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Proteger florestas existentes produz melhor custo-benefício para biodiversidade e clima do que restaurar, revela estudo na Science

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Uma árvore solitária permanece de pé enquanto a floresta ao redor é derrubada na Floresta Nacional do Tapajós, uma área protegida da Amazônia brasileira. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Evitar o desmatamento e a degradação das florestas tropicais gera mais benefícios para a biodiversidade e o clima por recurso investido do que apenas restaurar áreas já convertidas, segundo estudo publicado na revista Science. A pesquisa comparou os resultados e os custos de três principais estratégias de conservação florestal: conter o desmatamento, evitar danos provocados por incêndios e extração de madeira, e restaurar a vegetação para cumprir o Código Florestal. A estratégia que une proteção e restauração é a que produz mais benefícios para a biodiversidade e para o clima.

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O estudo foi realizado por um grupo internacional de 19 pesquisadores, liderado pela Rede Amazônia Sustentável (RAS), e reúne especialistas de instituições como a Universidade de Lancaster, a Embrapa Amazônia Oriental, o Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), as universidades de Oxford, Cambridge e Manchester Metropolitan, Exeter, a Esalq/USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Museu Paraense Emílio Goeldi.

A análise abrangeu Paragominas e Santarém, no Pará, duas regiões da fronteira agrícola amazônica que somam mais de 3 milhões de hectares.

Os pesquisadores combinaram dados de biodiversidade coletados em 381 áreas de amostragem, distribuídas por 38 microbacias, além de informações socioeconômicas de entrevistas em 499 propriedades rurais e imagens de satélite de alta resolução. A partir dessa base, reconstruíram as mudanças ocorridas entre 2010 e 2020, simulando o que teria acontecido em diferentes cenários se cada estratégia tivesse sido adotada individualmente ou em conjunto.

Os resultados mostram que evitar incêndios e extração de madeira teria mitigado 68% das perdas de biodiversidade e 47% das perdas de carbono observadas. Impedir o desmatamento teria evitado 28% das perdas de biodiversidade e 61% das perdas de carbono. Já a restauração, quando adotada isoladamente, compensaria apenas 6% e 15% dessas perdas, respectivamente.

“Uma floresta não está necessariamente protegida apenas porque continua aparecendo como floresta nas imagens. Incêndios, exploração de madeira e efeitos de borda podem retirar biodiversidade e carbono sem eliminar completamente a cobertura florestal. Essa degradação precisa ocupar um lugar muito mais central nas políticas de conservação”, afirma Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior do estudo.  

A dimensão do problema aparece nos dados da própria região. Durante o período analisado, foram registrados 159 mil hectares de desmatamento e 274 mil hectares de florestas primárias atingidas por fogo ou extração de madeira. Outros 130 mil hectares passaram por regeneração, mas 63% dessas florestas secundárias voltaram a ser afetadas pelo fogo. Para os autores, o resultado evidencia os limites de recuperar a vegetação sem controlar simultaneamente as causas de sua destruição.

“A restauração é indispensável para recompor áreas protegidas, conectar fragmentos e recuperar funções ecológicas”, explica Leonardo de Sousa Miranda, pesquisador da Universidade de Lancaster e um dos autores principais do artigo. “O estudo mostra, porém, que ela não consegue compensar sozinha as perdas enquanto o desmatamento e a degradação continuam avançando. Restaurar sem proteger é tentar repor continuamente algo que segue sendo destruído”.

Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, onde o Museu Goeldi mantém a Estação Científica Ferreira Penna foto Calil Torres MPEG
Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará. Foto Calil Torres/MPEG

Estudo analisa estratégias usadas nas florestas

A diferença entre as estratégias aumentou quando os pesquisadores incluíram seus custos econômicos. Para a biodiversidade, evitar perturbações florestais apresentou um índice médio de custo-efetividade cerca de três vezes maior do que o de impedir o desmatamento e quase 15 vezes superior ao da restauração. Para o carbono, evitar o desmatamento apresentou o maior retorno, seguido pelo controle da degradação e pela restauração. Mesmo quando os custos de restaurar foram reduzidos em até 95% nas simulações, a estratégia permaneceu menos custo-efetiva do que as medidas preventivas.

Isso não significa, contudo, que a restauração deva ser abandonada. Os maiores benefícios foram alcançados quando as três estratégias apareceram combinadas. Nesse cenário, a biodiversidade aumentaria 22% e os estoques de carbono 42% em relação ao patamar de 2010. A interação entre as medidas potencializa os resultados, já que florestas preservadas favorecem a recuperação de áreas próximas, enquanto o controle do fogo permite que a vegetação em regeneração sobreviva e amadureça.

“Não existe uma única solução capaz de responder à crise das florestas tropicais. Precisamos proteger as áreas remanescentes, impedir que elas sejam degradadas e restaurar territórios estratégicos”, reforça Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e também uma das autoras da pesquisa.

Leia também: Terras indígenas registram 1,7% do desmatamento da Amazônia em 12 meses: proteção da biodiversidade

Investir somente em restauração faz pouco sentido enquanto florestas maduras continuam a ser degradadas. É necessário integrar as agendas, por exemplo, incluindo brigadas para evitar incêndios nos projetos e programas de restauração. “O estudo oferece uma base para decidir onde e como combinar as diferentes ações de maneira eficiente”.

As conclusões ampliam o foco tradicional das políticas florestais, historicamente concentradas no desmatamento e, mais recentemente, na restauração. Os autores defendem que prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir que a exploração de madeira autorizada cumpra as regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo em áreas rurais, sempre que possível, e fortalecer brigadas locais se tornem parte central das estratégias de clima e biodiversidade.

No Brasil, os resultados dialogam com o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e a aplicação do Código Florestal. Também podem orientar programas de REDD+, projetos dos mercados de carbono e decisões sobre financiamento climático, ao mostrar que recursos voltados à restauração produzem menos resultado quando não são acompanhados de investimentos para proteger as florestas existentes.

“Em termos internacionais, é necessário que as empresas e os mercados que se beneficiam de commodities, como soja e carne bovina, assumam a responsabilidade não apenas pelo desmatamento, mas também pela degradação das florestas remanescentes, que está intrinsecamente ligada a esses sistemas de produção na Amazônia”, afirmou o Dr. Toby Gardner, coautor, pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute e cofundador da Trase, uma iniciativa de sustentabilidade em cadeias de suprimentos.

Embora concentrado em duas regiões da Amazônia Oriental, o estudo apresenta implicações para outras florestas tropicais submetidas simultaneamente ao desmatamento, ao fogo, à exploração de madeira e à expansão agropecuária. Nessas paisagens, acompanhar apenas a perda total de cobertura vegetal pode esconder uma parcela decisiva dos impactos sobre a biodiversidade e o clima.

*Com informações da Rede Amazônia Sustentável

Guiada pelos rios, Tefé se consolida como polo de desenvolvimento sustentável

Tefé é um dos municípios amazonenses beneficiados pelo manejo do pirarucu. Foto: Divulgação

Com sua economia norteada pelo ciclo de cheia e vazante dos rios, o município de Tefé, no Amazonas, se mostra um dos principais polos de bioeconomia no interior do Amazonas, segundo o mapeamento do programa EcoAm, que fomenta ecossistemas de impacto na Amazônia. A pesquisa detectou 30 instituições públicas e organizações de fomento, além de mais de 25 associações, cooperativas e negócios comunitários ativos.

De acordo com o relatório “Bioeconomia e Territórios da Amazônia”, a localidade se destaca pelas cadeias produtivas ligadas ao manejo e beneficiamento de pescado, extrativismo e produção de farinha, coleta de óleos vegetais, artesanato de fibras naturais e sementes. 

Um dos destaques apresentados pelo mapeamento está na Federação de Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), que possui uma indicação geográfica do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) para pirarucu manejado. A associação é presidida por Cleissiane Souza, primeira mulher à frente da federação, a qual informou que já há quatro empresas credenciadas junto à Femapam em Tefé.

Leia também: Portal Amazônia responde: como funcionam os processos de enchente e vazante dos rios?

Segundo ela, uma das metas da federação atualmente é conseguir uma parceria para fazer o processamento do pirarucu e vender produtos que hoje não podem ser plenamente aproveitados.

“A gente ainda tem essa necessidade de local para fazer esse processamento, então ainda perdemos esses recursos que tem compradores que se interessam, mas a gente ainda não tem uma estrutura, um treinamento para manuseio, por exemplo, uma oficina para manusear como fazer esse beneficiamento”, disse.

Outro desafio apresentado pela presidente da Femapam é a falta de embarcações adequadas para receber e manter a qualidade do produto manejado, algo frequentemente exigido pelos compradores. Em um dos casos, a empresa fechou parceria para adquirir 600 peixes, mas somente 190 puderam ser capturados. Ainda assim, a federação busca novos clientes para aumentar a cadeia da bioeconomia local.

“Estamos procurando arranjos para compradores para que a gente possa também expandir, porque como falei, a gente tem essas empresas, mas pouca produção. Ainda estamos conseguindo negociar, mas queremos procurar de fato outros mercados mesmo, pessoas que tenham responsabilidade na questão, principalmente no pagamento da produção, para que outros grupos também possam ser contemplados com melhoria de preço”, enfatizou.

O trabalho da Femapam ocorre por meio de uma parceria estratégica com o Instituto Mamirauá, que articulou a indicação geográfica do pirarucu pescado na Reserva Mamirauá em 2021, beneficiando nove municípios, incluindo Tefé.

Além do pirarucu manejado da federação, outros destaques são a indicação geográfica da farinha de Uarini obtida pela Associação de Produtores Rurais de Uarini (Apru), além do trabalho da Associação de Produtores Agroextrativistas da Flona de Tefé (Apafe), responsável pela marca coletiva Flona Tefé e pela produção de farinha na localidade.

Guiada pelos rios, Tefé se consolida como polo de desenvolvimento sustentável
Foto: Divulgação

Crescente

Segundo o relatório do EcoAm, Tefé vem atraindo uma série de investimentos nos últimos anos graças às iniciativas de bioeconomia, incluindo linhas de crédito como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) realizado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Recursos oriundos da Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) também foram direcionados para apoiar pequenos produtores e pesquisadores em Tefé. A publicação avalia que, embora as verbas ainda sejam modestas, apontam para “um novo ciclo que une ciência, floresta e inclusão econômica”.

O documento aponta que o desafio para o futuro da bioeconomia agora está na integração das políticas públicas, ainda dispersas, para garantir que o crédito e as tecnologias necessárias cheguem de forma descomplicada às comunidades, que não só conseguem manter a preservação ambiental como também mantêm um ecossistema econômico crescente.

Foto: Divulgação

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a diferença entre economia verde e bioeconomia?

Outras organizações que integram as comunidades e fortalecem a rede de bioeconomia são a Associação de Produtores Agro extrativistas da Floresta Nacional de Tefé (Apafe), a Associação Mãe da Reserva Mamirauá (Amurmam), a Associação Mãe da Reserva Amanã (Camura) e a Cooperativa Agrícola Indígena Nova Esperança – COOINE.

“Tefé é um lugar onde a bioeconomia pode se tornar um verdadeiro motor de desenvolvimento econômico e social no Brasil. Tem uma floresta rica e preservada e populações tradicionais que convivem e entendem esse ambiente. Há um grande trabalho a ser feito de organizar e potencializar a produção, o que já vem sendo feito por diversas organizações. Nossa intenção é contribuir para que o pescado e a farinha, por exemplo, permitam a melhoria do IDH, escolaridade e renda da população sem destruir a mata e os rios que ali existem”, afirmou o gerente do programa EcoAm, Washington Silva.

Resultados além de Tefé

O relatório “Bioeconomia e Territórios da Amazônia” é uma iniciativa desenvolvida pelo Programa EcoAm, em atividade desde 2024 e executado pelo Impact Hub Manaus em parceria com o BID Lab, laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, através do Programa Amazônia Sempre, o Instituto Meraki, Fundo Vale e o Sebrae Amazonas.

O programa escolheu os territórios de Ji-Paraná (RO), Rio Branco (AC) e Tefé (AM), em expansão para os municípios de Tabatinga (AM) e Marabá (PA), para a realização de seu projeto piloto.

A iniciativa já apoiou 17 negócios da bioeconomia na Amazônia e destinou R$ 1 milhão em investimentos por meio de duas edições do programa de aceleração Lab de Impacto. O texto completo está disponível gratuitamente AQUI.

