Homem segurando um paneiro e despejando castanhas em cima de uma mesa. Foto: Michael Dantas
Seis Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia estão sendo estruturados na Amazônia para articular organizações e serviços voltados ao fortalecimento de negócios e cadeias produtivas da sociobiodiversidade. A iniciativa é coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), implementada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e financiada pelo governo alemão, por meio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW).
O projeto é voltado ao fortalecimento de organizações, negócios e cadeias produtivas baseadas no uso sustentável da biodiversidade e busca ampliar o acesso a serviços relacionados ao desenvolvimento da sociobioeconomia nos territórios amazônicos.
Comunidade em área de preservação ambiental. Foto: Rodolfo Pongelupe/FAS
Os Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia serão implantados nos territórios:
de Altamira, Portel e Salgado-Bragantino, no Pará;
Macapá, no Amapá;
Juruá-Tefé, no Amazonas;
e Rio Branco-Brasileia, no Acre.
A implementação envolve atividades técnicas e administrativas relacionadas à estruturação e operacionalização da iniciativa. Representantes das instituições envolvidas no projeto estiveram nesta terça-feira (8), em Brasília, para assinatura dos contratos de cooperação financeira entre a FAS e as redes.
Para a implementação dos seis núcleos, foram selecionadas por edital redes multi-institucionais formadas por organizações com atuação nos territórios. Elas reúnem organizações da sociedade civil, associações, cooperativas, empreendimentos da sociobioeconomia, instituições de ensino e pesquisa, organizações de assistência técnica e outros atores locais.
Cada núcleo irá receber R$ 11,7 milhões para desenvolver atividades relacionadas à assistência técnica, formação, inovação, gestão, acesso a crédito, comunicação, fortalecimento produtivo e comercialização. O edital dos seis núcleos prevê investimento total de R$ 70,2 milhões.
Segundo o superintendente-geral da Fundação Amazônia Sustentável, Virgilio Viana, a FAS antecipou, com recursos institucionais que agora serão reembolsados, etapas preparatórias necessárias à implementação do projeto, incluindo a preparação dos editais, atividades de mobilização e visitas aos territórios.
Serviços articulados nos territórios
Os núcleos funcionarão como arranjos territoriais destinados a articular serviços e instituições que atuam no desenvolvimento da sociobioeconomia. A proposta é conectar organizações comunitárias e empreendimentos locais a assistência técnica, qualificação profissional, inovação, gestão, crédito e mercados.
As atividades poderão abranger diferentes cadeias da sociobiodiversidade presentes nos territórios, considerando suas características produtivas, sociais e ambientais. Entre as organizações envolvidas está a Rede TSBio Portel. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Portel e representante da Rede, Robson Gonçalves Machado, destaca que a iniciativa está relacionada ao fortalecimento das comunidades tradicionais e ao desenvolvimento de atividades econômicas associadas ao uso sustentável da floresta.
A estruturação dos núcleos é realizada no âmbito do Prospera Sociobio, programa do Governo Federal coordenado pelo MMA e voltado ao fortalecimento da sociobioeconomia por meio da articulação de políticas públicas, instrumentos de apoio e iniciativas territoriais.
Apoio a coletivos da sociobioeconomia
Além dos seis núcleos, o projeto contempla o apoio a Coletivos da Sociobioeconomia na Amazônia Legal. O edital destinado a essas articulações selecionou cinco iniciativas, com previsão de até R$ 500 mil para cada projeto.
Foto: Bianca Moreno/ ISA
Os coletivos reúnem organizações e atores que compartilham desafios e oportunidades relacionados a cadeias produtivas ou territórios. As atividades previstas incluem fortalecimento da governança, articulação entre organizações, intercâmbio de conhecimentos e construção de estratégias conjuntas.
Sobre o Projeto Sociobioeconomia na Amazônia
O Projeto Sociobioeconomia na Amazônia integra a cooperação financeira entre os governos do Brasil e da Alemanha. A iniciativa é financiada pelo governo alemão, por meio do Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), tem coordenação política do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e é implementada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS).
* Com informações da Fundação Amazônia Sustentável.
Uma nova exposição fotográfica no Centro de Arqueologia de Manaus (CAM), localizado no Centro Histórico, apresenta registros das pesquisas arqueológicas realizadas na área de construção do parque Encontro das Águas Rosa Almeida. Batizada de “Solo Ancestral”, a exposição é uma realização da Prefeitura de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult).
A iniciativa integra a programação oficial do “#SouManaus Passo a Paço 2026” e revela vestígios de aproximadamente 2.300 anos que ajudam a contar a história das populações que habitaram a Amazônia antes da colonização europeia.
A exposição apresenta uma narrativa cronológica com fotografias de cerâmicas, ferramentas de pedra, terras pretas antropogênicas, entre outros vestígios. Além do acervo visual, o público pode conferir um minidocumentário de 10 minutos sobre os bastidores das coletas e análises de campo.
O diretor-presidente da ManausCult, Márcio Brás, informou o período de visitação e destacou as próximas atividades educativas planejadas para o espaço.
“O material ficará exposto por aproximadamente 60 dias no Centro de Arqueologia. Para o mês que vem, planejamos uma roda de conversa e um bate-papo para debater a arqueologia em Manaus, os sítios históricos e o dimensionamento de todo esse material”, declarou Márcio Brás.
Ocupação pré-colonial
A arqueóloga e curadora da exposição, Vanessa Benedito, reforça que os trabalhos de salvamento arqueológico no sítio, decorrentes do licenciamento ambiental para as obras do parque, trouxeram descobertas cruciais para a historiografia e para a identidade de Manaus. Segundo a pesquisadora, as análises de laboratório indicam que a ocupação pré-colonial da área é ainda mais antiga do que se estimava originalmente.
“A importância histórica desse trabalho de arqueologia para Manaus está em socializar um conhecimento que pouco se fala. Trazer uma exposição para o centro da cidade dá visibilidade para a história da densa ocupação pré-colonial antes da chegada dos europeus, mostrando a engenhosidade desses povos, como no manejo da floresta e na produção da própria terra preta. O mais interessante desse material é que estamos recuando a datação da ocupação pré-colonial de Manaus: tínhamos estimativas de até 1.700 anos e, agora, estamos recuando para aproximadamente 2.300 anos, com cerâmicas da tradição Pocó-Açutuba”, explicou a arqueóloga Vanessa Benedito.
Foto: Arielle Lorena/Semcom Manaus
Preservação patrimonial
As pesquisas e intervenções no sítio arqueológico foram acompanhadas continuamente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O arqueólogo do instituto, Marco Túlio Amaral, ressaltou o cumprimento do ordenamento jurídico e o valor social das descobertas para o município e para o Estado.
“É um processo que tem tramitado junto ao Iphan e, do ponto de vista legal, tem atendido a todo o nosso ordenamento jurídico que versa sobre o patrimônio arqueológico. Mas para além das leis, ele versa sobre as contribuições que temos para o município, para o Estado do Amazonas e para a nossa ancestralidade. É uma oportunidade de tornar isso visual para a população”, afirmou Marco Túlio Amaral.
O CAM possui um acervo de aproximadamente 320 mil peças arqueológicas, que contribuem para a preservação, pesquisa e difusão da história dos povos que habitaram a região amazônica. Nesse contexto, a exposição utiliza a fotografia como ferramenta de divulgação desse patrimônio, apresentando ao público registros relacionados ao material arqueológico encontrado nas obras do parque Encontro das Águas Rosa Almeida.
A iniciativa também evidencia a importância do acompanhamento arqueológico em obras de grande porte, possibilitando que materiais encontrados durante as intervenções sejam identificados, estudados, preservados e, posteriormente, apresentados à sociedade. As fotografias presentes na exposição permitem conhecer esses vestígios sem deixar de valorizar os processos de pesquisa e preservação que envolvem o patrimônio arqueológico.
A exposição “Solo Ancestral” permanecerá aberta à visitação pública no CAM, na Avenida 7 de Setembro, nº 350, Centro, durante os próximos 60 dias, sempre das 9h às 16h.
Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, onde o Museu Goeldi mantém a Estação Científica Ferreira Penna. Foto: Calil Torres/MPEG
Após dois anos de trabalho conjunto, oito das principais instituições públicas de pesquisa da Pan-Amazônia assumiram um compromisso de longo prazo para consolidar uma agenda científica compartilhada. O Memorando de Entendimento (MoU), assinado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e por mais sete institutos-membros da Rede Bioamazonia, estabelece um marco de cooperação que permitirá ampliar a pesquisa colaborativa, compartilhar capacidades e produzir conhecimento a partir do território, contribuindo para as políticas públicas da região.
Criada em 2024, a Rede Bioamazonia reúne, além do Museu Goeldi:
o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa),
o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá,
o Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas (Sinchi),
o Instituto de Investigación de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt,
o Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP),
o Instituto Nacional de Biodiversidad del Ecuador (Inabio)
e o Instituto de Ecología da Universidad Mayor de San Andrés (IE-Umsa).
Juntas, essas oito instituições científicas públicas têm uma longa trajetória em pesquisa, inovação e geração de conhecimento sobre a biodiversidade e os ecossistemas amazônicos.
Essas instituições colocam em comum uma capacidade científica construída ao longo de décadas. A partir da Bolívia, do Brasil, da Colômbia, do Equador e do Peru, a Rede Bioamazonia busca conectar pesquisadores, conhecimentos e territórios para construir uma agenda científica comum, capaz de olhar para a Pan-Amazônia como um sistema compartilhado.
A Rede surgiu com o apoio técnico e financeiro do Programa Amazônia Sempre, do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID), com o objetivo de fortalecer o intercâmbio científico, a mobilidade de pesquisadores e o desenvolvimento de projetos colaborativos na região.
Desde então, a colaboração vem assumindo formas concretas. Existem projetos conjuntos de pesquisa e transferência tecnológica, iniciativas de bioeconomia, intercâmbio de metodologias e capacitação de pesquisadores, além de parcerias com outras redes e organizações que ampliam o alcance das atividades da Rede. A assinatura do MoU surge a partir desse processo de trabalho e estabelece um marco institucional para que essas experiências possam se repetir, ampliar-se e consolidar-se ao longo do tempo.
Uma das expressões mais concretas dessa cooperação está nos projetos de transferência de tecnologia ligados à bioeconomia. Com o apoio do Grupo BID, os institutos estão trabalhando com tecnologias desenvolvidas para aproveitar os frutos da biodiversidade amazônica, como o cupuaçu, o buriti (aguaje) e o camu-camu. O conhecimento desenvolvido em um instituto pode ser transferido para outro território, onde pesquisadores e equipes locais trabalham com produtores, associações, comunidades e pequenas empresas para adaptar e aplicar essas tecnologias às suas próprias condições – uma lógica que amplia a escala do que cada instituição pode disponibilizar para a região.
Vale destacar que os projetos de bioeconomia da Rede Bioamazonia são desenvolvidos a partir de métodos e tecnologias gerados por meio da pesquisa científica, que permitem investigar, processar e aproveitar os ativos, os frutos e as plantas da floresta para gerar produtos com maior valor agregado e potencial comercial.
Dessa forma, essas iniciativas buscam contribuir para a conservação da floresta, por meio de alternativas econômicas sustentáveis e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade de vida das comunidades que dependem desses recursos. Essas tecnologias possibilitam, por exemplo, a obtenção de ativos e outros derivados, como a manteiga de cupuaçu, o corante e o óleo de buriti, que podem ser utilizados pela indústria cosmética na fabricação de cremes, hidratantes e sabonetes.
Novas pesquisas
As colaborações entre os institutos também:
estão ocorrendo na concepção de novos projetos de pesquisa científica, com a participação de diversos pesquisadores e institutos, ampliando o alcance, a multidisciplinaridade e o intercâmbio de conhecimentos, competências e recursos;
no desenvolvimento de cursos de capacitação conjuntos para o uso de tecnologias aplicadas à pesquisa da biodiversidade;
e na construção de alianças estratégicas mais amplas, como a firmada com a Aliança Águas Amazônicas, uma iniciativa colaborativa para a conservação e o estudo dos ecossistemas aquáticos amazônicos, na qual a Rede tem uma participação muito ativa;
e o curso de Manejo Integrado do Fogo, realizado em parceria com o Icraf-Cifor, que reuniu pesquisadores científicos, instituições públicas, organizações sociais, povos indígenas e comunidades locais.
No que diz respeito ao desenvolvimento de programas de capacitação conjunta em tecnologias, destaca-se o curso sobre Espectroscopia NIR (Near-Infrared) no reconhecimento da biodiversidade, previsto para 2026 e destinado a pesquisadores dos institutos-membros, que abordará os princípios teóricos e práticos para a aplicação dessa tecnologia à pesquisa sobre biodiversidade na região. Além dos fundamentos da técnica, o curso incluirá o uso dos principais equipamentos e programas de análise, com exercícios práticos no espectrômetro portátil de baixo custo.
Os participantes aprenderão a projetar e realizar coletas espectrais, organizar e analisar os dados e aplicar diferentes ferramentas estatísticas para a identificação e a caracterização de organismos biológicos. O curso visa, além disso, aproximar pesquisadores e instituições e estabelecer as bases para o compartilhamento de conhecimentos, dados e metodologias, fortalecendo a colaboração científica dentro da Rede.
A diversidade da própria Amazônia torna essa capacidade de conexão e colaboração especialmente relevante. Na Pan-Amazônia, coexistem grandes cidades e pequenos núcleos populacionais, florestas e ecossistemas diversos, territórios indígenas e áreas de intensa transformação produtiva, além de instituições científicas e comunidades com conhecimentos milenares. Também existem diferenças entre países, sistemas de pesquisa, idiomas e capacidades técnicas. Uma rede que conecte instituições inseridas nesses diferentes contextos pode ampliar a visão de cada uma delas e gerar espaços para comparar experiências, adaptar soluções e construir conhecimento com maior alcance regional.
Nesse processo, o território ocupa um lugar central. As instituições que integram a Rede mantêm uma presença contínua na Amazônia e trabalham com comunidades locais, povos indígenas, governos, organizações sociais e outros atores que participam da gestão dos territórios. O conhecimento científico, assim, convive e dialoga com saberes ancestrais, com experiências produtivas e com processos de ciência participativa. Essa proximidade permite que as questões de pesquisa e as soluções propostas incorporem as condições concretas nas quais serão aplicadas.
Compartilhar dados, metodologias, infraestrutura e capacidades permite formar pesquisadores conjuntamente e desenvolver projetos capazes de atrair financiamento regional. Também abre novas possibilidades para compreender melhor fenômenos que atravessam fronteiras, como a mobilidade de espécies, as ameaças à biodiversidade e os impactos ambientais.
Equipe e pesquisadores dos oito institutos que compõem a Rede Bioamazonia reunidos na sede do Sinchi, na Colômbia, em maio deste ano. Foto: Divulgação/Rede Bioamazonia
Formalização de compromisso
O Memorando de Entendimento (MoU) formaliza agora esse compromisso entre os oito institutos e estabelece mecanismos para garantir sua continuidade. O acordo prevê pesquisa conjunta, intercâmbio de pesquisadores e pessoal técnico, capacitação, transferência de conhecimento e tecnologias, geração de contribuições para políticas públicas e a criação de um comitê de acompanhamento com representantes das instituições, encarregado de planejar e acompanhar as atividades da Rede.
A cooperação já está produzindo resultados. O MoU cria o marco institucional e fornece uma estrutura comum para ampliar essas colaborações, abrir novas frentes e dar continuidade a uma agenda científica de longo prazo. Para os institutos, isso também abre novas possibilidades de apresentar projetos regionais, mobilizar recursos, compartilhar infraestrutura e conhecimento especializado e ampliar o alcance de pesquisas que, se desenvolvidas de forma isolada, teriam uma escala mais limitada.
O objetivo fundamental é construir uma capacidade científica regional conectada aos territórios onde os desafios são identificados e de onde as soluções são propostas. Em uma Amazônia diversificada, extensa e marcada por realidades ecológicas, sociais e econômicas distintas, a possibilidade de conectar quem pesquisa, conhece e trabalha nesses territórios pode se tornar uma ferramenta para produzir evidências mais completas e contribuir para decisões públicas mais bem informadas.
Campanha “A Amazônia se pesquisa em rede”
A Rede Bioamazonia iniciou, na semana passada, uma campanha de divulgação juntos aos seus institutos-membros, com o objetivo de mostrar quem a compõe, o que é pesquisado e como estão sendo construídas novas formas de cooperação científica na Pan-Amazônia. As peças estão sendo divulgadas nos canais institucional da Rede e dos institutos. Saiba mais AQUI.
Show reuniu cantoras e compositoras da cena independente do Estado em uma apresentação marcada pela força da produção autoral feminina. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Vozes, histórias, composições e diferentes trajetórias femininas da música roraimense dividiram o mesmo palco para dar início a mais uma edição do Mormaço Cultural. Nesta quarta-feira, 9, o Teatro Municipal de Boa Vista sediou a abertura oficial do festival, tendo como grande destaque da noite o espetáculo “Som das Manas”, na Sala Roraimeira.
Preparado exclusivamente para estrear na abertura do Mormaço Cultural 2026, o show reuniu cantoras e compositoras da cena independente do Estado em uma apresentação marcada pela força da produção autoral feminina. No repertório, músicas escolhidas pelas próprias artistas entraram em sintonia com elementos de palco, iluminação, conduzindo o público pelo universo musical de Roraima.
Criado em março deste ano, durante o mês dedicado às mulheres, o Coletivo de Compositoras de Roraima Som das Manas surgiu com o propósito de ampliar espaços de visibilidade, troca e colaboração entre mulheres que produzem música autoral no Estado.
Para Ana Lu, uma das representantes do coletivo, levar essa proposta justamente para a abertura do maior festival multicultural de Roraima tornou a apresentação ainda mais simbólica.
“O Mormaço representa conexão com o que há no mundo em termos de cultura e acessibilidade”, destacou Ana Lu, uma das representantes.Foto: Diane Sampaio/PMBV
“Todas nós temos uma longa trajetória defendendo nossos trabalhos autorais e nossas composições. A gente se unir representa força feminina, resistência, amor e coragem. Conseguir tirar esse projeto da ideia, trazer para o palco e fazer acontecer é um sonho realizado. Estou muito feliz e orgulhosa de dividir esse momento com as meninas”, destacou.
Um espetáculo feito para o Mormaço
Ainda segundo Ana Lu, as individualidades de cada compositora foram justamente o que deu forma ao resultado apresentado na Sala Roraimeira. “Preparamos nossas melhores músicas e pensamos toda uma ordem para criar sensações e momentos, com uso de palco e de luz. Queremos trazer as pessoas para o nosso universo roraimense e mostrar que, além de cantar Roraima, cantamos música brasileira, emoção e a nossa verdade. O mais bonito é essa mistura que cada uma traz e que acabou dando certo”, disse.
A apresentação também reforçou uma das propostas do Mormaço Cultural: colocar a produção artística local em evidência dentro de uma programação que conecta Roraima a diferentes expressões culturais do país.
Para o presidente da Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura (FETEC), Dyego Monnzaho, começar o Mormaço com um espetáculo concebido por artistas roraimenses reforça essa valorização. “Iniciamos com grandes vozes de cantoras e compositoras de Roraima. Foi um show pensado e criado nesse formato exclusivamente para estrear aqui no festival. Superou nossas expectativas, o público adorou e isso é só o início”, destacou.
“Iniciamos com grandes vozes de cantoras e compositoras de Roraima”, disse Dyego Monnzaho, presidente da FETEC.Foto: Diane Sampaio/PMBV
Para Ana Lu, participar de um festival dessa dimensão também significa criar pontes entre o que é produzido em Roraima e o cenário cultural do restante do país. “O Mormaço representa conexão com o que há no mundo em termos de cultura e acessibilidade. Fazer parte disso é uma vitrine e uma oportunidade de amadurecimento para nós. Espero que a gente possa sempre ter artistas da terra trazendo seus projetos e inovando também”, ressaltou.
Turistas se encantam com cultura roraimense
E a conexão proposta pelo festival alcançou também quem estava conhecendo Roraima pela primeira vez. Vindos de Minas Gerais, Alcina Andreo, professora aposentada, e Adilson Oliveira, aposentado e músico, estão viajando pelo Brasil e incluíram Boa Vista no roteiro. Antes mesmo de chegar à capital, pesquisaram pela internet o que encontrariam na cidade e descobriram a programação do Mormaço.
Apaixonados por música, escolheram justamente a noite do “Som das Manas” para conhecer um pouco mais da produção cultural roraimense. “A cultura tem esse poder de conectar e de ligar a vida das pessoas. Viemos para cá e encontramos esse evento, que é uma maneira de nos integrarmos à cultura da cidade. Não somos daqui, mas vamos sair conhecendo muito da cultura e das pessoas. E ter um evento dentro de um teatro como esse, gratuitamente, possibilitando o acesso de todos, é muito bacana”, contou Alcina.
Adilson também se surpreendeu com o que encontrou logo na primeira visita ao estado. “A gente gosta muito de música. Eu também sou músico. Então, procuramos e encontramos esse movimento cultural. Conhecer o teatro também foi uma surpresa muito boa. Estamos muito satisfeitos de estar aqui”, afirmou.
“Todo ano a gente vai ao Mormaço e, desta vez, já estamos começando desde o primeiro dia”, contou a arquiteta Ana Cláudia, acompanhada das amigas.Foto: Diane Sampaio/PMBV
Quem é daqui também veio prestigiar
Na plateia, o sentimento de valorização da produção local também levou a arquiteta Ana Cláudia, nascida em Boa Vista, ao Teatro Municipal. Acompanhada de amigas, ela já conhecia o trabalho do Som das Manas e fez questão de prestigiar a apresentação.
“A gente veio ver o show das Manas, que já acompanhamos em outros lugares e gostamos muito. Prestigiar nossas artistas, mulheres de Roraima, é importantíssimo. Todo ano a gente vai ao Mormaço e, desta vez, já estamos começando desde o primeiro dia”, contou.
A música começou antes mesmo de as cortinas se abrirem
A abertura do Mormaço começou ainda na área externa do Teatro Municipal. Antes do espetáculo principal, o cantor Denison Siqueira recebeu o público com grandes sucessos do pop e rock nacional e internacional, em uma apresentação que contou ainda com participações especiais de Lu Soares e Regina Lima.
O show começou com um instrumental de “Sweet Child O’ Mine”, clássico do Guns N’ Roses, e terminou olhando para a própria identidade musical roraimense, com uma versão instrumental de “Cruviana”, composição consagrada do repertório local.
A primeira noite abriu uma programação que seguirá movimentando o Teatro Municipal nos próximos dias. O espaço recebe atrações musicais e espetáculos de dança, incluindo apresentações da Focus Cia. de Dança.
Depois, o Mormaço Cultural segue para o Parque do Rio Branco, onde a programação ocorre nos dias 18, 19 e 20 de setembro. Confira o que vai rolar AQUI.
As imagens são de uma viagem de reconhecimento a Loreto, anterior à candidatura ao projeto científico multidisciplinar financiado pela ProCiencia. Foto: Daiji Umemoto
Estudar o que aconteceu na Terra no passado — há milhares ou milhões de anos — durante fenômenos extremos como as mudanças climáticas ou o El Niño ajuda a entender o que pode acontecer e como esses eventos influenciam os ecossistemas e os seres vivos. Além disso, serve como subsídio para que as autoridades tomem decisões mai s acertadas e baseadas na ciência.
“Todos esses fenômenos que ocorreram no passado, durante períodos quentes ou frios, nos ajudam a entender o que pode acontecer e como os ecossistemas e as espécies animais e vegetais podem se comportar durante períodos de mudanças climáticas ou do fenômeno El Niño”, disse o paleontólogo peruano Rodolfo Salas-Gismondi.
O registro fóssil e o registro geológico nos dizem o que aconteceu milhões de anos atrás em nosso planeta, em nossos ecossistemas, disse o cientista da Universidade Peruana Cayetano Heredia (UPCH) e chefe do Departamento de Paleontologia de Vertebrados do Museu de História Natural (MHN) da Universidade Nacional de San Marcos (UNMSM).
Há cerca de 17 milhões de anos, quase na mesma época em que o pesquisador está estudando na Amazônia, ocorreu um evento de aquecimento global conhecido como período quente do Mioceno Médio ou ótimo climático. Esse período corresponde a uma grande diversidade de répteis, jacarés, botos e peixes-boi encontrados nessa região do Peru.
Uma imagem real das mudanças climáticas
“Compreender o que aconteceu durante esse período de aquecimento global, permite-nos ter uma visão real do ocorrido e saber o que poderá mudar o nosso planeta se este for submetido a essas temperaturas. Ajuda a obter dados concretos sobre o que poderá acontecer no futuro”, comentou.
Por exemplo, ele disse, a Amazônia, que é um território plano, deverá ser inundada em algumas áreas se as calotas polares derreterem e o nível do mar subir.
“Durante o Mioceno, época em que o sistema Pebas existia, houve grandes incursões marinhas na Amazônia que mudaram completamente o ecossistema: surgiram manguezais no interior da Amazônia e botos marinhos invadiram a região amazônica, adaptando-se posteriormente aos ecossistemas de água doce e dando origem aos botos de água doce, alguns dos quais existem até hoje”, explicou ele.
Mudanças climáticas ajudam a encontrar fósseis que revelam a história evolutiva da região amazônica. Foto: Divulgação/Agência Andina
O registro fóssil de Loreto
Esse conhecimento é resultado de projetos de ciência básica desenvolvidos graças ao financiamento do Programa Nacional de Pesquisa Científica e Estudos Avançados (ProCiencia), entidade executora do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Tecnológica (Concytec).
Atualmente, Salas-Gismondi lidera o projeto de pesquisa multidisciplinar, “O registro fóssil de Loreto: Arquivos sobre a origem da biodiversidade amazônica”, financiado com aproximadamente 500.000 soles pela ProCiencia.
“É uma ajuda incrível ter o financiamento da ProCiencia para este projeto. Isso nos permitiu financiar três expedições a Loreto e descobrir e recuperar fósseis de golfinhos, peixes-boi e jacarés para estudos futuros. Se não tivéssemos este projeto, muitos desses fósseis estariam no fundo do rio, destruídos e perdidos para a ciência ”, afirmou.
Apenas a terceira expedição a Loreto revelou o crânio fossilizado de um peixe-boi e o de um Gnatusuchus pebasensis , o jacaré mais emblemático do sistema Pebas; além de peixes, golfinhos, preguiças e outros animais ainda não identificados. No total, cerca de 180 quilos de fósseis.
“Todas essas descobertas científicas fazem parte do patrimônio do Peru. São arquivos do passado ou documentos que nos ajudam a entender como esse ecossistema biodiverso, a Amazônia, evoluiu”, enfatizou.
Além disso, ele enfatizou que o projeto possibilita a formação de dois mestrandos em paleontologia, para que “nossa comunidade científica possa crescer e todos esses vestígios existentes no país possam ser recuperados, coletados e estudados por cientistas peruanos”.
“Este projeto permite que nossos laboratórios de paleontologia, tanto no Museu de História Natural de San Marcos quanto na Universidade Cayetano Heredia, estejam ativos, recebendo estudantes de graduação para estágios e estudos de fósseis. Equipamentos estão sendo adquiridos para esse fim”, explicou ele.
Ciências básicas, os fundamentos
Salas-Gismondi lembrou que a ProCiencia financiou 75 projetos de ciência básica este ano, muitos deles multidisciplinares, que totalizaram quase 500 mil soles, e que esse apoio “valioso” precisa continuar.
No entanto, ele alertou que, até 2027, está previsto o financiamento de 19 projetos de ciência básica, dos quais apenas quatro serão multidisciplinares, o que representará “um sério retrocesso para a ciência no Peru”.
“Essa redução significativa prejudicará o progresso científico de muitos pesquisadores que foram atraídos pela ProCiencia para trabalhar no Peru”, disse ele.
Ele observou que, embora “a ciência básica — à qual a paleontologia pertence — não tenha uma aplicação imediata na sociedade, é nela que o conhecimento realmente começa”.
“Em poucos anos, esse conhecimento pode ser traduzido em ciência aplicada para medicamentos, vacinas, equipamentos de pesquisa ou diferentes tipos de tecnologia que a sociedade pode usar. Tudo começa com a ciência básica ”, argumentou ele.
Na opinião dele, “reduzir o financiamento destinado a projetos de ciência básica, porque eles não são estratégicos ou importantes para a indústria, é como remover os alicerces de um prédio que está em construção no país há vários anos”.
Após enfatizar que os projetos de ciência básica “são o pilar e o fundamento da ciência e do conhecimento”, ele alertou que estudos, como a origem dos ecossistemas amazônicos, que nos permitirão compreender fenômenos recorrentes e atuais como as mudanças climáticas ou o El Niño, podem ser interrompidos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Andina – Editora Perú
Assédio eleitoral no ambiente de trabalho foi o tema do programa ‘Entrevistas’, exibido pelo canal Amazon Sat. Arte: Reprodução/Amazon Sat
O programa Entrevistas, exibido pelo canal Amazon Sat, iniciativa do Grupo Rede Amazônica voltada aos temas debatidos em Brasília que impactam diretamente a Amazônia, recebe neste episódio o procurador-geral do Trabalho, Dr. Gláucio Araújo de Oliveira, que abordou sobre o assédio eleitoral no ambiente de trabalho. Comandado pelo jornalista Welliton Lopes, a edição repercute as condutas ilegais dentro do ambiente corporativo que ferem a liberdade individual do trabalhador pelo voto eleitoral.
Durante a conversa, o entrevistado comentou de que forma ocorre o assédio eleitoral no mundo do trabalho, que se caracteriza como a prática de coação, ameaça, constrangimento ou promessa de benefício por parte de empregadores ou superiores dentro do ambiente corporativo, no intuito de influenciar o voto ou a posição política de trabalhadores e servidores públicos. O procurador exemplificou que os casos podem ocorrem tanto na iniciativa privada quanto na administração pública.
“Na iniciativa privada, o empregador ou o dono do negócio, pode coagir, ameaçar, dizer para o trabalhador que se não votarem em tal candidato, ele fechará as portas da indústria, do comércio. Poderá até demitir esse trabalhador, rebaixar ele funcionalmente ou reduzir salários. […] E na administração pública, o prefeito, governador, secretário ou qualquer gestor público pode agir também desta forma, ameaçando de exoneração ou de perder uma gratificação, mudar de setor ou departamento. Ou até mesmo prometendo aumento salarial, promover para outra função, são falsas promessas tendentes a interferir na vontade do trabalhador que é eleitor”, pontuou Gláucio.
Programa Entrevistas recebeu o Procurador-Geral do Trabalho, Dr. Gláucio Araújo, para abordar o tema assédio eleitoral no ambiente de trabalho. Foto: Reprodução/Amazon Sat
Gláucio destacou que o tema é um dos principais desafios do MPT durante o período eleitoral e frisou a importância tanto do empregador quanto do trabalhador em saber quando se configura o assédio eleitoral.
“O trabalhador tem que ter essa concepção do conceito de assédio. É lógico que ele pode exercer a vontade dele votar em quem bem entender, a nossa preocupação é monitorar as investidas do empregador ou gestor público na vontade do eleitor. O trabalhador pode ir à um comício, mas desde que não tenha nenhuma ingerência ou atuação com vício de consentimento, que seria uma coação, ameaça de perder o emprego ou ter redução salarial. A nossa preocupação é essa, de garantir o trabalhador eleitor a liberdade de votar”, ponderou Araújo.
Atuação do MPT visa garantir a livre espontânea vontade do trabalhador pelo voto, sem interferência do seu empregador ou gestor público. Foto: Reprodução/TSE
Atuação do MPT
Foto: Reprodução/Amazon Sat
O procurador destacou a atuação do MPT no combate ao assédio eleitoral através de orientações, recebimentos de denúncias e abertura de investigações em casos da prática abusiva.
“O assédio eleitoral hoje é o principal tema até as eleições, a gente tem quase duzentas denúncias pelo Brasil afora e percebe-se que, a cada semana, com o início da campanha eleitoral e as redes sociais bombando, a tendência é aumentar mais os casos e o Ministério Público do Trabalho tem atuado com investigações nesses casos. Nós estamos num trabalho de campo, de prevenção e num trabalho pedagógico para esclarecer à população sobre este triste evento que ocorre em todos os processos eleitorais e que neste ano já está se repetindo”, explicou Gláucio.
Araújo orientou que as denúncias de assédio eleitoral podem ser feitas pelo trabalhador por meio do link oficial do órgão.
“O MPT aceita a denúncia anônima, a denúncia sigilosa, preservamos a identidade do denunciante, onde ele pode com qualquer smartphone ou celular tirar uma foto, registrar por vídeo uma reunião ou manifestação interna na empresa que caracterize o assédio eleitoral. Nós temos em nosso site um link específico para denúncias, com um roteiro passo a passo em que você preenche ali as informações e automaticamente já é disparado para uma Procuradoria da região de onde acontece os fatos. A partir daí, o procurador inicia a investigação”, disse o procurador-geral do MPT.
Gláucio também comenta sobre os resultados das investigações feitas pelo MPT contra o assédio eleitoral, fez um balanço da sua atuação como procurador-geral na região Norte do Brasil e abordou outras temas como o trabalho escravo e o ciclo migratório de venezuelanos nos estados que fazem fronteira com o país vizinho.
Assista:
‘Entrevistas’
O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.
Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.
‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições: quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30. Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT-4).
Foto (ilustrativa): Marcelo Camargo/Agência Brasil
Uma comunidade remota da Amazônia brasileira está utilizando energia solar para viabilizar um empreendimento de beneficiamento de açaí planejado há anos, criando novas oportunidades para aumentar a renda local e fortalecer meios de vida que dependem da preservação da floresta amazônica.
Na comunidade Bela Conquista, localizada na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna, no estado do Amazonas, uma minirrede solar com armazenamento em baterias (50 kWp de potência fotovoltaica e 165 kWh de armazenamento) fornecerá a eletricidade confiável necessária para operar a unidade comunitária de processamento de açaí.
Até agora, o fornecimento de energia a diesel intermitente impedia a operação da unidade, contribuindo para perdas de frutas, limitando a produção e restringindo a quantidade de polpa de açaí que podia ser processada. Bela Conquista é a primeira demonstração prática de um modelo que os parceiros pretendem expandir para 20 projetos-piloto nos próximos dois a três anos.
Com esses projetos, a iniciativa deve alcançar até 25 comunidades no coração da Amazônia brasileira. O modelo viabilizará diversos negócios de bioeconomia, como a produção de açaí, a pesca, a agricultura e o processamento de frutas. As instalações de sistemas solares com baterias fornecerão até 1 GWh de energia solar por ano, evitando o consumo de 255 mil litros de diesel e a emissão de 680 toneladas de CO2.
A instalação faz parte de uma parceria entre a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), a Global Energy Alliance for People and Planet (GEA) e o Ministério de Minas e Energia (MME). A iniciativa busca demonstrar como o acesso à energia renovável pode promover oportunidades econômicas e desenvolvimento sustentável em comunidades remotas da Amazônia.
Painéis de energia solar. Foto (ilustrativa): Reprodução/Rede Amazônica AM
Energia solar otimiza
O projeto surge em um momento em que o Brasil busca alcançar a última milha de eletrificação. Quase um milhão de brasileiros ainda vive sem acesso à eletricidade, sendo mais de 95% deles na Amazônia, enquanto outros dois milhões dependem de sistemas de geração a diesel poluentes e pouco confiáveis. Em comunidades remotas como Bela Conquista, o mini-grid pode fornecer eletricidade de melhor qualidade ao mesmo tempo em que criam novas oportunidades para negócios locais, serviços essenciais e geração de renda.
A unidade de processamento de Bela Conquista começou a ser idealizada em 2017. Ela nasceu da ambição dos moradores de agregar mais valor ao açaí produzido localmente, ampliar o acesso a mercados e aumentar as oportunidades econômicas para as famílias da comunidade. Ao permitir que uma parcela maior da produção seja processada localmente, o projeto oferece um exemplo concreto de como a energia limpa pode fortalecer a bioeconomia amazônica. Com o agora fornecimento de energia estável, a instalação pode produzir 36 mil litros de açaí por ano.
“O maior gargalo que enfrentávamos para colocar o empreendimento em funcionamento era a falta de energia confiável. Tivemos muitos problemas com a rede existente devido às condições da linha de distribuição, e a eletricidade que chegava à unidade não era suficiente para operar todas as máquinas”, explica Daniel Gama, morador de Bela Conquista e presidente do projeto da unidade de processamento.
“Agora vamos conseguir produzir mais açaí e não teremos mais as mesmas dificuldades com perdas da produção, porque teremos energia proveniente dos painéis solares. Poderemos comprar um volume maior de frutos, ter mais produto para processar na unidade e aumentar a renda das famílias”, afirma Luciana Sena, moradora da comunidade e vice-secretária da unidade de beneficiamento de açaí.
O projeto também passou a fornecer energia para infraestruturas essenciais da comunidade, incluindo a escola, o centro comunitário, a cozinha comunitária e o poço de abastecimento de água.
Transformando acesso à energia em oportunidade econômica
Além da minirrede solar, a parceria entre GEA e FAS inclui capacitação para que os moradores possam gerir, operar e realizar a manutenção dos novos ativos energéticos. Após o treinamento, a própria comunidade será responsável pela gestão do sistema e da unidade de processamento, fortalecendo o senso de pertencimento e a sustentabilidade de longo prazo da iniciativa.
“Os comunitários receberão todas as atividades de capacitação e treinamento previstas desde a concepção do projeto. Eles serão responsáveis pela gestão, operação e manutenção dos ativos implementados em suas comunidades”, afirma Thiago Carvalho, Líder de Projetos Renováveis da FAS.
“Este é um projeto extraordinário, no qual buscamos utilizar a energia como vetor de prosperidade, criando condições para que as comunidades permaneçam nos territórios onde escolheram viver, com qualidade de vida e oportunidades de geração de renda, ao mesmo tempo em que contribuem para a conservação da Floresta Amazônica, um patrimônio de importância fundamental para todo o planeta”, afirma Luisa Valentim, Diretora Brasil na Global Energy Alliance.
Para os moradores de Bela Conquista, a unidade de processamento também representa uma oportunidade de fortalecer meios de vida baseados nos recursos que a floresta já oferece.
“Nossa expectativa é que as pessoas reduzam o desmatamento para plantio e criação e que possamos depender cada vez mais das atividades extrativistas, aproveitando da floresta aquilo que ela já nos oferece. Temos castanha-do-brasil e também o açaí, que hoje é nosso principal produto. Podemos colher da natureza sem desmatar e sem prejudicar nossa floresta”, afirma Luzia Pinto, uma das matriarcas da comunidade.
“Bela Conquista é uma comunidade que serve de referência e merece ser conhecida por todos que sonham com uma Amazônia mais justa e sustentável. Ela mostra que é possível. O grande desafio é multiplicar exemplos como este e tantos outros que tivemos o privilégio de apoiar e fortalecer ao longo da nossa história”, afirma Virgilio Viana, Superintendente-geral da FAS.
Expandindo o modelo para comunidades remotas da Amazônia
O projeto Luz na Floresta é realizado pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), pela Global Energy Alliance e pelo Ministério de Minas e Energia do Brasil. A iniciativa visa promover o desenvolvimento local sustentável e a autonomia econômica em até comunidades da Amazônia brasileira. Espera-se beneficiar mais de 600 famílias por meio do uso produtivo da energia e do desenvolvimento de soluções que possam subsidiar políticas públicas para a expansão do acesso à energia e de oportunidades econômicas em territórios remotos.
As áreas abrangidas pelo projeto incluem o Território Indígena Serra da Moça (Aldeia Serra da Moça), em Boa Vista (Roraima); a Comunidade Nossa Senhora do Livramento (Uixi), na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, em Beruri (Amazonas); a Comunidade Bela Conquista, na Reserva Extrativista Catuá-Ipixuna, em Tefé (Amazonas); a Comunidade Tamaniquá, na região do Médio Solimões (Amazonas); e as comunidades de Santa Maria do Boiaçu, Cachoeirinha e Caicubi, na região do Baixo Rio Branco (Roraima).Nas comunidades atendidas, o projeto visa alcançar 80% de disponibilidade de energia e mais do que triplicar a receita proveniente da produção de açaí.
A instalação de cabos de fibra óptica em trechos de rios é uma das alternativas utilizadas para implantação de infraestrutura de telecomunicações em áreas da região amazônica. Nesse tipo de solução, os cabos são posicionados no leito dos rios para conectar diferentes pontos da rede.
A fibra óptica utiliza filamentos de material transparente para transmitir informações por meio de sinais de luz. Na infraestrutura subfluvial, os cabos recebem proteção adequada para a instalação e operação em ambiente aquático.
Como é feita a instalação de cabos de fibra óptica
A implantação de um trecho subfluvial envolve planejamento do percurso, preparação dos equipamentos e lançamento do cabo. As operações podem utilizar embarcações e equipamentos específicos para posicionar a fibra de acordo com as características do trecho.
Depois da instalação, o cabo é conectado aos demais elementos da rede de telecomunicações. Em pontos onde a infraestrutura subfluvial se integra à rede terrestre, são realizadas as conexões necessárias para a continuidade da transmissão de dados.
A infraestrutura terrestre pode utilizar diferentes soluções, como redes aéreas ou subterrâneas, conforme as características de cada local. Nessas etapas, também são utilizados equipamentos para realizar as conexões entre os segmentos da rede.
A utilização de trechos fluviais pode ser considerada no planejamento de redes de telecomunicações em regiões com características geográficas específicas. Na Amazônia, a extensa rede hidrográfica pode fazer parte dos estudos de implantação de infraestrutura em áreas de difícil acesso terrestre.
A escolha do percurso e da tecnologia utilizada depende de aspectos técnicos e operacionais de cada projeto, incluindo as características do terreno, dos rios e dos pontos que serão conectados.
Conectividade em áreas isoladas
A infraestrutura de fibra óptica permite a transmissão de grandes volumes de dados e pode ser utilizada para conectar diferentes localidades a redes de telecomunicações.
Uma vez integrada à infraestrutura de conectividade, a rede pode permitir o acesso a serviços que utilizam internet, como plataformas digitais, sistemas de comunicação, atividades de educação a distância e serviços de teleatendimento, conforme a disponibilidade desses serviços em cada localidade.
A implantação de infraestrutura subfluvial é, portanto, uma alternativa técnica que pode ser utilizada na composição de redes de telecomunicações em regiões onde as características geográficas exigem soluções específicas.
Uma plataforma acoplada a dois rebocadores implantando cabos de fibra ótica sob as águas do rio Solimões. Foto: Layo Stambassi/MCom
O que muda na prática?
Para o usuário final, a fibra óptica subfluvial é parte da infraestrutura responsável pelo transporte dos dados. O cabo instalado no rio não constitui, por si só, a conexão direta de uma residência ou estabelecimento à internet. Ele integra diferentes segmentos da rede, que podem incluir estruturas subfluviais, terrestres e equipamentos de distribuição. A combinação dessas estruturas permite formar redes de telecomunicações adaptadas às características de cada região.
O Arraial de Nazaré é uma das tradições do Círio de Nazaré em Belém (PA). E você sabia que essa feira teve origem durante a primeira edição do Círio de Nazaré, em 1793?
Na época era organizado como uma grande feira de produtos agrícolas e o termo “arraial”, segundo a Diretoria da Festa na Basílica Santuário de Nazaré, da Arquidiocese de Belém, surgiu com a construção das casas ao redor da ermida de Plácido, após o achado da imagem, aproveitando o intenso fluxo de peregrinos.
A ermida era uma casa de madeira e palha, construída pelo homem que encontrou a imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens do igarapé Murutucu, e que seria a “vizinha” da Basílica construída anos depois.
Arraial se tornou um dos símbolos da confraternização cristã
Naquele tempo, segundo a Diretoria, as festividades ocorriam em setembro, período do verão amazônico, quando as chuvas diminuíam. Para a realização do primeiro Círio, o governador organizou uma feira com produtos trazidos de diversos municípios, providenciando inclusive transporte fluvial para pessoas e mercadorias.
No entanto, o funcionamento do arraial nazareno no século XIX não se resumia à mera exposição e venda de “produtos regionais”.
Além das barracas fixas, a movimentação do público era acompanhada pelo comércio ambulante, por jogos, pelas danças coletivas negras, indígenas (lundum, chorado, cateretê, dança do bagre, mandu-sarará e bambiá) e europeias (dança das saloias e dança das camponesas), pelas apresentações musicais (normalmente apresentações de bandas) e teatrais.
O Arraial acontecia inicialmente em frente à Basílica, onde hoje está localizada a Praça Santuário de Nazaré (antigo Conjunto Arquitetônico de Nazaré – CAN). Com o passar do tempo, tornou-se um espaço de convivência, lazer e tradição dentro das festividades do Círio.
*Com informações da Diretoria da Festa na Basílica Santuário de Nazaré, da Arquidiocese de Belém
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para que a Justiça Federal obrigue a União, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e os estados do Amazonas, de Rondônia e de Roraima a criar e manter um sistema permanente, integrado e público de monitoramento da contaminação por mercúrio nos rios, nos sedimentos, nos peixes e nas populações que vivem próximo às áreas de atividades garimpeiras.
De acordo com o MPF, a atuação integrada deve ser implementada por meio de um sistema nacional com diretrizes para a medição do mercúrio e que reúna dados de todo o país; e um programa regional, com monitoramento das áreas de garimpo dos três estados e atuação na vigilância e no atendimento em saúde.
A ação do MPF destaca a inércia estrutural do Estado, que não tem rotinas padronizadas, capacidade laboratorial integrada ou banco de dados unificado para mensurar a evolução da poluição mercurial.
Antes de recorrer ao Judiciário, o MPF expediu recomendação aos órgãos de meio ambiente e de saúde das esferas federal e estaduais. Nenhum dos destinatários adotou medidas concretas com prazos definidos.
Entre as justificativas apresentadas pelos réus, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) condicionou ações futuras à disponibilidade orçamentária, enquanto o Ibama solicitou a reconsideração do pedido sob o argumento de que seu cumprimento esgotaria a capacidade operacional do instituto.
Enquanto os órgãos estaduais justificaram a falha apontando limitações técnicas e a ausência de testagem de mercúrio em suas amostragens, a ANA passou a responder ao processo por não incluir a medição do metal pesado entre os critérios mínimos da Rede Nacional de Monitoramento da Qualidade das Águas Superficiais na Amazônia, gerenciada por ela.
Atualmente, a única rede de monitoramento em operação na região atende apenas à Terra Indígena Yanomami, custeada por recursos do Supremo Tribunal Federal (STF) via ADPF nº 709. Fora dessa área, o MPF aponta que o poder público atua às cegas: não sabe onde a contaminação está, a que ritmo ela avança e nem quem precisa de proteção.
Impactos ambientais
O mercúrio metálico, liberado em escala pela lavra garimpeira de ouro, convertido em metilmercúrio nos rios, é absorvido por peixes e alcança, por meio da alimentação, milhares de pessoas que dependem do pescado como base alimentar.
As provas e evidências reunidas pelo MPF vêm de laudos da Polícia Federal, de pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de universidades públicas dos estados e de levantamentos de organizações da sociedade civil, todos convergentes quanto à contaminação nas bacias dos Rios Madeira, Negro, Solimões, Branco, Uraricoera e Mucajaí.
Foto: Paulo Basta/Fiocruz
Em Porto Velho, 26,1% dos peixes analisados apresentaram mercúrio acima do limite seguro, e a ingestão diária superou a dose de referência em todos os grupos da população: cerca de 8 vezes entre mulheres em idade fértil e 27 vezes entre crianças de 2 a 4 anos. Em comunidades ribeirinhas do Alto Solimões e do Alto Rio Negro, as concentrações médias registradas foram 17 vezes superiores ao limite recomendado.
Estudos apontam ainda que 21,3% dos peixes vendidos em centros urbanos da região estão acima dos limites da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, com contaminação 4 vezes maior em Roraima e 3 vezes maior em Rondônia e no Amazonas na comparação com o Amapá.
Outro ponto de alerta no cenário do garimpo é a diferença entre o quantitativo declarado de mercúrio comercializado legalmente e o estimado utilizado nas atividades. De acordo com nota técnica disponibilizada pelo Ibama, entre 2018 e 2025, foram vendidos legalmente 640 kg do metal em todo o país para uso em mineração de ouro, enquanto o consumo estimado apenas em Mato Grosso chegou a 25,8 toneladas. Ou seja, cerca de 98,5% do mercúrio comercializado tem origem do comércio ilegal.
Pedidos
Em pedido de urgência, o MPF requer que a Justiça determine:
a criação de um comitê interinstitucional em 30 dias;
a apresentação do plano de implantação dos dois sistemas em 120 dias;
a inclusão do mercúrio entre os parâmetros medidos pela ANA na rede nacional de qualidade das águas em 90 dias; e
a realização, em até 180 dias, da primeira campanha conjunta de coleta e análise de água, sedimentos e peixes nas bacias prioritárias.
A ação propõe uma estrutura em nível nacional e regional. O Sistema Nacional de Monitoramento da Contaminação por Mercúrio, a ser coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, fixará as diretrizes técnicas para medir o metal na água, nos sedimentos, nos peixes e nas pessoas, mantendo uma plataforma pública com os dados de todo o país e com publicação de relatório anual sobre a situação e as tendências da contaminação.
Já o Programa Regional de Monitoramento da Amazônia Ocidental alcançaria as bacias do Amazonas, de Rondônia e de Roraima com garimpo, com campanhas conjuntas do Ibama, da ANA, do Ministério da Saúde e dos órgãos estaduais, além de rotinas estaduais de vigilância em saúde. Os estados também deverão organizar a busca ativa de casos e o acompanhamento da saúde das populações mais expostas.
O MPF pede que a Justiça determine a implantação do sistema nacional em 12 meses e da plataforma pública de dados em 24 meses, com relatórios a cada 90 dias. A ação é uma atuação do 2° Ofício da Amazônia Ocidental, especializado no enfrentamento à mineração ilegal no Amazonas, no Acre, em Roraima e em Rondônia.