No município de São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, uma família de agricultores transformou um sonho em realidade: converter uma antiga área degradada em uma propriedade com capacidade para produzir até 12 mil mudas de árvores florestais e frutíferas. Denominada Sítio Fé na Vida, a propriedade funcionava como uma fazenda de gado marcada pelo desgaste do solo, até que a implementação de um Sistema Agroflorestal (SAF) começou a redesenhar a paisagem local.
A história de sucesso do Sítio Fé na Vida nasceu da determinação do casal Diandson Santiago e Daiane Feitosa. Há cinco anos, eles decidiram mudar os rumos da propriedade de cinco hectares, recebida como doação do pai de Diandson, para apostar na agricultura de baixo impacto ambiental.
“A gente buscou trabalhar o SAF integrado com cacau, açaí, banana e cajá. Com isso, conseguimos iniciar também a recuperação das nascentes”, conta Daiane, com um sorriso de satisfação.
Casal Diandson Santiago e Daiane Feitosa apostou no plantio de espécies nativas e frutíferas para reflorestar área degradada e transformar desmatamento em desenvolvimento sustentável. Foto: Divulgação/Imaflora
Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável com mais de 1,6 milhão de hectares, o Sítio Fé na Vida produz hoje mudas de cacau, cupuaçu, açaí, ipê-roxo, jatobá, cumaru, castanha-do-brasil, além de outras essências, além de diversas outras essências florestais.
A trajetória, no entanto, exigiu resiliência. “Quando começamos, não tínhamos estrutura nenhuma. Produzíamos nossas mudas e os vizinhos vinham procurar, mas não tínhamos volume para vender. Começamos com uma estrutura pequena coberta de palha e era um grande sacrifício para regar”, recorda Dianderson, orgulhoso do caminho percorrido ao lado da esposa.
Assistência técnica e restauração ambiental no Pará
O sistema de irrigação em viveiros garante uma lâmina hídrica uniforme e microclima ideal para o desenvolvimento radicular, elevando o padrão de qualidade das mudas. Foto: Reprodução/Imaflora
A virada de chave veio com a assistência técnica do Programa Florestas, do Imaflora. A assistência permitiu aos agricultores escreverem um novo capítulo. Primeiro, veio a implementação do SAF Cacau, focada na recuperação e proteção do solo, na diversificação da produção, na segurança alimentar e na geração de renda.
“Conseguimos perceber de perto a forte vocação deles para a produção de mudas e, a partir dessa realidade, concluímos a ampliação do viveiro, fortalecendo a produção de espécies florestais e frutíferas. Hoje, o espaço tem capacidade média para produzir de 10 a 12 mil mudas por ciclo, ampliando as oportunidades e valorizando um trabalho que já faz parte da vida e da dedicação desse casal.”, explica Jefferson Campos, analista técnico do Imaflora.
Produção de mudas envolve tecnologia, futuro e mercado sustentável
Foto: Reprodução/Imaflora
De um solo exaurido a uma propriedade diversificada e rentável, o casal prova que o desenvolvimento sustentável na Amazônia é possível. “Hoje o viveiro está todo estruturado e conta com irrigação automatizada. Em apenas 10 minutos fazemos a rega de todas as mudas, processo que antes levava horas. Para o futuro, nossa proposta é introduzir novas espécies para criar um banco de sementes. O Imaflora tem sido fundamental, nos apoiando desde as técnicas de plantio, seleção de sementes até a comercialização das mudas”, finaliza Diandson.
A experiência do Sítio Fé na Vida mostra que recuperar áreas degradadas também pode significar criar oportunidades para quem vive e produz na Amazônia. Ao transformar a produção de mudas em fonte de renda, Diandson e Daiane contribuem para ampliar a oferta de espécies nativas e frutíferas, fortalecer a agricultura familiar e estimular a recuperação de áreas degradadas.
Iniciativas como essa ajudam a construir uma relação mais equilibrada entre produção e conservação, gerando benefícios que ultrapassam os limites da propriedade: cada muda produzida pode representar uma nova árvore no território, mais biodiversidade, proteção do solo e das nascentes e melhores condições de vida para as famílias que dependem da floresta.
É um exemplo de que investir nas pessoas e na natureza pode ser, ao mesmo tempo, uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia e um caminho para construir um futuro mais sustentável.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora
Jessica Ribeiro, artista plástica de Porto Velho. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO
A artista plástica e professora de pintura Jessica Ribeiro encontrou na arte, ainda na infância, uma forma de expressão. Moradora de Porto Velho (RO), ela ensina pintura para crianças e adultos e agora se prepara para levar o trabalho que desenvolveu em Rondônia para o Carrousel du Louvre, em Paris, na França.
Ao Grupo Rede Amazônica, a artista contou que esta não é a primeira vez que expõe fora do país. A primeira experiência internacional ocorreu em Portugal, em 2025. Antes de chegar a Paris, porém, a relação de Jessica com a arte começou ainda na infância.
“Quando criança, gostava de praticar, fazendo desenhos, olhando, copiando traços que eu queria aprender. Mas para eu me sentir artista, foi algo que foi crescendo dentro de mim e algo que eu fui aprimorando até eu perceber que aquilo era algo que realmente fazia parte de quem eu sou”, conta.
Pinturas de Jéssica Ribeiro. Foto: Reprodução
Grande parte do aprendizado veio de forma autodidata, observando outras pessoas e experimentando. Como nem sempre tinha acesso aos materiais adequados, Jessica também precisou improvisar, experiência que, segundo ela, acabou influenciando sua forma de criar.
Com o passar do tempo, foi aprimorando a técnica e, aos 10 anos, teve a primeira oportunidade de fazer aulas de pintura. Foi quando teve contato com a tinta a óleo, técnica que continua presente em seu trabalho.
“A arte faz parte da minha personalidade, está impregnada em mim. Eu não consigo me imaginar longe disso”, conta a artista.
Do pincel ao ensino
Pintura dos alunos de Jéssica Ribeiro em Porto Velho. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO
A ideia de ensinar surgiu a partir de algumas experiências que Jessica teve como professora de pintura. A partir dos workshops que passou a oferecer, ela percebeu que também tinha facilidade para ensinar e decidiu abrir o próprio ateliê, onde hoje ministra aulas para pessoas de diferentes idades.
“Eu vi que era algo que eu conseguia fazer, porque você saber pintar, você saber desenhar é uma coisa. Agora, você saber ensinar isso para outras pessoas é diferente. Você tem que ter uma metodologia”, revela Jessica.
Para a professora, ensinar vai além do retorno financeiro. Ao longo dos dois anos de aulas no ateliê, ela percebeu que criou um ambiente de amizade e aprendizado entre os alunos. Além de ensinar técnicas, Jessica também busca dar liberdade para que cada estudante desenvolva a própria criatividade e encontre novos caminhos dentro da arte.
“Eu tenho alunos que já fizeram aulas aqui e hoje se sentem independentes para poder criar suas próprias artes, para poder buscar o seu próprio caminho. Mas é muito legal saber que eles começaram aqui”, revela Jessica.
