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NN Logística 2026 supera expectativas, movimenta R$ 520 milhões e consolida Manaus como hub da indústria fluvial

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NN Logística tem nova edição anunciada para abril de 2027. Foto: Divulgação/IP Focos Media

Manaus (AM) encerrou a edição 2026 da NN Logística consolidando-se como o principal polo de articulação da indústria fluvial na América Latina. Realizado no Centro de Convenções Vasco Vasques, o evento reuniu mais de 9 mil visitantes e gerou cerca de R$ 520 milhões em acordos comerciais, segundo os organizadores.

Mais do que números expressivos, a feira se destacou por reunir atores de todas as esferas — governo federal, agências reguladoras, operadores logísticos, indústria naval, estaleiros, multinacionais, estudantes, universidades e entidades setoriais — em torno de uma agenda estratégica para o futuro da navegação interior e da infraestrutura logística brasileira.

Leia também: Feira NN Logística 2026 evidencia Manaus no centro da indústria fluvial na América Latina

Para o organizador da Feira, David Semeghini, o resultado reflete a maturidade do setor e o papel crescente da região Norte no cenário nacional.

“O evento superou todas as expectativas, tanto em visitantes quanto em geração de negócios. Tivemos grandes debates, conexões relevantes e mais de R$ 520 milhões em vendas. Manaus é o coração do Arco Norte, e a tendência é crescer cada vez mais, trazendo tecnologia e empresas para a região”, afirma.

A próxima edição ocorrerá em abril de 2027, novamente em Manaus, com expectativa de expansão.

NN Logística 2026 supera expectativas, movimenta R$ 520 milhões e consolida Manaus como hub da indústria fluvial
Foto: Divulgação/IP Focos Media

Avanços concretos e consenso do setor

No campo institucional e estratégico, os Diálogos Hidroviáveis que trouxeram à Manaus autoridades e especialistas no setor, apontaram consensos importantes para o desenvolvimento da logística nacional, especialmente no eixo hidroviário.

Segundo o presidente da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (ADECON), Adalberto Tokarski, o evento consolidou diretrizes claras para o setor.

“O principal consenso é a necessidade de políticas públicas mais estruturadas, com maior participação da iniciativa privada e comunicação mais próxima com a sociedade. A concessão de hidrovias é essencial para garantir navegação segura durante 365 dias por ano e 24 horas por dia, reduzindo custos logísticos”.

Tokarski também destacou o avanço da indústria naval, impulsionado por investimentos do Fundo da Marinha Mercante:

“Foram aprovados R$ 80 bilhões, com cerca de R$ 16 bilhões já aplicados, o que representa um crescimento superior a 1.000% em relação ao período anterior. No Amazonas, estaleiros ampliaram em mais de 300% sua força de trabalho qualificada”.

O presidente da ADECON também destacou a evolução de projetos estruturantes, como outro ponto relevante dos Diálogos Hidroviáveis, temário da NN Logística 2026.

“O DNIT já possui projetos e recursos para dragagem nas principais hidrovias da Amazônia. Além disso, o terminal da Manaus Moderna avança, com perspectiva de concessão à iniciativa privada, o que é fundamental para atender a população e melhorar a logística local”.

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Foto: Divulgação/IP Focos Media

Indústria aquecida e crescimento dos estaleiros

O aquecimento da demanda por embarcações também foi destacado como fator determinante para o sucesso da feira.

“O aumento das encomendas de embarcações fluviais tem sido decisivo. O nível de ociosidade dos estaleiros nunca foi tão baixo, o que demonstra a força e o momento positivo da indústria naval na região”, avalia a diretora da NN Logística, Rosângela Vieira.

Expansão da NN Logística e protagonismo do setor

A evolução da NN Logística acompanha o crescimento do próprio setor. De acordo com o diretor, Marcos Godoy Perez, a edição 2026 marcou um salto relevante.

“A feira cresceu consistentemente desde a primeira edição, mas este ano avançou de forma significativa, com ampliação de 30% da área de exposição. Recebemos mais de 9 mil visitantes e geramos R$ 520 milhões em negócios. Isso comprova a robustez da indústria naval fluvial da região Norte”.

Ele também projeta expansão para os próximos anos: “Para 2027, esperamos alcançar uma nova marca. Já temos renovações de contrato, pedidos de ampliação de estandes e interesse de empresas que hoje participam como visitantes”.

A NN Logística é hoje a principal plataforma de negócios e debates da indústria fluvial na América Latina.

“Ao reunir investimento, inovação, política pública e articulação institucional em um único ambiente, a feira reforça o protagonismo da Amazônia no futuro da logística brasileira e projeta Manaus como um dos principais hubs do setor no continente. Com nova edição já confirmada para 2027, o evento avança para um novo ciclo de crescimento, ampliando sua relevância nacional e internacional”, aposta David Semeghini.

Indígena Sateré-Mawé apresenta dados inéditos sobre espécies de cogumelos consumidos pelo seu povo

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O indígena Tyson Ferreira-Sateré apresentou 10 espécies de cogumelos comestíveis. Foto: Anne Karoline/Inpa

O estudante do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Tyson Ferreira-Sateré, pertence à etnia Sateré-Mawé e defendeu sua dissertação de mestrado com um feito inédito para a ciência: o consumo de 10 espécies de cogumelos comestíveis ainda não registradas para povos amazônicos.

Por meio de trabalho de campo, documentação fotográfica, identificação taxonômica e análises laboratoriais, Tyson constatou o primeiro registro de Cookeina tricholoma no município de Barreirinha, conhecido pelos Sateré-Mawé como Kusiú e more, o “cogumelo cuxiú de nariz vermelho”.

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Na pesquisa, o biólogo detalhou que a espécie é comum nos trópicos e pertence ao filo Ascomycota, diferente da maioria dos cogumelos comestíveis mais conhecidos: os Basidiomycota.

O cogumelo Cookeina tricholoma tem formato semelhante a uma pequena cuia, com presença de “pelos” na superfície externa e coloração alaranjada, podendo crescer rente ao substrato ou apresentar estipe (um “pezinho”).

O fungo é bastante utilizado na alimentação da comunidade Sateré-Mawé, tradicionalmente preparado no formato de pukecas (um recipiente feito com folhas de bananeira, utilizado para assados), que são servidas em comemorações internas da aldeia e em eventos abertos ao público.

