Desmatamento em área da floresta amazônica. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
O desmatamento e a exploração ilegal de madeira concentram a maior parte das investigações de crimes ambientais no Amazonas. É o que mostra o relatório ‘Esforços estaduais no combate aos crimes ambientais na Amazônia Legal’, divulgado pelo Instituto Igarapé em parceria com o Consórcio Interestadual da Amazônia Legal. O levantamento analisou dados das forças de segurança entre 2023 e julho de 2025.
Segundo o estudo, a Polícia Civil do Amazonas instaurou 171 inquéritos policiais ambientais no período. Desse total, cerca de 31% foram classificados como crimes de impacto amplo, categoria que inclui desmatamento, queimadas, garimpo ilegal e outros delitos com maior potencial de dano ambiental.
Entre os inquéritos relacionados a esses crimes mais graves, 71% tratam de exploração ou desmatamento florestal. Os demais envolvem crimes contra a fauna silvestre, incêndios florestais e casos de poluição.
O relatório também chama atenção para o baixo número de investigações registradas no estado. Enquanto o Amazonas contabilizou 171 inquéritos ambientais entre 2023 e julho de 2025, o Pará registrou 7.530 no mesmo período.
Segundo os pesquisadores, a diferença pode indicar subnotificação, falta de efetivo policial ou limitações operacionais para documentar infrações ambientais.
Queimadas e desmatamento aparecem nos registros da Polícia Civil
Nos boletins de ocorrência registrados pela Polícia Civil, os crimes ambientais de maior impacto se concentram principalmente em incêndios florestais e desmatamento. O estudo aponta que o garimpo ilegal aparece com menor frequência nos registros.
Os pesquisadores também identificaram ocorrências envolvendo motores de garimpo de ouro encontrados submersos e veículos abandonados ligados à atividade mineral ilegal.
Já nas áreas urbanas, predominam registros relacionados ao comércio irregular de animais e maus-tratos. Esse padrão também foi observado em outros estados da Amazônia Legal.
Foto: Reprodução/Arquivo/CBM-AC
Operações focam em crimes de grande impacto
O levantamento mostra que todas as operações registradas pela Polícia Militar do Amazonas no período analisado foram voltadas para crimes ambientais de impacto amplo, como desmatamento, queimadas e garimpo ilegal.
O mesmo cenário foi observado nas operações da Polícia Civil. O Amazonas aparece entre os estados onde 100% das ações registradas foram classificadas como estruturais, ou seja, direcionadas aos crimes ambientais mais graves.
Entre as iniciativas citadas pelo relatório estão as operações Hórus e Águas Seguras, realizadas pela Polícia Militar, além da Operação Tamoitatá, considerada uma referência regional no combate ao desmatamento e às queimadas. A ação reúne órgãos como a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), as polícias Militar e Civil, o Corpo de Bombeiros e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
Foto: Divulgação/SSP-AM
Amazonas tem uma das maiores proporções de denúncias de crimes ambientais graves
O serviço 190 da Polícia Militar recebeu 180 chamadas relacionadas a crimes ambientais no Amazonas entre 2023 e julho de 2025. Desse total, 52 foram classificadas como ocorrências de impacto amplo e 128 como crimes de menor impacto.
Embora o número absoluto seja menor que o de outros estados da Amazônia Legal, o Amazonas registrou uma das maiores proporções de denúncias relacionadas a crimes ambientais graves: 28,9% das chamadas tratavam de desmatamento, queimadas ou outras infrações de grande impacto ambiental.
Segundo o relatório, esse percentual sugere que a população tem acionado a polícia para denunciar crimes ambientais de maior gravidade, enquanto a maior parte dos chamados restantes está ligada a ocorrências de menor impacto, como situações envolvendo animais e outros problemas ambientais do cotidiano.
A Amazônia, seus corpos, memórias e territórios atravessados pela violência são o ponto de partida de ‘Erenilda: Puta de Garimpo com Dente de Ouro’, novo espetáculo da Soufflé de Bodó Company em coprodução internacional com a Cía García Sathicq Teatro, da Argentina. A obra terá estreia oficial em Manaus (AM) no dia 30 de agosto, no Teatro da Instalação, com entrada gratuita, antes de iniciar a circulação internacional em La Plata, na Argentina, entre 2 e 9 de setembro. A temporada marca uma nova etapa de intercâmbio artístico entre a Amazônia brasileira e a América Latina. A classificação é 18 anos.
Inspirada em mulheres reais do antigo Garimpo de Araras, em Rondônia, a peça acompanha a trajetória de Erenilda, personagem marcada pela violência, pela perda e pela sobrevivência em territórios devastados pelo avanço do garimpo e pelas transformações provocadas pelas grandes hidrelétricas na Amazônia.
Em cena, a personagem revisita fragmentos de sua memória, atravessada pela morte brutal do filho Erê, pelas marcas físicas da violência e por afetos interrompidos, o que transforma o trauma em linguagem poética e política.
Segundo o diretor da Soufflé de Bodó Company, Francis Madson, a criação dialoga diretamente com experiências pessoais e memórias de territórios amazônicos.
“Passei parte da minha infância em áreas hoje inundadas pelas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. Muitas dessas histórias permaneceram no meu corpo. Erenilda surge desse encontro entre memória, violência e imaginação. É uma obra sobre corpos que insistem em permanecer vivos mesmo quando o mundo tenta apagá-los”, afirma Madson.
Espetáculo conta a história de Erenilda, impactada pelo garimpo na Amazônia. Foto: Divulgação/Soufflé de Bodó Company
Erenilda reflete impactos sociais
A peça propõe uma reflexão sobre os impactos sociais e humanos de grandes projetos de infraestrutura na região Norte, especialmente sobre comunidades atingidas por processos históricos de deslocamento e destruição.
“A encenação acontece em um ambiente ritualístico, onde músicos produzem paisagens sonoras inspiradas nos rios amazônicos, enquanto projeções, água, ventiladores industriais e objetos simbólicos criam uma atmosfera de tensão e memória”, comenta o diretor.
Ao longo da montagem, Erenilda confronta perguntas sobre amor, medo, violência e sobrevivência. Seu corpo torna-se território político e afetivo.
“Mesmo atravessada pela brutalidade, ela insiste na dança, no desejo e na permanência. A obra propõe uma reflexão sobre a Amazônia contemporânea, sobre os corpos esquecidos pela história oficial e sobre a capacidade humana de reinventar a vida diante da devastação”, pontua Francis Madson.
O espetáculo nasce da aproximação entre artistas da Amazônia brasileira e da Argentina interessados em discutir temas como memória, território, violência e apagamento de comunidades amazônicas. O projeto é financiado pelo Programa Iberescena e tem o apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
A coprodução entre a Soufflé de Bodó Company e a Cía García Sathicq Teatro iniciou o processo criativo em fevereiro de 2026 e passou por uma residência artística em Manaus entre abril e maio deste ano.
Durante o processo, a equipe realizou encontros de criação, leituras dramatizadas e uma pesquisa de campo em Presidente Figueiredo e na Usina Hidrelétrica de Balbina, com investigações sobre os impactos históricos e simbólicos provocados pela destruição de territórios amazônicos.
O projeto também prevê a publicação da dramaturgia em português, espanhol e francês, ampliando a circulação internacional da obra e fortalecendo narrativas amazônicas em diferentes contextos culturais.
Após a estreia em Manaus, “Erenilda: Puta de Garimpo com Dente de Ouro” segue para La Plata, na Argentina, onde realizará duas apresentações, rodas de conversa com o público, intercâmbio artístico internacional e o lançamento do livro da obra, consolidando o espetáculo como um projeto de circulação, pesquisa e diálogo entre territórios.
Cientistas da Unesp descobriram duas novas espécies de escorpiões em Roraima: Cayooca puchus e Brotheas cernii. Foto: Reprodução/Equipe do AT/Projeto Biota-FAPESP
As duas novas espécies de escorpiões descobertas por cientistas na Amazônia foram encontradas nos arredores da Cachoeira do Evandro, em Mucajaí, no Sul de Roraima. A pesquisa que identificou e descreveu os animais inéditos foi conduzida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Os novos escorpiões encontrados na natureza receberam os nomes científicos de Cayooca puchus e Brotheas cernii. As duas novas espécies têm tamanhos diferentes. O Cayooca puchus mede entre 3,2 e 5,1 centímetros, enquanto o Brotheas cernii varia de 4,5 a 5,7 centímetros.
A descoberta foi resultado de dez anos pesquisa, por meio de um projeto liderado desde 2016 pela pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Imunologia e Toxinologia da Unesp, Manuela Pucca. O trabalho teve o apoio do grupo de pesquisa Snakebite, da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
“Foi muito especial. É uma mistura de satisfação, surpresa e orgulho em saber que ainda existem espécies desconhecidas na Amazônia, especialmente em Roraima”, disse Manuela.
Os resultados da pesquisa foram publicados em junho deste ano na revista científica internacional Diversity, especializada em estudos sobre biodiversidade e editada pela Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI), na Suíça.
Para catalogar as duas espécies inéditas, os pesquisadores fizeram buscas ativas noturnas na região da Cachoeira do Evandro, em outubro de 2022. Nas expedições, eles usaram lanternas de luz ultravioleta, também conhecida como luz negra, para localizar os escorpiões.
Sob a luz UV, os animais ficam fluorescentes devido a compostos presentes na camada externa do corpo, o que facilita a localização em meio à vegetação. Os exemplares foram coletados com pinças e preservados em álcool a 70%.
Em seguida, os animais passaram por medições e análises morfológicas, que avaliaram características físicas como cauda, pernas e cerdas sensoriais.
Os pesquisadores também produziram fotografias em luz branca e UV, com auxílio de um estereomicroscópio, equipamento que amplia e permite observar em detalhes as estruturas do corpo dos escorpiões. As imagens passaram ainda por técnicas de empilhamento para aumentar a nitidez.
Para confirmar que se tratava de espécies novas, as características dos animais foram comparadas com descrições e registros de espécies semelhantes em estudos científicos e com fotografias de outros exemplares.
Os pesquisadores encontraram os escorpiões em áreas de rochas graníticas isoladas em meio à floresta, conhecidas como inselbergs. Essas formações, que funcionam como grandes “ilhas” de pedra, podem criar condições ambientais diferentes das áreas ao redor e abrigar espécies que não são encontradas em outros locais.
A pesquisa reuniu pesquisadores de seis instituições do Brasil e do México. No Brasil, além da Unesp, participaram profissionais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), da UFRR), da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), e do Instituto Butantan. O estudo também contou com a colaboração de pesquisadores da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM).
Busca por novos medicamentos
Agora, a pesquisa pode ganhar um novo rumo. Os escorpiões foram enviados ao laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, em Araraquara, onde as moléculas presentes nas peçonhas dos animais são estudadas.
Uma das possibilidades estudadas pelos pesquisadores é usar substâncias presentes nos venenos de animais peçonhentos na busca por novos medicamentos. É nesse contexto que entra a bioprospecção, área que investiga compostos encontrados na natureza com potencial para aplicações na saúde.
“As moléculas de escorpião, no geral, têm muito potencial para a gente fazer novos antimicrobianos, que seriam antibióticos, além de moduladores da resposta imune. A gente sabe que muitas doenças causam uma exacerbação, por exemplo, da resposta inflamatória. A gente tem algumas moléculas nesses venenos que são anti-inflamatórias. Realmente, esperamos que a gente possa produzir um medicamento futuro”, disse a pesquisadora Marcela.
A pesquisadora, no entanto, explica que estudos para o desenvolvimento de novos medicamentos podem levar entre 20 e 30 anos e não há garantia de que resultem em um tratamento. Apesar disso, os pesquisadores demonstram otimismo em relação aos resultados futuros.
Atuação de pesquisadores de Roraima no estudo
Além da coordenadora do estudo, pesquisadores do grupo Snakebite Roraima, da UFRR, também contribuíram para a pesquisa. Entre eles está o biólogo Felipe Augusto Cerni, um dos pesquisadores que atuam no estudo de venenos de escorpiões no Brasil.
Cerni explicou que identificar uma espécie como nova é um processo complexo, principalmente porque as diferenças entre animais semelhantes podem ser difíceis de perceber durante as coletas.
“A relevância maior está no fato da ciência criar uma expectativa de encontrar outros novos seres aqui, novos animais. No caso dessa [descoberta] foram dois aracnídeos, os escorpiões, mas ainda há outros a serem descobertos, destacou. Em reconhecimento à contribuição científica de Cerni, uma das novas espécies recebeu o nome Brotheas cernii.
A descoberta das novas espécies reforça o quanto ainda há para conhecer sobre a biodiversidade de Roraima e a importância de preservar áreas pouco exploradas cientificamente.
Cerni afirma que o achado também mostra a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa no estado, que tem potencial para atrair a atenção da comunidade científica nacional e internacional.
*Por Luiz Quadros, estagiário sob supervisão de Valéria Oliveira, da Rede Amazônica RR
A Universidade Federal do Amazonas (Ufam), por meio do projeto “Territórios Inteligentes e Sustentáveis: Gestão Municipal Estratégica na BR-319”, ligado a Pró-Reitoria de Inovação Tecnológica (Protec/Ufam), Centro de Ciências Ambientais da Ufam (CCA/Ufam), Centro de Educação a Distância (CED/Ufam) e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), nos próximos 12 meses, trabalha na gestão estratégica e no planejamento territorial na área de influência da BR 319, que liga os estados do Amazonas (AM) a Rondônia (RO).
A iniciativa prevê capacitação de gestores e lideranças, diagnóstico participativo e elaboração de projetos com soluções voltadas para 16 municípios situados na região da rodovia, a partir de metodologias voltadas para cidades inteligentes adaptadas ao contexto amazônico.
Entre as metas do Projeto estão a formação de, no mínimo, 150 gestores, incluindo servidores, lideranças, conselheiros, comunidades e órgãos que atuam no território, em cursos livres de extensão, além de 20 profissionais em especialização lato sensu, com carga horária de 360 horas, oferecida pela Ufam. A proposta considera esses atores como participantes fundamentais no processo de discussão e planejamento das políticas públicas da região.
Também estão previstas oficinas presenciais de diagnóstico nos municípios-polo, oficinas para elaboração de projetos e também voltadas à capacitação em captação de recursos. O trabalho abrange ainda a elaboração de projetos de soluções inteligentes para os municípios participantes, de Notas Técnicas com prognósticos regionais para entrega para a Secretaria Extraordinária para a Transformação do Estado (SETE) do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).
Segundo a coordenadora do “Territórios Inteligentes e Sustentáveis da BR319” e diretora do Departamento de Empreendedorismo e Habitat de Inovação da Protec, professora Angélica Corrêa, a proposta amplia a capacidade de gestores, lideranças e comunidades para participar da elaboração de políticas públicas por meio de diagnóstico e capacitação.
“Este projeto oferece um curso de especialização destinado prioritariamente a Gestores públicos municipais (prefeituras, secretarias e seus técnicos), lideranças e afins. As oficinas temáticas propostas serão a consolidação de algumas áreas da especialização e poderão ser mais abrangentes quanto ao público. Posteriormente, haverá uma avaliação classificatória para adequar ao número de vagas disponível e nosso planejamento é iniciar em outubro de 2026”, detalhou a coordenadora.
Foto: Ascom AGU
A professora falou ainda que o Projeto já está buscando apoio e adesão das prefeituras, para em seguida, comunicar os meios de inscrição e acompanhamento das ações ao longo do tempo. “A ideia é apoiar o planejamento da área do entorno da BR 319, a partir da integração entre dados, conhecimento acadêmico e saberes das comunidades”, enfatizou.
De acordo com o diretor do CCA/Ufam, professor André Mendonça, a proposta também incorpora diagnóstico a partir de metodologias desenvolvidas para cidades inteligentes com foco em inovação, sustentabilidade, infraestrutura, saúde e bem-estar. “A metodologia do diagnóstico é participativa e foi adaptada às características dos municípios do Amazonas, que incluem áreas urbanas, comunidades, assentamentos e outras formas de ocupação territorial. O diagnóstico procura entender o que precisamos avançar para termos territórios mais inteligentes e sustentáveis na região “, completou.
Como surgiu?
O projeto “Territórios Inteligentes e Sustentáveis: Gestão Municipal Estratégica na BR-319” surgiu a partir de uma demanda do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), que procurou a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) para desenvolver uma iniciativa voltada ao fortalecimento da gestão municipal estratégica na região da BR-319. A partir dessa articulação, a Pró-Reitoria de Inovação Tecnológica (Protec/Ufam) foi demandada para coordenar as ações relacionadas ao projeto.
A atuação do projeto, no âmbito da Ufam, foi construída com base na experiência de pesquisadores da Instituição nos territórios e de ações de formação de gestores realizadas em parceria com a Escola de Contas Públicas do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE/AM), além da participação da Universidade em projetos voltados à adaptação climática e ao desenvolvimento de cidades mais inteligentes. Segundo o professor André Mendonça, durante essas atividades foram identificadas demandas relacionadas à capacitação para a melhoria dos processos administrativos, ao planejamento municipal e ao fortalecimento das estratégias de gestão pública nos municípios envolvidos.
“Entre os desafios identificados está a necessidade de conciliar as regras e atividades permitidas nas áreas protegidas com os interesses das cadeias produtivas, como proteger a produção e o modo de vida local e o território de ameaças, além da necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a gestão territorial e a adequação da administração municipal às políticas públicas brasileiras”, destacou o diretor.
