Processo dispensa a etapa final de purificação do extrato e permite recuperar cafeína e antioxidantes a partir da casca da semente do guaraná. Foto: Divulgação/Embrapa
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um método “verde” e inovador que utiliza uma mistura à base de açúcares e outros compostos naturais para extrair das cascas das sementes do guaraná substâncias valiosas, como cafeína e antioxidantes.
Além de substituir os solventes tóxicos tradicionais, a nova estratégia também reduz significativamente o tempo de preparo e o consumo de energia durante o processo de produção, abrindo caminho para o aproveitamento sustentável da biodiversidade brasileira.
O trabalho, publicado em julho na revista Innovative Food Science & Emerging Technologies, foi desenvolvido com apoio da FAPESP (por meio dos projetos 23/12621-1, 22/10469-5, 21/12264-9 e 18/14582-5).
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Apesar de frequentemente ser descartada, a casca da semente desse fruto brasileiro é extremamente rica em guaranina (alcaloide quimicamente idêntico à cafeína), além de polifenóis altamente valorizados pela indústria de cosméticos e bioprodutos, como catequina, epicatequina e procianidina B2.
Os solventes normalmente usados para a extração desses compostos são voláteis e tóxicos, como o metanol. Outras substâncias provenientes da indústria do petróleo também precisam ser removidas na etapa final do processo. Já com a nova formulação proposta pelo grupo da Unicamp, o extrato produzido com a casca da semente do guaraná sai pronto para ser utilizado por vários tipos de indústrias.
Para isso, foram usados insumos renováveis, como o 1,3-propanodiol (produzido principalmente por meio da fermentação do açúcar do milho), a glicose (gerada durante a fotossíntese das plantas) e o ácido cítrico (que pode ser obtido, por exemplo, da fermentação do melaço da cana).
“Um dos principais diferenciais do estudo foi testar um solvente à base de açúcar altamente eficaz, que extrai bem os compostos da casca da semente do guaraná e dispensa a última etapa, que seria a retirada de solventes potencialmente tóxicos”, destaca o pesquisador. “Desse modo, conseguimos reduzir o consumo energético, facilitando o processo e, ao mesmo tempo, mantendo os benefícios proporcionados pelas substâncias utilizadas na formulação do solvente, como o 1,3-propanodiol, que é umectante e ajuda a manter a hidratação, a glicose, que traz viscosidade, e o ácido cítrico, que ajuda na estabilidade e na duração do produto”, explica Felipe Sanchez Bragagnolo, pós-doutorando na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA-Unicamp) e primeiro autor do artigo.
O projeto contou com a participação de pesquisadores da Universidad Politécnica de Madrid e do Instituto de Investigación en Ciencias de la Alimentación (ambos da Espanha), além da Universidad de la República, do Uruguai.
O Brasil produziu em 2025 cerca de 2.460 toneladas de sementes de guaraná, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A semente representa só entre 15% e 20% do peso total do fruto fresco; os outros 80% ou 85% correspondem à casca avermelhada e ao casquilho. O reaproveitamento desse expressivo volume de subprodutos abre oportunidades para a bioeconomia.
O Brasil produziu em 2025 cerca de 2.460 toneladas de sementes de guaraná. Foto: Fernando Goss
“A cafeína e os compostos fenólicos do guaraná têm várias potencialidades. Por isso, um produto desenvolvido com um tipo de solvente que também possa ser considerado como um aditivo para a formulação final pode ir justamente ao encontro dessa tendência do mercado. Além disso, também temos a questão da biodiversidade, já que o guaraná é nativo do Brasil”, avalia Bragagnolo.
Entre os próximos passos do grupo está o desenvolvimento de novas tecnologias que envolvam a biodiversidade brasileira.
“Usar cascas de outras frutas, trocar a glicose por mel, testar outras formas de aplicação e de composição para esse solvente e para o extrato final, retirado depois de todo esse processo: todos esses testes poderiam ser feitos na universidade, mas também em colaboração com empresas que estivessem desenvolvendo novos produtos. Precisamos entender como o método poderia mudar o processo de produção e, ao mesmo tempo, se os consumidores teriam uma boa aceitação”, diz o pesquisador.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Cristiane Macedo
Entenda como que a agricultura brasileira se comporta durante cenários diferentes provocados pelo El Niño, como as chuvas no sul e a seca no Norte e Nordeste.
Os efeitos do El Niño vão além dos limites das cidades. No campo, ele redistribui a chuva e o calor e redesenha o mapa da produção agrícola brasileira. O setor é responsável por 25% do PIB nacional. Na safra 2023/2024, a produção de grãos caiu 21,4 milhões de toneladas, período em que o fenômeno climático atingiu em cheio o país. Os números são, respectivamente, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em levantamento com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Ganhos e perdas no agro, porém, dependem de uma série de variáveis e do nível de adaptação. Distribuição de chuvas, localização, fase de desenvolvimento da planta, capacidade do solo de armazenar e drenar água, genética e manejo são fatores que entram nessa equação. Para avaliar essas condições e se antecipar aos efeitos do El Niño, um arsenal científico auxilia os agricultores e demais atores da agricultura brasileira.
O El Niño se caracteriza pelo aquecimento das águas superficiais do oceano Pacífico na região equatorial. As consequências são as mudanças dos padrões de circulação das correntes marítimas e das massas de ar, o que leva a repercussões distintas ao redor do planeta. As preocupações com eventos extremos que o fenômeno pode trazer aumentaram no início de setembro, com o anúncio do Centro de Previsão Climática (CPC), dos Estados Unidos, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês).
Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto) Fonte: BTR1/CPTEC/INPE
A probabilidade de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027 supera 90%. A possibilidade de alcançar intensidade maior que a dos episódios registrados desde 1950 é de 75%. Este é um cenário que abre dois caminhos para grande parte dos produtores: adaptação ou perdas de produtividade e econômicas.
“Para nós, fornecedores de cana, um El Niño forte significa que as mudanças climáticas vão afetar diretamente o nosso negócio e o nosso bolso. A colheita pode ser prejudicada, caso as chuvas atrapalhem a moagem, afetando o teor de sacarose da cana”, afirma Francisco César Urenha, diretor-presidente executivo da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Copercana).
Reflexos do El Niño mudam em cada região
No Brasil, os reflexos variam entre as regiões. No Sul, o El Niño tende a aumentar o volume e a frequência das chuvas e dos eventos extremos, como em 2024, quando mais de 2 milhões de pessoas foram atingidas por enchentes. No Norte e no Nordeste, favorece as secas na Amazônia e no interior nordestino.
As imagens dos leitos quase secos dos rios amazônicos, no mesmo ano, ainda não desapareceram da memória coletiva. No Centro-Oeste e no Sudeste do país, temperaturas acima da média, ondas de calor e períodos de baixa umidade costumam ser resultados diretos do El Niño.
As alterações no clima, que usualmente se dão em intervalos de dois a sete anos, levam para o agro brasileiro um cenário condicionado por uma série de variáveis e que costuma se apresentar da seguinte forma: soja, milho de verão, pastagens e arroz irrigado podem ser favorecidos pela maior disponibilidade de água no Sul. Milho e feijão de sequeiro, pastagens e pecuária ficam mais expostos à falta de chuva no Norte e no Nordeste.
Mapa mostra o nível dos efeitos do El Niño por região e a relação entre ganhos e perdas na agricultura brasileira. Foto: Divulgação/Revista Fapesp
No Centro-Oeste, o atraso da estação chuvosa diminui a janela do milho safrinha e ameaça a soja. Cana, café, citros, trigo, arroz e hortaliças ocupam uma faixa intermediária: podem ganhar em crescimento ou oferta de água e perder em qualidade, sanidade, radiação solar ou condições de colheita.
“O El Niño não adiciona nem subtrai produtividade de forma uniforme pelo país. Ele redistribui água e energia, e o sinal do efeito em cada lavoura depende de qual era o fator limitante naquele sistema”, afirma Fábio Marin, professor da Esalq-USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Agrícolas
Com produção concentrada no Centro-Oeste, a soja é o produto agrícola de maior peso na balança comercial brasileira. Em 2025, respondeu por US$ 43,5 bilhões em exportações, segundo o Ministério da Agricultura. Considerando também farelo e óleo, foram US$ 52,9 bilhões. O milho é o segundo em volume de produção de grãos, com 139,7 milhões de toneladas na safra 2024/2025, de acordo com a pasta.
