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Potencial de terras raras pode colocar Amapá no radar internacional da mineração

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O Amapá possui atualmente 65 processos minerários ativos relacionados a elementos de terras raras, todos associados a outros minerais, como o ouro. Na foto, o município de Calçoene. Foto: Divulgação/Prefeitura de Calçoene

O Amapá possui atualmente 65 processos minerários ativos relacionados a elementos de terras raras, todos associados a outros minerais, como o ouro. A procura por esses elementos ganhou força a partir de 2022, quando foram registrados 53 protocolos de pesquisa na Agência Nacional de Mineração (ANM).

Os municípios de Calçoene e Oiapoque concentram o maior número de protocolos de pesquisa minerária registrados no período, a maioria deles vinculada também à exploração de ouro. Essa tendência, segundo especialistas, indica que o foco das empresas está voltado principalmente para o ouro, enquanto as terras raras podem aparecer como resultado adicional das pesquisas.

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Estudos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) apontam potencialidades de elementos de terras raras em regiões como Ferreira Gomes e Oiapoque. No entanto, ainda são necessários vultosos investimentos em pesquisa geológica para confirmar esse potencial. A possibilidade de encontrar concentrações que permitam produzir um concentrado comercialmente viável permanece incerta.

Segundo o professor Franciolli Araújo, do Instituto Federal do Amapá (Ifap) e doutor em Ciências Exatas e Tecnológicas pela Universidade Federal de Catalão, o cenário ainda é desafiador:

“Podemos ter elementos de terras raras em qualquer lugar do estado, mas em concentrações que permitam produzir um concentrado comercialmente viável, isso ainda é uma incógnita. Na minha avaliação, as empresas têm pesquisado ouro, e as terras raras poderiam ser um ‘bônus’ caso identifiquem em suas pesquisas”, explicou.

As chamadas “terras raras” são, na verdade, um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza, geralmente misturados a outros minerais, o que torna sua extração complexa e, muitas vezes, cara- daí a classificação de “raras”. O Brasil detém a segunda maior reservas desses minerais, atrás apenas da China.

Leia também: Terras raras: Amapá mapeia minerais estratégicos e atrai atenção de gigantes globais

Investimentos e desafios

De acordo com o pesquisador, os investimentos podem ser feitos inicialmente pelo estado, como forma de atrair investidores, ou diretamente pelas empresas, caso existam fortes indícios da existência de depósitos. A determinação do tamanho dos depósitos e a viabilidade técnica de exploração, porém, ainda demandam muitos estudos e recursos.

Pesquisa

A Universidade Federal de Catalão, por meio do Centro de Pesquisa em Processamento Mineral (CPMin), e o Grupo de Pesquisa em Materiais, Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade (Matis) do Ifap, além de outras instituições, elaboraram propostas em chamadas do CNPq para coletar amostras em regiões potenciais de terras raras, inclusive no Amapá. O objetivo é caracterizar e concentrar esses minerais, etapa fundamental para confirmar a viabilidade de exploração.

Potencial de terras raras pode colocar Amapá no radar internacional da mineração
Garimpo ilegal em Lourenço, Calçoene. Foto: Rafael Aleixo

Terras raras no Brasil

O Senado aprovou em 2 de setembro, o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A proposta estabelece medidas para estimular a exploração e o processamento de minérios considerados estratégicos para o Brasil, incluindo a criação de um fundo garantidor e a concessão de crédito tributário de até R$ 5 bilhões.

O texto autoriza a União a participar como cotista desse fundo, com limite de R$ 2 bilhões. Apesar da participação estatal, o fundo terá natureza privada, funcionando como mecanismo de apoio a projetos e atração de investimentos para o setor mineral. A proposta agora segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

*Por Josi Paixão, da Rede Amazônica AP

Decretos criam quatro reservas de desenvolvimento sustentável no Amazonas

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A solenidade que anunciou os decretos de criação das reservas marcou o Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Decretos assinados no dia 8 de setembro, no Palácio do Planalto, criam quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no Amazonas e ampliam o Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, somando cerca de 676 mil hectares. A solenidade marcou o Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, e incluiu ainda a assinatura de contratos de concessão florestal, de termo de fomento para a sociobioeconomia e aportes financeiros do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

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Os decretos assinados na cerimônia criam quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) na região de influência da BR-319, no sul do Amazonas, com cerca de 669 mil hectares. As reservas protegem a biodiversidade e os modos de vida agroextrativistas das populações locais, em categoria de unidade de conservação que admite o uso sustentável dos recursos pelos moradores.

As quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável criadas na área da BR-319 são:

  • RDS Tupana Igapó-Açu I (Borba, AM), 114.076 hectares
  • RDS Tupana Igapó-Açu II (Beruri e Tapauá, AM), 422.100 hectares
  • RDS Canaã (Careiro e Autazes, AM), 109.607 hectares
  • RDS Mirari (Humaitá, AM), 22.775 hectares, com foco na proteção de ambientes florestais e aquáticos

No Piauí, outro decreto amplia em 7.192 hectares o Parque Nacional de Sete Cidades, em Brasileira e Piracuruca, que passa a ter 13.502 hectares. A ampliação protege ecótonos e espécies ameaçadas e favorece o turismo no parque.

  • Parque Nacional de Sete Cidades (Brasileira e Piracuruca, PI), ampliação de 7.192 hectares, área total de 13.502 hectares

Concessão florestal

Também foram assinados, pelo Serviço Florestal Brasileiro, os contratos de concessão das Unidades de Manejo Florestal II e III da Floresta Nacional (Flona) de Humaitá, no Amazonas, com prazo de 40 anos. Os contratos abrangem 162,7 mil hectares e concluem a concessão das três unidades da Flona de Humaitá, que totalizam 200,9 mil hectares sob manejo sustentável. 

Decretos criam quatro reservas de desenvolvimento sustentável no Amazonas
Flona de Humaitá. Foto: Reprodução/Casa Civil-PR

Os dois novos contratos preveem R$ 240 milhões em investimentos ao longo da vigência, produção legal de 2,54 milhões de metros cúbicos de madeira em 30 anos, geração de 339 empregos diretos e 678 indiretos, além de recursos para projetos socioambientais nas comunidades do entorno. 

Com os novos contratos, o Brasil passa a contar com 29 contratos federais de concessão florestal, totalizando 1,75 milhão de hectares sob manejo sustentável.

Financiamento

Na mesma ocasião, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou aportes para o bioma. O Fundo Amazônia destinará R$ 50,5 milhões em recursos não reembolsáveis ao projeto Naturezas Quilombolas, para apoio à gestão territorial e ambiental de comunidades quilombolas na Amazônia Legal, com previsão de elaboração e implementação de planos de gestão em mais de 16 territórios. O projeto, com prazo de 60 meses, será executado pela Fundação Guamá.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o Fundo Amazônia?

O Fundo Amazônia é gerido pelo BNDES, sob coordenação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O projeto Naturezas Quilombolas conta com apoio do Ministério da Igualdade Racial (MIR) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).

