O segundo sábado de maio é o Dia Mundial das Aves Migratórias, um evento importante que lembra da importância de proteger as aves que percorrem enormes distâncias como parte de seu comportamento biológico.
O território peruano é uma parada crucial para essas aves, mas quais áreas se destacam? Quantas espécies de aves migratórias foram registradas em no país e quais são as mais emblemáticas?
O Dia Mundial das Aves Migratórias tem como objetivo aumentar a conscientização global sobre a importância dessas aves, seus habitats e seu papel nos ecossistemas, bem como aumentar a conscientização pública sobre as ameaças que elas enfrentam durante a migração e encontrar mecanismos de cooperação para proteger essas espécies.
Essas aves migram sazonalmente, viajando milhares de quilômetros em busca de alimento, para se reproduzirem em regiões mais quentes ou em áreas mais tranquilas para passar o inverno.
Desde 2018, este evento é celebrado em duas datas: o segundo sábado de maio e o segundo sábado de outubro, para alcançar um público mais amplo e disseminar conhecimento sobre a proteção dessas aves. Em 2026, o tema central desta comemoração destaca a importância da ciência cidadã (também conhecida como ciência comunitária) para a conservação de aves migratórias.
O Peru como uma escala crucial para aves migratórias
As aves migratórias fizeram do Peru uma importante escala em suas jornadas. Elas chegam à Amazônia peruana em busca das margens fluviais que se formam durante a estação seca e são utilizadas para nidificação e criação de filhotes.
Eles também chegam aos Andes peruanos, em busca de pântanos e grandes lagos salgados onde o alimento é abundante. Chegam principalmente ao litoral peruano, fugindo do frio que assola sua terra natal, com temperaturas que tornam a vida selvagem quase impossível.
Locais como a Reserva Nacional de Paracas, o Refúgio de Vida Silvestre Pantanos de Villa ou o Santuário Nacional Los Manglares de Tumbes foram designados como sítios de importância internacional pela Convenção de Ramsar sobre Zonas Úmidas.
A inclusão desses territórios demonstra o compromisso do Peru em tomar as medidas necessárias para garantir a conservação dos processos ecológicos dessas aves.
Por sua vez, o Santuário Nacional Lagunas de Mejía , na região de Arequipa, uma área natural protegida dedicada à conservação de aves ameaçadas de extinção, recebe anualmente mais de 180 espécies migratórias do Peru, da América do Sul e da América do Norte.
Gaivotas-de-Franklin e andorinhas-do-mar de várias espécies, dezenas de tarambolas e maçaricos, virapédras e maçaricos-reais, narcejas e tesourinhas-do-mar, pernilongos-de-asa-preta e águias-pesqueiras são algumas das espécies emblemáticas de aves migratórias que, todos os anos, fazem uma parada crucial em sua grande jornada continental para se alimentar e repor as energias e, após algumas semanas, iniciar a viagem de volta aos seus locais de nidificação.
Foto: ANDINA/Divulgação
Ao chegarem, juntam-se às populações de aves residentes, partilhando as praias com ostraceiros, andorinhas-do-mar-inca, gaivotas-peruanas e catadores de marisco. No entanto, a repentina chegada de aves famintas não produz o caos e as disputas que se poderia esperar. Pelo contrário, dezenas de espécies partilham pacificamente às margens enquanto procuram alimento de acordo com as suas próprias técnicas de alimentação.
A chave para este oásis surpreendente está escondida sob a areia e chama-se muymuy. Um pequeno crustáceo, cujo nome parece ter sido escolhido para homenagear a sua importância no ecossistema costeiro. Os muymuys alimentam-se de plâncton e vivem enterrados em águas rasas na zona de arrebentação das praias arenosas, tornando-os presas fáceis para uma legião de viajantes alados famintos. Durante o verão, a população de muymuys explode, garantindo um banquete farto para os abundantes visitantes voadores que chegam de terras distantes.
Global Big Day 2026
Como parte do Dia Mundial das Aves Migratórias, está acontecendo o Global Big Day 2026, um evento mundial de observação de aves para aumentar a conscientização sobre a conservação das aves e construir conhecimento coletivo. Neste dia, pessoas de todo o mundo se unem para registrar o maior número possível de espécies de aves em seus países durante um período de 24 horas.
Participar não só mantém o país como um dos líderes mundiais na observação de aves, como também destaca a importância da conservação de áreas protegidas e do turismo sustentável.
O fotógrafo oficial da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, Dana Merrill (caracterizado como caubói), posa ao lado de um grupo de indígenas. Ao centro, um deles com um rifle. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Em 1909, o fotógrafo estadunidense Dana Merrill, então com 32 anos de idade, desembarcou em Porto Velho (atual capital de Rondônia e, à época, parte do território de Humaitá/AM) com a missão de registrar a grande e derradeira parte da aventura que foi a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, encerrada em 1912. Quando ele aportou no canteiro de obras, a ferrovia contava com apenas 74 quilômetros de trilhos assentados.
Apesar de Merrill ser o nome mais festejado e reconhecido quando se pensa na iconografia da EFMM, é preciso fazer uma justiça histórica: antes de sua chegada, o engenheiro Percy Herbert Ashmead (1867–1919) já havia produzido cerca de 200 imagens a serviço da companhia. Ashmead só deixou o ofício paralelo de documentar o cotidiano ferroviário quando o profissional contratado assumiu as funções.
Pouco se sabe sobre a biografia de Dana Merrill, mas seu legado é monumental: são mais de 2.000 imagens produzidas entre 1909 e 1912, que capturaram uma das maiores e mais diversas ondas migratórias do planeta. Seus registros revelam o olhar de um verdadeiro documentarista, alguém que parecia compreender com exatidão a importância e a complexidade de seu tempo.
Mesmo trabalhando a serviço da cidade-empresa, suas fotografias também circulavam de forma independente, sendo vendidas como souvenirs nos classificados do jornal em língua inglesa The Porto Velho Times, que circulava entre os trabalhadores.
Registro de anúncio de jornal: fotos produzidas pelo fotógrafo Merril comercializadas como souvenires. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Indígenas da TI Caru, no Maranhão, durante a oficina de foto e vídeo por celular ministrada pelo fotógrafo Adriano Gambarini. Foto: Reprodução/PPBio – Rede Resiliência
“Na minha Terra Indígena Caru, eu já trabalho como guardião da floresta, fazendo vigilância e monitoramento da fauna. Isso me motivou [a participar da qualificação] porque vi a necessidade de também conhecer determinadas áreas com menos e mais animais”.
Esse depoimento é de Milson Guajajara, um dos 28 participantes da oficina de fotografia e vídeo por celular realizada na Terra Indígena Caru, no Maranhão, pelo Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Oriental (PPBio-AmOr), por meio do projeto Rede Resiliência, que tem o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) entre as instituições parceiras.
Milson também atua como bolsista de apoio técnico no projeto, devido ao valor do seu conhecimento tradicional. Para ele, além de colaborar com a proteção do seu território e com a produção de registros da fauna, a formação vai ajudar a manter viva a sua cultura.
“Por isso é importante fazermos os registros. [A oficina] vai melhorar [o trabalho] porque tínhamos a necessidade de realizar o monitoramento e a vigilância para que as futuras gerações pudessem ver e dar continuidade à proteção do Território Caru e para que a fauna e a flora resistam”, finalizou.
A oficina foi ministrada pelo fotógrafo e documentarista Adriano Gambarini, colaborador permanente da National Geographic Brasil, que atua em projetos com populações tradicionais da Amazônia há 30 anos. As atividades foram adequadas para cada uma das localidades em decorrência da experiência prévia que a equipe do PPBIO – Rede Resiliência tinha com os indígenas.
