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Pesquisa propõe biorrefinaria para ampliar o potencial econômico de espécies amazônicas

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Foto: Reprodução/Fapespa

A Amazônia se destaca como a maior reserva mundial de biodiversidade e variabilidade genética de plantas, animais e microrganismos, com mais de 30 mil espécies vegetais ainda pouco exploradas. Apesar de todo esse potencial, a cadeia produtiva dos recursos vegetais da região ainda é limitada. A maior parte da produção está voltada ao fornecimento de ingredientes de alto valor agregado, destinados, principalmente, a grandes indústrias nacionais e internacionais.

Nesse contexto, a iniciativa da biorrefinaria busca estudar a biodiversidade amazônica por meio do aproveitamento total de matéria-prima extraída da floresta, inclusive dos resíduos, visando ao reaproveitamento de todos os recursos naturais, promovendo a melhoria da qualidade de vida das comunidades, a oferta de novos produtos, a diminuição do impacto ambiental e o estímulo à sustentabilidade e à bioeconomia regional.

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A adoção do conceito de biorrefinaria para frutos amazônicos prevê o uso de técnicas ambientalmente inovadoras, como os processos de alta pressão, para extrair diferentes frações dessas matérias-primas. O objetivo, futuramente, é gerar bioprodutos de alto valor agregado, como óleos essenciais, extratos bioativos e funcionais, que poderão ser utilizados em embalagens biodegradáveis, alimentos, cosméticos, medicamentos ou bioinsumos agrícolas.

Biorrefinaria busca sustentabilidade 

Essa proposta inovadora, financiada pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), objetiva agregar valor a todas as etapas da cadeia produtiva dos vegetais, aplicando tecnologias sustentáveis que possam ser utilizadas tanto pelas empresas, quanto pelas comunidades que produzem a matéria-prima, reaproveitando resíduos, e assim permitindo a geração de renda para esses produtores durante todo o ano, e não apenas na entressafra.

A pesquisadora Luiza Helena Meller da Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), está à frente do estudo BIORE-AMAZÔNIA – Biorrefinaria das cadeias de frutos Amazônicos: uma abordagem para intensificação da recuperação de óleos essenciais, moléculas bioativas e produtos de alto valor para ampliar o retorno econômico e social para os produtores do Pará.

Ela lidera uma equipe de pesquisadores da Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), que trabalha em parceria com a empresa 100% Amazônia, localizada no município de Abaetetuba, na Região de Integração Tocantins, no nordeste paraense.

Leia também: Pesquisadores desenvolvem projeto de valorização de resíduos florestais com nanomateriais

Pesquisa propõe biorrefinaria para ampliar o potencial econômico de espécies amazônicas
Foto: Reprodução/Fapespa

A partir dos resultados dos estudos, a pesquisa mostrou que a ucuúba, árvore típica da Amazônia, pode ser usada de forma sustentável para produzir tanto uma manteiga estável e rica em compostos benéficos, quanto extratos antioxidantes de alto valor.

O pracaxi, outra árvore amazônica, de cujas sementes se extrai óleo, também foi estudado pelos pesquisadores, que manipularam o óleo e os resíduos. Esse aproveitamento integral abre caminho para novos produtos nas áreas de cosméticos e saúde, trazendo benefícios econômicos e ambientais para a região.

O projeto da biorrefinaria foi iniciado em 2023, de acordo com a liberação dos recursos do Programa Amazônia +10, uma vez que as FAPs (Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa) foram repassando os fomentos gradativamente, conforme o andamento das pesquisas.

Amazônia +10 

O projeto faz parte da primeira chamada da Iniciativa Amazônia +10, Programa que oportunizou os estudos de 500 pesquisadores, em 20 estados. Os investimentos foram viabilizados por meio das FAPs, totalizando R$ 41,9 milhões, distribuídos entre as 39 propostas apresentadas por 18 estados da Federação e pelo Distrito Federal.

Estas Instituições atuam em sinergia no estudo de propostas de biorrefinarias para matérias-primas selecionadas, viabilizando o uso integral dos resíduos do processo. Com os resultados expressivos das pesquisas, houve o desenvolvimento de equipamentos específicos para as matrizes amazônicas, elaboração de material didático para a coleta, armazenamento e transporte dos resíduos gerados no processo de produção em cadeia de frutos amazônicos, e treinamento dos profissionais em boas práticas de fabricação.

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Construção coletiva 

A bioeconomia baseia-se no uso sustentável para gerar produtos e serviços, sendo alternativa para combater o impacto ambiental e gerar renda para comunidades locais. A proposta do estudo parte da construção coletiva das demandas regionais, e está alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU (Organização das Nações Unidas), e aposta na integração entre grupos de pesquisa, gestão pública e setor privado para promover uma bioeconomia mais inclusiva e sustentável na Amazônia.

O destaque na importância do estudo com a proposta da biorrefinaria é “gerar processos e produtos que possam promover a ampliação de renda e a diminuição do impacto ambiental através da agregação de valor, principalmente, dos resíduos que até o momento são descartados como lixo”, reforçou a pesquisadora Luiza Helena Meller da Silva.

Foto: Reprodução/Fapespa

Para o presidente da Fapespa, Marcel Botelho, “agregar valor aos produtos da sociobioeconomia é a chave para avançarmos na geração de renda local. Atrelado a isso, teremos mais empregos para nossa população e um fortalecimento de todos os elos das cadeias produtivas”.

O governo do Estado impulsiona projetos sustentáveis, e “a Fapespa, como financiadora, tem papel fundamental na viabilização das etapas experimentais e pagamento de bolsas de pesquisa para os discentes do projeto”, completou a pesquisadora.

*Com informações da Fapespa

Cinema amazonense cruza fronteiras: ‘Dasilva Daselva’ é destaque no Festival Internacional FIFAC 2025

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Foto: Divulgação

Após conquistar três prêmios no Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, o documentário amazonense “Da Silva da Selva”, dirigido por Anderson Mendes, dá mais um passo importante em sua trajetória, pois foi selecionado para a competição internacional de curtas-metragens do Festival International du Film documentaire Amazonie Caraïbes (FIFAC), que acontece de 7 a 11 de outubro de 2025, na cidade de Saint-Laurent-du-Maroni, na Guiana Francesa.