Também administrado pelo MMA e BNDES, o Fundo Clima financiará R$ 180 milhões em restauração ecológica de mais de 10 mil hectares na APA Triunfo do Xingu, no Pará. 

Além disso, o BNDES divulgou o resultado do edital da iniciativa Floresta Viva, com R$ 5,3 milhões para projetos de restauração na Bacia do Rio Xingu II, no Pará e Mato Grosso. 

Sociobioeconomia

A cerimônia marcou também o início da ativação dos seis primeiros Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia (NDS), com a assinatura dos contratos de cooperação financeira entre a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), implementadora do projeto, e as seis redes territoriais selecionadas em edital. Os núcleos são arranjos de governança que reúnem organizações locais, negócios comunitários e instituições públicas, e constituem o principal instrumento do Prospera Sociobio, programa instituído pelo MMA em novembro de 2025 para fomentar negócios da sociobioeconomia no âmbito do Plano Nacional de Desenvolvimento da Sociobioeconomia (PNDBio).

O aporte é de R$ 70,2 milhões, R$ 11,7 milhões por núcleo, com recursos do governo alemão no âmbito da cooperação entre Brasil e Alemanha, geridos pelo banco alemão de desenvolvimento KfW, e prazo de implementação de 48 meses. Os núcleos ficam em Altamira, Portel e Salgado-Bragantino (PA), Juruá-Tefé (AM), Macapá (AP) e Rio Branco e Brasiléia (AC), sob coordenação, respectivamente, da Associação dos Moradores da Reserva Extrativista do Iriri (Amoreri), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), do Instituto Peabiru, do Instituto Juruá, do Instituto Mapinguari e da SOS Amazônia.

Participaram da cerimônia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o vice-presidente Geraldo Alckmin; o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco; além das ministras do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli; da Igualdade Racial, Rachel Barros; e dos ministros do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa; da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes; dos Transportes, George Santoro; e dos Povos Indígenas, Eloy Terena. 

Também estiveram presentes a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, os presidentes do Serviço Florestal Brasileiro, Garo Batmanian, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Mauro Pires; do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Jair Schmitt; o governador do Piauí, Rafael Fonteles, o vice-governador do Amazonas, Serafim Fernandes Corrêa, e o diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e Enviado Especial da COP30 para a Sociedade Civil, André Guimarães.

*Com informações do MMA

Mapeamento participativo revela como natureza sustenta modos de vida em comunidade pesqueira no Pará

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Pescador em Jubim, Marajó (PA). A pesquisa define Jubim como maretório: a comunidade tem sua organização social e econômica influenciada pelo encontro entre rio, mar, igarapés, florestas e manguezais. Foto: Lara Sartorio/Acervo pessoal

O encontro entre rio, terra e mar torna o arquipélago do Marajó, no Pará, um ambiente com biodiversidade única. De 2022 a 2025, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em coautoria com moradores da vila pesqueira de Jubim, mapearam a relação da comunidade com a natureza em um contexto de expansão regional de grandes empreendimentos como portos, ferrovias e prospecção de petróleo.

Os resultados, publicados na revista People and Nature no dia 10 de setembro, mostram que o vínculo com o território passa não somente pelo uso material da natureza. A vida comunitária se estrutura a partir de atividades como coleta de frutas como o açaí, pesca artesanal e produção da farinha de mandioca, e essas práticas contribuem para a formação da identidade local, fortalecendo simultaneamente subsistência, cultura, trabalho e espiritualidade dos moradores.

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A primeira etapa da coleta de dados ocorreu a partir de dois workshops com moradores de diferentes idades e papeis sociais. Inicialmente, os participantes identificaram áreas prioritárias de interação entre as comunidades e a natureza — como zonas de caça, pesca, agricultura e pontos de conflitos socioambientais.

Em um segundo encontro, 32 integrantes da comunidade identificaram valores culturais e simbólicos com o uso de recursos como fotografias e com o redesenho dos mapas convencionais para representar lugares significativos. As informações foram complementadas com sete entrevistas com moradores considerados especialistas no conhecimento sobre fauna e flora locais, além de quatro excursões da equipe de pesquisadores ao território para documentar as interações relatadas.

Os moradores identificaram 73 espécies locais — 51 de plantas e 22 de animais — associadas a práticas como alimentação, medicina, construção e carpintaria, artesanato e biojoias, itens para pesca e cosméticos. Lara Sartorio, pesquisadora da Unifesp e autora líder do estudo, explica que o levantamento revela a amplitude da sociobiodiversidade conhecida pelos moradores.

“Nesse sentido, as 73 espécies são expressivas na medida em que registram a forma com que a comunidade existe em relação com a natureza”, aponta. O trabalho também resultou no georreferenciamento de 65 locais de pesca, coleta, circulação e usos culturais e simbólicos.

Foto: Reprodução/Acervo dos pesquisadores

Leia também: Ilha do Marajó, o maior arquipélago de mar e rios do mundo

Um ‘maretório’ paraense

A pesquisa compreende Jubim como um maretório, conceito baseado na união dos termos “mar” e “território”. A localidade de pouco mais de dois mil habitantes tem sua organização social e econômica influenciada pelo encontro entre rio, mar, igarapés, florestas, manguezais e comunidades humanas. Para Sartorio, o conceito de maretório vai além de uma categoria acadêmica e pode funcionar como uma ferramenta de reconhecimento e reivindicação territorial.

“Isso pode ter uma dimensão política muito concreta. Quando uma praia, um igarapé ou uma área de pesca é compreendida apenas como uma parcela isolada de terra ou como um espaço disponível para apropriação privada ou para um grande empreendimento, uma parte importante das relações sociais e ecológicas que sustentam a vida comunitária desaparece da análise”, analisa a pesquisadora.

“Nossa comunidade não é só um espaço onde as pessoas moram; é um ecossistema vivo. Jubim vive da natureza: da pesca, da catação de mariscos, do extrativismo, das frutas, da agricultura, da produção de farinha, do artesanato. Existe uma ligação muito profunda entre a natureza e a gente, um verdadeiro ‘maretório’, onde a vida em terra e a vida nas águas se misturam o tempo todo”, descreve Jezimara da Silva Vinhas, moradora de Jubim, graduanda em Ciências Biológicas pela UFPA e coautora do artigo. “Viver aqui é entender, no dia a dia, que a natureza não é algo separado da gente: nós somos parte dela”, complementa.

Após o levantamento de dados, os pesquisadores realizaram um workshop de validação com a comunidade. Sartorio ressalta que essa etapa faz parte do processo metodológico, indo além da entrega dos resultados de uma pesquisa finalizada. “Os mapas funcionaram como objetos de conversa, memória e correção. Os moradores identificaram lugares, acrescentaram informações, corrigiram localizações e recuperaram histórias e usos associados a diferentes pontos do território”, frisa a pesquisadora.