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Segundo Tyson, nos últimos 50 anos, apenas 35 cogumelos comestíveis tinham sido registrados em nível de espécie no contexto etnomicológico da Amazônia brasileira, principalmente entre o povo Yanomami. Com o estudo, o número foi ampliado para 45. 

A importância dos cogumelos vai além da alimentação, ela se apresenta nos aspectos culturais, econômicos e ecológicos, já que os fungos também atuam na decomposição de galhos e troncos, contribuindo para a reciclagem de nutrientes da floresta.

“A minha maior surpresa foi saber que há mais de 350 anos o povo Sateré-Mawé tem contato com jesuítas, naturalistas e diversos pesquisadores, mas o conhecimento etnomicológico deles ainda não havia sido registrado. Estou muito feliz que o próprio provedor do conhecimento está fazendo esta história”, comemora a pesquisadora do Inpa e orientadora do trabalho, Noemia Ishikawa, que é líder do grupo de pesquisa Cogumelos da Amazônia.

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Imagem colorida mostra Tyson Saterê-Mawé com banca examinadora e amigos após aprovação de dissertação
Foto: Anne Karoline/Inpa

Com o título de “Etnomicologia sobre o uso de cogumelos na alimentação do povo Sateré-Mawé, com foco especial nas espécies de gênero Cookeina, na região do baixo Rio Andirá, Amazonas”, a dissertação foi avaliada e aprovada por unanimidade pela pesquisadora do Inpa, Sônia Alfaia, pelo arqueólogo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Carlos Augusto da Silva, e pela coordenadora do Núcleo de Biotecnologia do Centro de Estudos Superiores de Parintins e pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Cynara Carmo Bezerra.

Protagonismo indígena

Nascido em Manaus e criado na comunidade Ponta Alegre, terra indígena Andirá-Marau, município de Barreirinha, no Amazonas, Tyson Ferreira-Sateré conta que sua principal motivação para a pesquisa foi valorizar o conhecimento tradicional Sateré-Mawé e contribuir para a conservação biocultural da floresta amazônica.

Ele se emociona ao falar da conclusão desta etapa acadêmica. “Este momento representa uma grande conquista pessoal e familiar. Concluir o mestrado com base nos nossos próprios conhecimentos tradicionais, valorizando a floresta em pé — que é parte fundamental da nossa identidade e modo de vida — é algo muito significativo para mim e para o meu povo. É a prova de que é possível fazer ciência a partir das nossas raízes, sem abrir mão da nossa cultura”, ressalta.

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O reconhecimento também vem da sua orientadora, Noemia Ishikawa, que elogiou a forma como o mestrando trouxe o conhecimento tradicional para dentro do Inpa, juntando os saberes da Amazônia, estabelecendo o diálogo com a ciência – experimentos e equipamentos, como a microscopia eletrônica de varredura – pois tudo isso colaborou para a qualidade de sua produção científica.

“As pessoas estudam, geralmente, os alimentos e os costumes das comunidades indígenas em seus artigos. Hoje tivemos uma grande virada de chave na ciência, onde o próprio indígena faz a sua própria ciência, levando-a de volta para a sua comunidade. Espero que o exemplo dele seja seguido por muitos, tanto para virem estudar, como ele está fazendo, quanto para retornar à comunidade com as suas devolutivas e com seus conhecimentos”, observou a orientadora. 

Imagem colorida mostra o pesquisador indígena Tyson Saterê-Mawé e a pesquisadora Noemia Ishikawa no inpa
Foto: Anne Karoline/Inpa

Apoio em pesquisa sobre cogumelos

Tyson Ferreira-Sateré teve bolsa de estudo da PDPG-Capes/Fapeam e o desenvolvimento das atividades de campo e laboratoriais do CNPq receberam apoio financeiro por meio dos projetos “Projeto Diálogos multiculturais” – Chamada PPBio 2023, “Programa de Capacitação e Formação de Recursos Humanos em Taxonomia Biológica – Protax” – Chamada CNPq/Confap-FAPs 2024, e a “Rede Fungo Pan-Amazônia” – Chamada pública MCTI/CNPq N. 03/2025 – Pró-Amazônia, CNPq, acrescentou a orientadora.

Ao destacar o papel essencial do Inpa nessa caminhada, o agora mestre destaca as políticas de ações afirmativas do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, que possibilitaram seu ingresso no mestrado e ampliaram sua visão sobre as diferentes abordagens e metodologias da área.

“Sou muito grato pelo apoio institucional, pelo alinhamento e abertura da direção do instituto, por meio do diretor e professor Henrique Pereira e da pesquisadora Sonia Alfaia, em relação às pautas e às necessidades dos estudantes indígenas. A ciência também é nosso espaço. Podemos e devemos ocupar esses lugares, transformar nossos saberes em pesquisa e mostrar ao mundo a força do conhecimento indígena”, completou. 

*Com informações do Inpa

Mulheres indígenas marcam suas digitais na transformação de trajetórias indígenas no Acre

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Festival Kãda Shawã Shawawa. Foto: Cleiton Lopes/Secom AC

A história indígena não começa em 1500 nem ficou no passado. Quando os colonizadores chegaram, milhões já viviam nas Américas. Hoje, mais de 1,6 milhão de indígenas seguem presentes no Brasil, onde mantêm cantos, tradições e enfrentam disputas por existência. Nesse contexto, as mulheres são maioria, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), e ocupam a linha de frente da preservação cultural e da defesa da floresta.

É nesse cenário que a transformação ganha rosto. A 450 quilômetros de Rio Branco (AC), onde vive, a secretária de Povos Indígenas, Francisca Arara observa, na Terra Indígena Arara/Igarapé Humaitá, o avanço de mulheres que antes não ocupavam esses espaços. Para ela, esse movimento já não é exceção, mas parte de uma mudança em curso nos territórios.

“Seja dentro da aldeia ou fora dela, estamos defendendo direitos, a participação e a escuta, para que a nossa voz seja alcançada em todos os espaços. Assim, vamos construindo um mundo melhor dentro dos territórios. Hoje, temos três frentes: aquelas mulheres que estão fortalecidas com sua autonomia lá nas pontas; mulheres que também estão dentro das associações, como caciques; e, atualmente, contamos com lideranças mulheres, pajés mulheres e professoras mulheres”.