Participantes da oficina em trabalho de campo. Foto: Reprodução/PPBio – Rede Resiliência
“Além de toda a parte técnica, de regulagem do próprio celular, eu gosto muito de compartilhar sobre a história da fotografia, desde a primeira fotografia analógica, linguagem fotográfica, estética visual, todas as informações possíveis para que eles possam fazer um registro com fotografia, vídeo e edição de vídeo dessa área fantástica que eles vivem”, afirmou Adriano em vídeo institucional produzido pelo projeto.
A atividade, que integra um processo contínuo de formação de multiplicadores locais, ocorreu em dois momentos: de novembro a dezembro de 2025, na aldeia Maçaranduba, e no último mês de fevereiro, na aldeia Awá, contemplando também indígenas de comunidades próximas, como a aldeia Nova Samyã, onde vive a participante Simone Guajajara.
“O que me motivou a participar da oficina foi a oportunidade de aprender coisas novas, desenvolver habilidades e ter novas experiências. Também achei interessante poder interagir com outras pessoas e trocar conhecimentos”, afirmou.
Um dos objetivos da oficina é consolidar redes comunitárias de monitoramento ambiental para a proteção dos territórios. “Através da oficina, podemos registrar e compartilhar saberes importantes que muitas vezes são passados de geração em geração. Espero que a oficina contribua para a conservação da sociobiodiversidade da Amazônia, ajudando a conscientizar as pessoas sobre a importância de preservar a natureza e os modos de vida dos povos que vivem nela”, reiterou Simone.
A participante afirma ainda que o aprendizado pode fortalecer o cuidado com o meio ambiente e garantir que os conhecimentos tradicionais e os recursos naturais sejam protegidos.
Conforme a pesquisadora integrante do PPBio – Rede Resiliência, Beatriz Cosendey, a ideia da oficina de foto e vídeo por celular surgiu pela necessidade de garantir bons registros de vestígios da fauna, garantindo a qualidade da análise.
“O monitoramento dos territórios se dá através da identificação de rastros, pegadas, fezes, pena, observação direta, som, entre outros, que são registrados nos aplicativos Cybertracker [de foto] ou Timestamp [de foto e vídeo]”, informou a cientista, acrescentando que os aplicativos são estilizados de forma a ficar intuitivo para os usuários, que recebem treinamento prévio para tal.
O Museu Goeldi integra o PPBio-AmOr desde a sua criação, em 2004. Nestes mais de vinte anos, coordenou projetos, colaborou com pesquisas, contribuiu com a formação de estudantes e ajudou a fortalecer acervos científicos na Amazônia. Instituído pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o programa é financiado e gerido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Em 2023, um novo projeto passou a incrementar os seus resultados: a “Rede Integrada de Análise da Resiliência da Sociobiodiversidade da Amazônia Oriental aos Impactos dos Sistemas de Ocupação e Uso do Solo e das Mudanças Climáticas – Rede Resiliência”, que está sediada no MPEG, sob a coordenação geral do pesquisador Rogério Rosa da Silva.
A Rede Resiliência atua a partir de três eixos: o eixo “Sociobiodiversidade”, coordenado por Juarez Pezzuti, da Universidade Federal do Pará (UFPA), busca fortalecer a interlocução com povos indígenas e populações locais por meio de pesquisas colaborativas e da valorização de tecnologias sociais.
Já o eixo “Síntese”, liderado por Valéria Tavares, do Instituto Tecnológico Vale (ITV), e por Ana Cristina Mendes de Oliveira, também da UFPA, analisa o grande volume de dados gerados para a Amazônia Oriental, com foco em abordagens macroecológicas, incluindo estimativas de padrões de distribuição dos táxons, que são unidades para classificação de organismos, no passado, presente e futuro, bem como suas respostas às interferências humanas, como fragmentação, degradação ambiental e mudanças climáticas.
Por fim, o eixo “Lacunas”, coordenado por Rogério Rosa da Silva, do Museu Goeldi, foi pensado para preencher as lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade e fortalecer as coleções científicas com a divulgação de dados.
De acordo com o coordenador da Rede Resiliência, a oficina de foto e vídeo por celular realizada na Terra Indígena Caru decorreu do eixo “Sociobiodiversidade” do projeto, tendo como um dos principais objetivos desenvolver estratégias de coprodução de conhecimento com povos tradicionais. “As relações com as comunidades ainda estão em construção e se fortalecem por meio de trocas de saberes”, reforçou o coordenador.
Indígenas recebem certificado pela conclusão da oficina ao lado do fotógrafo Adriano Gambarini e da equipe do PPBio – Rede Resiliência. Foto: Reprodução/PPBio – Rede Resiliência
A Rede Resiliência reúne cerca de 100 integrantes e aproximadamente 20 instituições, distribuídas em diferentes regiões do Brasil e do exterior, com forte concentração na Amazônia Oriental. As áreas de atuação do projeto abrangem diferentes unidades de conservação e localidades no Amapá, Maranhão, Pará e Tocantins.
No que se refere às comunidades tradicionais, as atividades incluem, até o momento, o Quilombo do Abacatal, e as Terras Indígenas (TI) Alto Rio Guamá (aldeia Itwaçu), Caru (aldeias Maçaranduba, Awá, Nova Samyã, Tiracambu), Alto Turiaçu (aldeias Cocal, Turizinho, Xiépihu-Rena, Paracuí-Rena), Las Casas (aldeia Las Casas), Kayapo (aldeia Kriny) e Resex do Rio Cajari (quiombo do Tapereira).
O período de execução do projeto vai de 2023 a 2027. No entanto, as ações foram estruturadas para garantir a continuidade das colaborações para além desse período, por meio do fortalecimento de redes de pesquisa e de parcerias institucionais.
Rogério afirma que outras parcerias ainda estão em fase de estabelecimento e os trabalhos seguem em andamento. A análise dos resultados têm como previsão de início no próximo semestre de 2026.
“Mesmo assim, resultados parciais já apontam descobertas de espécies e avanços no preenchimento de lacunas de conhecimento para diversos grupos biológicos, além da obtenção de informações que ajudam a compreender melhor as ameaças e a orientar estratégias de conservação desses territórios”, explicou o coordenador, frisando que as atividades e as colaborações desenvolvidas no projeto não ficam restritas ao período de execução.
“A ideia é dar continuidade a essas iniciativas por meio da rede que vem sendo construída, fortalecendo as conexões já estabelecidas. Com isso, o projeto busca ampliar o alcance das ações e gerar um impacto mais duradouro, tanto na produção de conhecimento, expansão de coleções, formação de pessoas e no apoio à conservação da sociobiodiversidade na Amazônia Oriental”, finalizou.
Segundo os estudantes da Unifranz, a iniciativa surge da empatia e do compromisso para com aqueles que enfrentam restrições em sua alimentação diária. Foto: Reprodução/Unifranz
Um grupo de estudantes de Bioquímica e Farmácia da Universidade Franz Tamayo (Unifranz), na Bolívia, desenvolveu um iogurte funcional inovador para pessoas com diabetes. O protótipo, chamado “Curcuyog”, é um iogurte enriquecido com curcumina — o ingrediente ativo da cúrcuma — que visa proporcionar benefícios principalmente no controle glicêmico e na saúde em geral.
O projeto do iogurte surgiu como uma iniciativa acadêmica com foco social, combinando pesquisa científica e prototipagem. A equipe de desenvolvimento é formada por Roselia Quiñajo, Esther Quispe, Álvaro Gutiérrez, Fiorella Castillo, Américo Aguilar e Carmen Baldivieso. Eles também são orientados por María Julia Conde, professora de Bioquímica e Farmácia da Unifranz.
“Nosso projeto se chama ‘Curcuyog’ e consiste na produção de um iogurte especial para pessoas com diabetes. Seus benefícios: é um iogurte funcional para pessoas com diabetes tipo 2, pois, graças ao seu ingrediente ativo, a cúrcuma, ajuda a reduzir os níveis de insulina, ou seja, diminui a glicose no sangue”, explica Esther.
O diabetes mellitus tipo 2 é uma doença crônica caracterizada por altos níveis de glicose no sangue, causados pela resistência à insulina e pela produção insuficiente desse hormônio pelo pâncreas.
Especialistas indicam que seu desenvolvimento está intimamente ligado a fatores como obesidade, sedentarismo e predisposição genética. O tratamento inclui mudanças no estilo de vida, como uma dieta saudável e exercícios físicos regulares, além de medicamentos e, em alguns casos, administração de insulina.
A proposta “Curcuyog” baseia-se em evidências científicas que comprovam os efeitos da curcumina na melhora do metabolismo da glicose, na redução da resistência à insulina e na melhoria de indicadores como a glicemia em jejum.
Desenvolvimento científico e formulação de produtos
O processo de criação do iogurte Curcuyog envolveu diversas etapas rigorosas, desde a pesquisa até a validação do produto final.
“O processo de desenvolvimento do nosso produto foi dividido em três etapas: pesquisa, formulação e testes. Na fase de pesquisa, analisamos a cúrcuma, pois ela tem um sabor terroso e intenso, então tivemos que torná-la palatável e também garantir que não comprometesse a textura do produto. Na formulação, adicionamos estévia para que não elevasse os níveis de açúcar no sangue, especialmente para pessoas com diabetes tipo 2”, explica Roselia.
Essa abordagem destaca a importância de equilibrar as propriedades funcionais da cúrcuma, garantindo que o produto seja saudável e atraente para os consumidores. A inclusão da estévia, um adoçante natural, atende à necessidade de prevenir picos de açúcar no sangue, especialmente em pessoas com diabetes.
Benefícios potenciais da curcumina
A cúrcuma, utilizada há séculos na medicina tradicional, tem sido amplamente estudada por suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. A curcumina, seu principal componente ativo, atua reduzindo marcadores inflamatórios e combatendo o estresse oxidativo, o que pode beneficiar a saúde cardiovascular, articular e cerebral.
Além disso, pesquisas sugerem que seu consumo ajuda a aliviar dores crônicas, melhora a digestão e pode reduzir o risco de doenças degenerativas. No entanto, especialistas alertam que esses benefícios devem ser considerados complementares e não substituem os tratamentos médicos convencionais.
Projeção social e compromisso
O projeto também possui um forte componente humano. Álvaro, outro dos estudantes desenvolvedores, destaca:
“As melhorias que podemos implementar incluem mais testes experimentais nos laboratórios da universidade, muito mais inovação ao podermos desenvolver mais sabores utilizando frutas, que podem ser consumidos por pessoas que sofrem dessa doença, mas ver o resultado nos deixa muito felizes”, enfatiza o futuro bioquímico.
O grupo de estudantes não só busca inovar no setor alimentício, como também atender às necessidades reais de sua comunidade. Essa iniciativa nasce da empatia e do compromisso com aqueles que enfrentam restrições alimentares, fortalecendo a dimensão humana de suas pesquisas e prototipagem, e guiando seus esforços para soluções práticas e acessíveis, com a visão de melhorar a qualidade de vida.
iogurte desenvolvido pelos alunos da Unifranz. Foto: Reprodução/ Unifranz
“Quando soubemos que alguns familiares de nossos colegas sofrem dessa doença, também sentimos a necessidade de fornecer a eles alimentos que não afetassem diretamente sua saúde”, destaca Gutiérrez.
Este depoimento reflete como a formação acadêmica pode transcender a sala de aula e se tornar uma ferramenta para solucionar problemas do mundo real. Curcuyog é um exemplo do potencial da pesquisa universitária para gerar impacto social.
Iniciativas como esta demonstram que o ensino universitário pode ser um espaço para inovação com propósito, onde ciência, pesquisa, saúde e compromisso social convergem para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Medida visa ampliar a navegabilidade de embarcações de maior porte e com maior carga na região do ‘Arco Lamoso’. Foto: Reprodução/Marinha do Brasil
A Marinha do Brasil (MB) concluiu o aumento do calado operacional no “Arco Lamoso”, trecho estratégico localizado na foz do Rio Amazonas, elevando a capacidade de navegação em uma das principais rotas hidroviárias do País. A medida amplia a segurança do tráfego marítimo e fluvial e fortalece o escoamento da produção nacional, com impactos diretos para a economia da região Norte e para o comércio exterior brasileiro.
Calado é a distância vertical entre a linha de flutuação de uma embarcação na superfície da água e a parte mais baixa da quilha, a parte mais baixa do casco do navio ou barco. Essa medida é essencial para determinar a profundidade mínima que uma embarcação precisa para navegar com segurança, sem risco de encalhar o colidir com o fundo do mar ou rios.
Com a alteração, o novo calado passou a ser de 11,85 metros para navios mercantes com cargas comuns e de 11,65 metros para navios-tanque e embarcações transportando cargas perigosas. Esses índices são relativos ao período entre 1º de fevereiro e 15 de agosto de cada ano. Para os outros meses, o novo limite é de 11,70 metros para navios mercantes e de 11,50 metros para navios-tanque e embarcações com cargas perigosas.
A atualização das condições de navegabilidade permite a passagem de embarcações com maior porte e maior carga, reduzindo restrições operacionais e aumentando a eficiência logística. Em uma região marcada por intensa dinâmica sedimentar, como é o caso do estuário amazônico, ações contínuas de levantamento hidrográfico e atualização cartográfica são essenciais para garantir rotas seguras.
O “Arco Lamoso” é a área mais crítica e rasa dentro da Barra Norte, na foz do Rio Amazonas, entre o Pará e o Amapá, se estendendo por cerca de 45 quilômetros. O Diretor do Centro de Hidrografia e Navegação do Norte (CHN-4), Capitão de Fragata Anselmo Vinicius de Souza, destacou os principais desafios para se navegar na região.
“Os principais desafios são inerentes à grande dinâmica hidrológica da região, que é influenciada principalmente pela interação entre as diferentes massas d’água que confluem para o trecho da foz. Além disso, há também a ocorrência de um regime pluviométrico sazonal, caracterizado pelos períodos de “cheia” e de “seca” dos rios”, comentou o Capitão de Fragata Anselmo.
Relevância Econômica
O “Arco Lamoso” integra um corredor logístico vital para o escoamento de cargas, especialmente commodities oriundas das Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. A ampliação do calado possibilita maior eficiência no transporte, reduz custos logísticos e aumenta a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
A importância desse tipo de operação da MB se torna ainda mais evidente quando analisada à luz da chamada Economia do Mar. No Brasil, mais de 95% do comércio exterior é realizado por via marítima, evidenciando a dependência do País de rotas seguras e eficientes para a entrega de mercadorias.
Região do ‘Arco Lamoso’ é a principal saída das exportações do Brasil para o mar na região Norte. Imagem: Reprodução/Praticagem Brasil
Segundo dados apresentados pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), os portos e terminais da região Norte registraram o maior crescimento percentual do Brasil em 2025 – cerca de 10,4%, chegando a 163,3 milhões de toneladas, dado superior à média nacional (6,1%), o que pode indicar um redirecionamento do eixo logístico do País. O Diretor do CHN-4 ainda explica, em números, o impacto do aumento do calado na região.
“A quantidade de carga acrescida com o aumento do calado varia de acordo com as características de cada navio. Para os navios do tipo ‘Panamax’, que são as embarcações cujas as suas dimensões alcançaram o tamanho limite para passar nas eclusas do Canal do Panamá, por exemplo, o aumento pode representar até cerca de dez mil toneladas por embarcação, representando um ganho aproximado de US$ 1 milhão de carga por navio – cerca de R$ 5 milhões”, completou.
A MB, por meio do Serviço de Sinalização Náutica e da atividade de Hidrografia, garante a segurança da navegação nas águas sob jurisdição brasileira. Para isso, algumas missões operativas são realizadas frequentemente, como os levantamentos hidrográficos, a produção e a atualização de cartas náuticas e a divulgação de informações essenciais aos navegantes.
