O número de negócios ligados à bioeconomia mapeados na Amazônia Legal passou de 130, em 2017, para 890 em 2025, crescimento de 585% no período. O dado integra o estudo ‘Bioeconomia e empreendedorismo de impacto na Amazônia: evidências, estado atual e visão de futuro’, apresentado pela Fundação CERTI no dia 5 de outubro em evento promovido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Quito, no Equador. A análise mostra ainda que 70% dos negócios identificados têm até cinco anos de existência.
O levantamento aponta que os negócios de bioeconomia estavam distribuídos por 142 municípios da Amazônia Legal em 2025, ante 54 municípios ao fim da fase inicial analisada, até 2017. A expansão ganhou velocidade a partir de 2018 e ocorreu tanto nas capitais quanto em cidades do interior. Entre os 890 negócios mapeados, 91% apresentavam situação cadastral ativa.
A publicação foi apresentada em Quito, no Equador, por Rafael Kamke, diretor do Centro de Economia Verde da CERTI, durante o painel ‘A Amazônia – Um Laboratório de Inovação’ no GET Fórum 2026. Elaborado a partir de dados reunidos durante a implementação da Jornada Amazônia, iniciativa promovida pela CERTI para fortalecer o ecossistema de bioeconomia na região, o levantamento examina o ecossistema amazônico como um todo, considerando sua evolução, características e desafios.
Bioeconomia é potência na Amazônia Legal
O estudo também identificou 9.881 talentos em 279 municípios da Amazônia Legal, entre 2023 e 2025, além de 1.570 ideias de negócios relacionadas à bioeconomia, originadas em 181 municípios. Os dados mostram que, embora as capitais concentrem parte importante dos novos empreendimentos, há uma base de negócios no interior fortemente ligada às cadeias da sociobiodiversidade e às atividades produtivas locais.
Segundo Rafael Kamke, diretor do Centro de Economia Verde da CERTI, os dados apontados pelo levantamento resultam de fatores como a ampliação de programas de formação e apoio a empreendedores, a aproximação entre empresas, universidades, centros de pesquisa, investidores e organizações de suporte e a maior presença da bioeconomia nas agendas de desenvolvimento, clima, conservação e inovação.
Foto: Reprodução/ABDI
Apesar do crescimento, o ecossistema ainda enfrenta desafios de maturidade e escala. Na análise da Comunidade de Negócios da Jornada Amazônia, cerca de metade das iniciativas estavam nas etapas de protótipo ou produto mínimo viável (MVP).
“O desafio agora não é somente fazer o ecossistema crescer. É aumentar sua capacidade de estruturar negócios, levar soluções ao mercado e gerar valor de forma sustentável e distribuída pelo território, com impactos econômicos, sociais e ambientais positivos”, conclui Kamke.
A discussão sobre a bioeconomia amazônica integra a programação do evento promovido pelo BID Lab, braço de inovação e venture capital do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O encontro no Equador reuniu empreendedores, investidores, lideranças empresariais, representantes de governos e agentes dos ecossistemas de inovação da América Latina e do Caribe.
Uma comitiva federal sobrevoou áreas atingidas por incêndios no Amazonas neste domingo (11). O cenário foi classificado como mais grave do que o previsto. Foto: Paulo Roberto/Rede Amazônica AM
Após sobrevoar áreas atingidas por incêndios florestais no Amazonas, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil João Paulo Capobianco, classificou o cenário observado na região como mais grave do que o previsto. A declaração foi feita durante entrevista coletiva na Base Aérea de Manaus (BAMN), neste domingo (11).
A decolagem da aeronave da comitiva do governo federal, que estava prevista para ocorrer no início da manhã, sofreu um atraso temporário devido à densa camada de fumaça sobre Manaus, que comprometeu a visibilidade e o teto operacional na capital
“Eu diria, mais grave do que eu imaginava depois de fazer o sobrevoo, porque nós identificamos muitos focos de incêndio no meio da floresta preservada. Não se trata apenas daquele fogo que foi colocado na pastagem e adentrou a floresta. Nesse caso, além do fogo que vem da pastagem, nós vimos focos no meio da floresta preservada. Inúmeros focos”, afirmou Capobianco.
Após a melhoria das condições aeroviárias, a equipe cumpre agenda com um sobrevoo de monitoramento na região de Autazes e, na sequência, concede entrevista coletiva na Base Aérea de Manaus (BAMN) para apresentar um balanço atualizado do combate às queimadas e detalhar o envio de novos recursos ao estado.
Comitiva sobrevoa áreas afetadas por incêndios em Manaus. Foto: Paulo Roberto/Rede Amazônica AM
O ministro destacou ainda que a presença de pontos de fogo isolados em áreas preservadas e de difícil acesso indica ação humana intencional para degradar o bioma e preparar o terreno para futuro desmatamento.
Diante disso, o representante da pasta fez um apelo para que o Governo do Estado empenhe a Polícia Militar ao lado do Corpo de Bombeiros no combate e na identificação dos infratores.
“É fundamental que esses indivíduos que estão agindo criminosamente vejam que serão punidos. Ou seja, é necessário combater a impunidade que está reinando aqui na região”, alertou.
A comitiva conta com a participação do ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes; do secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco; do governador do Amazonas, Roberto Cidade; do presidente do Ibama, Jair Schmitt; e do secretário Nacional de Defesa Civil, Wolnei Wolff.
Antes de irem a campo, os representantes do governo visitaram o Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) e participaram de uma reunião na sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para alinhar as ações emergenciais de resposta à crise ambiental.
Apoio aéreo, brigadas e ajuda humanitária
Para contornar o avanço das chamas, o Governo Federal confirmou a mobilização de uma frota de 11 aeronaves, incluindo aviões Air Tractor — que já realizam lançamentos de água nas áreas afetadas — e duas aeronaves C-390, que passam a operar na segunda-feira (12).
Questionado sobre a permanência das equipes e equipamentos, Capobianco garantiu que o efetivo continuará no estado “até apagar os focos de incêndio que estão causando dano à população de Manaus”.
Fumaça deixa qualidade do ar ‘péssima’ e afeta a saúde
O atraso na decolagem da comitiva é reflexo da forte poluição provocada pelos incêndios na região. Pelo quarto dia consecutivo, Manaus amanheceu encoberta por uma densa fumaça.
Sensores do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registraram qualidade do ar “péssima” na capital e em outros cinco municípios da Região Metropolitana. No município de Careiro, os índices de concentração de partículas chegaram a 301,2 µg/m³.
Fumaça cobre o céu do bairro Ponta Negra, em Manaus. Foto: Luciane Marques/Rede Amazônica AM
Diante dos riscos à saúde humana, a Defesa Civil emitiu alerta severo orientando o uso de máscaras e a restrição de exposição ao ar livre. A Prefeitura de Manaus suspendeu todas as atividades e eventos públicos ao ar livre agendados para este domingo e para a segunda-feira (12).
Nos hospitais, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) registrou 82 atendimentos de urgência motivados por problemas respiratórios decorrentes da fumaça apenas entre os dias 1º e 8 de outubro.
Prefeitura, Estado e Governo Federal reconhecem crise
A Prefeitura de Manaus decretou estado de atenção em 24 de setembro, e a classificação segue neste domingo. Segundo o executivo municipal, o estado de atenção é adotado quando uma ou mais ocorrências afetam a cidade e há previsão de um evento de alto impacto no curto prazo.
Além da classificação da Prefeitura, Manaus foi um dos 36 municípios do Amazonas que tiveram a situação de emergência por conta dos incêndios florestais reconhecida pelo Governo Federal. O reconhecimento foi feito pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) no sábado (10), mesmo dia em que o estado de emergência foi decretado pelo estado.
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, reforçou que o reconhecimento da situação de emergência nos municípios amazonenses, oficializado no sábado (10), permite a atuação integrada das forças de resposta e o repasse de recursos.
“Uma coisa é enfrentar em todas as frentes e empregar toda a força que puder, Governo Federal junto com o Estado e municípios, para apagar o fogo. A outra é assistir pessoas que já estão, de alguma forma, precisando de ajuda humanitária, de assistência médica como resultado do incêndio”, pontuou Waldez Góes, destacando que equipes da Força Nacional do SUS já atuam no estado.
O decreto estadual abrange municípios da Região Metropolitana de Manaus, do sul do Amazonas e de outras regiões do estado. São eles:
Apuí
Autazes
Barreirinha
Boa Vista do Ramos
Boca do Acre
Borba
Caapiranga
Canutama
Careiro
Careiro da Várzea
Coari
Eirunepé
Envira
Guajará
Humaitá
Ipixuna
Iranduba
Itacoatiara
Itapiranga
Lábrea
Manacapuru
Manaquiri
Manaus
Manicoré
Maués
Nova Olinda do Norte
Novo Airão
Novo Aripuanã
Parintins
Pauini
Presidente Figueiredo
Rio Preto da Eva
Silves
Tapauá
Tefé
Urucurituba
*Por Lucas Macedo e Alexandre Hisayasu, da Rede Amazônica AM
O Senado pode analisar um projeto de lei complementar que autoriza a União a criar a Região Integrada de Desenvolvimento (Ride) do Araguaia-Xingu, com abrangência em 15 municípios na região da divisa entre Pará e Mato Grosso (PLP 174/2026). O objetivo da Ride é harmonizar ações do poder público relacionados à infraestrutura de transporte e logística, saúde, educação, segurança, regularização fundiária, conectividade e telecomunicações, energia, agricultura, meio ambiente e desenvolvimento regional.
O projeto de autoria do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA) e Wellington Fagundes (PL-MT) ainda cria o Programa Especial de Desenvolvimento do Araguaia-Xingu para promover a integração regional e a redução das desigualdades socioeconômicas da área da rede.
Caberá a um conselho administrativo, que contará com a participação de representantes da União, dos Estados e municípios envolvidos, definir o plano regional de desenvolvimento integrado e as prioridades de investimento.
Para especialistas, bacias hidrográficas devem ser consideradas para ordenamento territorial em Mato Grosso. Foto: Divulgação/ICV
Pará e Mato Grosso devem receber atenção coordenada
Além disso, o órgão deverá articular programas, projetos e ações de interesse comum, acompanhar a execução de políticas públicas, propor convênios, acordos de cooperação e medidas de redução de igualdades, monitorar metas e resultados e elaborar relatórios.
Wellington Fagundes lembrou que a criação da Ride é ainda mais oportuna diante de controvérsia de limite territorial entre Pará e Mato Grosso em análise no Supremo Tribunal Federal (STF).
Na opinião dele, nesse cenário, a ação conjunta vai fazer com que a população local continue recebendo a atenção coordenada do Poder Público.
“O que não pode é a população ficar desassistida e ainda os municípios de Mato Grosso, que querem atender, serem responsabilizados por improbidade administrativa. Eu espero que essa Ride possa ser implantada e, aí sim, os dois estados junto com a União. Então nós precisamos reunir ciência, tecnologia e principalmente atendimento ao cidadão, ao homem que está abandonado”.
O Brasil já conta com três regiões integradas de desenvolvimento. A Ride do Distrito Federal e em torno que abrange municípios goianos e mineiros, a Ride do polo Petrolina-Joazeiro entre Bahia e Pernambuco e a Ride da Grande Terezina, que engloba municípios piauienses e maranhenses, da Rádio Senado Alexandre Campos.
Famosos também vão ao Círio de Nazaré para pagar promessas e realizar pedidos. Fotos: Reprodução/TV Globo
Realizado há mais de 200 anos, o Círio de Nazaré é a maior manifestação católica do Brasil que reúne milhões de fiéis e devotos de Nossa Senhora de Nazaré, a Padroeira da Amazônia, na festividade que acontece todos os anos em Belém, no Pará.
Uma das tradições do Círio é o cumprimento de promessas, em que milhares de pessoas encontram na devoção uma forma de agradecer por graças alcançadas.
Seja por milagres na saúde, família ou superação de alguma dificuldade, tais expressões são vistas como atos de agradecimento e fé à padroeira.
Procissão do Círio de Nazaré reúne milhões de devotos à Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Marcos Santos/Agência Pará
Entre os devotos promesseiros, personalidades e subcelebridades brasileiras também já cumpriram promessas durante a procissão católica.
Descubra alguns famosos que já cumpriram promessas como forma de agradecimento à Nossa Senhora de Nazaré:
Gretchen, cantora
Entre os artistas mais reconhecidos no país, certamente você já ouviu falar de Gretchen. Ela está entre os famosos que já cumpriram promessas no Círio de Nazaré, provando que a fé está acima da fama ou qualquer status social.
A artista brasileira tem presença constante no Círio e já participou da procissão até com o pé quebrado. Em 2021, Gretchen realizou a caminhada da procissão ao lado do atual marido, Esdras de Souza, para agradecer pelas graças alcançadas.
No último dia 8 de outubro deste ano, a artista pagou outra promessa: entrou de joelhos na igreja para agradecer à Nossa Senhora de Nazaré após se recuperar de um problema de saúde.
Paulo Vieira, humorista
Outro promesseiro famoso é o humorista Paulo Vieira. Em 2024, o apresentador esteve na corda do Círio para agradecer a realização de uma conquista profissional, pedido por ele no ano anterior, quando participou pela primeira vez da festividade.
Alane Dias, ex-BBB
A atriz, bailarina e ex-Big Brother Brasil também é uma das figuras presentes na festividade católica. Natural do Pará, Alane já compartilhou em suas redes sociais que sempre acompanha o Círio de Nazaré e que sua participação no reality show, em 2024, foi um pedido feito à padroeira.
Após a realização do sonho, a artista mantém a promessa de ir ao Círio para agradecer pelas graças alcançadas e também de fazer novos pedidos.
O cumprimento de promessas no Círio de Nazaré é uma das maiores expressões de devoção popular do Brasil, reunindo milhares de fiéis para agradecer por graças alcançadas ou renovar pedidos de intercessão a Nossa Senhora de Nazaré. As formas mais comuns de pagar essas promessas são:
A Corda do Círio: Milhares de fiéis seguram ou puxam a icônica corda, símbolo de ligação entre a Virgem e os devotos, enfrentando a multidão como forma de sacrifício e gratidão.
Trajeto de joelhos ou engatinhando: Devotos percorrem quilômetros pelas ruas de Belém, muitas vezes suportando o asfalto quente, diretamente sobre os joelhos ou engatinhando até a Basílica Santuário.
Carregamento de objetos e símbolos: Fiéis carregam cruzes pesadas, réplicas de casas, partes do corpo em cera (ex-votos), flores ou caminham com os olhos vendados.
Ex-votos e doações: É tradicional entregar objetos que representam a cura de doenças ou deixar doações e placas relatando o milagre alcançado.
Complexo Barreira, em Roraima, inicia processo de sondagem para mapeamento de terras raras. Foto: Luiz de Matos/Rede Amazônica RR
Pesquisadores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) iniciaram os trabalhos de sondagem no Complexo Barreira, em Caracaraí, no sul do estado, para mapear o tamanho da área com presença de minérios e quantificar a concentração de terras raras. Os dados vão ajudar a determinar se o local pode ser classificado como jazida.
Jazida é uma área geológica que contém um depósito natural de elementos minerais ou fósseis com valor econômico.
A primeira campanha de sondagem começou na quinta-feira (8). A etapa consiste em perfurar o solo em diferentes profundidades para retirar amostras de rochas e argilas do subsolo, que serão analisadas pelos pesquisadores.
A amostra para análise de terras raras são retiradas em sondagem de trincheiras em setembro de 2026. Foto: Tiago Côrtes/Arquivo Rede Amazônica RR
A região é estudada desde 2025 por pesquisadores da UFRR, que identificaram rochas e argilas com alta concentração de terras raras, elementos essenciais para o setor de tecnologia. A Universidade de São Paulo (USP) também pesquisa o material.
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados na fabricação de baterias, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Apesar do nome, elas não são necessariamente escassas, mas são difíceis de separar e processar porque têm propriedades químicas muito parecidas.
Processo de sondagem
A sondagem é feita com uma máquina equipada com uma broca oca, que perfura o solo e retira cilindros de terra e rocha, chamados de testemunhos de sondagem. A partir da técnica é possível identificar em quais profundidades os elementos ocorrem e como eles estão distribuídos no subsolo.
Antes, as análises eram feitas com amostras retiradas de trincheiras abertas em diferentes pontos do Complexo Barreira, com profundidades de até 15 metros. Agora, a sondagem permite coletar amostras desde poucos centímetros abaixo do solo até profundidades superiores a 100 metros.
Segundo o pesquisador da UFRR Carlos Eduardo Lucas Vieira, doutor em geociências que atua na pesquisa desde o ano passado, o trabalho em campo permite mapear as camadas do subsolo.
“Nós vamos com uma perfuratriz, vamos fazer furos no terreno e recuperar um cilindro de amostras. Pode ser [amostra] de solo, pode ser de rocha. A partir dessas amostras, nós temos condições de montar depois um perfil do solo e [saber] a cada profundidade que a gente conseguiu alcançar, o que tem de material geológico”, explicou Carlos Eduardo.
Máquina usada durante processo de sondagem no Complexo Barreira, no Sul de Roraima. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
A quantificação é necessária para determinar se a área pode ser classificada como jazida. Para isso, os pesquisadores precisam comprovar o volume de material e a concentração dele.
“Esse passo é fundamental […] porque, na geologia, para algo poder ser chamado de jazida, precisamos ter esse tipo de quantificação. Se não tiver essa quantificação, a gente não consegue dizer se é uma [jazida] ou não”, destacou Carlos.
Após a coleta no campo, parte do material é examinada no próprio local e outra parte segue para o laboratório. A equipe avalia características físicas como a textura, o tamanho dos grãos do solo e a presença de matéria orgânica.
Caso os testemunhos cheguem úmidos ao laboratório, eles passam por estufas de secagem antes das análises. O trabalho pode durar até cerca de três meses, dependendo da quantidade de amostras coletadas.
Trincheira em sondagem na pesquisa de terras raras no interior de Roraima. Foto: Yara Ramalho/Arquivo Rede Amazônica RR
A geóloga Luíza Thomé, responsável técnica pelo processo, explica que as análises em laboratório permitem identificar os minerais com mais precisão.
“A análise no laboratório é um processo mais rápido, mas a gente também fica verificando os minerais na lupa e fazendo lâmina […] quando fazemos a laminação desse material, levamos para o microscópio para fazer a mesma descrição, só que mais detalhada, identificando de fato os minerais”, afirmou.
Geólogas Gisela Petri e Luiza Thomé (da esquerda para a direita), que atuam na sondagem e nas pesquisas da UFRR no Complexo Barreira. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
Para identificar características que não podem ser vistas a olho nu, as duas pesquisadoras utilizam dois métodos de análise em laboratório. A microscopia eletrônica de varredura, que ajuda a identificar os elementos químicos presentes nas amostras, e a difração de Raios X, que permite analisar a estrutura dos minerais.
“O que não conseguimos ver [a olho nu], colocamos em equipamentos de análise. A partir do hábito cristalino, junto com a análise química, conseguimos confirmar qual mineral é”, explicou a geóloga Gisela Petri, mestranda da UFRR que pesquisa elementos terras raras na região.
Os pesquisadores vão registrar os resultados em relatórios técnicos para cada perfuração no terreno. As informações serão reunidas em um banco de dados, que permitirá comparar os resultados de amostras coletadas a quilômetros de distância e criar um modelo 3D da área.
Com o mapa, os pesquisadores poderão estimar o volume de material mineral presente na área e avaliar o potencial para exploração econômica no estado.
Técnica inédita
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) também estudam amostras de argila coletadas no Complexo Barreira. A equipe desenvolveu em laboratório uma técnica inovadora para separar as terras raras presentes no solo da regi
Na USP, os cientistas usaram nanotecnologia para separar os elementos presentes nas argilas. Após o sucesso da técnica no laboratório, o objetivo é implementar o método em campo, onde fica o Complexo Barreira.
Professor da USP Henrique Eisi Toma analisa terras raras em Roraima. Foto: Tiago Côrtes/Arquivo Rede Amazônica RR
O processo utiliza nanopartículas magnéticas preparadas para se ligar especificamente a determinado elemento presente em uma solução. Elas funcionam como “capturadores”. Depois que o elemento se prende às partículas, um ímã é usado para retirá-las da mistura. Em seguida, as nanopartículas são colocadas em um meio com acidez controlada, que libera a terra rara separada.
Sem nanotecnologia, o processo para identificar as terras raras seria submetido a um tratamento químico, que dissolve o mineral em ácidos. Esse método gera vapores e resíduos poluentes nocivos. O processo exigiria lidar com materiais radioativos, com necessidade do uso de roupas e reatores especiais devido aos riscos à saúde dos trabalhadores. Porém, a técnica da USP, deve tornar isso mais seguro.
Em outubro de 2013, durante conferência diplomática realizada em Kumamoto, no Japão, foi aberta para assinaturas a Convenção de Manamata sobre Mercúrio. O Brasil integrou o grupo de signatários desde esta etapa. O texto oficial do tratado, que tem o objetivo de proteger a saúde humana e o meio ambiente contra os efeitos da exposição ao mercúrio, havia sido aprovado por delegados de mais de 140 países em janeiro daquele mesmo ano.
Em agosto de 2017 o tratado entrou oficialmente em vigor, após o número necessário de ratificações globais. No Brasil, em novembro do mesmo ano, a convenção entra em vigor no país.
O tratado estabelece medidas para controlar o mercúrio ao longo de seu ciclo de vida e dedica atenção específica à mineração artesanal e em pequena escala de ouro, atividade na qual a substância é utilizada para separar o ouro de outros materiais.
Embora o Brasil tenha sido um signatário de primeira hora do acordo, 13 anos depois de a convenção ter sido aprovada, o mercúrio permanece como um grande desafio ambiental e de saúde pública associado à mineração de ouro na Amazônia brasileira.
Na Amazônia, pesquisas já identificaram contaminação em peixes e exposição de populações indígenas e ribeirinhas. Ao mesmo tempo, estimativas apontam que toneladas de mercúrio de origem desconhecida abastecem a atividade minerária, apesar de o Brasil não produzir o metal e de não haver atualmente empresa autorizada a importá-lo ou comercializá-lo para essa finalidade.
Diante desse cenário, o Ministério Público Federal (MPF) desenvolve uma atuação estrutural em diferentes pontos dessa cadeia. Sua atuação está atenta desde as normas que ainda permitem o uso do mercúrio ao licenciamento da mineração; das fronteiras pelas quais a substância pode entrar ilegalmente no país às plataformas digitais utilizadas para sua comercialização; da busca por alternativas tecnológicas ao uso do metal à cobrança pela criação de um sistema capaz de monitorar a contaminação.
Doença de Minamata
O nome da convenção remete a uma das mais graves tragédias ambientais provocadas pelo mercúrio. Na década de 1950, moradores da cidade de Minamata, no Japão, começaram a apresentar graves problemas de saúde associados ao consumo de peixes e frutos do mar contaminados pelo metal lançado no ambiente por atividade industrial.
A contaminação pelo metal produziu nas pessoas efeitos que atingiram especialmente o sistema nervoso, causando uma síndrome que ficou conhecida como como doença de Minamata. O mercúrio acumulado causou graves envenenamentos e danos cerebrais na população, além de mortes. O episódio se tornou um símbolo internacional das consequências que a exposição ao mercúrio pode produzir para o ambiente e para a saúde humana.
O que estabelece a convenção
A Convenção de Minamata busca enfrentar o problema do mercúrio de maneira abrangente. Ela prevê uma série de obrigações que alcançam diferentes etapas do ciclo de vida da substância, incluindo oferta e comércio internacional, produtos e processos industriais, emissões e liberações no ambiente, armazenamento, resíduos e áreas contaminadas.
O tratado também prevê medidas relacionadas à proteção da saúde, à informação e conscientização da população e ao acompanhamento da efetividade das ações adotadas pelos países.
Arte: Reprodução/MPF
Após o dispositivo entrar em vigor no Brasil, o país desenvolveu instrumentos destinados a reunir informações sobre o mercúrio e subsidiar sua implementação, incluindo inventários de emissões e liberações e avaliações da capacidade nacional de gestão e monitoramento da substância.
A implementação do tratado, no entanto, vai além de restringir determinado uso do metal. Ela pressupõe conhecer sua origem, controlar sua circulação, reduzir sua utilização, identificar as populações expostas e acompanhar a presença da substância no ambiente.
Na Amazônia brasileira, uma dessas obrigações ganha especial relevância: a prevista para a mineração artesanal e em pequena escala de ouro.
O garimpo amazônico
Um dos artigos da convenção trata especificamente da mineração de ouro artesanal e em pequena escala, quando há utilização de mercúrio. O tratado determina a adoção de medidas para reduzir e, quando viável, eliminar o uso da substância nessa atividade.
O MPF acompanha esse processo e tem defendido que a elaboração do plano considere não apenas quem exerce a atividade minerária, mas também as populações diretamente atingidas por seus impactos. A instituição apontou deficit de participação no diagnóstico utilizado para subsidiar o plano: foram ouvidas 1.145 pessoas, das quais 1.051 garimpeiros e 51 gestores públicos, mas sem participação de povos indígenas, comunidades ribeirinhas ou organizações da sociedade civil. O panorama utilizado na elaboração do plano estima cerca de 200 mil garimpeiros e 6,3 milhões de pessoas afetadas pela atividade.
O MPF também apontou problemas na proposta. Entre eles se destaca a equiparação indevida entre mineração artesanal e em pequena escala com permissão de lavra garimpeira, além da necessidade de assegurar participação e consulta prévia, livre e informada às populações indígenas e comunidades tradicionais atingidas.
A dimensão do problema pode ser observada nos dados de contaminação reunidos pelo órgão. Pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com outras instituições, constatou que, em média, 21,3% dos peixes comercializados em 17 municípios de seis estados amazônicos apresentavam níveis de mercúrio acima do limite adotado no estudo.
Arte: Reprodução/MPF
Outro levantamento encontrou mercúrio no organismo de 56% das mulheres e crianças Yanomami avaliadas na comunidade de Maturacá, no Amazonas. Laudos periciais da Polícia Federal também registraram concentrações do metal em água, sedimentos, vegetais e cabelo humano na bacia do Rio Madeira.
Em Tonantins, no Amazonas, o MPF alertou para o risco de contaminação associado à atividade garimpeira em um rio utilizado por mais de três mil moradores. Relatos colhidos durante missão realizada na região apontaram alteração da qualidade e da coloração da água.
Outra questão fundamental na cadeia do mercúrio é saber de onde vem aquele que é utilizado na mineração. O Brasil não possui produção primária do metal e, segundo as informações reunidas pelo MPF, também não há atualmente empresa autorizada a importá-lo ou comercializá-lo para fins minerários. O MPF estima que aproximadamente 185 toneladas de mercúrio de origem desconhecida foram utilizadas em garimpos brasileiros entre 2018 e 2022. Há registros de rotas de entrada ilegal a partir de países vizinhos, entre eles Bolívia, Peru e Guiana.
Atuação do MPF
A estratégia desenvolvida pelo MPF alcança diferentes elos da cadeia do mercúrio e combina recomendações, investigações, articulação institucional e ações judiciais.
Uma das frentes de atuação está em aprimorar o próprio marco normativo dentro do país. Embora o Brasil tenha assumido compromissos internacionais para reduzir e, quando viável, eliminar o uso do mercúrio na mineração artesanal e em pequena escala de ouro, normas editadas em 1989 ainda admitem, sob determinadas condições, sua utilização em atividades licenciadas.
Em 2025, o MPF recomendou ao Ibama a revisão da regulamentação, com o objetivo de proibir o uso de mercúrio metálico na mineração, inclusive em atividades legalizadas. No Amazonas, a atuação institucional também contribuiu para a revogação, por decisão unânime do Conselho Estadual de Meio Ambiente, de duas resoluções estaduais que admitiam o uso da substância.
Outra frente busca saber como o ouro está sendo beneficiado nas áreas que possuem autorização estatal. Levantamento do MPF identificou mais de 1,8 mil licenças ambientais para garimpo de ouro na Amazônia Legal concedidas sem verificação do método de beneficiamento empregado.
Em Roraima, após recomendação do MPF, foram suspensas licenças relacionadas à extração de ouro. No Amazonas, o órgão ambiental estadual também adotou medidas para revisar autorizações e proibir o uso do mercúrio nos casos analisados.
A decisão determinou ainda que a ANM elabore um plano de ação para identificar e analisar títulos minerários nos estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima, verificando, entre outros pontos, o método de beneficiamento e a eventual utilização de substâncias como mercúrio e cianeto.
Arte: Reprodução/MPF
O MPF também atua sobre os chamados “garimpos fantasmas”. Em análise de 187 processos minerários, foram encontradas irregularidades em 98 permissões de lavra garimpeira. Os processos com irregularidades concentravam 97% do ouro declarado, dentro da amostra examinada: 25,3 toneladas, avaliadas em R$ 18,4 bilhões, com registro de R$ 95,6 milhões em compensação financeira.
Fronteiras e comércio pela internet
A circulação do mercúrio também leva o MPF a atuar em outras frentes além da mineração.
Em Guajará-Mirim (RO), na fronteira com a Bolívia, o MPF ajuizou uma ação para reforçar a fiscalização no porto fluvial. Um levantamento realizado apontou circulação diária de cerca de 90 embarcações e aproximadamente 700 pessoas, enquanto apenas sete embarcações estavam formalmente autorizadas. A Justiça determinou a elaboração de um plano integrado de fiscalização.
Na internet, o Projeto Rede sem Mercúrio busca impedir que plataformas digitais sejam utilizadas para comercializar irregularmente a substância. A atuação resultou na retirada de milhares de anúncios e em compromissos com empresas como Mercado Livre, OLX, B2Brazil e Alibaba.
O trabalho continua sobre outras plataformas. Em investigação relacionada ao TikTok, o MPF identificou três perfis que somavam 108 publicações e mais de 5,8 milhões de visualizações, com ofertas que indicavam negociações por aplicativos de mensagens. Em relação ao eBay, foi identificado anúncio em português, com preços em reais e entrega configurada para o Brasil, além do registro de 129 unidades vendidas.
Monitoramento da contaminação
O MPF busca ainda enfrentar uma deficiência estrutural: a ausência de um sistema permanente e integrado capaz de mostrar onde há mercúrio, em quais concentrações e quais populações estão expostas.
No início de setembro, o MPF ajuizou ação civil pública para que a União, o Ibama, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e os estados do Amazonas, Rondônia e Roraima implementem um sistema permanente, integrado e público de monitoramento da contaminação por mercúrio.
Entre as medidas requeridas estão a inclusão do mercúrio nos parâmetros da rede nacional de monitoramento da qualidade das águas, campanhas conjuntas de coleta e análise de água, sedimentos e peixes, e a criação de plataforma pública para reunir os resultados.
Alternativas ao mercúrio
A atuação também busca viabilizar a substituição tecnológica. Métodos físicos de concentração do ouro podem reduzir ou eliminar a necessidade de mercúrio. Informações reunidas pelo MPF apontam que rotas gravimétricas podem alcançar índices de recuperação de 80% a 90% do ouro, enquanto a amalgamação com mercúrio apresenta rendimento estimado entre 20% e 40%.
O órgão identificou, porém, a ausência de linhas específicas de financiamento nos principais bancos públicos para apoiar a transição tecnológica e expediu recomendação sobre o tema.
Em julho de 2026, reunião entre o MPF e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) também discutiu alternativas tecnológicas, rastreabilidade e mecanismos de apoio à regularização da atividade.
A lógica é que reduzir a presença do mercúrio na Amazônia depende tanto de impedir sua circulação irregular quanto de criar condições para que atividades legalizadas adotem métodos que dispensem a substância.
Treze anos depois da adoção da Convenção de Minamata, o desafio brasileiro permanece em transformar os compromissos assumidos internacionalmente em redução efetiva da exposição ao mercúrio. Isso significa alcançar não apenas o ponto onde o metal é utilizado, mas a cadeia que permite sua entrada, comercialização, emprego e dispersão no ambiente. É nessa perspectiva que o MPF vem estruturando sua atuação.
Céu de Manaus encoberto por fumaça densa na Zona Centro-Sul da capital na noite desta quinta-feira (8). Foto: Ianke Sena
Nos últimos dias, o céu de Manaus (AM) tem sido encoberto por fumaça vinda de incêndios na capital e queimadas florestais na Região Metropolitana. O fenômeno costuma se intensificar entre as primeiras horas da noite e o amanhecer. O fato gera questionamento: por que a fumaça piora no período noturno?
Segundo a meteorologista Andrea Mendes, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), durante o dia, o aquecimento do solo causado pelo sol favorece a movimentação do ar e aumenta a mistura entre as camadas da atmosfera.
À noite, quando a temperatura cai, o processo se inverte: a superfície perde calor, o ar próximo ao chão fica mais estável e a circulação vertical do ar diminui. Com isso, a fumaça e as partículas finas de poluição, como o MP2,5, ficam concentradas nas camadas mais baixas da atmosfera.
MP2,5 são partículas de poluição com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, que podem ser inaladas. Sua concentração no ar é medida em microgramas por metro cúbico (µg/m³) e ajuda a avaliar a qualidade do ar. Em Manaus, esse monitoramento é feito por ferramentas como o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
“Em algumas noites pode ocorrer uma inversão térmica mais marcada, que funciona como uma espécie de ‘tampa’, dificultando ainda mais a dispersão dos poluentes”, explicou a meteorologista.
Fumaça encobre o porto do Ceasa em Manaus. Foto: Alexandro Pereira/Rede Amazônica AM
Com o nascer do sol, o solo volta a aquecer e o ar próximo à superfície se movimenta mais. Isso aumenta a dispersão da fumaça e das partículas de poluição na atmosfera.
Por isso, a fumaça pode ficar menos visível e a qualidade do ar melhorar gradualmente durante a manhã, mesmo que os incêndios continuem ativos.
“Não significa necessariamente que estejam ocorrendo mais queimadas à noite; muitas vezes é a atmosfera que perde capacidade de dispersar a poluição nesse período. Esse comportamento é compatível com o padrão observado por redes de monitoramento como o Selva”, acrescentou Andrea.
El Niño não causa incêndios, mas facilita propagação
Além das condições que favorecem o acúmulo de fumaça e poluição durante a noite, o fenômeno climático El Niño pode contribuir para prolongar os efeitos das queimadas na região amazônica. Andrea explica que o El Niño não produz a fumaça nem inicia os incêndios, mas pode favorecer condições que pioram o cenário.
O fenômeno é relacionado a alterações nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. Na Amazônia, períodos com chuvas mais irregulares ou abaixo da média, temperaturas elevadas, vegetação mais seca e menor umidade do solo facilitam a propagação de incêndios já ativos.
Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech
A baixa incidência de chuvas também reduz a lavagem atmosférica, processo pelo qual a água remove parte das partículas suspensas no ar. Quando esse processo não acontece por falta de chuva, a poluição permanece por mais tempo na atmosfera.
“Foi justamente essa combinação de estiagem, calor, baixa umidade e transporte pelos ventos que já utilizamos nas análises anteriores sobre Manaus”, explicou a meteorologista do Inmet.
El Niño continua se fortalecendo
De acordo com a última atualização do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), divulgada em 8 de outubro, o El Niño continua se fortalecendo. Segundo a ONU, o fenômeno pode ser o mais intenso desde 1950.
O índice de temperatura da superfície do mar na região Niño-3.4, uma das principais áreas usadas pelos cientistas para acompanhar o El Niño, chegou a 2,1°C acima da média em setembro.
Para que o El Niño continue se fortalecendo, a atmosfera também precisa responder ao aquecimento do oceano. Isso aparece em mudanças nos ventos, na pressão e na distribuição das chuvas sobre o Pacífico. No novo boletim, a NOAA afirmou que esses sinais continuam presentes, o que indica que o oceano e a atmosfera seguem atuando juntos para sustentar o fenômeno.
A previsão indica, ainda, alta probabilidade de o fenômeno permanecer “forte a muito forte” até o início de 2027.
Fumaça encobre Manaus pelo segundo dia seguido
A fumaça provocada pelas queimadas voltou a encobrir Manaus nesta sexta-feira (9). Moradores relataram problemas para respirar, irritação na garganta, noites mal dormidas e prejuízos ao trabalho. Pelo segundo dia consecutivo, a capital amazonense registrou a pior qualidade do ar do Brasil, segundo a plataforma internacional IQAir.
Avenida do Futuro em Manaus encoberta por fumaça nesta sexta-feira (9). Foto: Michael Anderson
Diante do agravamento da poluição, a Defesa Civil emitiu um alerta severo sobre os riscos à saúde e recomendou que a população evite a exposição prolongada à fumaça. Instituições de ensino também suspenderam atividades presenciais na capital.
Além de grafismos, projeto reúne outras características do povo Huni Kuin. Foto: Reprodução/Universidade Federal do Acre
Alunas de graduação e mestrado do campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac) criaram, em 2024, o projeto Biblioteca de Kene, que reúne tecelagem em algodão, pintura corporal, registros audiovisuais e uma plataforma digital acessível por celular. A iniciativa surgiu do trabalho de conclusão de curso de Txima Huni Kuin, em Licenciatura Indígena, e da pesquisa para a dissertação de Alexandra Deitos no programa de pós-graduação em Ensino de Humanidades e Linguagens.
Txima investigou a tecelagem como expressão dos conhecimentos, da arte e da espiritualidade de seu povo, sob orientação do professor Amilton Pelegrino de Mattos. Alexandra, artista visual e atualmente doutoranda, colaborou na construção do projeto por meio de uma pesquisa de autoria coletiva, desenvolvida com as mulheres da comunidade.
Alexandra Deitos e Txima Huni Kuin. Foto: Reprodução/Universidade Federal do Acre
Desse encontro surgiu a proposta de criar um espaço onde os mais de 60 grafismos praticados pelas mulheres pudessem ser consultados, ensinados e aprendidos por jovens e mestras tecelãs.
O projeto terá uma nova etapa entre 10 e 16 de outubro, com a realização da 2ª Oficina de Kene da Aldeia Arco-Íris, na terra indígena Seringal Independência, no município de Jordão (AC).
Aprendizagem no território
Durante os sete dias de oficina, mestras tecelãs e jovens aprendizes participarão de atividades de preparação de fios, cantos rituais, aplicação do Bawe e tecelagem de painéis com grafismos. Os processos serão documentados para compor o acervo da biblioteca na aldeia e seu site colaborativo, com gestão do conhecimento pelas próprias mulheres.
A proposta dialoga com a expressão “a universidade é na aldeia”, do professor e pesquisador Yube Huni Kuin, também acadêmico da Licenciatura Indígena da Ufac. A experiência reconhece o território e as práticas da comunidade como espaços de produção e transmissão de conhecimento.
Mestras e aprendizes tecelãs. Foto: Reprodução/Universidade Federal do Acre
A 2ª Oficina de Kene é realizada por Txima Huni Kuin, Alexandra Deitos e pela Aldeia Arco-Íris, com apoio do curso de Licenciatura Indígena, da Fundação de Cultura Elias Mansour, do governo do Acre, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura e do governo federal.
Imagem da NASA revela extensão da fumaça sobre Manaus nesta sexta-feira (9) em meio ao avanço de queimadas. Foto: Reprodução/Nasa Worldwide View
Uma imagem de satélite da Nasa registrou uma extensa camada de fumaça sobre a região de Manaus e áreas do Amazonas nesta sexta-feira (9). O registro ocorre em meio ao avanço das queimadas no estado e à piora da qualidade do ar na capital, que amanheceu encoberta por uma densa camada de fumaça pelo segundo dia consecutivo.
O registro foi consultado na plataforma Worldview, que permite acompanhar imagens de satélite da Terra. A fumaça apresenta cor cinza e visualmente menos densa que nuvens ao redor, vistas na cor branca. A capital Manaus é identificada com um ponto vermelho.
A imagem permite visualizar a dimensão da cobertura de fumaça sobre a região, em um cenário marcado por incêndios em áreas de vegetação e pela presença de poluentes no ar.
Diante do agravamento da poluição, a Defesa Civil emitiu um alerta severo sobre os riscos à saúde e recomendou que a população evite a exposição prolongada à fumaça. Instituições de ensino também suspenderam atividades presenciais na capital.
Manaus registra pior qualidade do ar do Brasil
Nesta sexta-feira, Manaus registrou, pelo segundo dia consecutivo, a pior qualidade do ar do Brasil, segundo a plataforma internacional IQAir.
Por volta das 5h, o Índice de Qualidade do Ar (AQI⁺) chegou a 366, classificado como “perigoso”. A concentração de partículas finas PM2.5 atingiu 258,2 microgramas por metro cúbico (µg/m³).
O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também classificou a qualidade do ar como péssima na manhã desta sexta-feira. Por volta das 6h, bairros como Morro da Liberdade e Educandos registraram concentrações de até 320,2 µg/m³ de partículas poluentes.
Diante do cenário, a Defesa Civil recomendou que a população evite a exposição prolongada à fumaça e utilize máscaras de proteção ao sair de casa.
Defesa Civil recomenda uso de máscara em Manaus. Foto: Reprodução/Defesa Civil AM
Fumaça provoca atendimentos de urgência
O impacto da fumaça também acende um alerta para a saúde da população. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), foram registrados 82 atendimentos de urgência relacionados aos efeitos da fumaça de queimadas em Manaus entre 1º e 8 de outubro.
Desde 1º de julho, o monitoramento da secretaria contabiliza 375 atendimentos relacionados aos efeitos da fumaça na capital. De acordo com a SES-AM, houve aumento expressivo nos registros na última semana.
Fumaça encobre a cidade de Itacoatiara, no interior do Amazonas. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM
Os dados ainda passam por qualificação das informações clínicas para identificar os casos efetivamente compatíveis com a exposição à fumaça. A secretaria ressalta que os registros, isoladamente, não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito entre a exposição e os sintomas apresentados.
Entre os sintomas relatados estão falta de ar, tosse, irritação na garganta, dor de cabeça, dor no peito, náuseas, vômitos, tontura e fadiga.
Incêndios atingem municípios do Amazonas
Além de Manaus, outros municípios também enfrentam os efeitos das queimadas. Na Região Metropolitana, Itacoatiara amanheceu encoberta por fumaça densa. Durante a madrugada, o aplicativo Selva registrou cerca de 500 µg/m³ de partículas poluentes no município.
O incêndio no Lago do Canaçari chegou ao 20º dia, com uma área afetada de aproximadamente 1,3 mil hectares. Moradores e equipes atuam na abertura de aceiros, faixas de terreno sem vegetação usadas para impedir o avanço das chamas, e no combate ao fogo, com apoio de uma aeronave.
Comunidade Canaçari, em Itacoatiara, queima há 20 dias de incêndio – 8 de outubro de 2026. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM
Outro incêndio, próximo ao bairro Jacarezinho, chegou ao terceiro dia, atingindo uma área de 256,71 hectares. Bombeiros trabalham no isolamento das chamas para evitar que o fogo se espalhe.
Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) apontam 46 novos eventos de fogo na região entre os dias 4 e 7 de outubro.
Como se proteger da fumaça
A SES-AM orienta a população a evitar a exposição prolongada à fumaça, reduzir atividades físicas ao ar livre durante os períodos de maior concentração de poluentes, manter os ambientes fechados e beber água com frequência.
Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares devem redobrar os cuidados.
Em caso de sintomas leves, é possível buscar atendimento pelo aplicativo Saúde AM Digital ou na Unidade Básica de Saúde de referência. Diante de sintomas graves, a orientação é procurar imediatamente os serviços de urgência e emergência ou acionar o Samu pelo telefone 192.
Com uma sequência de 14 procissões em homenagem à Nossa Senhora de Nazaré, a quarta romaria oficial do Círio de Nazaré, em Belém (PA), é Romaria Fluvial, ou Círio Fluvial. Há mais de 25 anos, a Imagem Peregrina é conduzida a bordo do Navio Hidroceanográfico Garnier Sampaio, da Marinha do Brasil, que é ornamentado para receber a Rainha da Amazônia, autoridades e sacerdotes.
O trajeto é de cerca de 10 milhas marítimas (18,5 km), com duração aproximada de duas horas, e reúne cerca de 50 mil pessoas. Em 2026, a procissão sai do Terminal Hidroviário de Icoaraci rumo ao Cais da Escadinha, na Estação das Docas, pela Baía do Guajará. A decoração é assinada por Simone Cosme.
A chegada da Imagem Peregrina ao convés é um dos momentos marcantes da romaria, acompanhada pelo apito das embarcações e pela comoção dos fiéis. Neste ano, a Capitania dos Portos da Amazônia Oriental (CPAOR) credenciou 240 embarcações, que passaram por vistoria prévia de itens de salvatagem (medidas, técnicas e equipamentos destinados a resgatar e garantir a segurança de embarcações), como coletes e boias, de lotação máxima e de habilitação dos condutores.
Cerca de 700 militares da Marinha atuam na logística e na segurança da Romaria Fluvial. Para fiscalizar o tráfego aquaviário, a Marinha mobiliza 10 navios, uma agência escola flutuante, nove lanchas e quatro motos aquáticas.
Círio Fluvial. Foto: Reprodução/Arquivo FDN
A CPAOR é responsável por gerenciar todo o tráfego aquaviário no percurso, conforme a Portaria nº 69/2026, que estabelece as normas de segurança da romaria. O objetivo é garantir a segurança da navegação e evitar condutas imprudentes, como manobras de risco para se aproximar do navio que leva Nossa Senhora. Só podem participar as embarcações inscritas previamente na CPAOR.
As embarcações regularmente inscritas e vistoriadas também podem participar do concurso de ornamentação náutica promovido pela Setur.
A presença da Marinha continua no domingo, na procissão do Círio. Cerca de 300 fuzileiros navais do 2º Batalhão de Operações Ribeirinhas fazem o cordão de isolamento da berlinda, e a Banda de Música do Comando do 4º Distrito Naval participa das homenagens ao longo do trajeto.
História do Círio Fluvial
O Círio Fluvial acontece desde 1986. A chegada da Imagem Peregrina à Escadinha (Praça Pedro Teixeira) é marcada por honras de Chefe de Estado, concedidas pela Polícia Militar desde 1999, em cumprimento à Lei Estadual nº 4.371/1971, que proclamou Nossa Senhora de Nazaré Padroeira do Pará e Rainha da Amazônia.