*Com informações da assessoria

Café, óleo de palma e cacau: produtores na Amazônia peruana aplicam práticas livres de desmatamento

Para aceder aos mercados europeus, é essencial que os produtores disponham de informações precisas sobre a localização e a origem das suas colheitas de café, Café, óleo de palma e cacau. Foto: Divulgação/ONG Solidariedade

Produzir café, cacau ou óleo de palma de boa qualidade já não é suficiente para competir no mercado europeu. O Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) exige comprovação de que os produtos comercializados não provêm de áreas desmatadas. Portanto, é essencial que os produtores tenham informações precisas sobre a localização e a origem de suas colheitas.

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Nesse contexto, o projeto Amazonia Link está sendo desenvolvido no Peru. Essa iniciativa trabalha com produtores e organizações de café, cacau e óleo de palma para aprimorar suas práticas agrícolas e promover a conformidade com o EUDR, visando manter suas oportunidades comerciais na Europa. 

Esta iniciativa é implementada pela organização Solidariedade em conjunto com seu parceiro local, o Instituto para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDSA), no âmbito do componente de apoio ao setor privado do programa AL-INVEST Verde. O projeto utiliza informações geográficas para verificar se áreas produtivas estão sofrendo desmatamento. 

Café, óleo de palma e cacau: produtores amazônicos aplicam práticas livres de desmatamento
Café, óleo de palma e cacau: produtores amazônicos aplicam práticas livres de desmatamento. Foto: ANDINA / Editora Perú

Leia também: Conheça os 10 principais produtos exportados pela Amazônia Legal e os países compradores

Por meio do GeoCultivate, foram analisados ​​quase 60.000 quilômetros quadrados de território, uma área equivalente a aproximadamente 8,4 milhões de campos de futebol. 

Graças a isso, 737 produtores georreferenciaram suas terras – ou seja, com a localização e os limites de seus terrenos – e obtiveram mais de 1.700 relatórios de “desmatamento zero” em suas propriedades.  

Isso permite uma verificação mais precisa de que suas plantações estão localizadas em áreas livres de desmatamento , possibilitando assim sua entrada no mercado europeu. 

Tecnologia que chega à fazenda

Em 2025, o café, o cacau e o óleo de palma representaram cerca de 25% das exportações agrícolas nacionais e envolveram mais de 380.000 famílias, na sua maioria pequenos produtores. 

Este trabalho é complementado pela Cultivate, uma plataforma digital que oferece microcursos via WhatsApp. Esta ferramenta está integrada nas oficinas de “Formação de Formadores”, onde técnicos e produtores reforçam os seus conhecimentos, que depois partilham com as suas organizações e famílias. 

Café, óleo de palma e cacau: produtores amazônicos aplicam práticas livres de desmatamento. Foto: ANDINA / Editora Perú

“As oficinas envolvem toda a família produtora; esposas, filhos e filhas participam, até mesmo os mais jovens, que também aprendem e começam a incorporar essas ferramentas”, explicou Keila Capcha Cisneros, gerente da Cultivate em Ucayali.

Assim, o conhecimento não permanece exclusivamente com o produtor, mas é compartilhado dentro da família.

Alterações específicas no campo

Em Junín, 200 produtores de café das cooperativas Valle Ubiriki e ACPC Pichanaki recebem assistência técnica em produção sem desmatamento, compostagem e manejo de sombra. 

O mesmo está acontecendo em Ucayali com 258 produtores de cacau da Cooperativa Colpa de Loros. Destes, 250 estão implementando sistemas de compostagem para melhorar o aproveitamento da matéria orgânica e fortalecer práticas de produção mais sustentáveis.

No setor de óleo de palma, a iniciativa trabalha com mais de 200 produtores de organizações como Aproman e Aspash, além da cadeia de suprimentos da Innovapalma e do Programa de Palma Orgânica. O projeto promove o uso de biofertilizantes líquidos e sistemas agroflorestais piloto (SAF).

“Demonstrar onde e como a produção ocorre será cada vez mais importante para participar das cadeias de suprimentos internacionais e cumprir os padrões de sustentabilidade e de ‘desmatamento zero’, como o EUDR”, disse Bryan Vela, analista técnico de cacau da Solidaridad. 

A tecnologia pode ajudar os pequenos produtores a acessar essas informações, aprimorar suas práticas e estar preparados para atender a essas novas demandas.

*Com informações da Agência Andina

Ambientalistas alertam que manguezais e corais podem sofrer impactos com avanço do petróleo na Foz do Amazonas

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Avanço do petróleo acende alerta para impactos em manguezais e corais raros na costa do AP. Fotos: Reprodução/Greenpeace

A descoberta de petróleo no poço Morpho e a autorização para a Petrobras perfurar mais três poços no Bloco FZA-M-59 consolida o avanço da exploração na Bacia da Foz do Amazonas, mas coloca no centro do debate a segurança ambiental da costa do Amapá. A região abriga dois dos ecossistemas mais sensíveis do planeta: o Grande Sistema de Recifes da Amazônia e o maior corredor contínuo de manguezais do mundo.

Entre a expectativa de desenvolvimento econômico e o temor de impactos irreversíveis, especialistas e entidades ambientalistas apontam que a área exige cautela extrema e um nível de conhecimento científico que a ciência ainda busca alcançar.

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Em entrevista à Rede Amazônica, a doutora em Geologia e Geofísica Marinha, Valdenira dos Santos, explicou que a costa amapaense possui características hidrodinâmicas únicas que a diferenciam de qualquer outra bacia petrolífera do país, atingindo o nível máximo de sensibilidade ambiental (índice 10).

“Se a gente vier a ter um problema ambiental, é muito mais difícil fazer a limpeza, porque a maior parte da nossa costa é composta por manguezais e floresta de várzea”, disse a geóloga.

Leia também: GARS: cientistas estimam que apenas 5% dos recifes de corais da Amazônia já foram investigados

Corais e manguezais: uma riqueza biológica

Maior Corredor Contínuo de Manguezais do Mundo

Estendendo-se do Amapá ao Maranhão, a costa norte forma a maior faixa ininterrupta de manguezais do planeta. Formado por espécies como o mangue-vermelho (Rhizophora mangle) e o mangue-seriba (Avicennia germinans).