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Nos territórios e também nos espaços de poder, mulheres indígenas transformam presença em construção coletiva, articulando saberes, decisões e caminhos para o bem comum. Arara afirma ainda:

“Somos mulheres indígenas que ocupamos espaços como conselheiras, artesãs e agricultoras, fortalecendo a segurança alimentar nos territórios. Além disso, participamos das tomadas de decisões em conjunto, contribuindo para o que é melhor nas assembleias”.

“Somos guardiãs das línguas indígenas”, destaca Francisca Arara. Foto: Cleiton Lopes/Secom AC

Também somos guardiãs das línguas indígenas e seguimos promovendo ações para ampliar a presença feminina nos espaços de poder decisório. E não estamos nesses espaços por sermos mulheres; estamos, sobretudo, porque podemos ajudar na construção de políticas públicas para que o mundo se torne melhor.

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Esse avanço não se limita à ocupação de espaços de poder, ele também se constrói na forma como os próprios povos indígenas se reconhecem e se posicionam no mundo. É o que reforça a artesã Júlia Yawanawa, da Terra Indígena Rio Gregório, ao afirmar que os povos originários nunca foram parte da paisagem, mas protagonistas da própria história.

É dessa vivência que nasce o entendimento sobre o que significa, na prática, valorizar os povos indígenas.

“Então, valorizar os povos indígenas é respeitar a nossa existência. Atualmente, na minha visão, falar em valorização dos povos indígenas no Acre passa por reconhecer e respeitar o nosso modo de viver e a nossa forma de enxergar o mundo e a floresta, porque somos defensores da floresta”.

Valorização das mulheres indígenas

Para além do reconhecimento simbólico, Júlia aponta que essa valorização também passa por condições concretas de vida e permanência nos territórios.

“Para quem conhece a vida na floresta, sabe que é uma luta constante. Não é porque vivemos nela que temos tudo de graça. De fato, não compramos água, nem banana ou mandioca, mas, se não trabalharmos, também não teremos. A nossa relação com a floresta é profunda: faz parte da nossa vida, da nossa espiritualidade, da nossa ciência, da nossa cultura e da nossa tradição. Um indígena sem a floresta é como um indígena perdido.”

Esse movimento de fortalecimento também se reflete na educação, onde muitas dessas mulheres constroem suas trajetórias e ampliam sua atuação. Entre o ensino e a liderança indígena, a sala de aula se torna um dos principais espaços de formação e protagonismo.

“Há mulheres indígenas que seguem estudando, são graduadas, graduandas e muitas estão na pós-graduação”, Edileuda Shanenawa. Foto: Edileuda Shanenawa

Todas as mulheres que têm suas vozes evidenciadas aqui apresentam um perfil de liderança que nasce na educação: são ou foram professoras.

É nesse contexto que se insere a trajetória de Edileuda Shanenawa. Coordenadora da Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac) e gestora da Escola Indígena Tekahyne Shanenawa, em Feijó, ela representa uma geração de mulheres que também avançam sobre os espaços institucionais.

Mestre em Artes Cênicas, Edileuda afirma que a ocupação desses espaços já é parte do movimento que evidencia o protagonismo feminino indígena.

“Estamos em um espaço de representação, em que somos conhecedoras dos nossos saberes, da nossa vivência, das nossas dificuldades e das nossas necessidades. E continuamos nos aperfeiçoando. Hoje, há mulheres indígenas que seguem estudando, são graduadas, graduandas e muitas estão na pós-graduação. Esse aperfeiçoamento contribui para que possamos assumir cargos nas instituições públicas e efetivar a nossa presença nesses espaços”.

Imagem colorida mostra duas mulheres indígenas se cumprimentando e olhando para foto sorrindo
Foto: Reprodução/Acervo Secom AC

Nos territórios, a mudança deixou de ser promessa para se tornar presença. Entre a sala de aula, a floresta e os espaços de decisão, mulheres indígenas transformam o silêncio em voz e assumem o protagonismo de suas próprias histórias. Agora, são elas que conduzem os caminhos que estão por vir.

*Com informações da Agência Acre

Passeio de barco no rio Madeira une lazer, cultura e gera renda para comunidades

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Passeio é uma das atividades turísticas que une natureza e história na Madeira-Mamoré. Foto: José Carlos/Prefeitura de Porto Velho

O cenário é de tirar o fôlego. Às margens do rio Madeira, o pôr do sol pinta o céu com tons dourados e alaranjados, refletindo nas águas e criando uma paisagem única em Porto Velho (RO). É nesse ambiente que os tradicionais passeios de barco movimentam o complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, oferecendo uma experiência que une natureza, história e cultura.

Durante o trajeto, que dura em média uma hora, moradores e visitantes têm a oportunidade de contemplar de perto a grandiosidade do rio, sentir a brisa e vivenciar um dos cartões-postais mais marcantes da capital rondoniense. A atividade, além de ser uma opção de lazer acessível, também representa um resgate cultural.

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Reconhecido como patrimônio imaterial do município, o passeio reforça a ligação histórica de Porto Velho com o rio Madeira, elemento essencial para o desenvolvimento da cidade.

Quem conhece bem essa trajetória é Marcos Barroso, presidente da associação dos barcos de turismo do rio Madeira. A relação dele com o rio vem de família.

“Meu pai tinha um barco que fazia o trajeto entre Porto Velho e Manaus. Com o tempo, decidimos trazer essa embarcação para o porto da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, onde já havia um fluxo constante de pessoas. Aos poucos, fomos estruturando o espaço e o passeio começou a se consolidar”.

passeio de barco no rio madeira em porto velho Foto José Carlos Prefeitura de Porto Velho
Foto: José Carlos/Prefeitura de Porto Velho

Ele relembra que, no início, o percurso seguia até a cachoeira de Santo Antônio, antes da instalação da usina, quando o trajeto ainda permitia um contato mais direto com esse importante ponto natural da região.

“Há 33 anos, já enxergávamos o potencial turístico do rio Madeira e a importância de mostrar à população toda essa riqueza natural que sempre esteve presente na cidade”.

Passeio busca oferecer experiência única

Hoje, o passeio funciona por formação de lotação e conta com estrutura para garantir conforto aos visitantes, incluindo bar e restaurante a bordo, além de opções de pagamento via cartão e Pix. Os horários são de segunda a sexta, das 16h às 18h, e aos fins de semana, das 10h às 18h.

