OMercado Livre, em parceria com a Dendezeiro, lança a Biomas FC, coleção de seis camisas inspirada nos biomas brasileiros que conecta moda, criatividade, sustentabilidade e o universo do futebol, territórios já percorridos pela marca. A coleção chega ao mercado com um compromisso: destinar 100% do lucro obtido com as vendas à rede Origens Brasil, que promove negócios éticos, que valorizam a floresta e seus povos, com garantia de origem e rastreabilidade.
A coleção nasce como uma extensão da atuação do Mercado Livre na agenda de sociobioeconomia, por meio do Biomas a um Clique, programa pioneiro que desde 2020 já apoiou a comercialização de mais de 300 organizações, ampliando o acesso ao mercado, gerando renda e oportunidades nos biomas brasileiros.
Por meio do ecossistema da empresa, associações, cooperativas, comunidades tradicionais da Rede Origens Brasil e pequenas empresas acessam o mercado consumidor por meio do marketplace, contam com capacitações, benefícios comerciais e logísticos, soluções financeiras e visibilidade para os seus produtos. São mais de 2 mil itens disponíveis na Página do Programa, somando mais de 183 mil itens vendidos, mais de R$ 10 milhões em faturamento para os empreendimentos participantes. Destes empreendimentos, comunidades tradicionais da Origens Brasil participam do programa desde a adesão do Mercado Livre à rede em 2024, aliando sua estratégia de Biomas a um clique, com as ações da rede.
A primeira coleção da linha Mercado Livre Basics, de produção própria do Mercado Livre, segue uma estética streetwear inspirada nas jerseys retrô dos anos 1990 e 2000. Cada peça foi cocriada com um artista brasileiro independente responsável por dar expressão visual a um bioma nacional: André Hulk assina a Amazônia, Emerson Rocha, o Cerrado, Pedro Gutierre, a Mata Atlântica, Luize Santiago, a Caatinga e Thamy, o Pantanal e Lídia Brancher, os Pampas.
Fotos: Divulgação/Mercado Livre
As estampas reinterpretam fauna, flora e referências culturais de cada território em linguagem contemporânea, conectando moda, arte e brasilidade. A coleção é limitada e estará disponível a partir de 01 de junho exclusivamente no Mercado Livre, pelo preço de R$ 199,90.
“Valorizar os biomas brasileiros é reconhecer a potência das pessoas, histórias, saberes e sabores que fazem o Brasil ser único” afirma Laura Motta, gerente sênior de Sustentabilidade do Mercado Livre. “Queremos que cada vez mais pessoas se conectem com esse universo, com esses produtos e contribuam para a geração de renda nestes territórios”, completa.
Fundado em 1999, o MercadoLibre, Inc. (NASDAQ: MELI) é a empresa líder em e-commerce e tecnologia financeira na América Latina, com operações em 18 países. Oferece um ecossistema completo de soluções para que pessoas e empresas possam comprar, vender, anunciar, obter crédito e seguros, receber pagamentos, enviar dinheiro, poupar e pagar por produtos e serviços, tanto online quanto offline.
O Mercado Livre busca facilitar o acesso ao comércio e aos serviços financeiros na América Latina, um mercado que oferece grandes oportunidades e alto potencial de crescimento. A empresa utiliza tecnologia de ponta para criar soluções intuitivas adaptadas à cultura local, com o propósito de transformar a vida de milhões de pessoas na região. Mais informações em http://investor.mercadolibre.com/
Cadastro que orienta o uso da terra ignora sítios arqueológicos na Amazônia. Foto: Sicar/Iphan/Mapbox/OpenStreet
O patrimônio arqueológico da Amazônia Legal está sobreposto a áreas privadas, assentamentos e territórios reivindicados por povos e comunidades tradicionais. Dos mais de 7 mil sítios arqueológicos registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na região, 4.769 (67%) estão em áreas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), sistema autodeclaratório e obrigatório de registro para todos os imóveis rurais do país, segundo análise exclusiva do projeto Amazônia Revelada. Apesar dessa coincidência territorial, a presença desses patrimônios não aparece nas consultas públicas do cadastro.
A sobreposição não indica, por si só, dano ao patrimônio arqueológico. O cruzamento de dados do Iphan e do CAR revela uma lacuna na forma como o Estado apresenta o território em suas bases públicas. Embora o CAR informe outras sobreposições relevantes para processos de regularização ambiental, os sítios arqueológicos não aparecem como alerta para quem consulta o sistema. Assim, áreas que contêm vestígios arqueológicos circulam em um sistema com efeitos administrativos e econômicos sem que essa informação esteja disponível ao público.
Para especialistas, essa ausência de informação tem implicações que vão além da gestão do patrimônio. “Não sobrepor informações sobre a presença do patrimônio arqueológico com bases de dados ambientais ou do uso econômico do solo resulta no apagamento da presença histórica de povos indígenas e de povos e comunidades tradicionais”, avalia Bruna Rocha, presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) e uma das coordenadoras do Amazônia Revelada.
Ela também afirma que essa ausência de informações arqueológicas dificulta “potenciais (e legítimas) reivindicações por reconhecimento desses grupos”.
“Não sobrepor informações sobre a presença do patrimônio arqueológico com bases de dados ambientais ou do uso econômico do solo resulta no apagamento da presença histórica de povos indígenas e de povos e comunidades tradicionais”, esclareceu Bruna Rocha, presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB).
Assim, a ameaça aos sítios nem sempre está associada apenas a atividades ilegais, e também pode ocorrer devido a projetos autorizados pelo próprio Estado. São grandes obras de infraestrutura submetidas a licenciamento ambiental, abertura de pastagens, agricultura, mineração e até reflorestamento ou recuperação ambiental que, quando realizados sem estudos arqueológicos adequados, podem causar danos ao patrimônio.
“Certamente, temos assistido à destruição de sítios arqueológicos autorizada pelo Estado brasileiro”, diz Rocha. Segundo a arqueóloga, algumas atividades que implicam derrubada de árvores e revolvimento do solo podem ser dispensadas de pesquisa arqueológica prévia durante o licenciamento, como ocorre em determinados casos de agricultura mecanizada. A ausência do alerta no CAR, portanto, é um sintoma: muitas vezes, os registros arqueológicos são excluídos, invisibilizados, do contexto do território.
Esse cenário se torna ainda mais complexo no contexto amazônico, já que os vestígios da presença milenar dos povos indígenas não podem ser compreendidos apenas como “pontos no mapa”. As condições de umidade, a acidez dos solos e a dinâmica das águas da região dificultam a conservação de materiais orgânicos, como ossos, fibras e madeiras. Na Amazônia, a história humana costuma se manifestar por meio de manchas de terra preta, fragmentos cerâmicos, gravuras rupestres, geoglifos e paisagens que revelam transformações ocorridas ao longo de milhares de anos.
Imóveis privados são maioria
Entre os sítios arqueológicos que apresentam sobreposição com registros do CAR, 4.046 (85%) coincidem com imóveis rurais privados, categoria que inclui minifúndios, posses e latifúndios. Outros 783 (16%) se sobrepõem aos assentamentos da reforma agrária, enquanto 405 (8%) incidem sobre territórios de povos e comunidades tradicionais. A soma ultrapassa 100% porque um mesmo sítio pode estar sobreposto a mais de uma categoria fundiária.
Segundo Thiago Trindade, coordenador da Coordenação de Gestão da Informação e Inovação (CGINF) do Centro Nacional de Arqueologia (CNA), quando um sítio arqueológico incide sobre áreas privadas, a verificação e a fiscalização em campo dependem também de condições de autorização e acesso no local, mas nem sempre isso é simples.
“Quando você chega na porteira e diz: ‘eu sou técnico do Iphan e tenho permissão para verificar um sítio arqueológico’, [e a pessoa responde:] ‘não, você não vai entrar’. O que você vai fazer? Pular a cerca? Boa parte das vezes em que a pessoa se recusa a permitir a entrada, a gente simplesmente não entra. Em casos muito excepcionais, a gente traz a Polícia Federal para acompanhar, mas é raro e muito difícil”, explica.
A forma de cadastro varia conforme a categoria: imóveis rurais privados são autodeclarados pelos proprietários; já os registros de assentamentos e de territórios de povos e comunidades tradicionais são realizados pelo poder público. O CAR, além de ser requisito para programas de regularização ambiental, como o Programa de Regularização Ambiental (PRA), criado para adequar imóveis rurais às exigências do Código Florestal, também pode influenciar o acesso a crédito, incentivos fiscais e outros benefícios.
A análise mostra também que a maior parte dos cadastros sobrepostos a sítios arqueológicos possui status considerado válido pelo sistema. Entre os sítios arqueológicos com sobreposição ao CAR, 3.929 (82%) coincidem com áreas com pelo menos um cadastro ativo. Isso não representa a aprovação definitiva da inscrição, mas indica que os declarantes superaram a etapa inicial de validação, condição necessária para avançar em procedimentos ligados à regularização ambiental e ao acesso a benefícios econômicos.
Esses dados mostram que a ausência da camada arqueológica no CAR não é apenas uma questão técnica. Ela mantém os sítios fora de um sistema estratégico para a gestão do território. A ocupação milenar fica dissociada das políticas que regulam o uso ambiental e econômico da Amazônia.
Dessa forma, a floresta pode ser vista como uma fronteira econômica, uma área de preservação ou zona de conflito, mas não como uma paisagem que também foi moldada por séculos de ocupação humana. Ao mesmo tempo, os órgãos responsáveis pela proteção e fiscalização desse patrimônio histórico enfrentam limitações estruturais — a gestão opera com recursos técnicos e humanos escassos, e com uma capacidade reduzida para monitorar áreas ameaçadas.
Trindade também lembra que, antes de 2015, o Brasil contava com apenas 20 arqueólogos no Iphan para acompanhar os processos em todo o país. Com o aumento das demandas geradas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a expansão das obras de infraestrutura, cerca de 80 profissionais temporários foram contratados e, depois, incorporados definitivamente ao quadro técnico do órgão em 2018.
Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que o Iphan segue com um número baixo de profissionais ainda em 2026: pouco mais de 100 arqueólogos, distribuídos entre a Coordenação-Geral de Licenciamento Ambiental (CGLic), o Centro Nacional de Arqueologia (CNA) e as 27 superintendências estaduais. Na Amazônia Legal, a estrutura técnica é ainda mais reduzida diante da extensão territorial e das pressões ambientais e fundiárias.
O Amazonas, maior estado do país em área, conta com apenas dois servidores para analisar projetos, realizar fiscalizações, avaliar relatórios e acompanhar o cadastramento de sítios arqueológicos. Pará, Maranhão e Mato Grosso têm três arqueólogos cada. Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins contam com apenas um profissional por estado.
“Muitas vezes, as equipes precisam responder a processos de licenciamento, fiscalização, relatórios e cadastros, enquanto a evolução de normativas, termos de referência e instrumentos tecnológicos ficam paralisados pelas demandas urgentes que chegam”, explica Trindade.
O coordenador explica que uma integração entre as bases ambientais e arqueológicas teria algumas dificuldades técnicas. Isso porque cada alerta de sobreposição poderia exigir uma manifestação técnica do órgão. Não bastaria só informar que há um sítio em determinada área, mas avaliar se ele já foi estudado ou se possui condicionantes associadas a processos anteriores de licenciamento. Segundo Trindade, parte dessas informações ainda não está sistematizada nos cadastros públicos do Iphan e pode estar dispersa em processos antigos, relatórios técnicos, ou depender de uma checagem direta na área do sítio arqueológico.
Sítios arqueológicos sobrepostos ao Car. Gráfico: InfoAmazonia. Fonte: Sicar
Há, ainda, uma nova dificuldade. Com as recentes regras do licenciamento ambiental, atualizadas pela Lei nº 15.190/2025, obras e atividades enquadradas em modalidades simplificadas — como a Licença por Adesão e Compromisso (baseada na declaração do empreendedor) — tendem a se apoiar mais em consultas a bases de dados oficiais antes que órgãos especializados, como o Iphan, sejam acionados.
Áreas com sítios podem ficar fora de avaliação prévia
Na prática, áreas com sítios ainda não registrados oficialmente nos sistemas de patrimônio cultural, processo que depende de diversas etapas técnicas e da atuação de diferentes profissionais, podem ficar fora da avaliação prévia, mesmo quando o empreendimento tem potencial para afetar o patrimônio arqueológico.
Mas, no caso da arqueologia, a ausência de registro em uma base oficial não significa ausência de patrimônio. Muitos sítios e vestígios só são identificados quando há prospecção em campo, geralmente durante os estudos do próprio licenciamento. O risco é que a consulta automatizada às bases incompletas seja interpretada como prova de inexistência de patrimônio arqueológico, e, com isso, da própria presença humana associada a essas áreas. Enquanto a dimensão humana da floresta permanecer fora da leitura ambiental do território, o mito da “terra sem gente” na Amazônia continuará encontrando novas formas de existir.
A reportagem do InfoAmazônia procurou a assessoria de imprensa do Serviço Florestal Brasileiro, órgão responsável pelo Sicar, para comentar sobre as sobreposições do CAR e a possibilidade de integração entre bases ambientais e arqueológicas, mas não recebeu uma resposta até esta publicação.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo InfoAmazônia, escrito por Lisiane Müller
Macapá (AP) recebe, nesta sexta-feira (26) e sábado (27), a primeira edição da Glocal Macapá 2026, iniciativa que chega ao estado para conectar inovação, empreendedorismo, cultura, tecnologia e desenvolvimento sustentável em uma programação gratuita e aberta ao público. O evento será realizado no Parque Residência e reunirá especialistas, empreendedores, estudantes, investidores, lideranças e representantes de diferentes setores da sociedade.
A proposta da Glocal – nome que vem da expressão “pensar global, agir local” – é democratizar a sustentabilidade, impulsionar projetos e negócios de impacto, fortalecer o protagonismo das juventudes, ampliar a visibilidade internacional da Amazônia e mostrar que desenvolvimento econômico e floresta em pé podem caminhar juntos. A programação foi construída a partir de temas estratégicos para o futuro da região, como ciência, tecnologia e inovação, economia da natureza, juventude, educação, identidade afro-indígena e posicionamento global do território.
Ao longo dos dois dias, o público terá acesso a painéis, mentorias, oficinas, experiências de realidade virtual, apresentações culturais e uma feira voltada ao ecossistema de inovação amazônico. O evento contará ainda com a participação de convidados de destaque nacional, entre eles a acreana Gleici Damasceno, campeã do Big Brother Brasil 18, além do investidor e mentor de startups Fernando Seabra, referência nacional em inovação e empreendedorismo.
“Realizar a primeira edição da Glocal Amazônia no Amapá é importante porque aproxima o estado de uma agenda nacional voltada à sustentabilidade, inovação e desenvolvimento territorial. O evento fortalece conexões entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil, valoriza as potencialidades locais e estimula soluções para os desafios da Amazônia”, destaca Matheus Aquino, coordenador de projetos da Fundação Rede Amazônica.
Na sexta-feira (26), a programação será dedicada aos diálogos sobre inovação, tecnologia, empreendedorismo e futuro do trabalho. O dia começa, das 9h às 12h30, com o workshop “Prepare-se para Enfrentar Tubarões”, conduzido por Fernando Seabra.
A partir das 14h, o Palco Glocal recebe debates sobre temas estratégicos para o desenvolvimento regional. A abertura contará com o painel “Amapá 2050 – Amazofuturismo e a construção de novos caminhos”, que terá a participação do governador do Amapá, Clécio Luís, além de representantes de instituições de ensino, inovação e desenvolvimento regional.
Na sequência, o público acompanhará os painéis “Inovação Tucuju – Ciência, Tecnologia e o boom do açaí”, “Amazôn.IA – Inteligência Artificial aplicada na região Amazônica” e “Profissões que Não Existem – Futuro do trabalho em tempos de inovação digital”. Encerrando a programação do dia, Fernando Seabra apresenta a keynote especial sobre inovação e futuro.
No espaço Glocal LAB, das 16h às 20h, o público poderá participar de oficinas e experiências tecnológicas, incluindo exibição de filmes em realidade virtual, atividades sobre inteligência artificial, modelagem 3D aplicada à biodiversidade amazônica e comunicação digital para pequenos negócios.
A programação comunitária também marca presença na sexta-feira, no Residencial Vila dos Oliveiras, com exposição escolar do Kit Solar Castanheiro, oficina de geração de energia solar com a Poraquê Energia e apresentação de circo de rua.
Já no sábado (27), a programação segue com novas oportunidades de aprendizado, integração comunitária e valorização da cultura amazônica. No Palco Glocal, das 10h às 13h, acontece o Pitching: No Tanque com os Tubarões, novamente com participação de Fernando Seabra. O vencedor ganhará como prêmio a participação do evento nacional Startup Summit 2026, programado para 26, 27 e 28 de agosto, em Santa Catarina, incluindo passaporte completo para os 3 dias de evento, além de transporte e hospedagem.
No Residencial Vila dos Oliveiras, serão realizadas oficinas de moda artesanal e saboaria amazônica, promovidas pelo projeto Zwanga. O Parque Residência também receberá a Vila Glocal, com feira de startups, impressão 3D, pintura corporal indígena, experiências em realidade virtual, oficinas de robótica e atividades circenses.
Entre as atrações culturais, o público poderá acompanhar apresentações de slam de poesia, roda de capoeira, break dance e a manifestação cultural Marabaixo Raízes da Favela.
Encerrando a programação, o Palco Fest, a partir das 19h, reunirá atrações musicais regionais, entre elas Letícia Auolly, Ariel Moura, Salomão Monteiro, Amazônia Fusion, Jhimmy Feiches e Bell Brandão.
Realizada no Parque Residência, a Glocal Macapá pretende consolidar um ambiente de encontro entre inovação, conhecimento, cultura e desenvolvimento sustentável, reforçando o potencial da Amazônia como território de soluções para os desafios do presente e do futuro.
Serviço
Evento: Glocal Macapá 2026 Data: 26 e 27 de junho de 2026 Local: Parque Residência – Macapá (AP) Entrada: Gratuita
O caso da Ponta do Cururu, em Alter do Chão, reacende uma antiga discussão sobre pertencimento, memória e o valor das paisagens amazônicas.
O sol começa a descer sobre o Tapajós.
As águas transparentes refletem tons de ouro e cobre. As areias brancas da Ponta do Cururu recebem visitantes de todas as partes do Brasil e do mundo. Ao amanhecer, gaivotas cruzam o horizonte. Ao entardecer, o rio oferece um dos espetáculos mais belos da Amazônia.
Ali, diante daquela paisagem que parece eterna, ninguém imagina que um dia alguém pudesse colocar um preço em tudo aquilo.
Mas foi exatamente isso que aconteceu.
A notícia do leilão da Ponta do Cururu provocou reações imediatas e levou o Ministério Público Federal a atuar para suspender o procedimento. Os aspectos jurídicos seguirão seu curso e caberá às instituições esclarecer a legalidade da operação.
Mas existe uma questão maior.
Quem pode vender uma paisagem?
Não me refiro apenas à terra.
Refiro-me à memória, à identidade e ao sentimento de pertencimento que um lugar desperta em um povo.
Foto: Olimpio Guarany/ Acervo cedido ao Portal Amazônia
A discussão surge justamente quando Santarém celebra seus 365 anos de história. Uma cidade moldada pelo encontro entre rios, florestas, culturas e povos que aprenderam a viver em íntima relação com as águas da Amazônia.
Muito antes da chegada dos colonizadores e dos missionários europeus, os Boraris já habitavam aquela região. O Tapajós já seguia seu curso majestoso em direção ao Amazonas. As praias apareciam durante a vazante. O pôr do sol já iluminava as águas cristalinas que hoje encantam visitantes do mundo inteiro.
A história daquele lugar não começou com uma escritura.
Por isso, quando a Ponta do Cururu é transformada em ativo financeiro, o desconforto vai muito além de uma disputa imobiliária.
Ao longo dos séculos, diferentes interesses disputaram a Amazônia. Mudaram os personagens, os discursos e os instrumentos de controle. Mas a pergunta continua a mesma:
Quem decide o destino da Amazônia?
Essa reflexão se torna ainda mais necessária num momento em que quase tudo parece receber uma etiqueta de preço. A floresta vale pela madeira. O subsolo vale pelo minério. Os rios valem pela energia. O carbono ganha valor nos mercados internacionais.
Agora, até as paisagens parecem entrar nessa lógica.
Mas nem tudo pode ser medido em hectares ou milhões de reais.
Depois de navegar por milhares de quilômetros nos rios amazônicos, aprendi que existem lugares cuja importância ultrapassa qualquer avaliação financeira.
A Ponta do Cururu é um deles.
Gaivotas na Ponta do Cururu, no Pará. Foto: Olimpio Guarany/Acervo pessoal
Ela faz parte do imaginário amazônico, da memória dos povos que viveram e vivem às margens do Tapajós e da história de Santarém e da própria região amazônica.
Por isso, defender lugares como esse não é um gesto contra o desenvolvimento nem uma recusa ao progresso.
É afirmar que existem patrimônios que precisam ser compreendidos para além da lógica do mercado, porque carregam história, cultura, ancestralidade e significado.
Ao longo dos séculos, muitos tentaram controlar a Amazônia. Mudaram os interesses, os métodos e os argumentos. Mas a floresta, os rios e os povos amazônicos continuam lembrando que existe uma dimensão do território que não cabe em escrituras, contratos ou avaliações financeiras.
O Tapajós continuará correndo depois dos processos judiciais, dos contratos e dos leilões.
Continuará refletindo o céu azul da Amazônia e testemunhando a passagem das gerações.
A questão é saber se nós seremos capazes de compreender o valor daquilo que recebemos como herança.
Porque algumas paisagens são grandes demais para pertencer apenas a um proprietário.
Elas pertencem à memória coletiva de um povo.
E quando uma paisagem da Amazônia vai a leilão, o que está em disputa não é apenas uma área de terra.
Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.
Mais de 100 mudas foram plantadas na manhã desta terça-feira (23) por estudantes da Escola Estadual Maria Neusa Carmo de Souza, durante uma ação de educação ambiental promovida pelo projeto Amapá em Campo, da Fundação Rede Amazônica. A atividade foi realizada no Recanto do Amor, localizado às margens da Rodovia Duca Serra, no Bairro do Coração, na Zona Oeste de Macapá.
Ao todo, 35 estudantes participaram da programação, que uniu conscientização ambiental, cidadania e incentivo à preservação dos espaços públicos. Além do plantio, os alunos participaram de momentos de reflexão sobre a importância das áreas verdes para a qualidade de vida nas cidades e para a conservação do meio ambiente.
As mudas plantadas também passarão a integrar a plataforma Tree Earth, onde serão registradas e monitoradas por satélite. Cada árvore receberá um registro único com informações como georreferenciamento, fotografia, espécie, data de plantio e identificação de quem realizou o plantio, garantindo maior rastreabilidade e credibilidade à ação.
Foto: Divulgação
Segundo o CEO da Tree Earth, Vicente Tino, a tecnologia permitirá acompanhar o desenvolvimento das árvores ao longo do tempo.
“A gente já referenciou todas elas. Todas terão sua identidade e idade de nascimento. Esse bloco de cem árvores terá uma imagem de satélite atualizada a cada seis meses dentro da plataforma”, explicou.
Para o coordenador de projetos da Fundação Rede Amazônica, Matheus Aquino, ações práticas contribuem para aproximar os jovens das questões ambientais e fortalecer o compromisso com a sustentabilidade.
“Quando os estudantes participam diretamente dessas atividades, eles passam a compreender melhor a importância da preservação ambiental e do cuidado com os espaços onde vivem. Nosso objetivo é incentivar atitudes que gerem impactos positivos para toda a comunidade”, destacou.
Entre os participantes da ação estava o estudante Paulo Henrique Medeiros, de 11 anos, que ressaltou a experiência de participar do plantio ao lado dos colegas.
“Foi muito divertido participar com os alunos, professores e toda a equipe. Achei muito legal plantar as mudas e aprender mais sobre o meio ambiente. Muitos colegas plantaram várias mudas e eu quero voltar daqui a alguns anos para ver como elas cresceram”, afirmou.
Paulo também destacou a importância da iniciativa para a natureza: “Essas árvores vão servir de casa para os passarinhos, papagaios e outros animais. Daqui a alguns anos, eles estarão aqui e nós poderemos visitar esse lugar novamente”.
A atividade integra a programação do Amapá em Campo, iniciativa da Fundação Rede Amazônica que utiliza o esporte como ferramenta de mobilização social e fortalecimento comunitário. Além das atividades esportivas, o projeto promove ações culturais, intervenções de arte urbana e atividades de educação ambiental em diferentes regiões de Macapá.
Ao longo do mês de junho, o projeto vem transformando espaços da capital amapaense por meio de pinturas inspiradas na identidade amazônica e ações voltadas à valorização dos espaços públicos e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. No último fim de semana, moradores da região do Zerão participaram de uma programação voltada à integração comunitária e à ocupação positiva dos espaços públicos.
Amapá em Campo
O Amapá em Campo é uma iniciativa da Fundação Rede Amazônica (FRAM), que utiliza o esporte como ferramenta de mobilização social para promover integração comunitária, valorização cultural e conscientização ambiental.
O projeto transforma espaços públicos por meio da arte urbana, da participação popular e de ações sustentáveis, contribuindo para o fortalecimento dos territórios e para a construção de comunidades mais acolhedoras e conectadas com a realidade amazônica.
Mudanças nas posições das cabines dos jurados são uma das principais novidades para o Festival Folclórico de Parintins 2026. Agora localizadas na parte central da arquibancada, as novas cabines devem alterar a forma como os avaliadores acompanham o espetáculo, sem modificar a tradição da interação entre os itens e as galeras.
Em 2026, o tradicional Festival acontece nos dias 26, 27 e 28 de junho. A festa popular celebra a cultura amazônica e a rivalidade centenária entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido.
A centralização das cabines dos jurados no Festival Folclórico de Parintins tem gerado dúvidas entre torcedores e visitantes às vésperas do início da disputa entre Caprichoso e Garantido. Afinal, o que muda no julgamento? Os itens vão deixar de se apresentar para as galeras? E por que a decisão foi tomada? O presidente da Comissão Julgadora do festival, Wanderley Pantoja, esclareceu as essas questões.
Segundo Pantoja, a mudança foi definida em comum acordo entre as agremiações folclóricas e a Comissão Organizadora do evento, após dificuldades apontadas pelos próprios jurados em edições anteriores, especialmente na avaliação dos itens musicais.
“A decisão levou em consideração relatos de jurados que participaram de edições anteriores e apontaram algumas dificuldades relacionadas à localização das cabines laterais, especialmente quanto à avaliação dos itens musicais, como Batucada e Marujada, em razão das condições acústicas e da posição em relação às apresentações”, afirmou.
Neste ano, serão instaladas nove cabines destinadas aos jurados e uma cabine exclusiva para o presidente da Comissão Julgadora, todas posicionadas na parte central do Bumbódromo, abaixo das arquibancadas especiais. Nos últimos anos, os avaliadores acompanhavam o espetáculo em cabines localizadas nas laterais da arena.
Área central do bumbódromo. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM
O que muda nas apresentações?
Apesar da alteração na posição dos jurados, a dinâmica geral do espetáculo será mantida, segundo a comissão, não mudando nada nas apresentações em relação a edições anteriores.
Os itens individuais do Bloco B, como cunhã-poranga, sinhazinha da fazenda, porta-estandarte e rainha do folclore, continuarão interagindo com o público das arquibancadas laterais, além de se apresentarem diante da Comissão Julgadora.
“Quanto à evolução dos itens, a dinâmica geral das apresentações permanece a mesma. No entanto, houve entendimento entre as partes envolvidas de que os itens individuais do Bloco B deverão realizar suas apresentações também voltadas para as duas galeras, valorizando o público presente nas arquibancadas laterais e mantendo a interação tradicional que caracteriza o Festival Folclórico de Parintins”, disse.
Embora essa adequação ainda não tenha sido formalmente incorporada ao regulamento, Wanderley afirmou que há consenso sobre a necessidade de contemplar tanto os jurados quanto as torcidas.
Segurança e melhores condições de trabalho aos jurados
Segundo o presidente da Comissão Julgadora, a mudança também busca oferecer mais segurança, conforto e melhores condições para que os avaliadores desempenhem suas funções.
“A centralização das cabines contribui para melhores condições de trabalho aos jurados. Nas edições anteriores, as cabines laterais estavam localizadas em áreas próximas a camarotes, o que ocasionava situações de assédio, abordagens indevidas e dificuldades operacionais”, explicou.
Ele também citou problemas relacionados à estrutura de apoio oferecida aos jurados: “Também havia problemas relacionados à estrutura de apoio, como acesso a banheiros e deslocamento dos jurados durante as apresentações”.
Para Wanderley Pantoja, a nova configuração deve fortalecer a qualidade e a credibilidade do julgamento.
“Dessa forma, a nova configuração busca oferecer maior segurança, conforto, imparcialidade e melhores condições técnicas para o desenvolvimento dos trabalhos da Comissão Julgadora, preservando a qualidade do julgamento e contribuindo para a transparência do resultado final do Festival”, concluiu.
Minúsculas mariposas amarronzadas, conhecidas como Eois russearia. Foto: Reprodução/Instagram-@universocooperartivo27
O que se acreditava ser uma única espécie de mariposa, descrita em 1818, se mostrou um complexo de espécies, com oito delas encontradas no Brasil. Os resultados se deram a partir de um trabalho que integrou técnicas moleculares, dados de morfologia e identificação das plantas hospedeiras de populações da Amazônia, Mata Atlântica e Pantanal.
O estudo foi publicado na revista Scientific Reports por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP).
“O trabalho mostra como a integração de diferentes técnicas é importante na descrição de espécies, apontando como métodos de última geração são bem-vindos, mas não necessariamente suficientes, para trazer uma nova espécie à luz da ciência”, conta Simeão de Souza Moraes, coordenador do estudo e pesquisador do Instituto de Biologia da Unicamp.
De acordo com o coordenador, o processo de escolha dos nomes traz um caráter anticolonial e anti-imperialista ao nomear as novas espécies usando referências da cultura afro-brasileira, que contraria uma prática bastante recorrente no processo de nomenclatura de utilizar nomes para organismos da fauna neotropical com referência à cultura do Norte Global, como deuses gregos e romanos.
As minúsculas mariposas amarronzadas, com cerca de dois centímetros da ponta de uma asa a outra, eram todas conhecidas como Eois russearia. O que era uma espécie, na verdade, representa um complexo de várias espécies, sendo oito delas com distribuição no Brasil. Sete receberam nomes em homenagem a orixás do candomblé e da umbanda e uma em tributo a uma coautora do trabalho, que faleceu antes de o estudo ser publicado.
As novas oito espécies de mariposas, cada uma representada por uma letra, antes eram classificadas como apenas uma, Eois russearia. Semelhanças morfológicas impossibilitam classificação precisa a olho nu. Foto: Georgette Paola Ancajima/IB-Unicamp
Eois iemanja e E. ibeji ocorrem às margens do rio Mogi Guaçu, no município de mesmo nome, em São Paulo, na transição entre Cerrado e Mata Atlântica. E. nanan e E. iogunede ocorrem no Pantanal, tendo os espécimes usados na descrição sido coletados no município de Aquidauana (MS).
Na Amazônia, nos arredores de Manaus (AM), foram descritas E. oxumare, E. orumila, E. iroco e E. stantonae, esta última em homenagem a Mariana Alves Stanton, pesquisadora do Instituto de Química da USP que trabalhava no estudo quando faleceu, em 2024.
As novas descrições ajudam a entender melhor a diversidade de lepidópteros (borboletas e mariposas) do Brasil e as interações ecológicas desses insetos com as plantas do gênero Piper, que podem envolver o sequestro de compostos secundários, moléculas naturais presentes nas plantas e com potencial para prospecções biotecnológicas.
Sequências do gene COI (usado para diferenciar espécies), depositadas em bancos de dados públicos e usadas como referência para o estudo, apontam a possibilidade de haver outras três espécies no complexo. No entanto, não houve possibilidade de acesso aos indivíduos sequenciados para estudos morfológicos ou informações de planta hospedeira.
O trabalho integra o projetoapoiado pela FAPESP na modalidade Jovem Pesquisador e outro no âmbito do Programa BIOTA.
Diferentes espécies de mariposas
Em um trabalho anterior, o grupo de Moraes havia descrito outras três espécies de mariposas do mesmo gênero, nomeadas também em homenagem a orixás. E. oya, E. ewa e E. oxum resultaram da separação do que era conhecido como uma espécie, E. pallidicosta.
As descrições são desdobramento de um estudo de 2020 que verificou que o número de espécies do gênero Eois estava subestimado e podia ser até 176% maior do que o conhecido até então.
Assim como os outros complexos de espécies estudados anteriormente, o descrito agora tem muitas semelhanças morfológicas entre si, dificultando a diferenciação a olho nu, mesmo para especialistas. Para complicar, há três espécies na mesma área da Amazônia, na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus (AM), duas na mesma localidade de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, em Mogi Guaçu (SP), e duas no Pantanal, em Aquidauana (MS).
(a) Male habitus (b) Male habitu (c) Male genitalia (d) Male genitalia (e) Male genitalia. Foto: Reprodução/Artigo
Mais do que diferenças genéticas, no entanto, duas informações não tão usadas em descrições de espécies foram fundamentais para cravar a distinção. Uma foi a morfologia da genitália feminina, um atributo historicamente subestimado em trabalhos de descrição de borboletas e mariposas. Outra foi o registro das plantas hospedeiras usadas pelas lagartas para alimentação.
Alguns insetos – certas borboletas e mariposas entre eles – são conhecidos por interações com plantas específicas, muitas vezes relacionadas com o sequestro de compostos secundários. No caso do gênero estudado agora, Eois, ele é conhecido por depositar ovos nas plantas do gênero Piper, que inclui a pimenta-do-reino, e suas larvas se alimentarem das folhas dessas plantas.
A equipe contou com um botânico, que identificou as espécies de pimenta usadas pelas mariposas. O grupo observou, então, que espécies diferentes de mariposa interagem com espécies diferentes de Piper de forma exclusiva. Outra diferenciação foi possível dissecando a genitália das fêmeas, uma vez que a dos machos é muito parecida entre as espécies. Um viés histórico na identificação de espécies é justamente analisar apenas a genitália masculina.
No caso das mariposas, os machos apresentam a genitália com estrutura mais endurecida, enquanto a das fêmeas é mais membranosa e, por isso, danificada mais facilmente no processo de dissecção.
“Quando se analisa o órgão sexual feminino das mariposas, a diferença é muito grande. Ainda que não houvesse ferramentas moleculares, seria possível diferenciar as espécies com bastante precisão combinando a morfologia da genitália feminina e o registro da planta hospedeira das lagartas”, diz Moraes.
Foto: Divulgação / Unicamp
O trabalho mostra ainda um padrão de diversidade diferente do que se costuma encontrar para o grupo de mariposas a que Eois pertence (Larentiinae). Mais diverso em regiões temperadas, de média latitude, nos trópicos a sua diversidade tem sido mais estudada nos Andes, que apresenta condições climáticas semelhantes àquelas das regiões temperadas.
A diversidade de espécies para regiões de baixas altitudes nos trópicos, como as áreas de Mata Atlântica, Amazônia e Pantanal (onde foram descritas duas ou mais espécies em cada), revela um novo padrão.
“Nossos resultados demonstram que regiões baixas também abrigam uma significativa diversidade de espécies, provavelmente por causa de interações altamente especializadas entre larvas e suas plantas hospedeiras que criam pressões seletivas diferentes mesmo em curtas distâncias geográficas”, encerra o pesquisador.
Populações tradicionais vivem em algumas Unidades de Conservação do Amazonas. Foto: Divulgação/FAS
O Amazonas possui uma área protegida por Unidades de Conservação maior que países inteiros. Somente as 42 áreas administradas pelo governo estadual somam cerca de 19 milhões de hectares de floresta preservada, um território maior que o Uruguai e superior à soma dos estados do Ceará e de Santa Catarina.
O tamanho desse território transforma o estado em um dos principais exemplos de conservação ambiental do país, mas também revela um dos maiores desafios: como fiscalizar e garantir a presença do poder público em áreas tão extensas e de difícil acesso.
As Unidades de Conservação são áreas protegidas por lei para preservar a natureza e seus recursos.No Amazonas, elas incluem diferentes categorias, como Áreas de Proteção Ambiental (APAs), Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS), Reservas Extrativistas (Resex), Parques Estaduais, Monumentos Naturais e Florestas Estaduais.
Cada tipo de unidade tem regras próprias. Algumas permitem a presença de moradores e o uso controlado dos recursos naturais, enquanto outras têm normas mais restritivas para garantir a preservação da biodiversidade.
Segundo dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 260 mil pessoas vivem dentro de Unidades de Conservação no Amazonas. Do total, cerca de 96% estão em áreas de Uso Sustentável, como RDS e Resex, onde a conservação da floresta ocorre junto com a moradia e o sustento de comunidades tradicionais.
Os 19 milhões de hectares administrados pelo governo estadual fazem parte de uma rede ainda maior de proteção. Somadas às unidades estaduais, existem outras 41 áreas sob gestão federal e nove municipais.
Esse território funciona como uma barreira contra o avanço do desmatamento ilegal, do garimpo e da ocupação irregular de terras, principalmente em regiões mais vulneráveis do estado.
À Rede Amazônica, o secretário de Estado do Meio Ambiente do Amazonas, Eduardo Taveira, afirmou que a distância entre as unidades é um dos principais obstáculos para manter uma gestão permanente dessas áreas.
“Gerenciar 19 milhões de hectares territorialmente grandes e geograficamente distantes é um dos nossos principais desafios. Nossa estratégia tem sido fortalecer a gestão comunitária, apoiar associações locais e integrar políticas públicas com outras áreas, como Educação e Saúde”, afirmou.
Segundo Taveira, existem unidades próximas de Manaus, com acesso em poucas horas de lancha, mas também áreas onde o deslocamento leva dias e envolve custos elevados de logística.
Ele cita como exemplo reservas como a RDS do Cujubim e a RDS do Rio Gregório, onde o transporte pode exigir operações aéreas e terrestres com valores superiores a R$ 12 mil por pessoa em agendas que partem da capital.
Além da distância, o secretário aponta a falta de recursos financeiros e os impactos das crises climáticas como desafios para a gestão ambiental.
Segundo ele, investimentos em conservação disputam espaço com áreas como saúde e educação e, por isso, o estado busca recursos externos para ações de monitoramento e proteção de áreas ameaçadas pelo desmatamento, principalmente no sul do Amazonas.
“Os recursos necessários para dar conta de todas essas políticas públicas, diante do tamanho do desafio do Amazonas, são muito escassos. Por isso, recursos de cooperação internacional são fundamentais para manter a gestão das unidades de conservação e as estratégias de prevenção e combate ao desmatamento”, afirmou
Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace
Quem vive nas áreas de proteção
Nas unidades de Uso Sustentável, a preservação da floresta acontece junto com a permanência das comunidades tradicionais.
Diferente de áreas de proteção integral, como Parques Nacionais e Estações Ecológicas, onde a presença humana é limitada, reservas como as RDS e Resex permitem que famílias vivam e desenvolvam atividades econômicas de baixo impacto.
É o caso de comunidades que trabalham com manejo sustentável do pirarucu, coleta da castanha-do-amazonas, cultivo da mandioca e turismo de base comunitária.
Apesar da importância dessas populações para a conservação, moradores enfrentam desafios diários, como isolamento geográfico e dificuldade de acesso a serviços básicos, como energia elétrica, internet, água potável e educação.
Para o doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia Antonio Norte, um dos principais problemas é garantir segurança jurídica para quem vive nessas regiões
“As Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as Reservas Extrativistas foram criadas justamente para conciliar conservação ambiental e permanência das populações tradicionais. Mas ainda existem dificuldades relacionadas à regularização fundiária e à formalização dos direitos dessas comunidades”, explicou.
Mesmo com uma das maiores áreas protegidas do Brasil, as Unidades de Conservação continuam sob pressão. Especialistas alertam que áreas localizadas próximas a estradas e fronteiras agrícolas, principalmente APAs e reservas, sofrem com o avanço de atividades ilegais.
O desafio não está apenas em criar áreas protegidas, mas em garantir estrutura para acompanhar um território maior que muitos países. Antonio Norte esclarece que existe uma diferença entre a proteção prevista na legislação e a capacidade prática de monitorar uma área tão extensa.
“Existe uma diferença significativa entre a proteção prevista na legislação e a capacidade operacional do Estado para monitorar territórios tão extensos e de difícil acesso. O desafio envolve recursos humanos, logística, tecnologia, orçamento e presença institucional permanente”, completou.
Cada pessoa pode escrever apenas um material que conte a história do personagem para o Projeto Literário. Na foto o Mercado Público de Rio Branco na década de 40 do século XX. Foto: Reprodução/Acervo Digital Deptº de Patrimônio Histórico e Cultural – FEM
Personagens, comunidades e grupos sociais que contribuíram para a construção da história do Acre, mas que permanecem pouco conhecidos da população, podem ter suas trajetórias registradas na Antologia Acreana ‘Vozes Esquecidas’, projeto que vai reunir relatos e produções literárias sobre os chamados heróis anônimos do estado.
As inscrições podem ser feitas até 15 de agosto, por meio de formulário eletrônico disponibilizado pela organização ou pelo endereço informado nos canais oficiais da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil (Ajeb).
A iniciativa é da Academia Acreana de Letras (AAL), com a Ajeb – Coordenação Acre e a Sociedade Literária Acreana (SLA).
A participação é destinada a autores brasileiros, acreanos ou residentes no estado, com idade mínima de 18 anos. O lançamento da obra está previsto para novembro deste ano.
A taxa de adesão é de R$ 300. Segundo o edital, o valor será destinado aos custos de revisão, preparação editorial, projeto gráfico, diagramação, impressão, registro ISBN e demais despesas relacionadas à produção da obra.
Cada participante receberá dois exemplares impressos da antologia. Exemplares adicionais poderão ser adquiridos separadamente.
Projeto busca valorizar personalidades acreanas. Foto: Divulgação
Além disso, a publicação busca preservar memórias e valorizar histórias de pessoas e comunidades que contribuíram para o desenvolvimento histórico, cultural, social e humano do estado.
Os textos devem abordar o tema ‘Vozes Esquecidas’ e podem ser inscritos nos gêneros crônica, conto, relato literário, texto memorialístico, poema ou prosa poética.
Cada participante poderá inscrever apenas um texto inédito, escrito em língua portuguesa. Os autores selecionados terão espaço para publicação do trabalho, além de fotografia e minibiografia na coletânea.
Os textos passarão por curadoria editorial para verificação do cumprimento das normas do chamamento, adequação ao tema e observância de critérios éticos e legais.
Prazos para participar do projeto
Inscrições: de 15 de junho a 15 de agosto de 2026;
Revisão editorial e diagramação: agosto e setembro de 2026;
A mudança do clima impacta diretamente as populações que vivem em Unidades de Conservação (UCs), o que repercute diretamente na segurança alimentar e nutricional dessas populações. Por outro lado, essas famílias de povos e comunidades tradicionais cumprem importante papel na conservação dos recursos naturais, dos conhecimentos tradicionais e da sociobiodiversidade nesses territórios.
Consolidado como política pública relevante para o combate à fome e promoção da segurança alimentar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passa a ser uma alternativa estratégica viável para as famílias agricultoras que vivem em UCs federais, que são geridas pelos Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Resultado da parceria entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e ICMBio, foi oficialmente lançado, na última quinta-feira (14/05), em Cachoeira, município da Bahia, o PAA em Unidades de Conservação.
O PAA UC tem como objetivo ampliar e garantir a participação de povos e comunidades tradicionais residentes nestas UCs no programa, promovendo a inclusão por meio da aquisição de produtos in natura, perecíveis e não perecíveis, respeitando os hábitos alimentares locais. O foco está na modalidade Compra e Doação Simultânea (CDS), que permite a aquisição de alimentos diretamente das comunidades. Nessa modalidade, cada agricultor ou agricultora familiar apto pode acessar até R$ 15 mil por ano.
A iniciativa foi construída a partir de amplo diálogo, realizado entre os órgãos envolvidos desde o ano passado. Na Região Nordeste, os primeiros estados contemplados são Bahia e Maranhão. Que somados ao Acre, Amazonas e Pará, na região Norte, totalizam o montante de R$ 13,1 milhões em recursos do MDS, distribuídos entre os cinco estados. Ao todo, serão atendidas 42 Unidades de Conservação federais, localizadas em 53 municípios. Segundo dados do MDS, estão aptas a participarem do PAA UC como fornecedoras de alimentos nesses territórios mais de 2 mil famílias agricultoras.
Ao ser implementado nas UCs, o PAA consolida-se como estratégia estruturante para a promoção do desenvolvimento socioambiental sustentável e de inclusão produtiva. Para a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério, Lilian Rahal, além de reconhecer o papel destas populações na conservação dos recursos naturais e da sociobiodiversidade, o Programa voltado às unidades reconhece os modos de vida e valoriza os conhecimentos tradicionais e a produção de alimentos saudáveis, ligados à cultura alimentar local.
“Ganham as famílias que produzem, ganham também as famílias que recebem alimentos e o país como um todo, que, ao sair do Mapa da Fome, segue dando passos importantes rumo à promoção do direito de toda pessoa a se alimentar de forma adequada e saudável”, completou a secretária.
No evento de lançamento, o presidente do ICMBio, Mauro Pires, lembrou que o PAA foi criado no primeiro governo Lula, testado no segundo governo e retomado com aperfeiçoamentos no atual governo.
“O resultado, entre outros, foi, mais uma vez, a contribuição para retirar o Brasil do Mapa da Fome. Temos nossos desafios, mas estamos num momento muito importante de nos fortalecer e seguir avançando”, disse.
Simbolismos no lançamento do PAA UC em Cachoeira (BA)
No que se refere às Unidades de Conservação da região Nordeste, foram priorizadas nesse primeiro momento as unidades costeiras e marinhas. A escolha da Reserva Extrativista (Resex) Marinha Baía do Iguape como local de lançamento teve por inspiração a diversidade de povos e comunidades tradicionais residentes na região e seu entorno, como pescadores artesanais, quilombolas, povos e comunidades de terreiros.
Esta é a UC com maior presença de população tradicional do Brasil, possui cerca de nove mil famílias, segundo dados do último Levantamento de Famílias (SisFamílias) realizado pelo ICMBio em 2025. O território abrange três municípios: Cacheira, São Félix e Maragogipe, com 100 comunidades, sendo estas 65 comunidades rurais e 35 localidades urbanas e periurbanas.
A maior parte das famílias quilombolas da unidade são chefiadas por mulheres, que residem no entorno da Baía do Iguape e desenvolvem atividades ligadas primariamente à mariscagem de ostras e sururus – ocupação essencialmente feminina – e secundariamente à pesca de siris, camarões e peixes, e constituem-se enquanto a região de maior produção de marisco da Bahia. Também são famílias agricultoras e extrativistas, dedicam-se a produção agrícola familiar e ao extrativismo vegetal na Mata Atlântica do interior e entorno da Resex.
Parte do território tem uma produção relevante e considerável para comercialização e parte do território vive em situação de vulnerabilidade e INSAN grave. Os dados do recente Levantamento Socioeconômico de Famílias (2025), identificou 367 famílias em situação de extrema vulnerabilidade e insegurança alimentar, distribuídas nos três municípios da Resex.
Benefícios
O PAA em Unidades de Conservação fortalece a resiliência ambiental dos territórios, ao incentivar práticas produtivas tradicionais e sustentáveis que tem no Programa a garantia de escoamento da sua produção. Ou seja, promove geração de renda com conservação ambiental, compatível com os objetivos dos planos de manejo e com a missão do ICMBio: cuidar da natureza com as pessoas.
Para mais, ao garantir a inclusão de públicos prioritários, como agricultores familiares, extrativistas, pescadores artesanais, quebradeiras de coco de babaçu, entre outros, o Programa contribui para a permanência desses povos e comunidades em seus territórios e promove um modelo de desenvolvimento com justiça social e ambiental: conservação da natureza integrada à soberania e segurança alimentar e nutricional.
O Programa de Aquisição de Alimentos é uma política pública do Governo do Brasil, com foco na promoção da segurança alimentar e nutricional junto a pessoas em situação de vulnerabilidade, enquanto fortalece a atividade produtiva. O programa adquire alimentos produzidos pela agricultura familiar e os doa à rede socioassistencial, à rede pública e filantrópica de ensino e a outras instituições, com prioridade para unidades recebedoras situadas nos próprios territórios.
Retomado em 2023, o Programa é liderado pelo MDS e executado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), governos estaduais e municipais. A ação coordenada entre entes do governo federal, estados e municípios reforça a importância do pacto federativo na direção de promover a segurança alimentar no país.