Óticas Carol reforça compromisso com inovação, qualidade e tecnologia em Rio Branco. Foto: Divulgação/Óticas Carol
Referência no mercado óptico brasileiro, a Óticas Carol, maior rede de óticas do país e pertencente ao mesmo grupo da Ray-Ban, tem consolidado sua atuação em Rio Branco visando o compromisso com a saúde visual de cada cliente, além de oferecer produtos de qualidade, atendimento especializado e acesso as principais inovações do setor.
Com duas unidades na capital acreana, a empresa trabalha para proporcionar uma experiência completa aos clientes, reunindo tecnologia, conforto, segurança e uma ampla variedade de produtos para diferentes estilos e necessidades. Nosso objetivo é mostrar que a Óticas Carol é para todos: desde quem busca opções com custo-benefício, uma linha mais econômica, até quem deseja as mais renomadas marcas do mercado óptico nacional e internacional.
Óticas Carol reforça compromisso com inovação, qualidade e tecnologia em Rio Branco. Foto: Divulgação/Óticas Carol
Entre os grandes diferenciais da rede está o acesso aos principais lançamentos mundiais, como os óculos com IA (inteligência artificial), assim que chegaram ao Brasil, os óculos inteligentes Ray-Ban Meta e Oakley Meta passaram a fazer parte do portfólio da Óticas Carol em Rio Branco de forma simultânea, permitindo que os consumidores acreanos conheçam de perto uma das maiores inovações do segmento. Os óculos com inteligência artificial permitem você tirar fotos, vídeos, ouvir música, realizar chamadas, utilizar comandos de voz, tradução simultânea, reunindo tecnologia e praticidade em um único produto.
Além da inovação, nosso principal compromisso é com a saúde visual de cada cliente, nossa prioridade é manter uma equipe qualificada, que passa por constantes treinamentos e estudos para indicar a melhor solução para cada cliente. Nossas lentes contam com tecnologias desenvolvidas para oferecer mais conforto, qualidade de visão e proteção, nosso cliente tem a segurança de comprar suas lentes e armações, tudo com certificado de garantia e autenticidade das peças na maior rede de óticas do país.
Condomínio Quintas de São José do Rio Negro prioriza segurança, privacidade e integração harmônica com a paisagem amazônica desde o primeiro contato. Foto: Heraldo Peixoto
O conceito de wellness building — construções planejadas para promover a saúde e o bem-estar dos moradores — começa a consolidar sua presença no mercado imobiliário do Amazonas. Diante de uma demanda crescente por qualidade de vida longe do estresse urbano, projetos de alto padrão passam a incorporar a ciência da longevidade desde a planta. Localizado no bairro Tarumã, na zona Oeste de Manaus, o condomínio Quintas de São José do Rio Negro desponta nesse cenário ao materializar estruturas sob a premissa do “high wellness”, utilizando o espaço e a rotina para contribuir diretamente para a saúde e o bem-estar dos seus condôminos.
A arquitetura biofílica do condomínio adota um papel central nessa proposta, priorizando o distanciamento estratégico com vegetações entre os lotes, que possuem dimensões a partir de 1.500 metros quadrados. Essa configuração diminui significativamente as poluições sonora e visual comuns às áreas centrais. Ao reduzir os limites visuais entre as residências e a floresta nativa, o desenho urbano atenua o estresse oxidativo, um dos fatores responsáveis por acelerar o envelhecimento orgânico.
A planta do condomínio evidencia o distanciamento estratégico entre os lotes a partir de 1.500 m² e a distribuição das áreas de convivência integradas à floresta. Foto: Heraldo Peixoto
A preservação ambiental e a interação social operam de forma integrada na biologia de quem habita o local. Com mais de 50% de área verde mantida e uma malha de trilhas projetadas para atividades coletivas, o empreendimento estimula laços interpessoais que simulam a dinâmica observada nas chamadas “zonas azuis”, conhecidas por ajudarem a promover a alta expectativa de vida da população. O ecossistema preservado garante um microclima ameno e ar puro, impactando positivamente as funções cardiovasculares e respiratórias, amparado por soluções técnicas como fiação subterrânea e tratamento próprio de efluentes.
“Projetamos um ambiente onde cada detalhe técnico e natural funcione como um indutor de saúde. O verdadeiro luxo contemporâneo mudou de significado; hoje, ele se traduz no controle sobre o próprio tempo e na conservação da vitalidade física e mental, algo que a harmonia entre engenharia moderna e floresta nativa consegue proporcionar”, destaca o diretor da BTP Urbanismo, João Batista Pi.
Condomínio focado em saúde e longevidade ativa: academia do residencial é equipada com aparelhos de tecnologia italiana da renomada marca Technogym. Foto: Heraldo Peixoto
No aspecto voltado ao condicionamento físico e à medicina preventiva, o residencial abriga uma das estruturas de academia mais modernas da região: o fitness center by Technogym. O espaço conta com equipamentos da marca italiana, reconhecida globalmente pelo desenvolvimento de tecnologias aplicadas ao alto desempenho esportivo e à promoção da longevidade. A inserção desses recursos de ponta facilita a manutenção de hábitos saudáveis diários sem a necessidade de deslocamentos para fora do perímetro residencial.
A Capela de São José do Rio Negro oferece um refúgio ecumênico integrado à natureza, valorizando o bem-estar emocional e espiritual dos moradores do condomínio. Foto: Heraldo Peixoto
O equilíbrio emocional também recebe atenção dedicada por meio do incentivo à espiritualidade e ao acolhimento. A Capela de São José do Rio Negro foi concebida sob o entendimento de que a religiosidade atua como pilar de estabilidade mental e união familiar. Integrado à natureza e restrito aos condôminos, o espaço ecumênico divide protagonismo com outros três salões destinados a cerimônias de credos diversos, assegurando o respeito à pluralidade e o suporte psicológico por meio da fé.
Vista panorâmica do Condomínio Quintas de São José do Rio Negro destaca a preservação de mais de 50% de área verde nativa na Região Metropolitana de Manaus. Foto: Heraldo Peixoto
Outra vertente importante do projeto é a implementação do serviço de concierge, que atua de forma semelhante a um “seguro de saúde” prático. A facilitação de demandas do cotidiano diminui o desgaste gerado pela burocracia e pela administração da rotina doméstica. Livre dessas pressões cotidianas, o morador ganha tempo para focar no autocuidado e desfrutar de atrativos estruturais como o Clube Social e o Clube de Golfe.
Trilhas ecológicas interligadas do condomínio estimulam a prática de atividades ao ar livre e o convívio social, pilares fundamentais para a redução do estresse e promoção da longevidade. Foto: Heraldo Peixoto
O avanço dessas práticas construtivas sinaliza um novo patamar para o desenvolvimento urbano na Região Norte. Ao alinhar engenharia de ponta, sustentabilidade prática e as diretrizes globais de bem-estar, iniciativas desse porte deixam de ser apenas opções de moradia e passam a ser referências de como o planejamento imobiliário pode impactar diretamente a saúde e a conservação ambiental regional.
Descubra atrações no Norte que unem a magia da floresta, praias de água doce e muita cultura. MUSA, em Manaus. Foto: Janailton Falcão/Amazonastur
As férias escolares despertam nas famílias o desejo de colocar o pé na estrada e viver dias inesquecíveis juntas. Apostar no turismo dentro do Brasil é uma excelente maneira de encontrar esse equilíbrio, valorizando a nossa identidade cultural e revelando um imenso leque de opções pelas cinco regiões do país, com cenários que encantam todas as gerações.
Nesse sentido, a região Norte se destaca, pois é um verdadeiro santuário ecológico, que oferece contato com a natureza, praias de água doce e uma culinária cheia de sabores únicos para encantar a todos.