As duas culturas também ocupam os primeiros lugares no ranking do valor da produção agrícola brasileira. Em 2025 foram R$ 927,2 bilhões, no total, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE. A soja respondeu por um terço, com R$ 315,2 bilhões e uma safra recorde de 165,3 milhões de toneladas, crescimento de 14,4% em relação ao ano anterior. O milho ocupou a segunda posição, com R$ 122,1 bilhões (13,2%).
Na sequência, vieram a cana-de-açúcar, com R$ 108,9 bilhões (11,7%); o café, com R$ 100 bilhões (10,8%); e o algodão, com R$ 40,6 bilhões (4,4%). Laranja, arroz, mandioca e banana completaram o grupo das principais culturas, com participações de 2,5%, 2,1%, 2% e 1,8%, respectivamente, no valor total da produção.
Manter esses resultados neste ano depende de diferentes fatores. O solo faz parte dessa série de variáveis. Segundo Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), coordenador do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID), da FAPESP, é preciso considerar a duração do ciclo da planta, textura, estrutura e profundidade do solo, drenagem, topografia e sistema de produção. Suas pesquisas avaliam fatores ligados à capacidade da lavoura de atravessar tanto períodos secos quanto chuvas intensas.
Ele explica que áreas de cultivo que passam por preparo convencional, plantio direto na palha ou sistemas integrados não respondem da mesma maneira à mesma chuva.
“O efeito depende não somente da cultura [exemplo: ciclo curto versus culturas anuais versus semiperenes ou perenes] mas também do tipo de solo [arenoso, argiloso ou textura média], da drenagem [usualmente mais bem estruturada quando práticas de manejo sustentáveis são adotadas], da topografia [platô, encosta ou planície de deposição] e do sistema de produção”, afirma Cerri.
Foto: Marcos Vincentti/ Secom-Acre
Soja, milho, mandioca e cana-de-açúcar têm grande demanda hídrica. Plantadas em solo bem drenado, podem aproveitar uma estação mais chuvosa, especialmente quando a precipitação coincide com as fases críticas do ciclo. Em solos compactados ou com drenagem ineficiente, porém, há queda da oxigenação das raízes, o que altera a absorção de nutrientes e pode favorecer doenças e pragas. “Em geral, as mesmas culturas que podem ser beneficiadas por um aumento de chuvas podem também sofrer efeitos adversos dependendo das condições edáficas [características do solo] de onde estão sendo cultivadas”, explica Cerri.
Isso ajuda a entender por que o El Niño pode ser associado a ganhos de produtividade em uma série histórica e, ao mesmo tempo, provocar prejuízo em propriedades com solo compactado, descoberto ou sujeito a alagamentos. Em uma superfície sem a cobertura adequada, a chuva rompe os agregados do solo, favorece a formação de crostas e aumenta o escoamento.
“Em geral, solos com maior teor de matéria orgânica [carbono orgânico do solo] tendem a ter maior capacidade de armazenar água e disponibilizá-la às plantas”, diz Cerri.
Outros fatores influenciam efeitos do El Niño
Além do solo, a localização e fase da cultura fazem parte da equação, diz Marco Aurélio Takita, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e coordenador do Centro de Inovação para Aumento da Resiliência Agrícola Frente aos Estresses do Clima, parte dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), da FAPESP. O núcleo pesquisa estratégias para relacionar clima, solo, manejo e genética e elevar a resiliência da produção.
Takita lembra que as previsões para o fim de 2026 indicam chuva acima da média no Centro-Sul e abaixo da média, principalmente, no Norte e no Nordeste, enquanto a temperatura tende a permanecer elevada em quase toda a América do Sul. “Esse padrão contrastante de chuva, somado às temperaturas acima da média, permite antecipar um quadro de redistribuição regional, e não de perda ou de ganho generalizado”, afirma.
Seca extrema no município de Benjamin Constant, no Alto Solimões: municípios isolados e com falta de alimentos e água potável. Foto: Reprodução/Defesa Civil AM
A distribuição dos efeitos dá uma ideia do delicado equilíbrio que condiciona o benefício a uma determinada cultura. Na região Sul do país, no sul de São Paulo e em Mato Grosso do Sul, a maior oferta de água na primavera e no verão tende a favorecer soja, milho e pastagens de sequeiro. No Rio Grande do Sul, o arroz irrigado pode se beneficiar da recomposição dos reservatórios.
O benefício, porém, não é automático. No Sul, o efeito depende da estação e da cultura. No verão, soja e milho de sequeiro tendem a ganhar com mais água, e a perda, quando ocorre, se manifesta menos como quebra de produtividade e mais como redução de qualidade e de dias úteis de operação, salvo quando o excesso de chuva cai na maturação e na colheita. No inverno é o contrário: trigo e aveia têm quebra de produtividade documentada.
Fábio Marin, professor da Esalq-USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Agrícolas, reforça essa análise. Ele, que pesquisa séries históricas, indicadores agrometeorológicos, efeitos das mudanças climáticas na agricultura e modelos que simulam o desenvolvimento das culturas, diz que o “El Niño não adiciona nem subtrai produtividade de forma uniforme pelo país”. “Ele redistribui água e energia, e o sinal do efeito em cada lavoura depende de qual era o fator limitante naquele sistema.”
Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão na faixa do país em que a relação entre o fenômeno climático, a chuva de primavera e verão e a produtividade é mais bem documentada. “No Sul, vale uma leitura honesta do que é esse ganho: boa parte dele é perda evitada”, diz Marin.
É uma constatação da importância da ciência para o setor. Para a soja, por exemplo, a chuva em excesso durante a germinação e o surgimento das plantas pode reduzir o número de plantas que se estabelecem na lavoura. Durante a maturação e a colheita, a umidade favorece a deterioração dos grãos e o aparecimento de doenças. A avaliação do volume total de chuva, isoladamente, esconde diferenças.
Para o milho, um veranico de 10 a 15 dias durante a fase reprodutiva pode causar mais dano do que um déficit hídrico maior, distribuído em outros momentos. O calor em torno de 35 0C ameaça o pólen do milho e pode provocar abortamento de flores e vagens na soja. Com evaporação elevada, a planta fecha os estômatos e perde produtividade mesmo quando ainda existe água no solo.
No caso do arroz irrigado gaúcho, as chuvas podem garantir os reservatórios que serão utilizados, mas os períodos nublados reduzem a radiação solar e limitam o enchimento dos grãos. O trigo também pode perder no ambiente úmido: chuva no florescimento favorece a giberela, uma doença causada por fungos. Além disso, perto da colheita, pode provocar germinação na espiga e queda da qualidade comercial. O produtor pode ter mais volume de colheita e receber menos pelo produto.
Os efeitos do El Niño se espalham pelo país. Nas regiões Norte e Nordeste, menos chuva aumenta os riscos para milho e feijão de sequeiro e para a pecuária. É fato, mas não certeza, que vá acontecer. Marin explica que a temperatura do oceano Atlântico na região tropical sul, por exemplo, pode amenizar ou até anular parte dos efeitos negativos no Nordeste.
As variáveis valem também para o Centro-Oeste, uma zona de transição. Isso pode levar a mais dificuldade na interpretação e prognóstico. O problema pode começar no calendário: se a estação chuvosa atrasa, a soja é semeada e colhida mais tarde, diminuindo a janela do milho de segunda safra. O El Niño pode, assim, comprometer uma cultura meses antes de seu plantio. O norte de Mato Grosso e o entorno da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) também ficam expostos à combinação entre chuvas tardias e veranicos.
Não existe hoje uma cana-de-açúcar imune a um super El Niño. Não há uma solução genética disponível contra encharcamento prolongado ou contra a redução de radiação provocada por longos períodos nublados
A genética também é uma variável que ajuda a definir benefícios ou prejuízos às culturas agrícolas. Mariângela Cristofani-Yaly, pesquisadora do IAC e do CCD-Crop (Citrus, Coffee and Cane Research Organization for Innovative Products), estuda citros, café e cana-de-açúcar por meio de avaliações fisiológicas, genéticas e biotecnológicas. O núcleo identifica materiais mais tolerantes aos estresses e investiga como diferentes genótipos respondem à seca, às altas temperaturas e à disponibilidade de água.