Foto: DNIT
As ações também contemplam o uso inteligente de dados e ferramentas para subsidiar decisões relacionadas à infraestrutura, mobilidade, saúde, educação, saneamento, monitoramento ambiental e outras áreas da administração pública.
“É fundamental que a administração municipal, técnicos e lideranças participem ativamente da construção de políticas públicas baseadas em suas próprias capacidades. Acreditamos que, quanto mais bem informados e capacitados aqueles que atuam em prol do município, mais eficazmente poderão trabalhar os desafios que a BR 319 impõe”, finalizou o diretor do CCA.
Em junho de 2022, as mortes do indigenista da FUNAI Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips projetaram a Terra Indígena do Vale do Javari, no Oeste do Amazonas, para o noticiário global. A dupla foi vítima de uma emboscada enquanto navegava de barco no rio Itacoaí a caminho de Atalaia do Norte (AM). O mandante do crime, Rubén Dario da Silva Villar, buscava proteger seus esquemas ilícitos de pesca e garimpo ilegal na floresta amazônica – atividades comuns na região, mas que colocam em risco a sobrevivência das comunidades indígenas.
Quatro anos se passaram e o Vale do Javari continua na mira de criminosos, cujas atividades ilegais ameaçam a soberania territorial e a continuidade cultural dos povos que vivem na região. Apesar da repercussão internacional das mortes de Pereira e Phillips, muitos outros indigenistas seguem atuando em defesa para a sobrevivência dos povos nativos da Amazônia e correndo risco de vida, sem que isso chame muita atenção.
Para trazer mais visibilidade a esta questão, a revista Nature Sustainability trouxe um artigo, assinado por 66 pesquisadores de mais de 50 instituições, chamando a atenção para a importância de proteger a área do entorno das terras indígenas, por razões que extrapolam a demarcação territorial.
Representando a Unesp, participaram da elaboração do texto os pesquisadores Michel Eustáquio Dantas Chaves, geógrafo e professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Faculdade de Ciências e Engenharia, câmpus de Tupã, e Rodrigo Lilla Manzione, engenheiro agrônomo e professor do Departamento de Geografia e Planejamento da Faculdade de Ciências, Tecnologia e Educação, câmpus de Ourinhos.
Chaves explica que a escolha do Vale do Javari como foco do artigo se deveu a sua característica de fronteira trinacional, confrontando Brasil, Peru e Colômbia. As densas florestas que ocupam a região dificultam o acesso para ações de fiscalização e de policiamento efetivo. Por outro lado, as terras indígenas ali situadas possuem recursos de interesse econômico, e em suas fronteiras já ocorre a extração de madeira para o comércio ilegal e a retirada de ouro do solo.
É justamente a proteção dessas fronteiras que o grupo de pesquisadores procura tematizar no artigo. Eles ponderam que, no caso das unidades de conservação ambiental em território brasileiro, a legislação prevê a existência de zonas de amortecimento ao seu redor, que atuam como escudos ecológicos oferecendo uma camada extra de proteção à biodiversidade que reside no seu interior.
No entanto, no caso das terras indígenas demarcadas, como as do Vale do Javari, não existe uma área de proteção equivalente. Essa ausência favorece a aproximação das atividades ilícitas aos povos originários.
O artigo analisa o impacto dessas atividades sobre o ambiente, combinando dados do desmatamento na região coletados pelo Programa de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (PRODES), feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e dados de cobertura florestal e mudanças de uso da terra registrados na plataforma MapBiomas.
Os resultados mostram que a faixa de 200 km de extensão ao redor do Vale do Javari, que poderia servir como zona de amortecimento, experimentou uma perda de área florestal 187,5 vezes maior do que a registrada no interior do território demarcado, demonstrando a importância de ações de preservação no entorno.
“No artigo, fizemos um chamado à ação para a proteção concreta de terras indígenas e povos originários em isolamento voluntário porque os próprios indígenas não têm como buscar essa atenção”, diz Chaves.
“E muitas pessoas que estão no entorno dessas terras não pensam em conservação, mas sim em desmatamento, rotas para escoamento de produtos ilícitos e da produção agropecuária. Inclusive com rodovias cortando as terras indígenas. Por exemplo, há projetos para transformar a região de confluência entre Amazonas, Acre e Rondônia em uma zona de desenvolvimento agropecuário”, relata Chaves. “É por isso que devemos pensar na criação de zonas de amortecimento para terras indígenas, a fim de que haja efetiva proteção”, completa.
O desafio da sobrevivência dos povos isolados
A Terra Indígena do Vale do Javari abriga cinco povos que mantêm contato com a sociedade ao redor: Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina. Também vivem ali dois povos classificados como de contato recente, Korubo e Tsohóm-Djapá, e pelo menos 14 grupos que se mantêm em isolamento voluntário. Isso torna a região a maior concentração de povos isolados e de contato recente do país.
Chaves explica que os modos de vida dos indígenas que vivem em isolamento sequer estão totalmente documentados. “Então, qualquer abertura de clareira na floresta, queimada ou poluição do ar com fumaça ou da água com mercúrio, por exemplo, já é um ataque a esse estilo de vida”, conta o professor.
“E naquela região tem um problema muito grave, que é o narcotráfico. O narcotráfico não respeita nada. Com tantas pressões e ameaças, o isolamento dos povos originários está cada vez menos respeitado; as pessoas, por meio de diversas atividades, estão tendo acesso a eles.”
Sobrevivência de povos isolados na Amazônia depende de Estado brasileiro . Foto: Gleison Miranda/Funai
Manzione cita o exemplo do Parque Indígena do Xingu. O território onde vivem os povos indígenas no parque é demarcado. Porém, as terras onde ficam as nascentes da bacia hidrográfica seguiram desprotegidas e estão agora cobertas por plantações de soja. Além disso, foi erguida naquela região a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que exigiu até a alteração do curso do rio Xingu, o que promoveu um fortíssimo impacto sobre a pesca e a cultura local.
Atividades ilícitas explodem na Amazônia
Os pesquisadores explicam que, até o momento, não há iniciativas para qualquer plano de ordenamento territorial para a região, menos ainda um que envolva os três países que compartilham suas fronteiras. “Acaba virando uma terra sem lei procurada por pessoas que são, muitas vezes, sem terra. E aqueles cuja terra é preservada por lei talvez nem saibam que a área que ocupam deveria estar protegida externamente”, explica Chaves.
O geógrafo pondera que, por se tratar de uma área de fronteira, as soluções não dependem unicamente do Brasil. É necessária uma articulação transnacional, envolvendo o rastreamento do dinheiro e das exportações para cortar o problema pela raiz. O problema apontado pelo professor, no entanto, é que tais atividades, na maioria das vezes, não estão associadas ao mercado legal, mas sim a um comércio clandestino que abastece outros países.
Um relatório divulgado no início de 2026 pela organização Environmental Investigation Agency (EIA) mostrou que hotéis de luxo da Europa e dos Estados Unidos estavam importando madeira de áreas protegidas no Pará para a construção de decks, por exemplo.
Manzione aponta outro agravante: “quanto mais tempo leva para que se tome alguma iniciativa, mais essas atividades se consolidam. Há gerações de pessoas que vivem do corte de madeira e que só sabem fazer isso. Mesmo que se elimine a cadeia e congele recursos, vai permanecer um contingente populacional morando na região há décadas que vive disso.”
Uma forma de mitigar o problema, segundo Manzione, é abordando o aspecto financeiro. Tornar a atividade cara e rastrear o caminho dos produtos, a ponto de cessar o funcionamento da cadeia. Além disso, é preciso utilizar os dados de satélite para monitorar mudanças na floresta amazônica e identificar as principais zonas de risco. Essa segunda tática, porém, está ameaçada.
Sobrevivência de povos isolados na Amazônia depende de Estado brasileiro. Foto: Gleison Miranda/Funai
“Há um projeto de lei que foi aprovado a toque de caixa. Trata-se do PL 2564/25, que proíbe a aplicação de embargos e punições ambientais baseados exclusivamente em imagens de satélite ou ferramentas de detecção remota. Não se pode mais autuar crimes ambientais, como o desmatamento, utilizando apenas imagens de satélite; é preciso mandar alguém diretamente até essas áreas, que muitas vezes são inacessíveis”, alerta Manzione.
O projeto de lei foi aprovado pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e deve ainda passar pelo Senado. Ainda pode ser vetado, mas desperta preocupação entre as lideranças ambientalistas pelo retrocesso que pode ocasionar. Para Manzione, a decisão caminha na contramão de uma política de Estado de anos de desenvolvimento brasileiro, ofuscando o trabalho de sensoriamento remoto com base em imagens de satélite, com programas próprios, realizado por profissionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e envolvendo órgãos oficiais como o INPE, entre outros.
O risco das mudanças climáticas
Outro ponto abordado no artigo pelos pesquisadores é a questão das mudanças climáticas. A região do oeste da Amazônia tem grande importância para a geração de chuvas que, posteriormente, abastecem a agricultura e a pecuária do Centro-Sul do país. Logo, possíveis impactos em termos de avanço do desmatamento podem representar menos umidade na atmosfera e queda nas precipitações.
A atividade ilegal pode afetar, com o passar do tempo, o setor regularizado da agropecuária do país, que é responsável, na atualidade, por uma parcela significativa da renda nacional. “Se não houver a defesa da conservação da floresta, aliada às atividades de monitoramento, e se as leis ambientais não conversarem com as leis para a agropecuária, estaremos perdendo nos contextos ambiental, social e econômico”, explica Chaves.
Só assim, diz o pesquisador, pode-se construir uma via de desenvolvimento sustentável, em que a preservação ambiental anda lado a lado com a questão econômica. “Não há mais espaço para a dicotomia entre conservar e produzir. Nosso artigo chama a atenção justamente para isso, ao correlacionar o lado social dessa crise humanitária dos indígenas aos aspectos ambiental e econômico, dentro de um contexto de mudanças climáticas. Por isso, esperamos que a publicação contribua com discussões e ações que levem a sociedade a colher resultados efetivos, do ponto de vista da sustentabilidade.”
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Carolina Fioratti
A possibilidade de ocorrência de um Super El Niño no fim deste ano aumenta a preocupação com os impactos de eventos climáticos extremos sobre a agricultura brasileira. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estimam em 95% as chances de o fenômeno ocorrer de forma muito intensa no último trimestre do ano, período que coincide com o início do plantio de diversas culturas no Centro-Oeste, uma das principais regiões produtoras do país.
O cenário reforça a importância de preparar a produção para secas, excesso de chuvas e outros eventos extremos não apenas com respostas emergenciais, mas também com medidas estruturantes. Entre elas estão a restauração da vegetação nativa, o fortalecimento do seguro rural, a ampliação do acesso ao crédito e da assistência técnica.
“Temos defendido que o país precisa avançar em soluções que reduzam os riscos para a produção e deem mais segurança ao produtor diante de um clima cada vez mais instável”, afirma Rodrigo Castro, membro do Conselho Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, rede formada por mais de 400 empresas e organizações da sociedade civil. “Temos conhecimento, tecnologia e instrumentos de política pública para isso, mas é preciso fazer essas soluções chegarem ao campo de forma integrada e ganharem escala.”
Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O seguro rural é um desses instrumentos. A ampliação de sua cobertura é fundamental para reduzir a vulnerabilidade financeira dos produtores diante de perdas provocadas por eventos extremos e consequentemente quebras severas de safra como aquelas potencialmente provocadas pelo Super El Niño deste ano, contribuindo para preservar sua capacidade de produção nos ciclos seguintes.
“O Super El Niño chama a atenção para um problema que vai além de um fenômeno específico. Precisamos estar mais preparados para eventos extremos, combinando instrumentos de proteção financeira com outros que tornem a própria produção menos vulnerável. O Brasil tem capacidade técnica e científica para transformar esse desafio em avanço estruturante de forma mais permanente, e não apenas em resposta emergencial”, acrescenta Castro, que também é diretor de País da Fundação Solidaridad.
Quatro caminhos para reduzir os riscos para a produção
1. Tornar o seguro rural mais robusto
Ampliar o alcance do seguro rural contribui para reduzir os impactos financeiros de eventos extremos e de quebras severas de safra. O instrumento oferece maior proteção ao produtor e ajuda a preservar sua capacidade de continuar produzindo nos ciclos seguintes.
2. Melhorar o acesso ao crédito para adaptação
O financiamento deve facilitar investimentos em tecnologias e práticas que reduzam a exposição da produção aos riscos climáticos. Em um cenário de juros elevados, aumento dos custos de produção e endividamento de parte dos produtores, instrumentos adequados de crédito são importantes para permitir a modernização das propriedades e a adoção dessas soluções.
3. Fortalecer a assistência técnica
A ampliação dos serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) é fundamental para fazer com que conhecimento, tecnologias e políticas públicas cheguem ao produtor. O fortalecimento da assistência técnica, especialmente para pequenos e médios produtores, ajuda a ampliar a adoção de práticas mais adequadas às diferentes condições climáticas e produtivas do país e a acelerar a transição para sistemas produtivos mais resilientes.
4. Acelerar a restauração da vegetação nativa
Recuperar a vegetação nativa, em especial em áreas degradadas e conservar os remanescentes, contribui para a conservação do solo, da água e dos serviços ecossistêmicos dos quais a produção agropecuária depende. A restauração deve integrar uma estratégia de longo prazo onde a conservação dos ativos ambientais amplie a segurança produtiva da propriedade.
Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos. Foto: Juan Doblas
Sobre a Coalizão
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.
A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) lançou a primeira edição do Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia, publicação periódica produzida com o apoio técnico do Observatório Regional Amazônico (ORA). Disponível em português, espanhol e inglês, o boletim apresenta uma visão integrada das condições ambientais da região e destaca tendências que exigem acompanhamento nos próximos meses.
O boletim reúne informações sobre precipitação, temperatura, focos de calor e áreas queimadas na Amazônia. Os dados são processados e analisados regionalmente pelo ORA a partir de fontes reconhecidas, como ERA5/ECMWF-C3S, Aqua-T/NASA/INPE e MODIS/MCD64A1. A iniciativa contribui para o cumprimento dos compromissos estabelecidos nas Declarações de Belém e de Bogotá, que reconhecem a importância da produção e do intercâmbio de informações científicas para fortalecer a cooperação entre os Países Membros da OTCA.
Em sua mensagem de abertura, o secretário-geral da OTCA, Martín von Hildebrand, ressalta que o monitoramento contínuo do El Niño e a integração de dados confiáveis são fundamentais para antecipar impactos e fortalecer a preparação e a resposta coordenada dos países amazônicos.
“A Amazônia fala por meio dos dados. Nossa responsabilidade é transformá-los em ações coordenadas para construir um futuro sustentável para a região”, afirma o secretário-geral.
Chuvas permaneceram próximas da normalidade em grande parte da região
A primeira edição do boletim, publicada em agosto e referente a julho de 2026, mostra que aproximadamente 75% da área da Bacia Amazônica apresentou precipitações dentro da normalidade climatológica. Cerca de 18,8% registraram chuvas abaixo do esperado e 6,2%, acima da média.
Os menores volumes de precipitação ocorreram no sudeste da Bacia Amazônica, principalmente nas sub-bacias dos rios Juruena, Teles Pires e Xingu. Nas regiões norte e noroeste, os maiores acumulados foram observados nas sub-bacias dos rios Napo, Trombetas, Içá, Negro e Branco.
OTCA lança Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia. Foto: Reprodução/OTCA
Embora tenham predominado condições próximas da normalidade, o boletim identifica a ampliação de uma área com anomalias negativas de precipitação. Os déficits mais acentuados foram registrados nas sub-bacias de Uatumã-Nhamundá, Negro, Branco e Trombetas. A situação da sub-bacia do rio Negro merece atenção especial, pois apresentou tendência seca em fevereiro, abril e julho. A persistência desse quadro pode afetar as vazões dos rios e a umidade do solo, além de ampliar as condições favoráveis à ocorrência de incêndios florestais durante o período seco.
Em julho, a precipitação média na Bacia Amazônica foi de aproximadamente 90 milímetros, cerca de 10 milímetros abaixo da média climatológica do período.
Temperaturas acima da média avançaram sobre a Bacia Amazônica
A temperatura média observada em julho foi de aproximadamente 24,68 °C, o que representa uma anomalia positiva de 1,18 °C em relação à média histórica.
OTCA lança Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia. Foto: Divulgação/InfoEscola
Os mapas dos últimos três meses mostram que as faixas de temperatura entre 26 °C e 30 °C avançaram principalmente pelas regiões central, norte e leste da Bacia Amazônica, com aumento expressivo no eixo entre Santarém e Manaus. As temperaturas mais baixas permaneceram concentradas no oeste da região, sobretudo nas áreas de maior altitude próximas à Cordilheira dos Andes.
Focos de calor diminuíram em julho, mas cresceram no acumulado do ano
Em julho de 2026, foram registrados 2.757 focos de calor na Amazônia, redução de 38,5% em comparação com julho de 2025. Desse total, 364 ocorreram em Áreas Naturais Protegidas e 542 em Territórios Indígenas.
Apesar da redução mensal, o acumulado do ano apresentou comportamento diferente. Entre janeiro e julho de 2026, foram identificados 19.991 focos de calor, aumento de 12% em relação ao mesmo período de 2025. Desses registros, 2.524 ocorreram em Áreas Naturais Protegidas e 2.340 em Territórios Indígenas.
As formações florestais concentraram o maior número de focos no período, com 7.412 registros, equivalentes a 37% do total. Em seguida aparecem as pastagens, com 4.926 focos, e as formações campestres, com 3.102.
Área queimada aumentou entre janeiro e maio
Os dados disponíveis sobre área queimada abrangem o período de janeiro a maio de 2026. Nesses cinco meses, a Amazônia registrou 6.254 km² de área queimada, aumento de 38,8% em relação ao mesmo período de 2025.
OTCA lança Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia. Foto: Reprodução/CBM-AC
Desse total, 850 km² ocorreram em Territórios Indígenas e 720 km² em Áreas Naturais Protegidas. Somente em maio, foram queimados 888 km², volume 48,2% superior ao registrado no mesmo mês de 2025. As formações campestres concentraram a maior extensão afetada pelo fogo entre janeiro e maio, seguidas pelas pastagens, pela agricultura, pelas áreas inundáveis e pelas formações florestais.
Informação regional para apoiar decisões
O Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia foi desenvolvido para ampliar o acesso a informações sobre os oito Países Membros e apoiar a identificação de tendências, riscos e áreas que demandam atenção.
Ao reunir dados de diferentes fontes e apresentá-los em uma perspectiva regional, a publicação busca apoiar a tomada de decisão, ações de prevenção e respostas coordenadas.
*Com informações da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)
O Greenpeace Brasil identificou mais um caso de Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) “fantasma”, usada para lavar ouro extraído ilegalmente na Amazônia. Trata-se da PLG 851561/2011, da Cooperativa dos Garimpeiros da Amazônia (COOGAM), no Alto Tapajós, em Jacareacanga, no Pará.
A Permissão de Lavra Garimpeira declarou a retirada de 4,5 kg de ouro, comprados pela F.D’Gold Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda, o que movimentou R$ 2,81 milhões em negociações em junho de 2026. A investigação do Greenpeace Brasil, porém, revela que não houve atividade garimpeira na área permitida.
Por meio da análise de imagens de satélite e radar, bem como sobrevoo de validação realizado em 27 de julho, o Greenpeace Brasil constatou que nenhuma das 5 dragas licenciadas para a extração de ouro esteve dentro dos limites estabelecidos para a atividade. Porém, ao contrário do que fora licenciado, a organização identificou que as dragas licenciadas estavam minerando fora dos limites autorizados pela Agência Nacional de Mineração e licenciado pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS/PA).
Terra Indígena Munduruku – 27.06.2026 – Dragas de garimpo ilegal são vistas no rio Tapajós dentro da Terra indígena Munduruku. Foto: Bruno Kelly/GreenPeace
Durante o sobrevoo, também foi possível identificar a formação dos chamados “arrotos de draga” ao longo do curso do rio Tapajós, bancos de areia formados pelo acúmulo de sedimentos e rejeitos da operação das dragas de rio. Em geral, eles alteram o curso natural do rio e dificultam a navegação. É nesses bancos de areia que se concentra o mercúrio usado no processo de amalgamação do ouro.
“Em junho, o Greenpeace Brasil publicou um relatório com uma investigação que identificou 98 PLGs com graves irregularidades. Agora, já são 99. É urgente que a Agência Nacional de Mineração identifique e cancele imediatamente essas PLGs Fantasmas. Quantas mais precisaremos identificar?”, afirma o coordenador da Frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, Danicley Aguiar.
Sobreposição à Terra Indígena Munduruku
À esquerda, a Ilha do Cururu, na Terra Indígena Munduruku (PA). À direita, a localização da Permissão de Lavra Garimpeira 851561/2011, em imagem extraída do D.A.R.T., ferramenta de anotação e reconhecimento de dragas. Fonte: Greenpeace Brasil
Além da Permissão de Lavra Garimpeira 851561/2011, a COOGAM conseguiu as licenças para outras duas PLGs nos limites da Terra Indígena Munduruku. O conjunto gera impactos sobre a dinâmica social e política do povo Munduruku, especialmente nas quase trinta aldeias que estão próximas dessas permissões. Indígenas relatam poluição sonora, aliciamento de aldeias e comprometimento do abastecimento público de água, relatos que foram ignorados no processo de licenciamento da atividade.
Há ainda um problema de origem no próprio ato de outorga. A Ilha do Cururu, sobreposta pelo polígono da Permissão de Lavra Garimpeira, é descrita como parte integrante da Terra Indígena Munduruku, conforme prevê o Decreto de 25 de fevereiro de 2004. Por isso, o Greenpeace Brasil sustenta que a outorga viola o parágrafo 7º do artigo 231 da Constituição Federal.
“O caso reitera a necessidade de a Agência Nacional de Mineração instituir uma força-tarefa capaz de identificar e cancelar de imediato as PLGs fantasmas que seguem servindo para inserir no mercado formal o ouro roubado de Terras Indígenas e Unidades de Conservação da Amazônia”, alerta Aguiar.
Metodologia
A análise integrou dados das licenças de operação emitidas pela SEMAS/PA, o histórico de arrecadação da CFEM, a estimativa do valor total das operações comerciais e o histórico de eventos processuais da ANM. A esses dados somaram-se o enquadramento socioambiental das poligonais de lavra garimpeira e os alertas de presença de dragas gerados pelo Papa Alpha, sistema de monitoramento remoto do Greenpeace Brasil.
Na esteira do relatório sobre lavagem de ouro
Esta nova denúncia nasce da investigação apresentada no relatório “Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude”, divulgado pelo Greenpeace Brasil em 1º de junho de 2026. O documento mostrou como a Permissão de Lavra Garimpeira, instrumento que atesta a procedência do ouro, vem sendo usada para dar aparência legal ao metal extraído de áreas protegidas, aproveitando falhas na fiscalização da ANM e a dispensa de pesquisa mineral prévia.
O relatório analisou 187 processos minerários registrados entre 2018 e março de 2026 e identificou 98 PLGs com irregularidades, responsáveis pela comercialização declarada de 25,3 toneladas de ouro no período, o equivalente a cerca de R$ 18,4 bilhões em valores atualizados do ouro 24k na primeira quinzena de maio de 2026.
Terra Indídena Munduruku – 27.06.2026 – Dragas de garimpo ilegal são vistas no rio Tapajós na Terra Indígena Munduruku. Foto: Bruno Kelly/GreenPeace.
A pesquisa descreve duas táticas principais de fraude: nos garimpos fantasmas, a área declara toneladas de produção, enquanto imagens de satélite e sobrevoos mostram floresta intacta ou atividade mínima, incompatível com o volume informado. Nos garimpos em escala industrial, várias PLGs concedidas no mesmo recorte territorial são exploradas como uma única operação, o que permite escapar do licenciamento ambiental mais rigoroso e das regras da mineração industrial.
Entre as recomendações do relatório estão a exigência de pesquisa mineral prévia antes da concessão de PLGs, com base no artigo 6º da Lei 7.805/89, e a identificação e o cancelamento imediato das PLGs que recolheram CFEM sem apresentar evidências claras de exploração. O Greenpeace Brasil também cobra transparência total sobre a Permissão de Lavra Garimpeira e uma fiscalização mais robusta da ANM.
Proprietários e empreendedores serão responsáveis pela conservação temporária das áreas com geoglifos. Eles deverão contratar estudos arqueológicos especializados quando exigido no licenciamento ambiental. Foto: Diego Gurgel
O Conselho Estadual de Meio Ambiente e Florestas (Cemaf) aprovou novas regras para proteger sítios arqueológicos no Acre, incluindo os geoglifos. A resolução exige anuência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para o licenciamento ambiental de empreendimentos nessas áreas e restringe atividades como abertura de ramais, desmatamento e construção de imóveis.
Publicada no dia 20 de agosto no Diário Oficial do Estado (DOE), a norma define responsabilidades para proprietários, empreendedores e órgãos públicos envolvidos em projetos que possam afetar patrimônios arqueológicos.
A principal mudança é que empreendedores deverão apresentar, durante o processo de licenciamento ambiental, manifestação do Iphan sobre a existência de bens arqueológicos ou de interesse cultural na área que será impactada pelo empreendimento.
O que são os geoglifos?
Os geoglifos são estruturas geométricas escavadas na terra, em diversos formatos que podem ser datados em até três mil anos. O Acre é pioneiro e referência quando o assunto é geoglifos. Em março de 2024, o primeiro geoglifo tombado no estado teve o reconhecimento homologado pelo Ministério da Cultura. Ao todo, o Acre tem registrado mais de mil geoglifos, sendo o estado com o maior número.
