Arte é da ilustradora manauara Laura Athayde. Imagem: Laura Athayde
Os intervalos comerciais da TV Globo ganharam o traço, as cores e a identidade da região Norte durante a cobertura da Copa do Mundo2026. A artista, ilustradora e quadrinista amazonense Laura Athayde é a responsável pela criação de uma das novas vinhetas especiais do famoso “plim-plim”, exibidas nacionalmente nos blocos de transição dos jogos da Seleção Brasileira. Assista:
A ilustração, desenvolvida originalmente por Athayde, passou por um processo de animação para ganhar as telas. A proposta conceitual da obra é retratar com fidelidade e orgulho o jeito tipicamente nortista de torcer, celebrar e vivenciar o maior evento de futebol do planeta, levando as particularidades culturais da Amazônia para milhões de telespectadores em todo o país.
A iniciativa da emissora faz parte de uma série de interações artísticas que convidam criadores de diferentes regiões para imprimir suas visões locais sobre a identidade nacional.
Ilustradora buscou mostrar tradições amazônicas
A participação da ilustradora Laura Athayde na principal janela de audiência da televisão brasileira coroa um momento de forte consolidação de sua carreira e, simultaneamente, serve como vitrine para a potência das artes visuais e dos quadrinhos produzidos no Amazonas. Reconhecida por suas narrativas sensíveis e traço marcante, a autora agora expande seu alcance ao conectar a estética regional com o grande público da TV aberta.
“Assim que chegou o convite, eu soube que queria representar uma das minhas memórias mais queridas, que era esse costume de enfeitar a rua para a Copa. Eu fui criada na casa da minha avó, no Centro [de Manaus], e durante a minha infância isso era muito forte. Então, eu comecei a pesquisar sobre essa tradição e acabei conhecendo um pouco mais também sobre as celebrações no interior da Amazônia, em que as famílias e amigos se reúnem de barco para assistir os jogos juntos”, conta Laura.
Para o cenário local, esse destaque reforça a efervescência de uma geração de quadrinistas e ilustradores amazonenses que têm quebrado as barreiras do isolamento geográfico, alcançando postos de destaque em grandes mídias, agências e no mercado editorial de prestígio nacional.
Norte em Quadrinhos
O Norte em Quadrinhos, do qual a ilustradora Laura Athayde faz parte, é uma iniciativa que busca valorizar, profissionalizar, divulgar e fortalecer a produção de quadrinhos da região Norte do Brasil.
Atuando como vitrine para artistas e coletivos, o projeto promove as obras e o reconhecimento da diversidade de narrativas e estilos que vem da Amazônia, conectando criadores locais a leitores em todo o país através de eventos, premiações, profissionalização e muito mais.
Iniciativa da Ufopa trabalha com técnicas de DNA ambiental. Foto: Divulgação/Projeto Clima
Promover a iniciação e a alfabetização científica de jovens por meio da ciência cidadã. Esse é o objetivo do projeto “Ciência, licenciatura e integração para enfrentar as mudanças climáticas na Amazônia (Clima)”, desenvolvido pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) junto à comunidade escolar da Escola Estadual Professora Terezinha de Jesus Rodrigues, em Santarém.
Ligado ao Programa Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão (PEEx), o projeto investiga a percepção das comunidades locais sobre as alterações climáticas e avalia os impactos socioambientais na biodiversidade amazônica, utilizando técnicas de DNA ambiental.
O DNA é uma molécula encontrada em todos os seres vivos e funciona como o manual de instruções do corpo. Já o DNA ambiental é o rastro genético que esses organismos deixam espalhado na natureza. Ele é uma mistura de DNAs que se soltaram de seres humanos, animais, plantas e até de seres microscópicos, como as bactérias, e que ficam flutuando ou misturados na água, no solo e no ar de um determinado lugar.
O projeto é coordenado pelo professor Gabriel Iketani Coelho, da licenciatura em Biologia do Instituto de Ciências da Educação (Iced) e do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da Amazônia (PGRNA), do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG). Segundo ele, o DNA ambiental é encontrado em todos os ambientes e pode ser extraído de amostras de água, de solo ou do ar.
“O Projeto Clima busca aproximar os alunos da Biologia molecular moderna. Após aprenderem como a ciência coleta esses rastros genéticos na água, no solo e até no ar, os alunos foram desafiados a construir seus próprios equipamentos de coleta. A proposta é transformar a criação desses coletores em uma atividade lúdica, desenvolvendo ’brinquedos científicos’ capazes de coletar amostras reais para análise”, disse o professor.
Pelo projeto, de acordo com o docente, os alunos fazem ciência e, consequentemente, são alfabetizados cientificamente, sendo inseridos no universo acadêmico da produção do conhecimento.
Desde o ano passado, o projeto vem sendo desenvolvido com atividades de formação da equipe com relação à metodologia aplicada, chamada Course-based Undergraduate Research Experience (CURE).
Essa metodologia foi adaptada pelo grupo e recebeu o nome de CURE2 (Coursebased Undergraduate Reseach and Extension Experiences) que, traduzido, significa “Curso de graduação baseado em experiências de pesquisa e extensão”, envolvendo as seguintes fases:
Capacitação e troca de saberes: realização de palestras e oficinas intergeracionais sobre método científico, mudanças climáticas e técnicas de biologia molecular;
Formação continuada e pesquisa prática: divisão dos participantes em grupos mistos — integrando alunos do 6.º ano da escola, da graduação (licenciaturas), da pós-graduação e professores da escola e da universidade para o planejamento e execução de experimentos científicos na área de DNA ambiental;
Comunicação e devolutiva social: sistematização dos resultados em relatórios unificados para apresentação a tomadores de decisão, feiras de ciências e divulgação científica para a comunidade local.
Fazendo parte da segunda fase do projeto, atividades na Escola Terezinha Rodrigues resultaram em discussões e ideias para elaboração dos coletores de DNA ambiental. Essas ideias foram concretizadas e impressas em 3D pelos alunos do mestrado, da graduação e do ensino médio (bolsistas PEEx) no Laboratório de Educação e Evolução Prof. Horacio Schneider (Ledevo) da Ufopa. No dia 1.º de junho, esses coletores foram testados na escola.
Próxima ação
Após testes e ajustes nos brinquedos coletores, no dia 29 de junho, haverá uma ação de coleta de amostras na Unidade Tapajós da Ufopa, em atividades que devem envolver todos os estudantes do projeto.
Além do coordenador, a equipe do projeto é composta pela vice-coordenadora, professora Priscila Veiga da Silva, da escola Terezinha de Jesus Rodrigues; 4 alunos do PGRNA e dois egressos; 44 alunos da graduação (Licenciatura em Ciências Biológicas); 3 bolsistas do ensino médio; 34 do ensino fundamental (6.º ano).
Professor Gabriel Iketani informou que o projeto pode ser desenvolvido em parceria com unidades de ensino, a depender de contatos prévios, planejamento e orçamento.
As cores que tomam conta das ruas e passarelas revitalizadas pelo projeto Amapá em Campo carregam a assinatura de artistas locais que encontraram na arte uma forma de valorizar a cultura e fortalecer a identidade amazônica. Entre eles está Nazareno Senn, grafiteiro, tatuador e artista visual que participa da criação das pinturas que estão transformando espaços públicos em diferentes comunidades de Macapá.
A relação de Nazareno com a arte começou ainda na infância. O interesse pelo desenho e pela pintura o acompanhou durante toda a vida e se fortaleceu em 2016, quando ingressou no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Amapá (Unifap).
“Esse amor pela arte começou desde pequeno. A vontade de desenhar, pintar e criar sempre esteve presente na minha vida. Quando entrei na universidade, tive ainda mais certeza de que esse era o caminho que eu queria seguir”, conta.
Natural de Breves, no Pará, Nazareno chegou ao Amapá aos 14 anos de idade. Hoje, aos 44 anos, considera-se amapaense de coração e faz questão de destacar a influência da cultura local em seus trabalhos.
“Quando me perguntam de onde eu sou, digo que sou amapaense. Foi aqui que construí minha trajetória e foi aqui que encontrei inspiração para grande parte da minha produção artística”, afirma.
Antes de se dedicar ao grafite, Nazareno já atuava como tatuador e explorava outras linguagens artísticas. Há cerca de dois anos, recebeu o convite de um amigo para participar de uma pintura com spray. A experiência marcou o início de uma nova fase profissional.
“Quando comecei a grafitar, me encontrei de verdade. É uma prática artística que me faz muito feliz. O grafite permite trabalhar conceitos, cores e mensagens de uma forma muito livre. É um universo à parte”, destaca.
Arte no Amapá em Campo
Em suas obras, o artista busca sempre conectar a arte urbana aos elementos que representam a identidade amazônica. Essa característica também está presente nas pinturas desenvolvidas para o projeto Amapá em Campo.
O convite para integrar a iniciativa surgiu por meio do coordenador de projetos da Fundação Rede Amazônica (FRAM), Matheus Aquino. Ao lado do artista Rogério Nobre, Nazareno participou da criação dos layouts que deram origem às intervenções realizadas nas ruas e passarelas da capital amapaense.
“A proposta era criar artes que conectassem o clima de mundial com os elementos da nossa cultura. A partir dessa ideia, eu e o Rogério desenvolvemos juntos os layouts do projeto, buscando representar símbolos que fazem parte da identidade do Amapá. Quando apresentamos a proposta, ela foi muito bem recebida e seguimos trabalhando para transformar essas ideias em realidade”, explica.
Entre os elementos retratados nas pinturas estão referências culturais e turísticas do estado, como o Marco Zero do Equador, o pirarucu, a caixa do marabaixo, os tocadores e dançarinos da manifestação cultural, símbolos que ajudam a contar a história e a identidade do povo amapaense.
Segundo Nazareno, a receptividade da população tem sido um dos pontos mais marcantes da experiência.
“O retorno dos moradores tem sido muito positivo. Muitas pessoas se identificam com os elementos representados nas pinturas e ficam felizes ao ver a cultura do Amapá retratada nos espaços públicos. Ver a nossa terra representada no chão, com símbolos que fazem parte da nossa história, é algo que encanta quem passa pelos espaços revitalizados”, afirma.
Além do aspecto artístico, o projeto também apresentou desafios logísticos. As pinturas foram realizadas em áreas de grande circulação de pessoas, exigindo planejamento para garantir a segurança dos moradores e a continuidade dos trabalhos.
“Precisamos criar uma estratégia para não atrapalhar quem utiliza as passarelas diariamente. Trabalhamos por etapas, conciliando o fluxo de pessoas com a execução das pinturas. Também enfrentamos o calor intenso e as chuvas, que fazem parte da nossa realidade amazônica, mas tudo isso faz parte do processo”, conta.
Segundo o artista, um dos momentos mais gratificantes tem sido acompanhar a reação da população aos espaços revitalizados.
“Estamos recebendo um retorno muito positivo dos moradores. As pessoas reconhecem os elementos da nossa cultura nas pinturas, identificam o Marco Zero, o pirarucu, a caixa do marabaixo, os dançarinos e os tocadores. Ver esse reconhecimento e perceber que a comunidade se sente representada é uma das maiores recompensas do nosso trabalho”, destaca.
Atualmente, Nazareno e sua equipe seguem atuando nas intervenções que fazem parte do projeto. Depois das pinturas realizadas na Ponte do Apertadinho, no bairro Fazendinha, os trabalhos avançam para novos pontos da cidade, contribuindo para transformar espaços urbanos em ambientes mais acolhedores, coloridos e conectados à identidade cultural da região.
Amapá em Campo
O Amapá em Campo é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), que utiliza o esporte como ferramenta de mobilização social para promover integração comunitária, valorização cultural e conscientização ambiental.
O projeto transforma espaços públicos por meio da arte urbana, da participação popular e de ações sustentáveis, contribuindo para o fortalecimento dos territórios e para a construção de comunidades mais acolhedoras e conectadas com a realidade amazônica.
A palavra bioeconomia ganhou força no debate sobre a Amazônia. Tornou-se presença constante nos discursos políticos, nas conferências climáticas e nas promessas de um novo modelo de desenvolvimento para a região. Na COP de Belém, voltou ao centro das discussões como uma possível resposta ao velho dilema amazônico: conservar a floresta e, ao mesmo tempo, gerar prosperidade para quem nela vive.