Foto: Reprodução/Acervo dos pesquisadores

Vinhas, que que atuou no comitê de mobilização do projeto e participou do mapeamento, relata o incômodo diante de experiências com a chamada ‘pesquisa extrativa’, que retira o conhecimento da comunidade sem beneficiá-la. Para ela, a ciência tem papel ativo no fortalecimento da autonomia na proteção do território. “Defendo as metodologias participativas e me arrisco a dizer que esse é o melhor jeito de fazer ciência dentro das comunidades tradicionais”, observa.

A pesquisa revela que mapeamentos participativos podem aprofundar o conhecimento sobre as relações entre comunidades e natureza, incorporando saberes locais à gestão dos territórios. “Nesse sentido, a experiência de Jubim também está alimentando novas pesquisas sobre territorialidades aquáticas e mudanças climáticas em outros territórios costeiros. O objetivo é ampliar o diálogo entre diferentes comunidades e, sobretudo, compreender como seus próprios conhecimentos e categorias podem contribuir para pensar alternativas de governança diante das transformações climáticas e das pressões sobre os territórios”, finaliza Sartorio.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Com apoio da prefeitura, colheita de milho inicia na zona rural de Boa Vista

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Neste ano, foram plantados 324 hectares de milho na agricultura familiar, dentro da janela ideal de cultivo. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

Uma das etapas mais importantes da produção agrícola de Boa Vista começou nessa terça-feira, 8, com o início da colheita do milho na zona rural. O período marca o resultado do trabalho desenvolvido pelos agricultores familiares ao longo dos últimos meses, com o apoio da Prefeitura de Boa Vista. Neste ano, foram plantados 324 hectares de milho na agricultura familiar, dentro da janela ideal de cultivo.

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A colheita seguirá até o fim de outubro, fortalecendo a produção no campo, contribuindo para a geração de renda das famílias rurais e garantindo o abastecimento de alimentos no município. Ao todo, a cultura do milho ocupa 426 hectares entre a zona rural e as comunidades indígenas de Boa Vista.

Menos custos, mais produtividade

Com assistência técnica especializada e a disponibilização de máquinas agrícolas, os agricultores conseguem reduzir os custos operacionais e aumentar a produtividade das lavouras. Moradora da região do Novo Passarão há 17 anos, a agricultora Mirlene Pereira afirma que o apoio da Prefeitura de Boa Vista é fundamental para garantir a colheita da produção.

Máquinas da prefeitura atuam na colheita em Boa Vista. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

“Sem as colheitadeiras da prefeitura, a gente não conseguiria colher, de forma manual, essa quantidade de milho plantada. Todo o maquinário disponibilizado faz muita diferença na vida do agricultor familiar, tanto na colheita quanto no preparo do solo. Recebemos apoio em todas as etapas do plantio. É gratificante chegar a esse momento e ver o resultado de tanto trabalho”, ressaltou.

Leia também: Prefeitura inicia campanha para manter praias limpas durante estiagem em Boa Vista

Estiagem impacta safra

Apesar de o plantio ocorrido no período recomendado, a forte estiagem registrada em julho afetou o desenvolvimento de parte das lavouras. As chuvas desse período são essenciais para o enchimento dos grãos e a ausência de precipitações comprometeu a produtividade em algumas áreas.

Os impactos estão relacionados aos efeitos do El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que influencia o regime de chuvas na região Norte. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a previsão para o segundo semestre de 2026 indica a permanência e a intensificação do período seco.

Mirlene Pereira afirma que o apoio da Prefeitura de Boa Vista é fundamental para garantir a colheita da produção. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

O boletim climático do INPE aponta que a região Norte deve registrar chuvas abaixo da média e temperaturas acima da média histórica, cenário que intensifica a deficiência hídrica, aumenta a necessidade de irrigação e eleva o risco de incêndios. Em Boa Vista, a estiagem deve provocar uma redução de cerca de 50% na produção de milho em parte das áreas cultivadas na zona rural.

Na região do Novo Passarão, a propriedade do agricultor Aberlon Sales foi uma das primeiras contempladas com o plantio por meio da Secretaria Municipal de Agricultura e Assuntos Indígenas (Smaai).

“A gente conta com o apoio da prefeitura há alguns anos. Esse incentivo é muito importante, porque sem esse suporte não conseguiríamos fazer um plantio e uma colheita nessa proporção. Plantamos oito hectares de milho este ano, mas a falta de chuva acabou prejudicando um pouco a produção. Mesmo assim, nossa safra ainda é satisfatória”, afirmou.

Com apoio da prefeitura, colheita de milho inicia na zona rural de Boa Vista
2.165 produtores são atendidos pelo PMDA. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

PMDA fortalece a agricultura

A Prefeitura de Boa Vista segue investindo no fortalecimento da agricultura familiar por meio do Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA), que oferece preparo de solo, assistência técnica, mecanização agrícola e apoio durante todo o ciclo produtivo.

Atualmente, mais de 4,5 mil famílias vivem na zona rural do município, e 2.165 produtores são atendidos pelo programa. Desde a implantação do PMDA, já foram preparados 5.591,2 hectares de áreas para cultivo, ampliando a produção agrícola, gerando emprego e renda e fortalecendo a segurança alimentar em Boa Vista.

Seca e assoreamento isolam comunidades do Bailique, no Amapá

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A seca e o assoreamento na foz do Rio Amazonas, no canal do Bailique, em Macapá, isolam mais de 10 comunidades e dificultam o transporte de barcos. Foto: Reprodução

A seca na foz do Rio Amazonas, no canal do Bailique, em Macapá (AP), afeta mais de 10 comunidades com o isolamento provocado pela estiagem severa. O problema dificulta a locomoção de barcos, a chegada de medicamentos, o acesso a serviços de saúde e a ida de alunos às escolas.

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O morador da Vila Equador, Jacinto Carvalho Sarges, descreve o impacto do acúmulo de lama e areia no leito do rio, que impede a navegação na região. “Da margem do Bailique hoje está dessa forma aqui, olha: tudo praia, seco. Não tem como navegar”, relata o morador.

Segundo Jacinto, pequenos barcos ficam atolados à espera da subida da maré para conseguir trafegar pelo canal. “Olha aqui rabetas esperando por uma solução. Que a água pelo menos cresça quatro dedos em cima dessa terra para poder passar, porque a gente mora muito longe”, afirma.

Leia também: Focos de calor no Amapá sobem 400% no início da estiagem, aponta meteorologista

Reclamação sobre obra de dragagem

O morador explica que o processo de acúmulo de sedimentos se acelerou na porção norte do arquipélago. Ele lembra que uma obra de escavação foi realizada no ano passado, mas a solução durou pouco tempo.

“Isso aqui se tornou um deserto, terra seca. Foi feito no ano passado um trabalho de escavação que até ficou legal, mas, seis meses depois que a máquina foi embora, hoje voltou tudo novamente”, protesta Jacinto.

Impactos na educação e na saúde

A paralisação do transporte escolar é apontada por Jacinto como um dos problemas mais graves causados pela seca. Na Vila Filadélfia, onde funciona a única escola de ensino médio daquela região, os estudantes não conseguem chegar às aulas por causa do baixo nível do rio.

“Se puder voltar essa máquina para refazer o trabalho de escavação, a gente fica muito grato. Estamos passando por muita dificuldade na educação”, apela.

Além do prejuízo às aulas, a seca prejudica o atendimento médico. A entrega de medicamentos foi interrompida e pessoas que tentam caminhar pela lama para alcançar os barcos de linha sofrem com acidentes provocados por arraias. “Estamos muito preocupados e solicitamos às autoridades o retorno da máquina para nos ajudar”, concluiu o morador.

O acúmulo de terra no leito do rio se estende desde a comunidade de Livramento até a região de Açaituba São Pedro, bloqueando a passagem de embarcações em todo o trecho.

Seca e assoreamento isolam comunidades do Bailique, no Amapá
Moradores do Bailique pedem ajuda no período de seca. Foto: Reprodução

O que diz o governo?

Em nota, a Secretaria de Estado de Transportes do Amapá (Setrap) informou que analisa os dados para medir a extensão do problema e definir quais medidas serão adotadas. Um técnico do órgão foi enviado ao local para vistoriar a área e apresentar um parecer sobre a situação.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Fumaça de queimadas voltam encobrir céu de Manaus e qualidade do ar chega a nível ‘muito ruim’

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Fumaça é registrada nesta quarta-feira em Manaus. Foto: Jackeline Lima/Rede Amazônica AM

A qualidade do ar voltou a piorar em Manaus (AM) na manhã desta quarta-feira (9), pelo segundo dia consecutivo. Imagens feitas por drone mostram a cidade encoberta pela fumaça.

Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), mostram que a concentração de partículas chegou a 67,9 µg/m³ no sensor instalado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), índice considerado ruim.

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Durante a madrugada, os índices foram ainda mais elevados em alguns pontos da capital. Por volta das 5h48, sensores chegaram a registrar até 118 µg/m³. A qualidade do ar é considerada boa quando a concentração de partículas fica entre 0 e 25 µg/m³.

Apesar da fumaça registrada na capital, Manaus está entre as cidades com menor número de focos de incêndio no Amazonas, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Leia também: Saiba como monitorar a qualidade do ar na Amazônia em plataformas online

Pesquisador aponta queimadas na região; Prefeitura cita fumaça de outros estados

A origem da fumaça é atribuída a diferentes áreas pelas fontes consultadas pelo Grupo Rede Amazônica. De acordo com o pesquisador Rodrigo Augusto Ferreira de Souza, da UEA, a fumaça registrada na capital está fortemente relacionada às queimadas na Região Metropolitana de Manaus.

Já a Prefeitura de Manaus afirma que a fumaça também é proveniente de áreas de queimadas ao sul do Amazonas, no norte de Mato Grosso e em Rondônia. Segundo a administração municipal, o material particulado está sendo transportado para a capital pela circulação dos ventos em baixos níveis da atmosfera.

A Prefeitura relaciona a mudança na circulação dos ventos ao avanço de uma frente fria pelo centro-sul do país. O fenômeno teria alterado temporariamente o padrão dos ventos e favorecido o transporte da fumaça em direção a Manaus.

A fumaça já havia sido observada em Manaus na manhã de terça-feira (8), quando a qualidade do ar foi classificada como moderada. Moradores também relataram cheiro de fumaça em diferentes bairros da capital.

Queimadas fazem Manaus amanhecer encoberta de fumaça pelo 2º dia seguido. Foto: Sérgio de Andrade

Níveis de poluição do ar na Região Metropolitana de Manaus

Na quarta-feira (9), na Zona Oeste de Manaus, o sensor do Tarumã registrou 30,1 µg/m³, índice classificado como moderado. Já na região central da cidade, a concentração chegou a 53,9 µg/m³. Municípios da Região Metropolitana também apresentaram piora na qualidade do ar nesta quarta-feira.

Em Iranduba, a qualidade do ar era considerada muito ruim. Por volta das 7h40, o sensor do município registrava 83 µg/m³. A situação ocorre após o incêndio registrado no lixão da cidade.

No mesmo horário, Autazes registrava 78,4 µg/m³. Em Manacapuru, o índice chegou a 46,1 µg/m³, enquanto Manaquiri registrou 39,9 µg/m³. Todos os municípios apresentaram concentrações acima do nível considerado bom.

Nas redes sociais, moradores reclamaram da fumaça. “Já não basta o calor descomunal e ainda tem algum desgraçado que achou de bom tom fazer queimada”, disse um usuário na rede social X.

O que fazer quando há fumaça

Com a piora da qualidade do ar, a orientação da Defesa Civil é reduzir a exposição prolongada à fumaça e evitar atividades físicas intensas ao ar livre nos períodos de maior concentração de partículas.

A recomendação também é manter-se hidratado e acompanhar as atualizações sobre a qualidade do ar e as condições meteorológicas.

A Defesa Civil informou que continua monitorando a situação ao longo desta quarta-feira e que novas informações devem ser divulgadas caso haja mudança significativa no cenário.

Em situações de risco, a população pode acionar a Defesa Civil pelo telefone 199.

Leia também: Qualidade do ar: veja quais são os cuidados essenciais em períodos de fumaça causada por queimadas

Foto: Sérgio de Andrade

*Por Jadson Lima, da Rede Amazônica AM

Criação da Comissão da Verdade Indígena será tema de audiência na Câmara

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Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Demanda de mais de uma década dos povos originários, a criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV) será pauta no Congresso Nacional, por iniciativa da ex-ministra e deputada federal Sônia Guajajara (PSOL-SP). A parlamentar organizou uma audiência pública para 17 de novembro na Câmara dos Deputados, com o objetivo de avançar na proposta.

A audiência foi aprovada por meio do Requerimento nº 86/2026 na Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais. O documento destaca a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) como uma das entidades que vêm reiterando a necessidade de se captar, com a formação da CNIV, mais elementos que comprovem ações de despotismo durante a ditadura militar.

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Ao criar a CNIV, o objetivo é responsabilizar o Estado pelas violências que cometeu, que assumiram a forma de escravização, estupros, envenenamentos, torturas, remoções dos indígenas de seus territórios, entre outras. Houve ainda pessoas desaparecidas e presas ilegalmente e com bens culturais destruídos. 

Devem comparecer à audiência, além de lideranças indígenas, representantes do poder público, do sistema de Justiça, da sociedade civil e pesquisadores. Eles devem apresentar contribuições, ampliando a documentação feita pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), que é reconhecida pelo movimento indígena mas insuficiente, por conter descrições dos impactos na vida de dez povos apenas. 

As populações dos Tapayuna, Parakanã, Araweté, Arara, Panará, Waimiri-atroari, Cinta-larga, Xetá, Yanomami e Xavante equivaliam, somadas, a 3,3% dos povos identificados na época. O levantamento permitiu que se chegasse a uma estimativa de 8.350 indígenas assassinados entre 1964 e 1985. A contagem oficial do Brasil relaciona 305 povos, número que aumenta com os classificados como em isolamento e é provavelmente inferior à quantidade real.

Leia também: Com 391 etnias e 295 línguas indígenas, saiba quais possuem maior abrangência na Amazônia Legal

sonia guajajara fala sobre novo programa de proteção de terras indígenas na cop30 foto Bruno Peres Agência Brasil
Sônia Guajajara. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

“Os povos indígenas foram um dos grupos sociais mais violados em seus direitos”

Um dos não indígenas mais incansáveis nessa luta, o jornalista Marcelo Zelic, que morreu em maio de 2023 em decorrência de um AVC, era integrante do Grupo de Trabalho (GT) Indígena da CNV e questionou o relatório concluído em 2014. A primeira versão tinha somente 35 páginas, quase o total de unidades federativas do Brasil. Era como se em uma página pudessem ser resumidos todos os crimes ocorridos em 21 anos de ditadura, caso dedicassem uma página por estado. 

 Após protestos do GT e a manifestação de descontentamento de Zelic com a qualidade do relatório, na 29ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), o material foi substituído.

Ao questionar as autoridades sobre as versões do documento, Marcelo Zelic apresentou o texto “Comissão Nacional da Verdade e Povos Indígenas: a um passo da omissão” para expressar sua indignação com a síntese, que considerou curta demais. Ele afirma que o Estado facilitou a prática das violências e que isso fica evidente quando se descobre que muitas eram perpetradas por funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), ativo de 1910 a 1967, e que foi sucedido pela Fundação Nacional do Índio (Funai). 

“Os povos indígenas foram um dos grupos sociais mais violados em seus direitos no período de apuração da CNV (1946-1988), crimes bárbaros foram praticados em todas as décadas em questão, por ação, conivência, corrupção e omissão do Estado brasileiro”, diz no texto. Ele citou o Relatório Figueiredo e fundou e coordenou o projeto Armazém Memória.

No texto, Zelic sugere que a comissão deveria contar com uma coordenação-geral e uma equipe técnica para auxiliar nos trabalhos e por um colegiado de comissionados, composto por órgãos do Estado, representações dos povos indígenas e entidades da sociedade civil de caráter indigenista e de direitos humanos, responsáveis pela estruturação da Rede de Comissões da Verdade Indígena (Rede CVI). Assim, casos concluídos pela Rede CVI seriam enviados ao colegiado para a abertura de processos. 

Uma condição para sustentar esse fluxo seria estimular os povos originários a criarem comissões para si e em universidades que possam colaborar com levantamentos. Outra finalidade diz respeito à mensuração de impactos territoriais, sociais, culturais e espirituais na vida das comunidades.

“Não podemos construir uma democracia verdadeira sem reconhecer as violências cometidas contra os povos indígenas. Precisamos garantir o direito à memória e à verdade, identificar responsabilidades e construir políticas de reparação integral para que essas violações nunca mais se repitam”, afirma Sônia Guajajara.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Letycia Treitero Kawada

Paulo Artaxo explica que “a Amazônia está perdendo carbono mesmo sem desmatamento”

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Há quatro décadas, quando as mudanças climáticas ainda estavam longe do centro do debate público, Paulo Artaxo começava a investigar uma relação que marcaria sua trajetória científica: a conexão entre a Amazônia e a atmosfera. Formado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Física Nuclear e doutor em Física Atmosférica, participou em 1985 de um dos primeiros experimentos com apoio da NASA na região, quando pouco se sabia sobre como as partículas emitidas pela floresta e pelos incêndios interferem no clima.

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Presidente do Conselho Deliberativo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e professor titular do Instituto de Física da USP, Artaxo é referência nos estudos sobre as interações entre a floresta, a atmosfera e o clima. É membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e integrou a equipe do painel reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz de 2007.

A contribuição científica construída ao longo de décadas ajudou a ampliar a compreensão sobre o papel da Amazônia no sistema climático. Suas pesquisas revelam que a floresta não somente responde aos efeitos das mudanças no clima, como também participa de sua regulação, por meio de processos que conectam vegetação, atmosfera, formação de nuvens e chuva.

“A floresta amazônica, através da emissão de partículas que vão para a atmosfera, faz a própria chuva. Porque ela emite o vapor d’água que vai formar nuvens, condensando em partículas que ela mesma emite. Por isso, a biologia da floresta trabalha produzindo a precipitação sobre ela. Isso mostra um equilíbrio, uma harmonia entre o clima e o funcionamento biológico dos ecossistemas”, disse o cientista.

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Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace

Os efeitos dessa relação já podem ser observados na floresta. Desde que começou a estudar a Amazônia, Artaxo acompanha mudanças nas condições que sustentam o ecossistemas, como temperatura, precipitação e radiação disponível para a fotossíntese.

“As mudanças que as partículas de aerossóis fazem nas nuvens mudam a precipitação. E isso faz com que o ecossistema todo, que depende de radiação, chuva e água, tenha se modificado profundamente ao longo dos últimos 40 ou 50 anos”, afirmou Artaxo.

O cenário tende a se agravar com o aumento da temperatura. Mantida a trajetória atual das emissões de gases poluentes para a atmosfera, Artaxo estima atualmente um aquecimento médio global de cerca de 2,8ºC. Nos continentes, porém, a elevação pode ser ainda maior.

“O aquecimento médio que nós vamos observar no Brasil e na Amazônia é alguma coisa da ordem de 4 graus Celsius”, destacou Artaxo.

Na Amazônia, esse aumento pode alterar desde o funcionamento da vegetação até a quantidade e a diversidade de peixes nos rios, com impactos sobre a alimentação e os modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Floresta em pé, mas degradada

O desmatamento é só uma das pressões sobre o bioma. Artaxo chama atenção à degradação das áreas que seguem de pé, entretanto perdem carbono e a capacidade de manter suas funções ecológicas. Entre as causas estão a alta da temperatura, a redução da regência das chuvas, o fogo, a abertura de estradas e a fragmentação da floresta. O calor também afeta diretamente a fotossíntese.

“As plantas estão fixando menos carbono e aumentando o processo de respiração, que emite CO₂ à atmosfera. Portanto, o que a gente observa é que a floresta está perdendo carbono mesmo sem desmatamento”, alertou.

Leia também: Portal Amazônia responde: como funciona o CO₂ na atmosfera?

Os incêndios acrescentam outro impacto: a piora da qualidade do ar. Durante a estação de incêndios, poluentes como material particulado, monóxido de carbono e ozônio atingem níveis elevados na região.

“Durante três ou quatro meses todos os anos, o ar da floresta amazônica, por causa da poluição, tem uma qualidade pior do que a recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). E os níveis de poluentes têm valores mais altos do que a gente observa na poluída cidade de São Paulo”, exemplificou o físico.

Entre ciência e decisão

Ao longo da carreira, Artaxo passou a ocupar espaços voltados à aproximação entre produção científica e tomada de decisão. Além da participação no IPCC, coordena o CEAS (Centro de Estudos Amazônia Sustentável) da USP, iniciativa que reúne pesquisadores de diferentes áreas para produzir conhecimento e propor caminhos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Para Artaxo, o conhecimento científico sobre as causas e consequências da crise climática avançou mais rápido do que as respostas para enfrentá-la.

“As decisões políticas são tomadas com base em interesses econômicos, não com base em interesses ambientais ou climáticos”, afirmou.

Entre as medidas consideradas urgentes pelo cientista estão reduzir o uso de combustíveis fósseis, avançar na transição energética, acabar com o desmatamento, recuperar áreas degradadas e investir em adaptação.

“A ciência aponta claramente que é fundamental que a gente acabe, o mais rápido possível, com a exploração ilimitada de combustíveis fósseis e implemente políticas de economia sustentável. Isso é fundamental para a Amazônia e, na verdade, para o futuro climático do planeta”.

Mas até onde a Amazônia resiste?

Uma das grandes perguntas ainda em aberto na ciência é justamente qual será a capacidade da Amazônia de resistir às mudanças previstas para as próximas décadas. Entre as preocupações está o tipping point, ou ponto de não retorno, em que o ecossistema pode sofrer transformações profundas.

“A ciência ainda não tem todas as respostas. Será que a floresta amazônica vai atingir um tipping point em 2050? E, a partir daí, nós vamos observar uma rápida transição para outro ecossistema, diferente de uma floresta tropical? A ciência está trabalhando duro para tentar responder essas questões”, reforçou.

Para Artaxo, a incerteza reforça a necessidade de agir antes que esses limites sejam alcançados.

“Quanto mais cedo acabarmos com a exploração e o uso de combustíveis fósseis, diminuindo o aquecimento global, e quanto mais cedo acabarmos com o processo predatório em todos os nossos ecossistemas, melhor vai ser a chance de sobrevivência de um ecossistema delicado e importante como o ecossistema amazônico”, concluiu.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Mayara Subtil

MPF pede multa à União por demora no envio de forças policiais para conter invasão em terra indígena no Pará

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Fogo na TI Ituna-Itatá, no dia 3 de setembro. Foto: Divulgação/Funai

O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça Federal em Altamira (PA), na última sexta-feira (4), a aplicação de multa diária de R$ 50 mil à União pela demora e omissão em enviar forças de segurança para conter uma invasão na Terra Indígena (TI) Ituna-Itatá. O território, reservado à proteção de povos indígenas isolados, foi ocupado por mais de 500 pessoas nas últimas semanas. O avanço ilegal é acompanhado por uma disparada de queimadas, desmatamento e ameaças a servidores da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

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No pedido, o MPF reitera a ameaça à sobrevivência física e cultural dos indígenas isolados e adverte que a inércia do governo federal também coloca em risco um esforço de anos financiado com recursos públicos. Em ações recentes, a União investiu grande volume de recursos materiais, humanos e orçamentários em operações complexas para retirar invasores e milhares de cabeças de gado criadas ilegalmente dentro da área protegida. Deixar o território desprotegido agora significa desperdiçar todo o dinheiro público já investido e permitir que posseiros e grileiros retomem a área.

Forças federais disponíveis 

Em 26 de agosto, a Justiça Federal havia dado prazo de 48 horas para a União agir, mas a determinação não foi cumprida. Como justificativa para não mobilizar a Força Nacional de Segurança Pública, a União alegou que dependeria de autorização expressa do governo do estado do Pará.

Para o MPF, o argumento não justifica a omissão. O órgão destaca que o dever da União de cumprir a ordem judicial e garantir a segurança do território vai muito além da Força Nacional.

O governo federal tem sob seu comando forças policiais que não dependem de autorização estadual para agir em terras da União, como a Polícia Federal (PF) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF), corporações que já atuaram com sucesso em operações anteriores na mesma área, mas que ainda não foram mobilizadas de forma suficiente e permanente para frear a invasão atual.

Explosão de queimadas e devastação 

A urgência do pedido também se baseia no rápido e severo impacto ambiental constatado na região. Dados da plataforma Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), registraram um aumento extraordinário de focos de queimada e calor no interior da terra indígena.

Focos de incêndio propositais chegaram a ser iniciados nas proximidades da base de fiscalização logo após diligências das equipes em campo, em evidente represália e tentativa de intimidação.

Foto: Marcelo Seabra/Acervo Agência Pará

O MPF comunicou à Justiça Federal a existência de pelo menos três pontos de fogo distintos nas proximidades da base de proteção da Funai, com risco à vida e à integridade física dos servidores federais, em decorrência da omissão de atuação das forças policiais.

Além do fogo, sobrevoos da Funai e da Polícia Federal flagraram o uso de maquinário pesado e motosserras na abertura e limpeza de mais de 30 quilômetros de ramais na floresta, além da criação de novas vias clandestinas para acelerar a divisão e a demarcação de lotes ilegais.

Leia também: MPF divulga que condenações somam R$ 893 milhões em três anos de atuação ambiental na Amazônia

Servidores acuados 

Enquanto a invasão se espalha, a Base de Proteção Etnoambiental da Funai conta com apenas cinco servidores no local, que estão desprotegidos diante de centenas de invasores.

O MPF anexou ao processo um áudio que circula entre os ocupantes, no qual um homem convoca entre cem e duzentos invasores para cercar a equipe da Funai, queimar viaturas e expulsar os servidores a pé. Em fiscalizações recentes, fiscais flagraram até mesmo um veículo de carga pertencente ao patrimônio do governo do estado sendo utilizado na infraestrutura da invasão.

Entenda o caso 

A crise se agravou após o governo do Pará sancionar a Lei Estadual nº 11.665/2026, criando a Área de Proteção Ambiental (APA) Bacajaí que sobrepõe 100% da Terra Indígena Ituna-Itatá, diminuindo a proteção dos povos da área. A norma estadual serviu como incentivo para a corrida de invasores rumo à área de povos isolados.

A Justiça Federal já declarou a lei estadual inconstitucional para o caso concreto, reforçando que o estado não pode dispor sobre terras federais nem rebaixar o nível de proteção territorial indígena.

O MPF comunicou ao Judiciário que não participará de qualquer forma de conciliação, tendo em vista que a sobrevivência dos povos isolados trata de direitos indisponíveis (que não podem ser negociados) e que a obrigação de proteger a área é incompatível com a ocupação e a exploração pretendidas.

*Com informações do MPF

Insetos de dia, anfíbios à noite: a rotina de uma expedição científica no alto da Amazônia

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Expedição dos especialistas entra na segunda semana: oportunidade única de descobrir e coletar. Foto: André Dib/Agência FAPESP

Sentada diretamente sobre o chão de uma das poucas áreas de floresta no topo de um platô da Serra do Aracá (AM), a entomologista Gabriela Procópio Camacho maneja um canivete para abrir pequenas frestas em um tronco de árvore caído. No interior da madeira em decomposição, uma colônia de cupins agita-se sob a luz que transpassa a copa das árvores.

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Concentrada, a pesquisadora posiciona a ponta de uma mangueira de borracha – semelhante às tiras elásticas usadas em estilingues – em um dos buracos que conseguiu abrir no toco de madeira. Ao sugar pela outra ponta do tubo, os insetos são aspirados pela tripa de borracha e ficam retidos em uma pequena antecâmara plástica, vedada com uma fina rede interna para evitar que Camacho os engula – embora esse tipo de acidente ocorra com relativa frequência. Ela busca obstinadamente as rainhas da colônia de cupins, cujos abdomens agigantados revelam seu papel reprodutivo na colônia.

Os cupins não são o foco de pesquisa da cientista, que é especialista em outro tipo de inseto social: as formigas. Ainda assim, ela não hesita em passar horas agachada na terra, sujeitando-se às mordidas das próprias formigas e às picadas das impertinentes moscas-mutucas – onipresentes na Serra do Aracá –, para capturar todo tipo de inseto que encontra pela frente.

“Essa é uma oportunidade única de coletar. Por isso, quero poder amostrar a maior parte dos insetos que eu conseguir para aproveitar ao máximo a expedição”, disse a pesquisadora, enquanto colocava os espécimes de cupim que coletou em frascos de vidro com álcool.

O material, mesmo que não seja analisado por ela, será destinado ao acervo biológico do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), do qual é pesquisadora, para que outros especialistas possam estudá-lo.

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Insetos de dia, anfíbios à noite: a rotina de uma expedição científica no alto da Amazônia
Gabriela Procópio Camacho, cientista do Museu de Zoologia da USP. Foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP

Essa abnegação e obsessão desmedida em colaborar e não desperdiçar o tempo são a tônica da expedição à Serra do Aracá. Considerada o maior esforço de prospecção de biodiversidade já realizado no topo dessas montanhas isoladas do extremo norte do Amazonas, a jornada científica é encarada pelos 16 cientistas participantes como uma oportunidade única de coletar o maior número possível de espécimes de fauna e flora, além de amostras de água, solo e sangue de espécies de animais que, muito provavelmente, só existem aqui.

O objetivo é conhecer melhor a biodiversidade desses ecossistemas de altitude, que tipicamente abrigam um conjunto de espécies completamente diferente daquelas que habitam as partes mais baixas da planície amazônica. A expedição é financiada pela FAPESP e realizada com o apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas operações logísticas e de segurança.

A equipe é composta por cientistas de diversas instituições, incluindo a USP, os institutos Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Federal do Amazonas (Ifam), as universidades Federal de São Carlos (UFSCar), de Toulouse (na França) e Autônoma de Madri (na Espanha), além do Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos) e do Museu de História Natural de Oslo (Noruega) – todos com formação no Brasil e larga experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Entre eles estão especialistas em répteis e anfíbios, mamíferos, aves, insetos, plantas e parasitas.

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Foto: Reprodução/Agência Fapesp

Trabalho prévio

A pressa e a ansiedade dos pesquisadores da expedição em iniciar as coletas já eram perceptíveis no embarque da equipe em São Paulo, com destino a Manaus e, depois, a Barcelos, às margens do rio Negro, onde está localizada a base operacional do Exército Brasileiro que dá apoio à expedição.

Quanto mais rápido chegarmos, melhor. Tempo é dinheiro e não podemos desperdiçar uma oportunidade valiosa de coletar a maior quantidade possível de espécies”, disse Luis Fábio Silveira, ornitólogo e diretor do MZ-USP, na ocasião do embarque, em São Paulo.

O campo-base da expedição fica a 1.260 metros de altitude, no topo de um tepui, como são chamadas as montanhas de topo plano que dominam a paisagem dessa região norte da Amazônia, 220 quilômetros ao norte de Barcelos.

Para esse grupo de cientistas, entretanto, a prospecção em campo não começou quando os pés deles tocaram o platô de arenito, no dia 24 de agosto, mas sim muito antes da decolagem do helicóptero do Exército que os trouxe ao Aracá. No caso das botânicas Vania Nobuko Yoshikawa, pesquisadora do Inpa, e Jenifer de Carvalho Lopes, pesquisadora do Jardim Botânico do Missouri, o planejamento prévio e minucioso começou muito antes da decolagem.

“Nosso trabalho de campo começa no laboratório. Antes de vir para cá, lemos vários artigos e consultamos listas de espécies para saber o que podíamos encontrar. Não chegamos aqui totalmente às cegas”, conta Yoshikawa.

O planejamento incluiu o estudo de listas históricas de espécies da floresta amazônica, publicadas por botânicos brasileiros e estrangeiros, além do mapeamento de dados em repositórios digitais como o speciesLink – uma rede digital brasileira criada em 2002, que integra e compartilha dados científicos sobre a biodiversidade de plantas, animais, fungos e microrganismos.

O trabalho de coleta das botânicas é realizado durante o dia. Às 6 horas, tomam café com o restante do grupo e, por volta das 7h, saem para incursões nas matas ao redor do acampamento. Ao contrário dos pesquisadores da zoologia, cujas buscas por animais dependem da colocação de armadilhas em pontos específicos da paisagem que eles revisitam diariamente, elas têm no platô da Serra do Aracá um amplo campo para exploração, orientada pela análise visual dos diferentes padrões e fisionomias de vegetação.

Nesse contexto de varredura ativa pelo platô, Lopes destaca que a tomada de decisão em campo é estritamente ditada pelo estado das plantas. “Para nossas coletas de material, precisamos que os espécimes estejam com flor ou com fruto, porque precisamos dessas estruturas reprodutivas para poder identificá-los no nível de gênero e de espécie”, explica a pesquisadora.

Vania Nobuko Yoshikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e Jenifer de Carvalho Lopes, do Jardim Botânico do Missouri. Foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP

Depois da expedição, de volta ao acampamento na hora do almoço, elas passam a tarde prensando as plantas em folhas de jornal e organizando duplicatas de ramos (de três a cinco por indivíduo). As amostras são guardadas em sacos plásticos com álcool para evitar fungos. Porém, como esse processo dificulta a extração de DNA celular, elas realizam uma delicada tarefa paralela: extraem pedaços de folhas saudáveis e os colocam em pequenos saquinhos de chá com sílica gel para desidratação rápida e preservação do material genético até o laboratório, quando retornarem.

Com a vegetação bastante florida, as botânicas coletaram, durante os cinco primeiros dias da expedição, mais de 100 espécimes e identificaram populações expressivas de canela-de-ema – nome popular dado às plantas do gênero Vellozia – e orquídeas terrestres do gênero Catasetum.

“Essas plantas vão ser tombadas no Inpa e depois serão disseminadas para outros herbários no Brasil e em outros países com os quais mantemos colaboração científica, como os do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do Instituto de Biociências [IB] da USP e do Jardim Botânico do Missouri”, explica Yoshikawa.

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No ritmo dos bichos

As coletas no platô expõem um contraste profundo na rotina de trabalho dos diferentes grupos de especialistas que integram a expedição. Enquanto as plantas aguardam estáticas a busca visual das botânicas, que trabalham em “horário comercial” – do início da manhã ao fim da tarde –, a zoologia segue os complexos ciclos biológicos e turnos de atividade dos animais, que se “escondem” pelo campo.

Os ornitólogos (especialistas em pássaros), por exemplo, despertam na escuridão total, por volta das 4h da manhã. O objetivo é capturar aves que estão ativas no final da noite e nas primeiras horas do dia – como corujas, bacuraus e guácharos – e registrar o chamado “coro da aurora”. “É o momento em que a passarinhada está acordando com fome e, por isso, está mais ativa e é mais fácil avistá-los”, explica Silveira, acompanhado de Igor Alvarenga, pesquisador associado do MZ-USP.

Carregando binóculos, gravadores de som e espingardas, eles abrem, ao amanhecer, dezenas de redes de malha extremamente fina (chamadas “redes de neblina”). As redes funcionam como armadilhas passivas até o fim da manhã, quando são retiradas as aves que ficaram presas, para evitar que se machuquem. Os ornitólogos recolhem todos os espécimes capturados e os levam para o acampamento, onde realizam a pesagem, a medição, a retirada de tecidos e a preparação taxonômica – um processo altamente metódico e rigoroso de processamento, posicionamento e conservação física das espécies biológicas coletadas em campo.

“Essa preparação taxonômica exige atenção absoluta e não tem margem para falhas. Não há espaço para erros ou brincadeiras, porque uma amostra de tecido com o número trocado significa que ela foi perdida”, contou Silveira.

A primeira semana de expedição lhes rendeu gratas surpresas, como a presença expressiva de beija-flores, devido à abundância de flores no platô nessa época do ano. O maior destaque foi o beija-flor Colibri delphinae, do qual Silveira e Alvarenga já coletaram três indivíduos – uma ave que não havia sido registrada nas expedições anteriores à Serra do Imeri e ao Pico da Neblina. Em contrapartida, as matas de encosta no topo da montanha frustraram as expectativas dos pesquisadores durante a expedição pela surpreendente escassez de aves.

“Estávamos esperando encontrar uma floresta bem mais povoada de passarinhos e, na verdade, ela é bem vazia”, relatou Alvarenga. Embora o avistamento de um casal de araras-vermelhas na primeira incursão dos pesquisadores tenha gerado entusiasmo inicial, os dias seguintes confirmaram uma densidade de aves inesperadamente baixa, restando a dúvida se esse silêncio foi consequência de dias ruins de coleta ou se é um padrão.

Prêmio para a mastozoologia: captura de um pequeno mamífero foi celebrada de forma descontraída como o marco de que a expedição oficialmente havia “saído do zero” nessa área. Foto: André Dib/Agência FAPESP

Mais sorte tiveram os mastozoólogos Alexandre Percequillo, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), e Ana Paula Carmignotto, professora da UFSCar, especialistas em pequenos mamíferos. Ao iniciar a metódica revisão matinal das armadilhas que deixaram em campo na noite anterior, os pesquisadores constataram, no segundo dia de expedição, a captura de um roedor.

Ao examinar o bicho ainda na gaiola, eles perceberam que podia se tratar de um resultado extremamente promissor: um exemplar que parece pertencer ao gênero Zygodontomys, um roedor típico de áreas abertas e de campinarana (tipo de vegetação nativa da região amazônica que cresce sobre solos arenosos e pobres em nutrientes), mas que também ocorre na altitude da Serra do Aracá. “Não tínhamos pegado esse animal nem nas expedições ao Pico da Neblina nem na Serra do Imeri”, contou Percequillo.

Ao levar o animal para o laboratório de campo, a surpresa do líder da expedição foi imediata. “Eu nunca tinha pegado esse bicho”, celebrou o biólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do IB-USP. Ele ficou impressionado com a aparência física do roedor e com o fato de ele já ter sido classificado como um Akodontini (uma tribo de pequenos roedores) e hoje pertencer à tribo Oryzomyini. A captura foi celebrada de forma descontraída como o marco em que a expedição oficialmente “saiu do zero” no grupo dos pequenos mamíferos.

Animais crepusculares

Já os anfíbios, que não toleram altas temperaturas, utilizam a umidade e as temperaturas amenas da noite para cantar e disputar território nos riachos. Por isso, logo após o jantar, por volta das 18h, as equipes da herpetologia (especialistas em répteis e anfíbios) entram na mata escura munidas de lanternas, sem hora para voltar.

Embora a maioria dos anuros (sapos, rãs e pererecas) seja noturna, há algumas espécies que têm o pico de atividade bem nessa fase de transição entre o dia e a noite, chamada de lusco-fusco. Esse comportamento crepuscular funciona como um ajuste ecológico direto. “É um nicho que eles ocupam, simplesmente”, explicou o herpetólogo Taran Grant, professor do IB-USP e especialista em anuros.

Quando a escuridão começa a cair sobre o platô, os cientistas já ficam a postos para acompanhar de perto a transição entre as espécies diurnas e as noturnas. É nesse momento que a floresta testemunha uma verdadeira “troca de turno” acústica. Como muitos sapos cantam escondidos no solo ou no alto das árvores, descobrir o que está produzindo cada som é um verdadeiro desafio, dificultado pelo fato de os animais serem extremamente sensíveis e silenciarem ao menor sinal de aproximação.

“Vocês perceberam que, quando a gente chegou perto, ele percebeu a luz e parou de cantar?”, perguntou Taran para mim e o cinegrafista da Agência FAPESP, Phelipe Janning, durante uma incursão noturna. “A gente tem de apagar as luzes, esperar para ele ficar mais tranquilo e começar a cantar de novo”, aconselhou.

O herpetólogo Taran Grant (IB-USP), especialista em anuros: em busca do registro preciso de “cantos” e de quem exatamente está “cantando”. Foto: André Dib/Agência FAPESP

Para o cientista, o desafio não é apenas capturar o áudio, mas flagrar o “cantor” em ação para garantir a confiabilidade da pesquisa. “É importante registrar exatamente qual é o indivíduo que está cantando, por vários motivos. Primeiro, porque temos de nos certificar de que um determinado canto é realmente dessa espécie. Por isso, eu gravo o áudio e observo o indivíduo cantando, com o saco vocal inflado”, explicou o pesquisador. Esse exemplar físico capturado e associado diretamente à gravação em áudio é denominado “voucher”.

Esse rigor metodológico é vital, porque o canto varia individualmente de acordo com a temperatura ambiente e o tamanho do corpo – com indivíduos menores emitindo frequências mais agudas do que os maiores da mesma espécie.

Ao término dessa primeira fase de exploração exaustiva, o balanço de coletas do grupo de herpetologia consolidou resultados altamente expressivos. Foram registradas de oito a nove espécies de anfíbios e de quatro a cinco espécies de lagartos. O grande destaque do período foi a captura de um pequeno lagarto adaptado ao arenito das áreas abertas do platô, apontado pelos pesquisadores como uma provável espécie nova para a ciência. Diante do isolamento milenar da região, a expectativa de descrever novas formas de vida permanece alta.

Vista aérea da região onde está ocorrendo a expedição. Foto: André Dib/Agência FAPESP

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Elton Alisson