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Nove pontos turísticos que mostram a diversidade da Amazônia brasileira

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Foto: Reprodução/Youtube-Instituto Soka Amazônia

A Amazônia ocupa mais da metade do território nacional e se estende por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Além da floresta, o bioma – o maior do mundo – reúne rios, serras, áreas alagadas, unidades de conservação e territórios indígenas que compõem uma das maiores ofertas de turismo de natureza do país.

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De parques nacionais e estaduais a experiências de turismo de base comunitária, os destinos amazônicos oferecem atividades como observação de fauna, trilhas, passeios de barco, montanhismo, banhos de cachoeira e vivências com comunidades tradicionais.

As paisagens e os roteiros variam conforme as características ambientais e culturais de cada estado, ampliando as possibilidades para visitantes interessados em conhecer a Amazônia.

Confira alguns atrativos e destinos separados por estados que permitem explorar a diversidade de ecossistemas e as formas de interação entre conservação ambiental, cultura local e turismo na Amazônia.

Acre

No Parque Nacional da Serra do Divisor, o ponto mais ocidental do Brasil, o turista encontra um verdadeiro refúgio de ecoturismo e biodiversidade amazônica.

Na região do Rio Moa, é possível explorar trilhas na floresta tropical, banhar-se em um circuito de cerca de sete cachoeiras e observar mais de 1.200 espécies de animais, incluindo pássaros como a choca-do-acre e macacos endêmicos.

O ponto alto da contemplação fica no mirante da Serra, a 500 metros de altitude, que oferece uma vista panorâmica única para assistir a um dos últimos pôr do sol observados no território brasileiro.

A experiência na região é enriquecida pelo contato direto com as comunidades ribeirinhas e os territórios das etnias indígenas Nawa e Nukini, onde o turista pode ouvir histórias e lendas locais e saborear a gastronomia típica da floresta, com pratos à base de peixes de água doce e frutas regionais que constroem o cenário da Amazônia.

Parque Nacional da Serra do Divisor é considerado o ponto mais ocidental do Brasil e um dos locais para conhecer a Amazônia. Foto: Pedro Devani/Secom Acre

Amapá

Um dos principais destinos que unem turismo e natureza no estado é o Parque Nacional do Cabo Orange, localizado no extremo norte do país, onde o visitante pode realizar passeios de barco pelos rios e canais da região para observar extensos manguezais, campos alagados e uma rica fauna composta por guarás, garças e outras aves costeiras.

Já no coração do estado, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, considerado uma das maiores áreas contínuas de floresta tropical protegida do mundo, atrai visitantes interessados em expedições pela floresta amazônica, trilhas, cachoeiras, corredeiras e observação da fauna, incluindo espécies como a onça-pintada, a harpia e o macaco-aranha.

Outro destaque é a região de Ferreira Gomes e Porto Grande, banhada pelo Rio Araguari, onde o turista pode aproveitar balneários naturais, navegar por rios de águas cristalinas, praticar pesca esportiva de espécies como o tucunaré e contemplar paisagens típicas da Amazônia preservada.

Localizado no extremo norte do Brasil, Parque Nacional do Cabo Orange une o que há de mais bonito de manguezais e uma rica fauna. Foto: Reprodução/Entre Parques

Amazonas

O Parque Nacional de Anavilhanas, em Novo Airão, reúne um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, com centenas de ilhas e canais do Rio Negro, onde o visitante pode navegar por paisagens da floresta preservada, percorrer trilhas e observar botos-cor-de-rosa.

Em Presidente Figueiredo, conhecida como a “Terra das Cachoeiras“, o destaque são as trilhas que levam às quedas d’água, corredeiras e grutas em meio à floresta. Outro atrativo são os passeios pelos rios Negro e Solimões, que incluem caminhadas guiadas, pesca recreativa e a contemplação do Encontro das Águas.

Próxima a Tefé, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá é referência em ecoturismo e turismo de base comunitária, oferecendo passeios por igarapés e vivências com comunidades ribeirinhas da Amazônia.

Em São Sebastião do Uatumã, a experiência combina pesca esportiva, turismo sustentável e imersão na floresta, com passeios pela reserva, trilhas, e navegação pelo rio Uatumã.

Durante a temporada do tucunaré, entre agosto e dezembro, o município recebe visitantes do Brasil e do exterior, que também encontram na culinária regional, marcada por pratos à base de peixes amazônicos e pelo tradicional tucumã, um dos destaques da viagem.

Leia também: 10 lugares incríveis na Amazônia – Parte 1

Um dos maiores arquipélados fluviais do mundo, Parque Nacional de Anavilhanas fica localizado no município de Novo Airão. Foto: Ivo Brasil

Maranhão

A Comunidade Tradicional Praia de São Pedro, em Carutapera, localizada na Reserva Extrativista Marinha Arapiranga-Tromaí, oferece um roteiro de turismo de base comunitária que integra natureza, cultura e experiências da Amazônia conduzidas pelos próprios moradores.

Entre os principais atrativos estão as vivências com a pesca artesanal, incluindo o tradicional arrasto de camarão e a confecção de redes de pesca, além de passeios de canoa pelos manguezais e estuários (onde a água doce de um ou mais rios se encontra e se mistura com a água salgada do oceano); observação de aves, como os guarás; e contemplação de praias preservadas, lagos naturais e pôr do sol.

A experiência também valoriza a gastronomia local, com destaque para o tradicional avoado, em que visitantes compartilham peixes e frutos do mar preparados pelos pescadores à beira da praia.

O roteiro ainda inclui manifestações culturais, como a Festividade de São Pedro e o Festival de Verão da Praia de São Pedro, fortalecendo a identidade das comunidades tradicionais e promovendo a conservação ambiental por meio do turismo sustentável.

Numa paisagem que integra natureza, cultura e experiências regionais, Comunidade Tradicional Praia de São Pedro fica em Carutapera, em MA. Foto: Reprodução/Facebook-Giovano Rangel

Mato Grosso

No extremo norte de Mato Grosso, a Amazônia e sua floresta ganham força e revelam cenários de mata nativa intocada em municípios como Alta Floresta e Paranaíta.

O grande destaque da região são as Torres de Observação do Cristalino, estruturas de aço com até 50 metros de altura que ultrapassam a copa das árvores, permitindo ao visitante observar centenas de espécies de aves e primatas, incluindo o raro macaco-aranha-de-cara-branca.

O roteiro inclui a navegação pelas águas calmas do Rio Cristalino, caminhadas guiadas na Trilha da Castanheira, que leva a uma árvore milenar, e passeios de caiaque para ver o pôr do sol.

Já em Paranaíta, o turista pode explorar as formações rochosas do Canyon do Indiscreto no Rio Teles Pires e conhecer sítios arqueológicos com petróglifos antigos gravados nas pedras, consolidando a região como um polo de ecoturismo e aventura na Amazônia mato-grossense.

Com 50 metros de altura, as Torres de Observação do Cristalino permitem que os visitantes possam observar a copa das árvores e centenas de aves e primatas sobrevoando o local. Foto: Marcos Amend/Cristalino Lodge

Pará

No Parque Estadual do Utinga, refúgio urbano de biodiversidade amazônica na região metropolitana de Belém, o visitante explora trilhas em meio à floresta, pratica atividades ao ar livre como caminhadas, ciclismo e caiaque, além de observar animais silvestres como bichos-preguiça, macacos e uma rica diversidade de aves amazônicas.

Para quem busca o “Caribe da Amazônia“, Alter do Chão, em Santarém, revela, durante a estação seca, praias sazonais de areia branca e águas cristalinas do Rio Tapajós, como a famosa Ilha do Amor.

O roteiro pode ser ampliado com passeios pelos igapós da Floresta Encantada, trilhas guiadas na Floresta Nacional do Tapajós para contemplar imponentes samaúmas e uma imersão na cultura tapajônica, na gastronomia regional e no carimbó, elementos que fazem parte do cenário nortista e da Amazônia.

