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Terra indígena do povo Apiaká, de Mato Grosso, tem plano de gestão territorial validado

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Lideranças Apiaká e parceiros durante a validação do Plano de Gestão – Foto: Marina Arruda/OPAN

O povo indígena Apiaká do Pontal e Isolados, do Mato Grosso, deu um passo concreto em prol do seu reconhecimento. Isso porque o grupo recebeu a validação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena (TI) Apiaká do Pontal e Isolados. A entrega do documento foi feita por representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), além de lideranças indígenas do território Apiaká.

“Um marco histórico para nós, Apiaká, porque é um projeto que foi pensado por nós e estamos concluindo agora, validando todas as propostas que foram colocadas”, comentou Robertinho Morimã, cacique da aldeia Matrinxã, que faz parte da região tradicional. A TI Apiaká do Pontal e Isolados foi reconhecida pelo Estado brasileiro em setembro de 2024, mas a demarcação ainda não foi realizada. A conclusão do PGTA é um marco histórico e pode contribuir para a garantia de direitos e o avanço de pautas importantes, como a própria regularização fundiária do território tradicional do povo.

Leia também: Terra Indígena Apiaká do Pontal, em Mato Grosso, avança na construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental

Encontro na aldeia Pontal para validação do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados – Foto: Marina Arruda-OPAN

“Os Apiaká já tem praticamente 300 anos de contato e essa é a primeira terra indígena exclusivamente Apiaká, então esse PGTA tem uma importância muito grande”, contextualiza  Rinaldo Arruda, antropólogo e indigenista responsável pela facilitação do processo de elaboração do PGTA. 

Validação

Composto por pactuações, acordos internos e instrumentos de gestão (etnomapeamento e etnozoneamento), o PGTA é um documento elaborado pelo povo que pensa a gestão do território em aspectos sociais e ambientais. É um instrumento de luta política e autonomia que reúne as principais diretrizes no que diz respeito à história, organização social e política, cultura, educação, saúde, geração de renda, vigilância, monitoramento e soberania alimentar.

A construção do PGTA se deu a partir de um ciclo de oficinas, iniciado no fim de 2024, para tratar das questões levantadas pelos Apiaká relacionadas aos seguintes eixos temáticos: “Território e Ambiente”; “Organização Social e Governança”; “Economia; Saúde e Segurança Alimentar”; e “Educação e Cultura”. Puxados pelas principais lideranças, os encontros foram realizados em diferentes aldeias para que o debate se estabelecesse em todo o território e até entre os vizinhos, no caso os ribeirinhos da comunidade da Barra de São Manoel e os Munduruku, que estiveram presentes em todas as etapas e assinaram um termo de uso em consenso junto aos Apiaká. 

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“O objetivo de convidar os vizinhos é para que, ao estabelecer as regras de convivência e de vida dentro do território Apiaká, os vizinhos também participassem da elaboração e as incorporassem. Em vez de estabelecer regras proibitivas, trabalharam no sentido de estabelecer um diálogo construtivo, positivo, foi quase uma construção conjunta. Essa capacidade de diálogo propositivo é um aprendizado que vou levar comigo”, comenta Rinaldo, que também foi o responsável por organizar o texto do documento a partir das discussões coletivas.

Povo indígena Apiaká
O PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados foi elaborado e validado pelos Apiaká – Foto Marina Arruda-OPAN

Agora, após a validação pelos Apiaká, o documento será impresso e publicado ainda este ano. Mas o trabalho não se encerra na publicação, afinal o PGTA é documento vivo, um plano de vida coletivo que serve como bússola para o presente e mapa para um futuro sustentável do território, portanto muitas ações já estão sendo implementadas e outras ainda serão. 

“Não é simplesmente concluir o PGTA, mas dar continuidade ao que está previsto no papel. Temos que montar pontos de vigilância, dar condições para que nossos vigilantes façam esse monitoramento e outras atividades que protegem o território. Temos o desafio e o compromisso de manter o PGTA sempre ativo”, ressalta Raimundo Paigo, liderança Apiaká da aldeia Pontal. 

Projeto Berço das Águas

A elaboração do PGTA da TI Apiaká do Pontal e Isolados é um dos eixos estruturantes do projeto Berço das Águas, realizado pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) junto aos povos Rikbaktsa e Apiaká, com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Aliás, durante a validação do PGTA, também esteve presente Marcos Costa Monteiro, profissional de comunicação da Petrobras que acompanha a realização de projetos socioambientais apoiados pela estatal.

Esta é a quarta edição do projeto, que tem apoiado, desde 2011, a gestão territorial de povos na bacia do rio Juruena. Além da continuidade das ações em curso, estão previstas atividades de monitoramento e proteção dos territórios, manejo sustentável de recursos naturais, fortalecimento das organizações indígenas e das cadeias de valor da sociobiodiversidade.

Produtor do Amapá transforma caroço de açaí em carvão

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Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Um carvão produzido a partir do caroço de açaí está sendo fabricado no Amapá com base no reaproveitamento do resíduo do fruto, comum na região. A proposta é transformar o material descartado em combustível e reduzir a emissão de fumaça em relação ao carvão tradicional.

A ideia surgiu após o empreendedor Edson Marques presenciar um incêndio em um monte de caroços descartados irregularmente e percebeu que o material demorava a queimar.

“Essa demora na queima chamou a atenção porque choveu e, mesmo assim, o fogo não apagou. Então a gente colocou o carvão de açaí em uma máquina e deu firmeza no material”, afirmou.

Leia também: Pesquisadores no Amazonas transformam caroço de tucumã em chocolate que não derrete

Carvão biosustentável é feito com resíduos de açaí. Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Do caroço ao carvão

Com isso, Edson resolveu utilizar o material para a produção de carvão. O processo de produção começa quando os caroços chegam à fábrica e passam por carbonização. Em seguida, o material é triturado até virar pó.

Depois disso, o material é misturado a elementos orgânicos, como água, areia e resíduos de mandioca, formando uma liga natural que dá consistência ao produto e levado para secagem.

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O filho de Edson, Alex Pascoal, também atua na produção do carvão junto com o pai. Segundo ele, o material contribui para a redução da emissão de gases poluentes durante o processo de fabricação.

