Comendador Emídio Vaz de Oliveira, um destemido lusitano

Emídio foi um denodado empreendedor, um benemérito de muitas causas, mas, acima de tudo, um iluminado homem de bem, abençoado por Deus.

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

Mais um destemido lusitano a quem o Amazonas muito deve, pelos seus elevados de solidariedade humana, pelas suas formidáveis ações produtivas e pelo seu extremado e fraternal amor ao nosso estado. Um genuíno luso-brasileiro e autêntico humanista. Emídio Vaz de Oliveira nasceu em Vila Real, região de Tras-os-Montes, Portugal, a 19 de janeiro de 1910. Foram seus pais o tabelião Antônio da Costa Oliveira e D. Maria Vaz d’Oliveira.

Veio para o Brasil com apenas 17 anos, já com curso ginasial completado em sua terra natal, no Liceu Central Camilo Castelo Branco, desembraçando no Porto de Santos (SP) a 8 de julho de 1977. Permaneceu algum tempo em São Paulo, antes de chegar a Manaus, em 1932, atendendo a um convite do seu irmão José Vaz d’Oliveira.

Na época a cidade contava com uns 80 mil habitantes, o estado com uns 420 mil, e representava um verdadeiro festival de arruinados, em decorrência do declínio do ciclo da borracha. Mesmo assim, aqui chegou, nunca mais saiu de Manaus.

Comendador Emídio Vaz d’ Oliveira, um destemido lusitano
Comendador Emídio Vaz de Oliveira na infância. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Foi casado com a senhora Maria do Céu Beça Vaz d’Oliveira, talentosa professora pertencente à família de grande destaque em Manaus. Aprovado no concurso de habilitação, concluiu na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Manaus o curso de Bacharel em Direito, turma de 1936, paraninfada pelo ilustre senador e Ministro Professor Doutor Waldemar Pedrosa, único português da turma, que estava formada pelos seguintes amazonenses: Amadeu Soares Botelho, Carlos Alberto de Aguiar Correa, Hamilton Belfort dos Santos, Heiroceryce Rodrigues Pessoa, João Batista Monteiro de Souza, Mario de Oliveira Adrião, Mário Jorge de Couto Lopes, Raphael Barbosa de Amorim, Boberval Belfort dos Santos e Sebastião Norões.

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Figura humana extraordinariamente agradável, magnânima, de muitas e agradáveis virtudes, o seu relacionamento social em Manaus foi amplo e instantâneo: era sempre recebido com carinho e alegria em todas as camadas sociais, pois que, todos sabiam, ali chegara um homem honrado, que só trilhava os caminhos da justiça e da solidariedade, ou como afirmou certo autor português, o caráter do transmontano é retilíneo desde o berço e firme até o fim dos tempos.

Em entrevista concedida ao jornal A Crítica, em 8 de julho de 1977, por ocasião do seu cinquentenário de vivência no Brasil, com o título o jovem de Vila Real ficou preso ao feitiço de Manaus, assim declarou:

“Não tive grande participação na vida literária da mocidade de minha época. Como comerciante, não podia dedicar-me a literatura. Como bacharel, estava ligado a mocidade intelectual, na qual figuravam nomes como Adriano Jorge, Álvaro Maia, Leopoldo Peres, Genesino Braga, Arthur Cezar Ferreira Reis, Aristophano Antony, Ramayana de Chevalier, Herculano de Castro e Costa, e Clóvis Barbosa. A este se deveu a fundação da revista literária A Selva que, chegou a ter repercussão nacional, abrigando alguns escritores modernistas que despontavam como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. O nome da revista fora dado em homenagem ao romance de Ferreira de Castro. Promovi, então, a vinda a Manaus dos escritores Adriano Moreira e Ernani Cidade. O próprio Ferreira de Castro não veio a Manaus por motivo de doença”.

As suas atividades comerciais e industriais foram seguras, arrojadas e intensas. Organizou e dirigiu em Manaus as empresas E. V. d’ Oliveira & Cia., E. V. d’Oliveira (Seguros) Ltda. e Oliveira, Barbosa & Cia. Ltda. Foi um dos fundadores e o primeiro Diretor-Presidente da Companhia Industrial Amazonense, pioneira na industrialização do estanho. Participou como acionista e membro do Conselho Fiscal da Companhia Brasileira de Juta, pioneira na industrialização da fibra no Amazonas, durante muitos anos o sustentáculo da economia amazonense. Teve uma participação decisiva na localização em Manaus do hotel turístico que a Varig (durante muitos anos agenciou em Manaus esta importante companhia aérea brasileira) construiu na área da Ponta Negra. Sem a menor dúvida foi o responsável direto, com o seu entusiasmo e prestígio pela construção do Tropical Hotel de Manaus.

A sua participação nas instituições sociais e beneméritas de Manaus igualmente foi de grande expressão, sobretudo pela retidão de seu caráter, sempre admirada pelas numerosas provas de reconhecimento da sociedade manauense. Recebeu a Comenda Equitem Ordinis Sancti Silvestri Papae de Sua Santidade o Papa, bem assim, integrou a Ordem dos Cavalheiros de Concórdia, de Roma, Itália. Foi:

  • Presidente da Real e Benemérita Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, de 1948 a 1951;
  • presidente do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira no Amazonas;
  • diretor, vice-presidente e membro efetivo do Conselho Superior da Associação Comercial do Amazonas, que lhe outorgou em 1988, com muita justiça, a Medalha do Mérito Empresarial J. G. Araújo;
  • fez parte da Câmara Municipal de Manaus a Medalha do seu Tricentenário
  • do Conselho Fiscal do Banco do Estado do Amazonas;
  • e Cônsul Honorário da França (1938-1943) e da Bolívia (interino).

Além da comenda papal, recebeu incontáveis títulos de alta significação, dentre os quais destacamos os outorgados pelo Luso Esporte Clube, tradicional entidade social esportiva de origem portuguesa, pela Santa Casa de Misericórdia e pelo Aeroclube de Manaus, entidades que tiveram participação direta da nossa extraordinária ação criadora.

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

A sua antiga e famosa residência, no centro de Manaus foi transformada a 28 de novembro de 2001, pela Secretaria de Cultura do Estado, em Biblioteca e Centro de Artes Infantil Emídio Vaz de Oliveira, para atender crianças de 4 a 10 anos, do pré-escolar e ensino fundamental, em pleno funcionamento.

Em 19 de janeiro de 2002, recebe post mortem a homenagem definitiva dos seus numerosos e saudosos amigos e administradores: tem o seu nome adotado na Ordem do Mérito Luso-Brasileiro do Amazonas Comendador Emídio Vaz de Oliveira, instituída com o objetivo de homenagear personalidades que se destacam em diferentes áreas e voltados para o progresso do Amazonas.

Os fundadores desta Ordem do Mérito foram seus velhos amigos: José de Moura Teixeira Lopes, Alfredo Ferreira Pedras, José dos Santos da Silva Azevedo, Alfredo Monteiro Vieira, José Bernardo Cabral, José Roberto Tadros, Phelippe Daou, Milton de Magalhães Cordeiro e Abrahim Baze.

Emídio Vaz de Oliveira faleceu em Manaus em 29 de dezembro de 1996, com 86 anos. Foi um denodado empreendedor um benemérito de muitas causas, mas, acima de tudo, um iluminado homem de bem, abençoado por Deus.

Antônio da Costa Oliveira, pai de Emídio Vaz de Oliveira. Foto: Abrahim Baze/Acervo Pessoal

É natural que tenha recebido diferentes formas de homenagens dos mais variados recantos, tributadas em reconhecimento dos seus valiosos e inusitados dotes de profecia, honradez e equilíbrio. Assim, ficam registradas algumas das homenagens que recebeu:

Municipais

  • Título de Cidadão Benemérito de Manaus, concedido pela Câmara Municipal de Manaus (1972);
  • Diploma da Prefeitura Municipal de Manaus Comemorativo ao Tricentenário de Fundação de Manaus (1969);
  • Placas de Honra ao Mérito, conferidas em 1964, 1977 e 1983 pelo Ideal Clube de Manaus.

Estaduais

  • Ordem do Mérito do Estado do Amazonas, no grau de Comendador (1983);
  • Medalha da Cidade de Manaus Casa Forte do Rio Negro (1969);
  • Medalha Tiradentes, concedida pela Polícia Militar do Amazonas;
  • Medalha Amigo da Marinha, concedida pelo Comando Naval da Amazônia Ocidental;
  • Medalha Mérito Empresarial J. G. Araújo concedida pela Associação Comercial do Amazonas;
  • Placas de Homenagem da Superintendência da Zona Franca de Manaus, em 1982 e 1983;
  • Homenagem do Escritor Jorge Amado com o Poema Cantiga da Amazônia.

Nacionais

  • Medalha de Honra ao Mérito concedida pelo Exército Brasileiro;
  • Medalha do Sesquicentenário da Independência do Brasil;
  • Medalha Congresso Rosa de Ouro comemorativa a N. S. Aparecida, Basílica de Aparecida, SP, 1967;
  • Medalha Comemorativa da I.° Travessia Aérea do Atlântico Sul, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, 1922-1972;
  • Participante da Comitiva de homenagem do Brasil a Santa Igreja Católica Apostólica Romana (1950).

Internacionais

  • Ordem do Infante D. Henrique concedida pelo Governo de Portugal no grau de Comendador;
  • Ordem de São Silvestre da Santa Sé Vaticano no grau de Cavaleiro, concedida por Sua Santidade o Papa;
  • Título de Cidadão de Miami, Florida (EUA);
  • Diploma de Honra ao Mérito conferido pelo Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.
Comendador Emídio Vaz d’ Oliveira, um destemido lusitano
Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

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Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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