O que podemos aprender com a Feira de Troca de Livros e Gibis do Amazonas?

Além de consolidar o papel da Biblioteca Pública do Estado como um centro cultural de impacto expressivo na capital, a Feira permite a criação de uma verdadeira comunidade de leitores da cidade de Manaus.

Foto: Acervo da Biblioteca Pública do Amazonas

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Quando pensamos em biblioteca, certeza que ainda nos vem à mente aquele lugar silencioso, perdido entre estantes de livros bem antigos, cuja existência sempre parece ameaçada graças à facilidade proporcionada pela internet. Afinal, é um lugar apenas para pesquisas, certo? Apenas para encontrar informações que hoje estão a uma tecla de distância, certo?

Errado.

Com o crescimento do mundo digital e sua presença em nossas vidas, as bibliotecas também evoluem para cumprir seu objetivo maior: garantir o acesso democrático à informação. É natural que sua função seja questionada em um mundo altamente conectado e, supostamente, com acesso irrestrito à informação, mas se tem algo que nossa imersão constante no mundo digital nos ensinou é que quantidade realmente não implica em qualidade.

Isso vale tanto para as informações quanto para nossa competência para transformar essas informações em conhecimento.

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Feira de Troca de Livros e Gibis do Amazonas
O que podemos aprender com a Feira de Troca de Livros e Gibis do Amazonas? Foto: Acervo da Biblioteca Pública do Amazonas

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Eis aí a função máxima de uma instituição como a biblioteca e de seus principais agentes, os bibliotecários: atuarem na mediação entre o público e a informação. No Amazonas, a Biblioteca Pública estadual, localizada na rua Barroso, no Centro de Manaus, é referência nesse quesito.

Em si mesma um ponto histórico e cultural do Estado, a Biblioteca é um daqueles prédios mitológicos que a maioria das pessoas já ouviu falar, até já passaram pela frente, mas que poucas assumiram a aventura de explorá-la. Quem o faz, vai por mim, fica longe de se arrepender.

Um dos motivos para isso é justamente a Feira de Troca de Livros e Gibis, uma ação coordenada pelo bibliotecário David Carvalho e desenvolvida graças ao esforço da equipe do Biblioteca, que se reúne no último domingo de cada bimestre para garantir que leitores de todas as idades tenham uma programação cultural de qualidade durante esses fins de semana pontuais. Em 2026, a iniciativa completou 10 anos de existência, comemorada recentemente durante a Jornada Literária do Amazonas.

A ideia é bem simples: convidar leitores que desejem manter seu acervo pessoal de livros sempre renovado para trocar suas obras favoritas pelos títulos favoritos de outras pessoas, garantindo assim que suas estantes nunca fiquem empoeiradas. A força da iniciativa está justamente nessa simplicidade.

A palavra-chave aqui é movimento: a iniciativa mobiliza uma média de 150 leitores a  cada edição – no total, já houve mais de 50 edições, o que coloca a Feira como uma ação de destaque no calendário cultural da capital. E falo por experiência própria quando digo que a menor das contribuições da Feira são os livros novos que podemos adquirir de forma gratuita.

O que podemos aprender com a Feira de Troca de Livros e Gibis do Amazonas? Foto: Acervo da Biblioteca Pública do Amazonas

Além de consolidar o papel da Biblioteca como um centro cultural de impacto expressivo na capital, a Feira permite a criação de uma verdadeira comunidade de leitores da cidade de Manaus. Por meio do contato com livros, pais passam tempo de qualidade com seus filhos, crianças desenvolvem desde cedo o senso crítico necessário para escolher as obras que desejam trocar, leitores conhecem leitores e, mais importante, as pessoas deixam de lado uma ideia completamente errada que, por vezes, paira sobre nossa cidade: de que não há programação cultural de qualidade disponível ao público.

O que há, de fato, é pouca articulação para que iniciativas como a Feira de Troca de Livros e Gibis tenha seu alcance potencializado, não apenas para fora do Centro de Manaus como para os municípios do interior do Amazonas. Inclusive, a Feira já contou com edições especiais em Iranduba e Autazes, mas depende de logística considerável para que possa estender suas ações para outras localidades.

Pensar sobre a Feira de Troca é pensar também sobre as políticas de acesso à Cultura que permitem à Literatura atuar como a força de transformação que é. Afinal, toda arte é política, e desvincular a atuação (ou não) dos poderes públicos do sucesso dessas iniciativas é impossível.

Desde 2016 – com a pontual interrupção da pandemia -, a Feira de Troca de Livros e Gibis se estabelece como uma das ações mais importantes da Biblioteca Pública do Amazonas, uma vez que se torna uma oportunidade não só para que livros sejam trocados, mas para que crianças explorem seus espaços de leitura e o público em geral aproveite visitas guiadas que discutem a história de um dos marcos físicos da cultura do Estado.

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Foto: Acervo da Biblioteca Pública do Amazonas

Gosto de ver o prédio da Biblioteca como um espaço seguro de encontro e de partilha, uma vez que eu e outros agentes da Cultura do Estado somos frequentemente convidados para realizar ações que contribuam para o acesso à arte e à informação em suas mais variadas linguagens. A Feira de Troca é apenas a ponta do iceberg para aqueles que desejam, verdadeiramente, acompanhar o circuito cultural do Estado.

Para que possamos exigir maior compromisso de nossos governantes com as políticas culturais, precisamos primeiro prestigiar as que já existem, conhecendo-as e entendendo de que forma podemos potencializar a sua atuação. Inclusive, a próxima edição da Feira de Troca de Livros e Gibis já está marcada para o dia 31.05, próximo domingo, entre 9h e meio-dia.

Então, que tal separar aqueles livros que já te encantaram no passado para que encontrem novos olhos? Que tal se preparar para conhecer novas obras e leitores que amam os mesmos livros que você? Que tal descobrir que, no Amazonas, a Literatura também constrói laços?

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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