Pinturas de Jéssica Ribeiro retratando à fauna e arquitetura regional. Foto: Reprodução
Hobby manual
Em tempos de inteligência artificial (IA), excesso de telas e consumo acelerado de conteúdo, a prática de hobbies manuais, como a pintura e o desenho, ganha ainda mais relevância. Para Jessica, ensinar essas técnicas também é uma forma de oferecer às pessoas um espaço para a expressão das próprias emoções.
A professora e artista visual Amanara Brandão Lube reforçou essa percepção. Segundo ela, a arte vai além de um simples passatempo ou de uma atividade com finalidade comercial. O processo criativo mobiliza habilidades motoras, criativas, imaginativas e emocionais, além de permitir que cada pessoa expresse sua subjetividade e suas experiências de vida.
“O mais importante, muitas vezes, não é a obra final, mas o processo percorrido para chegar até ela. Fazer arte exige que a pessoa esteja inteira, colocando na prática sua história, suas emoções e sua forma de ver o mundo”, explica Amanara.
Para Amanara, em um cenário marcado pela inteligência artificial e pelo consumo rápido de informações, a prática artística representa um momento de pausa e conexão consigo mesmo.
“A arte é uma forma de nos situarmos no mundo diante de tanto estímulo. Mobilizar as emoções, as habilidades manuais e intelectuais para criar algo que está além da lógica da produtividade e do consumo rápido já é um ato de resistência”, afirma.
A especialista também destaca que a arte fortalece a imaginação, considerada por ela uma ferramenta essencial para encontrar soluções, criar novas possibilidades e projetar um futuro diferente. Outro ponto ressaltado por Amanara é que desenhar e pintar não são habilidades restritas a quem nasce com um “dom”. Segundo ela, o desenvolvimento artístico depende principalmente da prática e do estímulo.
“Os estudos em arte mostram que esse ‘dom’ é um mito. Existem pessoas com mais facilidade, mas ninguém desenvolve uma linguagem artística sem prática e estudo. Qualquer pessoa pode fazer arte”, diz.
Ela lembra ainda que as crianças costumam desenhar, brincar e criar de forma espontânea, mas que, ao longo da vida, muitas acabam perdendo essa liberdade por causa da pressão por perfeição e do medo de errar.
“Nunca é tarde para encontrar ou reencontrar o artista que existe dentro de cada pessoa”, afirma.
Artista com reconhecimento internacional
Jessica Ribeiro, artista plástica expondo em Portugal. Foto: Reprodução
Depois de transformar a paixão da infância em profissão, Jessica agora vive um dos momentos mais importantes da carreira. A artista já expôs em Portugal e se prepara para expor no Carrousel du Louvre, em Paris. A oportunidade surgiu após ela passar por um processo seletivo, algo que, segundo Jessica, sempre sonhou ao acompanhar outros artistas brasileiros e estrangeiros sendo selecionados.
As obras que serão apresentadas são inéditas e foram produzidas especialmente para a exposição, mas mantêm a identidade que Jessica construiu em sua trajetória, com referências a mulheres, à cultura de Porto Velho e à própria história familiar.
Para ela, levar sua arte a Paris também significa apresentar Rondônia e sua cultura a pessoas de diferentes partes do mundo.
“Eu acho muito importante porque é um ponto muito incrível para a vida do artista. Você percebe que a sua arte não vai conquistar somente as pessoas que vivem essa cultura, que se conectam, que já têm uma história, mas também pessoas de uma cultura muito diferente da nossa”, afirma.
Jessica diz ainda que tem curiosidade para saber como o público estrangeiro vai receber suas obras e destaca a possibilidade de compartilhar um pouco da identidade amazônica com quem visitar a exposição. “É muito interessante poder dividir com essas pessoas um pouco mesmo do que me rodeia. Então, poder ter uma arte minha numa galeria tão famosa como o Carrousel du Louvre é muito incrível”, completa.
Pinturas de Jéssica Ribeiro. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO
A Amazônia Legal reúne 66% das famílias e 88% da área dos assentamentos de reforma agrária do Brasil. Essa concentração torna as famílias assentadas um público prioritário para políticas de adaptação climática, segurança alimentar e proteção florestal. Secas, cheias e incêndios já reduzem a produção, dificultam o transporte e comprometem a renda de produtores com poucos recursos para prevenir perdas ou retomar suas atividades depois de um desastre.
A região possui aproximadamente 480 mil famílias e 33 milhões de hectares em assentamentos tradicionais, organizados principalmente em lotes destinados à produção familiar. Também concentra modalidades como Reservas Extrativistas e Projetos de Desenvolvimento Sustentável, que reconhecem formas coletivas de ocupação, atividades extrativistas e compromissos de conservação. A Amazônia reúne 81% das famílias e 96% da área dos assentamentos diferenciados do país.
Os dados fazem parte do relatório Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas, do projeto Amazônia 2030. Entre 2021 e 2024, as perdas agropecuárias declaradas na Amazônia Legal ficaram próximas de R$ 6 bilhões por ano. Ao mesmo tempo, apenas 9% dos agricultores familiares da Região Norte tinham acesso ao crédito rural e proporção semelhante recebia assistência técnica.
Amazônia Legal reúne 66% das famílias e 88% da área dos assentamentos de reforma agrária do Brasil. Foto: Nilo D’Avila / Greenpeace
Recursos já existentes podem financiar a adaptação
O relatório identifica o Fundo Social do Pré-Sal como uma fonte possível de recursos para adaptação climática, segurança alimentar e proteção florestal na Amazônia. Criado em 2010 para transformar parte das receitas petrolíferas em desenvolvimento social e regional de longo prazo, o fundo pode financiar programas de proteção ambiental e adaptação às mudanças climáticas. A legislação posterior ampliou as finalidades autorizadas, incluindo segurança alimentar, infraestrutura hídrica e proteção dos direitos dos povos indígenas.
A recomendação não envolve nem expressa apoio à abertura de novas fronteiras de exploração de petróleo, incluindo a Margem Equatorial. O relatório não avalia a conveniência ambiental, econômica ou climática desses projetos. A proposta refere-se exclusivamente aos recursos já arrecadados e às receitas decorrentes da produção do pré-sal que já ocorre.
Em 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou o esvaziamento financeiro do Fundo Social, a aplicação de recursos fora dos objetivos definidos em sua lei de criação e a ausência, naquele momento, de estruturas adequadas de governança. Dos aproximadamente R$ 146 bilhões arrecadados desde a criação do fundo, restavam cerca de R$ 20 bilhões ao final de 2022. Somente em 2021 e 2022, mais de R$ 64 bilhões foram usados para amortizar a dívida pública. (Portal TCU)
A constatação do TCU reforça a necessidade de vincular os recursos disponíveis às finalidades previstas em lei, com programas identificáveis, critérios públicos e avaliação dos resultados.
Agricultura familiar precisa receber recursos antes das perdas
O relatório propõe que parte dos recursos disponíveis financie serviços que as famílias mais vulneráveis dificilmente conseguem contratar individualmente. Entre as possibilidades estão assistência técnica, prevenção de incêndios, monitoramento, infraestrutura comunitária de água, adaptação das propriedades e apoio a sistemas agroflorestais.
Algumas dessas ações exigem gasto público direto, especialmente assistência técnica pública, monitoramento, prevenção de incêndios e infraestrutura comunitária. Outras podem combinar recursos não reembolsáveis, orientação técnica e crédito, como recuperação de áreas produtivas degradadas, armazenamento local, sistemas agroflorestais e manejo sustentável.
O objetivo é aplicar recursos antes que secas, cheias e incêndios provoquem perdas de produção e renda. Para agricultores com pouco capital e acesso limitado ao crédito, a perda de uma safra pode afetar a alimentação da família, impedir o plantio seguinte e aumentar o endividamento.
Relatório está disponível para download. Foto: Reprodução/Imazon
Restauração pode proteger a produção e gerar renda
A restauração florestal é uma das aplicações possíveis analisadas no relatório. A floresta ajuda a regular as chuvas, reduz o risco de incêndios e sustenta rios utilizados para abastecimento, transporte e geração de energia. Sua conservação protege as condições naturais das quais a agricultura depende.
Além das ações examinadas no relatório, os autores defendem a criação de mecanismos que remunerem agricultores familiares pela conservação e pela restauração realizadas além das obrigações legais. Essa proposta exigiria critérios para selecionar áreas e beneficiários, verificar os resultados e definir valores e duração dos pagamentos.
“A agricultura familiar tem menos acesso a crédito e assistência técnica e menos recursos para enfrentar secas, cheias e incêndios. A proposta não depende da abertura de novas áreas de exploração de petróleo: ela trata de dar melhor destinação às receitas geradas pela produção do pré-sal que já ocorre. O Fundo Social pode financiar a adaptação da produção, a proteção e a restauração florestal. Além das ações analisadas no relatório, defendemos mecanismos que remunerem agricultores familiares pela conservação e pela restauração realizadas. Nos pequenos imóveis onde houver pastagens degradadas, isso permitiria combinar a melhoria da agropecuária, a recuperação ambiental e uma nova fonte de renda”, afirma Paulo Barreto, coautor do estudo e mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale, nos Estados Unidos.
Destinação depende das decisões orçamentárias
A destinação de recursos do Fundo Social para a Amazônia não é automática. Ela depende do Plano Anual de Aplicação de Recursos, da elaboração do orçamento federal e da aprovação da Lei Orçamentária Anual pelo Congresso Nacional. O plano orienta o orçamento, mas a decisão final passa pelo Poder Executivo e pelo Legislativo. (Serviços e Informações do Brasil).
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon.
Recuperação de área de mineração na Região Norte do País. Foto: Liliane Bello
Riquíssimo em insumos estratégicos para a transição energética e com um faturamento que alcançou R$ 908 milhões em 2024, o subsolo do Amazonas vive um paradoxo: apesar das jazidas de relevância internacional, o estado responde por apenas 6,1% dos processos minerários ativos da Amazônia Legal e por apenas 0,5% dos royalties arrecadados na região.
Os dados, que constam em um levantamento recente da Agência Nacional de Mineração (ANM), acendem o debate sobre os limites técnicos, econômicos e socioambientais para a extração de minérios no subsolo, em meio à floresta tropical. Para entender o que trava o avanço desse setor e os riscos envolvidos, o Grupo Rede Amazônica ouviu especialistas em geologia e em direito ambiental.
A Bacia do Amazonas concentra reservas de grande escala em seu subsolo. O principal destaque do estado é o Projeto Potássio Autazes, localizado no município de Autazes (a 112 km de Manaus). A silvinita (rocha de onde se extrai o potássio) se estende por mais de 155 km² na região, em profundidades que variam entre 685 e 865 metros.
Além do potássio, levantamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) apontam um alto potencial de nióbio e terras raras no subsolo, especialmente na Bacia do Rio Negro, enquanto a Mina Pitinga, em Presidente Figueiredo, se consolida como a maior reserva e produtora de estanho do Brasil.
Subsolo do Amazonas possui grandes reservas minerais. Na foto, mineração realizada no Amazonas. Foto: Reprodução/G1 Amazonas
‘Potencial existe, mas ambiente e logística exigem rigor’, avalia especialista
Mesmo com riquezas estratégicas em seu subsolo, a baixa representatividade do Amazonas no total de processos minerários da região (6,1%) não significa ausência de minérios, mas reflete a predominância de rochas sedimentares e a densa cobertura florestal, que dificultam a identificação de jazidas.
Quem explica é o geólogo Tiago Felipe Arruda Maia, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e especialista em gênese de depósitos minerais. “Diversas apreensões de minérios nos nossos rios e em aeronaves clandestinas, feitas pelas polícias civil e federal, são prova disso, junto às inúmeras ocorrências de garimpos ilegais no estado. Uma maior cartografia geológica de detalhe e aerogeofísica no estado irão revelar os detalhes da geologia, mas o potencial existe com toda certeza”, afirma o professor.
Em relação ao projeto subterrâneo de Autazes em subsolo amazonense, o geólogo afasta os riscos de afundamento de solo como o registrado em Maceió, no Alagoas. Ele explica que a presença de uma camada selante de rocha sedimentar no subsolo amazonense e o preenchimento das cavas com o próprio sal residual garantem a estabilidade da operação.
Autazes, no Amazonas. Foto: Reprodução/Potássio do Brasil
“Haverá pouquíssima entrada de água superficial e/ou subterrânea nessa camada de sal capaz de dissolvê-lo e gerar afundamento do solo acima dele. Portanto o projeto tem viabilidade técnica para sua execução, mas um monitoramento e fiscalização precisos e constantes têm que ser feitos para garantir que tudo será executado corretamente”, pondera o geólogo.
Por outro lado, depósitos promissores na área do subsolo enfrentam limitações territoriais severas. No Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, há uma reserva estimada em 2,9 bilhões de toneladas de minério com teor médio de 2,8% de nióbio, mas a exploração é inviável por estar em uma área de tripla sobreposição de unidades de proteção e terra indígena.
Já na Mina Pitinga, onde a cassiterita ocorre associada ao tântalo e nióbio, o pesquisador destaca uma oportunidade na economia circular: as pilhas de rejeito acumuladas ao longo de décadas guardam alto potencial para a extração futura de terras raras.
Se a viabilidade técnica existe, o ambiente regulatório exige conciliação com as populações tradicionais e com a preservação da biodiversidade. Para o advogado Antonio Norte, doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, a aplicação da Convenção 169 da OIT deve ser encarada como instrumento de pactuação socioambiental, e não como mera barreira burocrática.
“O maior desafio não está na existência da Convenção nº 169 da OIT, mas na forma como ela é implementada, uma vez que a consulta prévia, livre e informada não deve ser tratada como um obstáculo ao desenvolvimento, mas como uma garantia de legitimidade das decisões públicas”, avalia Antônio Norte.
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é um tratado internacional que garante direitos aos povos indígenas e tribais, como a proteção de suas terras, cultura, identidade e formas de organização. Um dos principais pontos é o direito à consulta prévia, livre e informada antes da adoção de medidas administrativas ou legislativas que possam afetá-los diretamente.
O jurista também aponta um descompasso entre o faturamento da atividade mineral no estado (R$ 908 milhões) e a pouca compensação financeira revertida aos municípios afetados, que ficam com apenas 0,5% dos royalties (CFEM) gerados na Amazônia Legal.
Para corrigir essa distorção, Norte defende a reformulação da justiça fiscal ambiental, de modo que os recursos da CFEM sejam diretamente vinculados à infraestrutura local, à saúde e à recuperação de áreas degradadas.
Reserva Biológica Morro dos Seis Lagos está localizada no município de São Gabriel da Cachoeira. Foto: Foto/Araquém Alcântara
A insegurança jurídica motivada por disputas entre órgãos ambientais e o Ministério Público também é apontada como um gargalo que pode ser superado com regras claras desde as fases preliminares do projeto. Da mesma forma, em operações históricas como Pitinga, o especialista enfatiza que o controle ambiental deve cobrir todo o ciclo de operação do empreendimento.
“O licenciamento ambiental não deve ser compreendido apenas como autorização para iniciar a atividade, mas como um instrumento de gestão de todo o ciclo de vida da mineração. Na Amazônia, a boa governança exige que a exploração deixe como legado desenvolvimento econômico e social, e não passivos ambientais para as futuras gerações”, conclui.
O Tribunal de Justiça de Rondônia tornou pública, no dia 14 de agosto, uma decisão que garante que uma bebê indígena tenha os nomes de três pais na certidão de nascimento. A decisão, proferida em Guajará-Mirim (RO), reconhece o vínculo da criança com a mãe biológica e com os tios maternos, que a criam desde os dois meses de idade na Aldeia Pantrop.
A menina, nascida em 2024, continuará com o nome da genitora, Iolanda Oro Eo, no documento. Agora, o registro também vai incluir os tios Joacir Oro Waram Xijein e Glenda Oro Eo como pai e mãe socioafetivos.
A Justiça entendeu que o casal exerce a função com responsabilidade e garante um ambiente seguro para o desenvolvimento da bebê. O modelo, chamado de multiparentalidade, difere da adoção tradicional porque mantém a mãe biológica na vida e na documentação da filha.
Iolanda concordou voluntariamente com a inclusão dos irmãos no documento da criança. O juiz Eduardo Abílio, da 1ª Vara Cível, foi o responsável pela sentença. Ele destacou que a medida legaliza um arranjo familiar que já existia na prática.
Além disso, o magistrado afirmou que a ação respeita o interesse da menor e os costumes de organização social dos povos indígenas, garantidos pela Constituição Federal.
O processo teve pareceres favoráveis do Ministério Público e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Um estudo psicossocial também foi realizado e comprovou o “vínculo afetivo sólido e estruturado” entre a bebê e os tios.
Agentes visitam 14 bairros para orientar moradores sobre as armadilhas contra o Aedes aegypti. Foto: Francisco Sena/PMBV
A Prefeitura de Boa Vista iniciou nesta segunda-feira, 10, o trabalho de mapeamento das casas que poderão receber ovitrampas, armadilhas utilizadas para monitorar a presença do mosquito Aedes aegypti. Ao longo da semana, equipes de Agentes de Combate às Endemias (ACE) estarão em 14 bairros da capital para identificar os locais e explicar aos moradores a importância da estratégia.
Utilizadas para monitorar a presença do mosquito, as ovitrampas atraem fêmeas para a deposição de ovos. A estratégia reforça a vigilância no município e permite identificar áreas com maior presença do vetor para intensificar as ações de prevenção e controle. A instalação das armadilhas começa na próxima segunda-feira, 17.
Vigilância reforçada para identificar áreas com maior presença do Aedes e intensificar a prevenção. Foto: Francisco Sena/PMBV
A implantação será iniciada nos bairros com maior número de casos prováveis de arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. São eles: Alvorada, Caranã, Cauamé, Cidade Satélite, Dr. Silvio Botelho, Dr. Silvio Leite, Jardim Equatorial, Jóquei Clube, Nova Cidade, Pintolândia, Raiar do Sol, Santa Tereza, Senador Hélio Campos e São Bento.
“As equipes farão todo o acompanhamento. Cerca de cinco a sete dias depois da instalação, serão recolhidas as palhetas que ficam dentro das armadilhas para análise. Com o monitoramento, a prefeitura passa a contar com informações mais precisas sobre a circulação do Aedes aegypti em diferentes regiões da cidade”, explicou o superintendente de Vigilância em Saúde e Ambiente, Pedro Siqueira.
A instalação da ovitrampa só é feita com o consentimento do morador ou responsável pelo imóvel. Foto: Francisco Sena/PMBV
Orientação à população faz parte da estratégia
A instalação da ovitrampa só pode ser feita com o consentimento do morador ou responsável pelo imóvel. Por isso, durante esta semana, os agentes também estão coletando as assinaturas dos moradores que aceitaram receber a armadilha. Durante a visita, os moradores recebem orientações sobre os cuidados necessários e são informados sobre a data prevista para a implantação do equipamento na residência.
“Quem tiver uma ovitrampa instalada em casa deve evitar retirar ou mudar o equipamento de lugar e, principalmente, deve permitir a entrada dos agentes no local. As equipes trabalham devidamente identificadas, para a segurança dos profissionais e dos moradores”, apontou Pedro.
A população deve manter a limpeza de quintais e eliminar possíveis criadouros. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Mesmo com o monitoramento, os cuidados dentro de casa continuam fundamentais para o combate ao Aedes aegypti. Entre as principais medidas estão a eliminação de recipientes que possam acumular água e a manutenção de quintais e demais áreas livres de possíveis criadouros.
Aldeia Nova Trairão, na Terra Indígena Munduruku (PA), recebeu um sistema de abastecimento de água em setembro de 2025, fornecido pelo Projeto Saúde e Alegria e pelo Unicef Brasil. Foto: Divulgação/Saúde e Alegria
Um igarapé na região do Lago do Boto, na Terra Indígena (TI) Munduruku, marcou a infância de Ediene Kirixi. Era ali que ela bebia água, pescava e se banhava desde o final dos anos 80. Na segunda metade da década de 90, o garimpo ilegal de ouro nas cabeceiras do Alto Rio Tapajós, no sudoeste do Pará, contaminou os corpos hídricos do entorno da sua aldeia. Em 1997, Ediene, na época com 10 anos, teve que se mudar com a família e se instalou na beira do Tapajós, cujas águas ainda estavam limpas. Até que, a partir de 2018, o avanço da exploração mineral ganhou intensidade na bacia e transformou de vez o que restava do rio cristalino na região.
“Hoje, as nossas crianças já não têm mais a liberdade de tomar a água do rio. A cor do rio é branca, os peixes estão doentes. A água desce com as sujeiras e chega até nós. Isso deixa muitas aldeias sem ter o que beber”, observa Ediene, 39 anos, coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn, que representa sete territórios indígenas da bacia do Tapajós.
A degradação dos corpos hídricos por atividades como garimpo e desmatamento, agravada pela ocorrência mais frequente e intensa de eventos climáticos extremos, aumenta os riscos para quem depende dessas águas. Análise da InfoAmazonia, com base em dados do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que quase 40% da população indígena em terras indígenas na Amazônia Legal não tem acesso adequado à água e, por isso, depende principalmente de rios, lagos e igarapés para obtê-la.
O saneamento básico, que deveria garantir o acesso seguro à água e outros serviços essenciais como esgotamento sanitário e destinação adequada do lixo, ainda é precário nessas comunidades.
Na Amazônia Legal, 116 mil moradores de terras indígenas (27,38% do total da população indígena em TIs) estão conectados à rede geral de distribuição, enquanto 145 mil (34,29%) captam água sobretudo de poços, fontes, nascentes ou minas. Essas formas de abastecimento são consideradas oficialmente adequadas e mais seguras por contarem, em geral, com canalização, fornecimento contínuo, quantidade suficiente e garantia de potabilidade.
Entre as demais formas de acesso à água, 114 mil pessoas (27%) dependem principalmente de rios, lagos e igarapés para obter água. Há, ainda, 37 mil indígenas (8,71%) que coletam água da chuva, 5.067 (1,19%) dependem de carro-pipa e 5.924 (1,4%) obtêm o recurso de formas não especificadas nas terras indígenas da Amazônia Legal.
Imagem: Reprodução/Imazon
“A população que vive na maior bacia hidrográfica de água doce do mundo sofre de estresse hídrico. A água dos rios não é a mesma de 100 anos atrás. Boa parte é de baixa qualidade, contaminada”, diz Caetano Scannavino, coordenador-geral do Projeto Saúde e Alegria.
Desde 1987, a organização fornece serviços de saúde e saneamento básico para povos indígenas e tradicionais da bacia do Tapajós. Nas terras indígenas da região, apenas 20% dos domicílios contam com poço, fonte, nascente ou mina; 43% estão conectados à rede geral de distribuição de água; e 35% ainda dependem principalmente de rios, lagos e igarapés.
Na Terra Indígena Munduruku, esse percentual é ainda maior: quase 40% dos 9.281 habitantes têm nos corpos hídricos sua principal fonte de água, e as aldeias com acesso a poço, fonte, nascente ou mina, como a Kaba Rewûn, onde Ediene vive, abrangem apenas 2 mil pessoas (22%).
“O garimpo deixou um rastro, derrubando os pés de açaí, buriti, patauá, e falta caça. Com a estiagem de 2023, os igarapés secaram fora do normal e foram acabando com os peixes. As aldeias ficaram sem ter o que comer”, observa Ediene. “Várias sobrevivem da água de igarapés contaminados pelo mercúrio e precisam de poço. A nossa luta agora é cobrar o governo a fazer instalações de água nas aldeias onde ainda não tem”.
Raione Lima, advogada popular da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Itaituba, no Pará, observa que há pontos de abastecimento e saneamento do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Rio Tapajós, mas são insuficientes para atender a grande quantidade de aldeias e as dificuldades logísticas para os indígenas acessarem esses serviços. “Essa infraestrutura de saneamento básico, que deveria ser garantida e efetivada pelo Estado, pelo Ministério da Saúde, não tem chegado para as aldeias indígenas do povo Munduruku”, ela avalia.
O garimpo ilegal de ouro deixou um rastro de destruição na Terra Indígena Munduruku e contaminou os corpos hídricos do Alto Rio Tapajós, no Pará. Foto: Christian Braga/Greenpeace
O clima mudando e a água secando
Em 2024, a Amazônia passou por uma seca histórica sem precedentes. Os rios Amazonas, Purus, Madeira, Solimões, Negro, que estão entre os principais da bacia do Amazonas, registraram os níveis mais baixos dos últimos 122 anos. No início daquele ano, Ediene identificou “muitas precariedades” durante visitas técnicas às aldeias logo que assumiu a coordenação da Wakoborũn.
Na época, a associação conseguiu mitigar parcialmente os impactos da seca extrema no Alto Rio Tapajós. Com recursos emergenciais, comprou galões de água e, principalmente, contratou uma empresa para perfurar minipoços artesianos em 12 aldeias, a cerca de 13 metros de profundidade. “Foi encontrada água muito boa. Veio muito forte na hora da perfuração. Para ter água nas aldeias, tem que ter poço”, conta Ediene.
Já em fevereiro deste ano, o juiz federal Alexsander Kaim Kamphorst determinou que a União forneça mensalmente água potável à população atendida pelo DSEI Tapajós e construa ou reforme sistemas de abastecimento de água ou poços artesianos.
Além disso, deu um prazo de seis meses – que se encerrou nesta quinta-feira, 13 de agosto–, para que a União apresente cronograma de implantação, reforma e/ou ampliação dos sistemas de abastecimento, monitoramento e tratamento da água dos poços e dos cursos de rio, com prazo máximo de dois anos para o fornecimento permanente de água às aldeias dessa bacia.
Questionado pela InfoAmazonia, o Ministério da Saúde informou que, atualmente, tem 13 processos licitatórios em curso para a instalação de sistemas de abastecimento de água na bacia do Tapajós, além de 27 comunidades indígenas atendidas pelo Programa de Monitoramento da Qualidade da Água, na região de Itaituba.
“O direito básico ao saneamento é fundamental para garantir o direito à saúde. Hoje, parte da população Munduruku tem grau de contaminação pelo mercúrio”, observa Raione Lima. “Isso vem da alimentação do peixe, mas tem outras doenças causadas pelo acesso a uma água poluída, que gera infecções e bactérias que afetam diretamente a saúde do povo”.
Em 2024, o DSEI Tapajós foi o segundo maior no país em doenças diarreicas agudas (1.894 casos por 10 mil habitantes), relacionadas ao saneamento básico inadequado. “Nas aldeias que estavam com casos descontrolados de diarreia e malária, começamos a dar apoio com poço de água e diminuiu muito”, observa Ediene.
O Alto Rio Negro é quase inteiramente coberto por floresta e corpos hídricos, com menos pressões antrópicas do que outras regiões da Amazônia. Mesmo assim, a população indígena tem notado a perda da qualidade da água e optado por captar por poços ou armazenar da chuva. Foto: Fellipe Abreu/Instituto Socioambiental
A situação se repete em outras regiões da Amazônia. Mariazinha Baré, coordenadora-geral da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), disse que não notou avanço significativo do saneamento básico nas terras indígenas no estado nos últimos três anos. O período foi marcado por duas secas extremas que exacerbaram a precariedade de água, esgoto e resíduos sólidos.
“Nossa preocupação continua sendo com o Estado construir e implementar políticas estruturantes dentro dos territórios”, afirma. “A gente vem buscando parceiros não governamentais para colaborar principalmente na instalação de sistema de água potável, de acordo com a realidade de cada região”, conta Mariazinha Baré.
Mariazinha é originária da comunidade Cucuí, na TI Cué-Cué/Marabitanas, no noroeste do Amazonas. A bacia do Alto Rio Negro, onde o território está situado, resguarda 8,6 milhões de hectares da floresta, de acordo com o MapBiomas – uma área praticamente do tamanho de Santa Catarina.
Originários desta região, os Baré são considerados o “povo do rio”. Cucuí é onde o Negro, um dos formadores do rio Amazonas, adentra o território brasileiro, na tríplice fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Desde pequena, Maria zinha nadava, brincava e navegava de canoa pelo “Rio Grande”, como os povos o chamam nessa região da Cabeça do Cachorro. Essa água é fonte para irrigação das roças, preparo de comidas, consumo, lavagem de roupas. “Para a gente, o rio é sagrado, porque é vital. Mas, depois de um tempo, a gente começou a coletar água da chuva”, ela conta.
Nas sete terras indígenas atendidas pelo DSEI Alto Rio Negro, metade da população depende de rios, igarapés e lagos como principal fonte de água para consumo. Apesar do alto grau de conservação da região, as estações secas mais intensas têm contribuído para a piora na qualidade da água, assim como o crescimento populacional das aldeias, sem infraestrutura de esgotamento sanitário.
“Nossa proposta é instalar poços ou captação de água dos rios nas comunidades maiores ou em áreas estratégicas. Em comunidades isoladas, vamos ter que pensar numa alternativa para quando o rio secar muito. Quando não seca 100%, a água dos igarapés fica com bastante barro, um odor muito forte, praticamente inutilizável para consumo humano”, diz Mariazinha.
O Plano Distrital do DSEI Alto Rio Negro prevê, até 2027, a implementação, reforma ou ampliação de infraestrutura de água em 112 das 742 aldeias, além da instalação de sistema de esgotamento sanitário em 28 delas.
Conforme a análise da InfoAmazonia, 99 das 145 (68%) TIs do estado do Amazonas não têm acesso à rede geral de distribuição de água, das quais 53 (36,5%) não possuem nem mesmo abastecimento por poço, fonte, nascente ou mina. No estado, 123 territórios dependem principalmente dos rios, lagos e igarapés para consumo, enquanto 59 armazenam sobretudo água da chuva.
Para Caetano Scannavino, soluções e tecnologias de água e saneamento básico na Amazônia são ferramentas de adaptação às mudanças climáticas. “Uma política pública que se antecipe a situações cada vez mais frequentes de eventos extremos vai reduzir o custo de atendimento humanitário, como ter que movimentar helicópteros com fardos de água mineral e cesta básica para distribuir para aldeias, comunidades”, ele diz.
Nos extremos climáticos de 2024, o Projeto Saúde e Alegria distribuiu filtros de nanotecnologia, que permitem o tratamento de água de forma rápida, para os povos Munduruku do Tapajós e quilombolas de Oriximiná, que enfrentavam a seca no Pará, e para as vítimas das cheias no Rio Grande do Sul.
Projeto Saúde e Alegria distribuiu mais de 5 mil filtros de nanotecnologia aos povos indígenas da bacia do rio Tapajós e outras comunidades tradicionais do Pará. Foto: Junior Albuquerque/Saúde e Alegria
No segundo semestre de 2026, uma nova seca severa se projeta para a Amazônia em razão da intensidade muito forte do fenômeno El Niño – o aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, com influência na circulação atmosférica e redução das chuvas amazônicas. Em uma consulta na Sala de Situação coordenada pela Casa Civil, do Governo Federal, Scannavino conta que apresentou propostas construídas com movimentos sociais e baseadas na experiência do atendimento emergencial em 2024. Ele espera que “não se repita a inação que aconteceu nas secas anteriores”.
No Amazonas, a APIAM trabalha em uma proposta de mitigação dos impactos da seca, para apresentar aos órgãos governamentais, a partir de demandas dos territórios feitas desde 2023. As maiores preocupações são com o fornecimento de água para o consumo humano e a soberania alimentar.
“As comunidades ficam muito distantes com a seca. A gente não consegue chegar. Os parentes saem das comunidades para ficar mais próximos dos rios, mas a água acaba morna e inviável. Há territórios em que fica escasso o pescado e a caça”, analisa Mariazinha Baré. “Fica inviável o atendimento à saúde e à educação. Paralisa tudo. Por isso temos que pensar nas melhores alternativas e em ações estruturantes”.
O Ministério da Saúde comunicou, em nota à InfoAmazonia, que planeja ampliar mutirões de atendimento em áreas de risco nas terras indígenas, revisar os planos de contingência dos 34 DSEI no Brasil e prover suprimentos para os locais mais vulneráveis a eventos climáticos, incluindo insumos para armazenar e tratar água potável. Além disso, informou que está desenvolvendo o Sistema de Alerta Climático-Sanitário para a Amazônia Legal, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
O Programa Nacional de Saneamento Indígena (PNSI), lançado em abril pelo Ministério da Saúde, estabeleceu como metas fornecer, até 2044, serviços adequados de abastecimento de água a 98% da população indígena em terras indígenas, de esgotamento sanitário a 89% e de manejo de resíduos sólidos a 94%.
“O Censo revela a população indígena como um dos piores grupos em condições de saneamento. As terras das regiões Norte e Nordeste têm menos acesso do que as do Sul e Sudeste”, observa Bernardo Aleixo, engenheiro de saúde pública do Instituto René Rachou, da Fiocruz Minas, que trabalhou na elaboração do PNSI.
Aleixo destaca desafios como a logística de acesso às comunidades amazônicas, o atendimento a grupos maiores de povos de recente contato, a necessidade de soluções que respeitem suas cosmovisões e modos de vida, além dos impactos das mudanças climáticas, que já levam aldeias a migrar diante da perda de corpos hídricos.
“O diagnóstico construído com a participação de organizações indígenas confirmou a necessidade de soluções adaptadas às características socioculturais, ambientais e territoriais de cada região”, informou o Ministério da Saúde à InfoAmazonia. “Na Amazônia, as ações contemplam soluções descentralizadas, tecnologias adaptadas às variações sazonais e ações específicas para reduzir os impactos de eventos extremos, como secas e cheias”.
O Ministério da Saúde prevê investimentos em saneamento indígena de R$ 10,85 bilhões em 20 anos, com R$ 187 milhões de orçamento para 2026. De 2023 a 2025, foram aplicados R$ 667,3 milhões em saneamento ambiental e infraestrutura nos territórios indígenas do Brasil.
“É fundamental que o Estado compreenda e assuma essa política como uma questão de saúde pública. O acesso à água potável é um direito básico essencial”, diz a deputada e ex-ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara (PSOL-SP). Em julho, Sonia apresentou na Câmara uma proposta de emenda à Constituição que destina 10% das emendas parlamentares individuais para a saúde ao atendimento indígena — o equivalente a R$ 1,33 bilhão —, com o objetivo de criar uma fonte permanente de recursos para o setor.
Soluções para o esgoto e o lixo
Além da água, o esgotamento sanitário é um problema central no saneamento das terras indígenas na Amazônia Legal. Apenas 2.676 (0,6%) da população em aldeias têm acesso à rede geral, rede pluvial ou fossa ligada à rede de esgoto, e 17.438 (4,1%) contam com fossas sépticas não ligadas à rede – ambos sistemas adequados pelo PNSI –, conforme análise da InfoAmazonia. Já 187,8 mil (44,3%) utilizam fossa rudimentar ou buraco e 146,7 mil (34,6%) não têm banheiro nem sanitário.
“Culturalmente, a maioria das etnias indígenas sempre circulava, não se fixava num mesmo local. Eles tinham pontos de passagem. Com o assentamento em territórios, eles acabaram se fixando, sem estruturas sanitárias”, observa Caetano Scannavino. “A gente sabe das dificuldades dos governos de trabalhar na região amazônica com foco nessas comunidades. O custo logístico na Amazônia é diferente de qualquer lugar.”
Além de sistemas de abastecimento de água encanada, de captação de chuva e de perfuração de poços artesianos, o Projeto Saúde e Alegria instala tecnologias de esgotamento sanitário, como fossas rústicas – consideradas opções minimamente adequadas pela Organização Pan-Americana da Saúde –, banheiros e sanitários.
“Muitas doenças que afligem a população amazônica são de origem hídrica, ocorrências evitáveis tanto pelo aspecto de educação em saúde e melhoria de higiene, quanto de conter os vetores de contaminação”, analisa Scannavino. Para ele, a capacitação dos moradores em agentes indígenas de saneamento fez com que “praticamente todos os sistemas instalados” pela ONG continuassem operantes: “É fundamental ter pessoas habilitadas na própria aldeia ou comunidade para fazer manutenção, reparos, com entendimento básico dos aparatos e das tecnologias implementadas.”
O lixo é um aspecto do saneamento com ainda menos soluções e infraestruturas públicas para as aldeias. Na Amazônia Legal, apenas 7,9% dos domicílios em terras indígenas são atendidos por coleta de resíduos sólidos realizada por serviço de limpeza, de acordo com a análise da InfoAmazonia. O principal destino é a queima na propriedade (78,2%), seguido do descarte em terreno baldio, encosta ou área pública (7,6%) e do enterro na aldeia (3,3%).
“São muitos produtos industrializados levados para dentro dos territórios, principalmente nas aldeias maiores. Então, o acúmulo de lixo tende a aumentar”, observa Mariazinha Baré. “De onde venho, Cucuí, são 500 famílias. Os parentes moram em alguns locais inadequados. É um trabalho de conscientização para evitar que joguem esses resíduos dentro do rio ou dos igarapés, porque é de lá que a gente toma água. Temos relatos de diarreia e verminose, que vêm de imediato”.
Na comunidade Terra Preta, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga Conquista, perto de Manaus (AM), os indígenas iniciaram um projeto piloto, com apoio da APIAM. Todo mês, uma balsa passa para coletar os resíduos sólidos que eles não conseguem aproveitar na comunidade. Já o material orgânico vira, principalmente, adubo para as roças.
“A gente quer ampliar essa experiência para outras comunidades. Porém, essas iniciativas não vão abarcar as maiores, de 3 a 10 mil pessoas, onde os parentes já produzem outros tipos de lixo”, diz Mariazinha. “Em uma comunidade grande, que tem energia, os parentes utilizam eletrodomésticos. Uma geladeira quebra, um fogão, uma televisão estraga, um computador. Para onde vai esse lixo? Como a gente vai trabalhar com esse lixo?”, finalizou.
O manto do Círio de Nazaré 2026 já está nos ajustes finais para vestir a Imagem Peregrina, que sairá às ruas de Belém (PA) ao encontro de seus filhos. A apresentação oficial da peça acontece no dia 8 de outubro, na Basílica Santuário de Nazaré. A criação e a confecção do manto são assinadas por Artur Maciel, que recebeu o convite para assumir o trabalho em 4 de fevereiro de 2026, das mãos do coordenador do Círio 2026, Antônio Sousa, e de sua esposa, Rosa Sousa.
Apaixonado pela vida, pelas artes, pelo trabalho feito à mão e pelo estilo clássico na arquitetura e na moda, o estilista conta que sempre observou o universo da moda até se aprofundar nele. Seu primeiro ateliê nasceu a partir da confecção de vestidos de uma grife espanhola, até que surgisse sua primeira criação autoral, que hoje leva sua assinatura. Segundo o estilista, essa afinidade com a moda é uma herança de sua mãe, Maria de Fátima.
“Acredito que, quando nos doamos, executamos com vontade e, acima de tudo, colocamos amor e dedicação no que fazemos, o resultado vem”, resume Artur sobre a forma como encara o trabalho.
A relação do estilista com a festividade, no entanto, começou muito antes do convite para o manto. Romeiro da corda do Círio por quinze anos, Artur também soma 20 anos de trabalhos pastorais na paróquia da Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Ele integrou por cinco anos a organização do Círio das Crianças, atuou na Pastoral da Acolhida até chegar à função que exerce atualmente, a de Guarda de Nazaré.
Foi nesse caminho de serviço, conta, que sentiu nascer o desejo de um dia assinar o manto da Santa a quem dedica um amor incondicional. “Eu sempre pedia a Nossa Senhora que tornasse isso realidade e, como tudo é no tempo de Deus, chegou a hora”, relembra.
No início deste ano, algumas pessoas já começavam a sondá-lo sobre o assunto, até que, em 4 de fevereiro, veio o convite oficial do casal coordenador.
“Confesso que esperei a minha vida toda por este momento. Foram quarenta anos até que eu viesse a receber esta graça, por meio da intercessão de Maria”, afirma o estilista.
A reação à notícia veio em silêncio antes das lágrimas. “Fiquei sem saber o que falar… uma emoção que não tem como explicar. Demorou alguns segundos para a ficha cair, e logo depois as lágrimas de emoção vieram, com um sentimento de gratidão que me invadiu”, descreve.
Para Artur, assinar o manto é um marco em sua trajetória. “É poder fazer algo tão desejado e mágico, que faz parte de uma vida. Um sonho realizado, a maior bênção e graça que eu pude receber”, diz.
Os trabalhos
A confecção do manto começou por volta da Semana Santa. A partir daí, foram dias e meses de dedicação total, nos quais o estilista buscou executar, como um instrumento de Deus, a missão que lhe foi confiada. “Está quase concluído para Nossa Senhora vestir e ir ao encontro dos seus filhos pelas ruas de Belém”, celebra Artur.
Fé e devoção
Inspirado no tema do Círio deste ano, “Maria, missionária que nos dá Jesus”, o manto de 2026 chega como uma peça singela, que carrega a simplicidade daquela que foi a escolhida, a perfeita aos olhos do Pai.
“Que recebamos mais uma vez o Círio em nosso coração e sigamos o exemplo de Maria. Durante estes meses, trabalhei de braços abertos e com muito amor, colocando o meu melhor diante das possibilidades oferecidas. Este ano de 2026 ficará gravado eternamente em meu coração”, conclui o estilista.
Foto: Rosana Pinto/ASCOM DFN
A apresentação
A cerimônia de apresentação do manto do Círio 2026 será no dia 8 de outubro, na Basílica Santuário de Nazaré, a partir das 18h. Mais do que um ornamento, o manto é um símbolo essencial do Círio: sua criação precisa refletir o tema da festa, transmitir uma mensagem evangelizadora e reforçar a devoção a Nossa Senhora de Nazaré por meio de cores, adereços e símbolos cuidadosamente pensados.
História do manto
A tradição do manto remonta à origem do Círio, desde que o caboclo Plácido encontrou a imagem de Nossa Senhora às margens do igarapé Murucutu. Nos primeiros anos, o manto tinha formato retangular. Mais tarde, a confecção passou a ser feita pela Irmã Alexandra, da Congregação Filhas de Sant’Ana, que produzia os mantos com materiais doados por promesseiros até o seu falecimento, em 1973. Desde então, a tradição se manteve viva, renovando a cada ano a devoção e a fé do povo paraense.
O Círio 2026
O Círio de Nazaré é realizado pela Arquidiocese de Belém, Basílica Santuário de Nazaré e Diretoria da Festa de Nazaré, com patrocínio do Governo do Estado e Prefeitura de Belém, e é reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Até o momento, a Festa de Nazaré tem como patrocinadores master Banpará, Equatorial Energia, Instituto Cultural Vale e Hydro. Como patrocinadores Alubar, CN Produções, Belém Bioenergia Brasil, Econômico Comércio de Alimentos, Fiepa, Guamá Resíduos, Gráfica Miriti, Hotel Gran Mercure, ITA Center Park, Magalu, PagBank, Mídia Center, Rodrigues Colchões, Sebrae PA, Sudam, SISCapital, Unimed Belém, Prefeitura Municipal de Ananindeua e Gav Resorts. Como apoiadores master Alucar, Água Mineral Crystal, Artemyn, Bagliolli Dammski Bulhões e Costa Advogados, Natura, Seara, Refrigerante Tuchaua e Jefferson. E mais 111 apoiadores.
Exploração de petróleo na costa do Amapá. Foto: Divulgação/Petrobras
A Petrobras protocolou junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) o pedido de licença ambiental para perfuração de três novos poços na Margem Equatorial, na costa do Amapá.
A informação foi confirmada pela diretora Clarice Copetti durante visita ao município de Oiapoque nesta segunda-feira (17). O anúncio reforça a ofensiva da estatal na região, onde já foram encontrados indícios de petróleo no primeiro poço perfurado no bloco 59.
O Grupo Rede Amazônica procurou o Ibama para saber em que etapa está a análise do pedido da Petrobras e aguardava retorno até a publicação desta reportagem.
MPF pediu suspensão da licença ambiental em maio de 2026
O Ministério Público Federal (MPF) acionou o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) para tentar suspender a licença ambiental que autoriza a Petrobras a perfurar o bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas.
O recurso foi apresentado em 12 de maio de 2026, após a Justiça Federal no Amapá ter mantido a autorização mesmo diante do vazamento de mais de 18 mil litros de fluido sintético registrado no início do ano.
Imagem: Divulgação/Acervo Petrobras
No pedido, o MPF apontou falhas técnicas e riscos ambientais não considerados, além de questionar a ausência de consulta às comunidades tradicionais. O órgão sustenta que o licenciamento ignorou aspectos fundamentais relacionados à crise climática e protocolos de emergência.
O que diz a Petrobras sobre o cumprimento de exigências
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, que cumpre agenda em Oiapoque nesta segunda-feira (17), visitou o Centro de Reabilitação e Recuperação da Fauna, construído como parte das exigências ambientais do Ibama.
Ela explicou que o espaço funciona como unidade de emergência para atendimento de animais em caso de acidentes durante a fase exploratória e reforçou o compromisso da estatal com a proteção ambiental.
“Tudo está sendo feito dentro do mais alto padrão técnico, com respeito à fauna, à flora e ao meio ambiente, seguindo rigorosamente o processo de licenciamento ambiental”, afirmou.
*Por Josi Paixão e Michele Ferreira, da Rede Amazônica AP
O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) firmaram um termo de cooperação técnica para ampliar as pesquisas e o monitoramento da biodiversidade em duas unidades de conservação do Norte do Pará: a Estação Ecológica (ESEC) Grão-Pará e a Reserva Biológica (REBIO) Maicuru. Com duração inicial de cinco anos, o acordo busca aproximar a pesquisa científica e reunir diferentes especialidades para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade da região.
A parceria integra uma estratégia de fortalecimento do monitoramento realizado pelo Imazon dentro do Programa do Grande Tumucumaque. Atualmente, o trabalho utiliza o protocolo florestal do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A metodologia tem como uma de suas vantagens a possibilidade de ser aplicada por moradores locais, incluindo comunidades indígenas, que contribuem para a realização de acompanhamentos contínuos.
“Vamos conseguir identificar impactos que são invisíveis aos olhos, mas podem gerar grandes consequências, inclusive em locais mais distantes das UC’s. Outro ponto é a formação de pessoas da região, porque a gente espera envolver vários estudantes que vão se tornar profissionais que podem continuar auxiliando na proteção da natureza”, aponta Tainara Venturini Sobroza, professora da UFOPA.
Estação Ecológica (ESEC) Grão-Pará, unidade de conservação localizada no norte do Pará. Foto: Reprodução/IDEFLOR-Bio
A pesquisadora do Imazon Jarine Reis explica que o protocolo atualmente utilizado permite acompanhar importantes componentes da biodiversidade, como mamíferos de médio e grande porte.
A nova cooperação pretende ampliar esse conjunto de informações, incorporando grupos que podem responder de maneira mais sensível às alterações ambientais e mudanças climáticas.
Entre as categorias que poderão ser estudadas a partir da nova colaboração estão peixes, insetos, pequenos mamíferos, mariposas e outros organismos. Também está prevista a realização de levantamentos mais detalhados da vegetação arbórea, permitindo avançar da identificação em nível de gênero ou família para informações mais precisas sobre as espécies.
“A gente tem um potencial gigantesco de estudos e monitoramento de biodiversidade na região do Norte do Pará porque, apesar da elevada biodiversidade e da presença de diversas áreas protegidas, existem poucas informações de longo prazo sobre a dinâmica dos organismos nesses territórios”, observa Jarine.
Pesquisas visam entender biodiversidade de áreas protegidas
Um dos principais objetivos da parceria é construir uma linha de base da biodiversidade nas áreas monitoradas. Isso significa produzir um conjunto de dados que represente as condições atuais desses ecossistemas e que possa servir como referência para acompanhar suas transformações ao longo dos anos. A partir disso, será possível identificar mudanças na composição e na estrutura das espécies e avaliar como elas respondem a alterações no clima e no ambiente.
“O desenvolvimento de novos estudos na área é especialmente relevante, dado que a região apresenta baixa intervenção humana, pois possibilita acompanhar transformações futuras, principalmente as relacionadas às mudanças climáticas. Além disso, podem nos ajudar a identificar efeitos relacionados a alterações no uso da terra e nas condições de acesso e de governança dos territórios”, afirma Jarine.
Como o Programa Grande Tumucumaque é uma iniciativa de longo prazo, os cinco anos previstos inicialmente no acordo com a UFOPA representam apenas uma etapa desse acompanhamento, que poderá ser renovado e ampliado nos anos seguintes. Em uma região que possui lacunas importantes de conhecimento sobre sua biodiversidade, os dados produzidos são fundamentais tanto para as pesquisas atuais quanto para orientar e permitir comparações futuras.
Os estudos ainda podem contribuir para reforçar a importância das áreas protegidas para a conservação da biodiversidade, tanto no contexto local quanto no nacional, gerando evidências sobre o papel desses territórios na manutenção dos ecossistemas amazônicos. Esses dados possuem o potencial de subsidiar estratégias de conservação e fortalecer o reconhecimento da relevância das unidades de conservação para a proteção da biodiversidade e para o enfrentamento das mudanças climáticas.
*o conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon, escrito por Armando Ribeiro