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Ranking nacional de sustentabilidade coloca cidades da Amazônia Legal nas últimas posições

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Porto Velho, classificado como muito baixo no ranking de capitais brasileiras no IDSC-BR 2026. Foto: Nilson Santos/Secom RO

O Instituto Cidades Sustentáveis lançou a nova edição do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil (IDSC-BR), trabalho que permite avaliar os 5.570 municípios brasileiros de acordo com 100 indicadores temáticos, em diferentes áreas de atuação do poder público. O lançamento ocorreu neste 27 de agosto no Sesc Paulista, em São Paulo, durante o 4º Fórum Cidades Sustentáveis.

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O índice apresenta uma visão abrangente e integrada de todos os municípios brasileiros em áreas como saúde, educação, pobreza e renda, moradia, saneamento, segurança e meio ambiente, entre outras.

É possível verificar o desempenho das cidades em recortes específicos (geográficos ou temáticos, por exemplo), assim como observar a enorme desigualdade entre as cidades, estados e regiões do país. Os dados foram coletados em bases públicas nacionais e oficiais, como o IBGE, DataSUS e Inep.

Das dez cidades com a melhor pontuação no ranking geral, oito estão no estado de São Paulo e duas, em Minas Gerais. Na outra ponta, as 10 cidades com o pior desempenho estão todas na Amazônia Legal.

O melhor resultado dentre os 5.570 municípios brasileiros foi obtido pela cidade de Santana da Ponte Pensa, a pouco mais de 600 quilômetros da capital paulista, com 67,8 pontos. Em seguida, aparecem Uru (67,2 pontos) e Santópolis do Aguapeí (66,8 pontos), também no interior de São Paulo. Os piores desempenhos foram registrados em Lábrea/AM (32,8 pontos), Ulianópolis/PA (32,9 pontos) e Envira/AM (34,1 pontos).

O índice mostra ainda que a maioria dos municípios brasileiros avançou em relação ao ano passado, mas todos estão distantes de alcançar um nível muito alto de desenvolvimento sustentável. A pontuação média das 5.570 cidades do país ficou em 51,2, em escala que varia de 0 a 100 pontos – um aumento de 1,2 ponto em relação à edição de 2025.

No total, 70% dos municípios (3.935) melhoraram sua pontuação geral, estabelecida de acordo com o desempenho local nos 100 indicadores. Outros 29% pioraram e 0,2% ficaram estagnados.

Os resultados mostram também que nenhuma cidade do país atingiu nível muito alto de desenvolvimento, com pontuação acima de 80 pontos; menos de 5% (271 municípios) registraram nível alto de desenvolvimento; 54%, nível médio (3.056 municípios); 37%, nível baixo (2.076 municípios); e 3%, nível muito baixo (167 municípios).

Leia também: Ranking mostra quais municípios da Amazônia Legal tem melhor e pior desempenho de qualidade de vida

Evolução da pontuação média das cidades brasileiras no IDSC-BR

Ranking nacional coloca cidades paulistas no topo e municípios da Amazônia Legal entre as últimas posições, embargado até 27 de agosto
Foto: Divulgação

Pontuação das cidades brasileiras no IDSC-BR 2026, conforme o nível de desenvolvimento

Foto: Divulgação

Capitais brasileiras no IDSC-BR 2026

O índice revela que 14 capitais apresentam nível baixo ou muito baixo de desenvolvimento sustentável, com pontuação abaixo de 50. Brasília obteve a melhor pontuação (61 pontos), seguida por Curitiba (58,1) e São Paulo (58).

Porto Velho ocupa a última posição entre as capitais, com 38,7 pontos (veja tabela abaixo).

Foto: Divulgação

Mais sobre o IDSC-BR

A metodologia do índice foi desenvolvida pela Sustainable Development Solutions Network (SDSN), uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para mobilizar conhecimentos técnicos e científicos da academia, da sociedade civil e do setor privado no apoio de soluções em escalas locais, nacionais e globais. Aplicada em diversos países, foi adaptada para as cidades brasileiras pelo Instituto Cidades Sustentáveis em 2021, quando foi lançado o primeiro piloto do IDSC-BR. Desde então, os dados são atualizados e divulgados anualmente.

O índice apresenta uma avaliação abrangente da distância para se atingir as metas e objetivos da Agenda 2030 nos 5.570 municípios brasileiros, com base nos dados mais atualizados disponíveis nas fontes nacionais e oficiais. A intenção é orientar a ação política de prefeitos e prefeitas, definir referências e metas com base em indicadores e facilitar o monitoramento dos ODS em nível local.