Já a Ilha do Marajó, maior arquipélago fluviomarinho do planeta, reúne praias como a do Pesqueiro, experiências de ecoturismo em fazendas tradicionais, observação de guarás, jacarés e búfalos, além da riqueza da cerâmica marajoara e da gastronomia típica, marcada pelo queijo do Marajó, pela carne de búfalo e pelos peixes amazônicos.

Leia também: 10 lugares incríveis na Amazônia – Parte 2

Parque Estadual do Utinga, em Belém, é considerado o refúgio urbano da biodiversidade amazônica na região metropolitana da capital paraense. Foto: Divulgação/Parque do Utinga

Rondônia

Localizada no município de Cacoal, em Rondônia, a Terra Indígena Sete de Setembro abriga o povo Paiter Suruí, cujo nome significa “gente de verdade”.

O território reúne diferentes formações vegetais, como floresta tropical aberta, floresta densa e áreas de transição ecológica, compondo um cenário de grande biodiversidade cortado por rios e igarapés.

Mais do que um destino de visitação, a comunidade oferece uma oportunidade de conhecer experiências de turismo de base comunitária que valorizam a cultura indígena e a conservação ambiental.

No Complexo Yabnaby, os visitantes podem vivenciar aspectos do cotidiano Paiter, participar de trilhas guiadas, conhecer a gastronomia tradicional e compreender como o manejo sustentável da floresta faz parte da identidade do povo.

Os Paiter Suruí também se destacam pela produção de café orgânico e pela coleta de castanhas e sementes destinadas à recuperação de áreas degradadas.

Leia também: Povo Paiter Suruí conquista reconhecimento FSC para proteção de cultura e tradições

Habitado pelo povo indígena Paiter Suruí, Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal-RO, possui a cultura indígena e a conservação ambiental como experiências turísticas únicas. Foto: Emily Costa/Rede Amazônica RO

Roraima

Roraima reúne uma ampla variedade de roteiros voltados ao turismo de natureza, com opções que vão desde trilhas em serras e montanhas até passeios por rios e cachoeiras.

Entre os destinos mais procurados está a Serra do Tepequém, um dos mais famosos do estado, localizado no município de Amajari, e conhecido por suas cachoeiras e trilhas de diferentes níveis de dificuldade.

A região abriga uma fauna diversificada, com tamanduás, jabutis, araras, gaviões, garças e diversas espécies de aves.

Também no estado, o Monte Roraima é referência para o montanhismo e trekking na América do Sul, famoso por seus imensos paredões rochosos.

Já o Parque Nacional do Viruá, localizado em Caracaraí, é uma unidade de conservação que concentra diferentes ecossistemas e oferece atividades como caminhadas, passeios embarcados e observação da vida silvestre. É um dos principais pontos do Brasil para a observação de aves (birdwatching).

Situado em Amajari, Roraima, Serra do Tepequém é um dos destinos mais procurados do país e reconhecido como destino do ecoturismo nacional. Foto: Reprodução/Viagens e Caminhos

Tocantins

A cerca de 260 km de Palmas, o Parque Estadual do Cantão é uma unidade de conservação de aproximadamente 90 mil hectares. Com cerca de 900 lagos, o destino muda com as estações.

Na cheia, barcos navegam entre as copas das árvores da floresta alagada; na seca, surgem praias de areia clara e trilhas. Essa dinâmica torna o Cantão um dos principais destinos de ecoturismo do Tocantins, onde a observação da fauna também é uma das grandes atrações.

Ao longo dos passeios é possível avistar aves de diferentes portes, mamíferos, jacarés e, dependendo da época do ano, botos do Araguaia e tartarugas-da-Amazônia. Navegar pelos lagos e canais, caminhar por praias desertas e percorrer trechos de floresta preservada permite ao visitante conhecer um dos mais importantes mosaicos naturais do Brasil.

Um dos principais destinos de ecoturismo de Tocantins, Parque Estadual do Cantão conta com aproximadamente 90 mil hectares e cerca de 900 lagos. Foto: Reprodução/Site Mirante Mão de Deus

*Com informações do Ministério do Turismo

Índice de Democracia Ambiental mostra que Amazônia Legal apresenta baixo nível de transparência

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Foto: Reprodução/ICV

Novo levantamento divulgado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) e pela Transparência Internacional – Brasil mostra que os Estados da Amazônia Legal seguem com baixos níveis de transparência, participação social e proteção a defensores ambientais.

Segundo o Índice de Democracia Ambiental (IDA), apenas a União alcançou a classificação “bom” na classificação geral, com 70,7 pontos de um total de 100. Nenhum dos nove Estados amazônicos avaliados chegou a esse patamar, sendo que a média deles foi de 40,8 pontos, classificada como “regular”.

Entre os Estados, quatro tiveram classificação “regular” e cinco, “ruim”, numa escala que vai de “ótimo” a “péssimo”. Mato Grosso liderou o ranking estadual, com 56,7 pontos, seguido por Pará (55,3), Amazonas (43,8) e Maranhão (41,9) — os quatro únicos a obter avaliação “regular”. Na sequência vêm Tocantins (39,6), Rondônia (36,2), Amapá (35,8) e Acre (35,5), todos com classificação “ruim”. Roraima fechou o ranking com a pior nota entre os entes avaliados, 22,8 pontos, classificado como “ruim”.

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O IDA foi lançado pela primeira vez em 2025. Nesta segunda edição, a metodologia de avaliação foi revisada, de modo que os resultados de 2026 não são diretamente comparáveis aos do ano anterior, apesar de algumas relações poderem ser feitas.

O Índice de Democracia Ambiental é uma iniciativa criada pela Transparência Internacional – Brasil e pelo Instituto Centro de Vida que avalia como os Estados da Amazônia Legal e a União promovem direitos em quatro dimensões: acesso à informação, à participação, à justiça e a proteção de defensoras e defensores ambientais. O IDA analisou 120 indicadores, buscando saber se a União e os Estados garantem uma governança socioambiental efetiva, justa e inclusiva; e se contribuem com a proteção de direitos socioambientais.

Veja aqui análises individuais por Estado.

Quatro dimensões avaliadas na Amazônia Legal

A dimensão mais crítica do IDA 2026 é a de proteção de defensores ambientais, com média de 15,1 pontos entre os Estados da Amazônia Legal, resultado classificado como “péssimo”. Roraima registrou o pior desempenho, com apenas 0,8 pontos, seguido por Acre (2,9), Rondônia (5,4) e Tocantins (5,7).

Esses números escancaram a ausência quase total de mecanismos de proteção essenciais para garantir um ambiente seguro para que pessoas, grupos e organizações que atuam na defesa de causas ambientais e na proteção de territórios possam atuar livres de ameaças e outras formas de violência. Mesmo o mais bem colocado, Mato Grosso, alcançou apenas 36,4 pontos, evidenciando que nenhum Estado oferece um nível minimamente satisfatório de proteção.

Apenas três Estados possuem programas próprios de proteção (Mato Grosso, Maranhão e Pará), sendo que os demais são atendidos pelo governo federal.

Outro gargalo identificado está no preparo das forças de segurança para proteger defensores. Dentre todos os entes avaliados, apenas o Amapá possui protocolo específico de atuação em casos envolvendo defensores ambientais, somente o Mato Grosso realizou capacitação sobre o tema e apenas o Executivo federal e Rondônia possuem protocolos para o uso de câmeras corporais no contexto de conflitos fundiários e/ou ambientais.

O acesso à participação social também aparece como uma das dimensões com os indicadores mais frágeis, com média geral de 37,6 pontos, classificada como “ruim”.