Mas existe uma pergunta anterior a qualquer conceito sofisticado ou discurso bem-intencionado: bioeconomia para quem?
Como amazônida, economista, jornalista e alguém que navegou por dois anos os rios da Amazônia — desde a foz do grande rio até a Amazônia peruana e equatoriana, alcançando o rio Napo, próximo aos Andes — aprendi uma lição simples: nenhuma proposta para a região terá sentido se não alcançar os povos da floresta.
Recentemente, durante a gravação dos meus programas na CBN Amazônia e na Rede Amazon Sat, acompanhei em Macapá o encerramento do projeto Nossa Terra, Nossas Aldeias, promovido pelo Instituto Iepé, reunindo experiências de comunidades indígenas do norte do Amapá e do Pará. O encontro trouxe um debate que considero essencial: como transformar a floresta em fonte de renda sem destruir aquilo que a mantém viva?
A coordenadora do Programa Oiapoque do Instituto Iepé, Teresa Harari, apresentou um conceito que merece atenção: a sociobioeconomia. Mais do que comercializar produtos da floresta, trata-se de reconhecer o conhecimento ancestral existente nos territórios indígenas — formas próprias de manejo, respeito aos ciclos naturais e práticas de produção que não enxergam a floresta apenas como ativo econômico.
No caso do açaí, por exemplo, não se trata simplesmente de extração comercial. Há conhecimento tradicional, formas específicas de manejo e uma lógica produtiva que busca manter o equilíbrio do ambiente. Em vez da monocultura e da exploração intensiva, prevalecem a diversidade e o respeito aos tempos da natureza.
Isso não significa romantizar a pobreza ou defender isolamento econômico. Os povos indígenas também querem renda, qualidade de vida, acesso a mercado, educação e oportunidades para seus filhos — e têm toda razão.
A questão central é outra: que modelo de prosperidade queremos construir na Amazônia?
Às margens do rio Arapiuns, no oeste do Pará, durante a expedição que percorreu a Amazônia até os Andes. A convivência com comunidades ribeirinhas revelou que a floresta não é apenas um patrimônio ambiental, mas também um espaço de vida, cultura e produção de conhecimento. Foto: Olimpio Guarani/Acervo pessoal
Durante minha travessia pela bacia amazônica, convivendo com indígenas, quilombolas e ribeirinhos, percebi algo que muitas vezes escapa aos grandes centros de decisão: a floresta nunca foi improdutiva. Seus povos sempre produziram riqueza, ainda que fora da lógica convencional da economia industrial. O problema histórico da Amazônia talvez nunca tenha sido a ausência de riqueza, mas a incapacidade de fazê-la permanecer onde é gerada.
A fala da liderança indígena Mitori Kaxuyana, da Terra Indígena Tumucumaque, ajuda a compreender a dimensão do desafio. Em pleno século XXI, comunidades ainda enfrentam dificuldades de acesso à saúde, educação e assistência pública, muitas vezes dependendo exclusivamente de pequenas aeronaves para conexão com o restante do país.
Essa realidade impõe uma reflexão inevitável: não haverá bioeconomia consistente sem inclusão territorial e infraestrutura mínima para os povos da floresta.
A Amazônia precisa, sim, de alternativas econômicas sustentáveis. Precisa gerar renda, agregar valor aos produtos da sociobiodiversidade e criar oportunidades. Mas seria um erro repetir a velha lógica histórica em que riqueza sai da floresta enquanto seus povos permanecem pobres.
A floresta em pé só fará sentido como projeto econômico se também mantiver de pé a dignidade de quem vive nela. Se indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas não forem protagonistas desse processo, a bioeconomia correrá o risco de se transformar apenas em mais uma palavra bonita nos documentos internacionais — distante da Amazônia real.
Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.
O Canvas de Políticas Públicas, que integra a programação do projeto Amazônia Que Eu Quero, da Fundação Rede Amazônica (FRAM), foi realizado nesta segunda-feira (15) com estudantes da Escola Major Guapindaia, em Porto Velho (RO). A atividade reuniu jovens para discutir temas relacionados à democracia, tecnologia e participação cidadã no ambiente digital.
A iniciativa antecede o debate “Democracia na Era Digital – A Consolidação das Instituições Democráticas no Ambiente de Transformação Digital”, que será promovido pelo projeto Amazônia Que Eu Quero nesta terça-feira (16), na capital rondoniense.
Durante o encontro, realizado na Escola Major Guapindaia, os estudantes participaram de uma dinâmica baseada na metodologia do Canvas de Políticas Públicas, ferramenta que estimula a construção coletiva de soluções para desafios enfrentados pela sociedade. A atividade incentivou os jovens a refletirem sobre o papel da tecnologia na democracia, os impactos da transformação digital e a importância da participação cidadã.
“Estamos desenvolvendo mais um Canvas de Políticas Públicas, que é um espaço de reflexão para esses jovens. Hoje trabalhamos um tema extremamente atual, que convida os estudantes a pensar sobre democracia, tecnologia e participação cidadã. A partir dessas discussões, começamos a aguçar o olhar crítico e a buscar soluções para os desafios da nossa Amazônia”, destacou Denis Carvalho, especialista de projetos da Fundação Rede Amazônica.
Ao longo da atividade, os alunos da Escola Major Guapindaia discutiram temas como combate à desinformação, responsabilidade no uso das plataformas digitais, cidadania digital e fortalecimento das instituições democráticas. As propostas elaboradas durante o encontro irão contribuir para a construção do Caderno de Soluções do Amazônia Que Eu Quero, documento que reúne sugestões da população para o desenvolvimento da região.
Com o tema “Democracia na Era Digital – A Consolidação das Instituições Democráticas no Ambiente de Transformação Digital”, o projeto Amazônia Que Eu Quero, iniciativa do Grupo Rede Amazônica desenvolvida pela Fundação Rede Amazônica, promove um debate sobre democracia, tecnologia e eleições.
O encontro acontece nesta terça-feira (16), a partir das 16h, no Auditório do Complexo da Estrada de Ferro, localizado na Avenida Farquar, no Centro de Porto Velho. As inscrições são gratuitas e o evento também contará com transmissão ao vivo pelo g1.