O ecossistema atua como barreira natural contra a erosão, armazena grandes volumes de carbono e funciona como berçário de recursos pesqueiros que sustentam a economia local. Daí a importância dos manguezais para o planeta.

Leia também: Conheça os manguezais da Amazônia, o maior cinturão de manguezais do mundo

Manguezais na Amazônia.
Manguezais na Amazônia. Foto: Reprodução/Greenpeace

Corais Raros da Amazônia

A faixa costeira afetada pelas operações abriga dois sistemas biológicos considerados raros e cruciais para a biodiversidade marinha global.

Conhecido como Grande Sistema de Recifes da Amazônia (GARS), o conjunto forma um ecossistema mesofótico raro situado entre 70 e 220 metros de profundidade.

Diferente dos corais tropicais rasos, esses recifes prosperam sob a água turva descarregada pelo Rio Amazonas, abrigando mais de 40 espécies de corais (como o coral-pétreo Montastraea cavernosa), 60 espécies de esponjas e peixes de valor comercial.

Leia também: Conheça os Corais da Amazônia

Corais foram descobertos em maio de 2016 na costa do Amapá. — Foto: ©Greenpeace
Corais foram descobertos em maio de 2016 na costa do Amapá. Foto: Greenpeace

Velocidade das águas e falta de dados sobre a costa

Enquanto a Petrobras concentra testes no mar profundo para verificar o potencial comercial da jazida, Valdenira chama atenção para um “gap” (lacuna) de informações na transição entre o alto-mar e o litoral.

“Conhecemos mais a borda da plataforma continental do que a interface do litoral em direção ao mar profundo. A nossa corrente marítima é extremamente forte, alcançando 2 metros por segundo, e as marés atuam de forma perpendicular ao litoral. Das correntes litorâneas, praticamente não sabemos nada”, contou a pesquisadora.

Risco cumulativo e a ameaça cotidiana

Ao Grupo Rede Amazônica, o Greenpeace Brasil divulgou que avalia que a promessa de arrecadação financeira não anula os riscos socioambientais e climáticos na Margem Equatorial.

“A abertura de novas frentes de exploração de petróleo pode trazer expectativas de investimentos, mas viabilidade econômica não apaga os riscos ambientais, climáticos e sociais”, manifestou a organização em nota.

A ONG pondera que a realização de operações simultâneas na área aumenta os “riscos cumulativos”. No leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizado em 2025, 19 blocos foram arrematados na Foz do Amazonas e aguardam licenciamento, enquanto outros 36 seguem em estudo.

O Greenpeace apontou ainda uma incoerência entre as metas ambientais defendidas pelo Brasil no exterior e a expansão de frentes petrolíferas no território nacional.

“Não é possível defender uma transição justa no cenário internacional enquanto se insiste na abertura de novas frentes de exploração petrolífera . A abertura de novos poços de exploração de combustíveis fósseis e a justiça climática são caminhos incompatíveis”, ressalta a ONG.

Para a Dra. Valdenira dos Santos, no entanto, a discussão sobre a foz precisa encarar outro perigo que faz parte da rotina amapaense: a navegação pelo Canal do Norte.

“Hoje a gente já tem um perigo real e imediato à nossa porta. A entrada da hidrovia do Amazonas é aqui. Todos os dias temos navios-tanque passando e precisamos de um plano de contingência regional urgente para responder a esses riscos cotidianos, e não apenas ao que acontece no alto-mar”, declarou.

Preservação e dependência da água potável

A pesquisadora ressalta que o debate precisa equilibrar as metas de desenvolvimento com a sobrevivência das comunidades e o abastecimento de água no estado, além de superar a falta de formação científica local para monitorar esses impactos.

“Não se trata apenas de achar o meio ambiente ‘bonitinho’. Nós não sobrevivemos sem um ambiente sadio, e no Amapá temos uma dependência direta da água superficial para o abastecimento das nossas cidades”, falou Valdenira.

Bacia do Foz do Amazonas. Arte: Reprodução/Rede Amazônica AP

A geóloga aponta ainda a escassez de recursos e de mão de obra qualificada no Amapá para produzir dados sobre a costa.

“A capacidade instalada no Amapá para estudos marinhos ainda é mínima. A UFPA formou recentemente as primeiras turmas de pós-graduação em Oceanografia, enquanto o Sul e Sudeste têm cursos com mais de 50 anos. Precisamos capacitar pessoas e investir em pesquisas no próprio estado. Fazer ciência na zona costeira da Amazônia tem um custo alto, mas é indispensável”, reforça.

O que diz a Petrobras?

A Petrobras informou que atua com responsabilidade ambiental e rigor técnico na Margem Equatorial. A empresa destaca que tem experiência em perfurações de águas profundas e que os testes autorizados no Bloco FZA-M-59 buscam apenas avaliar a presença de petróleo comercialmente viável.

A estatal reitera que atendeu a todas as exigências dos órgãos reguladores e apresentou planos operacionais de emergência.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Estudante de Macapá desenvolve cápsula ecológica com resíduos de cana-de-açúcar

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As etapas e mostras do projeto da eco cápsula de cana-de-açúcar. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP

O jovem pesquisador Benjamin Pereira de Brito, de 12 anos, criou uma eco cápsula com resíduos de cana-de-açúcar em Macapá (AP). O projeto usa fibras do material para proteger sementes e ajudar no crescimento das plantas. A ideia surgiu depois que Benjamin leu na internet sobre a produção de cana-de-açúcar no Brasil.

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Com orientação da professora Soraya Cristina Leal, do Instituto Nacional Leva Ciência, ele transformou a ideia em um projeto científico. Segundo Benjamin, a proposta foi dar uma nova utilidade às fibras que seriam descartadas e associar o reaproveitamento do material ao plantio de novas espécies.

“Eu li um artigo na internet em 2024 que dizia que o Brasil era um dos maiores produtores de açúcar do mundo. Então eu pensei em reutilizar essa cana para construir uma eco cápsula que ia proteger as sementes e ajudar o meio ambiente, fazendo com que elas cresçam mais saudáveis e com várias fibras”, contou.