A cana-de-açúcar também mostra por que uma cultura pode ser favorecida e prejudicada na mesma safra. Chuvas bem distribuídas favorecem folhas, colmos e biomassa.
“A cana-de-açúcar pode ser particularmente beneficiada pelo El Niño quando há maior disponibilidade hídrica durante as fases de estabelecimento, perfilhamento e, principalmente, de crescimento vegetativo intenso, período em que a cultura apresenta elevada demanda por água”, afirma Cristofani-Yaly.
Na maturação, a necessidade muda. Um período seco interrompe o crescimento vegetativo e favorece o acúmulo de açúcar. Chuva abundante pode atrasar esse processo, reduzir a concentração de sacarose e diminuir os dias disponíveis para a colheita e o processo de moagem. “Para a cana, não é apenas a quantidade de chuva que importa, mas a regularidade de uma oferta hídrica adequada nos períodos de maior crescimento e a escassez de chuvas no período de maturação”, diz a pesquisadora.
O Crop busca formas de reduzir as vulnerabilidades da cana. Nos últimos cinco anos, a equipe investigou genes relacionados à tolerância à seca, comparou genótipos, estudou sua expressão gênica e avaliou a alteração genética. Os resultados foram plantas que mantiveram o crescimento sob estresse hídrico e acumularam mais biomassa. Parte das tecnologias está protegida por propriedade intelectual.
Isso não significa uma cana imune a um super El Niño. Segundo Silvana Creste, pesquisadora da Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento de Cana, do IAC, não existe hoje solução genética disponível contra encharcamento prolongado ou contra a redução de radiação provocada por longos períodos nublados. “O melhoramento confere proteção consistente contra estresses de intensidade moderada, e atua sobretudo reduzindo a perda em anos desfavoráveis, mais do que elevando o teto produtivo em anos favoráveis”, diz.
Nos citros, o programa de porta-enxertos teve resultados mais imediatos. Ensaios com diferentes combinações de copa e porta-enxerto mostram que o material escolhido altera a capacidade de manter o sistema radicular ativo e fixar frutos sob altas temperaturas e evaporação elevada. Cristofani-Yaly cita três porta-enxertos mais tolerantes à seca, IAC 3152 Itajobi, IAC 3299 Muriti e IAC 3222. Os dois primeiros já estão disponíveis para os produtores.
No café, floração, pegamento e desenvolvimento inicial dos frutos também são períodos sensíveis. A floração responde à distribuição das chuvas. Déficits prolongados ou umidade excessiva podem afetar o desenvolvimento reprodutivo. Em anos chuvosos, as perdas de qualidade também podem ocorrer na colheita, na secagem e na pós-colheita.
Equilíbrio delicado
A sanidade completa o quadro. Condições favoráveis ao crescimento das plantas podem ser benéficas, ao mesmo tempo, para organismos que reduzem a produção. “Os efeitos sobre o crescimento da planta e sobre sua sanidade acontecem ao mesmo tempo”, afirma Mário Eidi Sato, pesquisador do Instituto Biológico e responsável pelo Centro de Manejo Sustentável de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas (Cemasu), outro CCD da FAPESP.
Para que uma doença se instale na planta é preciso que exista uma “condição ideal”, ou seja, a coincidência entre patógeno, planta suscetível e ambiente favorável. Mais do que o volume mensal de chuva, importa o tempo em que folhas, flores e frutos permanecem molhados. Chuvas repetidas prolongam as oportunidades de infecção.
Nos citros, as chuvas frequentes na florada favorecem a podridão floral por espécies de fungo Colletotrichum e a queda de frutos jovens. No café, o volume de água necessário ao desenvolvimento pode coincidir com condições favoráveis à ferrugem. Em hortaliças a céu aberto, a umidade prolongada das plantas e a drenagem deficiente favorecem doenças foliares e podridões. Na cana, solo úmido pode beneficiar a cigarrinha-das-raízes, mesmo quando a água favorece o crescimento dos colmos. As pragas, por sua vez, podem reagir no sentido oposto. Calor e tempo seco favorecem o bicho-mineiro do cafeeiro em determinadas regiões.
O clima interfere também nas ferramentas de controle. Temperatura, umidade e chuva alteram inimigos naturais, agentes biológicos e biopesticidas. O calor extremo pode comprometer parasitoides e a baixa umidade limita a eclosão dos ovos de alguns ácaros predadores. A previsão sazonal prepara a estratégia, mas a decisão operacional depende do microclima e do monitoramento da lavoura.
De acordo com o diretor-presidente executivo da Copercana, informação e planejamento são ferramentas das quais o produtor não pode abrir mão para enfrentar o fenômeno climático.
“Os tratos culturais precisam ser feitos com mais planejamento. Os insumos precisam ser muito bem aplicados para não haver desperdício de produto já que teremos solos encharcados”, afirma Francisco César Urenha. “O produtor precisa estar atento e bem informado para conduzir o seu canavial e evitar prejuízos.”
Dados de um projeto da CNA e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), chamado Campo Futuro, reforçam o alerta de Urenha. Os resultados do programa apontaram um aumento de até 400% no custo de aplicação de fungicidas em regiões do Rio Grande do Sul durante anos de El Niño.
A mitigação de impactos como esse, em um cenário de fenômeno climático muito forte, como se apresenta o El Niño neste ano com probabilidade cada vez maior, exige conservação do solo, planejamento climático e proteção financeira, diz Ana Lígia Lenat, coordenadora de Inteligência e Projetos da CNA. “Apesar do comprovado valor técnico dessas soluções, uma parcela expressiva dessas medidas de adaptação permanece fora do alcance da maioria dos pequenos e médios produtores rurais. O principal obstáculo está na elevada necessidade de capital intensivo para a implantação de infraestruturas de proteção”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Emilio Sant’Anna
Devastação no Nepal, ocorrida por conta do derretimeneto de geleiras do Himalaia, exemplifica a diferença da mudança climática no singular e no plural. Foto: Travellersnep/Envato
Numa das minhas primeiras visitas ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), fui imediatamente corrigido pelo professor Niro Higuchi, uma referência nacional em floresta Amazônica, quando usei a expressão “mudanças climáticas”. “Não use o plural. O correto é ‘mudança climática’”, ensinou.
Minha primeira reação foi pensar que tudo não passava de preciosismo. Um excesso acadêmico, certamente. Mas depois aprendi que esta sutil diferença carrega uma importante mensagem que faz toda a diferença.
O artigo do geoquímico Wallace Broecker, publicado em 1975 na revista Science, intitulado Climatic Change: Are We on the Brink of a Pronounced Global Warming?”, chamou atenção para uma alteração de estado no sistema terrestre. O uso da expressão “climate change” no singular refletia a visão termodinâmica e física de uma transição de um equilíbrio climático para outro.
Wallace Smith Broecker (1931–2019) foi um dos mais influentes geoquímicos e paleoclimatologistas do século XX. Professor da Universidade de Columbia e pesquisador no renomado Lamont-Doherty Earth Observatory, Broecker dedicou sua carreira a desvendar o papel dos oceanos na regulação climática, sendo o pioneiro a conceituar a Circulação Termoalina Global (correntes oceânicas profundas) e a demonstrar que o clima da Terra pode sofrer mudanças abruptas e não lineares.
O artigo de 1975 surgiu em um momento de intenso debate e aparente contradição científica. Entre as décadas de 1940 e o início dos anos 1970, os registros meteorológicos globais indicavam um leve resfriamento nas temperaturas médias da superfície terrestre. Esse declínio temporário alimentou especulações na imprensa e entre alguns cientistas sobre a iminência de uma nova era glacial, ofuscando as preocupações com as emissões de dióxido de carbono decorrentes da queima de combustíveis fósseis.
Broecker demonstrou no artigo que o resfriamento observado nas décadas anteriores não anulava o aquecimento global, mas decorria de uma combinação entre a poluição por aerossóis e ciclos naturais de resfriamento em escala multidecadal, identificados a partir de amostras de gelo da Groenlândia (Camp Century).
No artigo, ele argumentou que essa fase de arrefecimento natural estava mascarando o aquecimento gerado pelo aumento exponencial do dióxido de carbono (CO₂) atmosférico. Assim que esse ciclo natural revertesse de fase, o efeito estufa antropogênico dominaria o balanço térmico do planeta.
Com notável precisão, Broecker previu que nas primeiras décadas após a virada do século XXI, o planeta entraria em uma trajetória de aquecimento pronunciado. Além de seus cálculos, o artigo entrou para a história por popularizar a expressão global warming (aquecimento global), deslocando a atenção da comunidade internacional para os riscos da intervenção humana no equilíbrio termodinâmico global.
Conceitualmente, expressão surgiu no singular
Quando o tema ganhou a arena diplomática no final da década de 1980, o singular continuou a ser a norma nos documentos oficiais. Em 1988, a Assembleia Geral da ONU aprovou a histórica Resolução 43/53, que tinha como título “Proteção do clima global para as gerações presentes e futuras”. A resolução chamava a atenção para que a conservação do clima fosse entendida como uma importante herança para as futuras gerações.
Aqui, vale destacar a diferença entre tempo e clima. Tanto o trabalho de Broecker quanto a resolução da ONU trazem o clima como elemento central. De certa forma, para a grande maioria das pessoas, a sensação diária expressa pelo tempo acaba sendo muito mais relevante que a compreensão a longo prazo determinada pelo clima…
Enquanto o tempo (weather) corresponde às condições e eventos atmosféricos de curto prazo que ocorrem a cada dia (como chuva, vento e oscilações diárias de temperatura). O clima (climate) descreve o padrão e o comportamento médio dessas condições em uma determinada região ao longo de um extenso período temporal. Tradicionalmente, o clima é analisado por meio de médias de 30 anos (conhecidas como Normais Climatológicas). Esta concepção de longo prazo molda, como veremos a seguir, a ideia de uma mudança de padrão climático.
Na esteira da Resolução 43/53, os tratados multilaterais da Rio-92 consolidaram a expressão jurídica no singular. Como pode ser visto na criação da United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC, em português: Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima).
Na língua inglesa, a palavra change da expressão climate change é tratada como um substantivo incontável. A forma no plural, climate changes, soa estranha, não idiomática, e é raramente empregada na literatura técnica ou na imprensa anglófona. Por outro lado, em línguas latinas, notadamente o português, o uso do plural começou a ganhar força a partir da década de 1990, impulsionado pela divulgação dos relatórios do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change, criado em 1988 ).
Essa divergência entre os idiomas decorre fundamentalmente de características gramaticais e semânticas próprias da tradição latina. Em português (mudanças climáticas), espanhol (cambios climáticos) e francês (changements climatiques), o substantivo derivado do latim é eminentemente contável. Esses idiomas têm uma tendência natural a pluralizar conceitos abstratos para descrever suas manifestações práticas, dinâmicas e empíricas.
Mudanças climáticas: a popularização do plural
Quando tratados e relatórios da ONU e do IPCC começaram a ser traduzidos do inglês para as línguas latinas no final dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, os tradutores e cientistas naturalmente adotaram o plural para sinalizar que o fenômeno não era apenas uma alteração única de temperatura, mas sim um conjunto amplo e interconectado de perturbações (regimes de chuva, ventos, eventos extremos, nível do mar).
Curiosamente, a diplomacia estrita e o direito internacional, optaram por espelhar o singular do inglês de forma literal: por exemplo, na tradução de IPCC: Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. No entanto, fora desse nicho jurídico, o plural popularizou-se.
No Brasil, a transição e a popularização do plural “mudanças climáticas” ocorreram de forma marcante ao longo da década de 2000. Durante toda a década de 1990, o debate público e governamental no país esteve fortemente condicionado pelo vocabulário diplomático herdado da Rio-92.
Nesse período inicial, os círculos governamentais, o Ministério do Meio Ambiente e a diplomacia do Itamaraty utilizavam quase exclusivamente o singular, espelhando o texto da Convenção-Quadro da ONU. O tema ainda circulava restrito a fóruns multilaterais e a grupos especializados, onde o foco recaía sobre o balanço radiativo global como um processo termodinâmico único.
O cenário começou a mudar quando o debate extravasou os gabinetes diplomáticos e ganhou as redações dos grandes jornais, as ONGs socioambientais e os programas de pós-graduação multidisciplinares.
Eventos climáticos de grande repercussão na época, como o Furacão Catarina em 2004 e a seca histórica na Amazônia em 2005, somados ao impacto da divulgação do 4º Relatório do IPCC (AR4) e ao documentário “Uma Verdade Inconveniente” em 2007, geraram uma explosão de cobertura midiática. A imprensa brasileira e a divulgação científica adotaram o plural “mudanças climáticas” para traduzir a diversidade de impactos perceptíveis no cotidiano da população, como secas, enchentes, ondas de calor e perdas agrícolas.
A consagração do plural na comunidade científica brasileira ficou evidente na institucionalização das grandes redes de fomento e pesquisa criadas no fim daquela década. Em 2007, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação estruturou a Rede CLIMA (formalizada como Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais), e, em 2008, a FAPESP lançou seu Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais.
A partir desse momento, estabeleceu-se a divisão que persiste até hoje no país. A esfera estritamente jurídica e legal manteve o singular por tradição formal, como na Lei Federal 12.187/2009, que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). O meio acadêmico (de modo geral), a imprensa, as organizações civis e o público geral consolidaram o plural como a forma espontânea de comunicação.
Por que a expressão no singular é cientificamente mais correta
Aqui, gostaria de defender o uso do termo no singular: mudança climática ou mudança do clima. É fundamental apresentar o fenômeno como um processo integrado, sistêmico e termodinamicamente unificado, superando a fragmentação perceptiva que o plural muitas vezes induz.
Do ponto de vista da física do sistema Terra, o que a humanidade enfrenta não é uma multiplicidade desconexa de fenômenos climáticos isolados. Mas sim uma alteração global do estado de equilíbrio do balanço de energia do planeta. Ao utilizar o singular, reforça-se o caráter estrutural e matricial do problema: o acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera altera a retenção de radiação infravermelha, gerando um desequilíbrio radiativo contínuo.
O uso do plural (mudanças climáticas) tende a direcionar o foco cognitivo e comunicacional para as consequências locais e episódicas, como secas em uma bacia hidrográfica, enchentes em outra região, elevação do nível do mar ou variações sazonais de temperatura.
Embora vitais para a avaliação de risco e mitigação de perdas, esses eventos são manifestações empíricas e sintomas de uma causa subjacente única. Tratar o macroprocesso no singular resgata a causalidade primária e evita que o debate público trate alterações hidrológicas, meteorológicas e térmicas como crises paralelas ou desarticuladas.
A discussão entre singular ou plural, como eu inicialmente pensei, não é um mero rigor acadêmico. Adotar o singular, portanto, confere rigor e clareza ao discurso. Estabelece que o que estamos observando é uma transformação profunda e singular na termodinâmica que sustenta a biosfera terrestre.
Autor
Eric Bastos Gorgens – Professor e Pesquisador da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). É bolsista Produtividade do CNPq, coordena e participa de projetos de pesquisa na área florestal financiados pelo CNPq e pela FAPEMIG.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração do pesquisador Eric Bastos. Leia o original AQUI.
Uma castanheira no meio da floresta pode contar uma história. A presença de determinadas plantas em uma área também. Na Amazônia, parte da vegetação que hoje cobre a paisagem guarda vestígios de escolhas, conhecimentos e práticas de povos que vivem na região há milhares de anos. Foi seguindo esses sinais que a bióloga Mariana Franco Cassino encontrou uma forma de compreender a floresta em toda a sua complexidade, não como um lugar separado das pessoas, mas como um lugar onde seres humanos, plantas e animais constroem relações que atravessam gerações.
Doutora pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Mariana investigou paisagens com pelo menos três mil anos de história de ocupação humana na Amazônia Central. O trabalho teve como foco o sítio arqueológico Ponta da Castanha, na Floresta Nacional de Tefé (AM), e reuniu botânica, arqueologia, ecologia, antropologia e epistemologias indígenas.
A pesquisa recebeu o Prêmio CAPES de Tese 2026 na área de Biodiversidade. Na semana subsequente ao Dia da Natureza, celebrado em 4 de outubro, o trabalho ajuda a compreender algo essencial sobre a maior floresta tropical do planeta.
Conhecer a Amazônia exige ciência, pesquisa de campo, formação de pesquisadores e disposição para compreender também os conhecimentos produzidos por quem construiu sua história e vive nela.
Mariana estuda as chamadas florestas culturais. O nome pode parecer complexo, mas a ideia é simples. São florestas cuja estrutura e composição de espécies também resultam do manejo realizado por pessoas ao longo do tempo. A pesquisa mostrou que povos amazônicos do passado e do presente contribuíram para a formação de paisagens diversas, moldadas por diferentes escolhas e práticas.
Essas escolhas ainda podem ser percebidas. O estudo indica que populações amazônicas favorecem uma grande diversidade de plantas alimentícias desde períodos iniciais da ocupação humana. A presença e a abundância de determinadas espécies ajudam, portanto, a contar uma história que nem sempre está escrita em documentos. Ela permanece na própria floresta.
O que a pesquisa permite compreender é mais preciso. Durante milhares de anos, sociedades amazônicas também influenciaram a composição de partes dessas paisagens.
A floresta encontrada hoje não é resultado de uma única ação nem permaneceu imóvel no tempo. Mariana identificou mosaicos florestais com grande riqueza e abundância de alimentos e diferentes comunidades de plantas e animais, formados por trajetórias locais e dinâmicas.
A participação humana é apenas uma parte dessa história.
Foto: Bernardo Oliveira/Cedida
Cutias, castanheiras, samaúmas e pessoas
Foi durante sua trajetória acadêmica que Mariana começou a perceber que separar seres humanos e natureza não seria suficiente para explicar aquilo que encontrava.
Bióloga trabalhando com arqueologia amazônica, ela estava inserida em um ambiente interdisciplinar e mantinha diálogo com antropólogos indígenas e não indígenas. Ao observar como populações locais compreendiam o manejo da floresta, percebeu que as práticas humanas apareciam ligadas às ações de outros seres. Entre eles estavam cutias, castanheiras, samaúmas, antas e tantos outros, inclusive seres que permeiam as cosmologias indígenas, como os donos e as mães das matas, dos rios, entre outros.
A pergunta da pesquisadora cresceu a partir daí. Como todas essas relações, acumuladas no tempo e distribuídas pelo território, participam da construção e da manutenção das florestas amazônicas?
Buscar uma resposta exigiu atravessar as fronteiras tradicionais entre áreas do conhecimento. Botânica, ecologia e arqueologia passaram a conversar com a antropologia e com formas indígenas de compreender a floresta.
“Pessoas, plantas, animais e outros seres constituem, transformam e mantêm as florestas por meio de redes de relações, agindo e transformando uns aos outros de diferentes maneiras”, explica Mariana.
A frase ajuda a traduzir uma das ideias centrais de anos de investigação. A floresta não é apenas o lugar onde essas relações acontecem. Ela também é resultado delas.
Entre as proposições da tese está uma mudança que parece pequena nas palavras, mas altera a maneira de investigar o passado. Mariana propõe que plantas na Amazônia também possam ser tratadas como artefatos culturais.
Um objeto encontrado em um sítio arqueológico pode fornecer pistas sobre quem esteve ali, como vivia e o que fazia. A pesquisa de Mariana mostra que a vegetação também pode carregar informações sobre as histórias humanas de um território.
Uma comunidade de plantas passa, assim, a fazer parte das evidências que ajudam a compreender o passado.
A tese questiona a ideia de uma natureza dissociada das histórias das pessoas. Também propõe que plantas, animais e outros seres não sejam vistos apenas como elementos passivos de um ambiente transformado exclusivamente pela ação humana. Todos participam, de maneiras diferentes, das redes que constituem, mantêm e modificam as florestas.
É nesse ponto que a pesquisa científica também se aproxima dos conhecimentos indígenas. Em vez de considerar que apenas uma forma de conhecimento pode explicar a Amazônia, o trabalho estabelece diálogo entre o pensamento científico e maneiras indígenas de compreender o mundo.
Para Mariana, essa aproximação pode ampliar a capacidade de compreender as relações responsáveis pela transformação da biodiversidade amazônica.
Foto: André Antunes/Cedida
Conhecer a Amazônia também é protegê-la
O que aconteceu há milhares de anos ajuda a responder perguntas do presente.
Se a biodiversidade de parte das florestas amazônicas também carrega a história das populações que vivem e viveram nesses territórios, conservar a região exige compreender essas relações. Para Mariana, estratégias de conservação podem considerar as práticas, as histórias e os sistemas de conhecimento das populações que há gerações vivem e transformam as florestas.
É também aí que a produção científica brasileira ultrapassa os limites de uma tese.
Produzir conhecimento sobre a Amazônia significa conhecer a biodiversidade, a história e as populações de uma região fundamental para o Brasil e para o equilíbrio ambiental do planeta. Significa formar pesquisadores capazes de estudá-la a partir do país e ampliar a capacidade brasileira de compreender o próprio território.
Ciência e soberania caminham juntas quando o conhecimento produzido no Brasil oferece ao país instrumentos para conhecer, conservar e tomar decisões sobre seu patrimônio natural. Na Amazônia, uma região que desperta interesse científico, ambiental e econômico em todo o mundo, produzir conhecimento próprio também fortalece a capacidade brasileira de definir caminhos para seu território e sua biodiversidade.
No trabalho de Mariana, isso começa pelo reconhecimento de uma Amazônia cuja história não pode ser contada sem seus povos. A biodiversidade encontrada hoje também guarda conhecimentos e práticas desenvolvidas durante gerações. Preservá-la envolve compreender essa memória.
Anos de pesquisa reconhecidos
Uma tese de doutorado não nasce no momento em que é defendida. Antes da versão final, existem anos de estudo, perguntas refeitas, trabalho de campo, leitura, análise, diálogo com outros pesquisadores e resultados que precisam ser testados e compreendidos.
O Prêmio CAPES de Tese reconhece trabalhos de destaque concluídos nos programas de pós-graduação brasileiros. Ao premiar a pesquisa de Mariana na área de Biodiversidade, a edição de 2026 dá visibilidade a uma produção científica que aproxima diferentes disciplinas e conhecimentos para investigar a Amazônia.
Para Mariana, o significado desse reconhecimento está ligado justamente ao caminho escolhido durante a pesquisa.
“Este prêmio representa o reconhecimento da importância de integrar diferentes perspectivas e saberes para ampliar nossas formas de compreender e viver a Amazônia e de pensar caminhos diante das crises socioambientais que enfrentamos”, afirma.
A pesquisadora também vê na premiação um incentivo ao desenvolvimento de uma ciência intercultural, em que disciplinas acadêmicas possam dialogar de maneira justa e simétrica com as ciências indígenas.
“Para mim, é um sinal de que esse é um caminho importante para a ciência que queremos construir”, afirma Mariana.
A pesquisa começou com uma pergunta sobre as florestas culturais amazônicas e revelou quantas histórias podem existir onde alguém vê apenas árvores. Histórias preservadas em castanheiras, alimentos, animais, vestígios arqueológicos e conhecimentos transmitidos por gerações.
Conhecê-las exige ciência. Produzir esse conhecimento no Brasil permite que o país compreenda, com seus pesquisadores e em diálogo com os povos da região, uma parte fundamental do território que precisa conhecer para conservar.
Estudo apresenta uma análise sobre o perfil da nova composição do Câmara dos Deputados e do Senado Federal para o período 2027-2030. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O Observatório do Clima elaborou o estudo ‘Mapa do Novo Congresso: Perfil Ambiental da 58ª Legislatura’ em que apresenta uma análise da composição da Câmara dos Deputados e do Senado Federal para o período de 2027 a 2030.
Documento está disponível para download no link. Foto: Reprodução/WWF-Brasil
O estudo utiliza como principal referência o Índice de Convergência Ambiental (ICAt), do Farol Verde, plataforma do Instituto Democracia e Sustentabilidade.
O indicador considera o quanto a atuação e os votos dos parlamentares se aproximam da agenda de proteção ambiental e climática, distribuindo-os entre as faixas Muito Baixa, Baixa, Boa e Muito Boa de convergência.
Nos casos em que não havia dados individuais disponíveis, o estudo utilizou como referência principalmente a média de convergência ambiental dos partidos, complementada por uma análise dos partidos e a trajetória dos parlamentares, considerando atuação em cargos públicos, políticas adotadas e posicionamentos relacionados à agenda socioambiental.
O levantamento ressalta que a classificação partidária não determina, por si só, como cada parlamentar votará.
De acordo com o estudo, 409 das 594 cadeiras do Congresso Nacional, ou 68,9% estão nas faixas Baixa ou Muito Baixa de convergência ambiental. No Senado, são 64 dos 81 parlamentares, o equivalente a 79%; na Câmara dos Deputados, 345 dos 513, ou 67,3%.
O estudo também apresenta informações sobre a composição partidária das duas Casas, renovação parlamentar e características do perfil dos eleitos, oferecendo elementos para compreender a configuração do Congresso que inicia seus trabalhos em 2027.
*Conteúdo publicado originalmente pelo WWF-Brasil, com informações de Lays Cristina Araujo
Plataforma RedeAr leva sensores para monitoramento da qualidade do ar em regiões distante da Amazônia Legal. Foto: Divulgação/IPAM Amazônia
A RedeAr, plataforma desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), foi premiada pelo fundo EPIC Air Quality Fund pelo trabalho de ampliar a cobertura e a disponibilidade de informações sobre a qualidade do ar na Amazônia. O prêmio reconhece iniciativas que ampliam o acesso a essas informações e transformam dados em evidências para orientar ações e políticas públicas.
Com a conquista, o financiamento permitirá ampliar e fortalecer a RedeAr, com a instalação de 40 novos sensores e a manutenção dos equipamentos já em operação. A expansão priorizará áreas da Amazônia Legal com pouca ou nenhuma cobertura, especialmente regiões afetadas por queimadas.
“Para nós, essa conquista representa o reconhecimento da importância de levar o monitoramento da qualidade do ar a uma região que ainda possui grandes lacunas de dados e, principalmente, de transformar essas informações em uma ferramenta para a sociedade e para a tomada de decisão”, relata Vanessa Ribeiro, pesquisadora do IPAM e uma das idealizadoras da plataforma.
Embora a Amazônia esteja entre as regiões brasileiras mais afetadas pela poluição provocada pelas queimadas, ainda possui poucos dados terrestres contínuos sobre a qualidade do ar. A lacuna de informações dificulta a identificação de onde, quando e por quanto tempo as populações estão expostas a concentrações elevadas de poluentes, sobretudo em áreas remotas onde vivem povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Plataforma RedeAr monitora a qualidade do ar em regiões de pouca cobertura na Amazônia Legal. Foto: Brigada Alter do Chão-Pará
O que é a RedeAr?
A RedeAr é uma plataforma de monitoramento da qualidade do ar desenvolvida para acompanhar em tempo real os índices de poluentes atmosféricos em todo o Brasil, especialmente onde vivem povos e comunidades tradicionais. Ela foca em três principais objetivos: visualização, armazenamento e disponibilidade dos dados de sensores de diferentes parceiros da rede de monitoramento.
Por meio de uma rede de sensores distribuídos estrategicamente, a plataforma coleta dados de material particulado (PM2.5 e PM10), umidade relativa do ar e temperatura, transformando essas informações em dados abertos e acessíveis para pesquisadores, gestores públicos e a sociedade civil.
Plataforma disponibiliza dados em tempo real sobre a concentração de material particulado na atmosfera, emitido principalmente por queimadas. Foto: Divulgação/IPAM Amazônia
O objetivo da RedeAr é fortalecer a rede de monitoramento da qualidade do ar no Brasil, fornecendo dados em tempo real para auxiliar na elaboração de políticas públicas que impactem positivamente na saúde da população. Os pesquisadores lançaram um novo sensor nacional, mais barato e adaptado ao clima tropical. Os dispositivos registram a qualidade do ar a cada dois minutos e foram projetados para funcionar mesmo em áreas com conectividade intermitente.
Com a expansão da rede, os dados poderão ajudar comunidades a conhecerem as condições ambientais de seus territórios, apoiar pesquisadores em análises sobre distribuição da poluição e fornecer aos gestores públicos evidências para identificar áreas prioritárias e planejar ações.
“Estamos construindo uma infraestrutura de informação ambiental capaz de aproximar o conhecimento produzido em campo das necessidades dos territórios e da gestão pública. É essa integração que pode fazer do monitoramento uma ferramenta efetiva para a qualidade do ar no país”, finaliza Ribeiro.
Mais informações sobre a RedeAr estão disponíveis no site da plataforma.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Nikole Cantoara
A música faz parte da identidade cultural da Amazônia e está presente em diferentes ritmos, manifestações populares e expressões artísticas. Em Manaus (AM), quem deseja aprender a tocar um instrumento, desenvolver a voz ou até mesmo seguir carreira na área encontra espaços dedicados à formação musical, com opções para diferentes idades, objetivos e condições financeiras.
Entre escolas públicas, instituições sociais e espaços culturais privados, a capital amazonense reúne iniciativas que vão além do ensino de instrumentos. Algumas também promovem apresentações, oficinas e atividades voltadas à inclusão social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento artístico.
Confira cinco escolas de música em Manaus:
1. Casa Som Amazônia
Com mais de seis anos de atuação, a Casa Som Amazônia é um espaço dedicado à educação musical, à criação e à difusão artística. O espaço reúne atividades de formação, apresentações, oficinas e iniciativas sociais, funcionando também como um ponto de encontro para quem busca desenvolver habilidades musicais.
Entre as opções oferecidas estão cursos de piano, canto, bateria, violão, guitarra e contrabaixo. A programação inclui ainda formações relacionadas à comunicação, à harmonia avançada e a outras áreas ligadas à música.
A Casa Som também está ampliando sua atuação com a chegada das artes visuais ao espaço. A iniciativa marca uma nova etapa do projeto, que passa a se consolidar como um complexo cultural, reunindo diferentes possibilidades de aprendizado e expressão artística.
Casa Som, escola de música para conhecer em Manaus. Foto: Divulgação
2. Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro
Para quem procura formação artística gratuita, o Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro é uma das opções disponíveis em Manaus. Mantida pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, a instituição oferece cursos em diferentes linguagens artísticas, incluindo música, dança, teatro e artes visuais.
Na área musical, os alunos podem encontrar formações em instrumentos, canto, coral e teoria musical, contemplando tanto a música popular quanto a erudita.
As atividades são distribuídas nas unidades da capital, o Sambódromo, no bairro Dom Pedro; a unidade Aníbal Beça, no Novo Aleixo; o Centro Estadual de Convivência da Família Magdalena Arce Daou, no Santo Antônio; e o Centro de Convivência Padre Pedro Vignola, na Cidade Nova.
Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, escola de música para conhecer em Manaus. Foto: Divulgação/SEC-AM
3. Conservatório de Música do Amazonas
Localizado no conjunto Morada do Sol, bairro Aleixo, o Conservatório de Música do Amazonas (CMA) oferece cursos para quem deseja iniciar os estudos musicais ou aperfeiçoar conhecimentos.
Entre as modalidades disponíveis estão piano clássico e popular, violão, guitarra, violino, bateria, contrabaixo e canto popular. Além disso, a instituição também oferece musicalização infantil, com turmas organizadas por faixas etárias, permitindo que crianças tenham contato com a música desde os primeiros anos de vida.
Além das aulas presenciais, o conservatório disponibiliza modalidades on-line, ao vivo e atendimento inclusivo, com propostas voltadas a diferentes necessidades de aprendizagem. A variedade de cursos permite que os interessados escolham entre instrumentos de corda, percussão, teclado e canto, de acordo com suas preferências e objetivos.
Para consultar informações sobre valores, horários, matrículas e modalidades, os interessados podem acessar o site oficial: cmamazonas.com.br.
Conservatório de Música do Amazonas. Foto: DivulgaçãoConservatório de Música do Amazonas. Foto: DivulgaçãoConservatório de Música do Amazonas. Foto: Divulgação
4. Escola de Música Art Sonora
A Escola de MúsicaArt Sonora é outra alternativa para quem deseja estudar música em Manaus. A instituição possui duas unidades na capital e oferece aulas de canto e instrumentos musicais para alunos a partir dos quatro anos.
A proposta atende tanto crianças que estão começando a explorar o universo musical quanto jovens e adultos interessados em aprender um instrumento ou desenvolver habilidades que já possuem.
Uma das unidades está localizada na Rua Campos Sales, nº 458, no bairro Dom Pedro. A segunda fica na Rua Ivanildo Alves, nº 1, no Conjunto Eldorado, bairro Parque 10 de Novembro.
Para quem está em busca de uma atividade extracurricular para as crianças ou deseja começar a estudar música, a Art Sonora pode ser uma opção a considerar. Antes da matrícula, vale consultar diretamente a instituição para confirmar os instrumentos disponíveis, os horários das turmas e as condições de inscrição.
Escola de Música Art Sonora. Foto: Divulgação
5. Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (OELA)
Fundada em 1998 pelo luthier e músico Rubens Gomes, conhecido como Mestre Rubão, a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia(OELA) une música, formação profissional e sustentabilidade.
Diferentemente das escolas voltadas principalmente ao aprendizado de instrumentos, a organização trabalha com a construção, a manutenção e a restauração de instrumentos musicais, especialmente os de corda. A formação também envolve técnicas de marchetaria, atividade artesanal que utiliza diferentes materiais para criar composições decorativas.
A instituição atende crianças, adolescentes, jovens e adultos de baixa renda ou em situação de vulnerabilidade social, utilizando a formação técnica como ferramenta de desenvolvimento e inclusão.
Outro destaque é o compromisso ambiental. A OELA trabalha com madeiras provenientes de manejo florestal sustentável, incluindo materiais doados, e desenvolve atividades que aproximam os alunos dos conhecimentos sobre a fabricação de instrumentos e o uso responsável dos recursos naturais.
Para consultar informações sobre cursos, processos seletivos e projetos sociais, os interessados podem acessar o site oficial da OELA.
Oficina Escola de Lutheria da Amazônia. Foto: Divulgação
No coração da Amazônia, uma área de mais de 6 milhões de hectares reúne florestas, rios, lagos, ilhas, várzeas e igapós em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. É o Complexo de Conservação da Amazônia Central, o maior território protegido da Bacia Amazônica e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.
A história do complexo na Lista do Patrimônio Mundial começou em 2000, quando o Parque Nacional do Jaú foi reconhecido pela Unesco. Em 2003, a área protegida foi ampliada com a inclusão do Parque Nacional de Anavilhanas e das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, formando o atual Complexo de Conservação da Amazônia Central.
A diversidade de ambientes também se reflete nas experiências que a região oferece. Passeios de barco, trilhas, observação de animais e visitas a comunidades estão entre as possibilidades para quem quer conhecer de perto a natureza amazônica.
Reconhecimento
A Unesco reconheceu o Complexo de Conservação da Amazônia Central pela importância de sua biodiversidade e pelos processos ecológicos que ocorrem na região. A dinâmica das águas, com cheias e vazantes ao longo do ano, transforma continuamente a paisagem e ajuda a manter diferentes ambientes essenciais para a fauna e a flora amazônicas.
Entre os destaques está Anavilhanas, um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo. A região abriga ainda a maior diversidade conhecida de peixes elétricos do planeta, com 64 espécies identificadas.
O complexo também protege animais característicos da Amazônia, como o pirarucu, a onça-pintada, a ariranha, o peixe-boi-da-amazônia, o jacaré-açu e duas espécies de botos de água doce. A região concentra ainda cerca de 60% das espécies de peixes registradas na bacia do Rio Negro e 60% das aves conhecidas na Amazônia Central.
Parque Nacional de Anavilhanas faz parte do Complexo de Conservação da Amazônia Central. Foto: Ivo Brasil
Áreas turísticas da Amazônia Central
Como o patrimônio reúne quatro grandes áreas protegidas, as experiências dependem do destino escolhido. Entre os destaques estão:
Parque Nacional de Anavilhanas: próximo a Manaus e Novo Airão, permite conhecer o arquipélago formado por centenas de ilhas e canais no Rio Negro. Passeios de barco estão entre as principais experiências.
Parque Nacional do Jaú: um dos maiores parques nacionais do Brasil, reúne rios, florestas e paisagens preservadas e pode ser conhecido em roteiros de turismo de natureza.
Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá: conhecida pelas florestas de várzea, oferece experiências de turismo de base comunitária e oportunidades de observação da fauna amazônica.
Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã: localizada entre as bacias dos rios Negro e Solimões, preserva florestas, lagos e ambientes aquáticos característicos da região.
Observação da fauna: botos, aves, macacos, jacarés e outros animais podem ser avistados em diferentes pontos do complexo, sempre respeitando as regras de visitação de cada área.
Experiências nos rios: passeios de barco e canoa permitem conhecer canais, lagos e áreas de floresta alagada e observar como a paisagem amazônica muda de acordo com o nível das águas.
O Complexo de Conservação da Amazônia Central pode ser visitado durante todo o ano, mas a experiência muda conforme o ciclo das águas:
Período de cheia: rios e lagos avançam sobre áreas de floresta, permitindo percorrer de barco trechos alagados e canais entre as árvores.
Período de vazante e seca: com a redução do nível dos rios, surgem praias e outros trechos de terra, modificando as paisagens e as possibilidades de passeio.
Observação da natureza: como cada unidade possui características e regras próprias, o período mais indicado depende do roteiro e das atividades escolhidas.
Antes da viagem, é importante verificar as condições de acesso e as regras de visitação da unidade de conservação que fará parte do roteiro.
Localização
Manaus é a principal porta de entrada para quem pretende conhecer o Complexo de Conservação da Amazônia Central. A capital amazonense possui aeroporto com voos de diferentes regiões do Brasil e conexões internacionais.
A partir de Manaus, o acesso varia conforme a área escolhida. Novo Airão é uma das principais bases para conhecer o Parque Nacional de Anavilhanas e pode ser acessada por estrada a partir da capital. Para áreas mais distantes, como Jaú, Mamirauá e Amanã, parte dos deslocamentos é feita por rios e pode exigir embarcações e planejamento específico.
Como as distâncias são grandes e muitas áreas possuem regras próprias de acesso, é recomendável organizar a viagem previamente e consultar as orientações das unidades de conservação.
Patrimônio Mundial
A Lista do Patrimônio Mundial reúne locais reconhecidos pela Unesco por sua importância cultural, natural ou histórica para a humanidade. Os bens inscritos são considerados de Valor Universal Excepcional e passam a integrar uma relação internacional de patrimônios cuja preservação é de interesse mundial.
O Brasil possui atualmente 26 bens inscritos na lista, distribuídos entre as categorias Cultural, Natural e Mista.
A imagem do dia em que o Posto Vilhena foi fundado. Foto: Divulgação
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Nesta segunda-feira, feriado de 12 de outubro, Dia das Crianças e de Nossa Senhora Aparecida, Vilhena celebra uma efeméride que quase ninguém lembra: há 115 anos, a localidade era fundada pela Comissão Rondon. No início da tarde daquela quinta-feira de 1911 foi inaugurado o que seria o marco zero da futura povoação: o Posto Telegráfico Álvaro Vilhena.
A fundação foi uma festa. Ao som de violões e de músicas tocadas num gramofone, com danças improvisadas, gente morena vinda de toda parte – dos seringais, das aldeias – chegou para celebrar. Descalços, misturavam-se aos guarda-fios, telegrafistas, civis e militares da Comissão Rondon, unidos pela inauguração do telégrafo. Foi o primeiro erguido no que é hoje o território de Rondônia, ainda então parte de Mato Grosso.
Foi ali que nasceu o termo “vilhenense”. O nome Vilhena foi uma homenagem feita por Rondon ao engenheiro maranhense Álvaro de Melo Coutinho de Vilhena, ex-diretor-geral da Repartição dos Telégrafos Nacionais, morto em 1904 e sepultado no Rio de Janeiro, então capital do país. Curiosamente, o engenheiro Vilhena nunca conheceu ou ouviu dizer da cidade que leva seu nome. Alguns historiadores se equivocam na afirmação de que ele foi “chefe” de Rondon, a quem não chegou ser a conhecer, pois a Comissão Rondon só foi instituída em 1907, ou seja, três anos após a morte de Álvaro Vilhena, aos 48 anos, vítima de câncer.
A região, território indígena Nambiquara, antes conhecida como Serra do Norte, Campos de Floriano ou Campos da Comemoração, passou então a se chamar Vilhena.
Em 1915, em Santo Antônio do Rio Madeira, o coronel Cândido Rondon instalou a sede do 3º Distrito Telegráfico de Mato Grosso, responsável por coordenar uma vasta rede na região. O Posto Vilhena ficava no meio do caminho, estrategicamente localizado a cerca de 700 km tanto de Cuiabá quanto do Rio Madeira.
De posto a município
Em 1929, Vilhena foi desmembrada de Santo Antônio do Rio Madeira e incorporada a Guajará-Mirim. Em 1931, a Repartição Geral dos Telégrafos foi extinta e incorporada à Diretoria-Geral dos Correios, que depois se tornaria a ECT.
Em 1943, com a criação do Território Federal do Guaporé, Vilhena deixou de pertencer a Mato Grosso e foi anexada a Porto Velho – que, curiosamente, até então era parte do Amazonas e tornou-se capital do novo território, formado em sua maior parte por terras mato-grossenses.
Em 1960, no governo Juscelino Kubitschek, foi inaugurada a BR-29, hoje BR-364, seguindo aproximadamente o traçado da linha telegráfica da Comissão Rondon. A estrada impulsionou a migração e fez surgir a Vila de Vilhena, a cerca de cinco quilômetros do antigo posto.
Em 1969, a Vila foi elevada a distrito de Porto Velho. No mesmo ano, o Posto Telegráfico foi definitivamente fechado e abandonado, entrando em ruínas na década seguinte.
Em 1977, Vilhena foi emancipada e elevada a município. Em 1980, o antigo posto foi revitalizado pela prefeitura por iniciativa de Roberto Scalercio Pires – oficial da reserva do 5º BEC e então secretário municipal – e rebatizado como Museu Casa de Rondon. Fechado em 1996, só voltaria a ser reaberto à visitação pública em 2024, após revitalização com recursos do Governo Federal.
Tombado pelo Iphan, em 2015, o Posto Telegráfico Álvaro Vilhena é o marco zero e a certidão de nascimento de Vilhena.
O engenheiro vilhenense Álvaro Vilhena, a razão do nome da cidade que, hoje, é o 2º IDH e 3º PIB de Rondônia. Foto: Divulgação
Simbolismo
O posto telegráfico foi inaugurado em 12 de outubro de 1911. A data foi escolhida de caso pensado porque era o Dia de Colombo, o “descobridor” da América em 1492, ao qual Rondon se referiu como “aquele que mostrava ser a natureza humana capaz de esforços incomparavelmente maiores [do que o habitual]”.
Cristóvão Colombo estava a caminho da Índia quando chegou, segundo a história oficial, por engano, à América Central – razão pela qual chamou os nativos de “índios”. Hoje, o navegador é chamado por alguns de “genocida de indígenas” e, por esse motivo, sua estátua foi retirada de Los Angeles, em 2018, e da Colômbia, em 2021, em meio a protestos.
Contraditoriamente, Rondon dizia que não admirava navegadores, a quem sempre rotulava de “invasores”. Ele enfatizava que se emocionava, isso sim, quando imaginava “a vida misteriosa dos indígenas nas selvas, sua natureza altiva e corajosa”.
Além de Colombo ser lembrado durante a fundação de Vilhena, houve outro detalhe: o posto telegráfico foi batizado com o nome de um não indígena, Álvaro Vilhena. Poderia ter havido alguma referência aos nativos do território, mas eles foram esquecidos na toponímia vilhenense, que exaltou apenas pessoas de origem europeia. Se houvesse coerência entre o pensamento e a ação afirmativa, o nome de Vilhena seria Nambiquara ou Parecis.
Nomes como Álvaro Vilhena, José Bonifácio, Roosevelt, Tenente Marques e Pimenta Bueno foram escolhidos – e todos são merecedores e contextualizados, não é o que se discute aqui – pelo próprio Rondon na toponímia local. Contudo, na região há nomes de origem indígena dados a cidades criadas a partir do território de Vilhena, a exemplo de Cabixi, Chupinguaia e Corumbiara, mas que não têm relação com Rondon.
Esse progresso teve um alto custo para ambos os lados. Dezenas de expedicionários morreram e aldeamentos foram dizimados pelo contato, que trouxe doenças, vícios e violência. O que consola é que, cedo ou tarde, esse encontro iria acontecer – e foi uma bênção que tenha ocorrido sob a égide de Rondon, um humanista reconhecido internacionalmente e três vezes indicado ao Nobel da Paz.
Pacifista, ele já previa os desdobramentos. Em 1907, ao presidente Afonso Pena, questionou, reflexivo: “O que as estradas trariam?”. Nem todos que o acompanhavam compartilhavam de seus propósitos e nem tudo foi registrado. Muitos fatos se perderam no tempo, com aqueles que morreram levando suas verdades secretas.
Por não ser socialista, mas sim comtista, ou seja, seguidor de Augusto Comte – “a ciência transforma o mundo”, dizia -, Rondon jamais pregou “igualdade”, mas sim, unidade. Não só de indígenas, mas de proletários às margens da civilização. É preciso, dizia ele, “ideal comum de fraternidade universal” para que houvesse justiça social de verdade.
Nem todos que acompanhavam Rondon compartilhavam de seus propósitos comtistas – havia ateus, católicos e evangélicos fervorosos entre eles, e alguns eugenistas militantes – e nem tudo o que aconteceu está formalmente registrado. Muitos fatos devem ter se perdido no emaranhado do tempo, desaparecendo junto com aqueles envolvidos. Todos morreram levando algumas verdades secretas.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Desova de tartarugas. Foto: Reprodução/Ideflor-Bio
A Justiça Federal determinou que órgãos ambientais federais e estaduais mantenham a fiscalização das praias de desova de tartarugas no baixo Rio Xingu, no Pará, até o fim da atual etapa reprodutiva. A decisão liminar, que saiu no dia 7 de outubro, atende em parte ao pedido do Ministério Público Federal (MPF) e busca evitar o abandono da proteção do Tabuleiro do Embaubal.
De acordo com a ação, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio) e o estado do Pará devem atuar de forma coordenada nas praias de desova e na rota migratória, até o encontro do Rio Xingu com o Rio Amazonas.
O estado e o Ideflor-Bio têm cinco dias para garantir e comprovar a infraestrutura necessária, incluindo base flutuante ou outro meio adequado para abrigar as equipes em campo. Além disso, devem apresentar em 10 dias um plano conjunto de fiscalização para todo o período reprodutivo. Depois, precisam enviar relatórios mensais das atividades.
Em cinco dias, os réus devem entregar, cada um conforme sua participação, os relatórios do ciclo anterior, encerrado em março deste ano. Os documentos devem informar as condições de acomodação das equipes e a situação da base de fiscalização.
Em caso de descumprimento das determinações, o responsável pagará multa diária de R$ 50 mil, limitada a R$ 500 mil no conjunto. A Justiça também inverteu o ônus da prova: cabe aos réus comprovar que adotam as medidas necessárias para evitar danos ao meio ambiente.
A decisão manteve a interdição da sede do Ideflor-Bio, do trapiche e da base fixa de fiscalização. As instalações seguem sem autorização de uso por risco à integridade física e à vida dos servidores e só poderão ser reabertas após reformas e comprovação técnica de segurança.
A ação estabeleceu prazo para as obras, mas determinou a apresentação de relatório sobre as intervenções feitas até agora. Ainda de acordo com a decisão, alguns pontos exigem análise mais detalhada, após manifestação dos réus. Por esse motivo, não foram acolhidos agora, mas poderão ser reapreciados no decorrer do processo.
Dessa forma, a Justiça não acolheu os pedidos do MPF para a contratação de agentes comunitários de praia, a obrigação de a empresa Norte Energia contratar duas bases flutuantes e sinalizar as praias, a volta do Programa Quelônios da Amazônia (PQA) às atividades, a formalização de um acordo de cooperação técnica entre Ibama e Ideflor-Bio e o pedido para manter todas as obrigações do licenciamento ambiental ligadas à proteção de tartarugas.
Desova de tartarugas no Tabuleiro do Embaubal. Foto: Reprodução/Ideflor-Bio
Área de desova de tartarugas abandonada pela fiscalização
O MPF já havia solicitado em dezembro de 2025 decisão urgente (liminar) para impedir o abandono da fiscalização no Tabuleiro do Embaubal, área de desova de espécies ameaçadas, como a tartaruga-da-amazônia, o tracajá e o pitiú. Na ocasião, vistorias apontaram precariedade nas bases, falta de equipamentos e risco de invasões e pesca predatória.