêm aumentando. Por exemplo, em 2019, 10.129 km² da floresta foram desmatados, um aumento de 34% em relação ao ano anterior. Essa alta taxa de desmatamento compromete as metas de redução de gases de efeito estufa e está associada ao aumento das emissões de queima de biomassa, impactando negativamente a saúde respiratória e as comunidades vulneráveis.
Amazônia Legal registra média de 11 mil km² por ano de área desmatada. Foto: Polícia Federal/divulgação
Para chegar a esses números, um grande volume de dados foi analisado, abrangendo 36 anos de dados de uso e cobertura do solo e 3 milhões de quilômetros quadrados. A pastagem foi o tipo de uso da terra mais frequente nas manchas de desmatamento, representando aproximadamente 83% da área desmatada, seguida pela agricultura e silvicultura, juntas respondendo por 17%.
O estudo é de autoria de pesquisadores da Universidade de São Paulo ligados ao Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), Instituto de Física (IFUSP) e Escola Politécnica (EPUSP); Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Diferentemente da maioria dos trabalhos anteriores sobre desmatamento na floresta amazônica, que investigaram pequenas áreas ou períodos limitados, este trabalho abrange 36 anos e toda a área da Amazônia Legal.
“Com as métricas que utilizamos, como o compactness e o raio equivalente, observamos quatro regiões distintas dentro da Amazônia, cada uma com sua característica única e consistente com as diferentes evoluções temporais. Essas descobertas ressaltam a utilidade de métricas geométricas relativamente simples para entender a evolução espacial e temporal do desmatamento, oferecendo insights valiosos sobre a estimativa da dinâmica do uso da terra na Amazônia e que isso pode ser uma base para estratégias de monitoramento e conservação mais eficazes”, explica Marco Aurélio de Menezes Franco, Professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP e um dos autores do estudo.
Desmatamento na Amazônia Legal. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
Os pesquisadores realizaram a análise de dados de uso e cobertura do solo, caracterizaram as áreas desmatadas, agregaram clusters geográficos e apontaram distribuições de probabilidade e evolução. Esta metodologia se dividiu em uma análise de padrão espacial na qual se identificou áreas contíguas de desmatamento (manchas) com base nos mapas de uso do solo do projeto MapBiomas. Em segundo lugar, as características geométricas das manchas de desmatamento foram caracterizadas. Na sequência, foi aplicada a análise de agrupamento para identificar regiões com padrões de desmatamento semelhantes em suas características geométricas.
A floresta amazônica, embora ocupe apenas 0,5% da superfície terrestre, é um ecossistema notavelmente diverso, abrigando mais de 10% de todas as espécies vegetais e vertebradas conhecidas. A floresta tropical, por exemplo, regula criticamente o clima global e os ciclos da água e do carbono, contribuindo para cerca de 16% de toda a produtividade fotossintética terrestre. No entanto, atividades humanas como agricultura e pecuária resultaram em uma mudança significativa no uso da terra, afetando os ciclos biogeoquímicos e os serviços ecossistêmicos relacionados à regulação climática, biodiversidade e armazenamento de carbono.
Estudos recentes sugerem que a mudança no uso da terra, a degradação florestal e as mudanças climáticas transformaram áreas florestais de sumidouros de carbono em fontes de carbono para a atmosfera, especialmente no sudeste da Amazônia.
O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo é um dos principais polos de pesquisa do Brasil nas áreas de Ciências Exatas e da Terra. A missão é contribuir para o desenvolvimento do país, promovendo o ensino, a pesquisa e a difusão de conhecimentos sobre as ciências da Terra e do Universo e aspirando reconhecimento e liderança pela qualidade dos profissionais formados e pelo impacto da atuação científica e acadêmica.
Com o objetivo de promover a sustentabilidade ambiental por meio de ações de manejo orientadas por critérios científicos, e ao mesmo tempo fortalecer a atuação integrada entre ciência, órgãos de fiscalização e gestão pública, o governo de Rondônia participou, no dia 29 de abril, por meio da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam), de uma reunião em Brasília, no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Na ocasião, foram apresentados os resultados dos estudos sobre o manejo e o controle do Pirarucu (Arapaima gigas) em áreas onde a espécie é considerada invasora. A reunião teve como objetivo alinhar estratégias de gestão, controle e fiscalização, as quais irão definir diretrizes para a regulamentação da erradicação do Pirarucu nessas regiões.
Estiveram presentes o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho; o secretário-adjunto da Sedam, Gilmar Oliveira de Souza; a diretora executiva, Ana Gabriela Rover Freitas da Cunha; a coordenadora do Manejo do Pirarucu, Chirlaine Varão; o gerente de Pesca e Aquicultura, João Batista Cordeiro; a assessora Thais Azevedo; e a professora dra. Carolina Dória, da Universidade Federal de Rondônia (Unir). A reunião contou também com representação do Poder Legislativo de Rondônia, entre outros participantes.
Tratativas tem sido conduzidas ao longo dos últimos anos visando à regulamentação da pesca do Pirarucu, em áreas onde este é considerado invasor. A partir da apresentação dos estudos da Sedam em parceria com a Unir, o Ibama, através do presidente Rodrigo Agostinho, informou que já está elaborando uma portaria que regulamentará o reconhecimento do peixe Pirarucu como espécie exótica nas regiões onde for considerado invasor.
A professora Carolina Dória destacou os avanços nas pesquisas genéticas populacionais da espécie, que indicam a necessidade de controle em locais onde sua introdução tem provocado desequilíbrios ambientais significativos. A apresentação técnica reforçou a importância da adoção de práticas de manejo baseadas em evidências científicas, com vistas à preservação dos ecossistemas afetados.
O governador de Rondônia, Marcos Rocha, enfatizou o protagonismo do estado na formulação de políticas ambientais efetivas: “O estado avança na construção de uma agenda ambiental sólida, com reconhecimento nacional. Os dados apresentados mostram que os investimentos em soluções concretas estão sendo realizados com responsabilidade e seriedade. Esse manejo de controle do Pirarucu invasor pioneiro é uma prova de que políticas públicas bem executadas geram resultados reais para o meio ambiente e para as famílias que dependem da pesca sustentável”.
Responsabilidade ambiental
A coordenadora do manejo da Sedam, Chirlaine Varão, ressaltou a relevância da divulgação dos resultados.
“Apresentar esses dados é fundamental para demonstrar a seriedade do trabalho que vem sendo realizado. Isso fortalece parcerias, atrai novos apoios e dá visibilidade a uma estratégia eficaz. O manejo realizado na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Cautário está se consolidando como modelo nacional no enfrentamento de espécies invasoras”, afirmou.
O secretário-adjunto da Sedam, Gilmar Oliveira de Souza, em tratativas com o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, informou que a referida portaria, mencionada anteriormente, será publicada em um prazo de 20 a 30 dias.
“Essas tratativas representam um avanço significativo na legalização do controle da espécie e consolidam uma resposta concreta aos estudos apresentados, que agora contarão com respaldo normativo, garantindo segurança jurídica e responsabilidade ambiental”, destacou.
Reunião com o ICMBio
Durante a agenda em Brasília, também foi realizada uma reunião no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em que foram apresentados os resultados dos manejos conduzidos e dos estudos coordenados pela professora Carolina Dória. Houve consenso entre os participantes de que o Pirarucu é uma espécie invasora e tem provocado desequilíbrio nos estoques pesqueiros de diversas regiões.
Os dados obtidos na Resex do Rio Cautário foram amplamente discutidos e reconhecidos pelo ICMBio como um exemplo bem-sucedido de controle. O projeto foi classificado como piloto, com resultados positivos que atestam a eficácia do manejo aplicado, posicionando o estado de Rondônia como referência nacional no combate às espécies exóticas invasoras.
Criar aves e pássaros em casa é o sonho de muitos amantes da natureza. No entanto, no Brasil, essa prática é cercada de regulamentações específicas que visam proteger a fauna silvestre e coibir o tráfico ilegal de animais. A criação de aves em cativeiro, sem a devida autorização, é considerada crime ambiental, conforme a Lei nº 9.605/1998, conhecida como Lei de Crimes Ambientais.
Segundo a Delegacia Especial de Proteção Animal e Meio Ambiente (Depama), a legislação brasileira, em seu artigo 29, proíbe expressamente “a caça, a perseguição e a manutenção de animais silvestres em cativeiro”. A pena para quem descumprir a lei pode incluir multas e até detenção.
Entretanto, existem exceções que permitem a criação de determinadas espécies de aves em ambiente doméstico. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é o órgão responsável por regulamentar essas permissões e inclusive possui uma sessão online onde explica mais sobre o tema: Criação amadora de passeriformes da fauna silvestre brasileira (SisPass).
O Ibama estabelece uma lista de espécies (de 2019), que podem ser criadas legalmente, tanto de aves nativas quanto de espécies exóticas — aquelas que não pertencem à fauna brasileira. Entre as espécies exóticas que podem ser criadas no Brasil estão a calopsita e o canário-belga, bastante populares como animais de estimação.
Para manter aves nativas em cativeiro é necessário que o criador seja devidamente registrado junto ao Ibama e que as aves sejam adquiridas de criadores autorizados. Todo o processo de aquisição e criação deve seguir protocolos rigorosos, como a emissão de anilhas de identificação e a atualização de registros periódicos.
O objetivo dessas normas é garantir que a criação não comprometa a biodiversidade e que os animais tenham uma vida digna, longe de maus-tratos. Além disso, a regulamentação é uma ferramenta importante no combate ao tráfico de animais silvestres, que ainda é uma das principais ameaças à fauna brasileira.
A Amazônia possui uma diversidade vasta de aves e acaba atraindo curiosos e interessados em cuidar desses animais. Mas, quem deseja criar aves em casa deve, antes de tudo, buscar informações corretas junto aos órgãos ambientais e seguir todos os trâmites legais, respeitando a natureza e garantir um futuro sustentável.
Atualmente, de acordo com informações do Ibama, a competência para autorizar novos criadores amadores de aves da ordem passeriformes silvestres passou a constituir atribuição dos Órgão Estaduais de Meio Ambiente (OEMAS). Veja a lista AQUI. Em caso de suspeita ou constatação de criação ilegal, entre em contato com os órgãos responsáveis.
O município de Sena Madureira, no interior do Acre, foi reconhecido como a capital nacional da castanha por uma lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União (DOU) no dia 29 de abril (Lei 15.129, de 2025).
O texto publicado é fruto de um projeto apresentado pelo então deputado Gerlen Diniz, em 2023, e justifica o reconhecimento por conta da relevância da cidade no plantio da semente, que é um dos principais produtos de exportação do Acre.
Após a publicação da lei, Diniz, que é o atual prefeito do município, comemorou em uma rede social o reconhecimento de Sena Madureira como cidade símbolo desta produção. “É reconhecido no Brasil todo e internacionalmente também. Isso vai trazer muitos benefícios pro município”, resumiu.
Na justificativa do projeto, o então parlamentar destacou dados de 2015 do relatório Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que colocava o município com produção de 2.645 toneladas.
Entretanto, segundo o PEVS de 2023, última edição divulgada, o município era o quarto do estado, com 1.580 toneladas.
“É de extrema importância para a divulgação do município de Sena Madureira no cenário nacional e internacional, a denominação de ‘Capital Nacional da Castanha do Brasil’, fato que impulsionará a economia local e auxiliará na manutenção do manejo extrativista da castanha”, ressaltou o projeto.
Mais de US$ 9 milhões em exportações
Somente entre janeiro e novembro do ano passado, as exportações de castanha-do-Brasil somaram mais de US$ 9,6 milhões no Acre – o equivalente a R$ 55,4 milhões, segundo a conversão do Banco Central do Brasil. Isto é o que aponta os dados apresentados pelo Sistema Oficial para Extração das Estatísticas do Comércio Exterior Brasileiro de Bens (Comex Stat).
Segundo os dados disponibilizados na plataforma, além do Acre, outros três estados da região Norte também exportaram o produto no ano passado, sendo estes: Amazonas, Pará e Rondônia.
Com relação ao estado acreano, o valor das exportações de castanha-do-Brasil totalizou a quantia de US$ 9.688.297 entre os 11 meses de 2024. O valor, descrito na plataforma em US$ FOB – abreviação para livre a bordo, em dólares – não leva em consideração os custos de seguro e frete envolvidos, que ficam a cargo do comprador.
Com relação aos quilogramas, soma-se mais de 4,5 mil toneladas de castanhas exportadas, com e sem cascas.
Produção de castanha
Sobre a produção da castanha, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Acre segue entre os maiores produtores, segundo a Pesquisa do Extrativismo Vegetal e da Silvicultura (PEVS).
Somente em 2023, ano do último balanço, o IBGE apontou que foram 9.473 toneladas produzidas no Acre, o que deixa o estado na segunda posição, atrás apenas do Amazonas, estado vizinho, que produziu 11.291 toneladas.
Contudo, dentre as unidades da federação, o Acre foi o único onde a castanha-do-Brasil foi o principal produto produzido na extração vegetal.
O Brasil é um dos maiores produtores de castanha do mundo e produz diferentes tipos de acordo com a região do país. Do Norte, sai a castanha-do-Brasil. Já a castanha de caju é produzida no Nordeste e no Cerrado a produção é da castanha do baru.
Cheia do rio Amazonas. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
O 2º Alerta de Cheias do Amazonas, realizado dia 30 de abril pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), indica que os rios Negro, Solimões e Amazonas têm grande probabilidade de alcançar a cota de inundação severa neste ano. É o caso dos rios Solimões, em Manacapuru, e Amazonas, em Itacoatiara. Já em Manaus, o rio Negro tem 42% de probabilidade de atingir a cota de inundação severa, que é de 29 metros.
As previsões, com 45 dias de antecedência em relação ao pico da cheia, contemplam os municípios de Manaus, Manacapuru, Itacoatiara e Parintins, onde vivem mais de 2,3 milhões de pessoas.
Para André Martinelli, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial do SGB em Manaus, o segundo alerta confirma, em termos de magnitude, as previsões do primeiro, emitido com 75 dias de antecedência, e reforça o cenário de uma grande cheia na região.
Rios Negro, Solimões e Amazonas têm grande probabilidade de alcançar a cota de inundação severa. Divulgação/SGB
“A previsão do segundo alerta reforça a perspectiva de uma cheia expressiva. Apesar da baixa probabilidade de os níveis atingirem recordes históricos, há tendência de que fiquem próximos ou até superem a referência da cota de inundação”, explica.
“Neste momento, os dados apontam para uma cheia aproximadamente entre 1,00 e 1,20 metro abaixo da registrada em 2021 nas cidades de Manaus e Manacapuru, e entre 60 e 80 centímetros abaixo daquela cheia histórica em outros pontos, como Itacoatiara e Parintins. Esse comportamento está relacionado, inclusive, à cheia recente do rio Madeira, que este ano teve um atraso de cerca de 15 dias em relação ao pico habitual, que costuma ocorrer no início de abril — e, desta vez, foi registrado por volta da metade do mês”, ressaltou Alice Castilho, diretora de Hidrologia e Gestão Territorial.
Castilho também informou que o SGB já está atuando de forma integrada com a Defesa Civil, os órgãos de previsão climática e meteorológica, e outras instituições, como aquelas que atuam no acesso ao saneamento em comunidades vulneráveis. “Estamos participando de um grupo coordenado pela Casa Civil, que já está voltado para os preparativos do período seco na Amazônia.”
Para Manaus, é possível que o rio Negro atinja aproximadamente 28,91 metros, com um intervalo provável entre 28,38 e 29,45 metros (com 80% de intervalo de confiança). Considerando o modelo utilizado, a cota de inundação em Manaus (27,50 m) já foi superada. A cota de inundação severa (29 m) tem 42% de probabilidade de ser atingida, e a chance de alcançar a cota máxima registrada em 2021 (30,02 m) é inferior a 1%.
Níveis observados em 2025 em relação a série histórica. Divulgação/SGB
Em Manacapuru, está previsto que o rio Solimões alcance cerca de 19,63 metros, com um intervalo provável entre 19,10 e 20,16 metros (considerando 80% de intervalo de confiança). De acordo com o modelo utilizado, a probabilidade de o rio atingir a cota de inundação severa em Manacapuru (19,60 m) é de 53%.
O SGB trabalha em parceria com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), responsáveis pelas previsões climáticas. Paralelamente, as defesas civis estadual e municipais formulam estratégias preventivas.
Probabilidades da cota de inundação severa no rio Amazonas
Níveis observados em 2025 em relação a série histórica. Divulgação/SGB
Para Itacoatiara, a previsão inicial indica que o rio Amazonas deve alcançar cerca de 14,57 metros, com variação provável entre 14,24 e 14,89 metros (intervalo de confiança de 80%). Segundo o modelo utilizado, a chance de o rio alcançar a cota de inundação (14,00 m) é de 99%. Já a probabilidade de alcançar a cota de inundação severa (14,20 m) é de 94%, e de apenas 1% para superar a cota máxima registrada em 2021 (15,20 m).
Em Parintins, a previsão é que o rio Amazonas apresente um valor aproximado de 8,64 metros, com intervalo provável entre 8,34 e 8,94 metros. De acordo com o modelo utilizado, a probabilidade de o rio atingir a cota de inundação em Parintins (8,43 m) é de 83%, e de apenas 1% para superar a cota de inundação severa (9,30 m).
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) é atualmente responsável por 17 Sistemas de Alerta Hidrológico (SAHs), disponível no Sistema de Alerta de Eventos Críticos (SACE), atuantes em diversas bacias do país, nas regiões mais fortemente afetadas por processos de inundação, beneficiando mais de 7 milhões de habitantes. O objetivo dos SAHs é monitorar e prever os níveis dos rios, gerando e disseminando informações hidrológicas para subsidiar a tomada de decisões por parte dos diversos órgãos que atuam no gerenciamento dos impactos de eventos hidrológicos extremos.
Sítio arqueológico Santa Terezinha. Foto: Edison Caetano
Que o Brasil é um país rico tanto em sua diversidade cultural, quanto em sua natureza cheia de biomas e espécies, todo mundo já sabe. Mas você sabia que são mais de 26 mil sítios arqueológicos em todo o país registrados junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan?
Os sítios arqueológicos são lugares onde é possível encontrar evidências de atividades humanas, como pinturas rupestres, construções antigas, túmulos e artefatos, que simbolizam e representam determinado momento histórico da região.
Mas não é qualquer lugar com vestígios que pode ser registrado como sítio arqueológico; apenas aqueles que apresentam relevância científica para a compreensão da história da humanidade. Você conhece algum? Com informações do Ministério do Turismo, o Portal Amazônia fez uma seleção que você pode visitar e se maravilhar em todo a Amazônia. Confira!
Localizado no estado do Amapá, erguido no meio da floresta, o sítio arqueológico popularmente conhecido como “Stonehenge da Amazônia”, é um conjunto de grandes rochas de granito fincadas no solo em formato circular em um raio de 30 metros. Ao todo são 127 rochas com mais de 4 metros cada.
Sítio arqueológico Parque Arqueológico do Solstício. Foto: Reprodução/ Iphan
De acordo com pesquisas, as pedras maciças foram organizadas por mãos humanas, às margens do igarapé Rego Grande, na área rural da cidade de Calçoene, a 374 km da capital, Macapá. As estruturas que estão localizadas dentro do Parque Arqueológico do Solstício podem ser visitadas pelo ramal que liga a sede do município à Vila do Cunani, percorrendo cerca de 30 km.
A história e os motivos pela construção do megálito ainda são desconhecidas, os indícios encontrados por pesquisadores são de que ele foi construído por indígenas há cerca de 1000 anos antes de Cristo, para observação astronômica e rituais.
Nos últimos anos os arqueólogos realizaram medições sistemáticas sempre na data de 21 ou 22 de dezembro, que marca o solstício de inverno (Calçoene está acima da linha do equador), e verificaram que um fino monólito parece estar alinhado com a trajetória do sol ao longo desse dia. Ao nascer, o sol está no topo da rocha e, com o passar das horas, vai descendo até sumir na base da rocha.
Situada em uma área particular no município de Pacaraima, em Roraima, mas está aberto à visitação. Contém diversos itens da pré-história brasileira, como pinturas rupestres, pedaços de cerâmica, ferramentas e outros artefatos. Abriga, ainda, diversas cavernas funerárias.
Pedra Pintada do Perdiz (RR). Foto: Cedida/ Jorge Macêdo
Segundo a pesquisa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional intitulada: Estudo sobre o Sítio Arqueológico Pedra Pintada (RR-UR-01), para fins de tombamento, o pesquisador Enderson Pereira Dias diz que a Pedra Pintada e o meio natural ao qual este patrimônio arqueológico está inserido são considerados locais sagrados para algumas culturas indígenas de Roraima.
Já em relação aos não indígenas, quando se trata de Patrimônio Cultural do estado Roraima, este sítio arqueológico é um dos ícones emblemáticos mais utilizados para representar a região. Sua imagem é influência para artistas plásticos, músicos e jornalísticas, além de ser o bem cultural mais procurado por escolas, universidades e pelos turistas que cruzam pela região.
Na Ilha de Marajó, mais especificamente no município de Salvaterra, no estado do Pará, o Sítio Arqueológico de Marajó possui sítios funerários e sambaquis, que são montes de conchas que foram construídos por povos pré-coloniais para fins funerários.
Gravuras rupestres do sítio Ponta das Lajes à beira do rio Negro. Foto: Guilherme Silva/Acervo Iphan
A proteção dos bens de natureza arqueológica está presente desde a criação do Iphan, órgão que regula os patrimônios históricos e culturais do país. Reconhecidos como parte integrante do Patrimônio Cultural Brasileiro pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 216, os bens de natureza material de valor arqueológico são definidos e protegidos pela Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961, sendo considerados bens patrimoniais da União.
Todos os sítios arqueológicos têm proteção legal e quando são reconhecidos devem ser cadastrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA).
Barragem de rejeito da Mineração Rio do Norte em Oriximiná, no Pará. Foto: Carlos Penteado/Arquivo/CPI-SP
Uma parte da população amazônica vive próxima a barragens de mineração que apresentam problemas estruturais e de risco potencial à vida humana e à floresta. Uma análise exclusiva da InfoAmazonia revela que, dos 371 empreendimentos minerários na região, 46% (171) estão em estado de emergência — com falhas físicas, como corrosão, erosão ou desgaste de materiais —, ou classificados como risco médio ou alto de atingir comunidades e causar danos em caso de rompimento. Os dados são da Agência Nacional de Mineração (ANM).
A atividade das mineradoras gera rejeitos, como lama, líquidos e resíduos tóxicos, que são armazenados em barragens. Em caso de rompimento, esses materiais podem se espalhar por uma área de 590 km² na Amazônia, — o equivalente a mais que o dobro da cidade de Porto Alegre (RS) — atingindo pontos próximos a florestas, cidades e quilombos, segundo os dados da ANM.
Confira AQUI, na publicação original, o mapa para conseguir observar a área de inundação prevista (em rosa) em cada empreendimento. Os pontos azuis são as barragens.
Durante a instalação e o registro oficial pela ANM, as barragens passam por uma avaliação sobre os possíveis riscos de acidentes, como rompimentos e outras falhas na estrutura, e os danos causados por eles, ambos classificados como alto, médio ou baixo. A categoria de risco verifica o estado de conservação, a altura da barragem, a capacidade para o volume de rejeitos e o histórico de manutenção e monitoramento pelos órgãos responsáveis. Já o dano potencial analisa a possibilidade de perdas humanas e os impactos socioambientais e econômicos.
Para entender até onde a lama chegaria em caso de um rompimento, as empresas calculam a distância de alcance do rejeito de acordo com o volume, o tipo, a altura e a geometria da estrutura da barragem. Seis estados da Amazônia seriam afetados em caso de acidente: Pará, Maranhão, Mato Grosso, Amapá, Rondônia e Amazonas.
O Pará seria o mais prejudicado, com 409,48 km² impactados, área equivalente a 40% da capital Belém. Os rejeitos atingiriam cidades como Barcarena (PA), Almeirim (PA), Parauapebas (PA) e Pedra Branca do Amapari (AP), além de 345 km² de floresta e três comunidades quilombolas, onde vivem mais de 400 famílias.
Nos outros estados, o impacto seria menor: em Mato Grosso, 64,99 km² seriam atingidos; Maranhão, 51 km²; Amapá, 24,58 km²; Rondônia, 21,94 km²; e Amazonas, 18,51 km². No entanto, o histórico de rompimentos no Brasil mostra que os cálculos preditivos de área em caso de acidente não são precisos: “As informações das barragens são enviadas pelas próprias empresas, não são produzidas pelo Estado. Isso prejudica a eficácia desses dados”, explica Francisco Kelvin da Silva, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens, organização que atua no tema desde 1970.
Segundo Silva, oficialmente, o Brasil tem cerca de 30 mil barragens para diferentes usos: contenção de sedimentos, hidrelétricas, geração de energia, irrigação, navegação, espalhadas por todo o território nacional: “Entretanto, os pesquisadores indicam que o número pode ser ainda maior, especialmente em regiões do interior do país que ainda não estejam cadastradas pelo governo”.
Além disso, no caso das barragens de mineração, há um déficit nos registros, pois existem áreas não cadastradas, como aquelas que indicam a presença de garimpo ilegal. Foi esse o caso do rompimento ocorrido em fevereiro, no Amapá, quando os rios Cupixi e Araguari foram manchados com lama, areia e argila, resíduos da extração de ouro, nos municípios de Pedra Branca do Amapari e Porto Grande.
“No caso da Amazônia, uma quantidade muito grande de barragens ligadas à atividade do garimpo só está sendo identificada nos últimos relatórios, em virtude dos problemas de segurança que apresentam. Ou seja, são verificadas quando já estão causando algum dano”, diz Silva.
Empresas atuam na região com a extração de bauxita, ferro, manganês, cobre, níquel e outros minérios. Esses materiais podem causar problemas de saúde, tanto pela ingestão direta, como no consumo de água contaminada, ou indireta, quando animais contaminados são usados para alimentação.
Alguns materiais, como cobre e chumbo, podem causar irritações na pele quando a pessoa entra em contato com a poeira dos rejeitos. Em geral, as doenças associadas são infecciosas, como a dengue, que se prolifera em focos de água parada. Também há risco de doenças renais, câncer, hipertensão e problemas psiquiátricos, como depressão, ansiedade, insônia e estresse.
Para Silva, o Estado não consegue estimar os danos reais dos empreendimentos. Ele explica que, antes mesmo de uma barragem começar a funcionar, as comunidades e os municípios sofrem impactos nos serviços públicos e no crescimento desordenado dos territórios.
“Você tem um impacto cumulativo dessa operação que é muito grande, que tem a ver não só com o impacto ambiental, mas com a capacidade do Estado de atender diante dessa nova realidade. A gente tem um crescimento muito grande da especulação imobiliária, do preço da terra, o que agrava os conflitos urbanos — com casos de violência contra mulheres crescendo — e também no ambiente rural, com brigas por moradia”, relata o coordenador.
Comunidade Boa Vista tem mais de 50 famílias quilombolas que temem o rompimento de barragem. Foto: Carlos Penteado/Arquivo /CPI-SP
Pará: o estado sob maior risco
As populações do estado do Pará disputam o espaço com grandes mineradoras que operam na região. Neste ano, por exemplo, o Tribunal da Holanda vai julgar a empresa norueguesa Hydro-Alunorte, acusada de despejar minérios em rios que margeiam comunidades ribeirinhas nos municípios de Barcarena e Abaetetuba.
A Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) afirma que o impacto ambiental nos rios está causando perda de memória, câncer e problemas neurológicos nos moradores das comunidades Sítio São João, São Sebastião do Burajuba e Sítio Cupuaçu, localizadas em Barcarena. A empresa atua no município desde 1995. No ano passado, a Justiça Federal condenou a Hydro-Alunorte a pagar R$ 100 milhões pelo impacto causado nas comunidades.
“Nós queremos a nossa vida como era antigamente. Queremos a nossa saúde. Somos tradicionais, somos povo da floresta. Queremos tomar banho no rio, andar a pé, nas nossas praias. Queremos voltar a pescar e comer os nossos peixes, vender. Queremos a nossa saúde de volta”, diz Maria do Socorro Costa Silva, presidente da Cainquiama.
De acordo com o VI Relatório Anual de Segurança de Barragens de Mineração, da Agência Nacional de Mineração (ANM), órgão responsável pelo cadastro e monitoramento dos empreendimentos, das 371 barragens existentes na Amazônia, apenas 17% (66) foram vistoriadas em 2024.
As vistorias são feitas para que o órgão verifique se a empresa está cumprindo os requisitos legais dos Planos de Segurança de Barragem — documento que descreve ações de redução de impactos — e para avaliar a conservação das estruturas físicas das barragens.
A líder quilombola Sandra Amorim é coordenadora da Associação de Moradores da Comunidade Quilombola Sítio São João, território que está próximo de duas barragens da empresa Imerys Rio Capim, em Barcarena. A empresa extrai dali o minério caulim (este minério é uma rocha fina composta por silicato de alumínio. Ela é usada para confecção de papel, cerâmicas, tintas, borrachas, dentre outros). As duas barragens apresentam risco alto e baixo para rompimento, e ambas têm dano potencial alto às comunidades.
Sandra é uma das ativistas que lutam contra a mineração no Pará. “Afetou sim, porque não tem mais como a gente usar o rio. Eles chamam de acidentes, a gente chama de crime ambiental mesmo. A água pura é contaminada pelos rejeitos, por lixo”, afirma.
Quilombos atingidos
Em Oriximiná, noroeste do Pará, os quilombos Boa Vista e Alto Trombetas ficam próximos de 11 barragens de mineração da empresa Mineração Rio do Norte (MRN), que explora bauxita na região do Vale do Trombetas. (Veja o mapa AQUI)
Manuel Edilson Santos, líder quilombola conhecido como “Munduca”, diz que vive há 46 anos com medo de um acidente. Ele mora na comunidade Boa Vista, localizada a 10 minutos de distância da barragem da MRN.
Este foi o primeiro quilombo a receber titulação no Brasil, em 1995, e lá vivem 50 famílias. Porém, a mineradora chegou antes que o Estado cumprisse seu papel, em 1979, de titular os territórios quilombolas. Desde então, as comunidades tiveram diversas modificações no espaço: primeiro, com a criação da vila de Porto Trombetas — feita para receber os funcionários da mineradora —, depois com práticas de despejo e criação de tubulações para derramamento em lagos.
Parte desses impactos só começou a ser corrigida após 1981, com a criação da Política Nacional de Meio Ambiente, que instituiu o licenciamento ambiental e planos de segurança.
“A gente fica a 100 metros de uma barragem dessas. Mora gente ao lado da barragem e na frente dela. Então, não tem como dizer que lá não há risco. Você não sabe a hora nem o momento em que ela pode estourar, entendeu? Já são muitos anos jogando lama nos igarapés”, explica Munduca.
A MRN promove diversas atividades de reconhecimento das comunidades quilombolas, como projetos educacionais, seminários e apoio às práticas extrativistas. Apesar disso, Munduca conta que os danos às famílias são constantes, pelo medo de usar as águas dos rios, pela perda do território e pelo receio de que um rompimento ocorra.
“Eu sou muito revoltado com o que acontece aqui. Imagina, eles fizeram um estudo de componente quilombola (documento que avalia impactos que empreendimentos podem causar em territórios quilombolas) com 600 páginas de documento. Você acredita que, dentro do território, os comunitários — que são em sua maioria semi-analfabetos — vão ter condições de entender a importância disso? É uma humilhação. É muito covarde, sabe?”, diz Munduca.
No caso das duas barragens da MRN que ameaçam a vida dos quilombolas da Comunidade Boa Vista, ambas têm dano potencial considerado médio. Isso significa que, em caso de rompimento, há possibilidade de perdas de vidas humanas, impactos ambientais e estruturais, segundo a ANM.
“Ela [a empresa] está tirando minério sem nenhuma preocupação. Para a mineração, tudo aqui está sendo feito com 100% de qualidade, com tudo em segurança, sem dano ao meio ambiente, mas isso não é real. Os nossos rios estão sujos”, diz Munduca.
A InfoAmazonia procurou a MRN e perguntou sobre os seus protocolos de segurança. Em resposta, a empresa informou que faz monitoramento das barragens 24h por dia e possui o Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG), estrutura que “garante a segurança dos reservatórios e barragens, com instrumentos automatizados que fornecem leituras diárias analisadas por toda a equipe do CMG e barragens”.
A mineradora informou, também, que todas as barragens foram vistoriadas por auditores externos, em 2024 e 2025, e que estão seguras: “A empresa também promove ações de conscientização, como seminários informativos e simulados, que mantêm comunidades próximas ao empreendimento e empregados informados e preparados para qualquer tipo de incidente, atuando preventivamente com a ampliação do conhecimento sobre o tema”, explicou.
Dez empresas concentram 77 barragens na Amazônia. São elas:
Mineração Rio do Norte S.A. (24),
Cooperativa Mineradora dos Garimpeiros de Ariquemes (9),
Vale S.A. (9),
Alcoa World Alumina Brasil Ltda. (7),
Mineração Taboca (6),
Salobo Metais S.A. (6),
Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Pontes e Lacerda (4),
Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Vila Nova (4),
Mineração Apoena S.A. (4)
e Salinas Gold Mineração (4).
Dessas, a Vale S.A., Mineração Taboca, Salobo Metais, Alcoa World Alumina Brasil têm casos de investigações de irregularidades no Brasil sob análise – processos judiciais ou denúncias feitas por comunidades ao MPF – ou rompimentos de barragens já ocorridos e denunciados à imprensa.
O Ministério Público Federal (MPF) recomendou, em 2021, a suspensão das atividades da barragem da Mineração Taboca S.A., após identificar vazamento de rejeitos no território do povo Waimiri Atroari.
Já a Vale S.A. foi responsável por dois grandes rompimentos de barragens no Brasil: os de Brumadinho e de Mariana, ambos no estado de Minas Gerais. A empresa também é dona da Salobo Metais S.A, que tem barragens na região. Em 2022, o Ministério Público do Trabalho do Pará pediu que a Justiça determinasse a retirada de 1.400 trabalhadores da área de risco, onde atuavam na barragem Mirim, no município de Marabá (PA).
Em 2019, a Justiça Federal determinou a proibição da entrada da Alcoa World Alumina Brasil no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, em Santarém (PA), sem a realização da consulta prévia, livre e informada às comunidades. A norma foi um pedido do MPF. O órgão afirmou em ação ajuizada que estavam ocorrendo assédios às comunidades, sem seguir o trâmite da consulta.
Todas as empresas citadas – Mineração Rio do Norte S.A., Cooperativa Mineradora dos Garimpeiros de Ariquemes, Vale S.A., Alcoa World Alumina Brasil Ltda, Mineração Taboca, Salobo Metais S.A, Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Pontes e Lacerda, Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Vila Nova, Mineração Apoena S.A. e Salinas Gold Mineração – foram questionadas pela InfoAmazonia sobre as vistorias realizadas no último ano, sobre os protocolos de segurança e a estrutura das barragens que possuem nos estados da Amazônia.
A Vale informou que todas as barragens possuem declaração de estabilidade positiva e são vistoriadas periodicamente e que as estruturas passam por inspeções rotineiras de campo, auditorias externas e são monitoradas permanentemente também pelo Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG), 24 horas por dia, durante todos os dias da semana.
“As barragens da Vale no Pará possuem declaração de estabilidade positiva e são vistoriadas periodicamente, de acordo com a legislação. A empresa não possui nenhuma barragem em nível de emergência no estado. As estruturas passam por inspeções rotineiras de campo, auditorias externas e são monitoradas permanentemente também pelo Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG). O CMG funciona por meio de sistema integrado com instrumentos, câmeras e acompanhamento de equipe técnica, que monitora as estruturas geotécnicas (barragens) da Vale, 24 horas por dia, durante todos os dias da semana.
Todas as barragens da Vale no Pará possuem Plano de Segurança de barragens, conforme previsto em lei. A empresa periodicamente, realiza conjunto de ações educativas de promoção da cultura de segurança sobre barragens. Entre elas, testes de sirenes e simulados de emergência, visitas às operações e seminários orientativos, cujo objetivo é aprofundar o conhecimento das pessoas sobre medidas de segurança de barragens e as ações de prevenção. Por fim, a Vale reitera o seu compromisso com a proteção das comunidades, do meio ambiente e com a segurança de suas estruturas”, disse a empresa.
A Mineração Apoena, da companhia Aura Minerals, explicou, via assessoria de imprensa, que todas as barragens passam por auditorias três vezes ao ano e inspeções regulares quinzenalmente . “Todas as nossas barragens estão regulares, todas atestadas dentro da regularidade. Além das auditorias externas exigidas por lei, a AURA cumpre com legislação e faz inspeções internas, regulares, com seu próprio time de especialistas, periodicamente, de forma regular”, disseram.
As outras empresas não responderam até a publicação da matéria.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira
Um dos maiores proprietários, operadores e desenvolvedores independentes de infraestrutura de comunicações compartilhadas do mundo em número de torres, a IHS Brasil – parte do grupo IHS Holding Limited (NYSE: IHS) (“IHS Towers”), apoiou o plantio de aproximadamente 20 mil mudas, cobrindo 10 hectares no município de Apuí (AM), no contexto da Iniciativa Café Apuí Agroflorestal.
Desenvolvida pela Amazônia Agroflorestal e Idesam, a iniciativa do Café Apuí Agroflorestal é responsável por implementar Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam espécies nativas e agrícolas, em mais de 260 hectares no município de Apuí, dos quais 23 foram apoiados pela IHS Brasil.
Desde o início da parceria da IHS Brasil com o Idesam, em 2021, mais de 44 mil mudas foram plantadas, refletindo o compromisso da companhia com a recuperação de áreas degradadas e o desenvolvimento sustentável da região amazônica.
Esta ação voluntária cobre o equivalente à área aproximada do programa de construção de torres greenfield da IHS Brasil em 2023. Além do impacto ambiental positivo, a iniciativa promove a produção sustentável de café, oferecendo uma alternativa de renda às comunidades locais e ajudando a fortalecer a economia regional.
Para o próximo ciclo de plantio, previsto para começar ainda este ano, a IHS Brasil plantará mais 25.000 mudas, expandindo significativamente o escopo e o impacto do projeto.
Michel Levy, CEO da IHS Brasil, afirma que o projeto representa o compromisso da companhia com a sustentabilidade e com as comunidades locais na Amazônia.
”Ao aliarmos a recuperação ambiental com a geração de renda para os produtores locais, estamos ajudando a criar um ciclo de desenvolvimento sustentável. A parceria entre a IHS Brasil e o Idesam tem se mostrado um modelo eficaz de colaboração entre o setor privado e as organizações de conservação ambiental, demonstrando como investimentos direcionados podem gerar benefícios ambientais e socioeconômicos significativos”, destaca Levy.
Para André Vianna, diretor técnico do Idesam, o apoio de parceiros estratégicos e de longa data, como a IHS, tem sido fundamental para o fortalecimento e a ampliação do impacto da iniciativa.
”Ao longo de quatro anos de parceria — incluindo o investimento no ciclo de plantio de 2025 —, a IHS tem contribuído ativamente para o desenvolvimento socioambiental de uma região com alto potencial para a redução do desmatamento, por meio da implementação de sistemas que aliam sustentabilidade e produção”, completa Vianna.