A resolução também determina que, caso sejam identificados vestígios arqueológicos ainda não cadastrados, o Iphan, a Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM) e o empreendedor deverão ser comunicados para adoção das medidas necessárias de proteção e acompanhamento.
Atividades proibidas
A resolução estabelece restrições para áreas onde existam sítios arqueológicos, proibindo atividades que possam causar danos às estruturas ou alterações no terreno. Entre elas estão
Abertura de ramais ou estradas;
Gradeamento mecânico ou com animais;
Plantio de culturas agrícolas ou florestais;
Utilização de defensivos agrícolas e produtos químicos para correção do solo;
Desmatamento;
Instalação de redes elétricas;
Construção de residências e estruturas de apoio à produção rural;
Construção de açudes e barragens;
Exploração de jazidas minerais;
Atividades que provoquem movimentação ou remoção de terra;
Instalação de equipamentos de esporte e lazer;
Instalação de cercas ou estruturas permanentes que possam danificar o sítio;
Exploração turística sem preparação prévia e pesquisas científicas.
Também fica proibido utilizar as escavações arqueológicas como bebedouros ou banheiras para animais, além do trânsito de manadas sobre essas áreas durante a troca de pastagem.
A norma orienta que a atividade pecuária seja evitada em áreas com sítios arqueológicos, mas admite sua permanência desde que sejam observadas as condições previstas na resolução.
Proprietários ou ocupantes de áreas notificadas pelo Iphan passam a ser responsáveis pela conservação provisória dos sítios arqueológicos.
Já os empreendedores deverão contratar estudos arqueológicos especializados sempre que houver exigência durante o licenciamento ambiental. A regra também se aplica a atividades desenvolvidas por beneficiários de projetos de reforma agrária.
Com a constatação de prejuízos causados aos sítios arqueológicos no Acre, o Ministério Público Federal (MPF) fez um acordo com o Iphan para reparar os danos que acabaram alterando as estruturas originais dos monumentos em março desse ano.
Conforme à medida, as intervenções ocorreram nos geoglifos Missões e Nakahara 73, em Senador Guiomard, interior do Acre, onde os proprietários das terras fizeram a preparação do solo para iniciar uma plantação de soja no local.
Em outubro de 2025, a Justiça Federal suspendeu a resolução nº 2/2022 do Cemaf e a portaria 211/2024 do Imac que dispensavam o licenciamento ambiental para atividades agropecuárias em áreas rurais consolidadas.
À época, o Imac e a Sema informaram ao Grupo Rede Amazônica que iriam cumprir com a decisão judicial. A decisão foi emitida após o MPF, apontar risco de danos irreversíveis aos patrimônios históricos, como as áreas de geoglifos e terras indígenas (TI).
‘Encantarias da floresta: A devoção à Santa Raimunda’ é um dos legados presentes da cultura seringueira. Foto: Divulgação/Prefeitura de Assis Brasil
Marcos Fernando, conhecido como Marcos Poeta, cineasta, jornalista e radialista, nasceu na região entre Brasiléia e Epitaciolândia, municípios do estado do Acre. Sua família foi contemporânea do ativista ambiental brasileiro Chico Mendes e morou na Reserva Extrativista (Resex), que leva o nome do líder seringueiro assassinado em 22 de dezembro de 1988.
Territórios protegidos por lei e cedidos a populações tradicionais, as Resex unem comunidade e preservação, ao longo de mais de 90 territórios por todo o Brasil. A coleta de frutos da mata, borracha, óleos, sementes e derivados é a característica que move essas áreas de conservação, destinadas a proteger os meios de vida, a cultura das populações tradicionais das florestas e as próprias comunidades que vivem nelas, como os seringueiros.
Poeta é cineasta e sua família, vinda do nordeste, o criou desde os seis anos nesse território de fronteira, ouvindo os “canto da macucaua, do gogó-de-sol, da aracuã pássaros nativos da reserva onde cresceu, cujo tamanho ultrapassa o milhão de hectares de floresta amazônica.
“Essa questão da Resex [um possível apagamento da cultura seringueira] me preocupa profundamente, porque ela é um patrimônio nosso que, além do valor simbólico, tem um valor estratégico na luta pela preservação da Amazônia e pela dignidade dos povos da floresta”, afirma.
A urgência de preservação das reservas tem preocupado comunidades como a de Marcos, que veem uma ameaça crescente de eliminação dos saberes da cultura seringueira da região, nascida da junção da cosmovisão indígena e de migrantes nordestinos que foram ao Acre em busca de novas oportunidades durante os ciclos da borracha, no final do século XIX.
O seringueiro acordava cedo, se embrenhava pelos varadouros —estradas no meio da mata que os ligavam às seringueiras. Usava a poronga na cabeça, iluminando o caminho, assim como uma cabrita — espécie de faca de risca — para cortar a árvore do látex. Ele voltava para sua casa, no meio do seringal, e de tarde, coletava o que havia saído do corte feito mais cedo para, então, fazer a defumação e produzir a borracha.
Para além disso, os seringueiros têm uma linguagem própria, muito por conta do isolamento geográfico dos seringais para com outros territórios do Estado. Vocábulos colocação, aviamento, macheteiro nascem nessas vivências. O boné na cabeça, as calças e camisas surradas também compõem a vestimenta dessas pessoas. A prática extrativista também influenciou a criação de uma religiosidade típica, que une a cultura popular nordestina e a celebração dos seres encantados da floresta, como o Mapinguari, a Matinta Pereira e o Curupira.
A Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada no Acre, foi considerada a área protegida mais ameaçada e pressionada pelo desmatamento na Amazônia no segundo semestre de 2025, segundo dados do relatório de Ameaça e Pressão em Áreas Protegidas. Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes
“Os encantos foram uma companhia com que eu cresci junto. Eu enxergo como uma forma de respeito, porque eu acredito e respeito muito toda essa cultura. Onde não tem floresta, não tem encanto. Eu enxergo como algo sobrenatural, que é real e que está ali para proteger a floresta, como o próprio espírito da mata”, conta Laiane Santos, técnica agrícola, moradora da comunidade São Raimundo Nonato, km 59, em Brasiléia, no sul do Acre.
A mistura de referências criou, ao longo das décadas, uma religiosidade tradicional típica do seringal, que além de uma ter uma dimensão cultural, também influenciou a capacidade de organização política e sindicalista destes territórios, outra característica ligada ao universo seringueiro. Entretanto, após realizar uma pesquisa dentro da Resex para um filme que está produzindo, Poeta, que já produziu um documentário sobre a liderança seringueira Wilson Pinheiro, se deparou com uma transformação que lhe saltou os olhos.
“Eu me deparei com uma igreja, um templo protestante em frente à sede da associação [de moradores]. De forma imponente, construída em um prédio em alvenaria. Tomei um susto. Não que a presença de uma igreja em si seja um problema, mas tomei um susto pelo o que representa essa presença”.
A (falta de) memória dos seringais
O fato notado através das imagens de Marcos Poeta expressa uma tensão histórica de apagamento das práticas culturais dos seringueiros e de outras comunidades presentes nas reservas. Ao longo dos anos, especialmente após a morte de Chico Mendes, a agropecuária e a igreja da Teologia da Prosperidade adentraram com mais força espaços como a Reserva Extrativista. Poeta correlaciona este período com o enfraquecimento político da militância no território, além da crescente presença do agronegócio dentro dessas regiões.
A mudança de cenário nas últimas décadas impacta, diretamente, a geração mais jovem, que já não conviveu com a cultura seringueira da forma como se conhecia antes. Para Rachel Dourado, turismóloga, pesquisadora e doutora em Geografia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), a oralidade é essencial neste processo, já que ela afirma que algumas práticas tradicionais deixaram de ser transmitidas às novas gerações e esta ausência da contação de histórias impacta a memória e o vínculo dos povos da floresta.
“Sim, há um processo de sobreposição cultural que acaba tentando apagar essas memórias, mas elas continuam resistindo”, comenta. Os mais velhos do território comentam sobre a dificuldade de transmitir a história e a memória seringueira às novas gerações.
Quem fala mais é Osmarino Rodrigues, seringueiro desde jovem e liderança comunitária, e um dos fundadores do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Brasiléia (STTR), berço da militância sindical acreana. Segundo ele, a predominância de apenas uma religião no território afetou a multiplicidade e transmissão de saberes seringueiros.
Laiane Santos é técnica agrícola, neta de seringueiro, e acredito no papel da juventude para preservação dos saberes tradicionais. Foto: Arquivo NonadaOsmarino Rodrigues é seringueiro desde a juventude e defende a pluralidade das culturas no território. Foto: Camila Araujo/Brasil de Fato
Laiane Santos lembra que seu avô era um dos poucos que contava essas histórias da mata, não deixando seus tios caçarem todos os dias, por exemplo, caso ainda tivessem carne em casa, em respeito à floresta, mesmo ouvindo que isso fosse considerado “coisa do diabo” na época. “Hoje poucos jovens têm acesso a essas histórias. A gente tem um problema muito grande, que é a perda da nossa identidade, porque os mais velhos não contavam esses causos”, relembra a técnica agrícola.
Rodrigues reclama como o crescimento da religiosidade interfere na transmissão de saberes seringueiros e “desarma” as comunidades extrativistas contra fenômenos de apagamento. Para ele, existe uma “tribulação” acontecendo na Resex Chico Mendes, sendo essa um exemplo de como a memória e a história seringueira vêm se perdendo.
Encantarias, rogai por nós
“A Santa Raimunda é uma mulher linda”, descreve Rachel Dourado. Santa Raimunda, assim como outros encantados das matas são cultuados e guiam as comunidades dentro das Resexs. Segundo Marcos Poeta, as encantarias da floresta são expressões de conhecimento que, diante da destruição da floresta, também são ameaçadas. Como evocar uma entidade da mata, sem a mata? Toda essa construção histórica, um patrimônio civilizatório do território, se perde com o apagamento cultural dos saberes seringueiros e com a própria destruição das reservas
“As histórias da floresta são histórias principalmente de sobrevivência e de esperança. A floresta tem mistérios e encantarias que são bem maiores do que a nossa ignorância e a nossa pretensão humana”, ressalta Poeta.
Osmarino deixa claro que essas histórias ajudaram os seringueiros a criarem sua própria cultura e, por conseguinte, sobreviverem na rotina tão próxima da mata, dos rios, da floresta como um todo. Do lobisomem ao boto, da caipora ao caboclo da mata, todas essas narrativas estão presentes no cerne da vida seringueira. Este estilo de vida foi tema de pesquisa de Rachel Dourado. Em uma de suas andanças pelo seringal Bom Sucesso, no município de Assis Brasil, no Acre, ela encontrou aquela que seria tema de seu livro Espaço de peregrinação: devoção nas estradas da seringa, lançado neste ano.
“Quando conheci a Santa Raimunda, que é a alma do Bom Sucesso, fiquei intrigada porque vi alguns elementos que já tinha percebido lá em São João do Guarani, e como esses elementos faziam parte daquela relação de ser moradora da floresta e precisar disso para criar os vínculos comunitários”, relembra.
A procissão em homenagem à Santa Raimunda acontece anualmente por dentro da mata, reafirmando a relação entre a cultura e a preservação do meio ambiente. Foto: Divulgação/Prefeitura de Assis Brasil
A figura de São João do Guarani é cultuada em uma festa tradicional realizada anualmente no município de Xapuri, também no Acre, onde se celebra um santo não oficial da Igreja Católica, considerado pelos seringueiros e moradores locais como uma “alma milagrosa” e um protetor da floresta.
Para a pesquisadora, essa fé na floresta cria vínculos comunitários que perpassam o tempo e o espaço. Guiando pensamentos e comportamentos de solidariedade intrínsecos à vivência na Amazônia, algo que Poeta descreve como: “São povos que se preocupam com os outros, pessoas que querem dar o seu melhor. Porque a gente compreende que você não sobrevive, você não melhora a qualidade de vida, se melhorar só para você. Se for bom só para mim, é ruim para todo mundo. Tem que ser bom para a humanidade”
Mas afinal, quem foi a Santa Raimunda? Provavelmente de etnia Manchineri, povo indígena de língua Aruaqui que vive na região da tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru, conta-se que ela viveu no Alto Iaco no início do século XX durante o primeiro ciclo da borracha, período marcado pela exploração sob regime de semiescravidão.
Atuava como parteira e também na extração do látex — trabalho invisibilizado pelos patrões, que registravam e reconheciam apenas os homens. Grávida de nove meses e responsável por recolher o leite das seringueiras, Raimunda foi agredida pelo marido. Em seguida, durante a ronda de coleta, entrou em trabalho de parto na mata, mas não resistiu e faleceu encostada a uma árvore.
Ao ser encontrada já sem vida, a impossibilidade física de mover seu corpo foi interpretada como um sinal da tradição indígena de pertencimento à terra, o que levou ao seu sepultamento no próprio local. Décadas depois, tornaram-se comuns os relatos sobre um perfume misterioso na área, criando a crença de uma permanência de sua alma na memória popular. Dourado relata que:
“As mulheres dos seringais olham na Raimunda a presença de uma mulher que, mesmo oprimida pelo capitalismo e mesmo oprimida pelo machismo, se reconstrói morta”.
Em 15 de agosto, acontece a procissão que celebra a Santa Raimunda na Reserva Extrativista Chico Mendes. Foto: Rachel Dourado/Arquivo PessoalA pesquisadora Rachel Dourado se dedica a transmitir e investigar os saberes seringueiros.. Foto: Rachel Dourado/Arquivo PessoalA procissão reúne milhares de fiéis. Foto: Rachel Dourado/Arquivo Pessoal
Uma prosperidade que esvazia
Osmarino Rodrigues conta que, após a morte de Chico Mendes, uma outra cultura ganhou forma nesses seringais, tomando de assalto as crenças e a cultura que residia lá. Para a liderança comunitária, este apagamento ameaça a perpetuação de saberes e figuras do território, como a Santa Raimunda e diversos outros que ele afirma perceber que não são mais tão presentes no cotidiano da juventude, por exemplo: “É uma situação complicada hoje a que nós estamos vivendo. Muita gente está falando de fé, mas é uma fé esperando Deus resolver essa opressão. E isso não vai ser resolvido por Deus. Tem que ser resolvido por nós”, diz.
O seringueiro fala da persistência de continuar acreditando que um projeto de reforma agrária para a Floresta Amazônica, como o das Reservas Extrativistas, uma gestão territorial baseada no uso sustentável e coletivo dos recursos naturais. Este “varadouro” passa pela juventude que, segundo ele, precisa se apropriar dessa cultura para não entregar “o nosso potencial, que é essa grande floresta, para o grande capital.”
“Hoje nós estamos vendo uma juventude se levantando, mas também estamos vendo o tráfico se apropriando de uma grande leva de jovens. Precisamos ter atitude, ação para fazer esse enfrentamento”, diz.
Institucionalizadas oficialmente pelo governo federal na década de 1990 e consolidadas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as Resex desempenham um duplo papel estratégico: garantem a permanência e a dignidade das comunidades na floresta e barram o avanço da grilagem e do desmatamento ilegal. Segundo Osmarino, o afastamento dos mais novos e o esvaziamento dos saberes está ligado a uma presença hegemônica de templos religiosos ligados ao agronegócio.
Nessa disputa, entram duas teorias religiosas, a Teologia da Libertação e a Teologia da Prosperidade. Duas visões teológicas e ideológicas antagônicas que disputam a relação do homem com a natureza na Amazônia. De um lado, a ética associada ao espírito do capitalismo baseia-se na individualidade, no interesse pessoal e em uma perspectiva economicista. Em contraposição, a Teologia da Libertação orienta-se pelo serviço social, pela coletividade e pelo pertencimento mútuo entre o ser humano e o meio ambiente. Historicamente ligada às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica, essa corrente comunitária desempenhou papel decisivo na formação e no fortalecimento do movimento seringueiro.
Embora o líder ambientalista Chico Mendes tenha recebido contribuição fundamental do educador Euclides Távora, foi no amparo da Teologia da Libertação que ele expandiu sua visão de mundo e encontrou sustentação política quando rejeitado por outras instituições.
O que se revela no respeito que este povo tem com a floresta e com sua comunidade, o que é permeado por toda uma devoção popular. As mudanças trazidas pela juventude, como o ingresso nas universidades, não deveria significar uma desconexão com a cultura do território.
“Preservar a cultura e preservar a floresta estão associadas. Quando a gente escuta uma história de um encantado, que se você derrubar a árvore ele vai te bater, é uma forma que a gente tem de regular o convívio”, explica Dourado.
A historiadora relembra uma história contada a ela, ilustrando esta afirmação. Em meio a pesquisa que deu origem ao seu livro, ela estava na fronteira do Acre e Peru, na cidade de Inãpari, uma senhora relatou ter recorrido à oração para Santa Raimunda, do Acre, após ser diagnosticada com câncer de colo de útero. As encantarias estão presentes na cultura amazônida e seringueira, mesmo depois de tantas transformações históricas e sociais.
A organização política e cultural do seringueiros é histórica e atravessa gerações. Foto: Arquivo Comitê Chico Mendes
O passado da cultura seringueira
A inventividade dos seringueiros era também uma forma de resistência. Olhando para trás, é possível entender de onde vem a formação dessa cultura, muito associada aos movimentos políticos encabeçados pelos trabalhadores.