Roraima possui o pior desempenho, com apenas 12,3 pontos (“péssimo”), enquanto Tocantins se destaca como o Estado mais bem avaliado nessa dimensão, com 49,4 pontos — ainda assim, com um desempenho “regular” e distante de uma nota que possa ser considerada satisfatória.

floresta amazõnica. Fundo Amazônia
Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Os resultados demonstram fragilidades nos três espaços de participação analisados: conselhos de meio ambiente, conselhos de unidade de conservação e audiências públicas de processos de licenciamento ambiental.

A dificuldade de garantir a efetividade da participação da sociedade nas decisões ambientais permanece um gargalo estrutural em praticamente todos os Estados avaliados, o que limita o controle social e enfraquece a legitimidade das decisões ambientais, em especial aquelas que afetam populações locais e seus territórios.

Já a dimensão de acesso à informação tem média de 44,7 pontos, classificação “regular”, com grande disparidade entre os Estados: Mato Grosso lidera com 74,3 pontos (“bom”), enquanto Maranhão aparece na lanterna, com apenas 27,2 pontos (“ruim”).

Foram identificadas lacunas importantes em categorias de informação como autorizações de supressão de vegetação, autorizações de queima controlada, requerimentos e processos de regularização fundiária, Cadastro Ambiental Rural (CAR) e Guia de Trânsito Animal (GTA).

Esse descompasso indica que a ausência de transparência de dados e informações ambientais enfraquece a capacidade de acompanhamento e monitoramento das políticas públicas pela sociedade e de identificação e denúncia de possíveis irregularidades — incluindo crimes ambientais e ilícitos associados, como fraude e corrupção.

Leia também: Acre segue como um dos estados com pior desempenho em democracia ambiental na Amazônia Legal

O acesso à Justiça é a dimensão com melhor desempenho médio (65,9 pontos), classificada como “boa”. Ainda assim, o resultado permanece distante do ideal para assegurar a pessoas e comunidades o pleno acesso à justiça em questões ambientais, especialmente no que se refere à proteção de direitos, à reparação de danos e à responsabilização por violações ambientais.

O Pará se destaca como o mais bem avaliado, com 84,8 pontos (único estado a obter a classificação “ótima” de desempenho em alguma das dimensões) enquanto Roraima apresenta o pior resultado, com 38,7 pontos, resultado este considerado “ruim”.

Apesar dos desafios, a dimensão de acesso à justiça evoluiu em relação à primeira edição do IDA, em razão, entre outros fatores, da criação de novas estruturas especializadas e de ações de capacitação em questões socioambientais e fundiárias, implementadas no último ano pelo Judiciário, Ministério Público e Defensorias Públicas.

No geral, a nota final do IDA 2026 foi de 40,8 pontos, classificada como “regular”, um resultado puxado especialmente pela fragilidade na proteção de defensores e no acesso à participação, que seguem como os principais gargalos da democracia ambiental na Amazônia Legal.

Órgãos federais registram resultados melhores

A União apresentou um desempenho consideravelmente superior ao dos Estados em todas as dimensões, com nota final de 70,7 pontos — a única classificação geral “bom” do índice. O destaque é o acesso à Justiça, com 92,5 pontos, o melhor resultado entre todos os entes avaliados, inclusive acima do Pará, líder estadual nesse quesito.

A avaliação de proteção de defensores ambientais do Executivo federal também aparece em patamar muito superior ao dos Estados, com 62,8 pontos, mais de 25 pontos acima da nota do Mato Grosso, mais bem colocado nessa dimensão entre os Estados. Já no acesso à informação (71,9) e no acesso à participação (55,5), a União mantém vantagem expressiva sobre a média estadual.

“Os resultados do IDA 2026 mostram que ainda estamos muito longe de garantir direitos essenciais em questões ambientais na Amazônia”, resumiu a Coordenadora do Programa de Integridade Socioambiental da Transparência Internacional – Brasil, Olívia Ainbinder.

Ainbinder enfatiza que o aspecto mais preocupante da avaliação é a proteção de defensores e defensoras ambientais: “São essas pessoas que, muitas vezes, atuam na linha de frente, denunciando graves crimes ambientais e esquemas de corrupção associados ao desmatamento, à grilagem e ao garimpo ilegal. Precisamos proteger essas pessoas, para garantir a proteção da floresta”.

Olívia também afirma que, ao escancarar falhas estruturais, o IDA quer possibilitar o diálogo com os entes avaliados e a melhoria das políticas e práticas adotadas por eles.

Para a analista socioambiental do Instituto Centro de Vida, Júlia Mariano, a promoção da democracia ambiental é uma necessidade cada vez mais urgente na Amazônia, especialmente considerando o cenário socioambiental e climático que vivemos hoje.

“Promover a democracia ambiental implica em garantir os meios para uma participação informada, segura e efetiva da sociedade. Os resultados do IDA desse ano mostram que os Estados da Amazônia Legal ainda estão muito distantes de um cenário adequado, e que proteger a floresta, proteger os defensores e garantir participação social ainda não são tratados como uma prioridade. O IDA aponta para os problemas, mas também entrega um mapa do que precisa mudar para que possamos ter um avanço real na agenda ambiental”, explica.

A democracia ambiental é um instrumento crucial no combate à corrupção e aos crimes ambientais. Sabe-se que hoje muitos crimes ambientais estão associados a práticas de corrupção, como fraudes em licenças e autorizações, pagamento de propinas e lavagem de ativos como ouro, madeira e animais silvestres.

Recomendações

A partir desse diagnóstico, o ICV e a Transparência Internacional – Brasil apresentam o seguinte conjunto de recomendações voltadas a fortalecer a democracia ambiental nos Estados da Amazônia Legal e na esfera da União, com foco especial nas dimensões mais frágeis identificadas pelo índice:

Aprovação do Acordo de Escazú pelo Senado Federal, tratado regional já aprovado pela Câmara dos Deputados em novembro passado, que visa fortalecer o acesso à informação, à participação e à Justiça em temas ambientais e a proteção dos defensores e das defensoras ambientais;

Fortalecimento dos programas de proteção a defensores e defensoras ambientais nos níveis federal e estadual na Amazônia, com recursos adequados, e garantia de participação social, capacitação e protocolos de atuação das forças de segurança;

Disponibilização de informações ambientais essenciais em temas como exploração florestal, licenciamento e fiscalização ambiental, regularização ambiental e fundiária, garantindo sua atualização, completude e formato reutilizável;

Criação e reforço de estruturas especializadas em meio ambiente, questões fundiárias e em povos indígenas e comunidades tradicionais no Judiciário, Ministério Público, Defensorias e polícias, com capacitação de seus membros e adoção de iniciativas de Justiça itinerante;

Aprimoramento de instrumentos de participação social em temas ambientais, como conselhos e audiências públicas, assegurando inclusão, paridade de representação e ampla divulgação das atividades.

*Com informações do ICV

Indígenas se adaptam à redução significativa da superfície de água em seus territórios em Mato Grosso

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Suyani Terena às margens do rio Buriti, na aldeia Serra Azul, na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay/Ambiental Media

O Alto Rio Juruena vive há mais de duas décadas sob forte expansão da fronteira agrícola em Mato Grosso. De 1985 a 2025, 50% da vegetação foi convertida em agropecuária, enquanto a bacia hidrográfica perdeu 14% da superfície d’água, conforme análise da InfoAmazonia a partir de dados do MapBiomas.

O rio Juruena correm por 1.080 quilômetros ao norte, alimentado por afluentes como Papagaio, Arinos e Sangue. Ele conecta o Cerrado e a Amazônia e é responsável por 60% da água que chega ao Tapajós, sendo seu principal formador.

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No Alto Rio Juruena, as terras indígenas protegem 3,54 milhões de hectares de vegetação da Amazônia e do Cerrado. Mas tamanha conservação não as blindou da perda de 55% da superfície de água de 1985 a 2025.

A Terra Indígena Tirecatinga, banhada pelos cristalinos rios Buriti e Papagaio, perdeu 75% de seus corpos d’água em quatro décadas (283,4 hectares). Isso contribuiu para um contexto de insegurança hídrica e alimentar também enfrentado por outros territórios da bacia.

Indígenas da bacia do Alto Juruena se adaptam à redução da superfície de água na região
Entre 1985 e 2025, os territórios Tirecatinga, Utiariti e Paresi foram três dos cinco mais afetados pela redução da superfície d’água na bacia. Arte: MapBiomas

O verão na Terra Indígena (TI) Tirecatinga, no oeste de Mato Grosso, nos últimos cinco anos, é mais marcado por tempestades com ventos mais fortes e chuvas carregadas de raios, que podem provocar incêndios. Falta o sereno da alvorada e fica quente demais para caçar. A desova dos peixes atrasou, afetando a pesca. O calor também trouxe mais mosquitos e, por consequência, aumentaram os casos de dengue.

Já o inverno está mais seco, mais curto e sem geada. Com a falta de chuva nesse período, lagoas nas cabeceiras secaram e nascentes migraram. A estiagem adiou o plantio da roça de setembro para dezembro, além de atrasar a maturação de frutos silvestres, como jabuticaba e bacaba.

Em dezembro de 2024, ao final do ano mais quente já registrado no Brasil – e no mundo –, os povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti, da TI Tirecatinga, reuniram-se para mapear os impactos climáticos e ambientais, identificar como afetam seus modos de vida e pensar em soluções.

Leia também: Amazônia recupera superfície de água após dois anos de seca severa

Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

O diagnóstico resultou no Calendário Ecológico de Tirecatinga, publicado em setembro passado e realizado pela Thutalinãnsu, a associação de mulheres do território, com apoio da Operação Amazônia Nativa (Opan) e da Rede Juruena Vivo. Ele servirá de base para a elaboração do novo Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da terra indígena e para a busca por políticas públicas de adaptação e mitigação.

“Quem sofre principalmente com a mudança climática? Somos nós. Quando vem aquela chuva forte, aquele vento forte arregaçando as casas, quem está aqui somos nós. Quando vem aquele sol quente queimando nossas plantas, nosso alimento, somos nós que estamos aqui. Quem está destruindo? Somos nós? Não somos, disse Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu, no lançamento do calendário na aldeia Serra Azul.

Tirecatinga é casa para 244 indígenas e protege 131 mil hectares no município de Sapezal, no Cerrado mato-grossense, em uma região de transição para o bioma Amazônia. O território fica na bacia do Alto Juruena, com cabeceiras e nascentes que alimentam esta importante sub-bacia do rio Tapajós.

“A gente observou como estão as ações que acontecem na natureza, como os animais estão vivendo, os rios, os peixes, os pássaros e como, através disso, a gente vai conseguir sobreviver”, conta Cleide. “A gente criou um instrumento para enfrentar esse grande momento das mudanças climáticas”.

Junto às terras indígenas Utiariti e Paresi, a Tirecatinga forma um corredor de 1 milhão de hectares de florestas, savanas e campos preservados na Chapada dos Parecis. O entorno, no entanto, é dominado por monoculturas de soja, milho, algodão e pastagens.

Vista aérea do rio Verde, na divisa da Terra Indígena Utiariti. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

A agropecuária avançou sobre metade da vegetação nativa da bacia do Alto Juruena de 1985 a 2024, transformando 2,2 milhões de hectares em pastagens e áreas agrícolas, de acordo com análise da InfoAmazonia a partir de dados da plataforma MapBiomas. A combinação da crise climática com as mudanças na cobertura e no uso do solo contribui para um cenário de insegurança hídrica e alimentar.

Na beira do cristalino e veloz rio Buriti, na aldeia Serra Azul, Suyani Terena, filha de Cleide e vice-presidente da Thutalinãnsu, afirma que “o Cerrado é resistência”, “um bioma onde o fogo chega, pega, mas ele ressurge no outro ano, com muito mais flores, mais frutos”. Mas ela considera que essa resiliência está sendo colocada em xeque, diante de “muitos desafios e ameaças externas que vêm para o território”.

“As mudanças climáticas chegaram muito próximas da gente e o Cerrado vem se modificando aos poucos. Nossa preocupação é saber até quando vai continuar florescendo e sendo resistente, porque é onde nasce a água, a vida”, diz Suyani.

Vista aérea do rio Buriti e da vegetação do Cerrado na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Rios sob pressão do clima e do agronegócio

O Alto Juruena perdeu 14% (3.193 hectares) da superfície d’água média de 1985 a 2025 – de 23.460 para 20.267 ha, conforme a análise da InfoAmazonia. O cenário é mais crítico dentro das terras indígenas da bacia hidrográfica: redução de 55% (3.932 hectares) da área de corpos hídricos no período, de 7.175 para 3.233 ha. A queda foi mais acentuada a partir de 2000, período que coincide com o boom das commodities e o avanço mais expressivo da soja em Mato Grosso desde meados dos anos 1990.

Com duas mil nascentes mapeadas, a bacia do Juruena se estende por 19 milhões de hectares. O rio principal percorre 1.080 quilômetros do Cerrado à Amazônia e contribui com mais de 60% da água que drena para o rio Tapajós, sendo seu principal formador. As terras indígenas, por sua vez, resguardam as maiores áreas de vegetação nativa na bacia, uma barreira ao avanço do agronegócio.

Rodrigo Marcelino, analista socioambiental do Instituto Centro de Vida (ICV), uma organização da sociedade civil que apoia povos indígenas no estado, observa que importantes rios da Bacia Amazônica, como Juruena, Teles Pires e Xingu, nascem no Cerrado mato-grossense e atravessam algumas das maiores áreas de produção de commodities do estado, onde são afetados pela irrigação, por barragens hidrelétricas e pelo uso de agrotóxicos. Assim, chegam aos territórios indígenas já impactados pela água.

“É onde se está jogando água para o espaço sem parar, tanto para as lavouras, que extraem muito dessa água, como para os processos de degradação do solo, em que a perda de umidade é gigantesca”, diz Marcelino. “No período da seca, que está ficando extremo, perdemos tanta umidade que o solo fica completamente exposto e as florestas totalmente suscetíveis aos grandes incêndios”.

Na TI Tirecatinga, houve redução de 75% da superfície d’água de 1985 a 2025, uma redução de 283 hectares. Foi a quinta terra indígena mais impactada na bacia do Alto Juruena, tanto em área absoluta como proporcional, atrás das TIs Paresi (-95%), Juininha (-93%), Utiariti (-86%) e Ponte de Pedra (-80%). Os rios Buriti e Papagaio nascem fora do território e atravessam áreas de monoculturas de soja, milho e algodão em Sapezal – o terceiro município com maior valor de produção agropecuária do Brasil (R$ 7,5 milhões), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Natanael Nambikwara, morador da aldeia Cabeceira do Jabuti, na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Natanael Nambikwara se mudou para a aldeia Cabeceira do Jabuti em junho de 2018, uma região da TI Tirecatinga com sete nascentes que alimentam o córrego que dá nome ao local e deságua no rio Buriti.

“Dizem os mais velhos que onde tem lagoa, tem sucuri. Ela é a guardiã do córrego, da nascente”, diz Natanael, enquanto caminhamos pela mata em direção à cabeceira principal. “Quando a sucuri muda de lugar, aquela lagoa vai secar. Eu não acreditava, mas realmente é verdade. Não vimos mais sucuri”, desabafa.

Com quatro anos de secas extremas desde 2020, as cabeceiras do córrego do Jabuti começaram a baixar, as lagoas secaram e não se recuperaram mais, enquanto algumas nascentes migraram centenas de metros abaixo. “Era água bem corrente mesmo. Pior que até na época da chuva não está mais [corrente]”, conta Natanael.

Segundo a medição do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), de junho a agosto de 2024 não choveu em Sapezal; em setembro, caiu apenas 1,8 mm. Nos 12 meses daquele ano, a precipitação total do município foi de 1.392,2 mm, abaixo da média de 2.000 mm observada em anos sem seca extrema (2018, 2019 e 2025). Ao longo de 2024, Sapezal registrou 281 dias com temperatura média acima de 30 ºC. A chuva “está vindo aos pedaços” e localizada. “Agora, chove só para baixar a poeira mesmo. Não vem mais aquela chuva que segura a umidade”, diz Natanael.

Com os cursos d’água mais secos, animais importantes na dieta dos indígenas afastaram-se da aldeia de 19 habitantes. “Porções, pombas, veados, emas, jaó – a gente via direto, e sumiram”, observa Natanael. “Faz falta, porque nós sobrevivíamos disso. Agora, tem que andar longe atrás de caça”, pontua.

O resgate dos alimentos tradicionais

Em meio às secas, durante a pandemia da Covid-19, os povos da TI Tirecatinga perceberam o quanto estavam dependentes da cidade de Sapezal, a 60 quilômetros da aldeia mais próxima, para adquirir alimentos. “Os mercados fecharam as portas e foi um grande desespero. Naquele momento, a gente sentou para discutir como desenvolver a agricultura familiar, para ter segurança alimentar aqui dentro”, lembra Cleide Terena.

O território Tirecatinga se formou quando, nos anos 1940, missionários jesuítas se instalaram na região e atraíram indígenas de diversos povos em Mato Grosso. Ao final da missão, no começo dos anos 1970, muitos não conseguiram retornar às terras originárias, pois já tinham sido ocupadas por colonos sulistas. A terra indígena foi delimitada em 1983, e o trabalho nas fazendas vizinhas se tornou a única fonte de renda para as famílias.

“Na época dos meus avós, todo mundo tinha sua roça. Depois, ninguém se interessou mais em plantar frutas, araruta, feijão-fava, cará-roxo, os feijões, o milho-fofo, inhame”, lembra Cleide. Ela também conta que as estações secas mais quentes e as chuvas irregulares prejudicam o cultivo: “Os nossos alimentos não estavam conseguindo sobreviver. Plantamos a mandioca, e ela cozinhou dentro da terra porque estava muito quente”, recorda.

Em 2024, a Thutalinãnsu integrou o projeto Ancestralidades, do ICV e da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), com o objetivo de resgatar os alimentos tradicionais por meio da agricultura familiar. Então, receberam mudas das principais espécies para a cultura dos povos e contaram com assistência técnica da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), vinculada ao governo estadual, para adaptar os plantios das roças coletivas e dos quintais ao novo calendário climático.

“A gente trouxe a araruta de volta para o território. Duas aldeias plantaram. Foi emocionante o dia em que conseguimos colher”, destaca Suyani, que até então só ouvira falar do tubérculo nas histórias que sua mãe, Cleide, contava sobre as roças tradicionais dos avós. “A gente traz batata e cana que eram dos nossos ancestrais. Agora, está atrás dos milhos tradicionais. Hoje em dia, a gente busca plantar esses alimentos bem perto das nossas aldeias, para cuidar, regar”, conta.

Rodrigo Marcelino, do ICV, observa que o resgate dos alimentos tradicionais é uma forma de adaptação climática, ao transformar roças em sistemas agroflorestais: “É um resgate das formas de pensar a roça coletiva ou individual, para que seja biodiversa, sustentável, gere renda e alimente a família que produz, mas também enriqueça o solo e cuide da água, frisa.

Atualmente, 13 das 17 aldeias do território trabalham com agricultura familiar, sendo nove no projeto Ancestralidades, segundo Cleide. Quinze mulheres estão no Cadastro da Agricultura Familiar, com acesso a crédito rural e aptas a comercializar a produção. Elas ainda não conseguiram um excedente para vender em grande quantidade, porque as condições climáticas ainda afetam a produção, mas foi o suficiente para escoar nas feiras da cidade e, principalmente, garantir a segurança alimentar.

“A agricultura familiar tem um equilíbrio muito bom com a natureza e temos uma base alimentar saudável. É um trabalho que não exige várias pessoas, máquinas grandes. Não exige produtos químicos que podem afetar o território”, considera Cleide.

Os povos de Tirecatinga também cultivam frutas silvestres que, por conta do clima mais quente e das chuvas irregulares, estão ficando mais escassas ou cuja maturação ficou desregulada.

Durante uma colheita em uma mata na beira da estrada, Cleide observa que o cajuzinho-do-cerrado deu em 2025, mas caiu muito rápido por causa do calor e da “chuva do caju” fora de época – era em agosto, mas só tem chegado em setembro. Frutas como o birici e a goiabinha desapareceram do território.

Cleide Terena coleta frutos de cajuzinho-do-cerrado, também conhecido como cajuí (Anacardium humile), na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: André Dib/Mongabay, Ambiental Media

Os povos de Tirecatinga têm se queixado principalmente da escassez do pequi, um fruto nativo do Cerrado e “riquíssimo em diversas culinárias no território”, diz Suyani. É consumido principalmente com carne e arroz ou como chicha, uma bebida fermentada. “A gente saía em um grupo de mulheres para catar pequi. Só que cada ano tem uma diminuição muito grande. Alguns não estão florescendo, dando fruto. Ele não consegue segurar as flores. Quando cai a chuva, derruba tudo”, explica.

“Nesses últimos tempos, o Cerrado não está dando com muita força. A gente se preocupa em perder nossos alimentos tradicionais pelas mudanças climáticas e por muita degradação da natureza”, acrescenta Cleide. “Com essa preocupação, a gente está trabalhando os calendários e trazendo nossos alimentos para cuidar ao nosso redor.”

Em busca de políticas públicas

Desde setembro de 2025, Cleide e Suyani viajam pela Amazônia Legal para apresentar o calendário. Participaram, por exemplo, da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em novembro passado em Belém (PA), e de uma oficina de gestão territorial e ambiental dos territórios em Cuiabá (MT), organizada pelo Ministério dos Povos Indígenas. A Thutalinãnsu, por sua vez, agora integra o Fórum de Mudanças Climáticas de Mato Grosso. Segundo elas, povos como os Kurâ-Bakairi, os Rikbaktsa e os Manoki já demonstraram interesse em adotar este instrumento nos próprios territórios.

“Trazer o eixo da adaptação climática para os planos de gestão é crucial, porque os impactos nos territórios estão latentes. Não é mais superficial. É uma percepção entre todos os povos, que querem encontrar soluções e colocar em prática”, observa Marcelino.

Andreia Fanzeres, da Opan, considera que o calendário ecológico de Tirecatinga é “vanguardista”: “o que elas conseguiram foi o desenvolvimento de um instrumento novo, que poucos povos têm, ainda mais no Cerrado, e que pode ser exemplo para outras iniciativas”.

Em sua tese de mestrado, Fanzeres estudou a presença do componente climático nos instrumentos de gestão territorial e ambiental de terras indígenas no Brasil. Para ela, uma importante estratégia de adaptação e mitigação dos impactos consiste em “identificar o que é papel do município, do estado, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e construir políticas públicas e incidir para que sejam implementadas”.

Em maio deste ano, a Thutalinãnsu apresentou o calendário em um evento na Câmara Municipal de Sapezal. Além de entregar o material a políticos locais e a professores de escolas não indígenas, apresentaram ao poder público as propostas prioritárias para o território.

Entre as demandas estão a construção de casas mais resistentes às tempestades e a perfuração de poços artesianos para garantir acesso à água potável, medida fundamental diante da projeção de mais um ano de seca extrema, devido ao El Niño. Por enquanto, conseguiram uma vaga de agente de saneamento básico para o território e desenvolvem uma parceria com universidades federais para analisar o valor nutricional das frutas silvestres.

“Se está muito quente, não vamos conseguir plantar nossa mandioca, mas a gente busca uma política pública para irrigar. Nossas casas não vão suportar [as tempestades], mas a gente busca melhorias”, observa Cleide. “A gente está aqui para buscar uma condição que vai fortalecer a cultura, mas também trazer uma adaptação ao que está ocorrendo ao nosso redor”, finalizou.


Esta reportagem foi produzida pela Unidade de Geojornalismo InfoAmazonia, com o apoio do Instituto Serrapilheira.


*O conteúdo foi originalmente publicado pela Infoamazonia, escrito por Kevin Damásio

Samaúma de 80 anos é tombada como patrimônio em Macapá

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O decreto de tombamento da samaúma atendeu a um pedido do Ministério Público estadual. Foto: Mariana Ferreira/Rede Amazônica AP

A samaúma de mais de 80 anos, localizada em frente à Procuradoria-Geral de Justiça, no bairro do Araxá, na Zona Sul de Macapá, foi tombada pelo governo do Amapá em 8 de julho. O decreto atende pedido do Ministério Público do Estado (MP-AP), que considera a árvore símbolo da sua história e das políticas de proteção à sociedade e ao meio ambiente.

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O tombamento garante proteção legal à Samaúma e impede corte ou exploração da árvore, com o objetivo de preservar a flora amazônica. O decreto proíbe supressão, exploração, poda abusiva, transplante ou qualquer intervenção sem autorização que comprometa a saúde da árvore.

Segundo o procurador-geral Alexandre Monteiro, o MP já cuidava da árvore, mas agora, com o decreto, a responsabilidade é maior.

“O Ministério Público se espelha nessa árvore para ser guardião dos direitos da população e dos bens do Estado. Já cuidávamos dela, mas agora temos obrigação legal de protegê-la com ainda mais carinho”, disse Monteiro.

samaúma mp ap
Foto: Mariana Ferreira/Rede Amazônica AP

Leia também: Portal Amazônia responde: Sumaúma ou Samaúma? Saiba qual o nome correto de uma das maiores árvores da Amazônia

Samaúma já estava no local antes da construção da procuradoria

De acordo com o MP, um estudo aponta que a árvore tem mais de 80 anos e cerca de 30 metros de altura. Quando o terreno da Procuradoria foi comprado, a árvore já estava lá.

Desde então, o MP cuida da árvore. Hoje, além do simbolismo, ela dá nome à praça em frente ao órgão.

“O terreno foi comprado em 2005 e, em 2013, inauguramos a Praça da Samaúma. A árvore é de grande porte, com raízes profundas, e representa um bem ambiental de extrema relevância, oferecendo proteção às espécies e ao ecossistema ao redor”, disse Monteiro.

Com mais de 80 anos, a Samaúma acompanhou várias transformações do Amapá. Ela já existia desde o período do antigo território. Hoje, por causa do clima, a Samaúma está com folhas secas e aguarda o período de floração nos próximos meses. A árvore também dá nome ao tradicional Luau da Samaúma, evento do MP que reúne gastronomia e cultura ao redor da planta.

*Por Mariana Ferreira, da Rede Amazônica AP

Câmara aprova uso de indumentárias tradicionais em fotos de documentos

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (15) o Projeto de Lei (PL) 3839/23, que assegura aos povos indígenas e tradicionais o direito de usar elementos de indumentária tradicional, como cocares e turbantes, em fotografias de documentos oficiais de identificação. A proposta segue agora para análise do Senado.

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A utilização de fotografia com indumentária tradicional poderá ser feita em documentos como as carteiras de identidade, de motorista e de trabalho e Previdência Social, além do passaporte, “desde que esses elementos não impeçam o reconhecimento da fisionomia da pessoa”.

O projeto que prevê o uso de elementos que expressem pertencimento a uma comunidade, tradição cultural ou religião é de autoria deputada Célia Xakriabá (Psol-MG) e a relatoria é da deputada Sônia Guajajara (Psol-SP).

indumentárias indígenas
Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil

Leia também: Portal Amazônia responde: quais leis garantem os direitos dos povos indígenas?

Uso de indumentárias tradicionais é um direito

A relatora destacou que a impossibilidade do uso de elementos associados à identidade cultural submete pessoas a constrangimentos, causa sofrimento e viola direitos.

“As alterações legislativas têm potencial para encerrar casos de discriminação na identificação para documentos oficiais, sem representar ônus ao poder público e sem desconsiderar os requisitos de segurança”, afirmou.

O direito deverá ser regulamentado segundo as obrigações internacionais assumidas pelo Brasil.

*Com informações da Agência Brasil

Focos de queimadas no Acre caem 43% no primeiro semestre de 2026, aponta Inpe

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Feijó liderou as ocorrências no estado com 11 focos registrados. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

O Acre registrou 41 focos de queimadas entre 1º de janeiro e 30 de junho deste ano, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O número representa uma redução de 43% em relação ao mesmo período em 2025, quando foram contabilizados 72 focos.

Contudo, com a chegada do verão amazônico, a tendência é de aumento: Apenas nos 10 primeiros dias de julho, mais 23 focos foram registrados, chegando a 64 no total, até a tarde do dia 10 de junho.

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O monitoramento do Inpe é feito por sensores a bordo de satélites meteorológicos e de recursos terrestres. Os satélites captam a temperatura da superfície e, ao identificarem um forte pico de calor, um algoritmo registra o local como um foco de queimada. 

De acordo com o painel do Inpe neste ano, Feijó foi o município acreano com o maior número de registros no primeiro semestre, com 11 focos, o equivalente a 26,8% do total no estado.

Na sequência aparecem Cruzeiro do Sul e Tarauacá, com cinco focos cada, correspondendo a 12,2% do total.

Leia também: Amazônia se recupera de queimadas, mas estudo aponta que efeitos perduram

Focos de queimadas no Acre caem 43% no primeiro semestre de 2026, aponta Inpe
Foto: Divulgação/GEA

Além disso, Rodrigues Alves registrou quatro focos de queimadas (9,8%). Já a capital, Rio Branco e Santa Rosa do Purus no Vale do Juruá, tiveram três ocorrências cada, representando 7,3% do total. Contudo, a tendência é de aumento com o início do período de estiagem na região.

Os menores números foram em Epitaciolândia, Mâncio Lima e Porto Walter que contabilizaram dois focos cada, o equivalente a 4,9% dos registros. Acrelândia, Assis Brasil, Jordão e Sena Madureira fecharam a lista com um foco de queimadas cada, correspondendo a 2,4% do total estadual.

Focos de queimada na capital

Apesar do resultado final baixo, os dados da Defesa Civil de Rio Branco mostram que o número de queimadas na capital acreana foi maior do que os registros no balanço do Inpe. Em entrevista, o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, tenente-coronel Cláudio Falcão, informou que até esta sexta, a capital teve 80 focos de queimadas, que corresponde a 7% do estado.

Ainda assim, o numero está 45,5% menor que o registrado no mesmo período do ano passado, quando 147 focos foram catalogados, o equivalente, conforme a Defesa Civil, a 10,2% do total estadual. Historicamente, o período com mais queimadas ocorre a partir do segundo semestre, durante o verão amazônico, quando há redução das chuvas e aumento de limpeza de áreas com uso do fogo.

Foto: Christian Braga/Greenpeace

Leia também: Focos de calor reduzem 70% em janeiro de 2026 no Amazonas, aponta Inpe

Segundo Falção, o plano de contingência para o período de queimadas já está em execução. Ele explicou que as ações envolvem medidas preventivas, combate aos incêndios e atuação integrada.

“Cada órgão já executa suas ações. A Defesa Civil tem o plano de queimadas, a Secretaria de Meio Ambiente e o Corpo de Bombeiros que já atua no controle do fogo. As ações estão sendo colocadas em prática tanto individualmente por cada órgão quanto de forma integrada”, afirmou.