Realizado no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, o IDSC-BR conta com o cofinanciamento da União Europeia, como parte do “Programa de fortalecimento da sociedade civil e dos governos locais para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”. O projeto tem como parceiros institucionais a Frente Nacional dos Prefeitos e Prefeitas (FNP) e a Estratégia ODS.

Fórum Cidades Sustentáveis

Fórum Cidades Sustentáveis – Acelerando a Implementação da Agenda 2030 é uma iniciativa do Instituto Cidades Sustentáveis, no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, realizada em parceria com a Caixa, a Fundação Grupo Volkswagen e o Movimento Bem Maior. O cofinanciamento é da União Europeia, como parte do “Programa de fortalecimento da sociedade civil e dos governos locais para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”.

O fórum reúne gestores públicos, especialistas, empresas, organizações da sociedade civil e instituições para discutir caminhos concretos para acelerar a implementação da Agenda 2030 nas cidades brasileiras. A programação inclui debates sobre os desafios e as práticas do desenvolvimento sustentável, a emergência climática, o papel das empresas e da sociedade civil e os caminhos para ampliar o financiamento de iniciativas sustentáveis nos municípios.

Instituto Cidades Sustentáveis

O Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) é uma organização da sociedade civil criada em 2007, com o objetivo de fortalecer as instituições públicas e a democracia, bem como promover o debate sobre o enfrentamento das mudanças climáticas. Produzimos conteúdos, metodologias e ferramentas de apoio à gestão pública municipal e ao desenvolvimento de projetos em rede, utilizando como base indicadores de desempenho nas diversas áreas de atuação da administração pública.

A atuação do ICS envolve também a articulação, mobilização e sensibilização de gestores públicos municipais para a implementação de políticas públicas que promovam a melhoria da qualidade de vida da população em seus variados aspectos. Esse trabalho é desenvolvido em duas frentes: a Rede Nossa São Paulo, com foco na capital paulista; e o Programa Cidades Sustentáveis, de âmbito nacional, voltado para todos municípios brasileiros.

*Com informações do Instituto Cidade Sustentáveis

Boa Vista amplia drenagem e avança na solução de 55 pontos críticos de alagamento

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As intervenções contemplam as ruas Antônio Seabra e Maria Alves da Cunha. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

Boa Vista segue recebendo importantes obras de infraestrutura que beneficiam diretamente a população. Entre as ações está a ampliação do sistema de drenagem, que já contempla 55 pontos críticos de alagamento em 27 bairros da capital. Desse total, 50 já foram solucionados, enquanto outros cinco estão com obras em execução.

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No bairro Caçari, dois pontos críticos de alagamento recebem 668,5 metros de rede de drenagem. As intervenções contemplam as ruas Antônio Seabra e Maria Alves da Cunha, com o direcionamento das águas pluviais para uma lagoa localizada após a rua Levina Alves da Silva.

Boa Vista amplia drenagem e avança na solução de 55 pontos críticos de alagamento
Desde 2021, o município já implantou mais de 66 km de sistema de drenagem em toda a cidade. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

De acordo com a secretária municipal de Obras, Kaynara Carvalho, as equipes estão concentradas atualmente no trecho entre as avenidas Lídia Bento e Levina Alves da Silva, com os serviços avançando a partir do ponto de deságue. A rede conta inicialmente com tubulação de 1.000 milímetros de diâmetro, que segue até os dois pontos críticos de alagamento.

“Desde 2021, o município já implantou mais de 66 km de sistema de drenagem em toda a cidade. Somente nos pontos críticos de alagamento, já alcançamos 50 locais solucionados, enquanto outros cinco estão com obras em execução. São as ruas Mariate e Prêmio, no bairro Jóquei Clube; a rua Tapajós, no bairro Nova Cidade; e, agora, as ruas Antônio Seabra e Maria Alves da Cunha, no bairro Caçari”, destacou a secretária.

Leia também: El Niño: irrigação fotovoltaica ajuda produção rural em Boa Vista

“É um serviço muito positivo, que estávamos precisando e que será muito importante para todos nós”, disse Paola. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

A pedagoga Paola Beatriz Almeida, de 54 anos, moradora da rua Antônio Seabra, comemora a execução da obra, que vai solucionar um dos pontos críticos de alagamento da região.

“Com a construção de novas casas, a água da chuva ficou sem ter para onde escoar. Essa obra da Prefeitura vai melhorar o sistema de drenagem e solucionar os problemas de alagamento. É um serviço muito positivo, que estávamos precisando e que será muito importante para todos nós”, afirmou.