Na década de 1870, após uma seca severa no Nordeste, milhares de homens abandonaram suas famílias em prol de um sonho: enriquecer com a extração do látex da borracha, nos seringais do Acre. Este foi o primeiro ciclo da borracha registrado. Até que, em 1899, a Primeira República do Acre foi proclamada pelo jornalista espanhol Luis Gálvez Rodríguez de Arias, o Gálvez, que virou até série escrita pela novelista, vencedora do Emmy e acreana, Glória Perez.
Este período foi marcado pelo conflito de interesses entre a burguesia de Manaus, que desejava capturar a arrecadação de impostos sobre a exportação do látex e os seringueiros, que eram cada vez mais subjugados. Em 1900, o número de migrantes para a Amazônia chegou a ser de 15.773, segundo a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).
Neste imbróglio, os seringueiros se juntaram em uma força armamentista que, como está nos livros de história, enfrentou reviravoltas e vai-e-vens entre Brasil e Bolívia. Com o conhecimento dos rios e varadouros e recrutados por Plácido de Castro, eles surpreenderam as guarnições bolivianas e venceram a guerra, conseguindo consolidar a independência acreana em 6 de agosto de 1902, até sua consolidação enquanto território brasileiro em 15 de junho de 1962. Contudo, os seringueiros, usados como massa de manobra durante esta guerra não tiveram o mesmo “feliz para sempre” que os livros gostam de dar para esta história.
Enquanto os patrões seringalistas, responsáveis pelo regime de semiescravidão que lideraram o movimento, foram patenteados e contemplados com indenizações e pensões do governo federal, os seringueiros da base foram desmobilizados sem receber títulos de propriedade ou reparações financeiras. Essa massa de trabalhadores permaneceu submetida ao regime de endividamento dos barracões, mantendo a estrutura de exploração no Acre Federal. Uma repressão que ficou ainda mais evidenciada pelo assassinato de Plácido de Castro em um seringal, o Benfica, em 11 de agosto de 1908.
Os seringueiros criaram uma cultura de paz Empates, cordões humanos formados por homens, mulheres e criança, pensados para proteger as árvores da motosserra e para reivindicar um diálogo com a comunidade. Foto: Foto: Arquivo Comitê Chico MendesA devoção à Santa Raimunda transborda as fronteiras do Acre, sendo cultivada também em países como o Peru e a Bolívia. Foto: Rachel Dourado/Arquivo Pessoal
“Eu era muito jovem na época, mas lembro perfeitamente que a gente já sabia o que queria: uma luta acirrada pela defesa do território, resolver o conflito fundiário, a grilagem de terra e os enfrentamentos. Nesses conflitos, a gente viu muitos seringueiros, muitas seringueiras, mulheres e homens fazendo as suas orações baseadas no movimento”, relembra Osmarino Rodrigues.
O Pai Nosso do Seringueiro, que troca os versos da oração cristã para a realidade dos seringueiros e sua relação com a seringueira, é um exemplo dessa atualização e subversão de práticas impostas.
Com o alto índice de analfabetismo dos seringueiros, a oração e os cantos, como o Hino do Seringueiro, valorizavam e incluíam estes trabalhadores, por meio da cultura. A organização e o senso de comunidade influenciou uma organização política, como o 1º Encontro Nacional Encontro dos Seringueiros, em Brasília, em 1985, que fez nascer a Aliança dos Povos da Floresta, uma união histórica de mais de 100 representantes de trabalhadores extrativistas (seringueiros, castanheiros e pescadores) e indígenas dos estados do Acre, Rondônia, Amazonas, Pará e Amapá, liderados por Chico Mendes. Cultura, política e o meio ambiente sempre estiveram unidos na história e memória da movimentação seringueira.
A resistência dos seringueiros também se dava na criação de modos pacíficos de enfrentamento. Entre as décadas de 70 e 80, os conflitos de terra nestas regiões aumentaram consideravelmente, levando à criação dos Empates, cordões humanos formados por homens, mulheres e criança, feitos para proteger as árvores da motosserra e para reivindicar um diálogo com a comunidade.
Para Osmarino, as práticas culturais dos dos seringueiros e o senso de coletividade sempre foram essenciais para que a luta continuasse. Entretanto, a fé, sem mobilização social não era nada, para ele, o que é uma preocupação atual, já que acredita que hoje se pregue uma religiosidade desconectada das questões sociais. “Se nós não tivéssemos adquirido uma certa consciência de classe, só a fé não teria resolvido esse problema”, declara.
O coletivo Coletivo Varadouro, organização fundada em 2023, forma uma nova geração de ambientalistas no estado. Foto: Glauber Maia
Pertencer para proteger
Em um cenário de degradação socioambiental e cultural, Marcos Poeta aponta que a substituição da perspectiva comunitária por uma política de “terra arrasada” coloca em risco a sustentabilidade da região e a própria sobrevivência das comunidades tradicionais. “As coisas na história não acontecem por acaso, elas são construídas historicamente”, completa.
A preocupação de lideranças e organizações tem sido, justamente, essa: não permitir que se esqueça a história de resistência da região. Neste sentido, organizações semelhantes à Aliança dos Povos da Floresta persistem na proteção de linguagens e memórias, evitando que a cultura exploratória destrua e consuma o que já existe nestes espaços.
“Para mim, o fato de os saberes não serem transmitidos impacta diretamente na vida da juventude, porque a gente perde a identidade. Na verdade, não é só a história, é uma perda de identidade. Aquilo que não é contado é esquecido; o que é esquecido é morto. Acaba que a juventude, por não ter uma cultura própria, vai se apropriando e se perdendo nas culturas do agro, do sertanejo”, reflete Laiane Santos sobre essa resistência em permanecer lutando pela manutenção de saberes seringueiros. Além da questão da memória, tornou-se comum a saída da juventude do território e o seu não-retorno.
Em 2026, o Comitê Chico Mendes organiza o Festival Jovens do Futuro, que neste ano busca falar justamente sobre o pertencimento enquanto ferramenta de defesa. Já o Coletivo Varadouro, organização fundada em 2023 por jovens extrativistas, dedicado à mobilização social por meio de oficinas nas reservas extrativistas, ganhou espaço internacional em conferências climáticas como a de Bonn e a COP30, em Belém, levando essas pautas para os espaços de tomada de decisão.
A manutenção dos saberes seringueiros é fundamental, segundo os entrevistados, para armar as populações que pertencem aos territórios de reserva contra as ameaças que, com o passar do tempo, se atualizam, mas sempre permanecem.“A [Santa] Raimunda faz essa ponte, e ela e todos os santos populares que estão dentro da Resex Chico Mendes fazem essa conexão com o que foi o passado, com a luta para permanecer, com a conquista do território e com a necessidade de vínculos comunitários para continuar existindo ali”, complementa Rachel Dourado.
A santa é conhecida por seus milagres. Foto: Divulgação/Prefeitura de Assis Brasil
Atualmente, o território enfrenta uma série de tensões. Em 2021, 89,5 km² (8.958 hectares) foram desmatados na Resex Chico Mendes, o que simbolizou uma onda crescente de destruição ambiental na década de 2020, processo acelerado pelo descaso institucional com o monitoramento e pela pressão partidária sobre a terra, resultando em, por exemplo, mais de mil focos de incêndio na área de 970.570 hectares, que abrange sete municípios no Acre.
Rachel Dourado destaca que a manutenção da mata em pé exige o acesso contínuo a direitos fundamentais, como saúde, educação e segurança alimentar, fortalecendo a identidade de quem transita entre o campo e a cidade. “A gente tem esses guardiões da floresta que sempre estiveram lá, e acho que isso é muito importante para a gente se fortalecer enquanto comunidade, voltar a se sentir pertencente a esse lugar”, afirma.
Projetos que conectam os jovens à recepção de visitantes urbanos e ao turismo comunitário, como a empresa Destino Acre e o trabalho de ecoturismo feito na casa do seu Raimundão Mendes atraem gente de todo o mundo, têm se mostrado caminhos promissores de geração de renda.
“Um intercâmbio para a gente poder levar algumas pessoas da reserva para fazer uma determinada ação nas escolas dos municípios, nas faculdades, nos bairros, e trazer estudantes e jovens sindicalistas para dentro da reserva, para dentro do movimento camponês”, pensa Rodrigues sobre possíveis caminhos para conexão entre gerações.
Para o seringueiro Marcos Poeta, a resposta para preservação do território está justamente no fortalecimento do sentimento de pertencimento dentro destas famílias que ainda moram neste território. Ele diz que “se você pertence a algo, você não quer destruir”. A solidariedade e o saberes da oralidade fazem parte do cerne das comunidades que estão e pertencem à Amazônia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Victor Manoel