Os valores são: R$ 40 por pessoa, com gratuidade para crianças de até 5 anos e meia-entrada para crianças de 6 a 10 anos, o que amplia o acesso da população a essa experiência.

Leia também: Portal Amazônia responde: por que o rio Madeira tem este nome?

Ao final do trajeto, fica a certeza de que o passeio vai além do lazer. É um convite para redescobrir Porto Velho sob um novo olhar pelas águas do rio que ajudaram a construir a história da capital. Mais do que um passeio, a atividade também movimenta a economia local, gerando renda para diversas famílias que dependem diretamente do turismo no rio.

Para o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, o passeio representa um conjunto de ações voltadas para o desenvolvimento cultural e histórico da cidade.

“O rio Madeira faz parte da nossa história e da nossa identidade. Valorizar essa atividade é fortalecer o turismo, a cultura e também gerar oportunidades para muitas famílias. Queremos que cada vez mais pessoas possam viver essa experiência e se conectar com a nossa cidade e vamos seguir desenvolvendo ainda mais a nossa Porto Velho”.

Rio Madeira

Um dos principais afluentes do rio Amazonas, o rio Madeira é considerado um rio “jovem” e com curso ainda em formação. Ele tem uma extensão de cerca de 3,3 mil quilômetros, nascendo na Cordilheira dos Andes, mas é no estado de Rondônia que ele se destaca, sendo um dos principais símbolos da capital, Porto Velho.

Saiba mais: Conheça as principais curiosidades sobre o rio Madeira, o maior afluente do Amazonas

*Com informações da Prefeitura de Porto Velho

Espetáculo teatral é inspirado em pesquisa científica sobre colaboração inusitada de tartarugas e borboletas

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Pesquisa científica revela interação entre tartarugas e borboletas. Foto: Alonso Júnior

O espetáculo ‘Borboletas bebem lágrimas de tartarugas’, criado, dirigido e interpretado por Ítalo Rui, em temporada em Manaus (AM), aproxima o público de um fenômeno pouco conhecido da natureza amazônica. A obra, transforma em linguagem cênica uma relação real entre espécies e propõe reflexões sobre memória, território e ancestralidade: a lacrifagia.

Esse comportamento é observado por cientistas na região amazônica entre borboletas e tartarugas. As borboletas se alimentam das lágrimas de tartarugas, que eliminam o excesso de sal do organismo. A partir dessa interação, a dramaturgia constrói uma narrativa simbólica e sensível.

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Arte e ciência a partir das tartarugas

No palco — ou, neste caso, em meio à floresta — o público acompanha a história de Tapy, uma tartaruga que aprende sobre o tempo da vida, do rio e de si mesma. A personagem conduz uma jornada que dialoga com temas como pertencimento, identidade e os ciclos naturais.

Ítalo Rui interpreta sozinho diversos personagens, utilizando elementos do teatro de formas animadas, em que bonecos, corpo e texto se integram. A escolha estética contribui para criar uma atmosfera poética, ao mesmo tempo em que traduz conceitos científicos em experiências acessíveis ao público.

“Vi um vídeo em que apareciam borboletas sobrevoando as tartarugas, uma imagem linda e comecei a pesquisar mais sobre tartarugas. Foi quando descobri que elas depositam seus ovos nos mesmos bancos de areia em que nasceram. Percebi que há uma relação muito forte com o território, com o lugar de onde elas vieram e que as borboletas se nutrem das lágrimas delas”, conta o ator Ítalo Rui sobre a inspiração da apresentação artística.

O espetáculo tem dramaturgia assinada por Pricila Conserva e faz parte de uma linha de pesquisa artística do ator, que já desenvolveu outros trabalhos inspirados em animais. A proposta é utilizar a natureza como ponto de partida para discutir questões humanas universais.

Pesquisa no Inpa e imersão na Amazônia

Um dos diferenciais da montagem é o processo de criação, que envolveu uma imersão direta no ambiente científico. Durante um mês, a equipe artística acompanhou pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Museu da Amazônia (MUSA), participando de atividades práticas e observando de perto o comportamento das espécies.

Saiba mais: Saiba o motivo das borboletas tomarem lágrimas de tracajás e jacarés

pesquisa sobre borboletas e tartarugas - lacrifagia
Foto: Reprodução/Facebook/Ama la Vida TV

No Inpa, os artistas tiveram contato com estudos sobre quelônios no Centro de Estudos dos Quelônios da Amazônia (CEQUA), enquanto no MUSA acompanharam o ciclo de vida das borboletas, desde a fase de lagarta até a metamorfose. A experiência permitiu que elementos científicos fossem incorporados com fidelidade à narrativa artística.

A interação entre artistas e cientistas contribuiu para enriquecer o processo criativo. Além da observação, a equipe participou de rotinas como alimentação dos animais e acompanhamento de estudos em laboratório, fortalecendo a conexão entre conhecimento acadêmico e expressão artística.

Ao levar a narrativa para ambientes naturais, a obra também convida os espectadores a observar a floresta sob uma nova perspectiva, reconhecendo as relações sutis que existem entre as espécies e a importância da preservação desses ecossistemas.

*Com informações do Inpa

Campanha de plantio na Amazônia une produção em viveiros comunitários e logística fluvial de mudas 

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Muda de itaúba. Foto: Sérgio de Andrade

O Projeto REFLORA, iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), dá a largada para a campanha de plantio de 2026 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, no Baixo Rio Negro, em Manaus (AM). A ação é a estratégia central deste ano para avançar na meta de restaurar 200 hectares ao longo das áreas atendidas pelo projeto na unidade de conservação.

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Para o sucesso desta nova etapa durante a janela chuvosa na região, a campanha une duas frentes logísticas e produtivas fundamentais que se complementam: a produção local em viveiros comunitários e uma complexa operação de transporte fluvial de mudas externas.

Projeto REFLORA inicia campanha de plantio 2026 na Amazônia unindo produção em viveiros comunitários e logística fluvial de mudas 
Projeto REFLORA inicia campanha de plantio 2026 na Amazônia. Foto: Sérgio de Andrade

A expectativa para a atual temporada é ampliar a recomposição florestal com mais de 17 mil mudas mobilizadas, superando os resultados de 2025, quando o projeto marcou seu primeiro ano em campo com 66,85 hectares implementados e 8 mil mudas plantadas.

A janela ideal de plantio ocorre justamente entre os meses de janeiro e maio, período em que se concentra a estação chuvosa na região amazônica, pois o solo mais úmido é fundamental para favorecer o enraizamento e o desenvolvimento inicial das espécies nativas nas áreas em recuperação. 