No caso do “Arco Lamoso”, a atuação da Força Naval envolveu também o monitoramento das condições do leito do rio, a análise da dinâmica sedimentar e a atualização dos parâmetros de navegação, permitindo a redefinição segura do calado na região. Ao todo, cerca de 110 quilômetros quadrados foram sondados na área da Barra Norte para a garantia de um aumento seguro do calado.
Essas ações integram o esforço contínuo para assegurar a navegabilidade em áreas críticas, especialmente na Amazônia, onde fatores naturais como correntes, marés e sedimentação exigem acompanhamento constante.
Navio Balizador ‘Tenente Castelo’ (H19) é um dos responsáveis pelo levantamento hidrográfico na área da região Norte. Foto: Reprodução/Marinha do Brasil
Hidrovias: eficiência logística e alívio para o transporte terrestre
O transporte hidroviário desempenha papel estratégico na matriz logística brasileira, especialmente no escoamento de grandes volumes de carga. Embora ainda subutilizado, o modal já responde por uma parcela relevante do transporte nacional e apresenta elevado potencial de expansão. O transporte por rios e canais é considerado mais econômico e energeticamente eficiente, sendo especialmente adequado para cargas de grande volume, como grãos e minérios, que representam parcela significativa das exportações brasileiras.
Na prática, o fortalecimento do transporte hidroviário pode contribuir para reduzir a sobrecarga das rodovias, diminuindo custos logísticos, o desgaste da infraestrutura terrestre e a emissão de poluentes. Em regiões como a Amazônia, onde a malha rodoviária é limitada, as hidrovias são, muitas vezes, o principal meio de integração e transporte de mercadorias, consolidando-se como elemento essencial para o desenvolvimento regional.
Iniciativas que ampliam as condições de navegação, como o aumento do calado em áreas estratégicas, não apenas elevam a segurança do tráfego aquaviário, mas também contribuem para uma matriz de transporte mais equilibrada, eficiente e sustentável no País.
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) lançaram, no dia 12 de maio, durante o Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026, em Belém, a publicação do Plano de Transformação Ecológica da Bioeconomia (PTEB) na Amazônia Ocidental.
A iniciativa estratégica propõe diretrizes para transformar a região em um polo de bioeconomia sustentável, capaz de ampliar a agregação de valor nos territórios, fortalecer cadeias produtivas locais e reduzir desigualdades territoriais.
O lançamento integrou a programação do BAS 2026, realizado de 12 a 14 de maio, na capital paraense. A FAS participou do evento com a presença da superintendente-geral adjunta da instituição, Valcléia Lima, além dos gerentes do Programa de Políticas Públicas em Clima e Conservação e de Empreendedorismo da FAS, Gabriela Sampaio e Wildney Mourão, que contribuíram com debates estratégicos sobre os caminhos da bioeconomia na Amazônia.
Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental. Foto: Dirce Quintino
Liderado pela FAS em parceria com a ABDI, o PTEB abrange os estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá. O plano está alinhado ao Plano de Transformação Ecológica (PTE) federal e à Estratégia Nacional de Bioeconomia (ENB), estruturando-se em três agendas prioritárias: bioindustrialização e biotecnologia; concessões florestais e territórios; e sistemas agroalimentares sustentáveis.
A publicação partiu de um diagnóstico técnico e de um amplo processo de escuta multissetorial, que analisou desafios históricos enfrentados pelos territórios amazônicos, como a dependência de importações, a baixa agregação de valor local, os desafios logísticos e a fragmentação institucional.
Entre os dados sistematizados, estão 230 instrumentos legais e normativos analisados, 368 iniciativas em curso mapeadas, 952 atores identificados, 200 gargalos estruturais sistematizados e 55 oportunidades de incidência, das quais 16 foram priorizadas de forma participativa.
Para Gabriela Sampaio, gerente do Programa de Políticas Públicas em Clima e Conservação da FAS, o lançamento da publicação representou um passo importante para aproximar o debate sobre bioeconomia da realidade dos territórios amazônicos.
“Pensar a bioeconomia amazônica passa por conectar floresta, ciência, indústria e os conhecimentos das populações da região. A proposta do Plano foi construída com essa proposta: contribuir para o debate sobre caminhos possíveis para que a Amazônia Ocidental e o Amapá avancem na agregação de valor em seus próprios territórios, fortalecendo cadeias produtivas locais e ampliando oportunidades a partir da floresta em pé”, afirmou Gabriela.
Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental. Foto: Dirce Quintino
Um dos principais diferenciais do PTEB é combinar planejamento econômico, governança e estratégias voltadas à implementação da bioeconomia. O plano organiza mecanismos de governança, estratégias financeiras, indicadores de monitoramento e oportunidades de incidência voltadas à implementação prática da bioeconomia amazônica. A proposta também prevê a implantação de três a cinco hubs regionais de bioindustrialização, articulando infraestrutura local, inovação tecnológica e inclusão produtiva.
A diretora interina de Economia Sustentável e Industrialização da ABDI, Neide Freitas, destaca a relevância estratégica do projeto para a política industrial do país.
“O PTEB é a materialização da Nova Indústria Brasil na Amazônia. Não estamos falando apenas de preservação, mas de uma estratégia industrial que utiliza a inovação e a bioindustrialização para agregar valor às nossas riquezas naturais. Nosso objetivo na ABDI é transformar o potencial da biodiversidade em competitividade global, garantindo que a transição para uma economia de baixo carbono seja o motor de um novo ciclo de desenvolvimento regional, com geração de emprego qualificado e protagonismo brasileiro na agenda verde”, disse.
O documento apresenta estimativas relacionadas a impactos econômicos, sociais e ambientais de grande escala, incluindo a mobilização de R$ 12 bilhões a R$ 20 bilhões, a geração de 50 mil empregos diretos, a manutenção de 500 mil hectares de floresta em pé e o fortalecimento de bioindústrias comunitárias.
Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental. Foto: Michael Dantas
A implementação do PTEB foi organizada em horizontes progressivos. No curto prazo, estão previstas ações como formalização da governança, lançamento de editais para plantas piloto e prospecção de bioativos, estruturação de plataformas de financiamento e inteligência territorial, além da valorização da cadeias produtivas e iniciativas ligadas à sociobioeconomia amazônica.
No médio e longo prazo, o plano prevê a consolidação de hubs regionais de bioindustrialização, mecanismos de rastreabilidade, integração logística, expansão de mercados sustentáveis e escalonamento industrial de bioinsumos amazônicos.
Com a publicação, FAS e ABDI buscaram fortalecer o debate sobre caminhos de desenvolvimento para a Amazônia baseados na floresta em pé, na inovação e no protagonismo das populações amazônicas na construção de caminhos sustentáveis e resilientes para a região.
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Sua missão é contribuir para a conservação do bioma, para a melhoria da qualidade de vida das populações da Amazônia e para a valorização da floresta em pé e de sua biodiversidade.
Vista das plataformas do Observatório de Torre Alta, em estação científica no Amazonas, mostra neblina densa como névoa sobre as copas das árvores. Fotos: Bruna Sebben/Acervo pessoal
O ponto a 43 metros de altura de uma plataforma metálica no meio da Floresta Amazônica, na Estação Científica de Uatumã, tem sido o local de trabalho recorrente da pesquisadora curitibana Bruna Sebben nos últimos sete anos. No Observatório de Torre Alta (ATTO), aonde se chega do aeroporto de Manaus (AM) por um trajeto de seis horas que envolve rodovia, barco e estrada de terra, pesquisadores do Brasil e da Alemanha buscam entender a relação entre floresta e atmosfera.
Para Bruna Sebben, estar na Amazônia significa desvendar a dinâmica e as funções da neblina amazônica. Talvez pouca gente saiba, mas a névoa é um fenômeno frequente da floresta. Ocorre entre as 3 e as 7 horas da manhã, coincidindo com o nascer do dia. Gera uma massa densa que envolve a vegetação e muda a paisagem na copa das árvores, entre 30 e 150 metros de altura.
