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Agricultores e povos indígenas conservam 70 mil hectares de florestas amazônicas

Foto: Divulgação/Agência Andina

Nos últimos seis anos, mais de 4 mil produtores agrícolas e comunidades indígenas impediram o desmatamento em aproximadamente 70.000 hectares de florestas amazônicas em Huánuco e Ucayali, no Peru, relatou Raquel Soto, vice-ministra de Desenvolvimento Estratégico de Recursos Naturais.

Este esforço destaca a implementação do projeto ‘Paisagens Produtivas Sustentáveis ​​na Amazônia Peruana’, liderado pelo Ministério do Meio Ambiente (MINAM), com apoio técnico do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Esta intervenção promove a gestão integral do território, em coordenação com atores públicos e privados; organizações de produtores e federações indígenas das regiões citadas.

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Nessa iniciativa, produtores agrícolas e povos indígenas adotaram práticas ambientais como o manejo integrado do solo, o uso de fertilizantes orgânicos, a proteção de fontes de água, a restauração florestal e a incorporação de sistemas agroflorestais e silvipastoris. “Essas medidas contribuem para a restauração dos serviços ecossistêmicos e o desenvolvimento sustentável das unidades produtivas”, afirmou.

Durante a visita à área de intervenção do projeto (29 e 30 de abril), a vice-ministra Raquel Soto e o representante do PNUD, Xavier Hernández, conversaram com produtores de cacau, óleo de palma e pecuária, que compartilharam os avanços alcançados por meio desta iniciativa para alcançar uma produção em equilíbrio com a natureza.

Nesse contexto, destacaram os avanços nos modelos de governança territorial, na capacidade técnica e nos mecanismos financeiros implementados pelas comunidades indígenas e pelos pequenos e médios produtores de ambos os departamentos. Também foram mostrados os resultados da produção sustentável de cacau e da pecuária; e foi dada ênfase à necessidade de replicar essas boas práticas.

O representante do PNUD, Xavier Hernández, expressou a disposição de sua instituição em continuar apoiando iniciativas que protejam a biodiversidade e as florestas, promovendo meios de subsistência sustentáveis ​​para o bem-estar das pessoas.

“Esta experiência demonstrou resultados de alto impacto com potencial transformador para fortalecer ainda mais a atividade produtiva em harmonia com a gestão sustentável dos ecossistemas da Amazônia peruana”, enfatizou.

Paisagens produtivas sustentáveis

O projeto (iniciado em 2018) demonstra que é possível desenvolver a produção em harmonia com a conservação dos recursos naturais. Seu objetivo é contribuir para a redução do desmatamento e a restauração florestal na província de Puerto Inca (Huánuco), bem como na província de Padre Abad e no distrito de Nueva Requena (Ucayali).

Cerca de 1.900 produtores de cacau, mais de 1.500 pequenos produtores de palma e 590 pecuaristas foram beneficiados. Todos eles realizam seu trabalho com padrões ambientais.

*Com informações da Agência Andina

Dia Mundial da Gaia, a mãe terra, nosso planeta

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Foto: Reprodução/NOAA – NASA

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

O 22 de abril (também data do descobrimento do Brasil) foi instituído como o Dia Internacional da Mãe Terra, visando gerar uma consciência universal sobre os problemas que afetam a qualidade de vida e sobre a importância da conservação da biodiversidade e outras preocupações ambientais vinculadas à proteção da Gaia, a Mãe Terra. A data foi criada pelo senador norte-americano Gaylord Nelson, no dia 22 de abril de 1970. Em 2025 a data tem como tema: O Nosso Poder, O Nosso Planeta. Efetivamente, mais do que uma oportunidade para conscientização ambiental, evidencia a oportunidade estratégica de repensar como o setor produtivo em todo o mundo – especialmente o agroindustrial – vem gerenciando os recursos naturais que sustentam suas operações. A propósito, em um ano em que o Brasil sediará a COP30, com foco na Amazônia — um dos territórios mais estratégicos do país e do planeta — é fundamental lembrar que a preservação do planeta começa com uma gestão eficiente da água, que ocupa papel-chave quando empreende estratégicas ações de liderança dessas transformações.

No conjunto do Universo (tudo o que existe, o espaço, o tempo, a matéria e a energia, incluindo astros como estrelas, planetas, galáxias e outros componentes), a água, particularmente, é o elemento essencial da produção agrícola. Cerca de 70% da água doce disponível no mundo é utilizada na agricultura. Ônus que a necessidade de produzir alimentos, inelutavelmente, impõe. No Brasil, esse percentual é ainda maior. Segundo estudos da Embrapa, já foram desenvolvidas tecnologias e modelos de negócio capazes de reverter o desperdício, aumentar a produtividade e, ainda, gerar valor ambiental mensurável. Entretanto, sem uma ação coordenada, continuaremos enfrentando riscos que podem comprometer a segurança alimentar e a estabilidade econômica do setor. De fato, ao que afiança artigo publicado no site Notícias Agrícolas, “a agricultura regenerativa, a digitalização da irrigação e o uso de ferramentas baseadas em dados estão se consolidando como vantagens competitivas”.

Esses elementos ajudam a construir cadeias de suprimentos mais resilientes e transparentes, reduzindo custos, elevando a produtividade, a previsibilidade e fortalecendo o vínculo com consumidores cada vez mais exigentes. Em outras palavras, “cuidar da água já não é apenas uma responsabilidade socioambiental: é inteligência empresarial”. Para atingir os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), uma coleção de 17 metas globais estabelecidas pela ONU em 2015, estão sendo estimuladas iniciativas sobre divulgação de compromissos ambientais nas redes sociais, organização e participação em eventos locais, inclusão de conteúdos sobre sustentabilidade nos programas educativos e apoio financeiro a projetos ambientais. A história tem demonstrado que ações coletivas geram mudanças significativas. Com o planeta a enfrentar desafios como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade, a mobilização de indivíduos, empresas e governos torna-se essencial. A “Earth Day Network” enfatiza que a preservação do ambiente depende do esforço conjunto de toda a sociedade.

De acordo com estudo publicado no site Notícias Agrícolas, face à proximidade da COP30, a se realizar em Belém do Pará, “o Brasil tem uma vitrine única para mostrar ao mundo que é possível produzir com responsabilidade. A agenda climática não avançará apenas com tratados e declarações, mas com ações concretas nos territórios — e muitos agricultores brasileiros já estão dando passos reais nessa direção. Com o apoio adequado, podem acelerar transformações fundamentais. Ao celebrar o Dia da Terra, o convite é claro: é hora de transformar o zelo com a água em uma vantagem competitiva. A sustentabilidade já não é um custo, é motor de inovação, reputação e crescimento. E quem entender isso primeiro, estará um passo à frente na construção de um futuro próspero — para os negócios e para o planeta”.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

3 coisas que você só encontra da Estação das Docas, em Belém

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Foto: Reprodução/Estação das Docas

A Estação das Docas é um símbolos turísticos de Belém (PA). É um complexo que reúne símbolos da cultura da região amazônica, unindo gastronomia, moda e diversos eventos ao longo do ano. Foi inaugurada em 13 de maio de 2000 e, nos 500 metros de orla, do antigo porto de Belém, possui 32 mil metros quadrados divididos em três armazéns e um terminal de passageiros.

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O Armazém 1 foi batizado de Boulevard das Artes, o Armazém 2 é da Gastronomia e o Armazém 3 é conhecido como o espaço para Feiras e Exposições. Os Boulevares são resultado do trabalho de restauração dos armazéns do local, que seria como porto. O complexo é administrado pela Organização Social Pará 2000.

Leia também: Seis lugares para desfrutar os encantos de Belém

De acordo com dados do site oficial, o local é um dos cartões postais mais visitados do Pará e “recebe em média um milhão e meio de visitantes ao ano”. Confira três coisas que você só encontra na Estação das Docas:

Boulevard das Artes

No Armazém 1, o que atrai os visitantes é uma exposição permanente que conta, através de peças, a história da navegação no Pará. O mesmo armazém possui lojas com produtos como biojoias, roupas e artesanato regional. A área também é um ponto de encontro para quem ama música, pois apresentações ocorrem regularmente, além dos projetos realizados nesta parte do complexo.

Foto: Reprodução/Estação das Docas

Boulevard da Gastronomia

Cairu. Essa palavra te lembra algo? A enciclopédia gastronômica TasteAtlas, responsável por elencar pratos e receitas de destaque em todo o mundo, inseriu, pela segunda vez, em 2024, o sorvete de açaí feito pela Cairu como um dos mais icônicos do mundo.

Foto: Geraldo Ramos/Estação das Docas

Presente na Estação das Docas, a sorveteria é apenas uma das atrações culinárias regionais que atraem apetites curiosos. O espaço conta com restaurantes e lanchonetes com cardápios que vão de pratos típicos e tradicionais à culinária internacional.

Leia também: Sorvete de açaí feito no Pará é eleito um dos mais icônicos do mundo pela segunda vez

Boulevard das Feiras e Exposições

Como bem designado, esta área, que tem como anexo o Teatro Maria Sylvia Nunes, é destinada a feiras, exposições, congressos, encontros, eventos sociais e variados, inclusive casamentos.

Foto: Reprodução/OCB PA

A orla do complexo é uma atração a parte, onde os visitantes podem apreciar a bela vista para a Baía do Guajará e aproveitar apresentações culturais gratuitas como os projetos Pôr do som e Cantando na Orla, além de diversas programações especiais.

COP30: população da Amazônia espera por água potável e saneamento

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A travessia por água dura em média 15 minutos. Foto: Márcio Ferreira/Agência Brasil

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro, na cidade de Belém, reunirá líderes mundiais com o objetivo de pensar e agir pelo futuro dos territórios urbanos e florestais do planeta diante dos desafios impostos pelo aquecimento global. Pela primeira vez, o principal palco das negociações mundiais sobre o tema será na Amazônia, um dos biomas mais estratégicos para esse debate, tanto pela riqueza de recursos naturais quando pela vulnerabilidade.

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Distante apenas 1,5 quilômetro do centro histórico de Belém, a Ilha do Combu é parte integrante da área insular da cidade, que representa 65% do território da capital, com 39 ilhas catalogadas pela Companhia de Desenvolvimento de Belém. Para acessar o local a partir da área continental, é necessário cruzar o Rio Guamá, em uma travessia que dura em média 15 minutos.

Leia também: Conheça um dos lugares mais visitados em Belém; A Ilha do Combu

população espera por água potável
Área de Proteção Ambiental (APA) da Ilha do Combu. Foto: Augusto Miranda/Agência Pará

Esse caminho é percorrido com frequência pelo comerciante Rosivaldo de Oliveira Quaresma, 49 anos, em busca de água mineral. Morador nascido e criado na ilha e proprietário de um restaurante, o comerciante diz que os maiores desafios de quem vive nesse lado da cidade são água potável e esgoto.

“Alguns turistas acham que a gente usa água do rio para fazer suco, para bater açaí. Aí a gente fala que a nossa água é desses tambores de 20 litros, e que é caro para a gente, mas não tem outra opção. Então, o consumo geralmente é água mineral”, explica.

De acordo com o comerciante, a água do Rio Guamá é utilizada apenas nos banheiros e para lavagem de roupa e de louça, após ser bombeada para uma pequena caixa d´água e passar por um tratamento caseiro. “O certo era mesmo fazer o puxado da água do rio, fazer um tratamento mais forte e botar numa caixa para 20 famílias. Lá na outra comunidade, botar para mais 20. Mas o problema é o valor que é caro para um ribeirinho fazer.”

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A travessia por água dura em média 15 minutos. Foto: Márcio Ferreira

Diferentemente da área continental da cidade, que na sua maioria é abastecida pela rede de distribuição ligada aos mananciais da Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Metropolitana de Belém, como os lagos Água Preta e Bolonha, grande parte da região insular depende de sistemas de distribuição independentes. A criação de infraestrutura também depende de um planejamento ambiental.

As ilhas não foram incluídas nas obras para a COP30, mas os comitês brasileiros co-organizadores apontam a realização de 30 obras na parte continental da cidade, entre as quais o serviço de macrodrenagem de 13 canais.

A Ilha do Combu é uma área de proteção ambiental (APA) criada há 28 anos pela Lei Estadual 6.083/1997 e gerida pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-bio). Em março, a instituição publicou uma nota informando que o plano de manejo para orientar o uso sustentável dos recursos naturais da ilha e definir o ordenamento territorial só começou a ser elaborado no último ano e está prestes a ser concluído, no entanto, não foi informado quando o documento estará disponível.

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Saneamento

O mesmo problema ocorre com o sistema de saneamento. A maior parte das 596 famílias que vivem na ilha possui fossa séptica, mas, com o turismo crescente no local, as estruturas existentes acabam não sendo adequadas para atender também os visitantes. “A gente não joga o esgoto no rio ou na mata. Mas, quando enche, a gente tem que tirar e jogar na mata, sempre. E a gente não tem um apoio até o momento para resolver isso”, explica.

As exceções são casos como o da professora aposentada Ana Maria de Souza, 61 anos, que, antes mesmo de empreender na ilha, decidiu adequar a própria moradia para hospedar turistas e oferecer refeições caseiras. Junto com a ampliação do local, a moradora da ilha decidiu construir uma fossa ecológica.

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Ilha do Combu. Foto: Agência Pará/divulgação

O modelo levado à região por pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) faz uso de tanques de evapotranspiração de baixo custo por usar entulhos e pneus como matéria-prima. Também usa plantas da região amazônica, como  bananeiras e helicônias, que possuem alto potencial de evapotranspiração (soma da evaporação da água pela superfície de solo mais a transpiração de plantas).

De forma prática, os dejetos percorrem diferentes materiais colonizados por bactérias que promovem uma digestão do esgoto sem a necessidade de oxigênio e, ao final, as plantas absorvem os líquidos devolvendo a água limpa à atmosfera pela evapotranspiração. “Eu posso dizer que eu estou muito feliz, porque eu também tenho a fossa ecológica na minha casa”, comemora.

De acordo com a presidente do comitê da COP30 no estado do Pará, Hana Ghassan, as obras estão dentro do cronograma e, até novembro, estarão concluídas. Até o momento, dois rios já foram canalizados. Os serviços incluem, além de canalização de rios, instalação de água esgoto e drenagem, além da pavimentação asfáltica nas ruas no entorno.

Leia também: COP 30: soluções sustentáveis devem liderar agenda climática, dizem especialistas

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Operação Combu. Foto: Ricardo Amanajás/Agência Pará

O técnico em eletrônica Glaybson Ribeiro, 46 anos, vive há 25 anos em uma casa às margens do canal da Rua Timbó, um dos dois locais onde as obras já foram concluídas. Ele considera que o investimento no saneamento da região trouxe uma mudança significativa.

“Antes era um sofrimento para a gente. Era uma chuva atrás da outra e todo tempo as casas ficavam cheias de água, e a gente colocava tijolo, madeira para levantar a geladeira, o fogão. A gente saia para trabalhar e tinha que deixar tudo suspenso”, lembra Ribeiro.

O vendedor de peixe Raimundo da Costa Nunes, 63 anos, mora há 40 anos na região e diz que precisou ao longo dos anos subir a estrutura da casa três vezes para não ser afetado pelas águas. Agora não precisa mais se preocupar com o problema. “Tem morador que fica xingando e perguntando “cadê as árvores?’ Melhor quente, sem a sombra, que cheio de água”, diz.

De acordo com Hana, a nova infraestrutura de saneamento já estava prevista na ação do governo estadual, por isso foi uma das primeiras a ficarem prontas. Com a conclusão das demais, o impacto positivo alcançará cerca de 900 mil pessoas, afirma a presidente do comitê.

A reportagem entrou em contato com o Ideflor-bio em busca de mais informações sobre o Plano de Manejo da Ilha do Combu, mas até a publicação da matéria não houve resposta.

*A repórter da Agência Brasil viajou a convite do governo do Pará.

Quais são os vínculos que te fortalecem?

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Carla é uma mulher na faixa dos seus trinta e poucos anos. Nasceu na Bahia em uma família de cinco irmãos, em que todos tiveram que trabalhar cedo para ajudar na casa. O estudo foi o básico. A escola era longe e o tempo de trabalho era a prioridade. Os pais de Carla eram semialfabetizados e, para eles, estudar não era tão importante quanto trabalhar bem na roça. Os irmãos mais velhos foram saindo de casa tão logo conseguiam, sendo as últimas, Carla, que era a caçula, e uma irmã, Maria, um pouco mais velha. Na adolescência, Carla viveu a fase mais difícil de sua vida. O pai, violento por natureza, agora sem os filhos homens em casa, dirigia toda a sua truculência para as mulheres. A terra dava cada vez menos, as dificuldades eram cada vez maiores e Jacinto, cada vez mais infeliz, descarregava na mulher e nas filhas todas as suas revoltas e frustrações. Carla, de temperamento forte, reagia e era a que mais apanhava.

Um dia Carla, Maria e a mãe, D. Rosa, fugiram para nunca mais voltar. Juntaram algum dinheiro para as passagens de ônibus, pegaram as suas trouxas, como elas diziam, e partiram para uma nova vida. Vida que não foi muito longa para D. Rosa, que não resistiu a uma forte virose da cidade grande.

Maria conheceu um pernambucano que também tentava a sorte em São Paulo, mas que não estava tendo sucesso. Ambos se apaixonaram e decidiram morar em Recife, onde ele era conhecido e conhecia gente, tendo mais chances de se estabelecer. Maria e Carla se despediram na rodoviária em prantos, algo dizendo a Carla, que elas nunca mais se veriam.

Sozinha, Carla seguiu vários caminhos, num processo de tentativa e erro, hora para cá, ora para lá, morando aqui e ali, trabalhando em um lugar ou em outro, “ficando” com este ou aquele homem que conhecia em algum baile, experimentando diferentes cidades, sem nunca fincar o pé. Carla vivia intensamente e a única coisa que sabia era que ela não queria criar vínculos. Nem com pessoas, nem com trabalho, nem com religião e nem com qualquer coisa. Carla entendia que ser livre e feliz era não ter vínculos. Os que tivera, a prenderam e a fizeram sofrer.

Mas Pedro chegou, uma criança fruto de um breve relacionamento, que seria abusivo, se Carla não reagisse imediatamente. Precisou de proteção da justiça, mas conseguiu afastar o homem, que nunca soube que Carla estava grávida. Melhor assim, pensou ela. Antes só do que mal acompanhada. Decidiu tornar-se a melhor mãe do mundo e oferecer a Pedro tudo o que a vida não a havia proporcionado.

Pedro agora tem 11 anos e o que mais Carla fez durante este período foi criar vínculos. Foi trabalhar em uma casa de família, onde teve condições de estudar. Pedro é tratado como um neto, com direito à festinha de aniversário e tudo mais. Carla se sente como da família, onde trabalhou por vários anos. Ela agora atua como cuidadora e sente-se realizada cuidando de pessoas, não se negando a criar vínculos emocionais com elas, mesmo quando sabe que não viverão muito tempo. Mora já há alguns anos com Carlos Eduardo e planejam oficializar o casamente na igreja que se filiaram e que são membros ativos.

O vínculo do filho mudou a vida de Carla e a fez criar outros elos fortalecedores. Somos seres que precisamos de raízes, de vínculos que nos sustentem em nossa jornada. Ao contrário do que nos diz uma cultura em que tudo é descartável, precisamos de tempo. Tempo de laços familiares, tempo de convívio, tempo de amizade, tempo de trabalho, tempo de fé, tempo de uma causa, tempo para formar um time, tempo para que as coisas se consolidem.

Sim, é verdade, tudo muda muito rapidamente, cada vez com maior velocidade, mas, quanto mais rápido as coisas mudam, mais valor tem o tempo e os vínculos por ele formados. Eles nos fortalecem e formam a nossa rede de proteção.

E você, já pensou quais são os vínculos que o fortalecem? Você investe em sua rede de proteção?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo para uso comum de território em Mato Grosso

Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN

Quando precisam de palhas para cobrir suas casas, moradores da comunidade ribeirinha da Barra do São Manoel (AM) e de algumas aldeias da Terra Indígena (TI) Munduruku (PA) acessam a TI Apiaká do Pontal e Isolados (MT), afinal o babaçu não é tão comum em seus respectivos territórios. Além das folhas da palmeira, eles também costumam pescar, caçar e coletar ovos de tracajá. Eventualmente os Apiaká também acessam os territórios desses vizinhos em busca de recursos mais abundantes nessas áreas. Esse intercâmbio acontece há muito tempo e agora foi formalizado. 

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Elaborado e assinado por lideranças das três partes envolvidas, o “Acordo de pesca e uso tradicional em consenso na área da Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados” engloba a região norte do território indígena e áreas adjacentes à foz do rio Juruena e à foz do Teles Pires (ou São Manoel), onde estão localizadas a comunidade ribeirinha e as aldeias Munduruku. 

Na região abrangida, serão permitidas atividades de pesca, coleta de frutos e extração de recursos florestais, mas apenas por pessoas das comunidades envolvidas e exclusivamente para consumo local, sendo proibida a comercialização externa. O objetivo é conservar os recursos naturais necessários para garantir a soberania alimentar, qualidade de vida e tradicionalidade na região. 

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Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo
Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo para uso de território – Foto: Adriano Gambarini/OPAN

“A gente entrou em consenso para trabalhar desta forma, um respeitando a situação e as necessidades do outro. Foi o melhor caminho que a gente encontrou junto com nossos parceiros e vizinhos. Esse acordo vai fazer parte do nosso PGTA (Plano de Gestão Territorial e Ambiental)”, explica Robertinho Morimã, cacique Apiaká da aldeia Matrinxã.

Com participação de lideranças Apiaká, Munduruku e da comunidade da Barra de São Manoel, o acordo foi firmado em março durante oficina para elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados, que não por acaso aconteceu na comunidade ribeirinha, região da tríplice fronteira entre Amazonas, Mato Grosso e Pará, justamente onde o Juruena e o Teles Pires convergem no Tapajós. 

Como esses rios são as únicas vias de acesso ao território Apiaká em sua fronteira norte, o acordo também é importante do ponto de vista de vigilância e monitoramento territorial. “Algumas aldeias dos parentes Munduruku e, principalmente, a comunidade da Barra estão na porta de entrada do nosso território. Eles estão aqui há muito tempo e vão ser nossos olhos nessa região, por isso é importante a participação e inclusão deles no nosso PGTA”, ressalta Raimundo Paigo, liderança Apiaká da aldeia Pontal. 

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Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo
Povo Apiaca rio Juruena. Foto: Túlio Paniago/OPAN

Por beneficiar todos os envolvidos conforme suas necessidades, essa iniciativa baseada no diálogo e na construção coletiva tem potencial de se tornar um exemplo positivo para construção de planos de gestão mais robustos, que considerem a área, o entorno e os diferentes atores envolvidos numa mesma conjuntura socioambiental.

“A novidade é o espírito agregador com o qual os Apiaká estão trabalhando. Além de abarcar uma discussão entre os moradores da terra indígena, também estão estendendo esse debate para os que têm relações fronteiriças com eles, de forma que se crie um contexto mais regional de proteção e de compreensão pelos melhores usos que se pode fazer dos recursos”, avalia Rinaldo Arruda, antropólogo e indigenista responsável por conduzir as oficinas de facilitação para a elaboração do PGTA Apiaká.

O documento, que vinha sendo costurado há anos, é composto por 21 artigos especificando cada pactuação. “A gente vem fazendo isso há muito tempo, mas foi bom colocar no papel. Agora cada um sabe exatamente o que pode retirar da terra indígena. E não é uma coisa que vai retirar pra prejudicar e nem pra vender. É um uso consciente e em consenso” reforça Antônio Fernandes, uma das lideranças da comunidade da Barra de São Manoel.

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Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN

Além das aldeias do povo Apiaká (Pontal, Kanindé, Matrinxã, Mayrowi, Três Marias lll) e da comunidade ribeirinha da Barra de São Manoel, também fazem parte do acordo aldeias da TI Munduruku mais próximas à foz do Teles Pires, no caso Patuazal, Santa Cruz, Primavera, Teles Pires, Restinga, Ariramba Teles Pires, Castanheira, Vista Alegre do Tapajós e Papagaio.

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Gestão compartilhada com o ICMBio

Em setembro de 2024, depois de mais de três décadas de mobilizações e articulações, a TI Apiaká do Pontal e Isolados foi oficialmente declarada pelo Estado brasileiro, embora ainda aguarde demarcação. Eles se orgulham de dizer que, durante essa longa luta pela retomada, nenhum Apiaká perdeu a vida. 

Esse caráter diplomático tem pautado as relações dos Apiaká com seus interlocutores, sejam eles parceiros, vizinhos ou órgãos governamentais. Um bom exemplo é a gestão compartilhada com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), resultante da sobreposição entre as áreas da TI Apiaká do Pontal e Isolados (MT) e do Parque Nacional do Juruena (PARNAju). 

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Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN

Como as dimensões do Parque são bem maiores, a parte sobreposta representa praticamente a área total da terra indígena. Assim, os Apiaká e o ICMBio, responsável por gerir unidades de conservação federais, fazem a gestão compartilhada da área sobreposta.

“É o estilo de trabalho do Apiaká que possibilita essa gestão conjunta. E agora ainda estão incorporando o uso em consenso de parcelas do território por comunidades ribeirinhas e outros indígenas. É uma maneira de enfrentar as pressões externas sem se indispor com os vizinhos, mas conseguindo alianças para fortalecer esse monitoramento. Estão somando esforços”, comenta Rinaldo Arruda.

A elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados tem se caracterizado por essa proposta diplomática e dialética, prezando pelo diálogo e a construção coletiva. O ICMBio também tem participado e contribuído com as discussões, afinal o PGTA Apiaká e o Plano de Manejo do PARNAju devem estar alinhados.

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Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN

“São dois instrumentos de planejamento e gestão para uma mesma área sobreposta. Eles têm muitas similaridades. Um PGTA não pode funcionar se não estiver alinhado ao Plano de Manejo da unidade de conservação. Da mesma forma, quando a gente for fazer a revisão do Plano de Manejo, é importante a participação dos indígenas. Afinal, como vamos atualizar sem consultar quem será diretamente afetado?”, pontua Juliana Carvalho Arantes, analista ambiental do ICMBio.

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PGTA Apiaká e as próximas etapas

No que diz respeito ao processo de construção do PGTA, a gestão compartilhada do território e o termo de uso em consenso são temas relacionados aos eixos “Território e Ambiente” e “Organização Social e Governança”. Nos próximos encontros serão definidos os acordos dos três eixos temáticos restantes: Economia; Saúde e Segurança Alimentar; Educação e Cultura. O trabalho será concluído em 2026.

Os PGTAs refletem a gestão do território em aspectos sociais e ambientais. É um instrumento de luta política que reúne as principais diretrizes de cada povo no que diz respeito à história, organização social e política, cultura, educação, saúde, geração de renda, vigilância, monitoramento, alimentação e demais questões relevantes ao povo.

Povos indígenas e comunidade ribeirinha fazem acordo
Acordo dos povos Munduruku e Apiaká. Foto: Túlio Paniago/OPAN

Além de uma série de acordos internos sobre diversos temas, os PGTAs reúnem instrumentos de gestão (etnomapeamento e etnozoneamento) dos territórios e constituem importante ferramenta política e de autonomia comunitária, afinal possibilitam que os povos projetem suas vozes em questões de soberania e conservação ambiental.

A elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados e a implementação do PGTA do povo Rikbaktsa são eixos estruturantes do Berço das Águas, projeto realizado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) junto aos povos Apiaká e Rikbaktsa, com patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental. 

Número de queimadas reduziu quase 100% nos primeiros meses de 2025 no Acre, aponta Inpe

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Foto: Neto Lucena/Secom AC

Em meio ao inverno intenso, o número de queimadas reduziu quase 100% nos primeiros quatro meses de 2025 no Acre, segundo o painel de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Por meio da plataforma, é possível verificar que foram 8.551 focos detectados pelos satélites do órgão no segundo semestre do ano passado. Já no primeiro quadrimestre deste ano, que coincide com a época de chuvas em todo o estado, conhecida como inverno amazônico, foram apenas 43 queimadas. A redução é de 99,5%.

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O ano começou com a maior quantidade de registros para o mês de janeiro na série histórica no Acre, com 43 focos de calor detectados. Até então, no monitoramento que começou em 1998, o maior número detectado havia sido de 24 queimadas em 2022.

A partir de fevereiro, quando começaram as chuvas intensas em vários pontos do estado, o número começou a cair. Ainda nos quatro primeiros meses do ano, pelo menos 10 municípios do Acre ficaram em situação de emergência por conta da elevação de rios e igarapés.

Na capital, pelo menos 169 famílias chegaram a ficar em abrigos da prefeitura.

Historicamente, o período endêmico dos focos de calor costuma ser durante o verão amazônico, nos meses após a incidência de chuvas, já que costumam ser provocadas para a limpeza de terrenos e pastagens, além da incineração de lixo.

Ainda pelo painel do Inpe, é possível perceber que, a partir de maio, os números começam a subir gradualmente.

Os piores períodos costumam ser no segundo semestre. O índice alcançado nos últimos seis meses de 2024 equivale a 99% do acumulado no ano, que foi de 8.658 queimadas, maior número desde 2022, com aumento de 32% na comparação com 2023.

Cinco cidade entre as mais poluídas

Com o município de Sena Madureira em segundo lugar, pelo menos cinco cidades acreanas apareceram no ranking das 10 mais poluídas do país em 2024, de acordo com um levantamento da plataforma IQ Air, que mede a qualidade do ar em vários pontos do planeta e disponibiliza os índices online.

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O monitoramento utiliza o Índice de Qualidade do Ar (AQI, na sigla em inglês), métrica usada internacionalmente no acompanhamento da poluição do ar no mundo todo. O AQI consiste nos microgramas de partículas por metro cúbico (µg/m³).

Confira o ranking:

  • Porto Velho (RO) – 29,5 µg/m³
  • Sena Madureira (AC) – 27.3 µg/m³
  • Rio Branco (AC) – 23.6 µg/m³
  • Osasco (SP) – 22,1 µg/m³
  • Rio Claro (SP) – 20,8 µg/m³
  • Ribeirão Preto (SP) – 19,9 µg/m³
  • Carapicuiba (SP) – 19,4 µg/m³
  • Xapuri (AC) – 19,1 µg/m³
  • Manoel Urbano (AC) – 18,7 µg/m³
  • Santa Rosa do Purus (AC) – 18,7 µg/m³

Um dos principais fatores que contribuíram para a poluição do ar de cidades acreanas foram as queimadas. O ano de 2024 fechou com 32% de aumento na comparação com 2023.

Durante o verão, período em que o estado também enfrentou a seca de rios e igarapés devido à falta de chuvas, os números de incêndios urbanos e rurais foram alarmantes, e fizeram com que a qualidade do ar fosse prejudicada.

Rio Branco chegou a ter a pior qualidade entre as capitais e as aulas chegaram a ser interrompidas em municípios do estado por conta do avanço da fumaça.

O geógrafo da organização não-governamental (ONG) SOS Amazônia, Hugo Monteiro, destaca que o cenário das queimadas foi preocupante em todo o país. Ainda segundo Monteiro, as cidades do Norte ocuparam a maior parte das posições do ranking de cidades mais poluídas graças aos altos índices de queimadas registrados na região.

“A região que mais registrou focos de queimada, de acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)- e o bioma amazônico foi o mais atingido – registrou mais de 140 mil focos de queimada. E aí, mesmo com a queda do desmatamento, a gente sabe que teve uma queda no desmatamento. Mas o número de desmatamento ainda é muito grande, e a gente sabe que essa queda não tem muito o que comemorar, porque mesmo que não haja desmatamento, se há queimada, não tem como a árvore se recuperar após o fogo”, afirma.

*Com informações da Rede Amazônica AC

Como secas extremas podem redefinir o futuro dos peixes na Amazônia

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Carcaça de peixe no leito seco do Lago Tefé durante a estiagem de 2024. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta

Em setembro de 2024, a paisagem no Médio Solimões, no estado do Amazonas, contrastava com sua exuberância habitual. “Quando estávamos chegando em Tefé, e o avião se preparava para pousar, fui impactada ao ver tudo muito seco, com bancos de areia se multiplicando por entre as águas”, descreve a bióloga Susana Braz-Mota.

O Lago Tefé integra a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, uma área de 1,12 milhão de hectares formada por florestas de várzea, alagadas sazonalmente pelos rios Solimões e Japurá. Toda a região é, normalmente, um mosaico de águas com grande importância ecológica.

Durante a cheia, o Rio Solimões traz consigo sedimentos e nutrientes que fertilizam as terras alagáveis, sustentando toda a fauna e a flora. A abundância de recursos nessas áreas reguladas pelos ciclos naturais de inundação favorece a diversidade de peixes na reserva: 541 espécies catalogadas, o que corresponde a 20% de toda a diversidade da bacia amazônica.

Mas a seca histórica de 2023, seguida por uma enchente fraca em 2024, alterou drasticamente o ambiente, forçando os peixes a sobreviver em águas rasas e mais quentes que o habitual.

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Susana viajou de Manaus a Tefé com o também biólogo Rafael Duarte para investigar os impactos da estiagem sobre os peixes da Amazônia. Cientista amazonense, ela está habituada à imensidão dos rios, mas ouviu dos pescadores frases que se tornaram comuns no período: “já havíamos visto secas antes, mas nunca uma tão forte como essa”.

A baixa histórica dos rios expôs os peixes a múltiplos riscos: desde os efeitos do calor em seus organismos até impactos na reprodução e na cadeia alimentar dos habitats. Embora essas pressões afetem todas as espécies, há a preocupação de que peixes de interesse pesqueiro para as comunidades amazônicas estejam entre os mais sensíveis às mudanças nos pulsos de inundação.

Paisagem do Lago Tefé em setembro de 2024, durante seca história. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta

Lago Tefé: antes e depois

A Amazônia já está entre 0,6 ºC e 0,7 ºC mais quente, segundo acompanhamento dos últimos 40 anos. Com o planeta caminhando para um aquecimento de 2 °C em relação à era pré-industrial, as temperaturas na região podem subir ainda mais neste século, chegando a aumentar entre 3 °C e 4 °C, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Temperaturas elevadas já alteram o ciclo de chuvas na Amazônia. Em 2023, a bacia enfrentou uma combinação de seca intensa com ondas de calor sem precedentes, resultando na perda de 3,33 milhões de hectares de superfície de água – o equivalente a três vezes a área de Manaus ou a 22 vezes a da cidade de São Paulo.

O Lago Tefé tornou-se um exemplo contundente dessa transformação. Entre setembro e outubro de 2023, sua área encolheu em 75%, passando de 379 kmpara      95 km2, com apenas meio metro de profundidade nos pontos mais rasos. No mesmo período, a temperatura da água atingiu a máxima de 41 ºC, permanecendo acima de 37 ºC por dias consecutivos — acima da média usual para a mesma época do ano, entre 29 ºC e 30 ºC.

Nos últimos dois anos, os baixos níveis dos rios dominaram a agenda de pesquisas e reuniões de Ayan Fleischmann, especialista na dinâmica das águas do Instituto Mamirauá      e residente de Tefé. Segundo ele, os ribeirinhos costumam dizer que, após uma seca extrema, vem uma cheia igualmente extrema. “De fato, quando chegamos em janeiro, o rio começou a subir muito. Mas, em fevereiro, estagnou”, relata.

Em junho de 2024, período que costuma marcar o auge da cheia, os rios estavam abaixo da média, deixando muitos igapós sem alagamento no Lago Tefé. Como referência de comparação, o nível do Rio Solimões, em Coari, chegou a 16,14 metros em 30 de junho, abaixo dos 17,83 metros registrados em 2023 e dos 18,8 metros de 2022, nas mesmas datas.

Tefé, a maior cidade do Médio Solimões, tem 73.669 habitantes, segundo o censo de 2022. Assim como a fauna e a flora, as comunidades locais dependem dos pulsos de inundação dos rios para pesca e transporte. Com a seca, esse equilíbrio foi rompido, revelando um cenário de insegurança alimentar e dificuldade de acesso a serviços básicos.

Carcaça de peixe na beira do Lago Tefé durante a estiagem de 2024. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta

A temperatura da água ameaça a biodiversidade dos peixes?

“Compreender o limite térmico dos peixes é essencial para prever quais espécies são mais resistentes ao aumento da temperatura”, explica Rafael, que há mais de 20 anos estuda os peixes amazônicos.

Diferentemente de nós, humanos, os peixes dependem de fontes externas de calor para regular a temperatura corporal. Por isso, quando a temperatura do ambiente muda, seu organismo precisa se ajustar para sobreviver a condições mais adversas.

Leia também: Como as mudanças climáticas afetam os peixes da Amazônia?

“Em águas mais quentes, os peixes gastam mais energia para manter funções básicas, como se alimentar, reproduzir e nadar”, explica Susana. “Esse esforço extra os torna mais vulneráveis a problemas como parasitas e até danos ao material genético.”

As mudanças climáticas podem tornar as condições da bacia amazônica ainda mais extremas. Temperaturas elevadas reduzem a quantidade de oxigênio dissolvido na água, ao mesmo tempo que aumentam a necessidade de mais oxigênio para os peixes, dificultando a respiração e comprometendo seu metabolismo. Isso pode desacelerar o crescimento dos juvenis e aumentar o estresse fisiológico.

No auge da estiagem de 2023, Susana esteve no Lago Janauacá, na região metropolitana de Manaus, onde registrou níveis de oxigênio de apenas 0,5 mg por litro — perigosamente próximos de zero. Em condições como essa, o calor extremo e a baixa oxigenação tornam-se letais, como ocorreu em Tefé e Janauacá, onde comunidades relataram alta mortalidade de peixes.

Os biólogos Rafael Duarte e Susana Braz-Mota capturam peixes em Tefé para seus experimentos. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta

Espécies diferentes de peixes reagem de formas distintas às variações de temperatura no ambiente. Estudos conduzidos por Susana e Rafael em Tefé mostraram que o aracu (Schizodon fasciatus), com potencial de produção pesqueira de 4.660 toneladas, é particularmente vulnerável. Quando exposto a temperaturas próximas ao seu limite, a espécie sofre um estresse que altera a estrutura celular, podendo danificar o DNA e causar mutações.

Já o tambaqui (Colossoma Macropomum), cujo consumo no Amazonas chega a 60 mil toneladas por ano, demonstrou tolerar temperaturas acima de 40°C em testes experimentais. No entanto, essa resistência não representa uma margem de segurança: exposições prolongadas ao calor podem causar efeitos deletérios antes mesmo de provocar a morte.

Expostos a temperaturas entre 29 °C e 30 °C, tambaquis juvenis apresentam menor crescimento devido à dificuldade de converter alimento em energia. Em testes até 38°C, os peixes exigiram mais oxigênio para manter funções básicas – um fator preocupante durante secas extremas, quando o oxigênio na água também é mais escasso.

Diante dessas evidências, a pesquisa sobre a tolerância térmica dos peixes tem um potencial preditivo: em um futuro mais quente, ou com mais secas, é possível presumir que as espécies mais sedentárias terão mais chances de sobreviver, pois gastam menos energia para manter suas funções básicas em meio à adversidade.

Mas ainda que essa previsão se confirme, restaria a dúvida: sobreviver em que condições? Tendo em vista os efeitos que a temperatura acarreta nos animais, ainda assim estaríamos diante de um cenário de peixes menores e vulneráveis a doenças.

Secas recorrentes como a de 2023 representam um grave risco à biodiversidade dos peixes da Amazônia. Essas espécies evoluíram ao longo de milhões de anos em vastas áreas, com recursos abundantes e temperaturas estáveis.

Eventos extremos, porém, alteram drasticamente essas condições, podendo levar à seleção de algumas espécies e à redução das mais de 2.300 já descritas.

“Para a Amazônia, menor biodiversidade também significa perda de qualidade de vida para quem vive aqui”, destaca Susana.

No entanto, Rafael destaca que transpor as conclusões obtidas no ambiente controlado de um laboratório para o ambiente natural é um desafio. Afinal, diversos fatores de risco presentes em um habitat podem influenciar a resposta dos peixes à temperatura. “Em Tefé, por exemplo, há intenso tráfego de barcos, e estamos investigando se a contaminação por óleo dos motores afeta negativamente sua capacidade térmica”, aponta.

Pescador procura por peixes em lago reduzido no Parque Nacional de Anavilhanas, em novembro de 2023. Foto: Tiago da Mota e Silva/ INCT Adapta

Lagos rasos e quentes: uma tendência pelo mundo

O que aconteceu na Amazônia chamou a atenção de pesquisadores ao redor do mundo. Um deles é Priit Zingel, da Estônia. Em 2023, ele visitou a região pela terceira vez para conduzir estudos em dois lagos: Janauacá e Lago do Prato, este situado no Parque Nacional de Anavilhanas, a nove horas de barco de Manaus pelo Rio Negro.

“Presenciar aquela seca foi um grande impacto para mim”, recorda Zingel. “Quando conheci a Amazônia, a imensidão das águas me trouxe uma sensação de liberdade, de possibilidades infinitas. Sabíamos antecipadamente que a situação era extrema, mas vê-la de perto foi deprimente”.

Zingel estuda lagos ao redor do mundo, com foco nos chamados “lagos rasos”. Assim como muitos lagos amazônicos, esses ecossistemas possuem profundidade suficiente para que a luz solar alcance o fundo, geralmente até 5 metros, permitindo o crescimento de plantas aquáticas.

Na Amazônia, lagos conectados a rios, como o Tefé, também permitem a migração de peixes entre habitats. Durante a estiagem, esses lagos oferecem refúgio e alimento aos animais, graças à abundância de plantas aquáticas. No entanto, variações intensas no nível da água podem transformar o habitat, afetando a disponibilidade de nutrientes e a competição por recursos.

Outros lagos ao redor do mundo enfrentam desafios semelhantes. No continente africano, o Lago Chade encolheu de 25 mil km² nos anos 1960 para apenas 2,5 mil km² nos anos 1980, mas vem se recuperando desde então. Na Bolívia, o Lago Poopó secou completamente em duas ocasiões, em 2015 e 2021.

Diante desses desafios, Zingel investiga os impactos de longo prazo das oscilações no nível da água sobre os peixes, comparando a relação entre tamanho e peso em 10 espécies diferentes. As amostras foram coletadas em duas secas amazônicas: uma típica, em 2019, e a extrema de 2023. Os resultados são contundentes: com a seca severa, as proporções entre tamanho e peso dos peixes ficaram menores, tanto os sedentários quanto os mais ativos, como as piranhas.

Mesmo que algumas espécies tolerem águas mais quentes, as variações no nível dos lagos criam desafios para os peixes de maneira geral. “Todos esses fatores afetam a dinâmica das populações. Com eventos como esse se tornando frequentes, é razoável presumir que as espécies mais resistentes se tornem dominantes”, pondera Zingel. “Mas, se muitas espécies forem perdidas, as populações remanescentes se tornam mais vulneráveis e o ecossistema como um todo perde resiliência.”

Quais espécies de peixes podem ser mais vulneráveis a eventos de seca extrema?
Características principaisPor quê?Exemplos de espécies
Peixes de média migraçãoSão peixes que desovam em lagos, várzeas ou canais secundários. Suas larvas dependem da segurança e dos nutrientes que essas áreas proporcionam. 1, 2Pacu, tambaqui
Peixes de longa migraçãoSão espécies que percorrem longas distâncias rio acima para desovar, com ovos e larvas transportados pela correnteza até áreas de crescimento. Secas intensas podem interromper esse ciclo ao reduzir a conectividade entre rios e lagos. Além disso, são espécies que costumam apresentar taxas metabólicas mais elevadas, e por isso, são mais vulneráveis ao aumento da temperatura. 1, 2Dourada, piramutaba, piraíba, jaraqui, curimatã
Peixes que vivem nos limites de sua tolerância à temperaturaPeixes que já vivem em ambientes de temperatura elevada e podem atingir seu limite térmico durante secas extremas, tornando-se mais vulneráveis ao estresse e à mortalidade. 3, 4, 5Aracu, matrinxã, sarapó
Peixes de metabolismo mais intensoVivem mais próximos à lâmina d’água e dependem de alta disponibilidade de oxigênio para sustentar seu metabolismo acelerado. 6, 7Tucunaré, bicuda, piranha

Pesca ameaçada

Três fatores são cruciais para entender o impacto das estiagens extremas sobre a pesca: mortalidade, crescimento e reprodução dos peixes. A combinação de altas temperaturas da água e baixa oxigenação já impõe um risco iminente nessas três frentes.

Como as pesquisas indicam, mesmo os peixes que sobrevivem a esse ambiente alterado não encontram condições ideais para crescer. Além disso, o estresse térmico pode comprometer a reprodução, afetando a qualidade do esperma e o desenvolvimento das larvas. Por fim, a desconexão entre lagos e rios impede a migração, um processo essencial para os ciclos reprodutivos de muitas espécies.

Carlos Edvar de Freitas, professor da Universidade Federal do Amazonas, engenheiro ambiental e especialista em pesca, alerta que todos os peixes com ciclos reprodutivos sincronizados aos pulsos dos rios estão em risco. Entre eles estão espécies de grande interesse pesqueiro, incluindo migradores de longas distâncias, como a piraíba e a dourada, e peixes que desovam em lagos no início da enchente, como o tambaqui e o pacu.

Pescadores do Lago Tefé durante a seca em setembro de 2024. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta

“Há uma palavra-chave para quem trabalha com pesca: recrutamento. É o momento em que os peixes jovens se juntam ao estoque de adultos”, explica Carlos. “Uma seca extrema pode atrasar a desova de muitas espécies amazônicas. Em outros casos, a desova ocorre, mas as larvas se tornam presas fáceis no leito do rio, sem conseguir alcançar os lagos. Tudo isso reduz o recrutamento, um impacto que só será percebido na próxima temporada de pesca”.

Por isso, leva tempo para compreender plenamente o impacto de uma seca na população de peixes. Um estudo publicado em 2024 analisou dados de pesca no Baixo Amazonas e confirmou que a produtividade é diretamente influenciada por eventos climáticos que alteram os habitats. No entanto, a pesquisa utilizou dados coletados entre 1993 e 2005, o que evidencia o hiato entre a pesquisa de campo e a publicação dos resultados — que ainda não considera os impactos das secas extremas deste século.

Ainda há poucos estudos que relacionam a produtividade da pesca com variáveis ambientais e fisiológicas dos peixes. Como destaca Carlos, os estudos existentes são, em sua maioria, conduzidos por universidades, com financiamentos pontuais, e não integram uma política pública regional de monitoramento.

“Faltam dados de captura para modelar os estoques pesqueiros. Mas essa não é uma tarefa que os pesquisadores podem realizar sozinhos”, defende Carlos. “A estatística deve ser conduzida pelos governos estaduais, com apoio do governo federal. Essa precisa ser uma informação de Estado.”

Eventos extremos mais frequentes: e agora?

Para Carlos, ignorar esses riscos é preparar o terreno para uma crise futura. Na Amazônia, a pesca de pequena escala é fundamental para a segurança alimentar e a redução da pobreza, gerando receitas de aproximadamente 465 milhões de dólares por ano e mais de 160 mil empregos. Em uma região onde o consumo de peixes está entre 130 e 180 kg por pessoa anualmente, a atividade pesqueira sustenta milhares de famílias e a economia local.

Leia também: 72% dos moradores da Região Norte acreditam que eventos climáticos extremos foram piores em 2024

Desde que voltou de Tefé, Susana tem percorrido congressos para alertar sobre a gravidade da seca e o risco de sua repetição. No entanto, mesmo com a paciência necessária para explicar, repetidamente, um problema de importância crucial, sua decepção é evidente.

“Eventos extremos como o que vivemos não são isolados e tendem a se repetir com consequências cada vez mais graves. A maior parte das discussões e das estratégias de mitigação ainda está concentrada nas regiões Sul e Sudeste, enquanto o Norte, que desempenha um papel crucial no equilíbrio climático global, permanece subrepresentado”, desabafa. “Precisamos de políticas e investimentos que considerem as particularidades da região e a urgência da situação”.

Solo rachado do Lago do Prato, no Parque Nacional de Anavilhanas, durante a seca histórica de 2023, em novembro. Foto: Tiago da Mota e Silva/INCT Adapta

Carlos Freitas integra um grupo que lançou um documento com recomendações para políticas públicas diante da seca. No curto prazo, o documento propõe mudanças na política do defeso, ajustando o período de proibição da pesca de certas espécies quando há previsão de estiagens severas. Além disso, sugere a inclusão de novas espécies na lista de proibição, caso sua vulnerabilidade a eventos extremos seja comprovada. O documento também reforça a necessidade de intensificar a fiscalização contra a pesca ilegal, evitando a captura de peixes imaturos antes de seu recrutamento.

Em médio prazo, recomenda-se o investimento na aceleração da coleta de dados e no aprimoramento das ferramentas de previsão dos impactos nos estoques pesqueiros. Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, a informação é a melhor forma de prevenção. “Além disso, a Amazônia precisa de canais de comunicação entre a universidade, os tomadores de decisão e as comunidades ribeirinhas”, defende Carlos.

Referências

1 Duponchelle F, Isaac VJ, Rodrigues Da Costa Doria C, et al. Conservation of migratory fishes in the Amazon basin. Aquatic Conserv: Mar Freshw Ecosyst. 2021; 31: 1087–1105. https://doi.org/10.1002/aqc.3550
2 Siqueira-Souza F, Deus CP, Amadio S, et al. Secas extremas podem impactar a pesca na Amazônia. 2024.
3 Dichiera A, Jung E, Oyinlola M, Brauner C. Limited Thermal Capacity of Amazonian Fishes to Survive in a Warming World. In: Souza S, Braz-Mota S, Val A (ed). The Future of Amazonian Aquatic Biota. Springer, 2024.
4 Braz-Mota S, Duarte RM, Val AL. Contrasting thermal and hypoxic responses of species from blackwater and whitewater rivers. Journal of Fish Biology, 1–14, 2025. https://doi.org/10.1111/jfb.70059
5 Campos DF de, Mota SB, Almeida-Val VMF de, Val AL. Glycolytic modulations and antioxidant capacity in Amazonian fish, Bryconops giacopinii (Characiformes: Iguanodectidae), living at high temperature. Neotrop ichthyol [Internet]. 2024;22(2):e230130. https://doi.org/10.1590/1982-0224-2023-0130
6 Braz-Mota S, Almeida-Val VMF. Ecological adaptations of Amazonian fishes acquired during evolution under environmental variations in dissolved oxygen: A review of responses to hypoxia in fishes, featuring the hypoxia-tolerant Astronotus spp. J. Exp. Zool, 335, 771–786, 2021. https://doi.org/10.1002/jez.2531
7 Braz-Mota S, Val AL. Fish mortality in the Amazonian drought of 2023: the role of experimental biology in our response to climate change. J Exp Biol 1 September 2024; 227 (17): jeb247255. https://doi.org/10.1242/jeb.247255

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Tiago Mota e Silva

Produção de tambaqui cresce 20% em dois anos em Roraima

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Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica RR

A piscicultura em Roraima vem ganhando força e está se consolidando como uma das principais atividades econômicas do estado. A produção de pescado no estado chegou a 23.100 toneladas em 2024, um salto de 20% em relação às 19.200 toneladas em 2022, conforme dados do Anuário 2025 da Peixe BR, a Associação Brasileira da Piscicultura que monitora o setor no país.

A principal espécie criada em Roraima é o tambaqui, que responde pela maior parte da produção. Atualmente, o estado tem 6.634 hectares de lâmina d’água, o que corresponde a de 5.191 viveiros em operação.

Leia também: Artigo sobre gene codificador do hormônio de crescimento do tambaqui é publicado em revista internacional

Todos são utilizados para a criação de peixes em sistemas semi-intensivos e intensivos. Municípios como Amajari, Alto Alegre, Cantá, Boa Vista e Mucajaí lideram o ranking estadual de produção, com destaque para a infraestrutura e a organização dos produtores nessas regiões.

Outro fator que tem contribuído para a consolidação da piscicultura é o fortalecimento do cooperativismo. A Cooperativa Agrícola de Roraima (COPARR), por exemplo, reúne dezenas de piscicultores que atuam juntos na produção e comercialização do tambaqui.

Um dos cooperados é o piscicultor Luiz Rodrigues, que também atua como diretor tesoureiro da COPARR. Segundo ele, o crescimento da criação de peixes está ligado a rentabilidade da atividade.

“O cenário é otimista. Muitos produtores passaram a investir na piscicultura por causa da rentabilidade do setor. Hoje, só na cooperativa, a produção cresceu 60% em dois anos. A creditamos que em 2025 vai aumentar, pois conseguimos novos cooperados”, destacou.

Cerca de 85% do peixe produzido em Roraima é destinado ao mercado de Manaus, no Amazonas. O restante atende à demanda local. A atividade é responsável pela geração de emprego e movimentação econômica em dez dos quinze municípios.

Mas, apesar a expansão, o setor enfrenta por alguns desafios. Conforme o piscicultor Luiz Rodrigues, a logística do estado tem afetado a criação de peixes. “Hoje, toda ração que alimenta os animais vem de fora, isso encarece o custo de produção. As condições das estradas não ajudam. No inverno, algumas propriedades tem dificuldade para transportar os peixes”, destacou.

Para manter o ritmo de crescimento nos próximos anos, o setor aposta na ampliação de mercados e em investimentos em tecnologia e capacitação.

*Por Raquel Maia, da Rede Amazônica RR

Bionegócio sustentável: comunidade indígena peruana produz mel de abelha sem ferrão

Foto: Divulgação/Agência Andina

Um dos projetos sustentáveis ​​promovidos na região de Loreto, no Peru, são os bionegócios, como a extração de mel de abelhas sem ferrão. Este produto natural é desenvolvido por moradores da comunidade nativa Maijunas, localizada às margens do barranco Sucusari, um afluente do Rio Napo, na província de Maynas.

Leia também: Meliponicultura: Entenda o universo das abelhas sem ferrão na Amazônia

O mel é hoje consumido por mais pessoas devido aos seus nutrientes e à sua importância na melhoria da saúde, segundo estudos do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP).

As abelhas estão entre os insetos mais importantes do mundo porque são essenciais para a preservação do ecossistema e a produção de alimentos. Entre as diversas espécies de abelhas que habitam a vasta Amazônia, há uma que foi ignorada por décadas, apesar de guardar segredos enormes e pouco estudados: a abelha sem ferrão da Amazônia, espécie valorizada hoje por sua essência, que permite o desenvolvimento de produtos medicinais para consumo humano.

Cerca de 170 pessoas vivem na comunidade de Maijunas. Seu fundador, Dom Sebastián Ríos Ochoa, conta que a maioria das famílias se dedica à preservação das abelhas sem ferrão com o objetivo de melhorar o processo produtivo e artesanal de criação da espécie de forma natural no município citado e nas áreas rurais. Naquela época, a produção de mel na Amazônia era artesanal. Ao longo dos anos, o projeto também adquiriu um foco de sustentabilidade, com o apoio de especialistas na área. 

Leia também: Em município paraense, mel de abelhas sem ferrão gera renda e promove conservação ambiental

Douglas Ríos é um dos principais coletores de mel de “caixas racionais”, utilizando seringas para evitar vazamentos e danos às estruturas da colmeia amazônica. A técnica tradicional usada pelos Maijunas para obter mel de abelhas nativas se baseia na busca por ninhos selvagens na selva, geralmente localizados no oco do tronco de uma árvore, viva ou morta, e no acesso à estrutura da colmeia onde o mel e o pólen são encontrados.

Atualmente, entre as comunidades indígenas e mestiças, o mel das abelhas nativas é vendido em mercados informais ou trocado por necessidades básicas. Também é usado para preparar bebidas alcoólicas que são consumidas em eventos sociais.

Através de estudos compilados pelo IIAP, esses usos deslocam o valor medicinal tradicional do mel, cujos benefícios ou “receitas” servem para curar ou tratar: gripe, problemas brônquicos, mulheres com infertilidade, reumatismo, coqueluche, tosse, anemia, artrite e também para fortalecer o sangue e fortalecer o corpo e o espírito. 

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Foto: Divulgação/Agência Andina

O mel geralmente é vendido em garrafas plásticas recicladas de refrigerantes ou outras bebidas, normalmente com 625 ml de volume.

Com 391.000 hectares designados para conservação, o povo Maijuna agora sonha e luta para preservar e utilizar de forma sustentável os recursos naturais de seu habitat e da bacia do Rio Napo.

*Com informações da Agência Andina