Viveiros comunitários

Como um dos pilares do Projeto REFLORA, a estruturação de quatro viveiros comunitários entregues no fim de 2025 fortalece a autonomia das famílias na RDS e reduz a dependência de fornecedores externos a longo prazo. Mais de 9.000 mudas já foram produzidas localmente nestas estruturas e serão utilizadas nos plantios deste ano. As mudas incluem mais de 20 espécies nativas, entre madeireiras e frutíferas como itaúba, jatobá, cajuí, andiroba, cacau, café e cumaru.

Os próprios comunitários realizam diretamente todas as etapas da produção. Parte das sementes é coletada na floresta pelos moradores, para o uso de espécies adaptadas às condições locais. Após a coleta, eles fazem o preparo, a semeadura e o manejo, atuando como fornecedores do projeto ao produzir exemplares em tubetes, mais leves e baratos, o que facilita o transporte interno e a redução do lixo plástico, já que os tubetes são devolvidos e reutilizados.

Leia também: Plantio consorciado ajuda pequenos agricultores a manter produção em Roraima

Viveiro de Mudas na comunidade São Sebastião, RDS Puranga Conquista, Baixo Rio Negro em Manaus (AM). Foto: Sérgio de Andrade

Para isso, o projeto REFLORA investiu fortemente na formação técnica dos participantes, que passaram por capacitações voltadas à produção de viveiros e mudas, com conteúdo como coleta e beneficiamento de sementes, preparo de substratos, germinação e manejo de viveiros, conectando teoria e prática diretamente com a realidade dos territórios amazônicos. Parte dos recursos destinados à implantação dos viveiros teve apoio do Mais Unidos, por meio do Projeto Tucumã.

Logística e transporte fluvial

Para somar forças à produção comunitária e dar a escala necessária à campanha de plantio, o REFLORA executou paralelamente uma operação estratégica para transportar aproximadamente 8 mil mudas de espécies nativas. O volume desta remessa externa foi adquirido de uma startup de biotecnologia vegetal focada em espécies adaptadas às condições da região.

A logística envolveu o deslocamento inicial em caminhão saindo de Iranduba (AM) até o Porto do Gelão, em Manaus. De lá, as mudas foram embarcadas em um barco preparado para esse tipo de carga, em uma jornada fluvial de cerca de 8 horas pelo Rio Negro até a RDS.

Devido à sensibilidade de diversas espécies, como pau rosa, violeta, preciosa e copaíba, a operação exigiu cuidado extremo no manuseio e proteção contra o sol excessivo e acúmulo de água para preservar a integridade da carga até as áreas de plantio.

Resultados e próximos passos

Em 2025, marcando o primeiro ano de execução em campo, o REFLORA implementou 66,85 hectares de áreas em recuperação com o plantio de 8 mil mudas. Para este ano, a expectativa da campanha é dar um salto significativo e ampliar a escala de restauração utilizando as mais de 17 mil mudas prontas mobilizadas nas duas frentes.

Leia também: Dicas de como plantar mudas em três ambientes diferentes

Projeto REFLORA inicia campanha de plantio 2026 na Amazônia. Foto: Sérgio de Andrade

Para isso o projeto contratou sete comunitários para se juntarem à equipe de campo, fortalecendo o seu modelo de atuação participativa. Essa integração valoriza o trabalho local, sendo que parte desses comunitários contratados também recebe o projeto em suas áreas, conectando a recuperação ambiental à geração direta de oportunidades.

Sobre o Projeto REFLORA

O Projeto REFLORA é uma iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas, financiada pelo Edital Amazonas – Floresta Viva.

O Floresta Viva é uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinada a apoiar projetos de restauração ecológica nos biomas brasileiros.

Equipe de campo do projeto composta por comunitários da RDS. Foto: Sérgio de Andrade

O edital 02/2023 conta com o FUNBIO como parceiro gestor. O apoio financeiro é realizado pelo BNDES, pela Eneva S.A. e pela Cooperação Alemã, por meio do KfW. A iniciativa conta ainda com o apoio financeiro do Governo do Brasil. A SEMA, a APCT e a Natura também atuam como parceiras no projeto.

Museu do Presépio reúne itens que marcam a relação de Porto Velho com a fé

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Foto: Wesley Pontes/ Secom – Porto Velho

O Museu Internacional do Presépio vem se consolidando como um dos espaços culturais mais singulares de Porto Velho (RO), reunindo em um só lugar elementos que atravessam gerações: arte, espiritualidade e tradição. Localizado na Associação São Tiago Maior, na zona Leste da capital, o museu chama atenção pela grandiosidade do acervo e pela diversidade de peças que encantam os visitantes logo na chegada.

Criado em 1998, o espaço nasceu inspirado na tradição italiana dos presépios e hoje carrega reconhecimento como Patrimônio Artístico do Estado de Rondônia. Ao longo dos anos, o museu ampliou seu acervo e passou a ocupar posição de destaque no cenário do turismo religioso e cultural da cidade.

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Fundador da Associação São Tiago Maior e criador do museu, o padre Enzo Mangano explica que o espaço foi sendo ampliado ao longo dos anos e hoje reúne um acervo expressivo.

“Contamos com mais de mil presépios vindos de diversas partes do mundo. O destaque é o presépio monumental permanente, considerado o segundo maior do mundo em seu gênero, que retrata toda a história da salvação. É um conjunto artístico em cerâmica de grande valor cultural e religioso”.

Espaço nasceu inspirado na tradição italiana dos presépios. Foto: Wesley Pontes/ Secom – Porto Velho

Atrações do Museu do Presépio

Entre os principais atrativos está o presépio monumental, considerado o maior do Brasil e o segundo maior do mundo. Ao todo, o local reúne cerca de mil presépios e mais de 2,8 mil peças artísticas, produzidas por artistas de mais de 50 nacionalidades. As obras apresentam diferentes formas de representar o nascimento de Cristo, com estilos, materiais e técnicas que refletem a identidade cultural de cada região.

Leia também: Museu Internacional do Presépio Padre Enzo é o maior do Brasil e o segundo maior do mundo

Mais do que um espaço de exposição, o museu funciona como um ambiente de memória e aprendizado. Cada peça carrega uma história e contribui para ampliar o olhar do público sobre a diversidade cultural e religiosa presente no mundo. O passeio proporciona uma experiência que envolve contemplação, conhecimento e conexão com diferentes tradições.

O espaço também se apresenta como uma alternativa acessível de lazer para famílias, estudantes e turistas que buscam atividades culturais em Porto Velho. A visita pode ser feita de terça a domingo, no período da tarde até a noite, no bairro Socialista, facilitando o acesso de quem deseja conhecer de perto esse patrimônio.

Com um acervo que atravessa fronteiras e valoriza a arte sacra em suas múltiplas expressões, o museu integra o roteiro turístico da capital e fortalece a identidade cultural da cidade, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de educação e entretenimento para a população.

*Com informações da Prefeitura de Porto Velho

Dzoodzo Baniwa: educador ajuda a articular projetos de desenvolvimento sustentável na Amazônia

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O educador Dzoodzo Baniwa fotografado em setembro, em São Paulo, por ocasião do Prêmio Fundação Bunge. Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Em 2018, foi criada a Organização Baniwa e Koripako Nadzoeri, sediada no Amazonas, e naquele mesmo ano assumi sua secretaria executiva. Ela representa hoje 85 comunidades, 10 escolas e três coletivos de mulheres desses dois povos indígenas, os Baniwa e os Koripako.

O nome da organização traz a palavra Nadzoeri, que é a junção das sílabas iniciais de três divindades: Ñapirikoli, Dzooli e Eeri. Elas fazem parte da mitologia da nossa comunidade, que vive ao norte do estado, às margens do rio Içana. Ele, por sua vez, deságua no rio Negro, na região do município São Gabriel da Cachoeira, que concentra grande número de indígenas.

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A Nadzoeri, como nossa organização é mais conhecida, está vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro [Foirn]. Uma das primeiras atividades que realizamos foi um diagnóstico socioambiental, feito de forma coletiva, ainda em 2018. A meta era entender as potencialidades locais e incentivar atividades voltadas para o desenvolvimento sustentável.

Uma das demandas veio dos moradores da comunidade de Nazaré do Rio Cubate, localizada na Terra Indígena do Alto Rio Negro. Eles queriam conhecer melhor a diversidade de aves daquela região, tendo em vista um futuro projeto de ecoturismo de base comunitária para observação de pássaros.

Essa ideia se desdobrou. No ano seguinte, firmamos uma parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa] para elaborar um inventário de avifauna da região. O trabalho entre pesquisadores do órgão e as comunidades rendeu o livro Espécies de aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro, escrito em nheengatu, baniwa e português. A obra reúne 310 espécies e apresenta descrições físicas e comportamentais, além de relatos sobre o significado desses animais para o nosso povo.

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Tenho orgulho de ser um dos organizadores dessa obra, publicada pelo próprio Inpa. No ano passado, o livro recebeu o prêmio Jabuti Acadêmico na área de ciências biológicas, biodiversidade e biotecnologia. É um reconhecimento que celebra essa construção coletiva de conhecimento, mas que, em âmbito pessoal, também reafirma a importância da educação na minha trajetória.

Nasci em 1985 e cresci na aldeia Santa Isabel, às margens do rio Ayari, na bacia do rio Içana. Só fui para a escola aos 10 anos e entrei em uma classe de educação infantil, com crianças bem mais novas do que eu. Para completar, meu professor só falava em português, língua que eu não dominava na época.

Imagem colorida do pesquisador e educador indígena amazonense dzoodzo baniwa
O educador e pesquisador indígena Dzoodzo Baniwa. Foto: Divulgação/Fundação Bunge

Eu tinha medo de ir para a escola e só não desisti pela insistência do meu pai. Ele tem um profundo conhecimento sobre a floresta, mas sentiu na pele as consequências de ser analfabeto. No passado, chegou a ser submetido à condição de trabalho análogo à escravidão por não saber ler e escrever.

Aos 15 anos, me transferi para a então recém-inaugurada Escola Indígena Baniwa e Koripako Pamáali. Criada em 2000, ela é resultado de um longo processo de discussão sobre currículo, metodologia e calendário escolar, que contou com a participação efetiva das comunidades.

Essa foi a primeira escola indígena de ensino fundamental II do nosso território. Como eu era um pouco mais velho do que meus colegas, comecei a participar de projetos agroflorestais, de piscicultura e de meliponicultura. Em 2004, quando terminei o ciclo do fundamental, acabei sendo contratado como técnico no laboratório de criação de peixes da escola, onde permaneci até 2010.

No ano seguinte, aos 20 anos, fui para Manaus cursar o ensino médio na modalidade supletivo. Pela primeira vez tive aulas teóricas formais de química, biologia e física e me surpreendi ao perceber que já aplicávamos alguns princípios dessas disciplinas em atividades na nossa comunidade, como, por exemplo, na criação de peixes ou nos sistemas agroflorestais.

Educador investe em conexões

Foi movido pelo desejo de ampliar as conexões entre os saberes tradicionais indígenas e a ciência que optei pela licenciatura intercultural em física. Fiz essa graduação no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas [Ifam], em São Gabriel da Cachoeira.

Em 2016, após terminar o curso, voltei para a minha aldeia disposto a colocar em prática o que tinha aprendido no curso de física. O primeiro projeto a que me dediquei foi inspirado por uma lembrança da minha mãe carregando água do rio até a aldeia para cozinhar. Para facilitar essa atividade, desenvolvi um sistema de bombeamento simples e sustentável, que não usa eletricidade, mas a energia do fluxo da água. Nos últimos anos, melhoramos o sistema, incluindo uma bomba elétrica movida a energia solar fotovoltaica e implementamos o kit [bomba e placas solares] em cerca de 40 aldeias no território do rio Içana.

O educador Dzoodzo Baniwa com os demais organizadores do livro ‘Espécies de aves do Rio Cubate: Terra Indígena do Alto Rio Negro‘, durante a cerimônia do prêmio Jabuti Acadêmico, em 2025. Foto: Divulgação/Prêmio Jabuti Acadêmico

A água foi tema da minha pesquisa de mestrado, concluída em 2021, no curso de Pós-graduação de Mestrado Profissional para o Ensino de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. No estudo tratei dos significados cultural e cosmológico desse recurso natural para o povo Baniwa e do direito a ele na perspectiva dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas [ODS-ONU]. Além disso, discuti como a questão da água pode ser mais bem explorada no currículo integral da escola indígena.

Eventos extremos como ondas de calor, secas e inundações já são realidade em nosso território. No meu trabalho como educador, tenho defendido a adoção de metodologias participativas, que envolvam as crianças e jovens nos processos de monitoramento da natureza e os preparem para responder a esses desafios ambientais. É o que eu chamo de educação territorializada, onde a escola assume um papel ativo na busca de solução criativa aos problemas da comunidade e, nesse sentido, se torna uma fonte de oportunidades para as pessoas e para o local.

Essa premissa me motivou a liderar o estabelecimento de um convênio assinado em 2022 entre a Nadzoeri e a Foirn com a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [FE-USP]. Por meio desse acordo, a Escola Municipal Baniwa Eeno Hiepole, onde sou professor de matemática, começou a participar do programa global Escolas2030, financiado pela Fundação Aga Khan, sediada em Genebra, na Suíça. No Brasil, essas atividades são coordenadas pela FE-USP e a organização de empreendedores sociais Ashoka.

Com duração de 10 anos, o programa busca catalisar a ação das escolas como laboratórios de uma educação integral e transformadora. Essa proposta tem a ver com a nossa escola, que defende a diversificação dos ambientes de aprendizagem.

Em setembro recebi o Prêmio Fundação Bunge. Fui agraciado na categoria Vida e Obra, no tema Saberes e práticas dos povos tradicionais e sua importância para a conservação dos recursos naturais.

Nós, indígenas, temos conhecimentos de assuntos como astronomia e ciclos da natureza, só que as nossas referências não estão nos livros, mas escritas nas pedras, no céu, na floresta. Talvez por isso nosso saber nem sempre seja respeitado e costume ser visto como inferior em relação ao conhecimento dos brancos.

Mas não desanimo. Espero que o diálogo entre o conhecimento ancestral, a ciência e o poder público se fortaleça. É a partir dessa tríade que podemos encontrar meios para enfrentar a emergência climática no planeta.

O depoimento do educador Dzoodzo Baniwa foi dado a Patricia Mariuzzo

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa FAPESP.

Acre registra recuo de 49% na exploração madeireira

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Dados da redução expressiva fazem parte do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), desenvolvido pelo Imazon. Foto: Uêslei Araújo/Sema AC

A exploração madeireira no estado do Acre apresentou uma queda significativa de 49% entre agosto de 2023 e julho de 2024, em comparação com o período anterior. Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), desenvolvido pelo Imazon.

De acordo com o levantamento, foram mapeados cerca de 5,3 mil hectares com atividade madeireira no período analisado. Além da redução expressiva, o estudo destaca que toda a exploração registrada ocorreu em áreas autorizadas, o que indica avanço no controle e na regularização da atividade no estado.

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O resultado aponta para um cenário de maior fiscalização e cumprimento das normas ambientais, com a exploração concentrada principalmente em imóveis rurais privados devidamente regularizados. A ausência de registros de exploração não autorizada reforça o papel das políticas públicas e dos mecanismos de monitoramento no combate a práticas ilegais.

Comparativo histórico

Dados históricos mostram que a atividade madeireira no estado vinha apresentando oscilações nos últimos anos, com picos e quedas entre 2020 e 2023. No entanto, o período mais recente se destaca pela combinação de redução na área explorada e maior conformidade legal.

Arte exploração madeireira no Acre
Comparativo histórico da exploração madeireira no Acre. Foto: Divulgação

Informações do Projeto de Monitoramento e Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), também apontam que a taxa registrada no período de agosto de 2024 a julho de 2025 superou em 43% a meta estabelecida para 2025 no Plano de Prevenção, Controle de Desmatamento e de Queimadas do Acre (PPCDQ).

A área de desmatamento projetada pelo Plano era de aproximadamente 572 km ², no entanto, o total registrado ficou em torno de 320 km², indicando uma redução de 252 km²  de área degradada em relação ao limite previsto.

O Simex utiliza imagens de satélite e análise técnica para identificar áreas de exploração florestal na Amazônia Legal, contribuindo para a transparência e o acompanhamento da atividade. As informações subsidiam ações de fiscalização e políticas de preservação ambiental.

Leia também: Estudo aponta que 62% da área de exploração de madeira no Amazonas é ilegal

Avanços na atividade madeireira

Para o secretário de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, os dados comprovam o fortalecimento do licenciamento ambiental no estado e a consolidação de uma política voltada à promoção da conformidade no setor produtivo.

“Esse resultado consolida o avanço de uma política pública construída com planejamento estratégico e atuação integrada entre os órgãos ambientais. A redução de 49% na exploração madeireira, aliada ao fato de que toda a atividade identificada ocorreu exclusivamente em áreas autorizadas, demonstra que o Acre está avançando de forma concreta na qualificação do licenciamento ambiental e o manejo sustentável”, explicou.

Secretário estadual do Meio Ambiente, Leonardo Carvalho. Foto: Diego Gurgel/Secom Acre

Segundo Carvalho, mais do que coibir ilícitos, o Imac está estruturando um ambiente de segurança jurídica para quem produz de forma regular. “Temos investido na orientação técnica, na realização de mutirões para regularização ambiental e na ampliação do acesso ao Cadastro Ambiental Rural (CAR), garantindo que produtores possam se adequar às exigências legais e acessar políticas públicas’ salientou.

“Reforçando esse compromisso, em 2026 estamos intensificando ainda mais esse trabalho, com o fortalecimento das ações de campo e de inteligência territorial, por meio da Operação Amburana, em apenas sete dias de operação, foram apreendidos 24 metros cúbicos de madeira ilegal, resultado que evidencia a presença ativa e firme do Estado no combate às irregularidades”, concluiu Leonardo.

Fiscalização

O presidente do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), André Hassem, comentou sobre a redução dos índices de exploração madeireira.

“A redução da exploração de madeira no Acre demonstra que o fortalecimento da fiscalização contra os ilícitos ambientais, aliado ao avanço dos processos de licenciamento e monitoramento, tem gerado resultados concretos na proteção dos nossos recursos florestais”, afirmou.

Presidente do Imac, André Hassem. Foto: José Caminha/Secom

Segundo Hassem, o Imac segue atuando com responsabilidade para garantir que a atividade madeireira ocorra dentro da legalidade, promovendo o uso sustentável das florestas e combatendo práticas ilegais que causam danos ambientais e prejuízos à sociedade. “Nosso compromisso é desenvolver economicamente o estado de forma sustentável”, ressaltou o gestor.

*Com informações da Agência de Notícias do Acre

Dia Mundial do Livro: qual obra mudou a sua vida?

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Foto: Apoena Fotografia

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Em abril, há muitas datas que celebram a Literatura: temos, no dia 02.04, o Dia Internacional do Livro Infantil, enquanto no dia 18.04, comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil. Já no dia 09.04, celebra-se o Dia da Biblioteca, em honra aos espaços de leitura e o trabalho dos bibliotecários. Finalmente, no dia 23.04, o Dia do Livro, elemento central da Literatura, ganha destaque, uma homenagem feita pela UNESCO às vidas de William Shakespeare e Miguel de Cervantes.

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Enquanto autor, considero esta uma data para relembrar das obras que causaram grande impacto na minha vida, que moldaram minha trajetória enquanto leitor até que me tornasse, também, um escritor.

Assim, gostaria de fazer uma breve retrospectiva das leituras que mudaram minha vida, a fim de compartilhar algumas das experiências que a Literatura me proporcionou ao longo desses últimos anos como quem olha para o passado e reconhece os amigos que fez ao longo do caminho.

Alguns se foram.

Alguns se perderam.

Alguns permaneceram.

Todos foram indispensáveis.

Nenhum chegou a ser esquecido.

Ruth Rocha conta ‘A Odisseia’

Imagem: Reprodução

Claro que, como uma boa criança brasileira, Maurício de Souza foi minha porta de entrada para a leitura, mas foi com a versão infantojuvenil que Ruth Rocha fez de “A Odisseia”, de Homero, que fui definitivamente batizado.

Minha história com esse livro começa num tempo em que bibliotecas em escolas públicas não eram espaços acessíveis, então os empréstimos eram feitos de modo informal pelos próprios professores quando a Secretaria de Educação enviava novos exemplares.

Não me orgulho do que vou dizer, mas também não me arrependo: eu fui um menino que roubava livros. Minha única entrada no mundo do crime se deu pelo encanto que tive com essa história, uma vez que me lembrou dos filmes que assistia com meu pai na Tela de Sucessos.

Não suportei a ideia de ficar sem as aventuras de Ulisses e suas disputas com os próprios deuses, então o livro simplesmente não retornou à escola no dia devido. Não me arrependo pois não era minha culpa se, na época, não tínhamos espaços nem profissionais adequados para que pudéssemos ler na própria escola, e meu delito chamou a atenção de meus pais para meu interesse pela leitura. Logo, ganhar livros no meu aniversário se tornou um costume, então algo de muito bom saiu disso tudo (crianças, não tem necessidade disso hoje, hein).

‘O senhor dos anéis’, de J.R.R. Tolkien

livro O senhor dos anéis de J.R.R. Tolkien
Imagem: Reprodução

Após “A Odisseia”, eu me tornei fanático por Fantasia. Então, quando assisti à adaptação de Peter Jackson da obra de J.R.R. Tolkien, me senti como Alice na toca do Coelho.

Lembro que ver o mago Gandalf, ali tão pequeno, enfrentando um gigantesco demônio de fogo às bordas de um abismo sem fundo não só foi para mim sinônimo da coragem suprema, mas também o exemplo definitivo da magia que pulsa na Fantasia.

Desnecessário dizer que, quando tive idade suficiente (e coragem para ler um livro da grossura de uma bíblia), “O senhor dos anéis” se tornou uma das obras fundamentais da minha vida, e quem é fã de Tolkien conhece o esquema de pirâmide que é acompanhar o seu trabalho: inevitável ler também “O hobbit”, “Silmarillion” e “Contos inacabados”.

Enquanto escritor, minha missão se tornou reproduzir em meus leitores a mesma sensação de encantamento que senti vendo Gandalf nos abismos de Moria.

‘Uma vela para Dario’, de Dalton Trevisan

Capa da adaptação em quadrinhos feita por Robson Vilaba, disponível em https://nanu.blog.br/uma-vela-para-dario/

Aqui, temos um caso interessante. Após a experiência com Fantasia na escola me catapultar para o curso de Letras – Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Amazonas, conheci textos estranhos e impressionantes. Descobri que a realidade pode ser tão bizarra quanto a Fantasia, e a fronteira entre as duas pareceu mais fina.

Conheci obras de Machado, de Clarisse, de Hatoum, mas foi a prosa curta e afiada do paranaense Dalton Trevisan que fez o corte mais fundo.

Acredito que todo estudante de Letras já leu “Uma vela para Dario”, conto que mostra o quão absurda é a indiferença do ser humano diante da vida, tomado por uma passividade monstruosa por conta da dinâmica da rotina.

Isso me assustou mais do que as histórias de suspense e horror que lia na época, e me mostrou que, mesmo curtas, as narrativas podem ter um poder sinistro de impactar a nossa percepção de mundo.

‘A guerra dos tronos’, de George Martin, e “O feiticeiro de Terramar”, de Úrsula Le Guin

Na vida adulta, eu fiquei experimentando até encontrar o tipo de Fantasia que queria escrever. Tolkien não parecia moderno o suficiente, uma vez que o mundo tinha novos desafios e monstros para que eu enfrentasse, e a Terra Média não pareceu entender que dentro de mim também havia desafios e monstros.

Já no primeiro livro das “Crônicas de Gelo e Fogo”, de Martin, e na saga de Terramar, de Le Guin, encontrei histórias e personagens que precisavam lidar não só com as trevas do mundo, mas também com as do próprio coração. Encontrei neles autores que tinham algo a dizer sobre essa realidade violenta em que vivemos, e me deram as ferramentas para contar histórias que transformassem a dor em enredos. Le Guin, particularmente, ensina a encontrar luzes mesmo quando não parece existir nenhuma, enquanto Martin mostra, de forma brutal, que nada critica melhor a realidade do que a Fantasia.

Dia Mundial do Livro

Em honra ao dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro, convido você também, leitor ou leitora, a fazer sua própria retrospectiva, uma vez que as histórias que nos constroem são chave para entender quem nos tornamos, um exercício de autorreflexão que gosto bastante de fazer nesta época do ano.

Então, quais livros mudaram sua vida?

jan santos autor amazonense
Foto: Apoena Fotografia

Leia também: Contos com cheiro de terra molhada

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista