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El Niño: como as culturas antigas do Peru lidaram com os impactos desse fenômeno?

Foto: Divulgação/Agência Andina – Editora Perú

Ao longo dos últimos cinco séculos, ocorreram pelo menos 120 eventos El Niño no Peru, de acordo com pesquisas históricas compiladas por diversos cientistas, incluindo o peruano Santiago Antúnez de Mayolo. Portanto, é importante compreender como as antigas sociedades pré-hispânicas enfrentaram e mitigaram o impacto catastrófico desse fenômeno oceano-atmosférico no território onde se desenvolveram.

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Essas experiências de mitigação, baseadas no conhecimento do fenômeno El Niño, identificado, compilado e estudado por arqueólogos peruanos, podem servir como um exemplo e ser utilizadas hoje para reduzir ao máximo os efeitos destrutivos de chuvas intensas e prolongadas, transbordamentos, inundações, deslizamentos de terra, entre outros perigos associados a esse evento natural, como a seca na Amazônia brasileira, e cada vez mais recorrente.

Lições da cultura Mochica 

A cultura Mochica, que surgiu na costa norte do Peru por volta de 200 d.C., deixou importantes lições sobre como lidar com o impacto do El Niño, as quais foram identificadas e estudadas pelo arqueólogo Walter Alva, descobridor da tumba intacta do Senhor de Sipán em 1987, um dos eventos mais notáveis ​​da arqueologia mundial no século XX.

“Os Moche, assim como seus antecessores, desenvolveram-se no litoral desértico com base em um sistema de irrigação artificial, com a construção de uma complexa rede de canais que sustentava sua economia. Evidentemente, essa rede é condicionada por dois fatores: a seca e, fundamentalmente, a presença do El Niño, que afeta severamente a rede de canais e impacta a economia, a estrutura política e a estrutura ideológica dessa cultura”, afirmou.

Ele afirmou que, embora alguns pesquisadores acreditem que o El Niño tenha sido o fator que destruiu e marcou o colapso da cultura Mochica, houve um evento ocorrido por volta de 550 d.C. que afetou severamente todo o sistema dessa cultura, mas não marcou seu colapso. 

“Houve uma resposta imediata, porque o El Niño também tem fatores benéficos. Embora tenha afetado o sistema de irrigação, há sinais evidentes nos monumentos — que são os locais onde permanecem esses sinais destrutivos do El Niño devido à erosão — há sinais de destruição dos canais, mas também de uma resposta”, enfatizou. 

Segundo o arqueólogo, a civilização Moche não entrou em colapso após esse evento. “Em Sipán, encontramos evidências de danos ao monumento, e em Huaca de la Luna, sacrifícios realizados para afastar esse evento catastrófico que afetava sua agricultura. Mas os Moche também tiveram uma resposta imediata: começaram a desenvolver sistemas de irrigação em ravinas, ou seja, tentaram aproveitar as terras marginais fertilizadas pela água da chuva e, logicamente, conseguiram reconstruir sua sociedade, que terminou por volta de 800 d.C.”, explicou ele.

Ele enfatizou que, no caso dos Moche, foram encontradas evidências arqueológicas no local referentes a surpreendentes obras preventivas contra os efeitos do El Niño, que ameaçavam afetar os canais de irrigação. 

“As ravinas tinham muros de contenção para amortecer as grandes cheias do rio que poderiam afetar os canais. Canais paralelos foram construídos para servirem como fusíveis caso o primeiro desabe”, disse ele.

Walter Alva enfatizou que, fundamentalmente, os Mochica, mas também as outras culturas do antigo Peru, deixaram como legado uma experiência de destaque para toda a história: o padrão de assentamento. 

“Os antigos peruanos nunca construíram seus assentamentos perto de rios ou em pontos vulneráveis, como ravinas. As evidências são claras: os vestígios de seus centros urbanos nunca ocupam áreas baixas de vales, para evitar serem afetados por grandes inundações ou eventos El Niño, e também para evitar danos às terras agrícolas”, concluiu.

Leia também: Embrapa destaca que El Niño exige estratégias diferentes para a agropecuária; veja as destinadas ao Norte

Estratégias de mitigação em Salinas de Chao

Por sua vez, a arqueóloga Ana Cecilia Mauricio, diretora do projeto de pesquisa Lições do Passado, que lidera os estudos no sítio arqueológico de Salinas de Chao, localizado no litoral norte do país, no atual Vale do Chao, região de La Libertad, destacou que as investigações realizadas naquele local possibilitaram a identificação de um conjunto de grandes muros de contenção, construídos entre 4.000 e 3.800 anos atrás, considerados até o momento a evidência mais antiga de infraestrutura de mitigação de desastres no Peru.

“Trata-se de um sítio monumental com aproximadamente 16 hectares, com grandes praças e estruturas públicas, situado ao pé de uma cadeia de colinas. Durante as explorações, identificámos grandes muros que não estavam relacionados com arquitetura cerimonial ou residencial”, explica.

Ele afirmou que essas muralhas, estrategicamente construídas ao pé de grandes ravinas, atingem dimensões imponentes: “Encontramos evidências de que essas muralhas tinham até 33 metros de comprimento e estão perfeitamente preservadas, embora originalmente possam ter ultrapassado os 50 metros, com cinco metros de altura e cinco metros de largura. São feitas de grandes pedras, algumas com mais de um metro, unidas com lama e sedimentos de argila”, enfatizou.

Ana Cecilia Mauricio afirmou que a localização e as características dessas estruturas levaram a equipe de pesquisa a levantar a hipótese de que se tratavam de muros de contenção projetados para impedir deslizamentos de terra e lama causados ​​por chuvas intensas associadas exclusivamente a eventos El Niño, sejam eles costeiros ou globais.

Essa hipótese foi confirmada após escavações, análises de sedimentos, levantamentos topográficos de alta resolução, modelos digitais de terreno e datação por radiocarbono. Os resultados demonstram que as paredes retiveram sedimentos das ravinas e, até hoje, continuam a proteger a arquitetura do sítio. “Essas estruturas não apenas funcionavam no passado, como continuam a cumprir sua função milhares de anos depois”, enfatizou o arqueólogo.

O pesquisador destacou que as datas nas paredes coincidem com estudos paleoclimáticos que indicam um aumento na frequência e intensidade do El Niño há cerca de 4.000 anos, um período crucial na história climática do litoral peruano.

“Esse fenômeno climático impulsionou a inovação tecnológica. As populações compreenderam seu ambiente, estudaram a geologia da região e desenvolveram soluções para mitigar os impactos das chuvas”, ressalta Mauricio.

As comunidades que habitavam Salinas de Chao pertencem ao período pré-cerâmico, uma fase anterior ao uso da cerâmica e à formação de estados ou impérios. Eram organizações comunitárias que, com recursos limitados e sem tecnologia complexa, conseguiram construir sistemas de proteção eficazes utilizando materiais locais como pedra e barro. Para o pesquisador, a descoberta oferece uma lição clara: El Niño não precisa necessariamente se traduzir em desastre.

“Hoje, cada evento El Niño nos pega despreparados. Pontes, escolas, casas e terras agrícolas são destruídas. Em contraste, as populações antigas não só se protegiam, como também sabiam aproveitar as chuvas para tornar o deserto produtivo”, enfatizou.

Além dos muros de contenção, ele relatou evidências de canalização do excesso de água, uso de sedimentos para criar terras agrícolas e expansão de áreas agrícolas em vales como o do Chao e o de Chicama. Mauricio afirma que esses tipos de soluções podem ser adaptados aos dias atuais, especialmente em comunidades de baixa renda, que geralmente são as mais afetadas por eventos climáticos extremos.

“Não se trata de copiar literalmente essas obras, mas de compreender o princípio: estudar o ambiente, conhecer os riscos e conceber soluções locais com materiais acessíveis”, enfatizou.

Embora Salinas de Chao represente a evidência mais antiga conhecida, existem registros posteriores de infraestrutura semelhante dos períodos Moche e Chimú, bem como em sítios como Manchán, demonstrando uma continuidade do conhecimento ancestral sobre os riscos climáticos.

“O Peru antigo tinha uma maneira diferente de se relacionar com o El Niño. Essa experiência acumulada é um conhecimento que devemos recuperar e aplicar”, concluiu.

Leia também: Portal Amazônia responde: por que o El Niño provoca seca na região Norte e chuvas na região Sul?

Waru Waru: uma resposta à escassez de água e à segurança alimentar

Enquanto os efeitos devastadores do El Niño se manifestam com a ocorrência de chuvas intensas e riscos associados, como transbordamentos, inundações e deslizamentos de terra, entre outros desastres naturais no litoral peruano, o oposto acontece nas terras altas do centro e do sul, onde o déficit de chuvas gera uma seca prolongada que ameaça o abastecimento de água para consumo humano e atividades produtivas como agricultura, pecuária e aquicultura, entre outras.

Essas ameaças à subsistência da população andina peruana foram enfrentadas com sucesso pelo Waru Waru, um sistema agrícola de origem ancestral ainda em uso na região de Puno, que contribui para garantir a segurança alimentar da população e preservar a biodiversidade de culturas andinas como batata, quinoa, entre outras.

A declaração foi feita por Eliana Apaza Espillico, presidente da Associação Aymara Suma Yapu, que trabalha com comunidades camponesas em Acora, na região de Puno, para preservar esse sistema de produção agrícola e a conservação da agrobiodiversidade nos Andes peruanos, bem como o conhecimento ancestral transmitido entre gerações.   

Ele argumentou que, graças ao Waru Waru, muitas variedades de batatas nativas resistentes à seca foram obtidas, pois necessitam de pouca água, ao contrário das variedades comerciais, e, portanto, são produzidas em maiores quantidades.

Ele acrescentou que a vantagem dessas variedades resistentes à seca reside também no fato de poderem ser desidratadas, o que permite a soberania alimentar das comunidades produtoras de batata em Waru Waru.

Também é possível cultivar variedades de batatas chamadas “precoces”, pois podem ser colhidas em apenas três meses, o que significa que pode haver produção suficiente para suprir a queda na produção agrícola durante o período de seca causado pelo El Niño.

Apaza Espillico acrescentou que, além do emblemático tubérculo andino e sua ampla diversidade, é possível enfrentar com intensidade o cenário de seca extrema provocado pelo El Niño, por meio do cultivo de grãos como quinoa e cañihua, que também requerem pouca água.

Ele enfatizou que o compromisso com esses métodos alternativos de produção agrícola diante da ameaça da seca é resultado do conhecimento tradicional herdado pelas comunidades e que é essencial continuar aplicando-o para garantir sua soberania alimentar. 

Datando de 1000 a.C., os Waru Waru constituem um antigo sistema de produção agrícola presente nas terras altas do departamento de Puno e um exemplo impressionante de engenharia tradicional e adaptação humana às planícies aluviais do mítico Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo. 

Caracterizam-se por serem campos elevados de cultivos andinos, como batata, quinoa e cañihua , entre outros, rodeados por canais de irrigação  que formam padrões espetaculares.  

Além de seu apelo visual, graças ao seu notável desenho geométrico, os campos de Waru Waru permitem que os agricultores aimarás cultivem uma grande variedade de culturas . As tradições agrícolas e as técnicas de gestão da água incorporadas nesses campos refletem a profunda compreensão que o povo aimará tem dos ecossistemas locais e sua engenhosidade em se adaptar às duras condições geográficas.  

Os campos de Waru Waru conectam um rico legado ancestral com preocupações modernas sobre segurança hídrica e alimentar, resiliência climática e gestão sustentável da terra. 

Ao proteger as plantações de secas, inundações e geadas, esses sistemas agrícolas oferecem lições sobre gestão eficiente da água e a importância da biodiversidade agrícola . 

Os campos de Waru Waru também são parte fundamental do senso de identidade e orgulho da comunidade Aymara local , uma forma de conhecimento cultural que foi transmitida e preservada de geração em geração.

Hoje, diversos desafios ameaçam a sobrevivência desse sistema agrícola. Em primeiro lugar, as secas causadas pelas mudanças climáticas forçaram muitas famílias a migrar para as cidades, deixando para trás seus campos de Waru Waru e as tradições a eles associadas. 

Além disso, a introdução de máquinas modernas e a pecuária intensiva representam novos desafios, comprometendo a biodiversidade das culturas da região e reduzindo a produção total. Essas mudanças ameaçam afastar os jovens locais de seu ambiente e de suas práticas ancestrais.  

À medida que as perspectivas indígenas sobre a resiliência climática ganham cada vez mais reconhecimento em todo o mundo, os Waru Waru exemplificam como práticas que perduraram através de milênios de mudanças podem ajudar as comunidades a lidar com um futuro incerto.

Um sistema agrícola ancestral oferece um caminho para a resiliência e a segurança alimentar nas planícies aluviais do Lago Titicaca , onde as comunidades locais enfrentam secas e migrações causadas pelo El Niño e pelas mudanças climáticas. 

*Com informações da Agência Andina

Casa Som Amazônia: espaço investe na união da música e da cultura em Manaus

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Foto: Divulgação

A Casa Som Amazônia, localizada na Rua Neves da Fontoura, no bairro Adrianópolis, em Manaus (AM), atua há mais de seis anos como escola de música e espaço cultural. Um espaço dedicado à formação, à criação, à circulação e à difusão artística, reunindo educação musical, apresentações, oficinas e iniciativas sociais. Com uma estrutura voltada para o desenvolvimento artístico, a Casa Som oferece cursos de piano, canto, bateria, violão, guitarra e contrabaixo, além de formações relacionadas à comunicação, à harmonia avançada e a outras áreas da música.

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A partir de agora, amplia essa atuação com a chegada das artes visuais ao seu universo de formação e programação cultural, consolidando-se agora como um complexo cultural.

A expansão representa um novo momento para a Casa Som Amazônia, que passa a promover um diálogo ainda mais amplo entre diferentes linguagens artísticas e a criar novas possibilidades de encontro entre artistas, estudantes, produtores culturais e público.

Leia também: Estudo resgata história do ensino de música em Manaus

Foto: Divulgação

Lançamento do CRIATIVO CASA SOM no ateliê/galeria Sebastiaan 

O Ateliê/Galeria Sebastiaan é um espaço dedicado à criação, à experimentação, à formação e à circulação de diferentes manifestações artísticas. Localizado dentro da própria Casa Som, o ‘CRIATIVO’ nasce com a proposta de aproximar e integrar diferentes vertentes da arte, funcionando como um ambiente de encontro, troca e descoberta.

O espaço contará com uma programação diversificada, incluindo vivências, cursos e atividades na área de artes visuais, eventos e encontros literários, além de uma loja dedicada à comercialização de obras, produtos e criações de artistas da Amazônia.

Entre os artistas que terão seus trabalhos disponíveis para o público está o ceramista Janssem Cardoso, cuja produção passa a integrar a proposta de valorização, divulgação e circulação da arte produzida na região.

Foto: Divulgação

Na área da literatura, o público também poderá encontrar títulos de autores amazonenses, ampliando o acesso à produção literária local e fortalecendo a presença da cultura amazônica no espaço. Entre os autores representados estão Celdo Braga, Myriam Scotti e Gracinete Felinto, além de outros nomes da literatura produzida no Amazonas.

O ‘CRIATIVO CASA SOM’ é uma parceria interna da Casa Som Amazônia com dois amantes da artes: Sebastiaan e Daniela Klink. A proposta é criar um ambiente que vá além da exposição e da comercialização de obras, estimulando processos criativos, experiências, formação e encontros entre diferentes públicos.

Foto: Divulgação

Um novo espaço para a arte Amazônica 

Ellen Fernandes, sócia proprietária do espaço, relata a importância desse momento e contribuição para o cenário da cultura local. “A criação do CRIATIVO CASA SOM representa um movimento de expansão da Casa Som Amazônia e reforça seu compromisso com a cultura, a educação artística e a valorização dos profissionais e da produção cultural da região. Em Manaus, cidade marcada por uma produção artística diversa e por uma identidade cultural profundamente ligada à Amazônia, iniciativas que promovem a circulação, a visibilidade e o acesso à produção local desempenham um papel importante no fortalecimento do setor cultural”.

Foto: Divulgação

A proposta também contribui para aproximar o público da produção cultural amazônica, oferecendo um espaço permanente de contato com obras, livros, experiências e diferentes processos criativos. Dessa forma, o projeto amplia as possibilidades de acesso à cultura e ajuda a fortalecer uma cadeia que envolve artistas, educadores, produtores, escritores, artesãos e demais profissionais ligados à economia criativa.

*Com informações da assessoria

Seca e calor extremos do El Niño 2023-2024 antecipam “novo normal” nas florestas tropicais

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Rio afetado pela seca causada pelo El Niño no Estado do Amapá. Foto: Peter Groenendijk

Cerca de 75% das áreas das florestas tropicais do mundo enfrentaram pelo menos seis meses de seca e calor simultâneos sem precedentes durante o El Niño de 2023-2024. Mais do que um retrato de um evento extremo, o cenário é uma prévia do “novo normal” nas próximas duas décadas se não houver redução das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com um estudo publicado na revista Earth’s Future.

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O alerta máximo recai sobre a Amazônia, identificada como a região mais vulnerável a esse novo padrão climático. Caso as emissões globais de gases de efeito estufa continuem crescendo, a probabilidade de o bioma sofrer secas com a mesma severidade do último biênio aumentará em até nove vezes até o fim do século – mesmo em anos sem a influência do El Niño.

Sob um estresse térmico dessa magnitude, as florestas tropicais entram em colapso funcional. Segundo os pesquisadores, em vez de absorverem os gases que aquecem o planeta (agindo como sumidouros), essas áreas passam, temporariamente, a emitir carbono para a atmosfera. Diante desse ciclo vicioso, o estudo reforça a urgência de cortes rápidos e contínuos nas emissões globais.

A necessidade de mitigação torna-se ainda mais imediata diante da iminência do El Niño 2026-2027. Seus efeitos já podem ser sentidos na América do Sul e as previsões indicam que deverá atingir a categoria “muito forte” (classificação máxima) até o início do verão. Turbinado pela crise climática, o fenômeno caminha para ser o mais intenso já registrado.

No geral, a pesquisa apontou que as temperaturas médias em patamares altos devem se tornar pelo menos seis vezes mais prováveis em todas as regiões tropicais, mesmo no cenário de emissões globais mais baixas. Isso pressupõe que, por volta de 2075, o mundo passe a retirar da atmosfera uma quantidade de carbono equivalente à que emitirá, condição conhecida como emissão líquida zero de CO₂.

“Durante o El Niño de 2023-2024, a área e a duração dos eventos de seca e de ondas de calor foram as maiores e mais extensas dos últimos 25 anos. Quando usamos os mesmos modelos para o futuro, podemos ver que a temperatura está aumentando. Estamos preocupados porque agora pode ser ainda pior, infelizmente”, diz a autora correspondente do artigo, Johanna Van Passel, cientista da Universidade Ghent (Bélgica) e pesquisadora visitante no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).

Seca e calor extremos do último El Niño antecipam ‘novo normal’ nas florestas tropicais. Foto: Reprodução revista Pesquisa FAPESP

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical, especialmente entre a costa da América do Sul e a região central do oceano. A grande quantidade de calor acumulada no mar modifica a circulação atmosférica, favorece a elevação das temperaturas globais e altera as chuvas em diferentes partes do planeta. No Brasil, favorece chuvas acima da média no Sul, reduz as precipitações em partes do Norte e do Nordeste e eleva as temperaturas em vários Estados do país.

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Cruzando informações

Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram dados de satélite e observacionais, além de projeções de 24 modelos climáticos para quatro cenários de emissões em contextos passado (2000-2024) e futuro (até 2100). Usaram ainda uma abordagem baseada em anomalias, que considera o clima de referência de cada região, para definir os eventos extremos. Com isso, foi possível abordar as adaptações a condições climáticas distintas das florestas tropicais em diferentes continentes, classificando um evento como extremo em comparação com o que normalmente ocorre em cada localidade.

O biólogo Peter Groenendijk, professor no IB-Unicamp e coautor da pesquisa, destaca que uma das inovações do trabalho foi comparar seca e calor em um único evento de El Niño com cenários climáticos futuros, encontrando um “novo normal”. Para ele, o uso de múltiplos modelos deu robustez aos resultados.

Especialista em dendroecologia (o ramo da ciência que usa anéis de crescimento das árvores para estudar e reconstruir processos ecológicos), Groenendijk salienta a importância dos achados também para a compreensão do ecossistema.

“O El Niño é um dos grandes moduladores do clima global. Ao procurarmos entender seus impactos, podemos ter diversos outros desdobramentos para as florestas, como compreender mecanismos que levam à mortalidade das árvores”, afirma o biólogo, que recebeu financiamento da FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa Jovem Pesquisador.

Nesse sentido, Van Passel ressalta que os achados vão contribuir para a sua linha de pesquisa, que busca entender o efeito do calor e das secas extremas no crescimento e na mortalidade das árvores, especialmente na Amazônia.