Cápsula ecológica com resíduos de cana de açúcar — Foto: Rede Amazônica
Cápsula ecológica com resíduos de cana de açúcar — Foto: Rede Amazônica

Benjamin realizou testes em laboratório para avaliar a eficiência do projeto. Ele também verificou se o material poderia causar impactos no solo ou no meio ambiente. Com a ajuda da professora, Benjamin plantou mudas e doou parte das cápsulas para a 22ª Brigada de Infantaria de Selva.

A iniciativa permitiu que ele testasse a aplicação da eco cápsula na prática. “Me senti muito feliz com os resultados porque é uma forma de contribuir com o planeta Terra e fazer com que a gente consiga sobreviver mais nele”, afirmou o estudante.

No ciclo 2024/25, o Brasil produziu cerca de 676 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para a safra 2026/2027, a previsão é de crescimento de 4,7%, para 705,2 milhões de toneladas.

Leia também: Estudo revela que cápsulas de alho se mostram eficazes contra parasitas do pirarucu

Projeto com cana-de-açúcar passou pela fase de testes

Agora, Benjamin estuda novas formas de plantio e testa o material em diferentes tipos de solo e condições ambientais. A ideia é descobrir até que ponto a eco cápsula pode ser uma alternativa para pequenas áreas de reflorestamento.

Para a professora Soraya Cristina Pereira Leal, projetos científicos ajudam crianças e adolescentes a desenvolver a curiosidade e a buscar soluções para problemas do cotidiano.

“Quando ele crescer, com a eco cápsula espalhada por áreas degradadas, ele vai olhar e vai dizer: ‘Eu contribuí para o meio ambiente, eu contribuí para combater o efeito estufa e a poluição’. Foi a partir de um projeto que muitas pessoas não valorizam, mas que ainda contribui para o nosso planeta”, enalteceu a professora.

Com os estudos, Benjamin já conquistou premiações, participou de congressos e esteve em feiras científicas em vários estados, como Pernambuco e Rio Grande do Sul.

A pesquisa também garantiu ao estudante uma credencial para participar de um evento científico no Kuwait, país localizado no Oriente Médio.

*Por Maria Clara Prudêncio e Mayra Carvalho, da Rede Amazônica AP

Podcast investiga impacto da BR-174 na Amazônia e a resistência do povo Waimiri-Atroari

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Foto: Divulgação

O avanço de rodovias sobre a floresta tropical gera impactos complexos para a biodiversidade e para os povos originários. Para documentar essa realidade de perto, o podcast documental Sinal de Vida anuncia a produção de sua segunda temporada, gravada integralmente na Amazônia.

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A série em áudio acompanha uma investigação científica sobre as consequências da BR-174, estrada que liga Manaus (AM) a Boa Vista (RR), dentro e fora do território Waimiri-Atroari.

Podcast Sinal de Vida investiga impacto da BR-174 na Amazônia e a resistência do povo Waimiri-Atroari
Equipe do podcast Sinal de Vida com Sawa Atroari (ao centro, de amarelo) liderança indígena Waimiri-Atroari, e a pesquisadora Juliana Martins (de lilás, à direita de Sawa). Foto: Divulgação

Fugindo do formato tradicional de estúdio, a equipe realizou cinco expedições de campo, totalizando mais de 24 dias na mata. O resultado é um acervo com mais de 300 áudios que colocam o ouvinte no centro da ação: desde os sons da instalação de armadilhas fotográficas até o momento exato do fechamento noturno da rodovia, passando por entrevistas com caminhoneiros, lideranças indígenas e mergulhos em igarapés.

BR-174 e a ciência em campo

A BR-174 é o foco central da investigação científica apresentada no podcast, carregando um histórico complexo na Amazônia. Construída entre 1967 e 1977, durante o regime militar, a obra foi inserida no Plano de Integração Nacional e rasgou o território tradicional indígena, trazendo severas consequências ambientais e sociais.

Hoje, como medida de proteção e segurança referendada pela Justiça, o trecho da rodovia que corta a reserva é rigorosamente fechado ao tráfego de veículos durante a noite, das 18h às 6h.

Essa restrição é fundamental não apenas para a segurança da comunidade local, mas para impedir o atropelamento de animais de hábito noturno.

Foto: Divulgação

É exatamente esse cenário que norteia o trabalho documentado pela série. A temporada acompanha a pesquisa de campo da bióloga Juliana Martins, que instalou câmeras dentro e fora da terra indígena.

Com uma abordagem que une biologia e antropologia, o estudo coleta dados para comparar a presença de animais silvestres nessas diferentes áreas. Os objetivos da pesquisa é compreender se o bloqueio noturno da rodovia, gerenciado pelos indígenas, gera um impacto direto e positivo tanto na conservação da fauna e da biodiversidade amazônica, como na geração de autonomia territorial desse povo.

A resistência Waimiri-Atroari

O impacto da abertura da BR-174 foi devastador para os Waimiri-Atroari, que se autodenominam Kinja. O contato forçado com trabalhadores e militares introduziu doenças, violência armada e resultou na destruição de aldeias.

Leia também: Kinjaiara: conheça 22 palavras do vocabulário do povo Waimiri Atroari

Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), estima-se que 2.650 indígenas dessa etnia foram mortos durante a construção da rodovia na década de 1970. A violência sistêmica e as epidemias quase dizimaram o povo, que reduziu sua população de mais de 3.000 pessoas a cerca de 300 sobreviventes na época.

Apesar desse passado de quase completo extermínio, o podcast retrata o atual cenário de protagonismo dos Kinja na reconstrução de sua população e na defesa de suas terras. Durante as gravações, a equipe do Sinal de Vida construiu laços de amizade e confiança com Sawa, liderança indígena que co-coordenou a pesquisa.

Através da condução emocional da história, o programa documenta visitas a locais sagrados e a imensa importância do Maryba, uma festa tradicional que dura três dias ininterruptos. É por meio de celebrações como essa que os Waimiri-Atroari mantêm viva a sua história oral, articulam alianças políticas entre as aldeias e repassam o conhecimento de seus antepassados para as novas gerações.

Foto: Divulgação

Campanha de Financiamento Coletivo

Para viabilizar as etapas finais da produção, o projeto abriu um financiamento coletivo. A arrecadação pagará o desenvolvimento do site, trilha sonora, identidade visual, divulgação, roteiristas e editores.

“A edição ainda não aconteceu, pois estamos na etapa de roteirização. Tudo para trazer a humanidade por trás dessa pesquisa e mostrar que conservação da biodiversidade vai muito além das espécies, mas da cultura, história e disputa por terras”, destaca Lucas Andrade, integrante do Sinal de Vida.

Apoios podem ser feitos em catarse.com.br/sinaldevidapodcast ou via pix: contato@sinaldevidapodcast.com.br

Podcast Sinal de Vida

Conduzido pelos biólogos e comunicadores da ciência Lucas Andrade, Gabriela Longo e Amanda Guedes, o Sinal de Vida é um podcast narrativo que mergulha em viagens de campo para conectar pesquisas científicas às vidas cotidianas. A primeira temporada documentou a busca inédita pela raia-chita na Ilha Anchieta (SP) que resultou em um registro nunca antes feito pela ciência brasileira.

*Com informações da assessoria

Majé Suzete: a sabedoria ancestral do tratamento, prevenção e cura dos Kumaruana, no Baixo Tapajós

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Majé Suzete, a referência da sabedoria ancestral do povo Kumaruana. Foto: Leonardo Milano/Mídia Ninja

Nas aldeias indígenas Kumaruara do Baixo Tapajós, enquanto a liderança política é exercida pelos caciques, cacicas ou tuxauas, a liderança espiritual fica a cargo dos pajés ou majés.

Na aldeia de Solimões, uma das cinco do Território Kumaruara, no Pará, essa liderança espiritual está nas mãos da Majé Suzete. Aos 78 anos, Maria Suzete Rodrigues Matos segue fazendo remédios, banhos, trabalhos de cura e partos. E tem orgulho de sua prática.

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A majé vem de uma família de pessoas com dom. Ela começou cedo a fazer remédios, sob orientação da mãe. Nas aldeias, é muito marcante o uso de plantas medicinais, e diversos medicamentos são produzidos usando folhas, cascas, banhas, frutos, mel e outros ingredientes da floresta.

Majé Suzete
Majé Suzete. Foto: Reprodução/Mídia Ninja

São remédios para gastrite, nódulos, inflamação, verminose, xarope para anemia, para garganta, pomadas, garrafada anti-inflamatória e banhos. A fabricação de medicamentos tradicionais envolve um sistema de conhecimento ancestral transmitido de forma oral, como aconteceu com a majé.

Suzete realizou seu primeiro parto aos 11 anos de idade. Seu aprendizado se deu a partir da observação do trabalho de outras pessoas e de sonhos. Ao mesmo tempo, ela diz que sempre foi muito curiosa, desde criança, e, assim, foi adquirindo e desenvolvendo seu dom ao longo do tempo.

“Foi nos meus sonhos, eu fui descobrindo. Aí eu fui aprendendo, ia fazer o trabalho e acertava. Antes de mim, gente da minha família tinha esse dom, porque os meus tios, eles puxavam desmentidura, benziam, eu puxei um pouco pro lado deles”, ela conta.

Existe o reconhecimento público do trabalho realizado por Suzete, tanto das pessoas da aldeia, que a procuram com frequência, quanto de pessoas de fora. Mas ainda é desafiador garantir o respeito às práticas e conhecimentos tradicionais de saúde e o protagonismo dos/as cuidadores/as atuantes na região e evitar a imposição do modelo biomédico em detrimento de suas formas próprias e tradicionais de cuidado.

O preconceito ainda é uma realidade, dentro e fora das aldeias. A majé Suzete, por exemplo, já foi chamada de bruxa dentro da própria casa. “Eu só trabalho pro bem. Tem pessoa aqui na aldeia que pensa outra coisa da gente, mas não é não. Agora já me respeitam aqui. Já senti preconceito”, ela conta.

Majé Suzete
Majé Suzete. Foto: Reprodução/Mídia Ninja

Majé estimula a troca de conhecimentos

Majé Suzete não nega os conhecimentos da medicina ocidental. Quando percebe que a situação é complicada, ela sugere que a pessoa procure médico em Santarém, cujo acesso até a aldeia é somente fluvial, em cinco horas de barco. Mas a situação inversa também acontece: ela já tratou de pessoas cujos problemas os médicos não conseguiram resolver.

“Já veio um rapaz de Manaus se tratar comigo aqui, veio desenganado do médico. Quando esse rapaz chegou, ele não podia sentar, quando eu fui lá na casa dele, ele estava na rede. Aí eu puxei tudo. Esse menino levantou e sentou em uma cadeira fora, a mãe dele ficou me olhando: pela amor de Deus, ele não andava!”, lembra ela.

Majé Suzete segue tratando da comunidade e dos pacientes que a procuram, agora com a ajuda das filhas e de um neto. Por várias vezes ao longo das nossas conversas, ela me falou sobre seus modos de transmissão do conhecimento. “Esse conhecimento pode ser repassado”, ela explica.

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Majé Suzete
Majé Suzete realizando uma de suas práticas. Foto: Reprodução/Mídia Ninja

Suzete ensina as novas gerações a fazer remédios. Uma filha e um dos seus netos manifestaram dom desde crianças. No caso do neto, o dom dele é diferente do dela e, atualmente, eles trabalham em parceria na cura das pessoas.

“Esse aí adivinha as coisas, eu já não tenho isso, por isso que uns tem um e outros tem outro dom. O que eu faço ele não faz e o que ele faz eu não faço. Ele confia em mim, quando é alguma coisa pra remédios, banho, ele já liga pra mim e eu faço, porque aqui eu planto as plantas medicinal. Mas se eu vou rezar em uma pessoa e não pega, aí eu tenho que ligar pra ele, ele dizer porque que é, ele diz, eu faço e dá certo. É assim que nós trabalha”.