“Esse carvão é sustentável. Por conta da secagem do material, 80% da fumaça durante a produção é reduzida. Então a gente evita o desmatamento e gases poluentes, transformando um produto que pode ser reaproveitado”, conta.

O empreendimento agora busca expandir a produção e levar o carvão de açaí para outros mercados, inclusive fora do país.

O material é misturado a elementos orgânicos, como água, areia e resíduos de mandioca. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
O material é misturado a elementos orgânicos, como água, areia e resíduos de mandioca. — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

*Material publicado originalmente pelo g1 Amapá e Rede Amazônica, com informações de Crystofher Andrade e Mariana Braga

Pesquisador do IPAM revela que proteção de espécies migratórias exige ações de escala internacional

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Pesquisador revela que proteção de espécies migratórias exige ações de escala internacional. Foto: Arquivo/Carlos Durigan

Pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Carlos Durigan é geógrafo pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e mestre em Ecologia pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Há mais de 30 anos, atua com projetos socioambientais no bioma Amazônia.

Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, Durigan fala sobre os desafios para a proteção das espécies migratórias. Saiba mais sobre o tema na coluna assinada pelo pesquisador no JOTA.

Inscreva-se para receber a newsletter do IPAM gratuitamente no seu e-mail.

O que caracteriza uma espécie migratória?

Uma espécie é considerada migratória quando realiza deslocamentos periódicos, previsíveis e regulares entre diferentes áreas ao longo de seu ciclo de vida, geralmente associados à alimentação, reprodução ou resposta a variações ambientais. No âmbito da Convenção sobre Espécies Migratórias, são consideradas migratórias aquelas cujas populações cruzam uma ou mais fronteiras nacionais, o que torna sua conservação dependente de cooperação internacional.

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Quais as principais espécies do Brasil?

O Brasil abriga uma grande diversidade de espécies migratórias, com destaque para peixes, aves e mamíferos aquáticos. Entre alguns exemplos de destaque, considerando inclusive o grau de ameaça, temos a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), bagre migrador que percorre grandes distâncias ao longo da bacia amazônica.

Entre as aves, destacam-se o maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus), incluso no Anexo 1 da CMS na COP15, e a águia-pescadora (Pandion haliaetus) – Anexo 2 desde1979, que conectam hemisférios.

Entre espécies de maior preocupação global incluídas no Apêndice I da Convenção sobre Espécies Migratórias, destacam-se o albatroz-de-tristão (Diomedea dabbenena), altamente ameaçado por captura incidental, e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), que utiliza a costa brasileira em suas rotas migratórias e ainda o tubarão-azul (Prionace glauca), altamente ameaçado pela pesca predatória no litoral brasileiro.

Leia também: Ministério do Meio Ambiente defende debates globais sobre proteção de espécies migratórias

Já entre os mamíferos marinhos, a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) migra até o litoral brasileiro para reprodução e está inclusa no Anexo 1 desde 1979.

Maçarico-de-bico-torto é uma espécie de ave migratória que sofre ameaças segundo análise do pesquiador Carlos Durigan. Foto: Bettina Arrigoni/ Creative Commons

A única espécie de mamífero terrestre brasileiro que está inclusa nos anexos 1 e 2 é a onça-pitada (Panthera onca), em função de suas populações estarem ameaçadas em várias regiões ao longo de todo o continente americano e dependem de conectividade entre habitats para sobreviver. Além disso, seus deslocamentos entre países exigem cooperação internacional para garantir corredores ecológicos e a conservação da espécie.

De que maneira estes animais estão ameaçados?

As principais ameaças incluem a perda e fragmentação de habitats, sobrepesca, caça ilegal e diferentes formas de contaminação (agrotóxicos, esgoto, plástico). Esses impactos são agravados pelas mudanças climáticas, que alteram regimes hidrológicos, intensificam secas e incêndios e afetam especialmente áreas úmidas, rios e zonas costeiras — ambientes críticos para grande parte das espécies migratórias que ocorrem no Brasil.

Como superar os desafios para sua proteção?

A conservação de espécies migratórias exige ações coordenadas em escala internacional, como promovido pela COP15 da CMS. No Brasil, é fundamental fortalecer unidades de conservação e terras indígenas, ampliar a conectividade entre paisagens e avançar na proteção de áreas fora desses territórios, o que inclui a destinação de terras públicas para finalidades que incluam a sua proteção. Destaca-se ainda o papel central de povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como a necessidade de reduzir pressões como desmatamento, contaminação e emissões que intensificam a crise climática.

*O texto foi publicado originalmente no site do Ipam

Do campo à mesa: Mara Frios revoluciona abastecimento no Amazonas

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Fachada do Centro de Distribuição Mara Frios. Foto: Divulgação

O mercado de alimentação no Amazonas atingiu um novo patamar de excelência e segurança alimentar. À frente dessa transformação está a Mara Frios e Carnes, uma empresa que há 23 anos deixou de ser apenas um ponto de venda para se tornar um hub logístico e produtivo vital para o estado. Com uma operação que movimenta quase 4 mil toneladas de produtos por mês, a marca consolidou-se como o “braço direito” tanto das famílias manauaras quanto dos milhares de empreendedores que movimentam a economia regional.

A engrenagem por trás desse sucesso é monumental: um Centro de Distribuição (CD) moderno, equipado com o que há de mais avançado em tecnologia de armazenamento, e uma frota própria de 28 caminhões refrigerados. Essa estrutura garante que a “quebra de temperatura” — o grande desafio da logística na região norte — seja inexistente, assegurando que o produto chegue ao consumidor com o frescor original de fábrica.

O Calendário da Economia: Terça da Carne e Fim de Semana Food

A Mara Frios tornou-se o destino obrigatório de quem busca o melhor custo-benefício em Manaus tanto no dia a dia com ofertas diárias e também através de um calendário estratégico de ofertas:

• Terça da Carne: Já consolidada no calendário do consumidor amazonense, todas as terças-feiras as 12 lojas oferecem cortes selecionados com os melhores preços da cidade, garantindo proteína de qualidade na mesa das famílias.

• Fim de Semana Foods: Pensando no setor de gastronomia e no lazer das famílias, os finais de semana são marcados por ofertas imperdíveis na linha de alimentos processados e insumos, ideais para o estoque de quem empreende ou para o churrasco de domingo.

Leia também: Do açaí ao cará, comidas amazônicas são chave para educação sobre alimentação saudável na região, propõe livro

Real Lat: A ciência por trás dos melhores frios

O grande diferencial que coloca a Mara Frios em uma categoria isolada é a sua linha de produção e representação exclusiva. A Real Lat, marca carro-chefe do grupo, é sinônimo de tecnologia aplicada à gastronomia. Operando com equipamentos de última geração, a marca oferece uma curadoria de laticínios e embutidos que é referência no mercado:

• Queijos Premium: Mussarela e queijo Prato com maturação controlada e derretimento perfeito, embalados com sistema de última geração, fatias perfeitas e interfolhadas para dar mais praticidade.

• Linha de Embutidos: Presuntos selecionados, o exclusivo Délice de Peru, mortadelas de alta qualidade e o indispensável bacon.

• Praticidade para o Empreendedor: A calabresa fatiada Real Lat é hoje um item obrigatório em pizzarias de Manaus, otimizando o tempo de produção e garantindo padronização.

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Real Pães: O segredo das melhores lanchonetes

Complementando a cadeia de suprimentos, a linha Real Pães (também com representação exclusiva pela Mara Frios) domina o setor de panificação industrial. Reconhecida pela maciez e sabor, a marca fornece

os melhores pães de hambúrguer, pães de forma e o tradicional pão de kikão (hot dog), essenciais para padarias, hamburguerias e lanchonetes que não abrem mão de qualidade para fidelizar seus clientes.

Além disso, a Mara Frios detém a exclusividade de outras gigantes como Real Lat, Real Pães e Massas, Rezende, Hábito e Star Frites, oferecendo um mix completo que une as melhores marcas globais ao atendimento personalizado local.

Essa exclusividade garante ao microempreendedor e às famílias amazonenses acesso direto a produtos de alto padrão com preços de fábrica. Além dessas representações, a rede trabalha com as melhores marcas do mercado global, oferecendo um mix completo que atende desde o churrasco de domingo até a operação pesada de pizzarias, hamburguerias, docerias, mercadinhos, autônomos e muito mais.

Impacto Social e Expansão: O Marco de 2026

Para sustentar esse crescimento, a Mara Frios gera mais de 400 empregos diretos, formando uma rede de profissionais capacitados que operam desde o fatiamento preciso até a gestão logística. Esse capital humano é o coração das 12 unidades espalhadas estrategicamente por Manaus.

Atualmente, o grupo vive um momento histórico de renovação: 7 lojas já foram reinauguradas com padrão “Premium”, oferecendo ambientes totalmente climatizados, modernos e confortáveis. A meta da diretoria é audaciosa: até dezembro de 2026, todas as 12 unidades estarão padronizadas, reafirmando o compromisso de oferecer a melhor experiência de compra do Amazonas.

Onde encontrar Mara Frios e como acompanhar

Seja para o atacado ou varejo, a Mara Frios está presente em todas as zonas de Manaus:

  • Zonas Norte e Leste: Fuxico, Zumbi, Cidade Nova, Manôa e Nova Cidade.
  • Zonas Sul e Oeste: Educandos, Nova Esperança, Alvorada, Cachoeirinha e Compensa (Av. Brasil e Ponte).
  • Eixo de Conexão: Torquato Tapajós.

Para quem busca acompanhar ofertas exclusivas, novas vagas de emprego e o dia a dia da maior especialista em frios do estado, o canal oficial é o Instagram.

Akil Khalil Ayoub Bazzi

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Da direita para esquerda, Jandira Sena Bazzi e Akil Khalil Ayoub Bazz. Foto: Acervo pessoal/Abrahim Baze

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

Ao chegarem em Manaus esses imigrantes adotaram estratégias semelhantes de inserção na economia do município, em especial no comércio da cidade, estabelecendo-se em setores da economia, em que cujos recursos de investimentos eram limitados, o que consequentemente tornavam-se difíceis suas entradas neste meio naquela época.

Esses imigrantes se localizavam em espaços de alugueis baratos, conjugando moradia e comércio o que tratava-se de uma solução única e conveniente. Foi assim em todo Brasil e, em Manaus também era comum particularmente no Bairro dos Remédios. Com o fim do século XIX, nas primeiras décadas do século XX, milhares de homens e mulheres de nacionalidade árabe proveniente de diversas regiões do Oriente Médio em particular do Líbano, Síria e Palestina num período mais moderno, onde essas chegadas e adaptação constituíram um importante momento de nossa história.

Foi o caso de meu pai Akil Khalil Ayoub Bazzi, nascido na cidade de Bent-Jbeil, Líbano, no dia 4 de junho de 1905, filho de Khalil H. Bazzi e Noga Bazzi. Aporta no Brasil, em Belém no estado do Pará, em 10 de janeiro de 1928, permanecendo por um período e embarcando a Manaus em 29 de maio de 1929, ele trouxe consigo seu filho Amim Ayoub Bazzi.

Leia também: Jacques Menassa: um libanês na Amazônia

Aqui chegando instala-se na Rua Pedro Botelho em uma pequena estância. Na casa em frente residia seu patrício Abrahim Menassa que, a essa altura já transitava os caminhos da prosperidade na cidade e, ajuda meu pai a iniciar sua vida como comerciante sendo camelô, ajudando financeiramente e tornando-se bons amigos. Com o passar do tempo, meu pai amealhando alguns recursos, abre seu comércio com a venda de tecidos e derivados, na Rua Joaquim Nabuco, esquina com Sete de Setembro. Destacando-se assim, a grande importância de Abrahim Menassa com amizade e apoio ao meu pai.

Já em Manaus conheceu a jovem Jandira Sena Bazzi com quem casou-se e trouxe ao mundo os filhos: Nilo Sena Bazzi, Ali Sena Bazzi e Abrahim Sena Baze. Lembro-me com frequência que às 15 horas da tarde eu e minha mãe atravessávamos a rua para fazer um pequeno lanche na casa de dona Alice Menassa, esposa de Abrahim Menassa. Foi um período grandioso em nossa cidade. Ah! Manaus, quanta saudade daquelas tardes alegres na casa dos Menassa. Perdoe-me a pretensão de querer ver-te na sedução do teu passado. Também te vejo nem por isso menos querida em estamparia de chita, a seduzir a sonolência da cidade velha, com a frivolidade do teu comércio pujante.

É de fato a volta de uma Manaus a luz de lamparinas e lampiões perdendo seu brilho para o sol que acabara de nascer, reduzindo o frenesi de suor na pele morena de tuas meninas moças com forte lembrança da Grã-finagem que ali se reunia para jogar conversa fora. As duas famílias amigas preservaram os retratos, guardaram suas ruínas, recolheram os pedaços e a partir deles foi possível reconstruir o seu passado. Abrahim Menassa, Alice Menassa, Akil Khalil Ayoub Bazzi e Jandira Sena Bazzi, partiram para outra vida, mas, deixaram fotografado na mente daqueles que os conheceram, retratos variados, a lembrança da beleza dos tempos de antanho.

Sonhar e acreditar, dessas duas qualidades resultam as realizações sociais de um homem e os afazeres do espírito humano, fatores indispensáveis para a perpetuação das aspirações enobrecedoras e a construção de possibilidades efetivas para a existência humana. Na verdade Akil Khalil Ayoub Bazzi forjou novos padrões, valores e atitudes sobre a vida, a sociedade em que viveu muito especialmente com a família. Esses caminhos que se descortinam resultaram de seu entusiasmo da fé e da crença do seu trabalho, cuja, mão amiga foi de Abrahim Menassa.

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Ao ser humano foi dado o desafio de navegar as agitadas águas do tempo. Viver é vencer as provações que a existência nos impõem cotidianamente e cumprir com altivez e dignidade a travessia, inclusive ajudando seus irmãos também a atravessar. Afinal, o que é a vida se não vencer as distâncias e os limites. E depois? – Depois retornar a fonte originaria onde a correnteza da vida brota e onde reinam os mistérios da providência divina. Compreender este milagre e esse enigma é condição indispensável para uma existência enriquecedora e feliz, especialmente para aqueles que passaram entre nós procurando fazer o bem.

Foi em um momento muito especial o lançamento da exposição fotográfica de Jacques Menassa em que tive oportunidade de fazer um discurso, retratando uma parte de minha infância, com meus pais e da família Menassa. Naquela ocasião acontecia a exposição do nobre amigo e intelectual Jacques Menassa.

Família Menassa. Manaus, 1940. Ibrahim Menassa, à direita, veio de Ghosta, no Líbano, para Manaus, em 1926. À esquerda estão sua esposa Alice Sanches, brasileira, e as filhas Adelaide e Alice.
Família Menassa. Manaus, 1940. Ibrahim Menassa, à direita, veio de Ghosta, no Líbano, para Manaus, em 1926. À esquerda estão sua esposa Alice Sanches, brasileira, e as filhas Adelaide e Alice. Foto: Bibliaspa

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

MPF cancela matrícula de estudante que se passou por indígena em Rondônia; entenda

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Candidato apresentou autodeclaração de indígena para cursar Direito na Unir, mas foi reprovado pela banca avaliadora. Foto: Divulgação/UNIR

Um estudante que se declarou indígena para ingressar em vaga reservada na Universidade Federal de Rondônia (Unir) teve sua matrícula cancelada por uma decisão judicial. O caso começou em 2024, quando o candidato apresentou autodeclaração de indígena, mas foi reprovado pela banca de heteroidentificação. Na época, ele recorreu à Justiça e conseguiu uma decisão liminar para estudar Direito na Unir.

O Ministério Público Federal (MPF) foi comunicado pelos indígenas karitianas sobre a situação e passou a atuar no caso. Em sua manifestação no processo, o MPF conseguiu comprovar que o aluno não é indígena, portanto não pode ocupar vaga da cota étnica. O procurador da República que atua no caso, Leonardo Caberlon, ressalta que não basta se autodeclarar, é necessário ser reconhecido pela comunidade, direito – reconhecido pela Constituição Federal – que deriva da autodeterminação dos povos indígenas.

Leia também: Povos e comunidades tradicionais reivindicam criação de cota na Universidade Federal do Pará

Fraude em cota indígena

No documento enviado ao MPF, lideranças do povo Karitiana informaram que o estudante não foi reconhecido pelos anciãos e lideranças tradicionais, bem como nunca teve vínculos históricos, culturais ou familiares com aquele povo. O documento também expôs que o estudante enganou alguns karitianas e conseguiu assinaturas em uma falsa declaração de reconhecimento de pertencimento étnico e de vínculo com a comunidade.

Indígenas no auditório da Unir
Povos originários no auditório da Unir. Foto: Divulgação/Unir

Segundo o documento, o estudante se aproximou de karitianas dizendo que era membro do povo Parintintin e que não teria tempo para ir buscar assinaturas de seu povo em Humaitá (AM). Acreditando no estudante, alguns karitianas assinaram a declaração. Mas a banca de heteroidentificação da Unir, que é composta por indígenas, desconfiou da validade do documento e entrou em contato com quem assinou a declaração, descobrindo a verdade.

A desconfiança sobre a declaração apresentada pelo estudante surgiu porque, durante a entrevista da banca de heteroidentificação, o candidato não demonstrou ter parentesco e sociabilidade com os karitianas, além de não conhecer os elementos culturais do povo, suas tradições, suas lutas sociais e históricas. O estudante sequer sabia a localização geográfica da aldeia Karitiana.

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‘Índio de papel’

A pedido do povo Karitiana e do MPF, a antropóloga Andréa Carvalho Mendes de Oliveira Castro elaborou um laudo antropológico sobre o caso. A pesquisadora estuda e acompanha há muitos anos aquele povo, tendo registrado parentescos dos karitianas dos últimos 130 anos.

Para a antropóloga, critérios puramente documentais para a verificação de pertencimento a grupos étnicos são perigosos porque passaria a existir “índio de papel”, revelando um racismo estrutural. “Dizer-se indígena sem ser reconhecido como tal está sob a ótica da apropriação cultural, isto é, apropriação indevida de uma identidade, causando prejuízos às lutas reais dos povos indígenas. Não existe um sentimento de pertencimento que seja válido, legítimo e legal sem o reconhecimento do grupo ao qual se diz pertencer”, acrescentou.

No laudo antropológico, ela narra que até 2018, cerca de 80% dos estudantes autodeclarados indígenas matriculados na Unir não conseguiam comprovar pertencimento a um grupo indígena e por isso não conseguiam obter a bolsa permanência, benefício a que teriam direito se houvesse a comprovação. Até 2019 a Unir admitia como critério exclusivo a autodeclaração. Em 2023, os movimentos sociais fizeram uma proposta de resolução para que a Unir instituísse as bancas de heteroidentificação, que tiveram início em 2024.

Segundo a antropóloga, a alegação do estudante de que seu avô era indígena e que seu pai havia sido tirado da aldeia com apenas um ano de idade, perdendo o convívio com seus parentes biológicos, não tem fundamento. Isso porque nem o pai e nem o avô do estudante aparecem em nenhuma árvore genealógica dos karitianas.

Também não há como existir um karitiana desconhecido, pois a etnia habita uma única aldeia com pouco mais de 300 indígenas, sendo que todos se conhecem, mesmo os que não residem na aldeia, e há tradicionalmente a manutenção dos vínculos de parentesco.

Indígenas da etnia Parintintin. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Pertencimento

Na manifestação do MPF à Justiça Federal, foram juntados o documento dos karitianas e o laudo antropológico. A Unir também se manifestou na ação, relatando que as cotas indígenas não levam em conta as características fenotípicas, mas consideram o vínculo, a vivência e o pertencimento.

Segundo o MPF, há diversas denúncias de ocupação irregular das vagas destinadas às cotas indígenas na Unir. Os casos estão sendo apurados por meio de:

Ação civil (nº 1006869-73.2024.4.01.4100);

Inquérito civil sobre fraudes às cotas indígenas (nº 1.31.000.001171/2021-67)

Desafio de inovação impulsiona desenvolvimento da Amazônia de fronteira

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Desafio de inovação mobiliza Alto Solimões e impulsiona soluções para a bioeconomia (Foto: Divulgação/MIDR)

 O município de São Paulo de Olivença (AM) recebeu, entre os dias 7 e 10 de abril, o Desafio de Ideias Inovadoras, que chegou ao fim nesta sexta-feira (10) com foco no tema “Inovar com Propósito: Soluções locais, impactos reais”. Realizada pelo IFAM Campus Tabatinga, com apoio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), a iniciativa mobilizou o território da Tríplice Fronteira do Alto Solimões para fortalecer o ecossistema de inovação e incentivar a criação de soluções sustentáveis voltadas à bioeconomia e ao desenvolvimento regional, com a participação de instituições estaduais, municipais e parceiros locais.

A ação integra o conjunto de iniciativas do Programa Fronteira Integrada – PFI e da estratégia BioRegio, voltadas à promoção da bioeconomia como ferramenta de desenvolvimento regional em territórios prioritários na Faixa de Fronteira Amazônica. As regiões de fronteira, que historicamente enfrentam desafios estruturais relacionados à sua localização geográfica e ao acesso a políticas públicas, são prioridade para a política regional. 

Durante os quatro dias de programação, agricultores familiares, artesãos, pescadores, microempreendedores e representantes de comunidades locais participaram de capacitações, mentorias e atividades voltadas ao desenvolvimento de ideias de negócios sustentáveis e inovadores nas áreas de agrobiodiversidade, economia circular e tecnologia da informação e comunicação. A iniciativa atua como indutora de políticas públicas de inovação territorial ao promover a articulação entre instituições de ensino, poder público e comunidades locais.

Leia também: ExpoPIM 4.0 inicia com inovação, grande movimentação nos estandes e lançamento de livro
 

Município de São Paulo de Olivença recebeu o desafio de inovação que mobilizou o Alto Solimões.
Município de São Paulo de Olivença recebeu o desafio de inovação que mobilizou o Alto Solimões. Foto: Divulgação

Para o agricultor Jucelino Sales, participante das atividades, a ação trouxe conhecimento prático que já começa a impactar a produção local. “Esse curso foi muito bom, porque nunca tinha vindo uma capacitação dessa para cá. Aprendemos sobre doenças da banana e como manejar a plantação. O que aprendi vai ajudar na minha produção e na renda da minha família. Esses cursos estão trazendo conhecimento que a gente não tinha e isso melhora muito o nosso trabalho”, destacou.

Segundo o coordenador-geral de Gestão do Território, Vitarque Coelho, a iniciativa amplia oportunidades para a população local: “A região de fronteira apresenta desafios importantes relacionados ao acesso a políticas públicas e ao desenvolvimento econômico. Iniciativas como essa permitem criar novas oportunidades a partir das potencialidades locais”, destacou.
 

Durante o evento, os participantes foram organizados em equipes e contaram com mentorias especializadas para desenvolver ideias de negócios. Foram utilizadas metodologias práticas, como Design Thinking, modelo de negócios Canvas e construção de pitch, para a estratégia de apresentação do projeto.
 

Além do caráter formativo, o desafio contribuiu diretamente para a estruturação de um ambiente de inovação no Alto Solimões, ao gerar um conjunto inicial de projetos com potencial de desenvolvimento e incubação. A ação também está alinhada à implantação da incubadora de empresas vinculada ao IFAM e ao Centro Mapati.

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“O BioRegio olha para o território a partir dos biomas, reunindo agentes de promoção e desenvolvimento, universidades, empresas e setores público e privado para estruturar novos produtos e processos focados na bioeconomia”, afirma o secretário, Daniel Fortunato. “No caso específico da Amazônia, trabalhamos com a faixa de fronteira, região prioritária da política regional, por meio da estruturação de centros de inovação em bioeconomia voltados ao desenvolvimento de novos produtos e serviços”, acrescentou.

O desenvolvimento da bioeconomia no Território do Alto Solimões é uma entrega prevista em Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) celebrados entre o MIDR e o Consórcio Amazônia Legal (CAL), o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI-PR). O encontro também contou com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Amazonas (SEDECTI – AM) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE – AM), além da Prefeitura de São Paulo de Olivença (AM) e parceiros locais.

Centro Mapati

O evento está diretamente relacionado à implementação do Centro Mapati de Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento Sociobioeconômico do Alto Solimões, estruturado por meio do Termo de Execução Descentralizada (TED) nº 950998/2023, firmado entre o MIDR e o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), com investimento de R$ 5,4 milhões. 

O Centro Mapati é uma iniciativa estratégica da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Regional e Territorial (SDR/MIDR), com foco na bioeconomia, na inclusão produtiva e na geração de negócios. Sua atuação está baseada em três eixos principais: capacitação, desenvolvimento de produtos e apoio à criação de empreendimentos, articulando cadeias produtivas da agrobiodiversidade, tecnologias da informação e comunicação e economia circular. 

Ecossistemas de inovação

A atuação da SDR/MIDR na estruturação de ecossistemas de inovação integra uma estratégia nacional de desenvolvimento regional baseada na indução de ambientes inovadores em territórios prioritários. No Alto Solimões, essa estratégia inclui o Parque Científico e Tecnológico do Alto Solimões (PACTAS), apoiado por meio do TED nº 051/2020 (MIDR–UFAM), com investimento inicial de cerca de R$ 2,5 milhões. A iniciativa é voltada ao diagnóstico de cadeias produtivas da bioeconomia, implantação de infraestrutura de inovação e apoio a empreendimentos locais. O território também conta com a Inpactas, incubadora de negócios de impacto ambiental que apoia startups em operação.

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No Pará, a região do Xingu recebe ações voltadas à cadeia do cacau e ao empreendedorismo inovador, com destaque para o Centro de Inovação do Cacau e Chocolate da Transamazônica (CICC), desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA). A iniciativa atua em pesquisa aplicada, agregação de valor e inserção de produtos no mercado.

Já na fronteira entre Brasil e Uruguai, o MIDR atua por meio do Programa Fronteira Integrada na estruturação do Parque Tecnológico Binacional de Sant’Ana do Livramento–Rivera (PATES). O projeto foi pré-selecionado para captação de aproximadamente R$ 40 milhões junto ao Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM), com foco em cadeias estratégicas como energias renováveis, agroindústria e turismo.

*Com informações do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR)

Agenda interministerial debate processo de alcoolização no Rio Negro e articula ações de enfrentamento

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Durante a semana da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), lideranças indígenas do Rio Negro articularam uma agenda interministerial, em Brasília, para tratar de um dos temas mais urgentes enfrentados nos territórios: o avanço do uso prejudicial de bebidas alcoólicas e seus impactos nas comunidades indígenas e contextos urbanos.

A mobilização foi organizada pelo Departamento de Mulheres Indígenas (Dmirn) e pelo Departamento de Adolescentes e Jovens (Dajirn) da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), em reuniões com o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Ministério da Justiça.

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O objetivo dos encontros foi apresentar um conjunto de reivindicações construídas a partir da realidade vivida em São Gabriel da Cachoeira (AM) e fortalecer a articulação com o poder público para a construção de respostas integradas e adequadas às especificidades da região.

Na reunião com o Ministério da Saúde, realizada na última segunda-feira(06), o grupo foi recebido por representantes do Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Desmad) e da Coordenação-Geral de Saúde Mental e Direitos Humanos (CGSMDH). As lideranças apresentaram o documento com recomendações voltadas à prevenção, ao cuidado e ao fortalecimento das políticas públicas no território.

O material aponta que o uso prejudicial de bebidas alcoólicas tem se intensificado na região do Rio Negro, que compreende os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, afetando tanto comunidades indígenas quanto contextos urbanos.

A ampliação do acesso a bebidas industrializadas, especialmente de baixo custo e alto teor alcoólico, tem contribuído para a transformação dos modos tradicionais de consumo e para o agravamento de situações de vulnerabilidade.

Entre os principais impactos relatados pelas lideranças durante o diálogo estão o aumento da violência interpessoal e doméstica com diversos casos de homicídios e feminicídios, o rompimento de vínculos familiares, acidentes e o agravamento de problemas de saúde mental, incluindo tentativas e suicídios consumados.

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Atuação interinstitucional para o enfrentamento

Na reunião com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), realizada na última terça-feira (07), o diálogo reforçou a necessidade de atuação do sistema de justiça no enfrentamento dos impactos associados ao consumo de álcool, especialmente no que diz respeito à proteção de crianças, adolescentes e mulheres.

Lideranças Rionegrinas também tiveram reunião no CNJ, onde foram articuladas ações de enfrentamento ao uso abusivo de álcool na região. Foto: Vanessa Fernandes/ISA

O grupo foi recebido pelo coordenador de Gestão de Programas e Projetos do CNJ, Caio Henrique Faustino da Silva, e pelo juiz auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça, Rodrigo Gonçalves de Sousa, e resultou em encaminhamentos voltados ao fortalecimento da articulação institucional.

O juiz titular da Comarca de São Gabriel da Cachoeira, Manoel Átila Araripe Autran Nunes, também participou do encontro de forma remota e destacou a dimensão do problema no sistema de justiça local. “Eu acredito que cerca de 90% das ocorrências criminais em São Gabriel da Cachoeira acontecem no contexto de excesso de ingestão de bebida alcoólica”, afirmou.

Segundo o magistrado, a relação entre álcool e violência é ainda mais evidente nos casos envolvendo mulheres. “Nas audiências de violência doméstica, praticamente 100% dos casos [no mês de março] ocorreram com ingestão de bebida alcoólica. É uma situação muito preocupante”, relatou o juiz.

Ele também chamou atenção para a gravidade da exposição de crianças e adolescentes. “É muito grave quando a gente vê relatos de venda de bebida alcoólica para crianças e adolescentes. Isso precisa ser combatido com fiscalização e responsabilização”, reforçou.

A fala do juiz corrobora os relatos das lideranças indígenas, evidenciando como o processo de alcoolização é um grave problema de saúde e segurança pública, que se desdobra em múltiplas dimensões sociais, impactando diretamente a vida de meninas e  mulheres indígenas, que frequentemente estão entre as principais afetadas pelas violências.

Entre os encaminhamentos definidos na reunião está a construção de um trabalho piloto interinstitucional voltado à prevenção e ao enfrentamento do uso abusivo de bebidas alcoólicas nos territórios, com a primeira ação prevista para a primeira quinzena de junho.

“A ideia é tratar o álcool primeiro como um problema de saúde pública, para que ele não se torne apenas um problema de polícia. A partir disso, conseguimos articular outras frentes, como infância e juventude e proteção às mulheres”, explicou Caio Henrique Faustino da Silva.

A agenda em Brasília foi encerrada com uma reunião no Ministério da Justiça nesta quarta-feira (08), onde o grupo foi recebido por representantes da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) e da Secretaria Nacional de Acesso à Justiça (Saju).

Além das pautas relacionadas ao uso de álcool e seus impactos nas comunidades, o encontro também abordou questões de proteção territorial e a incidência de crimes em regiões de fronteira, contexto que agrava os desafios enfrentados pelos povos indígenas do Rio Negro.

A articulação interinstitucional durante o ATL reforçou o papel central das organizações indígenas e, especialmente, das lideranças femininas na formulação de propostas e na incidência política sobre temas que impactam diretamente seus territórios.

Nos últimos anos, iniciativas lideradas por mulheres e jovens indígenas do Rio Negro já têm promovido debates, formações e estratégias de cuidado baseadas nos saberes locais. Um exemplo é a elaboração e publicação da cartilha “Cuidados com o uso de bebidas alcoólicas na região do Rio Negro”.

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Esse material informativo vem sendo trabalhado nas comunidades por meio de rodas de conversa e ações de conscientização pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI/ARN) e na área urbana, através de rodas de conversas e formações, pela equipe da Federação indígena e o ISA.

Dulce Morais, antropóloga e sanitarista do Programa Rio Negro do ISA, ressalta que as lideranças não reivindicam a proibição do uso de bebidas alcoólicas entre os povos indígenas da região, nem defendem abordagens estritamente repressivas. Segundo ela, o foco está no cumprimento da legislação vigente e na ampliação de medidas informativas que fortaleçam o acesso à informação e promovam um debate qualificado sobre o tema.

“As reuniões realizadas nos ministérios foram produtivas, pois permitiram compreender melhor a rede de profissionais e as instâncias envolvidas na temática. Também foi possível encaminhar parte das reivindicações apresentadas, o que representa um avanço importante no diálogo institucional”, afirma.

Ela destaca ainda que o processo já aponta para desdobramentos concretos: “Iniciamos a construção de um plano de trabalho, com a definição de ações alinhadas à realidade local, o que contribui para dar mais efetividade à implementação e ao acompanhamento das propostas discutidas”.

*Por Vanessa Fernandes, do Instituto Socioambiental

Óbitos por malária na terra Yanomami caíram 80% em 2025, diz governo

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Óbitos por malária na terra Yanomami caíram 80% em 2025, diz governo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O Ministério da Saúde publicou no dia 8 de abril de 2026, um novo informe sobre a situação dos indígenas do território Yanomami, em Roraima, o maior em extensão  do país. Segundo a pasta, foi registrada uma redução de 80,8% de óbitos por malária, na comparação entre o fim de 2025 e janeiro de 2023, ano em que o governo declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) para enfrentar a crise humanitária vivida pela comunidade tradicional, que sofria com invasão de garimpeiros.

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O informe cita um aumento de 75,9% do número de exames realizados por detecção ativa. A testagem para a doença também foi ampliada de 144.986 para 257.930 testes em 2025.

Conforme o documento, os óbitos por desnutrição também registraram significativa queda de 53,2% entre 2023 e 2025. No período, o número de crianças menores de cinco anos com peso adequado aumentou de 45,4% para 53,8%.

Também houve aumento no número de crianças acompanhadas de 70,1% para 85,1%. A desnutrição grave também teve queda. Crianças com muito baixo peso reduziram de 24,2% para 15,2% no período. Os dados constam no Informe nº 9 do Centro de Operações de Emergências Yanomami (COE).

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Óbitos por malária na terra Yanomami caíram 80% em 2025, diz governo. Foto: Divulgação/MS

De acordo com o boletim, o atendimento por infecções respiratórias agudas aumentou em 254% entre 2023 e 2025. Com isso, a letalidade da doença reduziu em 76% e o número de óbitos em 16,7% desde o início da resposta à Emergência de Saúde Pública.

Na área de imunização, o Ministério da Saúde confirmou aumento de 40% no número de doses aplicadas em 2025 em comparação a 2023 – de 31.999 para 44.754. O percentual de crianças menores de um ano com esquema vacinal completo mais que dobrou no período, com aumento de 27% em 2023 para 60,6% em 2025. Entre crianças menores de cinco anos, o avanço foi de 47,4% para 78,3%, refletindo o fortalecimento das ações de vacinação de rotina.

Segundo a secretaria de Saúde Indígena do Ministério, Lucinha Tremembé, os resultados refletem a ampliação do acesso à saúde no território, reafirmando o compromisso com a proteção da vida e a promoção da saúde dos povos indígenas. 

“Estamos avançando de forma consistente na melhoria da saúde no território Yanomami, com redução de óbitos e, principalmente, das mortes por causas evitáveis, como a desnutrição e a malária. Esses resultados refletem o esforço permanente da atual gestão em fortalecer a presença do Estado, garantindo uma atenção integral, qualificada e respeitosa às especificidades culturais dos povos indígenas”, apontou.

Atendimentos

Entre os avanços citados pelo governo federal está a ampliação da força de trabalho em saúde no território. Desde o início da emergência sanitária, o número de profissionais mais que triplicou, passando de 690 para mais de 2.130 trabalhadores atuando diretamente nas aldeias, na Casa de Saúde Indígena (Casai), em Boa Vista, e nas estruturas do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami.

No campo da infraestrutura, o COE Yanomami destacou a realização de 261 intervenções em sistemas de abastecimento de água, além da instalação de mais de 1.400 filtros, contribuindo para o acesso à água segura.

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Óbitos por malária na terra Yanomami caíram 80% em 2025, diz governo
Óbitos por malária na terra Yanomami caíram 80% em 2025, diz governo. Foto: Arthur Alves/PMM/Arquivo

Também foram implantados 61 sistemas de energia solar e executadas melhorias em unidades de saúde, consolidando uma base mais robusta para a atenção primária no território. Outro marco importante deste período de emergência nacional foi a reforma e ampliação do Centro de Referência em Saúde Indígena (CRSI) no polo base de Surucucu, no interior do território.

Desde que foi reestruturado, o local, que é um ponto de referência dentro da Terra Indígena, já realizou 4.374 atendimentos ambulatoriais. Desses, 2.081 foram exames laboratoriais e 328 exames de ultrassonografia. A unidade atende 48 comunidades, além de concentrar a maior parte das remoções da região.

“A estrutura qualificada tem contribuído para melhorar o manejo clínico, fortalecer o vínculo com as comunidades e organizar os fluxos assistenciais”, diz o Ministério da Saúde, em nota.

*Com informações da Agência Brasil.

Um malandro russo na Amazônia: as aventuras e delitos de Alexandre Haag

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O engenheiro Alexandre Haag morreu na cadeia, em 1906, depois de praticar vários golpes. Foto: Acervo/JO

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

A história de Alexandre Haag não cabe em relatórios técnicos ou tabelas de engenharia. Ela deveria pertencer às telas de cinema ou às páginas de um folhetim de época, revelando o perfil intrépido de quem se aventurou na odisseia da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) e na instalação do telégrafo no Norte do país.

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Alexandre Haag foi o dândi dos trópicos e o vilão de Paris, um homem que viveu entre o rigor das plantas e o caos das masmorras. Em novembro de 1883, sob a sombra do fracasso da expedição Morsing-Pinkas, Aleksandr Haag desembarcou na região do Rio Madeira. Onde hoje está a cidade de Porto Velho. Natural de Moscou e criado sob o fragor da Guerra da Crimeia, ele fugira para o Brasil em 1875 para evitar o conflito contra a Turquia. Aos 21 anos, naturalizou-se brasileiro como Alexandre e fixou residência em Manaus.

Descrito pelo jornal Pacotilha, do Maranhão, como “alto, simpático e sedutor”, o ex-oficial da Marinha russa logo se tornou um exímio sertanista. A serviço do governo do Amazonas, Haag enfrentou 54 dias de provações desde Santo Antônio do Rio Madeira – município extinto e incorporado a Porto Velho em 1945 – até a confluência dos rios Beni e Mamoré. Entre corredeiras traiçoeiras e ataques indígenas repelidos a fuzil, ele mapeou o terreno que outros temiam pisar.

O engenheiro Alexandre Haag morreu na cadeia, em 1906, depois de praticar vários golpes. Foto: Acervo/JO

Contudo, sua conclusão foi um choque: em 1884, defendeu que a ferrovia Madeira-Mamoré seria “onerosa e inviável”, sugerindo caminhos alternativos que favoreciam a Bolívia e o Amazonas, ignorando os interesses de Mato Grosso, que dominava a região.

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A vida de Alexandre era um jogo de altos riscos. Em 1885, partiu para a Europa, onde sua lenda foi escrita com tinta russa. Dado como morto sob as ordens do czar Alexandre III, Haag foi acusado de niilismo por contestar o Estado e a Igreja. Escapou da forca graças a parentes influentes, mas não sem antes levar uma surra memorável do governo czarista. Enquanto isso, no Brasil, o governo de Dom Pedro II lavava as mãos, fingindo crer que o engenheiro tratava apenas de “negócios” na Bolívia.

Em 22 de julho de 1886, já de volta e reabilitado, Alexandre Haag conferenciou na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro diante do próprio Imperador e do seu genro, Conde d’Eu. Falou com eloquência sobre o comércio boliviano e as vantagens da EFMM, agora realocada para o traçado original entre Santo Antônio e Guajará-Mirim.

O engenheiro tinha o hábito de confundir o erário com sua carteira pessoal. Após chefiar o Distrito de Telégrafos em Manaus, foi demitido por desvio de dinheiro e fugiu para Paris sob o pretexto de tratar uma doença. Em 1893, reapareceu na Cidade Luz portando uma fortuna do governo amazonense destinada à compra de canhões e munições. Usando o pseudônimo Alfredo Hall – nome de um professor maranhense que teve os documentos furtados –, Haag ostentava nos salões da Belle Époque até que o dinheiro desapareceu. Alegou roubo; a imprensa o chamou de “gatuno” por embolsar 200 contos de réis.

Seu coração era tão volátil quanto suas finanças. Cobriu de joias a cortesã Maria Pry (cheia de passagens pela polícia) em Londres, para logo substituí-la por Paulina, com quem formou um extravagante “trisal” ao lado do marido dela, Theophilo Nodot. Viajaram em lua-de-mel. O marido verdadeiro se apresentava como irmão da própria esposa, e todos viveram loucuras em hotéis de luxo. A aventura terminou quando Paulina lhe roubou 75 mil francos em diamantes. Haag deu queixa, mas faltou à audiência, provocando risos no juiz britânico que acabou por extraditá-lo.

Ao retornar à Amazônia em 1897, contratado pela Bolívia, o passado o esperava no cais de Belém. Foi preso por falsidade ideológica e peculato, enfrentando ainda acusações de bigamia por trazer a jovem francesa Marguerite Cotton, de 18 anos, enquanto sua esposa legítima vivia em Manaus. Mesmo no cárcere, o “Doutor Alexandre” – como era tratado – não perdia a pose: de terno de casimira, falava com eloquência sobre seus projetos e ignorava seus crimes. Perdeu a patente de capitão da Guarda Nacional brasileira – uma instituição meramente decorativa, mas que conferia status aos detentores de patentes – e mofou 27 meses na cadeia.

Seus últimos anos foram uma tentativa de reinvenção. Atuou como jornalista e sertanista, publicando sobre medicina indígena. Desfilou no carnaval de 1905 fantasiado de guerreiro em gibão de couro. No mesmo ano foi, de novo, preso. A vida cobrou o preço: morreu em 1906, aos 52 anos, na cadeia de Belém, após ser espancado por um desafeto que o processara por calúnia.

Alexandre Haag não viveu para ver os trilhos da EFMM serem concluídos em 1912. Mas seus relatórios foram usados para fundamentar o Tratado de Petrópolis que culminou na construção da ferrovia e no surgimento de Porto Velho. Para alguns historiadores, foi apenas um “ordinário e vigarista”; para a história, foi um homem que teve a audácia de ser o protagonista absoluto de sua própria e escandalosa jornada. E pagou com a vida.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista