O Centro Universitário Martha Falcão Wyden segue com matrículas abertas e condições especiais para quem deseja iniciar a graduação ainda este ano. A instituição está oferecendo bolsas exclusivas de até 50% durante todo o curso, com inscrições válidas até o dia 13 de abril.
As oportunidades contemplam cursos que estão em alta no mercado de trabalho em Manaus, como Odontologia, Direito, Psicologia e Enfermagem — áreas que apresentam grande demanda por profissionais qualificados e oferecem excelentes perspectivas de crescimento profissional.
Matrículas abertas no Centro Universitário Martha Falcão Wyde. Foto: Divulgação
Além das condições facilitadas de ingresso, a instituição também promove iniciativas voltadas à empregabilidade. Entre elas, destaca-se a Feira de Empregabilidade, que será realizada no campus do Martha Falcão, reunindo empresas, especialistas e oportunidades de networking para os alunos e futuros acadêmicos, fortalecendo a conexão entre formação acadêmica e mercado de trabalho.
A iniciativa reforça o compromisso da instituição com o acesso ao ensino superior de qualidade, ampliando as possibilidades para estudantes que buscam formação sólida e inserção competitiva no mercado. Mais informações sobre cursos, ingresso via Enem e critérios para concessão de bolsas podem ser obtidas pelo telefone (92) 98104-8265.
Segundo a reitora Carla Sena, as condições especiais e ações como a feira fazem parte de uma estratégia para aproximar os estudantes das oportunidades profissionais desde o início da graduação.
“Nosso objetivo é oferecer não apenas acesso ao ensino superior de qualidade, mas também criar pontes reais com o mercado de trabalho. A Feira de Empregabilidade é uma dessas iniciativas que potencializam a trajetória dos nossos alunos, conectando-os com empresas e ampliando suas perspectivas de carreira”, destaca.
Unha de gato, um tipo de planta medicinal. Foto: Acervo Farmafittos.
O uso de plantas medicinais, comum no dia a dia de muitas famílias amazônidas, está no centro de um projeto desenvolvido pela Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A iniciativa vai resultar na elaboração de uma cartilha com orientações sobre o uso seguro de plantas medicinais.
“A proposta é fortalecer o diálogo entre ciência e tradição, ampliando o acesso à informação e incentivando práticas seguras no uso de plantas medicinais da região amazônica”, ressalta a diretora geral da Afya de Itacoatiara, Soraia Tatikawa.
O projeto “Etnobotânico de Plantas Medicinais da região de Itacoatiara” é coordenado pela professora da Afya de Itacoatiara, Francenilda Gualberto, e envolve estudantes do curso de Medicina e pesquisadores na coleta, identificação e análise das espécies utilizadas pelas comunidades locais. O objetivo é catalogar essas plantas e descrever suas propriedades químicas e biológicas a partir do conhecimento tradicional aliado à evidência científica.
Projeto irá catalogar essas plantas e descrever suas propriedades químicas e biológicas a partir do conhecimento tradicional aliado à evidência científica. Foto: Divulgação
A iniciativa prevê a elaboração de uma cartilha com informações sobre as principais plantas medicinais identificadas durante a pesquisa, incluindo orientações sobre preparo, indicações e uso seguro. O material será produzido a partir do processo de catalogação das espécies realizado em parceria com a Ufam e deverá ser disponibilizado à comunidade, como forma de devolver o conhecimento sistematizado e valorizar os saberes tradicionais. “O projeto parte da escuta das comunidades e do conhecimento tradicional para, a partir disso, realizar a identificação das espécies e a análise de suas propriedades com base na literatura científica”, explica a professora.
A cartilha deve ser concluída até o mês de junho, período necessário para a identificação das espécies medicinais e o depósito do material em herbário. Após a finalização, o conteúdo será disponibilizado de forma online, por meio de grupos de WhatsApp de moradores de bairros e comunidades locais, além das redes sociais institucionais.
Segundo a coordenadora do projeto, as plantas podem oferecer benefícios importantes devido à presença de compostos bioativos com ação antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana. “Algumas espécies também apresentam efeito calmante, auxiliam na digestão e contribuem para a hidratação do organismo”, destaca. No entanto, é importante diferenciar o consumo cotidiano do uso medicinal. “Enquanto o uso no dia a dia está associado ao hábito cultural, o uso medicinal possui finalidade terapêutica e exige cuidados específicos quanto à dose, preparo e tempo de uso”, explica Francenilda Gualberto.
Projeto prevê a elaboração de uma cartilha com principais informações das plantas medicinais. Foto: Divulgação
Uso responsável das plantas medicinais
Ela reforça que, apesar de naturais, as plantas devem ser utilizadas com cautela. “O uso medicinal das plantas precisa ser feito com responsabilidade. Elas contêm substâncias que podem ter efeitos no organismo, especialmente quando consumidas em excesso ou sem orientação adequada”, afirma.
Entre os riscos do consumo inadequado estão irritações gástricas, sobrecarga hepática e reações alérgicas. Gestantes e pessoas com doenças crônicas, como problemas renais, hepáticos ou cardiovasculares, devem ter atenção redobrada, já que algumas espécies podem agravar quadros clínicos ou interferir em tratamentos.
Ela considera que a integração entre o conhecimento tradicional e a medicina baseada em evidências tem ganhado espaço. “Hoje, existe um reconhecimento crescente da importância de integrar o saber popular com a validação científica, garantindo segurança e eficácia no uso das plantas medicinais”, ressalta a professora da Afya.
Na região amazônica, diversas espécies utilizadas tradicionalmente já apresentam respaldo científico quanto aos seus efeitos. Entre elas está o anador (Justicia pectoralis), com ação analgésica e anti-inflamatória; o boldo chinês (Plectranthus barbatus), conhecido por auxiliar na digestão; e o capim-santo (Cymbopogon citratus), que possui efeito calmante e propriedades antioxidantes.
Diversas espécies de plantas medicinais já são utilizadas tradicionalmente e apresentam respaldo científico quanto aos seus efeitos. Foto: Divulgação
Outras plantas bastante utilizadas são a hortelã grande (Plectranthus amboinicus) e o hortelãzinho (Mentha spp.), com ação anti-inflamatória e digestiva; a mangarataia (Zingiber officinale), com efeito anti-inflamatório e expectorante; e a pitanga (Eugenia uniflora), que apresenta potencial antioxidante e antimicrobiano.
Também fazem parte desse conjunto espécies como pobre-velho (Costus spicatus), utilizado em distúrbios urinários, e saratudo (Justicia acuminatissima), associado a processos inflamatórios e cicatrização.
A Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara atua na formação de profissionais de saúde, preparando médicos capacitados para atuar na prevenção, diagnóstico e cuidado de condições que impactam a qualidade de vida da população. O projeto também contribui para o desenvolvimento dos estudantes de Medicina, que participam diretamente das atividades de pesquisa e extensão, adquirindo competências voltadas à atenção integral e à valorização dos conhecimentos locais.
A pesquisa foi realizada no Câmpus de Chapadinha e teve como produto a criação do aplicativo AlcoLab. Foto: UFMA
Um aplicativo gratuito desenvolvido na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Câmpus Chapadinha, permite detectar a presença de metanol em bebidas alcoólicas com materiais simples e de baixo custo. O AlcoLab, criado pelo professor da UFMA Pedro Augusto de Oliveira e pelo bolsista de pós-doutorado em Biomedicina Romério Rodrigues, em parceria com a Polícia Civil do Distrito Federal, é capaz de identificar a presença de metanol utilizando apenas materiais simples: uma seringa, uma balança de cozinha e um smartphone.
Partindo de uma colaboração entre os pesquisadores, o estudo buscou também investigar a toxicidade dessa substância, após o Brasil enfrentar surtos de intoxicação por metanol no segundo semestre de 2025. Segundo os dados oficiais do Ministério da Saúde, em dezembro de 2025, foram registrados 73 casos e 22 óbitos em todo o país, incluindo estados como São Paulo, Pernambuco, Paraná, Mato Grosso e Bahia.
O AlcoLab é uma ferramenta gratuita e open-source que estima contaminação por metanol em bebidas e soluções. Foto: UFMA
De acordo com o professor e coordenador do projeto, Pedro Augusto de Oliveira Morais, o aplicativo AlcoLab foi criado nesse contexto. “A ideia surgiu no final de 2025, a partir de uma conversa entre pesquisadores. Durante essa discussão, questionei um perito da Polícia Civil do Distrito Federal, Diego Souza, sobre como esse tipo de análise é realizado na prática e quais são as limitações enfrentadas fora do ambiente laboratorial. A partir desse diálogo, passamos a explorar alternativas mais simples e acessíveis para a identificação da substância em bebidas”, explica o pesquisador.
O metanol é um álcool altamente tóxico, muitas vezes, utilizado de forma clandestina para adulterar cachaça, vodca, uísque, gin e outras bebidas. A ingestão pode causar cegueira, falência de órgãos e potencialmente morte.
Avaliando as propriedades da substância, os pesquisadores chegaram ao desenvolvimento da ferramenta. “Com base em estudos prévios, passamos a explorar a densidade e viscosidade, como parâmetros para uma triagem inicial. Nós buscamos adaptar o método para o uso com materiais simples, ampliando o acesso à técnica. Posteriormente, foi desenvolvido o aplicativo AlcoLab, com o objetivo de reduzir erros experimentais, automatizar os cálculos e tornar o processo intuitivo para o usuário”.
Pesquisadores do Maranhão desenvolvem aplicativo para detectar bebidas adulteradas. Foto: divulgação
Na prática, o funcionamento é simples: a pessoa coloca a bebida na seringa, pesa com uma balança comum, grava um vídeo, enquanto o líquido escorre. Depois o usuário marca alguns pontos no vídeo dentro do aplicativo e então é calculado automaticamente a densidade e a viscosidade. O resultado surge em poucos minutos, informando se a bebida é suspeita de conter metanol a partir de 5%, além de estimar as porcentagens aproximadas de água e etanol.
Criação da RDS Xeruini, em 2022, condicionou a exploração comercial da pesca esportiva à aprovação de um plano de manejo, ainda inexistente. Foto: João Paulo Araújo/ Governo de Roraima
O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR) firmaram um acordo com a Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Roraima (Femarh), empresários e ribeirinhos para regularizar a atividade de pesca esportiva nos Rios Xeruini e Amajaú, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Xeruini.
A unidade de conservação estadual é do tipo que permite o uso sustentável dos recursos naturais pelas comunidades tradicionais residentes, mas exige a elaboração de um plano de manejo para regulamentar atividades econômicas como o turismo de pesca esportiva.
O termo de ajustamento de conduta (TAC) foi assinado no dia 27 de março e terá validade até a aprovação e a implementação do plano de manejo da reserva. Participam do acordo empresas de Pesca Esportiva e as Comunidades Ribeirinhas Vila Terra Preta, Vila Canauini, Vila Lago Grande e Vila Cachoeirinha.
De acordo com o MPF e o MPRR, o TAC permanece aberto à adesão de outras comunidades ribeirinhas da RDS Xeruini que manifestem interesse em desenvolver a atividade de pesca esportiva. Caso o plano de manejo não tenha sido aprovado, o prazo de vigência do acordo será de três anos, prorrogável por igual período mediante concordância das partes.
Solução transitória
A criação da RDS Xeruini, em 2022, condicionou a exploração comercial da pesca esportiva à aprovação de um plano de manejo, ainda inexistente, o que gerou a suspensão de novas licenças pela Femarh e deixou empresários e ribeirinhos em situação de incerteza jurídica. O termo de ajustamento de conduta surge como solução transitória, viabilizando a atividade de forma regulamentada enquanto o plano de manejo não é concluído.
A medida busca garantir segurança jurídica para as comunidades ribeirinhas que dependem da atividade. “A pesca esportiva nos Rios Xeruini e Amajaú é uma atividade extremamente relevante para as comunidades, uma vez que gera renda e subsistência para os moradores dessa região”, frisou o procurador da República Alisson Marugal.
Ele explicou que havia insegurança jurídica, especialmente após a criação da RDS Xeruini, em 2022, que condicionou o licenciamento da atividade à existência de plano de manejo aprovado – documento ainda em elaboração. “Nos reunimos, dialogamos e assinamos o TAC. Isso viabiliza a regulamentação da pesca nos Rios Xeruini e Amajaú”, ressaltou Marugal.
O procurador da República destacou que o acordo representa uma mudança de abordagem institucional. “A nossa atuação não pode se limitar à fiscalização. É preciso compreender a realidade de quem vive nesses rios e construir, junto com as comunidades, os empresários e o poder público, soluções que promovam direitos – e não apenas aplicar sanções”.
Pesque e solte
O acordo reflete também uma concepção mais ampla de desenvolvimento para o Baixo Rio Branco, região em que as alternativas econômicas para além da subsistência são escassas. As próprias comunidades ribeirinhas relatam que o contato com a pesca esportiva transformou sua relação com o meio ambiente: preservar o rio passou a significar, concretamente, gerar renda.
O TAC consolida esse entendimento ao adotar o modelo “pesque e solte” – sendo expressamente vedada a retenção ou comercialização de tucunarés capturados. Dessa forma, o acordo subordina as decisões empresariais ao aval das comunidades e também exige que ao menos 95% da mão de obra seja contratada localmente, com repasse mínimo de R$ 600 por turista atendido às associações comunitárias.
O termo de ajustamento de conduta prevê ainda a realização de estudo técnico de capacidade de carga dos Rios Xeruini e Amajaú, custeado pelas empresas. O estudo deve apresentar um levantamento das espécies de peixes e sua dinâmica populacional (ictiofauna), análise da qualidade da água e avaliação dos impactos da atividade sobre o ecossistema. As informações coletadas orientarão o licenciamento definitivo e poderão ajustar os limites de operação estabelecidos no TAC.
Para a promotora de Justiça da Comarca de Caracaraí, Vanessa Queiroz, a celebração do TAC consolida a atuação extrajudicial e preventiva dos Ministérios Públicos junto aos órgãos públicos, comunidades ribeirinhas e empresários da região. “O acordo compatibiliza a proteção do meio ambiente, o respeito aos povos e comunidades tradicionais e o desenvolvimento de atividades econômicas”, ressaltou
O presidente da Femarh, Wagner Severo, disse que o acordo contribui para organizar e fortalecer a atividade na região.
“A atividade de pesca esportiva é fundamental para o desenvolvimento dessa região, é uma atividade consolidada e hoje nós estamos unindo os empresários com as comunidades locais”, comentou. Ele ainda explicou que, por meio dessas atividades, as comunidades poderão ampliar a capacidade de operação da pesca esportiva na RDS Xeruini, no município de Caracaraí.
Com o acordo, as comunidades ribeirinhas dos Rios Xeruini e Amajaú passam a contar com um marco regulatório que reconhece seu protagonismo na gestão do território e abre caminho para que a preservação ambiental seja, ao mesmo tempo, fonte de dignidade e renda.
Outros acordos
O TAC da RDS Xeruini integra um conjunto mais amplo de iniciativas do MPF e do MPRR para regularizar a pesca esportiva em regiões ribeirinhas de Roraima. Acordo semelhante está em fase de conclusão para a RDS Itapará/Boiaçú – onde o TAC abrangerá o Rio Itapará e os Lagos do Curiucú e do Matá-Matá –, também no Baixo Rio Branco.
MPF e MPRR mantêm ainda diálogo com comunidades do Rio Jufari, curso d’água federal que serve de divisa entre Roraima e o Amazonas e está inserido na própria RDS Xeruini, com a participação do Ibama nas discussões e vistas para buscar solução equivalente para a pesca esportiva naquele trecho.
DO DIREITO À POESIA, Marcus Vinícius Xavier de Oliveira. Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
O cenário acadêmico e literário de Rondônia ganha um novo e instigante capítulo com o lançamento do livro “Não bastassem os erros alheios…”. A obra é de autoria de Marcus Vinícius Xavier de Oliveira, professor adjunto do Departamento de Ciências Jurídicas da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), em Porto Velho.
Embora Marcus Vinícius possua uma trajetória acadêmica sólida — sendo bacharel em Direito pela UNIR, mestre pela UFSC e doutorando em Direito Penal pela UERJ —, seu novo livro afasta-se do registro empolado do Direito. A obra revela um poeta envolto na filosofia e no cotidiano para explorar a experiência humana como um acúmulo de falhas.
O prefácio, assinado pelo escritor e professor Vitor Cei (UFES), descreve o livro como uma conexão entre “baixo ventre e cérebro”. Cei destaca que a poética de Marcus Vinícius é direta e irônica, misturando o erudito ao popular — do latim ao palavreado chulo — para criticar a hipocrisia e o autoritarismo moral.
Capa do livro ‘Não bastassem os erros alheios’. Foto:
A geografia amazônica transborda para os versos. O Rio Madeira surge como uma imagem central da vida que segue seu curso caudaloso, levando consigo planos, sonhos e projetos. Para o autor, viver não exige respostas ou dogmas, mas sim o exercício constante da dúvida e da perquirição.
O título do livro estabelece um paradoxo: a crítica ao erro alheio só é legítima quando se reconhece a própria implicação no erro. Como define o romancista Manoel Herzog em seu texto de apresentação, Marcus Vinícius observa o mundo a partir de um locus privilegiado — a periferia do sistema literário — para rir da “comédia humana” sem esnobismo.
Sobre o autor – Além de docente na UNIR, Marcos Vinícius desenvolve pesquisas em Direito Internacional, Direito Penal Internacional, Filosofia do Direito e Filosofia Política. Casado e pai de duas filhas, ele afirma, com o humor ácido que marca suas páginas, acreditar na “inutilidade da poesia” e na impermanência de todas as coisas.
Serviço
Título: Não bastassem os erros alheios…
Número de páginas: 56.
Formato: PDF
Editor: Carlos Henrique C. Gonçalves (Editora De Castro)
Gênero: Poesia Brasileira
Ano: 2026
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Estudo sobre “Metáforas do amor” foi vencedor no prêmio FAPEMA 2025. Foto: Agaminon Sales (DCOM)
‘Como as metáforas do amor, transgredidas por um contexto de violência, nos mostram detalhes da conceptualização de um sentimento universal?’. Essa e outras perguntas instigaram a pesquisa ‘Metáforas do amor na fala das mulheres vítimas diretas de violência doméstica’, desenvolvida pela mestra em Linguística Hanna Almeida, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras (PGLetras) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Sob orientação da professora Mônica Carneiro e coorientação do professor Cássius Chai, o estudo mostra, de forma inovadora, que as metáforas usadas pelas vítimas para falar do amor não apenas refletem experiências de violência, mas também podem reforçar sua naturalização ou, em contextos de acolhimento, favorecer processos de ruptura e reconstrução subjetiva. Em síntese, revela como essas mulheres interpretam e qualificam os acontecimentos vividos.
“Equivocadamente, as pessoas dizem ‘ficou porque quis’ ou ‘ficou porque ama’, mas será que é assim? O que eu posso explorar dentro do fenômeno metafórico, dentro do que elas dizem sobre o ocorrido? O que eu posso rastrear em relação a como elas apreenderam esse amor?”, questiona Hanna.
O estudo, de caráter descritivo-exploratório, foi vencedor na categoria Dissertação de Mestrado no prêmio FAPEMA 2025, realizado em janeiro de 2026. O trabalho metáforas do amor, aborda conceitos da Linguística Cognitiva, sob a óptica da Teoria da Metáfora Conceptual Estendida, para demonstrar, com maior clareza, os conteúdos da cognição envolvidos/ativados no contexto em que se insere o discurso.
Metáforas como forma de expressão
A metáfora é uma figura de linguagem essencial da comunicação humana, escrita ou falada, que estabelece uma comparação implícita entre dois termos, transferindo o sentido de um para o outro. Um exemplo é como imaginamos o conceito de ‘mais’ como algo para cima e ‘menos’ como algo para baixo, assim como ‘sucesso’ para cima e ‘fracasso’ para baixo.
“Tudo que nós pensamos é metafórico, uma maneira de apreender o mundo. No contexto do amor, buscamos aspectos da emoção, como ‘intensidade’ e ‘passividade’. Falamos frases como ‘fui cegado pelo amor’. No caso pesquisado, dentro da violência doméstica, a ocorrência é completamente diferente. Observamos a emergência de ‘amor’ muito ligado à ‘dor’, um sentimento relacionado à metáfora de ‘amor de sacrifício’, em relatos como ‘eu tenho que me sacrificar por esse casamento’”, explica a pesquisadora.
‘Metáforas do amor’: estudo da UFMA mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher. Foto: Reprodução/ Universidade Estadual do Maranhão
O estudo de Hanna teve como base discursos coletados para a tese de Carneiro (2014) e para a tese de Damacena (2021). O primeiro analisou relatos de mulheres acolhidas pela Casa Mirabal, em Porto Alegre, e o segundo, na Casa da Mulher Brasileira, em São Luís — instituições que oferecem acolhimento às vítimas de violência doméstica.
A partir da Teoria da Metáfora Conceptual (TMC), proposta por Lakoff e Johnson (1980), Hanna aplicou os conceitos dos autores em diálogo com a metodologia de Kövecses (2020).
“Além de elementos como ‘dor’ e ‘sacrifício’, também observei a ideia de ‘troca econômica’, uma categoria que incluí porque emergia de forma significativa nos relatos analisados”, afirma.
Entre os exemplos, destaca frases como: “eu vou voltar com ele, com o agressor, porque ele vai terminar a minha casa”.
Outro ponto que chamou atenção foi a vulnerabilidade de muitas mulheres: “Eu tinha 16, 17 anos quando casei com ele, eu não sabia”, relatou uma entrevistada. “Nesse relato percebi uma vulnerabilidade física e emocional”, acrescenta Hanna.
Acolhimento e renovação
A experiência de violência vivida pelas mulheres evidencia a relevância das instituições de acolhimento, que, para muitas, representam uma renovação na forma de compreender os próprios sentimentos. Os relatos revelam uma ruptura com antigas concepções de amor e marcam um processo de transformação.
“Também me deparei com relatos como: ‘mas aí eu percebi que ele ia me matar’. Com isso, ocorre um colapso no frame de ‘investimento’, surgindo o da ‘sobrevivência’, a partir dos cuidados nessas casas”, explica.
‘Metáforas do amor’: estudo da UFMA mostra resultados inéditos sobre o papel da linguagem na compreensão da violência doméstica contra a mulher. Casa da Mulher Brasileira, em São Luís. Foto: Reprodução/Governo do Maranhão
Nesse contexto, os discursos ressaltam o papel essencial dessas instituições como parte das políticas de atenção e cuidado voltadas a esse público.
“Eu consegui rastrear o amor próprio. São relatos de mulheres que já passaram por um atendimento. Esse olhar, como ‘eu sou muito mais mulher’, ‘eu me amo muito mais’, revela um rastreio de amor próprio. A partir dos cuidados, as frases trazem novos olhares, como ‘hoje eu sou uma outra mulher’, ‘eu sou muito mais combativa’, ‘eu não sou mais a pessoa que eu era’, ‘eu me amo muito mais’”, afirma.
De acordo com as constatações da pesquisa, o papel desempenhado pelas casas de acolhimento também revela a construção de uma rede de apoio entre as mulheres acolhidas. “Eu tenho rastreios de um amor como ‘teia’, a sororidade muito mais nítida no discurso dessas mulheres.”
Contribuições à sociedade
Disponível no repositório on-line da Universidade Federal do Maranhão, o trabalho da autora tem importância que vai além do campo acadêmico e oferece subsídios para um olhar mais humano e empático aos casos de mulheres vítimas de violência doméstica, sendo capaz de transformar práticas sociais e políticas públicas.
“Um trabalho que traz todas essas nuances, todos esses resultados, colabora diretamente com uma escuta mais empática de qualquer acolhimento ou projeto social”, afirma Hanna.
Os relatos analisados permitem compreender não apenas a emoção demonstrada pelas mulheres, mas também como, por meio da linguagem, elas reelaboram suas experiências. Ao longo do estudo, emergem perspectivas que apontam para uma verdadeira virada de chave na vida das mulheres acolhidas.
“Hoje, elas já têm o amor próprio ocupando uma instância maior. Não somente esse, mas também a metáfora da sororidade: não se sentem mais aprisionadas, isoladas ou sozinhas”, finaliza a pesquisadora.
Mais do que um registro acadêmico, a pesquisa se torna uma ferramenta social, capaz de fortalecer redes de apoio e oferecer novos olhares sobre o enfrentamento da violência doméstica.
*Por Agaminon Sales, Universidade Federal do Maranhão.
A diversidade alimentar da Amazônia ganha destaque no e-book ‘Sabores invisíveis: PANC, histórias e receitas da Ilha de Mosqueiro’, uma obra que reúne receitas com ingredientes pouco comuns no cotidiano, mas profundamente enraizados na cultura e na biodiversidade regional.
O e-book foi desenvolvido por professores e estudantes do curso de Gastronomia da Universidade do Estado do Pará (Uepa), ofertado pelo programa Forma Pará, em Mosqueiro, na Região Metropolitana de Belém, e publicado pela Editora da Uepa (Eduepa).
Resultado de um Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), o e-book evidencia a riqueza das chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), reunindo espécies nativas da região amazônica. A organização é de Diego Aires da Silva, Rafael Vitti Mota e Ivonete Quaresma da Silva de Aguiar.
“O intuito dessa pesquisa, que fala sobre as PANCs, é que as pessoas possam utilizá-las no seu cotidiano, no seu dia a dia. Os restaurantes também, para que seja uma forma de atração ao público, ao turista, que chega naquela região e se depara com novidades. Onde as pessoas plantam, colhem e colocam no prato não só o arroz e o feijão, mas também outras possibilidades criativas. E isso também pode se tornar uma fonte de renda, já que é possível produzir e fornecer esses ingredientes para os restaurantes”, explica Adriana Lima, egressa da turma de Gastronomia em Mosqueiro e uma das participantes da pesquisa.
E-book reúne informações sobre PANC de Mosqueiro, no Pará. Foto: Divulgação
PANC listadas no e-book revelam potência local
Entre as espécies destacadas no e-book estão erva-de-jabuti, taioba, cipó-d’alho, vinagreira, ora-pro-nóbis, begônia, clitória azul, jaca e camapu, que se articulam a ingredientes tradicionais da culinária paraense, como queijo do Marajó, camarão regional e gurijuba, ampliando os horizontes da gastronomia amazônica.
Adriana Uchoa, que também participou da pesquisa como voluntária, relembra o processo de construção do trabalho: “a gente começou coletando os insumos, depois se reunia para preparar as receitas e fazer os registros fotográficos”.
Ela destaca ainda sua identificação com as produções à base de pães, área em que já atua, e reforça o impacto da formação: “a formação pela Uepa contribuiu muito para o meu desenvolvimento profissional. Eu já gostava de cozinhar, era a chef da família, então, amei fazer o curso. Os professores são maravilhosos e agregou muito na minha vida”.
Ao longo das páginas, o livro combina pesquisa, memória e criatividade gastronômica. Receitas como pudim de bougainvillea e pão de marimari revelam possibilidades inovadoras a partir de ingredientes pouco explorados, enquanto histórias associadas às plantas reforçam sua conexão com os territórios e modos de vida locais. Folhas, flores, frutos e sementes deixam de ser apenas elementos decorativos e passam a protagonizar preparações como geleias, saladas e pratos autorais.
‘Sabores Invisíveis’ se consolida como um registro do potencial alimentar da biodiversidade amazônica e um convite à valorização de saberes tradicionais.
Reconhecida mundialmente por sua riqueza de espécies e potencial econômico sustentável, a biodiversidade da Amazônia tem sido objeto de pesquisas científicas e iniciativas inovadoras no Brasil. No Maranhão, especialmente na região da Amazônia Legal, essa diversidade natural vem sendo cada vez mais explorada sob a perspectiva da bioeconomia, integrando conhecimento acadêmico, valorização de recursos locais e dos saberes tradicionais e geração de renda.
Foi nesse contexto que a pesquisadora e docente do curso de Engenharia de Alimentos, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Câmpus Imperatriz, Daniela Souza Ferreira, iniciou uma pesquisa voltada ao aproveitamento da castanha do Maranhão. Conhecida como cacau-selvagem, monguba ou mamorana, a espécie é nativa da região da Amazônia Maranhense com grande potencial nutricional e tecnológico porém ainda pouco explorada.
Sob a coordenação de Daniela, o projeto “Bombom do Maranhão: Nova Cultura da Bioeconomia” nasceu com o objetivo de desenvolver um chocolate a partir da castanha do Maranhão, inicialmente concebido no âmbito acadêmico, o projeto ganhou força após aprovação em editais de fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), o que possibilitou sua evolução para uma iniciativa empreendedora.
A partir desse avanço, foi criada a startup Maranuts, responsável por transformar os resultados da pesquisa em produtos voltados ao mercado. Atualmente, a empresa está incubada na UFMA, consolidando a conexão entre ciência, inovação e empreendedorismo dentro da instituição.
A pesquisa teve início em 2022, quando Daniela chegou ao Maranhão e passou a investigar produtos nativos com potencial para desenvolvimento científico e tecnológico. Durante esse processo, identificou a ausência de uma cadeia produtiva estruturada para a castanha do Maranhão, apesar de sua ampla ocorrência no estado.
Foto: reprodução/patida.com
“Eu mudei para o Maranhão em 2022 e comecei a pesquisar quais eram produtos nativos para fazer os trabalhos, para desenvolver as pesquisas, visando a editais de fomento. E eu comecei a pesquisar que não tinha produtos alimentícios com essa castanha do Maranhão. Ela não tem cadeia produtiva, são árvores de forma aleatória, não tem uma plantação de castanha aqui no estado. Ela se espalha de uma forma muito fácil, tem um bom desenvolvimento. Aí, eu comecei a ver a potencialidade. Nós levamos para o laboratório e começamos os primeiros testes”, conta a pesquisadora.
Os primeiros testes laboratoriais revelaram características promissoras: a castanha é rica em gorduras com propriedades semelhantes às da manteiga de cacau, o que motivou a proposta de produção de chocolate a partir desse insumo. A carência de estudos na literatura científica também reforçou o caráter inovador da pesquisa.
Além da viabilidade tecnológica, a castanha do Maranhão apresenta importantes benefícios nutricionais. “Ela tem a parte nutricional, compostos antioxidantes. Ela tem uma riqueza de gorduras, gorduras boas. Assim como outras oleaginosas, assim como outras castanhas. Ela tem uma gordura específica, um ácido graxo específico que tem propriedades melhores do que outras oleaginosas. Previne envelhecimento mental, algumas características nesse sentido. Porque a gente sabe que gordura boa é bom para o funcionamento dos neurônios”, enumera Daniela.
Essas características colocam a castanha em posição de destaque entre as oleaginosas, ampliando seu potencial de aplicação em produtos saudáveis. Alternativas que demonstram a versatilidade da matéria-prima e abrem caminho para o desenvolvimento de novos produtos no futuro.
Segundo a pesquisadora, as pesquisas caminham em uma perspectiva de fomentar uma cadeia produtiva da castanha do Maranhão. “Abre-se uma nova cultura, um novo produto. Não só chocolate, daí podem surgir outros produtos sendo fabricados com ela. Isso criando geração de renda para as famílias”.
Para além do chocolate, estão sendo desenvolvidos diferentes produtos, com foco em alimentação saudável e sem adição de açúcar, como uma pasta de castanha, semelhante a cremes de avelã, com versões que incluem cacau e outras combinações e “bowl” de castanha, um produto similar a cereais matinais, que pode ser consumido com leite, café, açaí ou como snack.
O “Bombom do Maranhão” já passou por etapas de validação, incluindo testes sensoriais e comercialização em feiras locais, especialmente na cidade de Imperatriz. Atualmente, a startup Maranuts está em fase de aceleração, com foco na profissionalização das embalagens e na inserção dos produtos em pontos de venda, como lojas de produtos naturais, empórios e drogarias.
Bioeconomia e geração de renda no Maranhão
De acordo com a pesquisadora, o aproveitamento da castanha do Maranhão contribui para a valorização da biodiversidade maranhense além de estimular a bioeconomia regional. “Promove um desenvolvimento de bioeconomia. Desde o plantio: famílias que começam a plantar, observar ali que pode gerar renda. […] Porque o nosso estado tem muita matéria-prima. Então, está na hora de ter produto final. Embalado para vender com a marca. Com o nome do Maranhão”, pontua Daniela.
reprodução site/visoflora.com
Esse é um dos principais impactos do projeto. A iniciativa estimula o cultivo da castanha por famílias e pequenos produtores; a geração de renda em diferentes etapas da cadeia; a valorização de matérias-primas locais e a criação de produtos com identidade maranhense e maior valor agregado. Além disso, o projeto movimenta outros setores, como design de embalagens, produção gráfica e serviços locais, fortalecendo a economia regional.
A iniciativa já conta com parcerias importantes para ampliar sua atuação. Entre elas, destaca-se a colaboração com a Associação Frei Tadeu, com a qual foi implantado um viveiro de mudas da castanha do Maranhão. Além disso, há articulações em andamento com empresas como a Suzano, visando fortalecer ações com foco ambiental e social, bem como a ampliação da produção junto a comunidades e pequenos produtores.
Também foi estabelecida uma área experimental no câmpus da UFMA em Imperatriz, com cerca de 50 árvores plantadas, cujo desenvolvimento vem sendo monitorado há aproximadamente um ano e meio.
Reconhecimento e incentivo ao empreendedorismo
Transformar uma matéria-prima pouco explorada em produtos inovadores, fortalecer a bioeconomia, estimular o empreendedorismo e criar novas oportunidades de renda no estado foram aspectos que trouxeram para o projeto “Bombom do Maranhão: Nova Cultura da Bioeconomia” o reconhecimento e a premiação com o segundo lugar no Prêmio Fapema 2025, na inédita categoria de empreendedorismo. A premiação destacou a importância de iniciativas que ultrapassam os limites do laboratório e chegam ao mercado.
Fruto da Castanha do Maranhão. Foto: Arquivo dos pesquisadores
Para a professora, o reconhecimento reforça a necessidade de incentivar estudantes e pesquisadores a desenvolverem uma visão empreendedora, integrando ciência e aplicação prática. Segundo ela, muitos projetos científicos permanecem restritos ao ambiente acadêmico, sem alcançar seu potencial de impacto social e econômico.
“O prêmio é um incentivo. É um mérito. Fiquei bem feliz e honrada. Foi o próprio governador que entregou o prêmio. […] Deu até para explicar do projeto. Então, isso é um incentivo. Mostrando que estou no caminho certo. Para continuar com essa pesquisa. Continuar na formação de pessoas. Com esse olhar de empreendedorismo”, expressou a docente.
O projeto “Bombom do Maranhão”, que deu origem à startup Maranuts, exemplifica como a pesquisa acadêmica pode gerar impactos reais na sociedade. Com o apoio de editais de fomento, parcerias estratégicas e o envolvimento da comunidade acadêmica, a proposta segue em expansão, firmando-se como um modelo de integração entre ciência, mercado e desenvolvimento regional.
A trajetória do projeto também evidencia o papel da universidade como agente de transformação social, integrando pesquisa científica, inovação e empreendedorismo, contribuindo para o desenvolvimento sustentável do Maranhão, valorizando recursos naturais e promovendo inclusão produtiva.
E para os jovens pesquisadores, Daniela deixa uma mensagem:
“Primeiro, pensar em produtos realmente regionais, que valorizem a cultura do estado, as comunidades e os pequenos produtores. Quando a gente procura, os saberes regionais têm muito a acrescentar. A gente tem que conversar com as pessoas. Tem que ir ao campo. Tem que conversar com a comunidade. Ir ao local. Não ficar só dentro de um laboratório. E o próximo passo é arriscar. A gente sempre tem alguma coisa nova e fica com receio. ‘Será que isso vai dar certo?’ ‘Será que as pessoas vão se interessar por aquilo?’. Precisa arriscar”.
*Este texto foi originalmente publicado no site da UFMA
A qualidade do guaraná produzido na Amazônia está diretamente ligada às etapas de beneficiamento do fruto. Processos como despolpa, secagem, torra e armazenamento influenciam não apenas as características do produto final, mas também a renda das famílias produtoras e a sustentabilidade da cadeia produtiva.
Quando essas etapas são realizadas com técnicas adequadas e estruturas apropriadas, é possível melhorar a qualidade das sementes, reduzir perdas, otimizar o trabalho no campo e evitar impactos ambientais associados ao processamento do fruto.
Hoje, no Amazonas são produzidas entre 600 e 700 toneladas de guaraná nativo. Análises apontam que a produtividade poderia aumentar ao ser combinada com iniciativas de capacitação técnica, acesso a equipamentos e valorização do conhecimento local, ações fundamentais para fortalecer a produção de guaraná nas comunidades amazônicas.
Entre as soluções que vêm sendo adotadas para melhorar o beneficiamento do guaraná, estão estruturas e equipamentos que tornam o processo mais eficiente, seguro e sustentável. Alguns exemplos são:
Despolpadeira de guaraná: equipamento que facilita a separação das sementes e contribui para tornar o beneficiamento mais ágil e padronizado.
Tanque de contenção de água residuária: estrutura que evita que os resíduos líquidos gerados durante o processamento sejam descartados diretamente no ambiente. Com esse sistema, é possível reduzir riscos de contaminação de cursos d’água e ainda reaproveitar os resíduos na produção de compostos orgânicos.
Terreiro suspenso, também conhecido como secador solar: contribui para melhorar a secagem das sementes. A estrutura garante maior higiene no processo, reduz o tempo de exposição dos produtores às altas temperaturas do forno e diminui o consumo de lenha, colaborando para a redução de emissões de CO₂.
Além de melhorar a qualidade do produto final, essas soluções ajudam a tornar o processo de beneficiamento mais seguro e eficiente para as famílias produtoras.
Participantes da Oficina de beneficiamento de Guaraná. Foto: Reprodução/Imaflora
Fortalecimento da produção de guaraná nas comunidades
Para ampliar o acesso a essas melhorias, iniciativas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva do guaraná têm investido em capacitação, assistência técnica e infraestrutura para os produtores.
Entre as estratégias adotadas está a organização dos agricultores em núcleos familiares de produção, modelo que permite compartilhar estruturas e equipamentos, ampliando os benefícios para diferentes famílias.
Nesse formato, cada núcleo conta com uma área de referência onde são instaladas estruturas de beneficiamento e disponibilizados equipamentos que podem ser compartilhados pelos produtores da comunidade.
Além disso, os agricultores recebem apoio técnico em diferentes etapas da produção, incluindo manejo dos guaranazais, análise de solo, recomendações de insumos e orientações sobre boas práticas de processamento e armazenamento.
Essas ações contribuem para profissionalizar a produção, melhorar a qualidade do guaraná e fortalecer a renda das famílias que dependem da cultura. “Para nós, isso vai melhorar a produtividade e até incentivar os produtores a produzirem mais. É algo muito gratificante”, afirma José Neto, produtor da comunidade Terra Preta.
Oficina reuniu produtores em Parintins para troca de conhecimentos
Como parte dessas iniciativas, o Imaflora realizou, em fevereiro, uma Oficina de Beneficiamento de Guaraná na comunidade São Pedro do Marajó, no município de Parintins (AM).
A atividade reuniu cerca de 30 produtores de cinco comunidades da região do rio Uaicurapá: São Pedro do Marajó, Peixe Marinho, Santa Luzia do Marauaru, Terra Preta e São Raimundo do Gregorte.
Durante o encontro, os participantes puderam conhecer de perto as estruturas de beneficiamento instaladas pelo projeto e receber orientações sobre o uso dos equipamentos, boas práticas de manipulação das sementes e manejo adequado dos resíduos gerados no processo.
A oficina também foi um espaço de troca de experiências entre produtores, técnicos e parceiros do projeto, reforçando a importância do conhecimento compartilhado para o fortalecimento da cadeia produtiva do guaraná.
“Essas ações contribuem para o fortalecimento da cadeia do guaraná no estado, sobretudo, para os agricultores assistidos pelo Programa Olhos da Floresta, através de investimentos e acompanhamentos próximos aos produtores. Além disso, as atividades são realizadas de maneira compartilhada e facilitada pelas organizações que representam as comunidades e os agricultores familiares, o que faz com que haja um maior entendimento da realidade local”, explica Raimundo Souza, analista técnico do Imaflora.
Projeto Aliados pelo Campo Guaraná
A oficina integra as ações do projeto Aliados pelo Campo Guaraná 2025, iniciativa executada pelo Imaflora com financiamento da Coca-Cola Latin America.
O projeto conta ainda com parceria técnica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e apoio da Prefeitura de Parintins, por meio da Secretaria de Produção, além da participação da Associação Agriguarani.
Ao final da atividade, também foi realizada a entrega oficial de equipamentos e materiais adquiridos pelo projeto para os produtores participantes, fortalecendo a infraestrutura de beneficiamento nas comunidades atendidas.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora
Parceria entre a Secretaria de Cultura e o CBA fortalece a economia criativa ao inaugurar espaço que integra pesquisa, tecnologia e saberes tradicionais na Amazônia. Foto: Gabi Vitim/SEC AM
O Hub Amazon Poranga Fashion é uma nova proposta de conectar moda, inovação e bioeconomia no Amazonas, ampliando oportunidades para artistas, estilistas, artesãos e empreendedores da região. O hub nasce da união entre a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC AM) e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA).
A iniciativa surge como um espaço de desenvolvimento, pesquisa e incubação de projetos que utilizam insumos amazônicos, como fibras naturais, sementes e materiais sustentáveis, fortalecendo uma cadeia produtiva que vai muito além da criação artística.
Segundo o gestor cultural Turenko Beça, a parceria nasceu a partir de uma estratégia da Secretaria para ampliar o alcance da economia criativa no estado.
“A economia criativa é um dos setores da Secretaria, e a gente vai mapeando oportunidades e fazendo prospecção em diversas áreas. A partir de uma orientação do secretário Caio André, fizemos essa ligação com o CBA e conseguimos instaurar aqui o hub, que é o primeiro passo dessa relação com o centro de bionegócios”, explica.
Moda amazônica usa diversos elementos regionais, como sementes. Foto: Gabi Vitim /SEC AM
Ele destaca ainda que o espaço dialoga diretamente com o uso sustentável dos recursos da floresta: “Os empreendedores trabalham com materiais amazônicos, como curauá, tucum, fibras naturais e couro de pirarucu. Isso gera uma cadeia produtiva muito rica, que envolve desde quem coleta até quem transforma esses materiais em produto final”.
O Hub funciona como uma incubadora de projetos e deve atrair novos empreendedores e investidores. A proposta é ampliar o alcance das iniciativas e fomentar negócios em escala maior, conectando criatividade e mercado.
“Esse espaço vai receber empresas e aproximar investidores dos empreendedores, tanto pela Secretaria quanto pelo CBA. A ideia é que esses projetos cresçam e ganhem escala produtiva”, destaca Turenko.
Avanço na economia criativa
Para a diretora cultural do Amazon Poranga Fashion, Jessilda Furtado, a parceria representa um avanço importante para o reconhecimento da moda como um segmento estratégico da economia criativa. “A gente percebeu a importância de valorizar a moda, porque temos estilistas incríveis, mas muitas vezes invisibilizados. O Amazon Poranga surgiu justamente para dar visibilidade a esses criativos e fortalecer esse mercado”, afirma.
Ela relembra que o projeto cresceu ao longo dos anos, passando por diferentes espaços culturais de Manaus até chegar ao CBA, consolidando-se como uma plataforma de inovação. “Hoje estamos em um lugar de pesquisa, que estuda os insumos da Amazônia e transforma isso em bionegócio. Isso amplia muito as possibilidades, vai além de um desfile de moda, é geração de renda e valorização da nossa identidade”, completa.
Com mais de um milhão de visualizações nas edições anteriores, o projeto demonstra o potencial econômico e cultural do setor. “A moda impacta diretamente na vida de muitas pessoas, do artesão ao estilista. É um segmento que coloca comida na mesa e valoriza o que é nosso”, reforça Jessilda.
A ampliação desse olhar também é destacada por Fabiana Rocha, gestora do espaço CBA de inovação, que aponta uma mudança na forma como a bioeconomia é pensada.
“O CBA está vivendo um novo momento, saindo da pesquisa apenas de laboratório para transformar ideias em negócios reais. A economia criativa entra como um elemento fundamental, porque ela amplia esse conceito e mostra que a Amazônia também é arte, cultura e inovação”, ressalta.
Para os estilistas, o impacto da parceria já é concreto. A diretora criativa Thaís Arévola ressalta que o acesso à estrutura do CBA fortalece o desenvolvimento de produtos sustentáveis.
“A gente trabalha com tecidos de fibras amazônicas, como o curauá e até fibra de abacaxi. O CBA auxiliava nesse processo, e agora, com o hub, isso se amplia para outros criativos também”, destaca.
Ela destaca ainda que o acesso a laboratórios e pesquisas deve facilitar o trabalho de quem atua com técnicas tradicionais. “Isso vai beneficiar desde estilistas até comunidades ribeirinhas e indígenas, tornando o processo mais acessível e valorizando o trabalho dessas pessoas”, finaliza Arévola.