Isso porque há diversas especialidades de práticas de cura e cuidado com a saúde. Segundo o indígena e antropólogo Florêncio Vaz Filho, do povo Maytapú, os especialistas de saúde entre os indígenas podem ser assim divididos:

  • Pajé / Majé: Cura doença do corpo e do espírito; faz tratamento para desfazer mal, por meio de orações; trata doenças feias com banhos de plantas, chá de ervas e garrafadas; é conhecedor/a das plantas medicinais, árvores e banhas de animais; tem o dom de aprender as coisas por sonho; trata picada de bichos peçonhentos como cobra e escorpião; é parteira; benze e reza; exerce o poder de respeito de todos.
  • Benzedor/a, rezador/a: Benze e reza em pessoas que estão com mau-olhado de bicho, crianças que estão com quebranto e panema; é conhecedor/a de orações para tratamento e cura de doenças específicas.
  • Rezador de rasgadura/carne trilhada e rendidura: Sabe reza específica para rendidura – quando o homem se rende por fazer muito esforço físico; costura feridas.
  • Puxador/a e consertador/a de osso: Conserta osso e puxa desmentidora, que é a distensão muscular, luxação ou torção.
  • Conhecedor/a das plantas medicinais e banhas de animais: Faz remédios caseiros – garrafadas, xarope, pomada, comprimidos com plantas naturais, cascas de árvores e banhas de animais – para doenças como diabetes, hipertensão, miomas, dores musculares, gripe, bronquite, pneumonia, inflamação, verminose e outras doenças.
  • Sacaca: Tem o dom de nascença para descobrir a cura para tratar pessoas; descobre as práticas de cura por intermédio de sonhos; faz tratamento com defumação ou com banhos de cheiro feitos com plantas; cura doenças do corpo e do espírito; benze e reza.
  • Curador/a ou curandeiro/a: Cura doença do corpo e do espírito; faz tratamento para desfazer mal, por meio de orações, banhos, defumação, garrafadas para doenças feias; benze e reza.
  • Parteira: Acompanha mulher grávida – puxa barriga e faz partos.

A identificação e tratamento das doenças está diretamente vinculada à relação desses povos com o mundo dos encantados. As doenças costumam estar ligadas a uma desordem que ocorreu na relação entre seres humanos e seres encantados. E há pessoas que têm o dom de reorganizar essa relação.

Majé Suzete é uma dessas pessoas com dom. E ela exerce vários papeis sociais ao mesmo tempo, pois ocupa cargo de prestígio na organização social da aldeia como majé, cuida das pessoas, gera renda com produção da agricultura familiar, é uma liderança comunitária e atua na escola junto com a professora de Notório Saber, fazendo oficinas de cerâmicas e remédios caseiros.

E ela se preocupa em repassar seus conhecimentos, para ter alguém que possa substituí-la algum dia:

“Eu já tô procurando uma pessoa que fique no meu lugar, como eu já achei uma filha minha, ela me acompanha nos partos que eu faço, ela já sabe mais ou menos como é. É a Silvane Cristina, essa que eu escolhi pra mim ajudar e fazer esse trabalho por mim. Outra neta que estou ensinando ela a puxar desmentidura é a Josiete. Também tem minha filha Celivalda que já puxa. Eu ensino elas a fazerem isso, porque eu não sei o dia de amanhã. Por isso que eu estou dizendo, eu sou muito feliz com esse trabalho e ajudo meus irmãos”, explica.


Autor

Luana Kumaruana – Professora do Magistério Superior da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração de um pesquisador. Leia o original AQUI.

“Portovelhense” não existe: entenda por que o hífen é obrigatório

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Porto Velho, capital de Rondônia. Foto: R. Machado

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Não é raro encontrar, até em documentos oficiais e trabalhos acadêmicos, o gentílico de Porto Velho grafado como “portovelhense”, sem o hífen exigido pela norma culta.

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O correto é porto-velhense. A explicação está na regra do hífen para palavras compostas por justaposição. O Acordo Ortográfico (Base XV) determina o uso do hífen nos compostos formados sem elemento de ligação, quando os termos conservam autonomia fonética e gráfica e passam a formar uma unidade de sentido.

É exatamente o que ocorre com os gentílicos derivados de topônimos compostos: Porto Velho gera porto-velhense, assim como Porto Alegre gera porto-alegrense, Mato Grosso gera mato-grossense e Rio Branco gera rio-branquense.

Quem mora em Porto Velho é porto-velhense
Foto: Leandro Morais/Prefeitura de Porto Velho

Portovelhense, uso consagrado pelo erro

Sem o hífen, “portovelhense” resulta em uma aglutinação indevida. Os dois radicais, “porto” e “velhense”, permanecem autônomos, e o hífen é o sinal que marca essa composição.

Se a forma sem hífen ainda circula, inclusive em um documento antigo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], trata-se de um uso consagrado pelo erro. Não deixa de ser erro.

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Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

No Acre, artista plástica aposta em materiais sustentáveis para criar obras inspiradas na Amazônia

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Foto: Walace Gomes/Rede Amazônica AC

A veterinária e artista plástica Débora Cristina Barbosa Almeida, de 59 anos, encontrou na biodiversidade amazônica matéria-prima e inspiração para transformar elementos da floresta em arte. Há quatro anos, ela produz quadros e peças decorativas utilizando materiais como palha e sementes.

Natural do Amapá, Débora trouxe parte da Macunani Art & Décor ao Inova Amazônia Summit, que ocorre em Rio Branco até este sábado (19). As peças são vendidas por até R$ 600 e são apresentadas no evento que reúne empreendedores e iniciativas ligadas à bioeconomia e à inovação na Amazônia.

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A artista conta que a relação com a região amazônica é a principal inspiração para o trabalho. Débora explica que os quadros não apenas embelezam espaços, mas também contribuem para o estilo de vida sustentável.

“Minha inspiração vem justamente da biodiversidade, da Amazônia, da nossa ancestralidade, da nossa cultura e do nosso estado, nortista igual ao Acre. Fazer esse tipo de arte é aderir a um estilo e vida. Uma peça mais simples leva mais ou menos três a quatro dias. Uma mais complexa, dependendo do tamanho, leva em torno de duas semanas. O tempo varia conforme o tamanho e a complexidade de cada peça”, afirma a artista plástica.

O processo de produção é artesanal e pode levar até duas semanas. Chamado de arte eco-friendly, definida como a prática artística que usa materiais recicláveis para criar obras, Além dos quadros decorativos, Débora também produz letreiros e trabalha com desenhos inspirados em grafismos amazônicos e indígenas. A escolha dos materiais é uma das partes mais importantes do processo. A artista utiliza matérias-primas que não causam impactos ao meio ambiente.

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Veterinária Débora Almeida apresenta suas obras sustentáveis feitas com materiais da Amazônia no Inova Amazônia Summit — Foto: Walace Gomes/ g1 AC
Veterinária Débora Almeida apresenta suas obras sustentáveis feitas com materiais da Amazônia no Inova Amazônia Summit. Foto: Walace Gomes/Rede Amazônica AC

“Eu gosto de trabalhar com materiais sustentáveis como palha, cascas de coco, folhas secas e cascas de árvores. Hoje eu foco muito em procurar matéria-prima sustentável que não agrida a natureza e a nossa Amazônia”, destaca.

Além disso, algumas peças podem utilizar palhas de coqueiro e até buriti, fruta típica da região. Parte deles é comprada em Belém, estado onde mora, enquanto outros são adquiridos de colegas que trabalham com materiais semelhantes.

Débora também conta que coleta alguns materiais no Museu Sacaca, em Macapá. Segundo ela, o reaproveitamento está relacionado ao conceito de economia circular. “A gente trabalha sempre aproveitando uma coisa, inventando e pegando aquela situação de novo para refazer também”, afirma.

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Uso de materiais sustentáveis, uma mensagem ambiental

Para além da decoração, Débora procura utilizar as peças para chamar atenção a questões ambientais da Amazônia. Algumas das obras abordam as queimadas e espécies de animais ameaçadas de extinção.

A intenção, segundo ela, é fazer com que a arte seja também uma ferramenta de conscientização. Para a amapaense, a proposta é que o comprador não veja apenas um objeto bonito, mas também reconheça a relação daquela peça com a floresta e com a cultura amazônica.

Débora busca usar as peças para chamar atenção sobre as queimadas e a extinção de animais — Foto: Walace Gomes/g1 AC
Débora busca usar as peças para chamar atenção sobre as queimadas e a extinção de animais. Foto: Walace Gomes/Rede Amazônica AC

“A nossa missão é levar o nosso trabalho para mais e mais pessoas. A gente trabalha com o objetivo de preservação ambiental e esse é uma arte para conscientizar. Não é só uma beleza. A nossa arte precisa se conectar com o ambiente de quem está adquirindo”, explica.

Débora chegou ao Acre com um grupo de empreendedores do Sebrae Amapá para participar do Inova Amazônia Summit. O evento começou nessa quinta-feira (17), no Centro de Convenções da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco. Mesmo após apenas o primeiro dia do encontro, ela diz já ter vendido algumas peças e avalia positivamente o movimento.

Para ela, além da possibilidade de comercializar os produtos, o evento permite apresentar o trabalho para pessoas interessadas em iniciativas relacionadas à Amazônia.

“Um evento dessa magnitude sempre traz cada vez mais pessoas interessadas em saber mais sobre a Amazônia, sobre as questões climáticas, a bioeconomia e as inovações. Que é o que une todo esse público em busca de um mundo sustentável”, completa.

*Por Walace Gomes, da Rede Amazônica AC

Exposição mostra jornada do café “do grão até a xícara” em Apuí 

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Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara”. Foto: Fabíola Abess

Uma viagem pelos aromas da agrofloresta será apresentada nos dias 27 e 28 de novembro, no Selvec Club, no município de Apuí, no sul do Amazonas. A ‘Expo Café: Do Grão à Xícara – Narrativas Caféinadas’ levará os visitantes a sentir a potência do café produzido em agroflorestas, estimulando os cinco sentidos de diferentes formas e revelando como a diversidade da floresta faz parte da identidade do café de Apuí. 

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A imersão é uma contrapartida prevista no projeto ‘Do Grão à Xícara: Narrativas Caféinadas’, realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Citi, apoio da Prefeitura de Apuí, Bemol, TikTok, IRI Brasil, e realização do Idesam, Amazônia Agroflorestal e Ministério da Cultura.  

Com entrada gratuita, a expo tem classificação livre e conta, na programação, com sessões de degustação guiadas dos cafés especiais finalistas do concurso de qualidade do Café Apuí Agroflorestal, conduzidas por especialistas. Uma oportunidade para conhecer os aromas, sabores e atributos que fazem de Apuí uma referência em cafés de alta qualidade. 

Tocar, sentir e conectar-se por meio de diversas texturas e elementos táteis que representam o ciclo de produção do café, desde as folhas das árvores até as embalagens finais, também fazem parte da experiência. 

Leia também: Você sabia que a história do café no Brasil começou na Amazônia?

grão de café
Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara” . Foto: Fabíola Abess

Fotografias, uma linha do tempo e uma experiência em realidade virtual revelam a trajetória do café agroflorestal de Apuí. Os óculos de realidade virtual convidam o público a contemplar a floresta e refletir sobre sua importância. 

Durante o evento, também será realizada a 5ª edição do Campeonato de Qualidade do Café Apuí Agroflorestal, que reconhece e valoriza a excelência dos cafés produzidos no município. 

“Nosso objetivo é despertar o orgulho de ser de Apuí, a capital amazonense do café, aproximando moradores da cidade e do campo de uma cultura que está transformando o município. A exposição mostra que é possível produzir café em harmonia com a floresta e apresenta ao público as razões pelas quais Apuí vem conquistando reconhecimento como um território do café sustentável”, disse Ana Maria, Coordenadora Geral do projeto. 

Leia também: Parceria já restaurou mais de 20 hectares com café agroflorestal em Apuí, no Amazonas

Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara”.  Foto:Fabíola Abess

“De crianças a idosos, queremos que cada visitante saia com a certeza de que café e floresta crescem juntos e que essa história merece ser conhecida, celebrada e compartilhada com o mundo”, disse Vanilse Constante, apuiense e parte da equipe. 

Mulheres, crianças e jovens terão protagonismo na programação da Expo do grão até a xícara

A programação também abre espaço para diferentes gerações e públicos de Apuí. Mulheres que participaram de um ciclo de capacitações colocarão seus conhecimentos em prática em um Campeonato de Baristas, que vai reconhecer talentos femininos ligados à cultura do café.

Crianças participarão por meio de trabalhos desenvolvidos nas escolas, em parceria com a Prefeitura, abordando café, floresta e sustentabilidade.

Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara” . Foto: Fabíola Abess

Já os jovens serão convidados a atuar como Embaixadores de Apuí, após uma oficina de redes sociais que os preparará para produzir conteúdos sobre a exposição e ajudar a contar e divulgar, a partir de seus próprios olhares, a história do café agroflorestal do município. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Idesam, escrito por Fabíola Abess