Confira alguns destinos do Norte:
Acre
O estado surpreende as famílias com muita bagagem histórica e cultural e roteiros de imersão, que mostram a grandiosidade da vida na floresta.
Atrativos
Rio Branco: a capital oferece um roteiro cultural e natural acessível, com o Parque Chico Mendes, o Palácio Rio Branco, o Mercado Velho e museus como o da Borracha e o dos Povos Acreanos, todos perfeitos para visitar ao longo das férias.
Xapuri: conhecida como a terra de Chico Mendes, permite às famílias caminhar pelo centro histórico, visitar a Casa de Chico Mendes e vivenciar o turismo comunitário em reservas extrativistas.
Comunidade do Croa: em Cruzeiro do Sul, a comunidade oferece uma experiência de imersão na Amazônia, com atividades tranquilas para todas as idades. O destino reúne natureza, gastronomia regional e passeios de barco, oferecendo momentos de lazer e contato com a cultura ribeirinha.
Cachoeira do Ar-Condicionado: localizada em Mâncio Lima, a cachoeira é cercada por vegetação nativa e conta com uma trilha curta e águas refrescantes, sendo excelente para um passeio de um dia em família.
Como chegar
O acesso ao estado, por via aérea, é feito pelo Aeroporto Internacional de Rio Branco, havendo também voos comerciais até Cruzeiro do Sul. Para deslocamentos terrestres, o estado é conectado pelas rodovias federais BR-364 e BR-317, que facilitam viagens de carro ou de ônibus interestaduais e intermunicipais. Já para destinos isolados, como a Comunidade do Croa, o transporte náutico é indispensável, por meio de barcos que fazem a travessia a partir de pontos específicos.
Rio Croa. Foto: Divulgação
Amazonas
O coração da Floresta Amazônica oferece às famílias a chance de vivenciar de perto a grandiosidade dos rios e interagir com a fauna de maneira segura e inesquecível.
Atrativos
Teatro Amazonas: o imponente cartão-postal de Manaus encanta com suas cores e arquitetura da época do Ciclo da Borracha, oferecendo visitas guiadas que prendem a atenção de visitantes de todas as idades.
Museu da Amazônia (MUSA): localizado em uma reserva florestal em Manaus, possui trilhas guiadas, lagos com vitórias-régias e uma torre de observação de 42 metros de altura, de onde é possível ver a copa das árvores e aves da floresta.
Complexo Turístico da Ponta Negra: um calçadão estruturado à beira do Rio Negro, ideal para caminhadas em família, banhos na praia de água doce, parquinhos infantis e apresentações culturais.
Parque Nacional de Anavilhanas: localizado em Novo Airão, é o destino perfeito para as crianças interagirem, de forma segura, com os botos-cor-de-rosa em seu habitat natural, além de passeios de barco pelo arquipélago.
Como chegar
A principal via de entrada para o estado é o Aeroporto Internacional de Manaus (MAO). Na região, os rios funcionam como grandes estradas, sendo o transporte de barco (como lanchas rápidas, jatos e navios regionais) também uma opção. Por via terrestre, rodovias como a AM-010 e a BR-174 ligam a capital a municípios vizinhos, de carro ou por meio de ônibus interestaduais e intermunicipais.
MUSA. Foto: Divulgação
Rondônia
Rondônia combina a diversão de modernos parques aquáticos e hotéis-fazenda com o turismo de vivência, que valoriza as comunidades tradicionais do estado.
Atrativos
Vale das Cachoeiras: em Ouro Preto do Oeste, é um complexo de hotel-fazenda e parque aquático estruturado com piscinas, toboáguas e belas quedas d’água, que são perfeitos para o lazer de toda a família.
Cacoal Selva Park: hotel-fazenda em Cacoal com uma ampla infraestrutura de lazer, área de camping e um parque aquático cercado por vegetação nativa.
Balneário Bebel: uma excelente opção de lazer em Porto Velho, contando com piscinas de água natural, ideais para os pequenos se refrescarem.
Comunidade Paiter Suruí: oferece roteiros de etnoturismo para famílias que buscam viver experiências culturais autênticas e enriquecedoras junto à comunidade indígena.
Paraquedismo: para as famílias com filhos adolescentes, que curtem uma dose de aventura, Porto Velho oferece saltos duplos monitorados, com uma vista única do Rio Madeira.
Como chegar
O estado é acessível por via aérea, através do Aeroporto de Porto Velho (PVH) e do Aeroporto de Cacoal (OAL). Para viagens terrestres, a rodovia federal BR-364 é o eixo principal que conecta a capital às demais cidades.
Roraima encanta as famílias com uma capital planejada e cheia de atrativos infantis, além de destinos serranos e paisagens impressionantes.
Atrativos
Bosque dos Papagaios: parque ecológico urbano em Boa Vista, com trilhas estruturadas, fáceis para caminhar com crianças, viveiro de animais resgatados e muito contato com a natureza.
Serra do Tepequém: localizado em Amajari, é um refúgio de clima agradável nas montanhas, com cachoeiras de fácil acesso, artesanato local em pedra-sabão e pousadas aconchegantes para a família relaxar.
Praias do Rio Branco: praias sazonais de água doce, com faixas de areia branca, que são ideais para banhos tranquilos com os filhos.
Como chegar
A chegada por via aérea ocorre pelo Aeroporto Internacional de Boa Vista (BVB). De carro ou ônibus, os trajetos para o interior ou estados vizinhos são feitos pela BR-174 e pela RR-203 para acessar a Serra do Tepequém. O transporte de barco também é usado localmente.
Bosque dos Papagaios. Foto: Diane Sampaio/Prefeitura de Boa Vista
Pará
O Pará convida a família inteira para uma imersão cultural, praias fluviais com águas cristalinas e contato próximo com a fauna e flora locais.
Atrativos
Estação das Docas e Mangal das Garças: em Belém, a Estação une gastronomia e cultura à beira da baía com total segurança, enquanto o Mangal das Garças encanta as crianças com seu borboletário, aves livres e um farol-mirante.
Alter do Chão: em Santarém, conhecida como o “Caribe da Amazônia”, Alter oferece praias de água doce cristalinas e areia branca, com águas calmas e rasas, perfeitas para banhos com crianças.
Parque Zoobotânico Emílio Goeldi: no centro de Belém, é um refúgio de floresta urbana onde as famílias caminham entre sumaúmas centenárias e observam animais da fauna amazônica.
Como chegar
O Pará possui grande conectividade aérea por meio do Aeroporto Internacional de Belém (BEL) e do Aeroporto de Santarém (STM). Por via terrestre, rodovias como a BR-010 recebem linhas de ônibus nacionais e tráfego de carros.
O estado reserva atrativos históricos gigantescos e bioparques cheios de aventura e ecoturismo para os jovens exploradores.
Atrativos
Fortaleza de São José de Macapá: uma das maiores fortificações coloniais do Brasil, situada à beira do Rio Amazonas, que encanta crianças por sua imponência, muralhas e túneis históricos.
Marco Zero do Equador: monumento turístico lúdico e educativo onde as crianças podem se divertir colocando, ao mesmo tempo, um pé no Hemisfério Norte e outro no Hemisfério Sul.
Bioparque da Amazônia: uma enorme área de preservação em Macapá, com trilhas acessíveis, circuitos de aventura como tirolesa e arvorismo, jardim sensorial e observação de animais da região.
Praia da Fazendinha: balneário de água doce, banhado pelo Rio Amazonas na região metropolitana de Macapá, ideal para saborear a culinária local em família e curtir a brisa do rio.
Como chegar
O acesso ao estado por via aérea é centralizado no Aeroporto Internacional de Macapá (MCP). Devido às características geográficas do Amapá, em relação ao restante do Brasil, as viagens interestaduais de longa distância ocorrem predominantemente por avião ou por via náutica, por meio de navios de passageiros que cruzam o Rio Amazonas, vindos de Belém ou Santarém. Internamente, o deslocamento entre a capital e balneários próximos é feito facilmente de carro ou ônibus pelas rodovias estaduais como a AP-010.
Monumento do Marco Zero. Foto: Reprodução/ Governo do Amapá
Tocantins
O Tocantins é um verdadeiro oásis no coração do Brasil, combinando praias fluviais badaladas, distritos serranos cheios de cachoeiras e rios de águas transparentes.
Atrativos
Palmas e Taquaruçu: a capital do estado oferece lazer urbano e natural na Praia da Graciosa e no Parque Cesamar, enquanto o distrito de Taquaruçu atrai as famílias com clima ameno, culinária típica e diversas cachoeiras com trilhas estruturadas.
Lajeado: às margens do Lago de Palmas, o município conta com praias de água doce calmas e passeios náuticos ideais para relaxar com os filhos.
Miracema do Tocantins: guarda um rico patrimônio histórico-cultural e se destaca pela Praia do Paredão, um balneário muito procurado pelas famílias durante a temporada de praias de rio.
Região das Serras Gerais (Aurora, Taguatinga e Lavandeira): um paraíso de ecoturismo, que reúne rios de águas cristalinas, cânions impressionantes e cachoeiras para visitantes de todas as idades.
Como chegar
O Tocantins é acessível por via aérea pelo Aeroporto de Palmas (PMW) e por via rodoviária, através de sua rodoviária interestadual. A partir da capital, o acesso ao distrito de Taquaruçu, Lajeado (pela TO-010) e Miracema do Tocantins é feito por rodovia, podendo ser realizado de carro ou ônibus. As Serras Gerais também contam com conexões regulares de ônibus e estradas pavimentadas.
Seja navegando pelos imponentes rios Amazonas e Negro, mergulhando nas praias de água doce do Pará e do Tocantins, divertindo-se nos hotéis-fazenda de Rondônia ou descobrindo a história e os cenários únicos do Acre, do Amapá e de Roraima, o Norte do país se consolida como uma excelente escolha para transformar as férias escolares em memórias inesquecíveis.
Taquaruçu. Foto: Reprodução/Youtube-Prefeitura de Palmas
o pote de guardar o curare – veneno que vai ser colocado na flecha;
o cuidado para não abater nada além do necessário;
a partilha com a comunidade;
os impactos da emergência climática nos ciclos.
Esses são alguns elementos do milenar manejo da fauna pelo povo Baniwa registrados no documentário ‘Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais’, lançado durante a COP30, em Belém (PA).
Eenonai é o termo na língua dos conhecedores Baniwa que se refere aos animais e dá nome ao documentário sobre o manejo da fauna na região do Rio Ayari (Alto Rio Negro, Amazonas), na bacia do Rio Içana, território predominantemente do povo Baniwa.
Entre os Baniwa, a prática da caça se mantém de geração em geração e integra um sistema sofisticado de conhecimentos dos povos indígenas do Alto Rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Esse manejo também compõe o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural.
O educador-pesquisador, físico, cientista ambiental e liderança indígena Dzoodzo Baniwa, que participou da produção do Eenonai, ressalta a importância do documentário, que registra o manejo sustentável da caça pelo povo Baniwa.
“O documentário traz esse registro importante sobre o conhecimento. Cada povo indígena tem seu próprio sistema de conhecimento e do manejo do seu território. Cada técnica, cada domínio da tecnologia é muito importante. Os Baniwa utilizam, por exemplo, instrumentos tradicionais, como zarabatana, e tem outras técnicas. O documentário resgata essas práticas tradicionais e dá esse horizonte de como podemos continuar mantendo o manejo da caça no nosso território, inclusive nessa perspectiva de impacto de mudanças climáticas. É muito importante, porque tanto os animais quanto nós povos indígenas manejamos esse território todo, ajudamos a diversificar as plantas, distribuindo sementes. A gente tem esse papel muito importante na proteção da floresta”, diz.
Foto: Reprodução/Youtube-Instituto Socioambiental
Sabedoria do povo Baniwa retratada no documentário
As práticas e saberes sobre esse manejo são acompanhados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da região, que desenvolvem pesquisas sobre temas socioambientais, em diálogo permanente com os conhecedores de suas comunidades e com pesquisadores especializados não-indígenas.
Constituída a partir de colaborações entre o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e organizações e escolas indígenas locais, a Rede de AIMAS atua na região do Içana e em outras áreas do Alto e Médio Rio Negro, registrando em diários e tablets práticas de manejo das roças, pesca, caça, coleta de frutos e insetos, intercâmbios econômicos e rituais, fabricação dos instrumentos e utensílios.
Constantemente, os pesquisadores relatam os impactos das mudanças climáticas nos ciclos ecológicos e nas práticas de manejo, que afetam a disponibilidade da fauna e flora, bem como os eventos sociais e rituais.
O objetivo da Rede de AIMAs é promover pesquisas colaborativas e interculturais de longa duração para o fortalecimento dos conhecimentos indígenas e da gestão territorial. Para isso, os agentes indígenas também contam com a parceria com institutos de pesquisa e universidades.
Essas pesquisas geram observações e indicadores que apoiam a governança territorial, conforme explica Dzoodzo Baniwa.
“A pesquisa sobre a fauna no território Baniwa Koripako é muito importante porque gera indicadores que vão orientar diretrizes para construção do plano de manejo, sobretudo pensando gestão territorial e governança do território. A pesquisa consegue traduzir o manejo tradicional que está sendo praticado no território há milhares de anos. O documentário Eenonai também retrata o resultado da pesquisa registrada por nós da rede de pesquisadores indígenas. E com isso esperamos contribuir com debates e diretrizes para implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental nos territórios”, diz.
A pesquisa retratada no documentário é fruto da dedicação da Rede de AIMAs em parceria com o Centro de Pesquisa e Monitoramento Eenopana e a Rede Fauna – Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia.
Assista:
A idealização do projeto é da pesquisadora e coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (PRN/ISA), Natalia Pimenta, e dos pesquisadores André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa. A direção é do documentarista Fellipe Abreu, especialista em sistemas alimentares, e da analista do ISA, Giselle Sousa.
Ficha técnica
Idealização: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva
Produção: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes, Walter Lopes da Silva, Dzoodzo Baniwa e Ana Amélia Hamdan Gontijo
Direção: Fellipe Abreu e Giselle Sousa
Direção de fotografia e captação de áudio: Fellipe Abreu
Entrevistas em Baniwa: Laise Cardoso
Roteiro: Luiz Felipe Silva
Edição/finalização: Elder Barbosa
Agradecimentos: Aos moradores e conhecedores de Canadá e demais comunidades do rio Ayari, Escola Baniwa Eeno Hiepole, Centro de Pesquisa e Formação Eenopana, National Geographic, Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da Bacia do Rio Negro.
Virgílio Viana abre o Amazon On 2026. Foto: Arquivo/ Amazon On
“A conectividade é o elo que une a prosperidade dos povos da floresta à conservação da Amazônia. Sem internet, as distâncias isolam; com conectividade, ampliamos o acesso à saúde, à educação e às oportunidades de geração de renda, fortalecendo a proteção dos territórios e garantindo que a floresta e seus guardiões prosperem juntos.” Essa será a mensagem central da palestra de abertura do Amazon On 2026, ministrada pelo superintendente-geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Virgílio Viana, na abertura do evento, que acontece nos dias 5 e 6 de agosto, em Manaus.
A apresentação discutirá os desafios de implantar infraestrutura de tecnologia e energia em uma região de dimensões continentais, a importância de compreender as especificidades do território amazônico e experiências que demonstram como a cooperação entre governos, empresas, academia e comunidades pode transformar projetos em resultados concretos para a população da região.
Para o coordenador do Amazon On, Moisés Moreira, a proposta da palestra traduz o propósito do encontro. “O Amazon On nasceu para aproximar diferentes setores em torno de um desafio comum: construir soluções para a Amazônia que dialoguem com a realidade do território. Nesta edição, reunimos especialistas, reguladores, pesquisadores, empresas e organismos internacionais para discutir temas estratégicos para o futuro da região, como conectividade, transição energética, inovação e bioeconomia. Queremos que esses debates estimulem novas parcerias e contribuam para transformar boas ideias em ações concretas para a Amazônia”.
Ao longo de dois dias, o Amazon On reunirá representantes de governos, agências reguladoras, universidades, organismos multilaterais e empresas para discutir infraestrutura digital, conectividade, transição energética, inteligência artificial, bioeconomia e políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.
A programação está organizada em oito painéis e contará com especialistas entre os quais Alexandre Freire e Edson Holanda, da Anatel; Willamy Moreira Frota e Gentil Sá, da ANEEL; Luis Guillermo Alarcón, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); Luciano Charlita, do Banco Mundial; Julissa Cruz, da CAF; Alexander Lee, da HMN Technologies; Roberto Valer, da Huawei Digital Power Brasil; e Maximiliano Martinhão, da Qualcomm. A programação também contará com representantes da UNESCO, FAO, Ministério das Comunicações, Ministério de Minas e Energia, universidades brasileiras e dos governos da Guiana e do Suriname.
Amazon On. Foto: Arquivo/ Amazon On
Consolidado como um dos principais fóruns dedicados ao debate sobre tecnologia e desenvolvimento sustentável na Amazônia, o Amazon On busca promover o intercâmbio de experiências entre setor público, iniciativa privada, academia e organizações internacionais, fortalecendo a construção de soluções capazes de ampliar a conectividade, impulsionar a inovação e contribuir para o desenvolvimento da região.
Imagem feita por satélite mostra aquecimento das águas do oceano Pacífico. Foto: NOAA
O fenômeno El Niño voltou a aparecer com frequência no noticiário internacional nos últimos meses. A razão é simples: alguns modelos climáticos indicam a possibilidade de desenvolvimento de um evento relativamente intenso entre 2026 e 2027. Isso não significa, evidentemente, que o planeta caminhe inevitavelmente para uma catástrofe climática global, mas chama atenção porque os episódios mais fortes de El Niño costumam alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica tropical e acaba influenciando o clima em várias regiões do planeta. A climatologia conhece esse mecanismo há bastante tempo, embora ainda existam dificuldades importantes quando se tenta antecipar, com muitos meses de antecedência, a intensidade exata de cada evento e seus impactos regionais (Trenberth, 1997; McPhaden et al., 2006).
Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos. Os episódios de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016 ficaram conhecidos pela intensidade e pelos impactos observados em diferentes continentes, mas cada um deles apresentou características próprias. A atmosfera não responde de maneira idêntica em todos os eventos, e isso é importante para evitar simplificações excessivas.
No Brasil, os efeitos do El Niño variam bastante de uma região para outra. Historicamente, a Região Sul tende a registrar aumento das chuvas durante esses episódios, enquanto áreas do Norte e do Nordeste frequentemente enfrentam redução das precipitações e períodos mais secos. Mas isso não funciona como uma regra absoluta. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem no comportamento climático sul-americano, especialmente as condições térmicas do Atlântico Tropical.
Ainda assim, existe uma preocupação compreensível em relação ao cenário atual. O país vem enfrentando, nos últimos anos, uma sequência de eventos extremos bastante significativa. Secas severas na Amazônia, enchentes no Sul, ondas de calor persistentes em diferentes regiões e incêndios florestais de grande proporção passaram a fazer parte da rotina climática recente do Brasil.
Nem todos esses eventos decorrem diretamente do El Niño, e atribuições automáticas costumam ser cientificamente problemáticas. Mas existe hoje um entendimento consolidado de que o aquecimento global pode aumentar a frequência e a intensidade de alguns extremos climáticos. Fenômenos naturais de variabilidade climática, como o El Niño, passam então a atuar sobre uma atmosfera mais quente e com maior disponibilidade de energia e vapor d’água (IPCC, 2021).
O problema brasileiro, contudo, não é apenas climático. Desastres raramente são produzidos exclusivamente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Eles dependem muito das condições sociais e territoriais sobre as quais esses eventos atuam. Uma mesma quantidade de chuva produz impactos completamente diferentes em cidades com infraestrutura adequada e em áreas marcadas por ocupação irregular, drenagem insuficiente e forte vulnerabilidade social.
Isso vale igualmente para as secas. Seus efeitos são muito mais graves onde há baixa segurança hídrica, maior dependência de agricultura de sequeiro e pouca capacidade de resposta institucional. Por isso, fenômenos como o El Niño acabam expondo fragilidades que já existiam antes deles.
Gráfico explica formação do El Niño. Foto: Assessoria de Comunicação da Unesp
O Brasil possui instituições científicas altamente qualificadas para monitorar o clima e produzir previsões sazonais. Houve avanços importantes nas últimas décadas em monitoramento hidrometeorológico, modelagem climática e sistemas de alerta. Hoje existe capacidade técnica para acompanhar secas, enchentes e extremos climáticos com um nível de detalhe muito superior ao que existia há vinte ou trinta anos.
Mas conhecimento científico, sozinho, não reduz risco. Em muitas cidades brasileiras, a expansão urbana continuou ocorrendo em áreas suscetíveis a enchentes e movimentos de massa. Em outras regiões, a pressão sobre recursos hídricos aumentou sem planejamento compatível com a variabilidade climática do país. Grande parte dos problemas aparece justamente aí: menos na ausência de informação e mais na dificuldade histórica de incorporar risco ambiental ao planejamento territorial.
Preparar-se para possíveis impactos associados ao El Niño não significa impedir a ocorrência do fenômeno. Isso simplesmente não é possível. A questão central é reduzir vulnerabilidades. Melhorar drenagem urbana, fortalecer sistemas de alerta, proteger encostas, ampliar monitoramento hidrológico e planejar melhor o uso do território continuam sendo medidas muito mais efetivas do que respostas emergenciais tomadas apenas depois das tragédias.
Talvez a principal lição trazida pela discussão atual sobre o El Niño seja justamente essa. Eventos climáticos extremos fazem parte da dinâmica natural do sistema climático. O que transforma esses eventos em desastres de grandes proporções é, muitas vezes, a forma como as sociedades organizam seus territórios e lidam, ou deixam de lidar, com suas próprias vulnerabilidades.
Seca e crise hídrica em rios da Amazônia, em 2024. Foto: Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil
“A impressão que eu tenho é que a própria gestão está perdida sobre o que fazer”.
A fala de Joice Paixão reflete a sua preocupação sobre a chegada do El Niño e seus impactos nas periferias do Recife. Moradora da Zona Oeste da cidade, a presidenta da Associação Gris Solidário e secretária executiva da Rede Por Adaptação Antirracista, acredita que, mesmo com os alertas dos especialistas de que esse pode ser o evento climático de maior proporção a atingir o Brasil desde os anos 1950, o Estado ainda está aquém e não apresentou um plano eficaz para mitigar as consequências nas regiões mais vulneráveis e suscetíveis aos desastres climáticos e ambientais.
Em outra região do país, o paraense Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática, compartilha da mesma preocupação de Joice Paixão. Ele reforça a importância de que os governos federais, estaduais e municipais passem a estabelecer um maior diálogo com a população para que as informações cheguem de maneira mais acessível e sejam compreendidas da melhor forma possível por aqueles que sofrerão de forma direta os impactos da chegada do fenômeno.
“Os dados do Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] são muito fortes e impactantes, mas esses dados não estão chegando para a população. São dados que são debatidos por técnicos e especialistas e que muitas vezes ficam só no âmbito do governo. Então, eu acredito que um passo importante é levar esses dados para as pessoas”, defendeu Farias.
Os dados e informações mencionadas por Alex dizem respeito ao alerta que vem sendo feito há meses por meteorologistas e especialistas sobre o El Niño 2026. No dia 11 de junho deste ano, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) anunciava a chegada oficial do fenômeno climático, que deve atingir grandes proporções. De acordo com o Inmet, “historicamente, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens, redução da umidade do solo e impactos sobre os recursos hídricos”.
Como consequência do aquecimento global, o fenômeno do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, conhecido popularmente como El Niño, apresenta uma tendência de ser ainda mais intenso. A previsão de um conjunto de multi-modelos (North American Multi-Model Ensemble – NMME) indica que há 63% de chances do El Niño ficar muito forte durante os próximos meses de novembro e dezembro deste ano, e janeiro de 2027, o que pode classificá-lo como um dos eventos mais fortes nos registros históricos desde 1950.
“O que acontece quando a gente tem esse aquecimento no Pacífico? Essa condição muda a circulação do ar, que começa a ter correntes descendentes de ar seco e quente sobre a região da Amazônia e boa parte do Nordeste do Brasil. Essas características começaram a ficar muito nítidas a partir de maio”, explica o meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Humberto Barbosa.
Adolescente deitado na rede às margens de praia que se formou após a seca do rio Solimões, em 2024. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia
Com imagens de satélite, o cientista tem monitorado de forma frequente os impactos do El Niño na atmosfera do Brasil e divulga, também, quais áreas do país estão mais suscetíveis a enfrentar fenômenos climáticos como secas e queimadas.
“Há um consenso de que, atualmente, nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado, por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico — entre os meses de outubro, novembro e dezembro — nós enfrentaremos um El Niño de proporções extremas, para definir melhor qual a probabilidade dessa intensidade”, explica Barbosa.
Há um consenso de que, atualmente, nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado, por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico.Humberto Barbosa, meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), da UFAL
O calor intenso para o Norte e Nordeste
Diante deste cenário, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cemaden, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), criou um boletim, que será divulgado mensalmente, para apresentar atualizações sobre o monitoramento, previsão e impactos do El Niño no Brasil.
O primeiro boletim, divulgado em 29 de junho, afirma que “a previsão climática para o trimestre julho-agosto-setembro de 2026 indica, de forma geral, chuvas acima da média em áreas da região Sul e chuvas abaixo da média no Centro-Norte do país. Ainda, as previsões indicam alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, que podem aumentar os eventos de onda de calor e a ocorrência de incêndios florestais”.
A seca nas regiões Norte e Nordeste deve resultar em um aumento nos incêndios, impacto na agricultura e comprometer a segurança hídrica local. Além disso, o calor extremo causado pela falta de chuva e um maior aquecimento da atmosfera traz consequências à saúde e ao bem-estar da população.
“Isso significa uma diminuição de chuvas na região da Amazônia. A partir de setembro, outubro, você já começa a estação chuvosa na Amazônia. De um modo geral, isso vai reduzir, e a Amazônia é muito sensível quando você reduz o volume de chuva”, explica Humberto Barbosa.
Adaptação de caixa d’água para convivência com a seca. Foto: Hans Von Manteuffel/Epicentro Jornalismo
Para quem vive nas periferias, as consequências podem ser variadas, como explica Joice Paixão: “aqui no Recife, uma das políticas públicas mais divulgadas pela prefeitura é a concretagem das barreiras nas favelas. Além disso, são muitas as obras de ruas e parques que destroem árvores e áreas de mangue. Então, a cidade está cheia de ilhas de calor, as áreas verdes são cada vez menores. Juntando isso com o El Niño, imagina como vai ser o próximo verão na cidade”.
Um levantamento publicado na revista científica Sustainable Cities and Society, feito por pesquisadores da Universidade de Oxford, estimou quais cidades são as mais impactadas pelas ondas de calor. Entre as cidades brasileiras, Manaus aparece como a mais vulnerável. Na sequência, estão Goiânia (46ª posição no ranking global), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª). De acordo com o estudo, os riscos associados ao calor extremo não dependem somente das condições climáticas, mas também a fatores econômicos, sociais e de infraestrutura.
“Além da falta de áreas verdes e de infraestrutura, quando vamos olhar para as dicas de como enfrentar o calor extremo nós escutamos coisas como ‘compre um arcondicionado para se refrescar, tome mais banho, use ventilador’, mas quem tem condições de tomar essas medidas? Na favela, as pessoas enfrentam constantemente o desligamento da água, a falta de abastecimento. Fora a questão do gasto com energia. Outro ponto importante pouco falado é a sobrecarga na rede elétrica que esse período pode causar”, reforça Joice Paixão.
Além disso, na região Norte, a falta de um planejamento para eventos climáticos extremos como El Niño reforça um estigma que fortalece o racismo ambiental já enfrentado na região, como explica Alex Farias:
“Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. Isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras”.
Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. Isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras.Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática
“A COP foi um ótimo exemplo dessa disparidade no investimento na infraestrutura da cidade. Todo o investimento foi feito na área mais central e mais conhecida de Belém e nada para as periferias. E, ainda assim, a área ficou toda alagada quando teve uma forte chuva na cidade. O que eu vejo é que não há mesmo uma preocupação em resolver e ensinar a população o que fazer diante de um evento climático grave”, concluiu Farias.
Quais medidas estão sendo tomadas para mitigar os impactos?
Para o professor Humberto Barbosa, mais importante do que saber agir na emergência de um evento climático extremo, o Estado brasileiro, em uma articulação entre os poderes federal, estadual e municipal, precisa proporcionar formas e ferramentas para que a população possa conviver com as consequências de um cenário climático adverso.
“É preciso criar programas permanentes de educação para que a população saiba como conviver com as altas temperaturas, da mesma forma que, ao longo dos anos, aprendemos a conviver com a estiagem e a escassez de água”, defende Barbosa.
“A principal diferença para este El Niño será o aumento das temperaturas, impulsionado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, resultado principalmente das emissões da indústria e das queimadas, além do aquecimento do Oceano Pacífico. Esse cenário tende a intensificar a seca, especialmente na Amazônia e no semiárido nordestino. Mais do que a redução das chuvas, que já são naturalmente escassas no segundo semestre, o problema é que o calor mais intenso acelera a perda de umidade do solo e eleva ainda mais as temperaturas, tornando a seca mais severa”, conclui o diretor do LAPIS.
Barcos encalhados na Ponta da Piraiba, Manaus, em seca no final de 2023. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Barbosa reforça, ainda, que o aumento das temperaturas representa uma ameaça direta às populações que vivem no semiárido. A escassez de água compromete o abastecimento humano e a criação de animais, especialmente caprinos e ovinos, importantes fontes de alimento e renda para milhares de famílias da região.
Segundo o cientista, uma das principais estratégias para reduzir esses impactos continua sendo o fortalecimento de políticas de convivência com o semiárido: “A palma forrageira tem sido uma reserva importante de água para a pecuária e contribui para garantir uma certa segurança na produção de carne, mesmo em períodos de seca”.
Ele ressalta, no entanto, que episódios recentes de calor extremo também provocaram perdas na cultura, reforçando a necessidade de ampliar ações emergenciais, como o fornecimento de água potável às populações mais vulneráveis: “o sertanejo já desenvolveu uma grande capacidade de resiliência, mas estará submetido a condições cada vez mais desfavoráveis com as altas temperaturas. Por isso, ações emergenciais, incluindo a atuação do SUS, serão fundamentais”.
Em um contexto de seca, um fato importante a ser considerado é a piora da qualidade da água. Com reservatórios, açudes e rios permanecendo por muito tempo com água parada, aumenta a proliferação de algas e cianobactérias, que podem contaminar a que é consumido pela população. Entre os problemas associados, estão quadros de diarreia, intoxicações e, em situações mais graves, até mortes. Por isso, é fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) atue de forma integrada com as secretarias de Recursos Hídricos e de Meio Ambiente para monitorar a qualidade da água, acompanhar as comunidades mais expostas ao calor extremo e orientar a população sobre os riscos.
Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos, intensificados pelo El Niño, o Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS, um plano de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a capacidade de resposta do SUS até 2035. A estratégia reúne 27 metas e 93 ações voltadas à prevenção, adaptação e resposta a emergências climáticas, reconhecendo a crise climática como um desafio crescente para a saúde pública.
Entre as principais medidas estão a criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima, a implantação do Painel Nacional de Excesso de Calor (que emitirá alertas com até cinco dias de antecedência sobre riscos associados às altas temperaturas) e a ampliação da Força Nacional do SUS para acelerar o atendimento em desastres. Segundo o Ministério da Saúde, a iniciativa busca proteger principalmente as populações mais vulneráveis aos impactos do calor extremo e de outros eventos climáticos.
Joice Paixão defende que o governo passe a investir cada vez mais em políticas públicas de saúde para a população periférica, relacionando com o enfrentamento da crise climática. Pessoas com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, problemas cardíacos e doenças respiratórias, tendem a sofrer agravamentos durante os períodos de calor extremo, aumentando a demanda por atendimento nas unidades básicas de saúde, UPAs e demais serviços de média e baixa complexidade.
“O calor extremo provoca um impacto direto na saúde básica. Pacientes hipertensos, diabéticos, cardiopatas e pessoas com doenças respiratórias entram mais facilmente em crise e procuram com maior frequência os serviços de saúde”, afirma a diretora do Gris Solidário.
Paixão também alerta para a subnotificação dos efeitos do calor sobre a saúde. Na avaliação dela, muitos óbitos registrados como infarto ou Acidente Vascular Cerebral (AVC) podem ter sido desencadeados pelas altas temperaturas, sem que essa relação seja identificada pelos sistemas de vigilância: “muitas vezes a causa registrada é o infarto ou o AVC, mas esses eventos podem ter sido precipitados pelo calor extremo. Essa relação ainda é pouco considerada e precisa orientar políticas públicas”.
Para ela, ampliar a produção de evidências e incorporar esse conhecimento às estratégias governamentais é um passo fundamental para fortalecer a resposta do SUS às mudanças climáticas. “Os estudos precisam sair da academia e chegar aos gestores públicos para que sejam transformados em políticas de saúde capazes de proteger a população diante dos eventos climáticos extremos”, conclui a ativista climática.
Além dos impactos físicos, Paixão chama atenção para os efeitos das ondas de calor sobre a saúde mental e o comportamento da população. Temperaturas elevadas podem aumentar a irritabilidade, a sensibilidade e a vulnerabilidade emocional, fenômenos que estudos internacionais já relacionam ao crescimento dos índices de violência: “existe uma correlação entre o aumento das temperaturas e o aumento da violência. No Brasil, esse debate ainda é pouco aprofundado, especialmente quando se trata da violência doméstica que atinge mulheres e crianças”.
O especialista em Direito e Governança Climática, Alex Farias, ressalta a importância de uma ampliação nos investimentos em saúde como uma medida de mitigação para os eventos climáticos extremos, e alerta sobre a falta de infraestrutura das unidades básicas de saúde do Pará. “Acredito que ainda estamos errando em oferecer o básico. No Pará, nós temos lutado para garantir que a população tenha acesso a exames, consultas, que os profissionais estejam presentes nas unidades de saúde. Há um sucateamento muito grande na saúde. Então, fica ainda mais difícil de tratar os pacientes no dia a dia, imagina, então, como será em casos extremos”, conta Farias.
“Infelizmente, o que eu vejo é que falta diálogo entre os poderes [federal, estadual e municipal] e deles com a população também, porque também é importante ouvir o que as pessoas têm a contribuir para a formação das políticas públicas de qualidade. Quem convive com o problema é quem melhor pode apontar a solução”, conclui o especialista.
Alex reforçou a importância da iniciativa da Rede por Adaptação Antirracista e do Observatório do Clima, organizações que protocolaram uma carta endereçada ao governo federal para cobrar transparência e ações preventivas diante da projeção de formação do El Niño no Brasil. O documento, assinado por 77 organizações, traz diretrizes claras de enfrentamento ao fenômeno. “Essa carta é a prova de que há inúmeras soluções que podem ser adotadas e que muitas vezes dependem da ação do poder público”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Giovanna Carneiro
Base única de dados reúne investimentos em pesquisa e lavra e traça um panorama dos principais projetos em andamento. Foto: Reprodução/ANM
Responsável por quase metade do valor gerado pelos minerais estratégicos do Brasil, a Amazônia Legal ocupa papel de destaque nos debates sobre mineração. Apesar do vasto potencial, a região se concentra na extração de ferro, bauxita, cobre e ouro, enquanto outras substâncias essenciais para o país, como cobalto, terras raras e potássio, ainda não têm produção. Essa é uma das conclusões do estudo “Amazônia Legal: Minerais Críticos e Estratégicos – Diagnóstico Setorial”, lançado no dia 23 de julho pela Agência Nacional de Mineração (ANM).
A pesquisa traça um panorama geral dos direitos minerários e da produção da região, com recortes por substância e unidade da federação. Além disso, o relatório traz em uma única base dados a respeito de investimentos em pesquisa e lavra, arrecadação de royalties, comércio exterior e traça um panorama dos principais projetos em andamento.
Elaborado pela Superintendência de Economia Mineral e Geoinformação (SEG), o estudo qualifica os debates em torno da construção de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos para o Brasil.
“A Amazônia Legal tem uma importância estratégica para o setor mineral. Esse documento parte de toda a competência técnica da agência no tema para contribuir com os debates que visam construir uma política nacional robusta, capaz de atrair investimentos e assegurar o desenvolvimento do Brasil respeitando os desafios relacionados à região”, resume o diretor geral, Mauro Sousa.
“O objetivo é oferecer uma base técnica robusta, territorial e econômica sobre o potencial dos minerais críticos e estratégicos para subsidiar as tomadas de decisões. O diagnóstico demonstra que a Amazônia Legal ocupa posição relevante e estratégica no desenvolvimento mineral brasileiro”, aponta Inara Barbosa, superintendente da SEG.
“Uma política pública de minerais críticos e estratégicos só é robusta quando parte de evidência, não de intuição. As informações reunidas permitem à União, aos estados e ao setor privado desenharem instrumentos de política creditícios, regulatórios, de infraestrutura com foco e eficiência, em vez de medidas genéricas, bem como entender onde estão os gargalos e as oportunidades”, resume João Vasconcelos, gerente de Economia Mineral da ANM.
Dentre os destaques apresentados, está a constatação de que Amazônia Legal concentra 48,2% dos processos para minerais críticos e estratégicos do Brasil. Os estados com maior relevância são Pará, com 51% dos processos da região, Mato Grosso (19,0%) e Rondônia (10,3%). O ouro é a substância mineral predominante, marcando presença em 67% dos processos da Amazônia Legal. Na sequência, aparecem estanho (10%) e cobre (7,3%).
Investimentos e gargalos
De acordo com o documento, entre 2006 e 2024 foram investidos R$ 40,4 bilhões nas minas e usinas de beneficiamento de minerais estratégicos na Amazônia Legal, excluindo-se desta análise o minério de ferro. Os principais investimentos em 2024 foram direcionados a cobre (31,3%), níquel (19,8%), alumínio (18,7%), ouro (17,2%) e manganês (11,3%).
Os aportes em pesquisa mineral totalizaram R$ 4,9 bilhões entre 2003 e 2024, sendo 65,8% para ouro e 19,1% para cobre. Apesar do volume de recursos, o documento aponta a ausência de produção de substâncias fundamentais para o país, como potássio, terras raras e cobalto.
“Reverter isso exige mais investimento em pesquisa mineral, especialmente voltados a ampliar o conhecimento geológico do país em escala adequada para o conhecimento do potencial mineral da região. Também envolve destravar projetos estruturantes já mapeados (como Autazes, Araguaia e Vermelho), gerar maior segurança regulatória para atrair capital de longo prazo e parcerias público-privadas em pesquisa, desenvolvimento e inovação para agregar valor às cadeias produtivas subsequentes a mineração”, argumenta Vasconcelos.
Nos últimos anos, a demanda global por minerais críticos e estratégicos vem crescendo em razão de suas aplicações tecnológicas, na área de defesa e em equipamentos para a transição energética. Contudo, a localização de grandes reservas na região da Amazônia Legal traz o desafio adicional de conciliar sua importância econômica e geológica com a preservação ambiental e os direitos dos povos originários.
“Não dá para planejar o aproveitamento mineral da região de forma responsável sem reconhecer que parte relevante do potencial geológico está em áreas constitucionalmente protegidas ou sujeitas a consulta prévia, conforme a Convenção nº 169 da OIT. A partir disso, o estudo defende uma governança socioambiental robusta, consulta prévia, licenciamento com regras e prazos claros e vinculação da CFEM a fundos de desenvolvimento sustentável municipal, fornecendo a base técnica para um planejamento e gestão territorial integrado, em vez de decisões pontuais e reativas”, encerra o gerente de Economia Mineral.
A Unir desenvolveu o DicWeb Indígena, uma plataforma que permite a povos da Amazônia criarem seus próprios dicionários digitais. Foto: Agnaldo Martiolli/Rede Amazônica RO
Uma plataforma desenvolvida pela Universidade Federal de Rondônia (Unir) está ajudando povos indígenas da Amazônia a preservar suas línguas por meio da tecnologia. Chamada de DicWeb Indígena, a ferramenta permite que as próprias comunidades criem dicionários digitais de forma colaborativa, registrando palavras, áudios, traduções e exemplos de uso no dia a dia.
Diferente dos dicionários tradicionais, o conteúdo é produzido pelos próprios indígenas, que têm autonomia para documentar e organizar o vocabulário de suas línguas.
“A plataforma amplia o acesso aos conhecimentos linguísticos produzidos pelas comunidades indígenas e contribui para a preservação e o fortalecimento das línguas da Amazônia”, disse o coordenador do projeto, Quesler Fagundes Camargos.
Atualmente, a plataforma reúne mais de 4.500 palavras catalogadas e 12 dicionários em construção. Além de funcionar como um acervo digital, o DicWeb Indígena incentiva a autoria coletiva e ajuda a manter vivas tradições linguísticas que correm o risco de desaparecer.
Entre os primeiros registros está a palavra Tapi’ira, que significa anta na língua Kawahiwa-Amondawa, um exemplo da diversidade linguística preservada pela plataforma.
Um dos principais desafios para o uso de ferramentas digitais nas aldeias é a falta de acesso à internet. Pensando nisso, o DicWeb Indígena foi desenvolvido como um Aplicativo Web Progressivo (PWA).
Na prática, depois do primeiro acesso com internet, a plataforma pode ser instalada no celular ou computador e continua funcionando mesmo offline. Assim, professores, estudantes e pesquisadores conseguem consultar e registrar informações sem depender da conexão.
Foto: Agnaldo Martiolli/Rede Amazônica RO
Ferramenta também é usada na educação
Além de preservar as línguas indígenas, a plataforma também deve ser utilizada nas escolas das comunidades como ferramenta de ensino.
Segundo a vice-coordenadora do projeto, a professora Edineia Aparecida Isidoro, o sistema contribui para a formação de professores indígenas, incentiva estudantes a escreverem em suas próprias línguas e amplia a presença desses idiomas no ambiente digital.
“É muito mais do que um instrumento de documentação e sistematização do léxico. Ela é também um espaço potente de formação linguística e pedagógica para professores e pesquisadores indígenas, uma ferramenta estimulante para que estudantes aprendam a escrever e valorizar suas próprias línguas e, sobretudo, uma forma de inserir as línguas indígenas em um território no qual elas ainda precisam ocupar cada vez mais espaço: os meios digitais”, afirmou.
A proposta nasceu após anos de pesquisa na universidade e busca inverter a lógica tradicional da produção de dicionários. Em vez de pesquisadores registrarem as línguas, são os próprios povos indígenas que produzem e atualizam o conteúdo, fortalecendo a autonomia das comunidades e preservando conhecimentos transmitidos de geração em geração.
Carregamento de mercadorias no Armazéns Coimbra (2000). Foto: Acervo da família
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
A cofundadora do “ARMAZÉNS COIMBRA”, Branca Virgínia Seco da Costa Ferreira, nasceu em Portugal, na vila de Penacova, no Distrito de Coimbra, em 14 de julho de 1936. Filha de Heliodoro da Costa, proprietário de fornos de cal – indústria predominante naquela região – , e de Maria Branca Nogueira Seco, que conciliava as atividades domésticas com as de serviço às terras familiares, teve dois irmãos: Amândio Seco da Costa (in memoriam) e Maria de Lourdes Seco da Costa Passadouro.
Seus pais envidaram grandes esforços para que os filhos tivessem acesso ao restrito mundo da educação, privilégio de alguns à época. A dedicação aos estudos no Ensino Primário, fez com que sua Mestra convencesse seus pais a levarem-na para estudar em Coimbra, onde se formou, em 1956, na Escola do Magistério Primário de Coimbra.
Numa época em que as mulheres deveriam ter como objetivo primeiro o casamento, Branca Ferreira definiu como prioridade o exercício da profissão do Magistério. Em 1959, por aprovação em concurso público, foi assumir a Escola Primária em Vilarinho do Alva, distante 20 km de sua casa no Casal de Santo Amaro (Penacova).
Professora dedicada, logo cativou os alunos e seus familiares, dentre os quais o tio de uma delas, que, vivendo no Brasil, no Amazonas, havia retornado à sua terra natal, pela terceira vez, com o propósito de construir uma casa para seus pais: o jovem Acácio Duarte Ferreira.
O forte e verdadeiro sentimento entre os dois impôs à jovem professora decisões difíceis, que marcariam doravante sua trajetória. Decidir pelo amor, levou a um conflito com os pais pela separação iminente: a distância não seria mais de 27 km (distância entre Casal de Santo Amaro e Coimbra) ou ainda de 20 km (distância entre Casal de Santo Amaro e Vilarinho do Alva), mas de milhares de quilômetros incluindo o Oceano Atlântico. Contudo, o tempo, com a evolução da tecnologia que foi diminuindo distâncias e facilitando deslocamentos, permitiu contornar.
Mas houve uma decisão amarga, que não pode ser revista nem contornada: a da desistência do exercício do Magistério. À época, em Portugal, o Decreto-Lei n.º 49473 determinava que o casamento das professoras do ensino primário dependia de autorização do Ministro da Educação Nacional, que só a concedia perante prova de situação moral e econômica do cônjuge compatível com o prestígio exigível para o exercício da função docente.
O casamento ocorrido, em 30.07.1959, no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Vila Nova de Ourém, em Portugal, selou as escolhas. No embarque em Lisboa em 25.01.1960 com destino ao Brasil, as últimas luzes avistadas sobre o Rio Tejo fizeram-na saber que ali se encerrava um ciclo de sua vida.
A Amazônia apresentou-se a ela em 18.02.1960, numa madrugada escura com uma leve neblina e uma chuva miudinha. Sob os olhares curiosos dos presentes ao cais do porto, o casal pisou o solo manauara. O casario à beira do rio mostrou uma realidade distante da imaginada, evidenciando desafios que somente a formação familiar e moral viriam a permitir enfrentar de forma exitosa, encontrando no nascimento da primogênita do casal, Socorro de Fátima Branca Seco Ferreira, em setembro daquele ano, uma razão a mais para lutar.
Casal Branca Ferreira e Acácio Ferreira – Embarque para o Brasil (Lisboa, 1960). Foto: Acervo da família
A percepção da árdua luta do esposo, no comércio que possuía na parte interna do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, e a disposição sempre presente de ajudar, fizeram com que suas visitas diárias para deixar a merenda fossem ficando a cada dia mais demoradas, na medida em que o ajudava no atendimento aos clientes e envolvia-se nas atividades burocráticas, entrando para o ramo do comércio.
A família ampliou-se com o nascimento da segunda filha, Acácia Branca Seco Ferreira, em Portugal, e, anos mais tarde, com o nascimento do benjamim, Acácio Sérgio Seco Ferreira, desta vez em Manaus. A ampliação da organização familiar aconteceu em paralelo com o seu crescimento na atividade comercial, que levaria à constituição, em 2.05.1967, de uma sociedade limitada com o seu esposo, em igualdade de condições – quer na participação societária, quer na gestão – , e que gira, há 59 anos, sob a designação de “ARMAZÉNS COIMBRA”, mas que a sociedade manauara conhece como a “Loja da D. Branca”.
Com sede inicialmente na Rua dos Barés, n.º 22, na parte externa do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, permanece o empreendimento no mesmo local, hoje sob o n.º 5. A reforma do mercado levou à transferência da sede da empresa, em 1977, para o local de funcionamento do seu depósito, localizado na Rua Mundurucus, n.º 90. Com a reabertura do mercado, o espaço, em 1980, passou a abrigar a Filial 1. Anos mais tarde, em 2006, uma nova reforma levaria à transferência dessa filial para o imóvel localizado na Rua dos Barés, n.º 264. O espaço subtraído à loja pela nova reforma do mercado limitou a oferta de produtos no local impedindo a transferência da Filial 1 e dando espaço à abertura, em 2014, da Filial 2.
Carregamento de mercadorias no Porto de Manaus (1962). Foto: Acervo da família
Nessas seis décadas, sob sua liderança, o Armazéns Coimbra atravessou tempos turbulentos, destacando-se sempre pela comercialização de produtos seletos e de boa qualidade, em especial o bacalhau. Sempre gerenciou o seu empreendimento como um ambiente familiar, onde cada colaborador sempre foi percebido como membro da família, resultando em vínculos de trabalho de mais de quatro décadas com alguns deles e até despertando sentimento filial em outros, como Maria Terezinha de Jesus Oliveira. Mestre na arte do convívio, soube fazer de cada fornecedor um parceiro e de cada cliente, um amigo.
O reconhecimento do seu empreendimento pelo seu nome resulta de uma trajetória alicerçada numa fé inabalável em Nossa Senhora de Fátima, marcada por trabalho árduo, jornadas exaustivas e intensa vontade de ajudar, a qual serve de inspiração aos netos Ataliba David Antônio Neto, Marcelo Acácio Ferreira David Antônio e Soraya Natasha Ferreira David Antônio, assim como a todos que a cercam.
Placa em azulejo português colocada na fachada da loja matriz aos 55 anos (2022). Foto: Acervo da família
Se o reconhecimento do seu trabalho para a consolidação do “ARMAZÉNS COIMBRA” é fato; também o é de que o empreendimento somente se tornou possível pela luta de seu cônjuge Acácio Duarte Ferreira. Esse jovem português, que, ao despertar para a mocidade num Portugal pós-Segunda Guerra Mundial marcado por forte repressão interna e pobreza, viu-se obrigado a deixar para trás sua família e sua terra natal.
Nascido, em 6.02.1930, na pitoresca aldeia de Vilarinho do Alva, localizada na freguesia de Pombeiro da Beira, pertencente ao concelho de Arganil, no Distrito de Coimbra, Acácio Ferreira – o filho mais velho do casal de agricultores Artur Duarte Ferreira e Eugênia Dias Soares – foi mais um dos inúmeros portugueses que participaram do forte movimento de emigração para o Brasil.
A Amazônia, cujos ciclos da borracha incentivaram a vinda de inúmeros portugueses que acabaram por dominar o comércio, havia, anos antes, atraído o seu tio Armindo Dias Soares, irmão de sua mãe, que, com muito trabalho, tornou-se sócio de duas lojas comerciais: Casa Dias e Renascença. Com a vida estabelecida, providenciou a vinda de dois sobrinhos, filhos de seus irmãos: Acácio Ferreira e Armando Soares.
Acácia Ferreira. Foto: Acervo da família
Embalado pelo sonho de voltar a Portugal, neste solo manauara o menino fez-se homem a trabalhar arduamente, primeiro com o seu tio e depois no Mercado Municipal Adolpho Lisboa, onde inicialmente trabalhou na parte interna. Logo, seria a sua vez de viabilizar a vinda do seu irmão caçula Armindo Soares Ferreira e, mais tarde, de sua irmã Maria da Piedade Lopes, já casada com Benjamim Duarte Lopes.
A preocupação em preparar-se para a atividade empresarial fez com que conseguisse a proeza de conciliar jornadas exaustivas de trabalho, que começavam ainda na madrugada, com intenso estudo para obter a formação em nível médio, em datilografia e tirar a carteira de condução para poder dirigir caminhão.
Com disciplina elevada e trabalhando como um mouro, conseguiu em pouco tempo juntar dinheiro para tornar-se sócio da Casa Batista, localizada na parte externa do Mercado e onde ainda hoje funciona a Filial 2. A sociedade feita com Manuel Rodrigues de Almeida deu origem a RODRIGUES & FERREIRA LTDA., que viria a ser sucedida pela empresa ACÁCIO DUARTE FERREIRA & CIA. LTDA., resultante da sociedade daquele homem visionário com sua esposa, e que foi registrada na Junta Comercial do Amazonas em 5.05.1967. A escolha do nome de fantasia “ARMAZÉNS COIMBRA” aviva a condição de emigrante de seus fundadores, que escreveram suas histórias de vida servindo à sociedade manauara.
Por Acácia Branca Seco Ferreira: Administradora, Contadora e Advogada. Membro da Academia Brasileira da Qualidade – ABQ; Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas – IGHA; Membro da Academia Amazonense de Administração – ACAAD; Integrante do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade – CETUR-AM (FECOMERCIO-AM); Integrante da Diretoria da Associação Comercial do Amazonas – ACA; Integrante da Diretoria do Conselho da Comunidade Portuguesa e Luso Brasileira do Amazonas.
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.