“A floresta é de tirar o fôlego, uma experiência multissensorial que envolve visuais, sons e cheiros. Os diferentes tons de verde, a movimentação da copa pelo vento. E, no meio de tudo isso, uma torre, da qual se vê até mesmo o relevo por baixo desta selva”, descreve a cientista vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A neblina é resultado da perda de calor para a atmosfera à noite e de como esse resfriamento impacta a umidade (o vapor d’água) que a floresta produz o tempo todo.
Além de uma característica da Amazônia, a neblina é um dos processos do ciclo da água que fazem da floresta a “bomba d’água” do planeta. Mas, ao contrário dos rios voadores — as correntes de umidade que circulam pela Terra impulsionados pela floresta —, a neblina é menos estudada porque sua presença é local.
A pesquisadora Bruna Sebben, do Laboratório de Análise de Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR, no ponto de coleta de amostras da névoa, a 43 metros. Foto: Bruna Sebben/Acervo pessoal
Resultado da pesquisa de mestrado de Bruna Sebben, um estudo publicado com outros 35 autores no periódico Communications Earth & Environment traz elucidações sobre o papel ambiental da neblina amazônica. A pesquisa foi liderada pelo professor Ricardo Godoi, orientador da pesquisadora no mestrado que também coordena o Laboratório de Análise e Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR.
As análises indicaram que a neblina sustenta a vida microscópica da floresta, dispersando nutrientes e servindo de habitat para microrganismos, como fungos e bactérias. Também é uma facilitadora dos ciclos biogeoquímicos, ou seja, dos ciclos naturais que “reciclam” os elementos químicos necessários à vida, como água, carbono, nitrogênio e fósforo.A vida que mora na neblina amazônica
Neblinas são formadas basicamente por água condensada, o vapor de água que acabou de passar para o estado líquido. A pesquisa constatou que a neblina amazônica consegue carregar pela atmosfera partículas químicas, mas também microrganismos e até fragmentos de seres vivos macroscópicos (visíveis a olho nu).
Assim, a análise revelou que a neblina é um habitat temporário para microrganismos ativos. As amostras apresentaram concentrações de até 98 mil células por mililitro de água. Ou seja, a névoa é o ambiente de comunidades vivas de bactérias e de fungos que têm funções ambientais importantes.
“Estávamos dando um tiro no escuro. Claro que tínhamos uma noção da microbiota atmosférica da Amazônia, por conta de estudos de outros colegas, mas nossa ideia era observar como esses micro-organismos se comportam durante os eventos de nevoeiro. De forma geral, os fungos e as bactérias observados são essenciais para a decomposição da matéria orgânica e a reposição de nutrientes ao solo”, conta a pesquisadora.
No caso das bactérias, foram encontradas oito espécies vidas. Entre as mais frequentes estão a Sphingomonas paucimobilis e a Pseudomonas putida, que têm função no ciclo do fósforo, ajudando na fertilidade do solo. Houve ainda registros de bactérias que agem na decomposição de compostos orgânicos (Serratia marcescens e Ralstonia pickettii).
Em situações específicas, como em ambientes hospitalares ou frequentados por pessoas com problemas de imunidade, algumas dessas espécies são capazes de provocar infecções no ser humano. Na floresta, porém, têm funções ecológicas reconhecidas pela ciência e participam do equilíbrio de locais sem interferência humana, caso do ponto de vegetação contínua onde foram colhidas as amostras.
Névoa age como uma ponte de água entre a atmosfera e o solo
O diferencial da pesquisa está em apresentar o nevoeiro como um transportador desses microrganismos vivos, ultrapassando a imagem dele como fenômeno meteorológico.
Segundo os cientistas, a neblina funciona como uma ponte biológica que facilita o transporte vertical (do ar para o solo) de bactérias e fungos. Assim, esses micro-organismos que costumam ficar suspensos no ar, acima da copa das árvores, acabam depositados vivos sobre as superfícies das plantas e do solo.
“As gotículas do nevoeiro atuam como forma de transporte ‘agradável’ para essas espécies microbiológicas. Cria um ambiente favorável para a atividade metabólica [as reações químicas de troca com o ambiente que mantêm um organismo vivo], porque as protege da radiação solar e da desidratação”, avalia a pesquisadora.
“Quando o nevoeiro goteja nas folhas e no solo esses microrganismos são depositados ainda metabolicamente ativos, facilitando seu papel ecológico e populando outras regiões”.
Descendo à altura das árvores, esses micro-organismos passam a compor as colônias que vivem sobre a superfície das plantas, outro universo particular chamado de filosfera. Essa relação com bactérias e fungos costuma proteger as plantas contra doenças, secas e radiação solar, além de beneficiar o seu crescimento pela produção de hormônios vegetais.
Ainda na graduação em Engenharia Ambiental da UFPR, Bruna Sebben examinou como esporos (células de reprodução de plantas, fungos e bactérias) e pólens de plantas da Amazônia se relacionam com a neblina. A conclusão foi de que, nesse caso, o nevoeiro funciona como ambiente de preservação dessas partículas, mais do que de transporte.
“No meu TCC observamos que, para noites com nevoeiro, a quantidade de esporos de fungos era muito maior, isso nos deixou pensativos sobre essa relação, se o nevoeiro permitia a emissão ou se a emissão favorecia a formação de nevoeiro. No fim descobrimos essa conexão intrínseca, os dois se potencializam”.
Colaboração mútua: o mundo microscópico depende do nevoeiro e ajuda a provocar o fenômeno
Outra indicação do estudo é que os micróbios e demais partículas da neblina amazônica ajudam que o próprio fenômeno exista.
Isso porque essas partes sólidas agem de duas formas para que a água do vapor da floresta se condense. Primeiro, pela sua capacidade de absorver água, o que atrai mais umidade para a região onde ocorre a neblina.
A outra forma é pela carga elétrica. As paredes celulares de muitos microrganismos possuem carga superficial negativa. Essa carga negativa é atraída pelas gotas de água, facilitando a incorporação e a estabilidade dos seres vivos dentro da neblina.
Essas características mostram a facilitação que gera a dependência mútua entre a comunidade de micróbios e a neblina.
No artigo, cientistas descrevem essa relação como colaborativa. Os microrganismos ajudam a criar a gota d’água ao servirem de base para a condensação. Em troca, ganham um microhabitat protegido contra a radiação solar, poluentes e desidratação, o que garante sua sobrevivência durante o transporte pela floresta.
Dessa forma, os microrganismos não são apenas passageiros passivos, porque agem na dinâmica das nuvens baixas na Amazônia.
Assim sendo, queimadas e desmatamento, dois problemas da Floresta Amazônica, afetam a neblina tanto aumentando as temperaturas quanto impedindo que a comunidade de micróbios permaneça vida e ativa.
Ainda que tenha havido queda nos alertas dos últimos três anos, segundo a medição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre janeiro e março de 2026 a floresta perdeu 348 quilômetros quadrados por desmatamento.
A neblina ocorre em áreas contínuas de floresta, o que significa que sua presença é um indicativo dos locais intocados e dos que mostram capacidade de se adaptar aos problemas.
“Quanto maior o desmatamento, menor a frequência e intensidade do nevoeiro. Então definitivamente existe um feedback entre estes fatores. Uma rigorosa fiscalização contra queimadas e desmatamento é necessária”, acredita Bruna Sebben.
Um parêntese: como se coletam amostras de neblina?
Para coletar a neblina na Amazônia, os pesquisadores utilizaram a versão pequena de um dispositivo científico que colhe amostras de gotículas de nuvens e névoa. O aparelho coleta gotículas por meio de fileiras de fios de Teflon, material que não altera a composição das gotas e permite que elas gotas se acumulem quando o vento da névoa passa em alta velocidade.
“As gotinhas de nevoeiro impactam [nos fios] e ‘pingam’ em uma garrafa. Quando o nevoeiro é muito denso conseguimos coletar mais de 125 mililitros”, explica Bruna Sebben.
Instalação do dispositivo para coleta de amostras, no observatório da Estação Científica de Uatumã. Foto: Bruna Sebben/Acervo pessoal
Para a pesquisa, o amostrador foi instalado a 43 metros de altura em uma plataforma no lado nordeste da torre principal do Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), que possui 325 metros no total. Localizado no Amazonas, o observatório é uma parceria entre Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Max Planck, da Alemanha.
As mostras de névoa foram coletadas três vezes entre 2022 e 2023, de 13 nevoeiros diferentes. Depois de recolhida, a água de névoa coletada precisa ser acondicionada em garrafas esterilizadas, para impedir contaminação. Essa parte da pesquisa ficou a cargo do LabAir da UFPR, em Curitiba, especializado em estudos ambientais relacionados ao ar.
Também foram realizadas na UFPR, no Laboratory of Cancer Drug Resistance, as análises de citometria de fluxo. Essa técnica laboratorial usa laser e corantes fluorescentes para quantificar a concentração total de células e avaliar se os microrganismos estão vivos e viáveis (o equivalente a “saudáveis” para seres unicelulares).
Por fim, as partículas encontradas na névoa foram incubadas sob temperaturas controladas. Assim fungos e bactérias cresceram e as espécies puderam ser isoladas e identificadas. O principal método para isso, a espectrometria de massa, que analisa a estrutura química dos microrganismos, ocorreu no Laboratório de Micologia no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.
Como resultado, o estudo, financiado por agências públicas, entre elas o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), quantificou que dezenas de milhares de seres vivos habitam cada gota de névoa.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, escrito por Camille Bropp
Área desmatada preparada para agricultura em Cujubim, Rondônia. Foto: Nilo D’Avila/Greenpeace
Após analisar 41 leis, decretos ou normas administrativas federais e dos nove estados da Amazônia Legal sobre regularização fundiária, um estudo mostrou que é possível receber terra pública mesmo sem morar ou trabalhar nela. E pior: com ocupação e desmatamento recentes. Na prática, é como dar um prêmio para quem comete crimes ambientais.
Estudo Análise Comparativa da Legislação de Regularização Fundiária na Amazônia Legal. Foto: Divulgação
Realizado pelo instituto de pesquisa Imazon em parceria com o Observatório de Políticas de Governança de Terras (OPGT), o estudo aponta também que essas normas permitem que pessoas que já possuem outros imóveis recebam terras públicas nessas condições.
“A regularização fundiária, para a qual há dispensa de licitação, deveria ser um instrumento de justiça social e promoção do uso sustentável da terra, focado no público da agricultura familiar, que trabalha diretamente na terra e não possui outros imóveis. Porém, as leis vigentes acabam permitindo transferir terras públicas para quem descumpre lei ambiental, possui outros imóveis e não usa a terra para seu sustento direto”, afirma a pesquisadora Brenda Brito, autora da pesquisa.
Conforme a Constituição, a destinação de terras públicas deve priorizar o reconhecimento de terras indígenas, territórios quilombolas e de comunidades tradicionais, além da criação de unidades de conservação, concessões florestais e políticas de acesso à terra para agricultura familiar.
A regularização fundiária de ocupações individuais de médios e grandes imóveis até 2.500 hectares pode ocorrer apenas quando não houver sobreposição com essas prioridades, mas poucas das leis avaliadas explicitam esses impedimentos.
Sem essa previsão nas regras fundiárias, os órgãos fundiários podem não adotar procedimentos para verificar se há demandas prioritárias que deveriam impedir a titulação de ocupações individuais.
Governos cobram em terras públicas até 95% a menos que o mercado
Outro grande incentivador da grilagem na Amazônia por meio das leis de regularização fundiária é o baixo preço cobrado pelas terras públicas. De acordo com o estudo, o preço cobrado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão responsável por conceder títulos individuais de terras públicas, é, em média, 77% menor que o valor de mercado, chegando a 90% em três estados: Maranhão, Mato Grosso e Pará.
A discrepância é ainda maior nas legislações estaduais, nas quais o preço base cobrado pelos governos representa em média apenas 5% do valor de mercado por hectare. Além disso, as leis fundiárias concedem descontos expressivos para quitação à vista ou por outros fatores, reduzindo ainda mais o custo de aquisição da terra. Há também amplas facilidades de parcelamento e períodos de carência prolongados.
Área de floresta derrubada no noroeste do Mato Grosso. Foto: Mayke Toscano/Secom/MT/Fotos Públicas
“Esses benefícios acabam diminuindo o risco do investimento em ocupações ilegais. Na prática, são subsídios financeiros para que invasores e desmatadores de terras públicas possam se tornar donos legítimos delas, contribuindo para a manutenção do ciclo de grilagem na Amazônia e impedindo investimentos em desenvolvimento sustentável nessas áreas”, explica o pesquisador Josevando Silva, também autor da pesquisa.
Além disso, em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que União e estados adotem regras que impeçam a titulação de terras em áreas com desmatamento e queimadas ilegais, decisão que ainda não foi cumprida.
Segundo a pesquisa, nenhuma norma impõe uma vedação absoluta à titulação de imóveis alvo de crimes ambientais, como o desmatamento. Em apenas três estados, Pará, Rondônia e Amapá, há proibições parciais.
“As poucas restrições existentes não abrangem imóveis com desmatamento ilegal que ainda não tiveram fiscalização. Essa ilegalidade pode ser facilmente detectada pelos próprios órgãos fundiários durante a análise de pedidos de regularização, que utilizam imagens de satélite para avaliar o imóvel. Assim, qualquer desmatamento deveria ser comunicado aos órgãos ambientais e aqueles ocorridos após julho de 2008 (de acordo com o Código Florestal) deveriam impedir a titulação do imóvel”, alerta Brenda.
Área de terra desmatada. Foto: Proteção Animal Mundial
Além disso, cinco estados não estabelecem data limite para ocupação elegível à titulação, o que cria incentivos para novas ocupações de terra pública. Nos estados que possuem este tipo de marco temporal, as datas variam de 2008 a 2021, e algumas leis (como a federal e de Roraima) já estenderam esses prazos ao longo do tempo.
“Essas extensões para ocupações cada vez mais recentes das terras públicas reforçam a expectativa de que novas ocupações sempre poderão ser beneficiadas com mudanças na lei, o que também favorece a grilagem”, complementa a pesquisadora.
O estudo ressalta que estabelecer um marco temporal para regularização fundiária individual difere do que se tentou fazer com direitos territoriais indígenas. Os povos originários têm garantia constitucional ao seu território tradicionalmente ocupado, não sendo possível limitar seu direito à prova de que sua ocupação estava ocorrendo em uma data específica. Porém, esta lógica não se aplica a ocupações individuais privadas em terra pública.
Esses incentivos à grilagem colocam mais de 100 milhões de hectares de terras públicas não destinadas em risco de invasão e desmatamento na Amazônia, dos quais 52% pertencem aos estados e 48% à União. Uma área maior do que o estado de Mato Grosso ou do que a França e a Alemanha juntas. Por isso, a pesquisa aborda sete recomendações principais:
Impedir titulação de terra de ocupações individuais sobrepostas a áreas requeridas por povos e comunidades tradicionais: Explicitar proibição de titulações individuais sobrepostas a florestas públicas e territórios ocupados, pleiteados e reconhecidos por povos indígenas, comunidades quilombolas, populações tradicionais. Além disso, vedar a possibilidade de emissão de título de terra em imóveis formados majoritariamente por área de floresta (acima de 80% de cobertura florestal).
Definir uma data limite para ocupação de terra pública que pode ser titulada: Explicitar a data limite para ocupação elegível para regularização fundiária, preferencialmente seguindo a regra federal. Esta recomendação se aplica apenas a ocupações individuais, não sendo pertinente para demandas territoriais coletivas, como de povos indígenas. Além disso, incluir previsão na constituição dos estados impedindo a alteração da data definida.
Impedir titulação de imóveis desmatados após o Código Florestal: Proibir a regularização de imóveis com desmatamento ou queimadas ilegais ocorridas após 22 de julho de 2008, data definida pelo Código Florestal para área rural consolidada.
Restringir a titulação à função social da terra: Definir renda máxima mensal da família do requerente (para doação), impedir titulação para quem possui outro imóvel ou já foi beneficiado com regularização fundiária, exigir ocupação e exploração direta (pelo requerente e família), além de morada permanente. Proibir titulação para quem ocupa cargo público no Poder Executivo, Legislativo e Judiciário.
Criar requisito de gênero: Inserir obrigação de emitir título em nome do casal, incluindo em uniões estáveis e uniões homoafetivas.
Cobrar preços de mercado pela terra: Cobrar preços compatíveis com o mercado de terra, usando como referência o Atlas de Mercado de Terras elaborado pelo Incra.
Impedir desmatamento ilegal no futuro: Exigir cumprimento do Código Florestal e prever perda do imóvel em casos de desmatamento ou queimadas sem autorização de órgão ambiental. Além disso, manter esta obrigação por prazo mínimo de dez anos, mesmo se houver quitação do valor do imóvel antes desse período.
Estudo integra Observatório das Políticas de Governança de Terras (OPGT)
A pesquisa “Análise Comparativa da Legislação de Regularização Fundiária na Amazônia Legal“ integra uma série de estudos realizados para o Observatório das Políticas de Governança de Terras (OPGT), do qual o Imazon é uma das organizações participantes.
Criado em 2025, o OPGT é um coletivo técnico e acadêmico formado por pesquisadores, profissionais especializados e organizações da sociedade civil cuja missão é ser uma referência nacional no monitoramento das políticas públicas de governança de terras.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon
A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) passou a integrar, em 2026, o projeto internacional ECOS (Higher Education Partnership to Promote Sustainable Communities: Advancing Teaching and Research in Ecological Construction and in the Optimization of Renewable Energy Systems), voltado ao fortalecimento do ensino e da pesquisa nas áreas de construção ecológica e fontes renováveis de energia, com ênfase em energia solar fotovoltaica.
A iniciativa foi submetida em julho de 2025 no âmbito da chamada Sustainable Development Goals, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). O acordo de cooperação reúne a Ufam, a Technische Hochschule Ingolstadt (THI) da Alemanha, e a Universidad EIA da Colômbia.
Pela UFAM, participam diretamente os professores Alessandro Bezerra Trindade, do Departamento de Eletricidade e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica (PPGEE), e Caren Michels, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Design (PPGD), que atuaram na elaboração da proposta.
O projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), com destaque para:
ODS 4 (Educação de Qualidade),
ODS 7 (Energia Acessível e Limpa),
ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura)
e ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis).
Também dialoga com os ODS 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima) e 17 (Parcerias para os Objetivos).
Intercâmbio acadêmico e modernização de laboratórios
Entre as atividades previstas no plano de trabalho estão workshops de revisão curricular para atualização de disciplinas da graduação e da pós-graduação nas áreas de construção ecológica e energias renováveis, além da realização de palestras conjuntas, hackathons, eventos acadêmicos híbridos, intercâmbios e pesquisas colaborativas.
O projeto também prevê a aquisição de literatura especializada e equipamentos para modernização de laboratórios, intercâmbio de docentes entre as instituições parceiras e estágios de pesquisa para estudantes da graduação e da pós-graduação. A proposta inclui ainda a criação de uma Comunidade de Prática (CoP), com encontros periódicos voltados à troca de experiências acadêmicas e metodológicas, além de mesas-redondas com representantes da indústria, governo e sociedade civil.
Ufam oferece vários cursos voltados à Amazônia. Foto: Divulgação/Ufam
Alinhamento com o PDI da Ufam
De acordo com o documento encaminhado à Reitoria, o projeto ECOS também está alinhado às metas do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2026-2030 da Ufam, especialmente nas áreas de internacionalização, formação acadêmica e fortalecimento de redes de pesquisa internacionais. Entre os pontos destacados estão a ampliação de parcerias internacionais para a pós-graduação e a promoção da capacitação docente
Segundo o coordenador do projeto na Ufam, professor Alessandro Bezerra Trindade, todas as ações financeiras e administrativas relacionadas à aquisição de equipamentos e gestão dos recursos serão conduzidas pela instituição alemã parceira, não havendo repasse direto de recursos financeiros à Universidade.
O alinhamento do projeto ECOS com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável amplia as possibilidades de desenvolvimento de pesquisas aplicadas na Ufam, especialmente nas áreas de construção ecológica, energias renováveis, inovação, infraestrutura sustentável e formação acadêmica. Nesse contexto, a participação da Universidade em atividades de internacionalização torna-se fundamental, pois permite a inserção da Ufam em redes de cooperação científica, acadêmica e tecnológica, projetando cada vez mais sua atuação em um cenário global.
A assessora de relações internacionais e interinstitucionais, Sheila Cordeiro, destaca a importância da participação da Ufam em uma parceria internacional com a THI, da Alemanha, e a EIA, da Colômbia, estabelecendo debates sobre sustentabilidade, transição energética e Amazônia.
“A iniciativa fortalece a internacionalização institucional por meio de intercâmbio de docentes e discentes, estágios de pesquisa, eventos acadêmicos, hackathons, mesas-redondas com stakeholders e cooperação científica aplicada, contribuindo para ampliar a visibilidade da Ufam e reafirmar seu papel como instituição amazônica produtora de conhecimento e soluções sustentáveis”, afirma.
Derivado da mandioca brava, o tucupi é um preparo artesanal de fermentação, típico dos indígenas do Norte. É como se fosse uma calda de mandioca cujo preparo leva horas de cozimento para remover toxinas venenosas.
Já o tucupi preto é uma redução do amarelo, tem uma consistência similar a de brigadeiro de panela e durante décadas apenas quatro mulheres de Roraima – Carol, Lorena, Terezinha e Norma – eram capazes de prepará-lo. As wapichana que viviam mais próximas à Guiana Inglesa foram as responsáveis por desenvolver a receita.
Enquanto o tucupi amarelo era usado em molhos de pimenta e tacacá, o preto tinha o uso restrito à damurida, um prato típico dos indígenas de Roraima, um tipo de sopão de peixe com pimentas.
Damurida é um dos pratos títpicos mais populares de Roraima, sendo comum na dienta dos indígenas. Foto: Fabrício Araújo/ ISAO tucupi negro dá o gosto adocicado ao pudim não sendo necessária a adição de açúcar. Foto: Fabrício Araújo/ ISA
Há uma década, Norma e a até então sogra Carolina da Silva enxergaram um potencial maior na iguaria preta. Em uma conversa rotineira, elas resolveram experimentar o ingrediente em saladas, pato, frango, pães, pudins e até sorvete.
“O amarelo serve para fazer damurida, para preparar molho de pimenta. Já o tucupi preto também usávamos para a damurida, mas eu resolvi experimentar na galinha caipira, no pato e como molho para salada. Depois, eu tive a ideia de fazer um pudim de tucupi preto. Eu nunca vi ninguém fazer, mas tive curiosidade e quis experimentar”, disse Norma.
A cozinheira wapichana descobriu a paixão pela culinária na vida adulta. Se inspirou em Ana Maria Braga reproduzindo receitas exibidas no programa Mais Você, cozinhou em dezenas de eventos na Terra Indígena Yanomami e criou receitas com o tucupi preto que encantaram a comunidade dela.
As comunidades Wapichana da região do lavrado de Roraima são tradicionalmente agricultoras de mandioca e produtoras de farinha. O tucupi é um dos subprodutos da mandioca com os quais os Wapichana trabalham.
Norma é uma cozinheira natural da Terra Indígena Tabalascada, localizada na região da Serra da Lua, no município de Cantá, em Roraima – o estado mais ao norte do Brasil.
A wapichana trabalha desde os 13 anos, foi babá, doméstica, manicure, mas só começou a se descobrir como cozinheira aos 29 anos quando iniciou a venda de cachorro-quente e salgados durante o dia e espetinhos de churrasco durante a noite.
“Eu aprendi a fazer salgados com o senhor que me fornecia para venda. Um dia ele resolveu ir embora e só me disse: ‘não vou mais vender salgado para você. Eu vou te ensinar a fazer e vou deixar meus materiais para você’”, relembrou com um sorriso no rosto.
Quando chegou aos 36, Norma sentiu vontade de explorar receitas diferentes e resolveu testar o que via Ana Maria Braga preparar em seu programa de TV no canal aberto. Ela ainda lembra exatamente qual foi a primeira receita que replicou.
“Eu sempre gostei de assistir a Ana Maria. Admirava as receitas até que resolvi experimentar. A primeira receita que eu repliquei dela foi um bolo de abacaxi, na hora que eu vi, eu pensei: ‘vou fazer para o Natal’”, contou.
Norma exibindo o sorvete de tucupi preto que fez especialmente para equipe do ISA em Roraima. Foto: Fabrício Araújo/ISA
Norma administrou o próprio negócio por um ano e meio. Então, em junho de 2004 recebeu o convite para se juntar à equipe de cozinha do Instituto Insikiran, um espaço de formação superior para indígenas da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
“Na cozinha do Insikiran, nos dias de quarta-feira e sexta-feira, eu ficava na churrasqueira assando carne para 500 alunos. Também ajudava fazendo salgados, bolo e suco para os estudantes”, contou com orgulho da própria trajetória.
Até que em julho de 2007 ela recebeu o convite para cozinhar nos eventos da Hutukara Associação Yanomami (HAY). Desde então, ela nunca mais parou de trabalhar em parceria com a HAY e com o Instituto Socioambiental (ISA).
Norma afirma que já perdeu as contas de quantas visitas fez ao território Yanomami, tendo atuado principalmente na região do Demini, local que tem o xamã Davi Kopenawa como maior liderança.
“Estive em todos os Fóruns de Lideranças da Terra Indígena Yanomami, em todas as assembleias da Hutukara, quase todos os Encontros de Mulheres, estive em várias oficinas de formação. São 19 anos de relação com os yanomami e ye’kwana e estive, inclusive, no aniversário de 20 anos da Hutukara”, afirmou.
Atualmente, ela conta com uma equipe de seis ajudantes que a acompanham em eventos promovidos pelo ISA e pela Hutukara. Sobre o futuro, ela só tem uma certeza: “não me vejo parando de cozinhar, é o que eu gosto”.
Preparo tradicional
O tucupi é um ingrediente tradicional dos indígenas do norte do Brasil. Usado em molhos de pimenta, tacacá e na damurida, ele acrescenta textura e sabor aos pratos. O cozimento do tucupi leva horas, pois exige cuidado para retirar a toxina venenosa que, segundo Norma, é capaz de “derrubar um boi”.
“O tucupi para quem não conhece é difícil explicar, mas ele vem da mandioca. É uma calda de mandioca, é isso que é o tucupi”, explica Carolina da Silva, a wapichana que ensinou Norma a como reduzir o tucupi amarelo.
Embalagem do tucupi preto produzido pelas wapichana para venda. Foto: Fabrício Araújo/ISA
As mulheres da Serra da Lua trabalham em todas as etapas desde a plantação. Elas colhem, raspam, lavam, sevam, retiram a goma, deixam o líquido decantar por seis horas, coam dentro de uma panela e cozinham em fogo médio.
“Esse cozimento precisa ser no fogo de lenha, conforme se cozinha, sobe uma espuma que é o veneno do tucupi, então vamos tirando a espuma, quando reduzir dois dedos tira o panelão do fogo, passa para outra panela coando e cozinha até reduzir”, explica Norma.
O processo de cozinhar e coar é repetido até que o tucupi amarelo fique preto. Norma afirma que ele está no ponto certo quando começa a parecer um brigadeiro. Em nenhuma etapa as mulheres adicionam açúcar à mistura e ainda assim o tucupi preto possui um sabor forte de doce, mas não chega a ser enjoativo.
Ainda de acordo com Norma, o tucupi preto demanda grande quantidade de mandioca. Em um de seus testes ela chegou a reduzir 60 litros de tucupi amarelo que renderam 2,5 litros de tucupi preto. Atualmente, cada pote de tucupi preto é vendido com 300ml.
Os Baniwa que vivem no Rio Negro também produzem o tucupi preto, mas com diferenças de sabor, textura e coloração da iguaria wapichana. O dos Baniwa costuma ser mais ácido lembrando um molho shoyu.
Marcolino da Silva, analista do ISA, pesquisou a agricultura tradicional da Tabalascada. Ele analisou a relação dos produtos com o avanço do capital em uma monografia publicada em 2018. Esta pesquisa aponta a mandioca como um produto base na alimentação e economia dos wapichana.
“A mandioca é o alimento básico e mais tradicional, é consumida na forma natural em alimentos derivados, como o caso do beiju, a farinha d’água, goma, farinha de goma, carimã, tucupi, sobretudo, é utilizada também na produção de bebidas, como, pajuarú ou caxiri servidos como complementação de alimentação. Geralmente, o caxiri, por exemplo, é servido nos trabalhos comunitários ou nos trabalhos individuais e em festas comemorativas culturais”, diz trecho da pesquisa.
Natural de uma área da Terra Indígena Tabalascada, muito próxima à Guyana Inglesa, Carolina afirma que o segredo no preparo do tucupi preto já era conhecido há décadas pelas mulheres que vieram antes dela na família.
“Eu aprendi a fazer há muito tempo, as minhas avós já faziam o tucupi, mas era só para a damurida. Eu aprendi quando tinha oito anos e tem uns 20 anos que trabalho com o tucupi negro. Depois que montamos o projeto, ensinamos como fazer para os mais jovens. Há vários que estão aprendendo e não são só mulheres, não”, afirma Carol.
Carol da Silva preparando uma damurida durante o festival do Beiju em Roraima. Foto: Fabrício Araújo/ISAMickelly Pereira e os pudins preparados por Norma. Foto: Fabrício Araújo/ISA
Durante anos, o conhecimento ficou compartilhado entre apenas quatro mulheres até que Norma e Marcolino buscaram o ISA em julho de 2017 a fim de fortalecer o projeto Kanyzzy Pudidi’u (nome do tucupi preto em Wapichana), envolvendo a juventude e mostrando as possibilidades gastronômicas do produto para cozinheiros também de fora das aldeias.
O propósito era repassar os conhecimentos aos mais jovens a partir da perspectiva de valorização dos produtos da roça, do trabalho e dos conhecimentos das agricultoras indígenas.
Assim, o projeto começou com oficinas de formação envolvendo 30 pessoas. Entre os participantes, havia dois professores com o objetivo de levar o conhecimento para as escolas da Tabalascada.
O ponto de encontro para as oficinas era o Sítio Recanto da Roça. Antes, o local havia sido invadido e transformado em uma fazenda. Então, após a homologação da Terra Indígena Tabalascada, em 19 de abril de 2005, ocorreu a desintrusão e este sítio se tornou um espaço comunitário.
Por ser um símbolo de retomada para os Wapichana, o Sítio Recanto da Roça também foi escolhido para a construção da Casa da Mandioca. O local guarda ferramentas necessárias para a abertura de roças, pois o tucupi demanda grande quantidade de mandioca, e para o preparo de produtos diversos, como farinha e beiju.
No início, Norma era a responsável por conduzir o projeto. Então, com o conhecimento difundido, a comunidade decidiu que era a hora de passar o bastão para a juventude. Mickelly Pereira é coordenadora do projeto atualmente.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental, escrito por Fabrício Araújo