Leia também: Documentário recria mundo imaginário do artista amazonense Da Silva da Selva

O filme será exibido na tarde deste sábado, 11 de outubro, no histórico Théâtre Kokolampoe, um dos principais palcos culturais do país e sede das mostras do FIFAC. Em Manaus, “Dasilva Daselva” conquistou os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Atuação (para o ator Moacy Freitas) e Prêmio Especial do Júri na 7ª edição do Festival Olhar do Norte, consolidando-se como uma das produções mais reconhecidas da recente safra do cinema amazonense.

Saiba mais: Festival Olhar do Norte 2025: confira todos os ganhadores

Um mergulho no universo de Da Silva da Selva

O documentário retrata o universo do artista plástico amazonense Da Silva da Selva, autodidata e visionário, cuja obra revela um mundo amazônico fantástico, onde ciência, espiritualidade e imaginação se entrelaçam. Mesmo diante da perda progressiva da visão, o artista manteve uma produção intensa e simbólica, criando um legado que transcende o tempo e o espaço.

Realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, o filme conta com apoio do Governo do Amazonas, do Conselho Estadual de Cultura e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, por meio do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

“Estar no FIFAC 2025 é uma honra imensa para nós”, afirma o diretor Anderson Mendes. “Depois do reconhecimento em Manaus, levar o filme para um festival internacional na Guiana Francesa é um passo simbólico e potente.

documentário Dasilva Daselva
Foto: Divulgação

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O FIFAC é uma vitrine da produção documental da Amazônia e do Caribe, territórios com histórias e culturas únicas. Exibir a obra de Da Silva da Selva no Théâtre Kokolampoe é celebrar sua coragem artística e a força da arte amazônica”.

O ator Moacy Freitas, que também participa do filme, ressalta a importância do reconhecimento: “Ver ‘Dasilva Daselva’ alcançar um festival como o FIFAC me enche de orgulho. É uma oportunidade de mostrar o que se faz aqui na Amazônia com arte e alma. Levar nossas cores e nossa cultura para um público tão diverso fortalece nossa produção e nos inspira a continuar criando”.

Sobre o festival

O FIFAC chega à sétima edição consolidado como o principal festival de documentários da Amazônia e do Caribe francófono. A programação reúne filmes de 18 territórios diferentes, incluindo 32 produções — entre longas, curtas, séries e webdocs — que exploram temas ligados à identidade, meio ambiente, diversidade e cultura amazônica.

As exibições acontecem em espaços históricos do Camp de la Transportation, como o Manguier, o Lavoir e o Théâtre Kokolampoe, com entrada gratuita. Além das sessões competitivas, o festival promove encontros profissionais, debates, mostras temáticas e atividades formativas.

Mais informações e a programação completa estão disponíveis no site oficial: festivalfifac.com.

Sobre Saint Laurent-du-Maroni

Localizada às margens do rio Maroni, na fronteira com o Suriname, Saint-Laurent-du-Maroni é uma cidade marcada pela história e pela diversidade cultural.

Conhecida por abrigar o antigo presídio da Guiana Francesa, hoje transformado em espaço cultural, o município tornou-se um polo de convivência entre tradições amazônicas, caribenhas e europeias — cenário ideal para o FIFAC, que reflete essa pluralidade de vozes e olhares.

Aleam apresenta leis voltadas às mudanças climáticas e desastres naturais no Amazonas

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Foto: Danilo Mello/Aleam

A forte chuva registrada no início da tarde de domingo (5/10) em Manaus, que durou aproximadamente 40 minutos, causou alagamentos em vários pontos do Centro da cidade. Também houve desabamento de casas, queda de árvores e destelhamento de imóveis devido à força dos ventos.

Em sintonia com medidas voltadas a amenizar os impactos das mudanças climáticas e dos desastres naturais, a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) apresenta Leis e Projetos de Lei (PLs) para proteger a população amazonense.

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O presidente da Aleam, deputado Roberto Cidade (União Brasil), afirmou que o Parlamento Estadual tem compromisso com a proteção da população e do meio ambiente.

“Nosso papel é criar leis que previnam desastres naturais, garantam respostas rápidas em situações de emergência e assegurem o apoio necessário às comunidades atingidas. Atuamos com responsabilidade e sensibilidade, conscientes de que cuidar das pessoas e do nosso território é uma prioridade permanente”, afirmou.

O deputado destacou que encaminhou reiteradas indicações à Prefeitura de Manaus, por meio do Requerimento nº 3.898/2024, solicitando a criação de um Comitê Municipal Permanente de Crise, com o objetivo de monitorar e atuar de forma antecipada diante de situações emergenciais.

A solicitação teve como base dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que aponta Manaus como a capital brasileira com o maior número de alertas de desastres emitidos em 2024.

Leia também: Nova lei estimula geração de renda e inclusão digital de jovens amazonenses

Outra medida defendida pelo parlamentar é a Lei nº 6.528/2023, de sua autoria, originada do PL nº 289/2023, que estabelece diretrizes gerais para a elaboração de planos de adaptação às mudanças climáticas.

“No Amazonas, as cidades localizadas às margens dos rios convivem com a realidade da subida e descida das águas, principalmente aquelas situadas em áreas planas, o que acarreta mudanças bruscas na vida das famílias. O município de Barreirinha, situado no Baixo Amazonas, é exemplo desse processo. Localizada em área de várzea, a cidade é atingida todos os anos pelo fenômeno natural das cheias, sofrendo constantes impactos ambientais, sociais e econômicos”, explicou o deputado.

Foto: Michel Castro/Rede Amazônica AM

A Lei nº 6.186/2023, originada do PL nº 460/2021, também de autoria de Roberto Cidade, isenta o cidadão do pagamento de taxas para emissão da segunda via de documentos danificados ou extraviados em decorrência de desastres naturais.

“A proposta isenta o cidadão que sofreu perdas em virtude de catástrofes naturais, notadamente por inundações ou incêndios, do pagamento de taxas para solicitar a confecção da segunda via de documentos emitidos pelo Estado do Amazonas”, detalhou o parlamentar.

Semana de conscientização

A Aleam também aprovou a Lei nº 7.707, de 16 de julho de 2025, originada do PL nº 917/2024, de autoria do deputado Comandante Dan (Podemos), que institui a Semana Estadual de Conscientização e Prevenção contra Desastres Associados a Fenômenos Naturais e à Ocupação Urbana.

O parlamentar destacou que, nos últimos anos, o Amazonas tem sido palco de eventos climáticos extremos que evidenciam a urgência de ações preventivas e de conscientização sobre os desastres associados a fenômenos naturais.

“A cheia histórica de 2022 submergiu cidades inteiras, deslocando milhares de pessoas e destruindo infraestrutura vital. Em seguida, a estiagem severa de 2023 atingiu os 62 municípios do estado, decretando situação de emergência generalizada. Esse fenômeno reduziu os níveis dos rios a patamares alarmantes, isolando comunidades ribeirinhas e agravando a escassez de recursos básicos, como água potável e transporte fluvial”, afirmou.

Conheça os ‘Bens Culturais Imateriais Registrados’ nos estados da Amazônia Legal

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Ofício, saberes e práticas das parteiras tradicionais fazem parte de bens imateriais do país. Foto: Reprodução

“O patrimônio cultural imaterial é tudo aquilo que dá sentido à memória e à identidade coletiva de um povo, mas que não é físico, concreto, material. Ele aparece nos saberes e modos de fazer, nos rituais, nas danças, nas músicas, nas festas e nos lugares marcados pelos afetos coletivos. É aquilo que não se pega com as mãos, mas se sente na fala, no gesto e no convívio, como os ensinamentos que recebemos dos nossos avós. São os laços e vínculos que sentimos durante uma celebração ou a maneira como se faz um bordado. Esse patrimônio é vivo, transmitido de geração em geração, e está sempre mudando com as pessoas e os territórios onde acontece”.

É com essa descrição e cerca de dois mil documentos relacionados a todo o patrimônio cultural imaterial do Brasil que foi criado um acervo digital público na plataforma ‘Bem Brasileiro’.

A plataforma foi desenvolvida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e o Laboratório de Inteligência de Redes da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade de Brasília (FCI/UnB). 

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No total, 59 Bens Culturais Imateriais Registrados fazem parte da plataforma e boa parte também está presente nos Estados da Amazônia Legal, pois alguns são de abrangência nacional, portanto se repetem em vários estados.

Fotos, vídeos, arquivos em texto e publicações variadas fazem parte do acervo dos bens que foi disponibilizado desde o dia 8 de outubro. O presidente do Iphan, Leandro Grass, destacou que, entre os bens, estão formas de expressão e celebrações como o Círio de Nazaré, do Pará.

Leia também: Patrimônios imateriais: sete manifestações culturais da Amazônia registrados pelo Iphan

Ainda que com o objetivo de manter as informações públicas para acesso geral, de todo cidadão, a plataforma tem como público-alvo pesquisadores, estudantes e também os detentores do patrimônio imaterial.

Confira os bens já registrados que fazem parte dos Estados da Amazônia Legal:

Acre

Grafismos do povo Huni Kuĩ, no Acre, fazem parte de acervo de bens imateriais brasileiros
Grafismos do povo Huni Kuĩ. Foto: Reprodução/Iphan

Amapá

Em uma roda de marabaixo, Danniela Ramos (ao centro) canta em homenagem à avó, Benedita Guilherma Ramos, a Tia Biló, falecida seis meses antes, aos 96 anos. Macapá, Amapá. Junho de 2022. Foto: Reprodução/Iphan

Amazonas

Maranhão

Oficina de percussão – tambor de crioula – com o Mestre Ivan Madeira. 2017. Foto: Roberto Castro/MTur

Mato Grosso

Pará

Círio de Nazaré. Foto: Luiz Braga/Iphan

Rondônia

Roda de Capoeira. Foto: Reprodução/Iphan

Roraima

Projeto Inventário das Parteiras Tradicionais do Brasil. Foto: Eduardo Alcântara

Tocantins

Boneca Karajá. Foto: Telma Camargo

Acesse o acervo completo AQUI.

Rizoma da fé: a Basílica Santuário como ente essencial de Belém

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Foto: Luiza Amâncio/UFPA

Na manhã do segundo domingo de outubro, Belém do Pará acorda em estado de comunhão. Milhares de pessoas, de pés descalços e dispostas a cumprir promessas durante quilômetros, se aglomeram nas ruas. No ar, cheiro de vela e miriti. Um mar de mãos erguidas acompanha a berlinda que conduz a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Nesse instante, a cidade inteira parece se inclinar para um único ponto: a Basílica Santuário, destino e origem do Círio

Leia também: Círio de Nazaré: o material e o imaterial compõe a maior celebração católica do mundo

Para o arquiteto e pesquisador Wagner José Ferreira da Costa, autor da tese ‘A Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré: geração, vivificação e retroalimentação das dimensões material e festiva do bairro de Nazaré em Belém do Pará‘, que dedicou mais de dez anos de vida acadêmica ao estudo desse templo, não se trata apenas de uma igreja.

A Basílica é um organismo vivo, uma árvore cujas raízes se entrelaçam no imaginário coletivo e cujas copas se estendem pelas ruas, capelas e instituições do bairro Nazaré. Um rizoma da fé que conecta, torna vívido e retroalimenta a vida material e festiva da cidade.

“Eu sempre tive essa ideia de entender a Basílica como um livro, mas também como uma árvore. Ela é um ente que gera e regenera, que se conecta a outros espaços e pessoas. É raiz e é copa. É material e é espiritual. Meu trabalho foi tentar mostrar como isso se dá de forma concreta em Belém”, explica Wagner.

A vida de um pesquisador enraizada no sagrado

A trajetória do pesquisador ajuda a compreender a sensibilidade que o levou a mergulhar tão fundo nesse objeto de pesquisa. Nascido em Marituba, cresceu próximo aos rios, às matas e à religiosidade popular amazônida.

“Venho de uma família católica, mas sempre flertei com outras tradições, com o misticismo, com a psicologia e com a antropologia. Essas influências me ajudaram a olhar para a Basílica não apenas como arquiteto, mas também como alguém interessado nos símbolos e na alma do lugar”, conta.

Desde a graduação na UFPA, sua relação com a Basílica foi se fortalecendo, e foi no doutorado que a Basílica se consolidou como centro simbólico e afetivo. “Eu diria que esse templo me escolheu. Não foi só uma escolha racional. A Basílica estava sempre ali, me chamando, me desafiando”, revelou.

Assim, na tese, defendida em 2024, o arquiteto elaborou a metáfora que se tornou marca de sua pesquisa: a Basílica-arborizante. Ele a compara a uma árvore que nasce de uma semente (o imaginário mariano da Virgem), cresce em tronco (Primeira Ermida e Atual Basílica ) e se abre em copa, conectando-se a outros espaços.

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basílica de nazaré em belém
Foto: Reprodução/Basílica de Nazaré

Mas diferente de uma árvore isolada, essa faz rizomas — conceito de Gilles Deleuze e Félix Guattari que se opõe a ideias fixas e hierárquicas (como uma árvore com raízes) e representa uma rede flexível, sem centro, onde tudo pode se conectar a tudo — e se expande. Em resumo, enquanto árvores são sistemas rígidos e hierárquicos, os rizomas são modelos abertos e adaptáveis que atravessam o bairro, conectando-se a outras capelas, instituições e práticas festivas. 

“O bairro Nazaré não pode ser entendido sem a Basílica. Ela é raiz de pertencimento e força de identidade. É o coração que pulsa, mas também as veias que irrigam”, escreveu o pesquisador. E, segundo ele, essas conexões ficam visíveis durante o Círio. As ruas se iluminam, os prédios se enfeitam e arcos se erguem em homenagem a Santa. Cada gesto urbano é um galho dessa árvore simbólica.

“O templo não é só o prédio. É também o entorno, as manifestações, os gestos que acontecem a partir dele. É um sistema arbóreo-rizomático que mantém a cidade unida”, defende Wagner.

O pesquisador destaca, também, o papel de instituições vizinhas, como o Colégio Gentil Bittencourt, que, por exemplo, guarda memórias de gerações que viveram a festa como rito de passagem e, ainda hoje, realiza uma missa que antecede a Trasladação, que é o cortejo de Nossa Senhora até a Igreja da Sé, no sábado antes do Círio. “Esses lugares são raízes secundárias, são outros ‘pontos’ no bairro Nazaré. Todos respondem ao influxo da Basílica”, explica.

Mais que documentos e livros, a pesquisa foi feita de imersão. Wagner participou de quatro Círios consecutivos (2020 a 2023), atuou na Pastoral do Turismo, guiou visitantes estrangeiros em português, inglês e até japonês. Levou fiéis do mundo inteiro a conhecer o templo, enquanto observava como cada gesto, cada olhar, revelava novas dimensões do sagrado. E, até a pandemia de covid-19, que interrompeu cortejos e silenciou ruas, trouxe outro tipo de revelação. 

“Nem mesmo o coronavírus foi capaz de derrubar a força arborizante da Basílica”, escreveu Wagner. Para ele, o templo permaneceu como referência simbólica mesmo quando as procissões não puderam acontecer. Casas continuaram enfeitadas, velas continuaram sendo acesas em silêncio, orações foram transmitidas por telas. O rizoma da fé resistiu.

Mito vivo

Tema central da pesquisa, o Círio é definido por Wagner como mito vivo ao explicar a origem, ao mesmo tempo que se atualiza. “O Círio é mito porque nos conta a história de Nossa Senhora de Nazaré, mas é vivo porque acontece todo ano, sempre igual e sempre diferente. Ele se reinventa sem perder sua essência”, afirma o pesquisador.

Para ele, acompanhar o Círio não é apenas observar um evento religioso, é perceber como a cidade inteira se reorganiza em função dele. O trânsito se altera, os comércios mudam horários, famílias se preparam com meses de antecedência. “É como se Belém inteira fosse atravessada pela corda do Círio. Todos estão conectados a esse mito vivo”, comenta.

Um rizoma que resiste

Ao final, a tese reafirma: a Basílica é um ente essencial. “Primeiro se instalou o imaginário da Santa, depois suas ermidas e a matriz, e então a Basílica. A partir daí, surgiram ambiências festivas, identitárias e afetivas que moldaram o bairro e a cidade. Esse ente arbóreo estende suas raízes e copas para além de sua redoma, arquetipando um verdadeiro sistema Arbóreo-Rizomático”, escreve.

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Essa árvore simbólica não deixa de crescer. Todos os anos, em outubro, novos galhos se abrem, novas gerações são incorporadas, novas promessas se amarram à corda do Círio. O rizoma da fé continua a se expandir, sustentado por raízes profundas que mantêm Belém fincada  em sua tradição, mas aberta à renovação constante da vida e da festa.

A tese ‘A Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré: geração, vivificação e retroalimentação das dimensões material e festiva do bairro de Nazaré em Belém do Pará foi defendida por Wagner José Ferreira da Costa, em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU/ITEC), da Universidade Federal do Pará, sob orientação da  professora Cybelle Salvador Miranda.

*Com informações da UFPA

‘Marca Amazônia’ integra presença dos destinos da Região Norte no mercado global

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Foto: Márcio Menasce/Embratur

A promoção conjunta da Amazônia pelos estados da Região Norte está mais próxima. A Embratur participou, no dia 8 de outubro, do lançamento nacional da ‘Marca Amazônia‘, na ABAV Expo 2025, no Rio Centro, no Rio de Janeiro (RJ). O presidente da Agência, Marcelo Freixo, também se reuniu com secretários de turismo dos estados da Região Norte para articular o lançamento internacional da marca, que acontecerá na World Travel Market (WTM) Londres, em novembro.

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Fruto da parceria entre a Embratur e a Rotas Amazônicas Integradas (RAI), grupo formado por representantes dos sete estados da Região Norte, a Marca Amazônia vem para fortalecer a região como produto turístico internacional, valorizando e dando protagonismo a indígenas, caboclos, ribeirinhos, quilombolas e seringueiros.

O lançamento regional da logo aconteceu durante a apresentação do Plano Brasis 2025–2027, realizada em Boa Vista (RR) no início de agosto.

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A nova marca também inaugura um segmento turístico inédito no Brasil: o turismo de transformação, vivenciado a partir da visita à Amazônia brasileira, que transformam para sempre o visitante e, também, o mundo, ao promover a conservação e divulgar a importância e os saberes da floresta, que podem ser encontrados em entre os Estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, lembrou que o fortalecimento da Amazônia como produto turístico único é uma saída para combater o garimpo, o desmatamento e outras atividades ilegais da região. “Para combater as atividades ilegais, a gente tem que criar atividades legais. E o turismo é a solução. O turismo é que vai gerar emprego, vai gerar renda, o turismo de base comunitário, a economia verde”, elencou.

“A gente sabe o quanto isso é importante. Nós vamos ter uma COP30 na Amazônia, uma COP capaz de debater de forma profunda o que é a floresta, levando todos os chefes de estado do mundo para dentro de um estado amazônico. Então essa é uma responsabilidade muito grande na hora de pensar a economia, desenvolvimento, mas sempre de forma sustentável. E o mundo não será sustentável se não tiver a Amazônia. Parabéns ao trabalho de vocês”, disse Freixo.

Superintendente Estadual de Turismo de Rondônia, Gilvan Pereira Junior, ressaltou a importância da parceria da região com a Embratur.

“A Embratur tem sido um órgão essencial para o desenvolvimento do turismo da Amazônia. Estamos com todos os secretários estaduais reunidos aqui na ABAV Expo, e esse alinhamento [entre estados e a Agência] tem impulsionado o turismo de maneira técnica e profissional e nos ajuda a nos conectar com outros países, a saber quais são os potenciais que temos e entrar de uma maneira bem estruturada no mercado internacional para poder alcançar nosso objetivos”, afirmou.

 lançamento nacional da 'Marca Amazônia', na ABAV Expo 2025
Foto: Lucas Silva/Amazonastur

Protocolo de intenções

Outra ação da Embratur nesta quarta na ABAV Expo foi a assinatura de um protocolo de intenções com Amazonas Destination. A iniciativa formaliza uma parceria voltada para promover o estado do Amazonas no mercado internacional. O foco principal da colaboração será o segmento de Turismo de Negócios e Eventos (MICE), setor de alto valor agregado e prioritário no Plano Brasis, o plano de marketing internacional do Brasil.

O documento estabelece diretrizes para atuação conjunta em ações de marketing e promoção e prevê a participação do estado em feiras, campanhas e o desenvolvimento de produtos turísticos para atrair eventos de grande porte para a região. A assinatura reforça a posição da Amazonas Destination no turismo local e destaca o compromisso da Embratur com a internacionalização de destinos brasileiros.

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Parintins, no Amazonas
Parintins. Foto: Lucas Silva/Amazonastur

O presidente Marcelo Freixo assinou o documento ao lado dos diretores executivos da Amazonas Destination, Jaime Mendonça de Souza Junior e Luciana Kalvon. O grupo é uma DMC (Destination Management Companies) – empresa especializada em fornecer serviços e expertise incluindo lazer, cultura, eventos e outros segmentos, com o objetivo de atrair turistas de lazer e de negócios.

“Com esse termo de cooperação nós queremos trazer cada vez mais eventos e visitantes para o estado do Amazonas. O Amazonas, enquanto destino, está se reinventando. Manaus (AM) é um grande portão de entrada, uma cidade linda com uma história incrível, agregada a destinos de natureza, com navegação nos rios, hotel de selva, e a possibilidade de interiorização do estado, que é lindo, tem um povo muito hospitaleiro e belezas naturais sem fim”, comemorou Mendonça.

*Com informações da Embratur

Do Rio a Belém: ambientalista promove educação durante viagem de bicicleta

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Ambientalista viaja de bicicleta até Belém. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Por muitas gerações, a bicicleta é usada como um meio de locomoção e para a prática de esportes. Crianças e adolescentes veem nas duas rodas a liberdade de explorar novos limites e adultos têm os pedais como aliados para chegar mais rápido e gastando menos.

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Embora o desejo pela bicicleta tenha dado lugar aos jogos eletrônicos e a conteúdos digitais, o meio de transporte ainda é uma alternativa barata e que não prejudica o meio ambiente, além de promover saúde. Pensando nisso, o geógrafo e ambientalista Leandro Costa decidiu dar mais um uso ao veículo, transformando em um instrumento de educação ambiental.

“A gente precisa que o problema da mudança climática seja levado para o dia a dia da vida das pessoas. A gente fala muito em ações pensadas na esfera federal ou estadual, mas as pessoas não sabem como agir e como isso vai impactar na vida delas. E a bicicleta é um impacto positivo gigante”, avalia.

Com a confirmação de que a 30º Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) ocorreria este ano na cidade de Belém, no Pará, Leandro decidiu percorrer o caminho do Rio de Janeiro, onde mora, até a capital paraense de bicicleta.

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Pelo caminho, planejou encontros com crianças e jovens para conversar sobre a aventura de 3,5 mil quilômetros e o impacto da escolha da bicicleta como meio de transporte para o planeta e para o futuro de quem vive nele.

ambientalista Leandro Costa viaja do rio a belem para cop 30 de bicicleta Foto Fabio Rodrigues-Pozzebom Agência Brasil
No meio da viagem de 3,5 mil quilômetros até Belém, o geógrafo e educador ambiental Leandro Costa faz uma parada em Brasília Foto; Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

“É preciso discutir emergencialmente isso dentro das escolas, dentro das comunidades, enfim, em todo o ambiente da sociedade civil organizada, para que a gente traga essas questões para a vida das pessoas”, acredita.

Segundo o geógrafo, o caminho entre as cidades – Rio e Belém – inspirou uma reflexão sobre o que já foi percorrido entre a Eco 92, ocorrida no Rio de Janeiro, e que foi a primeira conferência para tratar sobre o tema climático, e a COP30, que é como se fosse um retorno ao começo três décadas depois. 

“A partir daí eu também quis ter uma visão de como as pessoas veem essa COP aqui no Brasil e entender como elas podem fazer parte disso”, explicou.

Com o apoio das embaixadas da Bélgica e da Holanda e do Instituto Piabanha, Leandro viabilizou o projeto e já percorreu quase metade do caminho. 

“É um trabalho não só de sensibilizar as pessoas sobre as mudanças climáticas, mas também de nos fazer refletir sobre o que cada um pode fazer, e até mesmo de encorajar negociadores de seguirem até terem um bom resultado, sem parar, até o final”, reforça o embaixador da Bélgica no Brasil, Chris Hoornaert, ao receber o ciclista em Brasília.  

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Impacto positivo

Ao longo do trajeto, Leandro disse que conversa com crianças e adolescentes sobre a COP30 e a necessidade de cada um contribuir para enfrentar o problema global. 

Ainda segundo Leandro, na bagagem, reúne as perspectivas sobre as mudanças climáticas dos territórios por onde passa, e que serão apresentadas em um painel digital a ser exibido em Belém, pelo The Climate Reality Project Brasil.

“Eu estou passando pelo interior real do Brasil, e quando você passa de bicicleta, você vê o que não é possível ver de carro ou ônibus. Já saindo do Rio de Janeiro, tive o impacto de ver uma grande quantidade de bicicletas sendo utilizadas nas comunidades mais vulnerabilizadas, até na Avenida Brasil, como meio de locomoção no dia a dia”, disse.

Diariamente, o ambientalista percorre de 70 km a 110 km nos períodos onde o sol é menos intenso, evitando sofrer na pele os efeitos da seca extrema, que ele também atribui aos impactos causados pela ação do homem sobre o clima. Até Brasília, foram 1,5 mil quilômetros percorridos desde o dia 21 de setembro.

Ao final da jornada, quando chegar em Belém, Leandro deixará de emitir quase uma tonelada de gás carbônico equivalente (CO²e), em média, e deixará pelo percurso, em mais de dez escolas e centenas de comunidades, a semente da capacidade de cada um de promover a mudança em seu território.

*Com informações da Agência Brasil

Círio na Rede: solidariedade ganha espaço com troca de alimentos em Macapá

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Foto: Divulgação

A fé e a solidariedade caminham juntas no Círio na Rede 2025, e neste ano o gesto de doar ganha ainda mais força. A Fundação Rede Amazônica (FRAM) promove, em parceria com a Diocese de Macapá, uma campanha especial de arrecadação de alimentos não perecíveis, que serão destinados as famílias mais carentes atendidas pela Paróquia Nossa Senhora de Fátima.

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As doações poderão ser feitas na Praça Santuário de Fátima, no próximo sábado (11), das 9h às 19h, ou enquanto houver itens disponíveis. Para incentivar a participação, o público poderá trocar os alimentos por brindes exclusivos do Círio na Rede, como camisas e ecobags transformando a solidariedade em um gesto de comunhão e alegria.

Foto: Divulgação

“A arrecadação de alimentos é uma das formas mais bonitas de unir fé e solidariedade. Nossa expectativa é superar as metas dos últimos anos, fortalecendo o compromisso da Fundação Rede Amazônica com o bem-estar das comunidades onde atuamos. Cada doação leva esperança à mesa de quem mais precisa e reafirma nosso propósito de transformar a realidade amazônica com união e empatia”, explica o coordenador de projetos da fundação, Matheus Aquino.

Leia também: Fundação Rede Amazônica promove terceira edição do Círio na Rede em Macapá

A iniciativa faz parte da programação oficial do Círio de Nazaré 2025 em Macapá, e reforça o compromisso da Fundação Rede Amazônica em fortalecer o vínculo entre fé, cultura e responsabilidade social. A expectativa é arrecadar uma grande quantidade de alimentos que possam ajudar famílias que enfrentam dificuldades diárias, levando mais dignidade e esperança neste período especial de celebração.

Foto: Divulgação

O Círio na Rede segue promovendo atividades que unem devoção, cultura e solidariedade em toda a Amazônia.

O Círio na Rede tem o apoio da Prefeitura de Macapá, Geap Saúde, Grupo Equatorial, tem o apoio institucional da Diocese de Macapá, Águas da Amazônia, Exército Brasileiro, Tratalyx e a realização da Fundação Rede Amazônica.

Nova espécie de crustáceo é descoberta no litoral maranhense

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Crustáceo parasito foi identificado no litoral do Maranhão. Foto: Divulgação

Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) fizeram parte de um projeto que identificou uma nova espécie de crustáceo parasito chamado Naricolax zafirae. O animal, visível apenas com o auxílio de uma lupa binocular, foi encontrado no litoral do Maranhão, na cavidade nasal de um peixe conhecido popularmente como barbudinho, comum da região. 

O nome da nova espécie foi uma homenagem à professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e pesquisadora maranhense Zafira de Almeida, falecida em 2021, vítima de câncer. Zafira era referência em estudos sobre o conhecimento funcional e a conservação dos recursos pesqueiros amazônicos. 

A descoberta é considerada inédita para a ciência, por ser o primeiro registro do gênero Naricolax no Oceano Atlântico. Isso amplia o conhecimento sobre a biodiversidade marinha, destacando o Maranhão como um dos principais polos de pesquisa sobre ecossistemas costeiros da Amazônia Atlântica.

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O estudo foi fruto de uma colaboração entre a UFMA, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema). Os esforços resultaram na descrição de uma espécie até então desconhecida, encontrada em áreas de manguezais, dunas e praias que apresentam grande amplitude de maré. 

Crustáceo faz parte de região ainda pouco explorada da diversidade amazônica

Segundo o professor do curso de Oceanografia e Limnologia da UFMA que participou da pesquisa, Jorge Nunes, o estudo buscou investigar partes ainda pouco exploradas da diversidade amazônica. 

“A proposta visava estudar parasitos de tubarões e raias, mas fomos além, porque a relação hospedeiro-parasito das espécies de peixes estuarino-marinhas do Litoral Amazônico é muito desconhecida. Com base nisso, demos prioridade para  os critérios ecológicos locais mais relevantes, como o endemismo ou importância econômica, várias espécies de peixes foram estudadas com o intuito de prospectar tanto os ectoparasitos, quanto endoparasitos”, relata. 

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Pesquisadores da UFMA contribuem para descoberta de nova espécie de crustáceo no litoral maranhense
Nova espécie de crustáceo parasito: Naricolax zafirae. Foto: Divulgação

O Maranhão, por sua posição geográfica estratégica e diversidade de ambientes costeiros, tem se consolidado como um território essencial para estudos sobre biodiversidade e transformações ambientais. Dessa forma, pesquisas como essa contribuem para descobrir o potencial de ambientes que atuam diretamente no equilíbrio dos outros ecossistemas, como o bioma amazônico. 

“A Amazônia é colossal em todos os sentidos. Na diversidade biológica, é considerada um dos ambientes mais impressionantes do planeta. Mas mensurar essa exuberância em números pode subestimar em níveis muito elevados. Por outro lado, sob a lente de uma visão sistêmica ou funcional, deixa notório sua importância dentro do contexto da história evolutiva e ecológica, visto que a relação hospedeiro-parasito revela um processo concomitante dos dois organismos, conhecido como coevolução e resulta em uma fotografia ecológica em tempo real”, explica o professor Jorge. 

Ciência e mudanças climáticas: um debate em evidência

A descoberta do crustáceo parasita ocorre em um momento em que as discussões sobre mudanças climáticas ganham destaque mundial, especialmente com a aproximação da COP 30, que será realizada em novembro, no Pará. O evento reunirá representantes de diversos países para debater soluções globais diante da crise climática, e os estudos que estão sendo produzidos na região amazônica são de grande importância para o diálogo.  

O aquecimento dos oceanos e o aumento da acidez da água são apontados por pesquisadores como algumas das principais ameaças à vida marinha. Essas alterações afetam diretamente crustáceos, corais e outros organismos cruciais para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros. Apesar de ainda não ser possível apontar como essas condições podem afetar a espécie recém-descoberta, é urgente continuar com as investigações, como explica o professor e pesquisador da UERJ, Fabiano Paschoal. 

“É necessário um acompanhamento da presente espécie ao longo dos anos para uma melhor elucidação do tema”, indicam, sobre a nova espécie de crustáceo. 

Além de ampliar o conhecimento científico, estudos que ajudam a compreender como o oceano responde a variações de temperatura, salinidade e pH são indicadores fundamentais para prever impactos ecológicos de longo prazo. 

Caminhos para a preservação 

As descobertas científicas precisam caminhar junto às medidas de proteção aos ecossistemas, que são fundamentais para o equilíbrio ambiental e a manutenção das atividades humanas que deles dependem. O fortalecimento de políticas integradas de gestão, monitoramento ambiental e educação científica é um caminho indispensável para a proteção ambiental. 

“Medidas protetivas para os ambientes marinhos do estado não constituem uma tarefa fácil. Infelizmente, não existe fórmula nem mágica instantânea. A construção precisa de tempo, porque os efeitos são tardios e graduais. Sempre que aprendemos algo novo, incluímos nas propostas estratégicas para a conservação biológica. A meu ver, evitar problemas ambientais é mais eficaz e mais econômico que a sua mitigação da forma que vemos”, destaca Jorge.

Para a UFMA, descobertas como a do crustáceo parasito evidenciam o compromisso da universidade pública com a produção de conhecimento sobre o meio ambiente e com a busca por soluções para os desafios climáticos contemporâneos. “As universidades buscam excelência em todos os pilares que as sustentam. Nesse sentido, conquistas como essa representam uma grande projeção e reconhecimento científico para a UFMA”, concluiu Jorge Nunes.

Acesse o estudo sobre a nova espécie de crustáceo clicando AQUI. 

*Com informações da UFMA

Tese de doutorado analisa impactos da política de cotas em universidades da Amazônia

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Foto: Reprodução/Ufam

A política de ação afirmativa tem desempenhado papel central na democratização do ensino superior no Brasil, especialmente na Amazônia Legal. É o que revela a tese de doutorado da pesquisadora Marcineuza Santos de Jesus, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas (PPGE/Ufam).

O estudo analisou os impactos da Lei de Cotas (12.711/2012) na Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e a própria Ufam, integrantes da rede Procad-Amazônia.

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Orientado pela professora Fabiane Maia Garcia e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), o estudo nasceu como uma proposta de desdobramento/continuação da pesquisa de mestrado e apontou como resultados que a política de ação afirmativa foi fundamental para ampliação do acesso de estudantes de escolas públicas, além de estudantes pretos, pardos e indígena, aumentando a diversidade da população universitária da UFMT e da Ufam.

A tese também identificou desafios como na UFPA, nos dois primeiros anos de implementação, que provocou uma redução no acesso, porque a universidade já possuía um sistema de reserva de vagas consolidado e precisou se adequar à nova legislação. Isso significou a diminuição do acesso de estudantes da rede pública e diversidade na UFPA.

De acordo com a pesquisadora Marcineuza Santos de Jesus, a política de cotas promoveu a ampliação do acesso de estudantes de escolas públicas e pardos, aos cursos mais concorridos e de maior prestígio social, no campus da Ufam e da UFMT.

“Porém foi possível notar alguns efeitos contrastantes, por exemplo, na UFMT após a implementação da lei 12.711/2012 notamos a redução do acesso de estudantes pretos, se comparados a 2012, ano em que a universidade implementou o seu próprio sistema de reserva de vagas. Na Ufam, pudemos notar a diminuição do acesso de estudantes indígenas, que pode ter relação com a configuração da política na universidade, que coloca pretos, pardos e indígenas para concorrer entre si as vagas reservadas. Já na UFPA houve a diminuição do acesso de estudantes em todas as categorias, o que pode ter relação a adaptação da universidade à nova política”, explicou a pesquisadora.

Tese de doutorado analisa impactos da política de cotas em universidades da Amazônia
Marcineuza Santos de Jesus defendeu tese sobre política de cotas na Amazônia. Foto: Reprodução/Ufam

Marcineuza Santos de Jesus ressaltou que a política de ação afirmativa contribui para democratização do ensino superior na Amazônia ao se configurar como um mecanismo fundamental para o acesso, a inclusão, a participação, a diversidade institucional para a classe trabalhadora, especialmente para a população negra, considerando o modelo de sociedade e de sociabilidade burguesa que estamos inseridos.

“Porém, em termos de democratização, reflete no máximo os ideais de uma democracia representativa, uma vez que a atual conjuntura societária funciona como um limitante da democracia substantiva, e consequentemente da democratização do ensino superior, já que isto implicaria no acesso universal, e não restrito como temos hoje”, defendeu a pesquisadora.

O que é a rede Procad-Amazônia?

O Procad-Amazônia lançado, em 2006, com o objetivo de apoiar projetos conjuntos de pesquisa realizados por instituições de ensino superior pertencentes à região amazônica em associação com outras instituições do país, proporcionando a ampliação da formação de mestres e doutores e da produção científica, o intercâmbio docente e discente, a criação de novos programas de pós-graduação e a fixação de doutores na Amazônia brasileira.

De acordo com a pesquisadora, a escolha pelo Procad-AM de 2018 ocorreu por ter sido a edição mais recente dessa rede de cooperação, e pelo objetivo, uma vez visou à diminuição das assimetrias regionais observadas no Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), conforme diretrizes do Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020.

“A escolha da rede de cooperação dessas três Universidades, intitulada ‘Políticas educacionais, linguagens e práticas culturais na Amazônia’ ocorreu devido ao objetivo da cooperação que estas estabelecem, visando o aprimoramento do ensino e da pesquisa acadêmica na perspectiva da internacionalização dos programas de pós- graduação envolvidos na rede acadêmica do Procad-Amazônia, cujo foco são as políticas educacionais e as linguagens e práticas culturais na Amazônia, priorizando as questões étnico- raciais, indígenas e quilombolas na pesquisa em educação e cultura. Foi justamente por priorizarem as questões étnico-raciais, indígenas e quilombolas que optamos por essa rede de cooperação, uma vez que representa um compromisso público com a produção e divulgação de conhecimentos acerca dessas temáticas na Amazônia Legal e que se ligam diretamente ao problema da pesquisa”, explicou a pesquisadora.

Marcineuza Santos de Jesus salientou a escolha da Amazônia Legal como lócus de pesquisa porque em se tratando de educação e principalmente de democratização, esta possui especificidades, marcada por assimetrias em relação às demais regiões do país.

“A questão geográfica e as disparidades educacionais, se comparadas ao restante do Brasil, são elementos importantes nas discussões sobre democratização do ensino superior amazônico e como, as políticas, a exemplo das de Ação Afirmativa, implicam nesse cenário”, enfatizou.

Leia também: Povos e comunidades tradicionais reivindicam criação de cota na Universidade Federal do Pará

Caminhos da pesquisa

Para caracterizar as políticas de ação afirmativa implementadas e desenvolvidas nos âmbitos das três universidades amazônicas, inicialmente, a pesquisadora analisou os documentos das três universidades que tinham em seu escopo o combate à discriminação e uma efetiva igualdade de acesso à educação.

“Esses documentos foram analisados para compreendermos o tipo de política afirmativa desenvolvido nas universidades, o público-alvo, a própria iniciativa e compromissos das instituições com a questão”, explicou Marcineuza Santos de Jesus.

Paralelo a isso, a pesquisa selecionou os quatro cursos com maiores números de inscritos de cada instituição, de 2011 a 2014 nos casos da UFMT e UFPA; e no caso da UFAM de 2015 a 2018, antes e depois das cotas (lei 12.711/2012) e depois, ampla concorrência, lei de cotas e ação afirmativas. Após a seleção dos cursos, traçou-se o perfil do tipo de escola e o étnico racial.

“As categorias analisadas foram origem educacional, raça, etnia, que são categorias abordadas na política. Essa análise ocorreu em duas frentes. A primeira é a análise do perfil dos estudantes ingressantes, dois anos antes (2011-2012) e dois anos depois (2013-2014) da lei 12.711/2012, na UFPA e UFMT, e na UFAM como esse trabalho já foi realizado na dissertação, aprofundamos o período (2011-2018) para ver como a política se consolidou. A segunda análise, ocorreu a partir do perfil dos estudantes nos cursos que possuem mais prestígio social, como Direito e Medicina, e outros menos prestigiados como Pedagogia e Serviço Social, para caracterizarmos o perfil de quem adentrava esses cursos antes das ações afirmativas e o perfil de quem ingressou após as ações afirmativas. Essas análises nos possibilitaram o estabelecimento de um panorama acerca dos desdobramentos das ações afirmativas no processo de democratização dessas universidades”, detalhou a pesquisadora.

Para a doutora, as políticas de ações afirmativas não podem ser entendidas como processos isolados da sociedade em que estão inseridas, não só como uma política em si, mas um objeto que está inserido em um contexto societário, onde a educação e consequentemente as políticas educacionais são perpassadas por processos de disputas entre grupos e classes antagônicas.

“Isso significa que a análise do nosso objeto precisava ser situada em um contexto social, político, econômico, cultural e ideológico, de forma que pudéssemos capturar as várias nuances que os cercam. As dinâmicas sociais, perpetrada pelo modo de produção capitalista são influenciadas e exercem influência em todos os aspectos da vida em sociedade, inclusive na educação. Logo, tratar de políticas educacionais pressupõe situá-las em um contexto mais amplo, em uma sociedade regulada pelo modo de produção capitalista, que tem como especificidade a divisão em classes sociais e a propriedade dos meios de produção material”, finalizou.

*Com informações da Ufam