Imagem: Reprodução/Rede Amazônica AC

Conforme a professora da Ufac e especialista em queimadas, incêndios florestais e qualidade do ar na Amazônia, Sonaira Silva, a influência do fenômeno El Ninõ pode aumentar queimadas e incêndios.

“O El Niños acarretam em dias muito quentes, acima de 35 graus, e também nos efeitos de seca. “Temos bastante evidência de que esse ano não será um El Niño comum, mas eles serão mais forte do que nos outros anos”, cita.

Considerando todo o bioma amazônico, que abrange Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá e partes do Mato Grosso e Maranhão, foram registrados 6.955 km² focos até esta sexta-feira.

*Por Walace Gomes, da Rede Amazônica AC

Lenda da pupunha

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Foto: Reprodução/Embrapa

A lenda da pupunha varia entre os povos indígenas da Amazônia. As duas versões mais conhecidas são a lenda popular do Raio de Sol e o mito do povo Desana, do Alto Rio Negro:

A lenda da Pupunha: o presente dourado da deusa da floresta

Uma das lendas mais conhecidas na Amazônia conta que uma deusa da floresta enviou aos indígenas uma menina de pele clara e cabelos dourados, como as flores de um ipê amarelo, conhecida como Raio de Sol. Por ser diferente de todos da aldeia, a criança foi rejeitada e deveria ser sacrificada.

Segundo a lenda, o tuxaua não podia fazer nada, já que a morte de Raio de Sol estava prevista nas estrelas. O cacique então procurou o pajé, que recebeu uma mensagem da deusa da floresta: a menina deveria ser enterrada em um solo fértil, pois seu sacrifício daria origem a uma planta capaz de alimentar seu povo.

No local onde Raio de Sol foi sepultada nasceu uma palmeira de frutos dourados, semelhantes aos seus cabelos. A árvore recebeu o nome de pupunheira, e seus frutos passaram a garantir alimento às comunidades indígenas, principalmente durante os períodos de escassez causados pelas cheias e pelo inverno amazônico. 

Menina indígena deu origem a lenda da pupunha. Imagem criada por IA

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A lenda da Pupunha contada pelo povo Desana

Na tradição do povo indígena Desana, do Alto Rio Negro, no Amazonas, a origem da pupunheira está ligada ao herói mítico Gaín Pañan, um ser metade homem e metade periquito. A história conta que Gaín se envolveu com uma mulher-piranha pertencente ao mundo invisível dos  peixes. Para visitá-la, ele precisou enfrentar a poderosa ‘Cobra Grande’ e chefe do mundo invisível, e durante sua jornada, Gaín superou diversas provas com a ajuda de seres espirituais, como a aranha-pajé.

Ao descobrir que a pupunheira existia apenas no mundo invisível, Gaín decidiu levar seus frutos para a humanidade, ele então escondeu um caroço de pupunha em seu corpo, escapando, mesmo após sofrer a perseguição da Cobra Grande e das piranhas. De volta ao mundo dos homens, plantou a primeira pupunheira, tornando possível que o fruto fosse cultivado e alimentasse as futuras gerações.

Na cosmologia Desana, a pupunheira é considerada uma planta sagrada, conhecida como a ‘palmeira das aves’, e representa a ligação entre os mundos espiritual e terrestre.

Prêmios dedicados ao desenvolvimento sustentável da Amazônia abrem inscrições para edição 2026

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Iniciativas visam reconhecer pessoas, instituições e projetos dedicados ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. Foto: Reprodução

As inscrições para a edição 2026 dos Prêmios Professor Samuel Benchimol e Banco da Amazônia de Empreendedorismo Consciente, iniciativas brasileiras de reconhecimento a pessoas, instituições e projetos dedicados ao desenvolvimento sustentável da Amazônia, estão abertas e seguem até 14 de agosto de 2026, conforme o regulamento disponível no portal oficial dos Prêmios. A cerimônia de outorga está prevista para o dia 25 de novembro, em São Luís, no Maranhão.

Edição 2026 dos prêmios será realizada em São Luís, no Maranhão. Foto: Divulgação/IBICT

Nesta edição, o Prêmio Professor Samuel Benchimol, selecionará três propostas vencedoras, que receberão R$ 20 mil cada para aplicação no desenvolvimento dos projetos. Já a categoria honorífica reconhecerá personalidade que se destacou pela contribuição efetiva ao desenvolvimento da região amazônica, reforçando a importância da inovação, do empreendedorismo e da produção de conhecimento voltados aos desafios e oportunidades da Amazônia.

A avaliação das candidaturas será conduzida por uma Comissão Julgadora composta por especialistas de reconhecida competência, provenientes da comunidade científica, do setor produtivo, da gestão pública e de instituições com atuação destacada na Amazônia.

Leia também: Três projetos de jovens da Amazônia Legal recebem premiação internacional

A Comissão será responsável tanto pela análise das propostas inscritas quanto pela escolha da personalidade homenageada na categoria honorífica, observando os critérios estabelecidos no regulamento.

Prêmios são referências nacionais de valorização

Os Prêmios Professor Samuel Benchimol e Banco da Amazônia de Empreendedorismo Consciente consolidaram-se, ao longo de mais de duas décadas, como referência nacional na valorização de iniciativas transformadoras voltadas à Amazônia.

Mais do que reconhecer projetos e trajetórias de excelência, a premiação fortalece redes de cooperação, estimula a inovação e contribui para ampliar a visibilidade de soluções capazes de promover desenvolvimento com geração de renda, inclusão social e conservação ambiental. Informações sobre inscrições, regulamento e cronograma estão disponíveis no portal oficial dos Prêmios.

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Ao longo de mais de duas décadas, premiações são reconhecidas como referências nacionais na valorização de iniciativas transformadoras voltadas à Amazônia. Foto: Divulgação/FIETO

Na edição de 2026, a Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA) exerce a Presidência Executiva dos Prêmios, coordenando a realização do evento em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e as Federações das Indústrias da Amazônia Legal.

Além de sediar a cerimônia de premiação em São Luís (MA), a FIEMA lidera a articulação institucional e o apoio à organização desta edição, reforçando o compromisso do setor industrial maranhense com a promoção da inovação, do empreendedorismo e do desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Floresta em pé vira fonte de renda para produtores de Rondônia; entenda

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Propriedade de um dos cooperados da RECA, localizada no distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho (RO). Foto: Reprodução

Em Rondônia, uma iniciativa desenvolvida junto à cooperativa Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (RECA) tem mostrado que a floresta em pé pode valer mais do que a área desmatada. Isso porque a preservação ambiental se converte em remuneração de produtores rurais no estado, que registrou redução de 86,2% no desmatamento entre 2021 e 2025, segundo dados do governo estadual.

Segundo a experiência, os agricultores da cooperativa passaram a gerar renda de duas formas: com a venda de produtos como cupuaçu e castanha e pela conservação da floresta. O pagamento é feito por meio de créditos de carbono adquiridos pela Natura, parceira da RECA há mais de 25 anos.

Produtores são remunerados pela preservação da floresta. Foto: Reprodução/Portal da Indústria

Para entender a iniciativa, é preciso conhecer o mercado de carbono. Nesse sistema, cada crédito representa uma tonelada de dióxido de carbono (CO₂) equivalente que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. Esses créditos podem ser comprados por empresas para compensar parte de suas emissões.

No caso da RECA, a Natura remunera os produtores pela preservação da floresta. Segundo a diretora de Sustentabilidade da empresa, Angela Pinhati, o cálculo considera quanto carbono deixaria de ser retido caso a área fosse desmatada. A diferença entre esse cenário e a preservação da floresta gera os créditos, adquiridos pela própria empresa para compensar parte de suas emissões.

“Na prática, remuneramos os produtores pelo carbono não emitido, ou seja, pelo desmatamento que foi evitado. Calculamos quantas emissões seriam liberadas se essas áreas seguissem a tendência de desmatamento da região, localizada em uma área crítica de degradação ambiental”, explica a especialista.

Leia também: Entenda o que é e para que serve o mercado de carbono

Segundo a especialista, a iniciativa evitou o desmatamento de cerca de 1,5 mil hectares e a emissão de aproximadamente 392 mil toneladas de CO₂ equivalente. Até 2030, a empresa pretende que metade dos créditos de carbono adquiridos venha de cadeias da sociobiodiversidade da Amazônia.

Floresta em pé se transformou em remuneração e geração de renda para produtores de cooperativa em Rondônia
Propriedade de um dos cooperados da RECA (Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado), no distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho (RO). Foto: Reprodução

Renda e oportunidades

Além da preservação ambiental, o projeto passou a refletir diretamente na vida das famílias da cooperativa. O aumento da renda permitiu investimentos na propriedade, ampliou o acesso à educação e melhorou a qualidade de vida dos cooperados.

Um estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), em parceria com a Natura, aponta que os participantes do projeto de créditos de carbono apresentam renda média 37% superior à dos produtores que não participam da iniciativa. O levantamento, realizado ao longo de seis meses e concluído em 2025, também identificou que 25% dos filhos das famílias participantes cursam o ensino superior, enquanto, no grupo de comparação, esse percentual é de apenas 4%. Além disso, as famílias apresentaram maior capacidade de poupança e mais acesso a atividades de lazer.

Na prática, os números refletem a realidade vivida pelos cooperados. O produtor e diretor comercial da RECA, Giancarlo Souza de Lima, afirma que o pagamento pelos créditos de carbono trouxe ganhos econômicos, sociais e ambientais para as famílias, além de permitir a geração de renda e investimentos das famílias no futuro de seus filhos.

“É uma valorização muito grande porque o produtor preserva a floresta, ganha assistência técnica e é remunerado por isso. O sentimento é de que o esforço de manter a floresta em pé chegou. A gente sempre comenta que os produtores da Amazônia também querem ter uma casa boa, um veículo para se locomover e colocar os filhos para estudar. Hoje, um produtor tem parte da propriedade preservada, gerando renda com o carbono, e também a área de Sistemas Agroflorestais (SAF), que produz alimentos e matéria-prima. A propriedade inteira passa a gerar renda para a família, o que incentiva a permanência no campo e a preservação da floresta”, conta Giancarlo.

Leia também: Economia da floresta em pé é tema de seminário na Amazônia

Legado

Para os produtores da RECA, o pagamento pelos créditos de carbono representa mais do que uma nova fonte de renda. O projeto reforçou a ideia de que manter a floresta em pé também pode ser um bom negócio, criando condições para que as novas gerações permaneçam no campo sem abrir mão da preservação ambiental.

Para Giancarlo, esse é um dos principais legados da iniciativa. Hoje, os cooperados sabem que conservar a floresta pode gerar mais benefícios econômicos do que substituí-la por atividades de baixo retorno e que o cumprimento da legislação ambiental também fortalece a comercialização dos produtos.

“Hoje sabemos que manter a floresta em pé gera mais renda do que a floresta derrubada. Se o produtor não cumpre as normas ambientais, enfrenta dificuldades para comercializar tanto a produção agropecuária quanto os produtos da floresta. Com o projeto de carbono, ele gera renda e permanece em conformidade com a legislação”, explica.

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Cupuaçu cultivado na propriedade de um dos cooperados da RECA (Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado), no distrito de Nova Califórnia, em Porto Velho (RO). — Foto: Reprodução/Redes sociais

A sucessão familiar também faz parte da estratégia da cooperativa. A RECA é formada por nove grupos de famílias produtoras, cada um com um coordenador, uma liderança feminina e uma liderança jovem. Muitos desses cargos começam a ser ocupados pelos filhos dos cooperados, preparando a próxima geração para administrar a produção e a própria cooperativa.

“O RECA tem mais de 37 anos de história e sabemos que precisamos preparar a sucessão, tanto nas propriedades quanto na gestão da cooperativa. Queremos formar profissionais cada vez mais qualificados para manter esse trabalho por muitos anos”, revela o produtor.
Em uma região historicamente marcada pelo avanço do desmatamento, a experiência da RECA mostra que a floresta pode deixar de ser vista apenas como um patrimônio ambiental. Para as famílias da cooperativa, ela também se tornou uma fonte de renda, de oportunidades e uma herança para as próximas gerações.

*Por Mateus Santos, da Rede Amazônica RO

Taça das Favelas: CUFA Amazonas define equipes classificadas

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Foto: Divulgação/CUFA Amazonas

A Central Única das Favelas Amazonas (CUFA Amazonas) definiu as 11 equipes para compor a etapa estadual da Taça das Favelas Amazonas 2026, o maior campeonato de futebol entre favelas do mundo. Ao todo, foram mais 300 integrantes das favelas entre jogadores e treinadores.

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Os confrontos eliminatórios reuniram atletas de diversas comunidades de Manaus em uma rodada marcada por talento, competitividade e incentivo ao esporte nas periferias.

As partidas foram disputadas em sistema eliminatório simples, garantindo vaga na competição às equipes vencedoras.

CUFA Amazonas define equipes classificadas para a taça das favelas
Foto: Divulgação/CUFA Amazonas

Confira os resultados:

  • Zumbi 4 x 1 Zumbi – classificação da equipe comandada pelo técnico Rayan Cristian;
  • Cidade de Deus 3 x 1 Jorge Teixeira
  • Crespo 2 x 1 Centro – Favela
  • Nova Cidade 0 x 3 Dom Pedro
  • Grande Vitória 1 x 3 Armando Mendes
  • Novo Aleixo 2 x 1 Novo Aleixo – vitória da equipe comandada pelo técnico Ederson;
  • Tarumã 0 x 4 Japiim
  • Santa Etelvina 0 x 3 Petrópolis –
  • Cidade Nova 0 x 0 Cidade Nova. Nos pênaltis, a equipe comandada pelo técnico Neto Mady venceu por 4 a 3 e ficou com a vaga;
  • Coroado 4 x 2 Terra Nova
  • Alvorada 3 x 0 Alvorada – a equipe comandada pelo técnico Eberson garantiu a classificação.

“Agora nosso foco é a próxima fase. Vamos intensificar os treinos físicos e táticos e disputar amistosos para fortalecer ainda mais a equipe. Estamos trabalhando com dedicação para evoluir a cada jogo e alcançar nossos objetivos no campeonato”, destaca Rayan Christian, técnico do time Favela Zumbi.

“Estamos intensificando os treinamentos, ajustando os detalhes táticos e físicos e mantendo o grupo focado e unido. Cada atleta está comprometido em dar o seu melhor para representar nossa comunidade e buscar a classificação para a próxima fase”, afirma Alex Jony, técnico da comunidade de Petrópolis.

Leia também: “A Amazônia periférica também é Brasil real”, afirma fundador da CUFA no Amazonas

Taça das Favelas

A Taça das Favelas é realizada pela CUFA e vai além das quatro linhas, consolidando-se como uma ferramenta de inclusão, cidadania e transformação social. A competição revela talentos, fortalece o esporte nas comunidades e amplia oportunidades para jovens atletas.

“Foi uma rodada muito competitiva, com grandes jogos e excelente participação das equipes. Agora seguimos para as próximas etapas com a expectativa de uma competição ainda mais emocionante, valorizando os talentos das favelas do Amazonas”, destaca Lins Menezes, coordenador do Taça das Favelas Amazonas.

As equipes classificadas seguem na disputa pelo título da Taça das Favelas Amazonas 2026. A partir de agosto começa a etapa estadual, com a grande final marcada para o dia 31 de outubro.

*Com informações da assessoria