Leia também: Seca no interior do Amapá isola comunidades e compromete renda de pescadores após morte de animais

Precipitação

No estudo, todos os modelos climáticos indicaram que cerca de 80% dos meses de calor extremo ocorreram durante a estação chuvosa. Esse dado é importante porque indica que a fotossíntese pode estar sendo afetada de maneiras diferentes, com impacto no balanço de carbono das árvores.

Um período mais quente, seco e com menos nuvens durante a estação chuvosa pode aumentar a fotossíntese, pois há mais luz e água para transpirar e resfriar as folhas. No entanto, se isso ocorre durante o período seco, o efeito é negativo, pois com menos disponibilidade hídrica no solo não há resfriamento; o transporte de água pelo xilema pode falhar e parte das copas morre. Quando a seca e o calor ocorrem juntos e por muito tempo, os danos se intensificam, enfraquecendo as árvores. Porém, os mecanismos por trás de todo esse processo ainda são pouco esclarecidos.

Seca do rio Madeira, em Porto Velho, outubro de 2026. Foto: Reprodução/Defesa Civil de Porto Velho
Seca do rio Madeira, em Porto Velho. Foto: Reprodução/Defesa Civil de Porto Velho

Diferentemente das projeções de temperatura, as ligadas à precipitação revelaram maior divergência regional. De acordo com os achados, a Amazônia, a América Central, a África Austral e parte do leste da Ásia deverão se tornar mais secas, enquanto o restante dos trópicos provavelmente ficará mais úmido.

Por outro lado, até 2100, os resultados indicam que os baixos níveis de chuva registrados em 2023-2024 em algumas regiões poderão se tornar de duas vezes (no Nordeste do Brasil) a nove vezes (na Amazônia) mais prováveis sob os dois cenários mais elevados de emissões de gases de efeito estufa.

Essa tendência vai na mesma direção de outros dois estudos liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que analisaram especificamente a Amazônia brasileira.

Os resultados indicam que o bioma já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas: estações secas mais longas (aumentando de quatro para até seis meses) e alteração no padrão de chuvas (déficit hídrico superando -150 milímetros). Houve ainda um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e de 19% nos alertas de degradação florestal no período do El Niño 2023-2024, evidenciando que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo e reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.

Consequências

A perda de resiliência das florestas tropicais gera impactos globais, pois altera importantes serviços ecossistêmicos, entre eles a regulação do clima e do ciclo de carbono, bem como a manutenção da biodiversidade. Isso influencia desde os meios de subsistência das populações locais até a economia mundial e a saúde do planeta.

No Brasil, diversas áreas foram afetadas pelas condições climáticas do El Niño 2023-2024. Os níveis dos rios no Amazonas, por exemplo, baixaram e chegaram aos menores patamares, isolando comunidades. Com o aquecimento das águas de lagos no Estado, houve o registro inédito da morte de mais de 300 botos. Somado a isso, mais de um terço (38%) das ocupações humanas na região amazônica – 2.172 das 5.673 localidades – tiveram alta exposição à seca de setembro a novembro de 2024, segundo levantamento do MapBiomas.

Voluntários retiram boto morto do lago: em um só dia em 2023, com temperatura da água acima dos 39 °C, foram encontradas 70 carcaças. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Entre os principais fatores que determinam a intensidade e os efeitos do El Niño estão a extensão, a profundidade e a magnitude do aquecimento do Pacífico e a resposta dos ventos e da atmosfera. No último século, os eventos classificados como “muito fortes”, chamados popularmente de “super El Niño”, foram registrados em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016, sendo que este último atingiu as maiores altas da temperatura do oceano.

Apesar de não ter sido um “super El Niño”, o fenômeno de 2023-2024 teve efeitos intensos. A literatura científica vem mostrando que essas repercussões desproporcionais podem ser fruto da associação com o aquecimento do planeta no período: 2024 foi o ano mais quente da história, com elevação de 1,55 °C da temperatura global em comparação aos níveis pré-industriais (1850-1900), seguido de 2023, com +1,45 °C, segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês).

“O El Niño de 2015-2016 foi muito forte, mas o impacto de 2023-2024 foi maior. Quando olhamos para o futuro, esses eventos extremos podem ficar ainda piores. Mas dependerá muito da trajetória das emissões de gases de efeito estufa e do uso de combustíveis fósseis que a nossa sociedade vai adotar. A diferença entre o cenário mais baixo e o mais alto é grande. A previsão é ruim, mas temos opções. Não é tão terrível que não possamos fazer nada. Temos de agir”, conclui Van Passel.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Luciana Constantino

Extremos climáticos avançam mesmo em áreas conservadas da Amazônia, aponta estudo

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Foto: Reprodução/INPA

Os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia são cada vez menos graduais e homogêneos e extremos climáticos também tem afetado áreas mais conservadas da floresta, aponta o artigo ‘Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia‘ (O rápido aumento de extremos climáticos revela novas áreas de preocupação na Amazônia), publicado na revista Communications Earth & Environment com participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

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Segundo o estudo, a porção sul do bioma, conhecida como o “arco do desmatamento”, concentra a maior perda de vegetação nativa e registrou o aquecimento mais rápido. Mas foi na região centro-norte da floresta, com maior cobertura florestal, que o clima foi mais extremo.

Para os pesquisadores, essa mudança reforça a tese de que o contexto global da crise climática tem impactado mesmo as áreas mais conservadas da floresta, afastadas do epicentro do desmatamento no Brasil.

“Essa diferença entre a área que registra mais desmatamento, o principal agente local das mudanças no clima, e as áreas mais afetadas por extremos climáticos, demonstra que os grandes países emissores de gases de efeito estufa têm uma responsabilidade cada vez maior no desequilíbrio social e ecológico da Amazônia. Isso reforça não só a importância da redução das emissões globais para o equilíbrio da floresta, mas também que nações fora da Amazônia tem culpa na sua instabilidade e por isso devem pagar por sua recuperação”, escrevem os cientistas.

Extremos climáticos avançam mesmo em áreas conservadas da Amazônia. Foto: Reprodução/ PreParaEnem

Leia também: Pesquisadores instalam estação meteorológica em Alvarães para monitorar clima na Amazônia

O estudo reuniu pesquisadores de 31 instituições de seis países, com participação de centros e universidades de referência em pesquisa ambiental, como a Universidade de Oxford, Universidade de Yale, Universidade Columbia , Universidade de Lancaster e Universidade de Wageningen e NASA.

No Brasil, além do IPAM, participaram instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), além de universidades federais e estaduais de diferentes regiões do país.

Uma nova forma de medir o clima

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram os picos de temperatura e seca em cada região da Amazônia, comparando os resultados à média registrada em todo o bioma.

Assim, foi possível localizar, onde e quando, ocorreram os fenômenos climáticos mais críticos, assim como identificar a distância das medições de cada área para os registros médios do bioma.

“O mais preocupante é perceber que a região mais úmida e conservada da Amazônia já está experimentando extremos de calor e seca. Essas florestas evoluíram sob condições de muita umidade e são particularmente sensíveis quando falta água. À medida que ficam mais quentes e secas, perdem parte da sua resistência natural ao fogo. Isso mostra que manter a floresta em pé é essencial, mas não basta: sem reduzir as emissões globais, até as áreas mais conservadas da Amazônia estarão cada vez mais expostas aos extremos climáticos e ao risco de incêndios”, explicou Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM.

Os cientistas constataram que, enquanto a porção sul do bioma registrou um aumento significativo na variação de temperatura e chuva, seus valores acompanharam o aumento médio das temperaturas no planeta. A região central da floresta, por sua vez, teve variações 2,34 vezes maiores do que a média do bioma.

Extremos climáticos avançam mesmo em áreas conservadas da Amazônia
Extremos climáticos avançam mesmo em áreas conservadas da Amazônia. Foto: Divulgação

Segundo os pesquisadores, essa variação se deve à região ter passado por mais períodos excepcionalmente quentes e secos, onde a perda de biodiversidade é mais acelerada do que em regiões que aqueceram de forma gradual.

“As taxas de mudança nos eventos climáticos extremos são muito maiores do que as taxas de mudança do clima médio na Amazônia, e as regiões mais afetadas também são diferentes para os extremos e para o clima médio. Isso é importante porque mostramos que o clima da Amazônia não está mudando de forma uniforme. Essa informação será crucial para o planejamento e a implementação de estratégias de adaptação às mudanças climáticas”, afirma Nathália Carvalho, co-autora do estudo e pesquisadora de pós-doutorado no Lancaster Environment Centre.

Clima extremo e estresse hídrico

Extremos climáticos causam os efeitos mais danosos associados às mudanças climáticas. Verões desproporcionalmente quentes são responsáveis por aumento na mortalidade de pessoas, animais e plantas, além de danos severos aos ecossistemas florestais.

Na Amazônia, eventos extremos, como os registrados em 2023 e 2024 e esperados para o atual El Niño, estão associados a queimadas de grandes proporções, extinção de espécies e impactos na saúde humana e qualidade do ar.

queimadas na amazônia
Extremos climáticos avançam mesmo em áreas conservadas da Amazônia. Foto: Ruan Gabriel/Rede Amazônica

“Estamos mais interessados nos fenômenos ocorridos quando as condições climáticas são mais quentes e secas, pois é nesse período que as altas temperaturas podem causar os maiores danos”, afirmou o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, um dos autores do estudo. “Embora isso já tenha sido avaliado no sul da Amazônia, que apresenta uma estação seca bastante semelhante, nunca foi avaliado em toda a Amazônia, que inclui regiões ao norte do Equador com um período de estação seca diferente”.

O estudo demonstra que as mudanças climáticas na Amazônia não ocorrem de forma gradual nem homogênea e evidenciam o enorme desafio que as políticas públicas têm pela frente diante do rápido aumento das temperaturas extremas e dos déficits hídricos. Esses fenômenos também merecem atenção por estarem ocorrendo na região centro-norte da Amazônia, distante do arco do desmatamento.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Lucas Guaraldo e Suellen Padilha

Caso real de ufologia no Pará inspira livro de ficção sobre avô desaparecido

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Livro une ufologia e imaginário popular. Imagem: Divulgação

Em 1977, moradores da ilha de Colares, no Pará, relataram ver luzes misteriosas no céu. Os avistamentos levaram o Exército à região e deram origem à Operação Prato, investigação que se tornou um dos casos ufológicos mais conhecidos do Brasil.

Quase 50 anos depois, esse episódio serve de inspiração para o livro ‘Operação Colares’, da paraense Luana Cruz, que transforma os relatos sobre os avistamentos em uma narrativa que une suspense, ficção especulativa e um mistério familiar que atravessa gerações.

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Na obra, publicada pela Plataforma21, o leitor conhece Laila Rosário, que deixou a região 10 anos atrás e não pretendia voltar. No entanto, um telefonema da avó, faz com que ela retorne à ilha para uma despedida.

O que deveria ser uma passagem rápida pela cidade muda quando um pescador é encontrado ferido e carregando uma mensagem ligada ao avô de Laila, Josué Rosário, desaparecido décadas antes, depois de partir para o mar seguindo as luzes que eram vistas sobre Colares. Dado como morto ou abduzido, ele deixou para trás uma família que nunca soube o que realmente havia acontecido.

Ufologia real se une com ficção

Ao seguir as pistas encontradas na mensagem nas águas, a protagonista percebe que o desaparecimento do avô pode esconder uma história muito diferente daquela que a cidade contou durante décadas.

A investigação leva Laila e sua antiga melhor amiga, Elis Raiol, a revisitar documentos, cartas e registros deixados por Josué e a reconstruir os últimos passos do pescador. Aos poucos, as personagens descobrem que as luzes e os desaparecimentos da região podem estar relacionados a uma trama muito mais concreta e sombria do que uma suposta abdução extraterrestre.

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Imagem: Divulgação

Enquanto novos acontecimentos colocam a comunidade em alerta, Laila avança na investigação e percebe que, por trás dos mistérios que cercam a ilha, estão pessoas capazes de escolher entre proteger, ferir ou transformar a vida daqueles ao seu redor.

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Luana Cruz, autora do livro. Foto: Reprodução/Instagram-luanacruiz

Valorização do Norte

Com orgulho de ser nortista, Luana Cruz é formada em Engenharia de Pesca, pois acredita que as melhores histórias são as de pescadores. É a partir das histórias que ouviu ainda na infância (especialmente as contadas pela mãe), e da própria relação com o Pará e a Amazônia, que a autora constrói uma narrativa que valoriza pescadores, comunidades ribeirinhas e os vínculos entre os moradores.

O resultado é uma ficção especulativa que parte de um acontecimento real para explorar temas como luto, identidade, pertencimento, relações familiares e a memória de um território.

“Não somos lendas, não somos folclore, não somos estrangeiros: somos a vida que pulsa na raiz do país”, enfatiza a paraense.

Em ‘Operação Colares’, as luzes no céu dividem espaço com histórias de família, afetos mal resolvidos e conflitos de uma comunidade que precisa lidar com o retorno de algo que acreditava ter ficado no passado.

*Com informações da assessoria

Mosquitos capazes de transmitir dengue colocam ovos a mais de 10 metros de altura, mostra estudo em Manaus

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Imagem da armadilha de coleta de ovos utilizada no experimento (ovitrampa) publicado na revista científica “EntomoBrasilis”. Foto: Divulgação/Acervo pesquisadores

O mosquito Aedes albopictus, capaz de transmitir dengue, zika, chikungunya e febre amarela, pode colocar ovos a mais de 10 metros do solo. É o que indica um estudo publicado nesta sexta (9), na revista científica “EntomoBrasilis”. O trabalho, fruto de uma parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT – HVD) e as universidades Federal do Maranhão (UFMA), Federal do Paraná (UFPR) e Estadual de Londrina (UEL), investigou a presença de ovos da espécie em uma torre de seis andares e os encontrou em todos os níveis avaliados, com maior concentração a até cerca de 4 metros.

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Para avaliar a capacidade de oviposição do Aedes albopictus – primo biológico do Aedes aegypti, que é o principal transmissor de doenças como dengue no Brasil –, a equipe instalou 30 armadilhas em diferentes alturas de uma torre em um fragmento florestal urbano de Manaus, capital do Amazonas.

A espécie é abundante na região, onde transita entre ambientes silvestres e áreas ocupadas por humanos e pode atuar na transmissão de doenças. Durante 10 semanas, divididas entre as estações seca e chuvosa de 2015, as armadilhas foram monitoradas em busca de ovos do inseto. Ao todo, foram encontrados mais de 35 mil.

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Embora os andares mais próximos do solo tenham concentrado a maior parte dos ovos, principalmente até o 4º, eles foram registrados em todos os níveis avaliados, a até 10,8 metros do solo.

“A colonização de andares superiores significa que os moradores de apartamentos não estão isentos do risco de picadas de vetores primários e secundários, estando expostos à transmissão dos vírus da dengue, zika e chikungunya dentro de suas residências”, afirma Adriano Nobre Arcos, pesquisador do Inpa e um dos autores do estudo.

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Foto: Divulgação/Semsa Manaus

Ele explica que os prédios residenciais oferecem condições favoráveis para o mosquito, combinando a presença de locais de descanso, recipientes com água para a postura de ovos — como vasos de plantas e calhas —, humanos e animais domésticos, que podem servir como fonte de sangue.

Arcos afirma que apesar de o Ae. albopictus estar amplamente disseminado no Brasil, especialmente em ambientes rurais e periurbanos, não há registro de transmissão de dengue por ele no país.

Leia também: Como combater a dengue: 11 dicas práticas para evitar a proliferação do Aedes aegypti

“Já foi registrada uma infecção natural pelo vírus da dengue (sorotipo DEN-1) em Ae. albopictus, o que indica que o mosquito pode se infectar, mas isso não prova que ele seja capaz de transmitir a doença para humanos em condições naturais no Brasil. Além disso, populações brasileiras do mosquito demonstraram capacidade de transmitir o vírus em testes de laboratório, o que mantém o alerta sobre seu potencial”.

Atenção ao comportamento dos mosquitos

Para o pesquisador, os resultados indicam um ponto-cego nas medidas de controle atuais. “Os serviços tradicionais de combate a endemias focam prioritariamente nos quintais e no térreo; assim, a presença do vetor nos andares elevados cria reservatórios ‘invisíveis’ que mantêm a circulação viral na comunidade”, argumenta.

Ele defende a necessidade de reorientar as ações de vigilância entomológica e saúde pública nos centros urbanos. “Em cidades com forte expansão de edifícios residenciais, as equipes de vigilância precisam incluir andares superiores nas rotinas de vistoria e manejo de criadouros”, diz. 

A umidade do ar também esteve relacionada ao número de ovos, mas apenas durante a estação seca. Nesse período, o fator explicou 34% da variação na abundância observada.

“Isso mostra que as estratégias de controle devem manter vigilância rigorosa mesmo em épocas de menor precipitação, quando a umidade varia”, defende Arcos. 

O comportamento de depositar ovos em andares altos de edifícios também já foi registrado em estudos anteriores com o Aedes aegypti. Arcos explica que esse padrão pode estar relacionado à busca por hospedeiros e abrigos, além da eliminação ou redução de criadouros disponíveis no solo. Ele acredita que os achados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias e políticas de manejo mais eficazes para o controle de mosquitos de ambas as espécies, já que apresentam estratégias de reprodução semelhantes.

Um desafio é entender como o inseto chega aos níveis mais altos da torre. “Qual é a contribuição exata do voo ativo em comparação ao transporte passivo, feito por elevadores e pelo deslocamento humano, na dispersão vertical?”, questiona.

Entre os próximos passos, o pesquisador cita o monitoramento contínuo para avaliar os efeitos das mudanças climáticas e da sazonalidade a longo prazo. “Também pretendemos avaliar as taxas de infecção natural por arbovírus em mosquitos capturados em diferentes andares para mapear o risco real de transmissão nas cidades”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Pronta para a procissão em Belém: Nossa Senhora de Nazaré recebeu o manto do Círio 2026

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Foto: Rosana Pinto/ASCOM DFN

O manto do Círio de Nazaré 2026, que veste a Imagem Peregrina para sair às ruas de Belém (PA) ao encontro de seus filhos, foi conhecido nesta quinta-feira (8), na Basílica Santuário. A criação e a confecção são assinadas por Artur Maciel, que recebeu o convite em 4 de fevereiro de 2026, das mãos do casal coordenador do Círio 2026, Antônio e Rosa Sousa. O desenho é de Celeste Heitman, os bordados são do Ateliê Artur Maciel e de Tammy Yamada, e a ourivesaria é de Marcelo Monteiro.

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A relação do estilista com a festividade começou muito antes do convite. Romeiro da corda do Círio por quinze anos, Artur soma 20 anos de trabalhos pastorais na paróquia da Basílica Santuário de Nazaré. Integrou por cinco anos a organização do Círio das Crianças e atuou na Pastoral da Acolhida até chegar à função que exerce hoje, a de Guarda de Nazaré.

Foi nesse caminho de serviço que nasceu o desejo de um dia assinar o manto. “Eu sempre pedia a Nossa Senhora que tornasse isso realidade e, como tudo é no tempo de Deus, chegou a hora”, relembra.

Saiba mais: Manto do Círio: quem é o estilista convidado para vestir Nossa Senhora de Nazaré na edição de 2026?

Nossa Senhora de Nazaré recebeu o manto do Círio 2026
Foto: Reprodução/Instagram-@ciriooficial

Apaixonado pelas artes, pelo trabalho feito à mão e pelo estilo clássico na arquitetura e na moda, Artur abriu seu primeiro ateliê a partir da confecção de vestidos de uma grife espanhola, até chegar à primeira criação autoral, que hoje leva sua assinatura. Segundo ele, a afinidade com a moda é herança da mãe, Maria de Fátima. “Acredito que, quando nos doamos, executamos com vontade e, acima de tudo, colocamos amor e dedicação no que fazemos, o resultado vem”, resume.

A confecção começou por volta da Semana Santa. Inspirado no tema do Círio deste ano, “Maria, missionária que nos dá Jesus”, o manto de 2026 chega como uma peça singela, que carrega a simplicidade daquela que foi a escolhida, a perfeita aos olhos do Pai.

“Quando pensamos em quem confeccionaria o manto deste ano, Rosa e eu rezamos muito. O Artur é alguém que serve a Nossa Senhora há décadas: puxou a corda, trabalhou nas pastorais e hoje está na Guarda de Nazaré. Confiar a ele essa missão foi reconhecer uma vida inteira de devoção. O tema ‘Maria, missionária que nos dá Jesus’ pedia um manto simples, que falasse ao coração do povo, e foi isso que ele entregou. Hoje à noite, quando a Imagem Peregrina vestir o novo manto, o Círio 2026 ganha o seu rosto, e nós vamos viver esse momento com muita emoção e gratidão”, conta emocionado Antonio Sousa, no seu último ano como coordenador do Círio 2026.

Leia também: Veja os roteiros das 14 procissões do Círio de Nazaré 2026 em Belém

A apresentação

A cerimônia de apresentação do manto aconteceu no dia 8 de outubro, durante missa presidida por Dom Júlio Endi Akamine, Arcebispo Metropolitano de Belém, na Basílica Santuário. Mais do que um ornamento, o manto é um símbolo essencial do Círio, e sua criação deve refletir o tema da festa, transmitir uma mensagem evangelizadora e reforçar a devoção a Nossa Senhora de Nazaré por meio de cores, adereços e símbolos cuidadosamente pensados.

Manto do Círio de Nazaré 2026. Foto: Divulgação

História do manto

A tradição do manto remonta à origem do Círio, quando o caboclo Plácido encontrou a imagem de Nossa Senhora às margens do igarapé Murucutu.

Nos primeiros anos, o manto tinha formato retangular. Mais tarde, a confecção passou a ser realizada pela Irmã Alexandra, da Congregação Filhas de Sant’Ana, que produzia os mantos com materiais doados por promesseiros, até seu falecimento, em 1973.

Desde então, a tradição se mantém viva, renovando a cada ano a devoção e a fé do povo paraense, com diversos artistas convidados.

O Círio 2026

O Círio de Nazaré é realizado pela Arquidiocese de Belém, Basílica Santuário de Nazaré e Diretoria da Festa de Nazaré, com patrocínio do Governo do Estado e da Prefeitura de Belém, e é reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Foto: Reprodução/Facebook- @MaisBrasil

Até o momento, a Festa de Nazaré tem como patrocinadores master Banpará, Equatorial Energia, Vale e Hydro. Como patrocinadores Alubar, CN Produções, Belém Bioenergia Brasil, Bally, Econômico Comércio de Alimentos, Fiepa, Guamá Resíduos, Gráfica Miriti, Hotel Gran Mercure, ITA Center Park, Magalu, PagBank, Mídia Center, Rodrigues Colchões, Sebrae PA, Sudam, SISCapital, Unimed Belém, Prefeitura Municipal de Ananindeua e Gav Resorts. Como apoiadores master Águas do Pará, Alucar, Água Mineral Crystal, Artemyn, Bagliolli Dammski Bulhões e Costa Advogados, Faci Wyden, Natura, Seara, Refrigerante Tuchaua, Sicredi, Consul e Jeffersom. E mais 114 apoiadores.

*Com informações da DFN

Estudo propõe integrar inteligência artificial e processos naturais para restaurar florestas

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para que a restauração florestal em larga escala seja efetiva, é preciso abandonar a ilusão de “reconstruir” ecossistemas como se fossem obras de engenharia e, em vez disso, focar em criar condições para a sua auto-organização. É o que conclui um estudo publicado em setembro na revista Trends in Ecology & Evolution, que propõe o uso ético da inteligência artificial (IA) não para tentar desenhar a natureza, mas como uma ponte para integrar a intervenção humana aos processos naturais de regeneração.

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A nova abordagem é proposta por pesquisadores do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP e sediado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

O ponto de partida do artigo, assinado por Pedro Henrique Santin Brancalion e Marcelo P.L. Medeiros, é uma crítica a uma concepção ainda comum de restauração: a ideia de que seria possível “reconstruir” uma floresta da mesma forma que se constrói uma infraestrutura, selecionando componentes e reunindo-os para produzir um sistema previamente planejado.

Embora o plantio de árvores seja uma ferramenta importante em determinadas situações, os autores ressaltam que uma floresta é muito mais do que a soma de várias árvores. Sua biodiversidade, estrutura e funcionamento resultam de interações complexas entre plantas, animais, microrganismos, solo, água, clima e processos ecológicos que se desenvolvem ao longo do tempo.

“Restaurar florestas não é simplesmente plantar árvores, mas criar condições para que os ecossistemas recuperem sua complexidade. A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade de compreender essa complexidade, mas não substitui os processos naturais nem elimina os limites da ação humana”, ressalta Brancalion.

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Observatório agronegócio
inteligências
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Essa complexidade também ajuda a explicar por que a regeneração natural pode desempenhar um papel fundamental na recuperação dos ecossistemas. Em diversas situações, a recuperação de florestas nativas ocorre por meio da sucessão ecológica, na qual comunidades se reorganizam e desenvolvem gradualmente sua complexidade sem que todas as etapas sejam diretamente controladas pelos seres humanos.

Integração de inteligências

Por isso, os autores propõem uma mudança de perspectiva: em vez de tentar controlar e reconstruir a natureza, a restauração deve permitir que os próprios processos ecológicos conduzam a recuperação dos ecossistemas.

Nesse contexto, os autores propõem a integração de três formas de inteligência: humana, responsável por definir objetivos, mobilizar conhecimentos e recursos, tomar decisões e garantir o ambiente necessário para que a recuperação ecológica aconteça; natural, que corresponde à capacidade dos próprios ecossistemas de se organizar, adaptar e desenvolver complexidade por meio de processos como sucessão ecológica e interações entre organismos e ambiente; e artificial, que pode contribuir para tornar a restauração mais precisa, adaptativa e capaz de considerar a heterogeneidade das paisagens.

Ao integrar inteligência humana para iniciar e conduzir os processos de restauração, inteligência natural para gerar complexidade ecológica e inteligência artificial para apoiar decisões e o manejo adaptativo, a restauração florestal pode avançar em direção a um modelo mais sensível às particularidades de cada paisagem e aos limites da capacidade humana de controlar a natureza.

Os autores ressaltam, no entanto, que o uso de inteligência artificial também envolve riscos. E alertam que sistemas de IA não são neutros: seus resultados dependem dos dados utilizados para treiná-los, dos algoritmos empregados e dos valores e interesses incorporados aos processos de decisão.

Uma aplicação inadequada poderia, por exemplo, reforçar a tendência de priorizar o plantio de árvores em detrimento da regeneração natural ou favorecer espécies para as quais existe maior disponibilidade de dados, deixando de considerar organismos e interações ecológicas ainda pouco estudados.

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A adoção dessas tecnologias também pode produzir impactos sociais. Embora a automação possa aumentar a eficiência das atividades de restauração, ela também pode alterar oportunidades de trabalho e geração de renda em comunidades locais.

Desse modo, os autores defendem que decisões sobre o uso da IA devem considerar não apenas ganhos de eficiência, mas também bem-estar humano, meios de vida locais e prioridades sociais.

O artigo ‘Human, natural, and artificial intelligence in forest restoration‘ pode ser lido AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por Juliana Ramiro, bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao CCCARBON.

Vale do Javari: Defensoria do Amazonas e Univaja se unem para apoio jurídico a indígenas

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Defensoria Pública do Amazonas e a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) assinaram uma parceria, no dia 7 de outubro, para ampliar o apoio jurídico aos povos das regiões. A ideia é manter um atendimento contínuo.

O acordo prevê que as entidades públicas vão ter que respeitar a autonomia e a cultura dos povos indígenas do Vale do Javari.

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Para isso, a Univaja vai disponibilizar a sede e intérpretes para facilitar a comunicação, explicou a coordenadora do Núcleo Especializado de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais da Defensoria, Daniele Fernandes:

“Não apenas interpretar, mas também fazer uma mediação entre culturas. Para que explique do que se trata aquele instituto jurídico. E também para que nos explique: o que é o direito naquela cultura? Como o direito posto pode ser compatibilizado com o que é praticado naquela comunidade?”.

Além dos atendimentos presenciais que ocorrem em Tabatinga e Benjamin Constant, uma equipe em Manaus fará o atendimento online. A estimativa é cerca de 40 atendimentos por mês. A maior necessidade de atendimento é o de registro e documentação, segundo Daniele. Mutirões pontuais chegaram a fazer 300 atendimentos.

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vale do javari no amazonas Foto: Reprodução / Povos Isolados da Amazônia – Centro de Trabalho Indigenista
Imagem: Reprodução / Povos Isolados da Amazônia – Centro de Trabalho Indigenista

Direitos dos povos no Vale do Javari

O procurador jurídico da Univaja, Eliesio Marubo, diz que ainda vai ser necessário conversar com a Defensoria Pública da União para debater os direitos dos indígenas também na justiça federal, como a questão previdenciária.

Sobre a segurança, Eliesio afirmou que a Univaja procura se aproximar de órgãos públicos desde o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips.

“O Estado, de alguma maneira, não tem atendido com total necessidade daquilo que nós temos levantado. Isso tem sido divulgado periodicamente pela Univaja. Mas nossa parte é exatamente essa: fazer com que esses órgãos olhem para a região, atuem na região e de alguma maneira a gente vai provocar para que o Estado faça a sua parte na proteção do território”.

O Amazonas tem a maior população indígena do país, com mais de 490 mil pessoas de 259 povos. Só o Vale do Javari, onde há a maior concentração de indígenas isolados do mundo, estima-se que vivam cerca de 6.300 pessoas.

*Com informações da Rádio Agência Nacional

Embrapa destaca que El Niño exige estratégias diferentes para a agropecuária; veja as destinadas ao Norte

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No Norte, o manejo da água orienta as decisões diante da irregularidade das chuvas e dos níveis dos rios por conta do El Niño. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Equipes da Embrapa nas cinco regiões brasileiras detalharam os riscos do El Niño 2026/2027 e definiram recomendações adaptadas a cada cenário climático e produtivo. Entre elas estão o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), a escolha de cultivares adaptadas, o escalonamento da semeadura e medidas de manejo e conservação da água e do solo.

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Enquanto produtores da Região Sul precisam se preparar para chuvas intensas e excesso de água, em grande parte do Centro-Oeste, Norte, Nordeste e Sudeste o fenômeno El Niño deve impor o desafio oposto: escassez de água, irregularidade das chuvas e temperaturas elevadas.

As diferenças não se limitam às fronteiras regionais: os riscos também mudam conforme a localização, a cultura, o sistema produtivo e o período do ciclo agrícola.

El Niño gera contrastes

Os contrastes aparecem em todo o mapa. No Centro-Oeste, Mato Grosso e Goiás apresentam maior risco de seca, enquanto o sul de Mato Grosso do Sul tende a receber mais chuva. No Nordeste, a preocupação é com a menor oferta de água.

No Norte, a redução dos níveis dos rios pode afetar navegação, transporte e abastecimento. O Sudeste reúne áreas mais secas e mais chuvosas até dentro de um mesmo estado, enquanto, no Sul, o excesso de precipitação amplia os riscos de encharcamento, erosão e doenças nas lavouras.

Saiba mais: Portal Amazônia responde: por que o El Niño provoca seca na região Norte e chuvas na região Sul?

O trabalho aprofunda as 163 medidas elaboradas no âmbito do Grupo de Trabalho sobre o El Niño, estabelecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com a participação de cerca de 50 profissionais da Embrapa e especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Além de reduzir os impactos do El Niño 2026/2027, parte das recomendações pode ser incorporada ao planejamento das propriedades para aumentar a preparação diante de outros eventos e condições climáticas recorrentes.

Cenário previsto dos efeitos do El Niño no Norte

O El Niño 2026/2027 deve provocar redução e maior irregularidade das chuvas na Região Norte, com atraso na regularização da estação chuvosa, períodos mais longos de déficit hídrico, temperaturas elevadas e redução dos níveis dos rios. Os efeitos já estão em curso e podem se intensificar entre o fim de 2026 e o início de 2027, com impactos sobre a produção agropecuária, a navegação, o transporte e o abastecimento. 

Os impactos do El Niño devem variar dentro da região. Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima tendem a concentrar os déficits hídricos mais severos e os efeitos sobre os rios. Roraima apresenta a situação mais antecipada: o déficit de chuva coincidiu com o período de enchimento dos grãos, e há estimativa de perdas de 30% a 50% na safra de 2026.

No Pará, Amapá e nas áreas de transição do Maranhão e de Mato Grosso, a preocupação maior está no atraso das chuvas, no prolongamento da estação seca, na implantação das lavouras e no risco de incêndios. 

A redução dos níveis dos rios acrescenta um componente particular ao cenário do Norte. No Amazonas, por exemplo, a vazante pode afetar a navegação, o transporte de insumos e alimentos, o abastecimento de água, a agricultura de várzea e a pesca e a aquicultura.

Nas áreas costeiras e estuarinas do Pará e do Amapá, há ainda risco de intrusão salina nos canais de captação de água doce. 

Prefeitura inicia campanha para manter praias limpas durante estiagem em Boa Vista. El niño 2026. comunidades
Nível do Rio Branco durante seca em Boa Vista (RR) em 2026. Foto: Andrezza Mariot/PMBV

Principais recomendações

  • Mandioca, milho e feijão-caupi: seguir as indicações do Zarc, utilizar cultivares adaptadas e tolerantes ao déficit hídrico e manter o solo coberto. No milho e no feijão-caupi, evitar que o florescimento coincida com períodos de veranico e ajustar a densidade de plantas à disponibilidade de água.
  • Arroz de várzea e terras baixas: adequar o plantio e o transplante ao regime de vazante, manter a lâmina d’água mínima necessária, evitar drenagem excessiva e antecipar o preparo do solo durante a recessão das águas.
  • Açaí e cacau: no açaí de terra firme, priorizar irrigação localizada e reduzir a perda de água; nas áreas de várzea, acompanhar a retração das águas. No cacau, manter o sombreamento e a cobertura do solo e evitar podas severas durante o pico da estiagem.
  • Banana, pimenta-do-reino e outras frutíferas: utilizar irrigação localizada nas fases críticas, manter a cobertura do solo e adotar medidas para reduzir os efeitos do calor e da perda de água. Na pimenta-do-reino, a recomendação inclui o uso de tutores vivos e a prevenção do estresse radicular.
  • Pastagens e pecuária: ajustar a lotação dos animais à capacidade de suporte das pastagens, formar reservas de forragem, reforçar a suplementação e garantir água limpa e sombra. A redução da umidade pode antecipar a perda de qualidade das pastagens e aumentar o estresse térmico dos animais.
  • Água e irrigação: proteger nascentes e igarapés, ampliar ou recuperar estruturas de armazenamento, priorizar a irrigação localizada e manter cobertura morta no solo para reduzir a evaporação.

A disponibilidade de água deve orientar boa parte das decisões na região. Além de seguir o Zarc, as medidas incluem: escolher cultivares adaptadas e precoces, conservar a umidade do solo, armazenar água, adequar a irrigação e proteger lavouras e animais do calor.

Confira a publicação com as orientações para todas as regiões do país AQUI.

*Com informações da Embrapa