O debate vai abordar a responsabilidade compartilhada entre instituições, plataformas digitais e usuários na construção de ambientes virtuais mais seguros e confiáveis. Também será discutida a importância de desenvolver mecanismos capazes de proteger a democracia diante dos desafios da era digital.
A mediação será da jornalista Ana Paula Galvão, da Rede Amazônica.
Participam do encontro o cientista político João Paulo Saraiva Leão Viana; o procurador regional eleitoral Leonardo Trevizani Caberlon; e o presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO), Raduan Miguel Filho.
Além do debate, o público poderá visitar uma exposição sobre o processo eleitoral e acompanhar uma apresentação do grupo musical Minhas Raízes.
As ideias e propostas apresentadas durante o evento vão contribuir para a construção do Caderno de Soluções do Amazônia Que Eu Quero. O projeto promove encontros que reúnem especialistas, lideranças e a população para discutir caminhos e soluções voltados ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Sobre o Amazônia Que Eu Quero
Criado em 2019, o Amazônia Que Eu Quero é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica e do Grupo Rede Amazônica que promove a educação política por meio do diálogo entre especialistas, instituições, gestores públicos e sociedade civil. O projeto busca construir propostas para enfrentar os principais desafios da Amazônia, incentivando a participação cidadã e o desenvolvimento sustentável da região.
A artista Kuenan Mayu participa da mostra Riverlines, na galeria norte-americana. Foto:
A Galeria David Nolan, em Nova Iorque (EUA), apresenta ‘Riverlines‘, uma exposição com obras de três gerações de artistas indígenas amazônicos: Chico da Silva, Joseca Yanomami e Kuenan Mayu. A mostra reúne práticas ancestrais enraizadas nas tradições vivas dos povos Yanomami, Tikuna, Tariana e Tukano.
Por meio da pintura, do desenho e do tecido de casca de árvore, essas obras examinam como o conhecimento transita entre linhagens e territórios, e como a prática cerimonial é reinventada em formas contemporâneas.
As obras revelam continuidade, transformação e inovação: a interpretação da cosmologia por uma geração mais velha, a negociação da tradição com a modernidade por uma geração intermediária e as experiências de uma geração mais jovem em intercâmbio intercultural e intergênero.
“Riverlines torna visíveis genealogias artísticas há muito negligenciadas nas narrativas globais da arte moderna e contemporânea, e posiciona essas obras dentro do discurso atual sobre clima, extrativismo e direitos indígenas. A Amazônia – com seus pintores visionários e cosmologias relacionais – não pode mais permanecer à margem. Embora as pinturas sejam belas, sua beleza é política. Elas oferecem maneiras de ver que recusam a separação entre arte e vida e insistem na integridade como prática estética e ética”, justifica a nota de divulgação da mostra.
Artistas indígenas revelam olhares únicos sobre a cultura amazônica. Foto: Divulgação
Artistas indígenas em foco na exposição: uma visão detalhada da Amazônia
A exposição dos artistas amazônidas apresenta 16 pinturas de 1964 sobre papel montado em madeira de Chico da Silva, ao lado de obras emblemáticas das décadas de 1970 e início de 1980 que mapeiam geografias e cosmologias ribeirinhas. Inclui também um ciclo de pinturas de Joseca Yanomami que incorporam as visões da terra-floresta do povo Yanomami; e 20 pinturas de Kuenan Mayu, que utiliza pigmentos naturais amazônicos sobre tela sagrada tururi para criar obras que variam de gestos ancestrais íntimos a cosmologias alucinatórias.
Kuenan Mayu
A mais jovem dos três e um dos destaques da mostra é Kuenan Mayu, uma artista Magüta (Tikuna), Tariana e Tukano, nascida em Feijoal, às margens do rio Solimões em Benjamin Constant (AM), na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Ela pinta em casca de tururi com pigmentos extraídos da floresta ao redor.
Seus seres são híbridos — parte humanos, parte árvore, parte peixe, parte espírito — que habitam um mundo organizado não pela separação, mas pela possibilidade de se tornarem outros. Sua obra expande a cosmologia Magüta, cuja história de origem começa com dois seres espirituais, Ngutapa e Mapana, que semearam o universo com plantas.
Incapaz de gerar filhos, Mapana foi amarrada pelo enfurecido Ngutapa a uma árvore na floresta, onde sofreu até que um encantado — um ser encantado em forma de pássaro — lhe ofereceu uma colmeia como instrumento de vingança. Ela a atirou em Ngutapa; as abelhas picaram seus joelhos, que incharam e finalmente estouraram, libertando dois filhos, Y’pi e Yo’i.
Mais tarde, Yo’i pescou no sagrado Rio Eware e, um corpo de cada vez, desenhou um povo inteiro — os Magüta: “o povo pescado das águas”. Cada figura emergiu como membro do clã dos “seres com penas” ou do clã dos “seres com cabelo”. O Rio Eware tornou-se o lar dos encantados: presenças porosas e metamórficas, resistentes à taxonomia fixa e centrais para o universo visual de Kuenan Mayu.
O corpo em sua obra é um conduto entre reinos; a casca da árvore tururi é onde essa passagem se materializa. No ritual Magüta, a casca interna da árvore é preparada, costurada em uma vestimenta que cobre todo o corpo e pintada com urucum, jenipapo e pacová, de modo que o usuário passe a incorporar um encantado específico por meio do canto e da dança. A prática de Mayu opera sob a mesma lógica — destacando a liminaridade, o momento do devir, em detrimento da estabilidade de uma forma completa.
Francisco da Silva
Um dos artistas mais influentes e amplamente exibidos do Brasil, Francisco da Silva (1910–1985), conhecido como Chico, cresceu no estado do Acre, na floresta amazônica. Ele se relacionava com a pintura como uma forma de construção de mundos, sua linguagem visual consistindo em formas animais híbridas, olhos hipnóticos, linhas serpentinas e garras alongadas, extraídas das mitologias e tradições orais do Norte do Brasil.
A peça central da exposição é Serpente da Serra Luminosa, uma das dezessete pinturas criadas para a Bienal de Veneza de 1966: ricamente texturizada, multidimensional, surreal e imersiva, ela expressa plenamente os ecossistemas visuais do artista. A obra de Chico convida à comparação com pintores do século XX que entendiam a superfície como um espaço de invenção cosmológica: as constelações biomórficas de Joan Miró, os campos pictográficos de Paul Klee, a abstração espiritual de Hilma af Klint.
O que torna a obra de Chico singular é que sua prática emergiu da cosmologia indígena, em oposição ao esoterismo europeu. Como ele mesmo observou: “O desenho é o que a mão dá e a cor é o que os detalhes pedem… pintar é autonomia” — não uma afirmação formalista, mas ontológica. A pintura está viva porque o mundo que ela contém está vivo.
Joseca Yanomami
Joseca Yanomami é de uma comunidade às margens do rio Lobo d’Almada (Uxiu), um afluente do alto rio Catrimani, em Roraima. Filho de um xamã — um “grande homem” (pata thë) —, ele passou a vida atento aos cânticos dos xamãs Yanomami, que, por meio da dança e do canto, “trazem à luz” e “fazem dançar” as imagens (utupë) de seres e lugares desde o princípio dos tempos.
Num gesto semelhante, Joseca representa suas próprias imagens oníricas dos universos que compõem o “mundo-floresta-terra” (urihi) Yanomami, que não é apenas uma coleção de árvores, mas um multiverso complexo no qual humanos e espíritos (xapiri thë pë), visíveis apenas aos xamãs, coexistem.
Como Joseca descreve: “Não desenho sem um motivo. Inspiro-me nas palavras que ouço dos xamãs, aqueles que têm os cânticos mais belos, aqueles que realmente sabem como fazer com que as palavras dos espíritos xapiri pë sejam ouvidas. Quando realizam suas sessões, escuto seus cânticos e registro todas essas palavras em minha mente, com as quais depois sonho e transformo em desenhos”.
Trabalhando em um estilo figurativo-realista, ele torna visível o conhecimento e a beleza de uma forma ancestral de pensar e viver que é implacavelmente destruída pela voracidade econômica e pela ignorância.
Riverlines foi desenvolvida em diálogo colaborativo com os artistas e membros de suas comunidades. A galeria trabalhou em estreita colaboração com os artistas para garantir uma apresentação culturalmente apropriada, enquadramento contextual e programação pública, incluindo palestras com os artistas e conversas com o curador.
Foto: Divulgação
A exposição tem curadoria de Simon Watson, curador independente, consultor de arte e especialista em eventos culturais, com atuação entre Nova York e São Paulo.
“Em uma manhã de meados de abril de 2022, na área de exposições privadas da Galeria MaPa, em São Paulo, deparei-me com uma pintura em tons de dourado, vermelho e azul de uma serpente aquática contorcida, de Chico da Silva. Ao ser questionado, o galerista Marcelo Pallotta relatou a trajetória dramática do artista: uma juventude dedicada à pintura de rua, decorando cabanas de pescadores; um período intermediário celebrado como o primeiro artista indígena a ter seu trabalho exposto na Bienal de Veneza; duas décadas de exposições internacionais; mas, após sua morte em 1985, praticamente esquecido por décadas. Fiquei impressionado com a vivacidade da pintura: ali estava uma visão poderosa da natureza e da vitalidade do planeta”, conta Watson.
“Refleti sobre aquela obra extraordinária e sobre a vida notável e complexa de Chico o dia todo. Seis horas após nosso primeiro encontro, voltei à MaPa e perguntei se eles me ajudariam a organizar uma exposição individual de seu trabalho em um museu. Sete meses depois, em novembro de 2022, ‘Chico da Silva: Conexão Sagrada, Visão Global, uma pintura de 93 anos’”, completa.
Fascinado pela obra de Chico da Silva, Watson afirma que foi levado a uma profunda imersão “e à curadoria de três exposições individuais de sua arte. Ao longo desse processo, interagi com uma ampla gama de artistas indígenas; esse envolvimento culminou nesta exposição Riverlines”.
Segundo o curador, a escolha dos artistas Chico da Silva, Joseca Yanomami e Kuenan Mayu é com o objetivo de mostrar vozes distintas da Amazônia. “Vistos aqui em diálogo, eles apresentam ao público nova-iorquino a relevância global de suas visões da natureza. A exposição busca honrar os laços intergeracionais, ao mesmo tempo que concede plena autonomia às práticas contemporâneas que não são artefatos de museu nem mera ilustração. As obras que apresentamos são voltadas para o futuro e profundamente ancoradas no lugar, no cuidado e na resistência”, justifica Simon Watson.
Pesquisa mostra recorte dedicado à mulheres e populações tradicionais. Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (FGVCes) lançou o relatório de pesquisa ‘Seca Extrema na Amazônia: um olhar sobre territórios e mulheres atingidas‘. O conteúdo analisa os principais impactos da seca extrema que atingiu a Amazônia entre 2023 e 2024, com foco nas bacias do Tapajós (PA) e do interflúvio Purus-Madeira (AM).
Fruto de uma pesquisa qualitativa que escutou lideranças comunitárias e a gestão pública, a publicação enfoca especialmente os impactos enfrentados por mulheres de povos indígenas e comunidades tradicionais em territórios coletivos já pressionados por projetos de infraestrutura e atividades extrativas.
A equipe de pesquisa categorizou os impactos do fenômeno climático em nove dimensões centrais:
Insegurança alimentar e perda de trabalho e renda
O rebaixamento do nível dos rios, associado à piora da qualidade da água e aumento da temperatura média, ocasionou escassez de pescado, com redução do percentual de proteína e gordura presente na carne desses animais, prejudicando seu sabor e valor nutricional, logo a população local sofreu tanto com o consumo diário quanto para a venda desses produtos. Além disso, passaram a arcar com maiores despesas para aquisição de bebedouros, mangueiras, garrafas de água mineral e itens da cesta básica, que tiveram reajuste em seus valores.
Alteração na circulação e isolamento das comunidades
O rebaixamento dos cursos d’água resultou na alteração e na interrupção das dinâmicas de transporte fluvial nos territórios, no aumento nos preços dos trajetos realizados por balsas e barcos e na ausência de alternativas para transporte.
Agravos à saúde e sofrimento psíquico
a contaminação das águas e as alterações nos padrões alimentares impactou a saúde de famílias e comunidades amazônicas. Entre as enfermidades causadas ou agravadas pela seca estão: doenças estomacais, intestinais, problemas dermatológicos e o aumento de doenças respiratórias.
Fragilização de comunidades e da proteção territorial
A situação de seca extrema, sobreposta ao aumento de invasões e pressões de empreendimentos econômicos sobre os territórios coletivos, foi marcada pela interrupção de reuniões comunitárias e atividades promovidas pelos coletivos e organizações de base para formação política, em especial aquelas protagonizadas por mulheres e juventudes.
Transformações socioecológicas e nos regimes de conhecimento
Mudanças nas dinâmicas socioecológicas e desafios para interpretação de fenômenos.
Pesquisa propõe estratégias de enfrentamento. Imagem: Divulgação/FGV
Desafios para efetivação de políticas públicas
No âmbito da saúde, lideranças comunitárias e organizações da sociedade civil enfrentaram desafios associados à impossibilidade de deslocamento dos servidores públicos para os territórios, assim como para acesso das comunidades às unidades de saúde nos centros urbanos. Alguns territórios também foram impactados pelo desabastecimento e pela suspensão do funcionamento de postos de saúde, pronto socorros e serviços de ambulância e outros equipamentos.
Deslocamento forçado
A situação de seca extrema, sobreposta ao aumento de invasões e pressões de empreendimentos econômicos sobre os territórios coletivos, foi marcada pela interrupção de reuniões comunitárias e atividades promovidas pelos coletivos e organizações de base para formação política, em especial aquelas protagonizadas por mulheres e juventudes.
Sobrecarga dos trabalhos de cuidado
Desafios para acesso aos serviços de saúde, por sua vez, demandaram maior dedicação das mulheres à recuperação de pessoas adoecidas, em meio à falta de medicamentos, perda de plantas medicinais e interrupção da oferta de serviços básicos e ausência de atendimento emergencial.
Intensificação de riscos de violência contra a mulher
Em meio às mudanças nos padrões de circulação nos territórios e ampliação do convívio com agressores, em uma conjuntura marcada pelo enfraquecimento das redes de suporte e dos serviços públicos para acolhimento e proteção social, mulheres enfrentaram o aumento dos riscos de violência por gênero.
A pesquisa também revela um mapeamento inédito de estratégias de enfrentamento mobilizadas por territórios, sociedade civil e poder público diante do fenômeno.
As estratégias foram divididas em cinco categorias:
(1) respostas emergenciais;
(2) iniciativas de monitoramento independente e manejo integrado do fogo;
(3) ações para restauração e segurança alimentar;
(4) estratégias para incidência política;
(5) planos e comitês para resiliência climática.
São exemplos de ações citadas: a distribuição de cestas básicas e água potável, muitas vezes com protagonismo feminino na articulação logística; a atuação de brigadas indígenas e comunitárias na vigilância territorial e no combate aos incêndios, promovendo o cuidado coletivo e a proteção de áreas sagradas e produtivas; e a implementação de bancos de sementes, viveiros de mudas nativas e transição para sistemas agroecológicos mais resilientes às instabilidades climáticas.
Ações para resiliência climática
A publicação ainda apresenta recomendações destinadas ao poder público para garantia das condições de permanência nos territórios, fortalecimento das capacidades institucionais e proteção de direitos territoriais. Em comum, todas partem da compreensão de que o enfrentamento climático requer respostas robustas e integradas, fundamentadas em governança multissetorial, no fortalecimento de capacidades institucionais e na promoção de justiça climática.
A pesquisa inova ao incorporar uma abordagem de gênero à análise dos impactos climáticos, iluminando efeitos diferenciados sobre as mulheres, seu protagonismo nas respostas climáticas e recomendações que conectam clima e cuidado. O estudo também parte do reconhecimento de impactos e demandas narrados por povos indígenas e comunidades tradicionais, e propõe caminhos em diálogo com agendas e reivindicações de organizações de base e entidades representativas.
A iniciativa é resultado de pesquisa conduzida no âmbito do Programa de Desenvolvimento Local do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), e foi realizada entre maio de 2024 e agosto de 2025.
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Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é uma medida criada pela ONU que avalia a qualidade de vida e o desenvolvimento de uma população. Varia de 0 a 1, quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido é o local. Está dividido nas seguintes faixas: Baixo (< 0,550), Médio (0,550-0,699), Alto (0,700-0,799) e Muito Alto (≥ 0,800). O cálculo econométrico é baseado em três pilares fundamentais: Saúde, medida pela expectativa de vida ao nascer; Educação, avaliada pelos anos de estudo e Renda, como função do padrão de vida da população, estruturado sobre a renda per capita.
O objetivo da criação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. Os dados foram divulgados, em maio passado, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em parceria com o IBGE.
De acordo com relatório da ONU, o índice é calculado anualmente. Desde 2010, a série histórica é recalculada devido ao movimento de entrada e saída de países e às adaptações metodológicas, o que possibilita uma análise de tendências. Aos poucos, o IDH tornou-se referência mundial em substituição ao PIB por tratar-se de um índice-chave dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas (ODS). No Brasil, deveria estar sendo utilizado pelo governo federal e por administrações regionais através do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) com maior profundidade. O IDH-M do Amazonas, 0,767, é considerado alto, porém puxado pelo IDH-M de Manaus (0,737). O índice, contudo, mascara uma desigualdade regional profunda.
Além da capital, Itacoatiara (57,14), Tefé (56,72), Presidente Figueiredo (56,24) e Parintins (55,90) figuram entre os municípios com melhor desempenho. Na outra ponta do ranking estão Itamarati (46,37), Juruá (44,93), Maraã (43,97) e Pauini (43,96), municípios que enfrentam desafios mais acentuados relacionados à insuficiência de serviços públicos, infraestrutura e conectividade, realidade próxima de países africanos em condição extrema de miséria.
O quadro se repete em relação ao coeficiente de Gini, indicador que mede a desigualdade na distribuição de renda, variando de 0 (igualdade máxima) a 1 (desigualdade máxima). No Brasil, o índice é de 0,511. No Amazonas, a desigualdade é de 0,474, inferior à média nacional. Os dados mostram ainda que o Estado apresenta o menor desempenho médio entre os estados da Amazônia Legal no Índice Geral dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (iODS).
Com média de 51,5 pontos, o Amazonas, por outro lado, encontra-se posicionado abaixo da média dos 772 municípios analisados na Amazônia Legal, com índices de 55,5 pontos. O resultado evidencia contundentes desafios enfrentados pelo Estado e a ZFM no cumprimento das metas da Agenda ODS 2030, da ONU, especialmente em setores relacionados a serviços públicos e infraestrutura.
Fortes inconsistências consolidadas, não obstante êxitos pontuais do modelo ZFM, que concentra mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) de todo o Estado (R$187 bilhões), porém inferior ao faturamento do Polo Industrial de Manaus (PIM), que bateu recorde histórico e fechou o ano de 2025 com um faturamento de R$ 227,67 bilhões, 11,02% superior ao de 2024.
Para o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique Pereira, “o resultado reflete a forte concentração demográfica e econômica em Manaus e as dificuldades enfrentadas pelos municípios do interior”. Segundo ele, “a capital reúne a maior parte da população, da atividade econômica, da arrecadação pública e da geração do Produto Interno Bruto (PIB) do estado, enquanto grande parte dos municípios amazonenses enfrenta limitações históricas relacionadas à infraestrutura, conectividade, educação, saúde, saneamento e oportunidades econômicas”.
Por conseguinte, diversificação, integração setorial e perenização o dramático desafio que se coloca como resultado de investimentos em inovação tecnológica na construção de nova matriz econômica que deverá promover a integração da economia do Amazonas e da Zona Franca de Manaus (ZFM) por meio da construção de nova matriz econômica, autóctone, compreendendo o Polo Industrial de Manaus (PIM); o Agropecuário, de Biotecnologia e de uma Plataforma de Exportações. Não mais é possível ficar dando tempo ao tempo à espera de 2073.
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Parceria entre o Sebrae Amazonas e IABS fortalece cadeias da sociobiodiversidade e negócios de base comunitária. Foto: Reprodução/Sebrae-AM
Da castanha-do-brasil coletada por famílias extrativistas ao pirarucu manejado por comunidades ribeirinhas, a sociobiodiversidade amazônica movimenta economias locais, gera renda e ajuda a manter a floresta em pé. Para fortalecer essas cadeias produtivas e ampliar as oportunidades para quem vive nos territórios, o Sebrae Amazonas e o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS) iniciaram a execução do plano de trabalho do Acordo de Cooperação Técnica firmado entre as instituições, com ações previstas para os municípios do estado.
O plano foi formalizado após a assinatura do acordo, realizada em 14 de maio, e prevê uma série de iniciativas voltadas ao empreendedorismo de base comunitária, à qualificação de produtores, à regularização de empreendimentos e à inovação em negócios ligados à sociobiodiversidade amazônica.
Entre as cadeias prioritárias estão a Castanha-do-Brasil e o Pirarucu de Manejo, atividades que representam importantes fontes de renda para centenas de famílias em comunidades rurais, ribeirinhas e indígenas no Amazonas.
As ações serão desenvolvidas em territórios do Amazonas onde o IABS já atua por meio do Projeto Rural Sustentável Amazônia (PRS-Amazônia), iniciativa que apoia organizações socioprodutivas formadas por agricultores familiares, extrativistas, povos indígenas e comunidades tradicionais. A proposta é fortalecer a capacidade de gestão desses empreendimentos, ampliar o acesso a mercados, estimular processos de inovação e criar condições para que os produtos da floresta alcancem maior valor agregado.
Ao todo, o plano prevê dez ações estratégicas voltadas ao fortalecimento dessas cadeias produtivas. Entre elas estão a mobilização de recursos e a contratação de consultoria especializada para estruturar o pedido de registro da Indicação Geográfica (IG) da Castanha de Tefé, iniciativa que poderá ampliar o reconhecimento e a valorização do produto nos mercados nacional e internacional.
Também estão previstas capacitações em operação de drones para monitoramento territorial e apoio ao manejo do pirarucu, mutirões de regularização para agricultores familiares e pescadores artesanais, cursos de aproveitamento econômico dos ouriços da castanha-do-brasil, participação de empreendedores comunitários em eventos de promoção comercial, seminários sobre agricultura de baixa emissão de carbono e ações de comunicação voltadas à valorização dos resultados da parceria.
Manejo dos peixes pirarucu no Amazonas. Foto: Adriano Gambarini/OPAN
a realização de cinco cursos básicos de operador de drone, beneficiando cerca de 80 manejadores de pirarucu;
cinco mutirões de regularização para atender aproximadamente 200 agricultores familiares e pescadores artesanais por meio do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) e do Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP);
além da capacitação de 50 comunitários que atuam na cadeia da castanha-do-brasil.
O plano também prevê a participação de representantes das organizações socioprodutivas em eventos de promoção das cadeias produtivas apoiadas pelo PRS-Amazônia, fortalecendo sua inserção em mercados e redes de relacionamento.
Desenvolvimento com floresta em pé
A iniciativa representa um avanço na construção de soluções que unem desenvolvimento econômico, inclusão produtiva e conservação ambiental. Como explica o gestor de Políticas Públicas do Sebrae-AM, José Antônio Cardoso Fonseca.
“As cadeias da castanha-do-brasil e do pirarucu manejado demonstram que é possível gerar renda e desenvolvimento a partir da floresta em pé. O Sebrae entra nessa parceria para apoiar a estruturação dos negócios comunitários, ampliar oportunidades de mercado e fortalecer o empreendedorismo de base comunitária, valorizando quem produz, conserva e movimenta a economia dos territórios amazônicos”, explica Fonseca.
Além dos impactos econômicos, a parceria busca enfrentar desafios históricos enfrentados por organizações comunitárias da sociobiodiversidade, como acesso à assistência técnica, regularização produtiva, qualificação profissional e inovação. A expectativa é fortalecer a governança local, ampliar a competitividade dos empreendimentos e criar condições para que mais famílias de comunidades no Amazonas permaneçam em seus territórios com geração de renda e qualidade de vida.
Segundo Vinícius Lopes, diretor regional Amazônia do IABS e coordenador da equipe de campo da instituição no estado, o fortalecimento das cadeias produtivas está diretamente ligado à valorização das pessoas que vivem da floresta.
“Quando falamos em fortalecer a sociobiodiversidade, estamos falando de criar condições para que as comunidades possam permanecer em seus territórios com dignidade. As ações previstas vão desde a regularização de produtores até inovação tecnológica e valorização dos produtos da floresta. É um conjunto de iniciativas que fortalece as organizações locais e gera impacto direto na renda das famílias, na proteção dos recursos naturais e no desenvolvimento sustentável da Amazônia”, afirma Lopes.
Missão em Tefé e Maraã
Parte desse trabalho pode ser observada durante a missão institucional iniciada no fim de maio, nos municípios de Tefé e Maraã, no Amazonas. A visita reuniu representantes do Governo do Reino Unido, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), do IABS, do Sebrae Amazonas e de outras instituições parceiras para conhecer de perto experiências apoiadas pelo PRS-Amazônia nas cadeias da castanha-do-brasil e do pirarucu manejado.
A programação incluia encontros com famílias beneficiárias, visitas a áreas de manejo sustentável, entrega de benefícios coletivos e intercâmbio de experiências com organizações socioprodutivas locais.
Os visitantes conheceram iniciativas que já apresentam resultados concretos para as comunidades. Entre elas estão o viveiro comunitário com capacidade para produzir até 10 mil mudas de castanheira por ano, contribuindo para o enriquecimento florestal e o aumento da produtividade dos castanhais, além de uma embarcação destinada ao escoamento da produção de pirarucu manejado, reduzindo custos logísticos e ampliando a renda das famílias envolvidas.
Dom João de Souza Lima, Arcebispo de Manaus. Irmã Celestina Manço, superiora, e Comendador José Cruz, presidente da Beneficente – 1984. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Porém, já cinco sóis eram passados, Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca de outrem navegados, Prosperamente os ventos assoprados. – Luiz Vaz de Camões
Os homens que lograram êxito em suas histórias tiveram como principais atributos a coragem e o espírito empreendedor. Foram sobretudo seres que acreditam nos seus sonhos e projetos – e movidos pelo entusiasmo e pelos ideais, legaram a sociedade uma história de feitos e conquistas.
A maior herança desse espíritos esclarecidos e altivos é o exemplo que deixaram para os seus descendentes e a comunidade, especialmente para os jovens que transformar sonhos em realidade não é impossível. A história exemplar do comendador José Cruz é ilustrativa da capacidade d superação e realização do ser humano.
Faz parte da linhagem de conquistadores lusos: de homens que se lançaram ao mar em busca de suas miragens e conquistas. Que foram fortes para vencer o desconhecido, superar os próprios limites e construir uma história vitoriosa e edificante. Nascido em Nagosa, Distrito de Viseu, em Portugal, a 28 de junho de 1911, o Comendador José Cruz fez o percurso de tantos portugueses que deixaram a terra natal em busca de oportunidade: motivado pelo desejo de conquista e esperança de encontrar no Brasil acolhimentos, estabeleceu-se em Manaus, onde fincou suas raízes e iniciou sua trajetória empresarial.
Por força de liderança e carisma, tornou-se um dos empreendedores mais respeitados do Amazonas, gozando de reconhecimento e admiração, fato que o credenciou junto aos seus pares, sendo eleito vice-presidente da Associação Comercial do Amazonas, presidente do Conselho da Comunidade Portuguesa e Luso-Brasileira. Homem preocupado com os valores transcendentais, dedicou atenção à leitura e ao conhecimento, particularmente aos estudos maçônicos, conquistando a posição de venerável mestre da Augusta e Benemérita Loja Simbólica Aurora Lusitana.
Comendador José Cruz. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Como empreendedor soube vencer os desafios e construir não só um patrimônio, mas uma reputação que lhe rendeu homenagem e admiração. Fruto 1979, com o título de Cidadão do Amazonas, conferido pleo Governo do Estado. Em 1982, foi condecorado com o grau de comendador da Ordem do Mérito desenvolvimento regional, o que motivou a Federação das Industrias do Estado do Amazonas a lhe conferir o Diploma de Mérito Industrial.
O Comendador José Cruz tornou-se um homem de duas pátrias: intrigou-se a vida do País que o acolheu, sem perder os vínculos com o passado, com as suas origens e com a terra que o recebeu. Por ter honrado as tradições portuguesas e por ter mantido vivo o vínculo com a alma lusitana, foi condecorado pelo Governo Português com o grau de comendador da Ordem de Benemerência, sendo reconhecido como grão-mestre das Ordens Portuguesas.
Foi um homem que, além de talento para a vida empresarial, soube cultivar a vida familiar. Afortunado pela sorte, casou-se em 1951, com Alice Carvalho Cruz, sua companheira de todas as horas, seu porto e refúgio nos momentos de provação. Desse encontro feliz nasceram: José, Luiz Vitor e Maria Luíza. Tinha profunda consciência da importância da família como fator de sustentação nos embates da existência. Talvez por isso sua filha tenha afirmado: O comendador Cruz não nasceu em berço esplêndido, mas nasceu em um esplendoroso de amor e carinho no seio de uma família que tinha consciência do significado da palavra família.
Um capítulo especial de sua vida está associado às ações de caráter humanitário. Em meio as suas atividades empresariais, dedicou-se voluntariamente a gestão do Hospital da Beneficente Portuguesa do Amazonas, sendo um de seus presidentes. Sua administração foi marcada por muitas realizações e correspondeu a um período de expansão, em que o hospital foi modernizado para atender com qualidade a seus associados.
O Comendador José Cruz cumpriu com esmero sua missão. Contribuiu com seu trabalho e suas iniciativas no campo empresarial para tornar a vida melhor, gerando emprego e renda para a sociedade, dando a sua contrapartida para o desenvolvimento do Amazonas.
Por tudo o que fez, afirmou sua reputação com o um homem generoso e cidadão, o que corrobora o depoimento de sua filha: “… foi feliz, porque conseguiu realizar em vida tudo o que esteve ao seu alcance e, a meu ver, da melhor forma possível”. Para expressar o sentido de sua existência não é demais relembrarmos os versos de Fernando Pessoa: Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”. O Comendador José Cruz soube ser digno dos desafios que lhe foram reservados pelo destino.
Fonte
BAZE, Abrahim. Luso Sporting Club – A Sociedade Portuguesa no Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2007.
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.