123 anos dos Barnabitas no Pará: uma história de fé, missão e serviço

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Foto: Reprodução/Basílica Santuário de Nazaré

Há 123 anos, a história da Ordem dos Clérigos Regulares de São Paulo, os Padres Barnabitas, se entrelaça com a caminhada da Igreja no Brasil. A missão teve início no dia 21 de agosto de 1903, quando os primeiros religiosos chegaram ao país pelos portos de Belém do Pará, e de Recife, no Pernambuco, trazendo o compromisso de evangelizar e servir.

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Na capital paraense, os missionários foram acolhidos no antigo convento do Colégio do Carmo. Entre eles estavam os Padres Emílio Maria Richert e Paulo Maria Lecourieux. Dois anos depois, em 1905, os Barnabitas assumiram a então Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré e também passaram a atuar na administração do seminário diocesano.

A devoção a Nossa Senhora de Nazaré ganharia, a partir de então, um novo capítulo. Em 1909, iniciou a construção da Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, inspirada na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma.

A obra atravessou diferentes períodos de dificuldades econômicas e históricas, incluindo o declínio do ciclo da borracha e as duas guerras mundiais, até ser concluída no período posterior à Segunda Guerra Mundial.

Leia também: Rizoma da fé: a Basílica Santuário como ente essencial de Belém

123 anos dos Barnabitas no Brasil
Foto: Reprodução/Basílica Santuário de Nazaré

Ao longo de décadas, os Barnabitas consolidaram sua missão junto à Basílica de Nazaré e passaram a desempenhar um papel fundamental na vida religiosa e cultural de Belém, especialmente na organização e direção espiritual do Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações de fé católica do mundo.

Barnabitas além do Pará

A presença da Congregação, porém, ultrapassa as fronteiras do Pará. Ao longo de sua trajetória, os Barnabitas estabeleceram comunidades e obras em diferentes regiões do país, incluindo os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Ceará, além do Distrito Federal, ampliando sua atuação evangelizadora e social.

Leia também: Poucos padres em Rondônia? Veja como missionários estrangeiros ajudam a manter viva a fé na Amazônia

Foto: Reprodução/Basílica Santuário de Nazaré

Em Belém, os 123 anos de missão se refletem diariamente na vida da Basílica de Nazaré, nas celebrações litúrgicas, nos momentos de oração e nas ações voltadas ao acolhimento e serviço à comunidade. Uma presença que permanece viva e que acompanha gerações de devotos.

Celebrar 123 anos dos Barnabitas no Brasil é, portanto, recordar uma trajetória construída com fé, dedicação e compromisso com a evangelização. Uma história que começou com a chegada de alguns missionários e que, mais de um século depois, continua sendo escrita junto ao povo, especialmente sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré.

*Com informações da Basílica Santuário de Nazaré

Violência contra os povos indígenas: “números causam não só espanto, mas revolta”, comenta Leonardo Steiner

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Foto: Reprodução/Amazon Sat

O programa ‘Entrevistas‘, exibido pelo canal Amazon Sat, iniciativa do Grupo Rede Amazônica voltada aos temas debatidos em Brasília que impactam diretamente a Amazônia, recebe neste episódio o presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o cardeal e arcebispo de Manaus (AM), Leonardo Steiner. A edição discute os números da violência divulgados pelo relatório da entidade, que reúne informações sobre diferentes formas de violência e violações contra os povos indígenas no país. Os dados são referentes ao ano de 2025.

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Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, o programa aborda os dados apresentados pelo relatório em temas sensíveis como o alto índice da mortalidade de crianças indígenas, além dos números de mortes e suicídios. De acordo com o levantamento, 1.024 crianças indígenas de até quatro anos de idade morreram no ano passado – o Amazonas registrou 306 óbitos, enquanto 258 indígenas foram assassinados no país. Em relação ao suicídios, foram registrados 215 casos.

Para Steiner, os dados refletem a falta de soluções referentes às demarcações de territórios indígenas no país e que o aumento dos conflitos territoriais contribuíram para alto índice de violência contra os povos originários.

“Isso advém um pouco da dificuldade do encaminhamento da demarcação das terras. Os povos se cansaram de esperar, então vários povos fizeram a retomada da terra dos seus antepassados, ou seja, terras ancestrais que para eles são sagradas. Isso, naturalmente, gera conflitos e violência, especialmente quando se trata de retomada. Os números são significativos, mas eu penso que é pela falta de demarcação das terras. Nós sentimos que aumentou a violência, as mortes e os suicídios devido às questões que nós chamamos de território”, explicou o cardeal.

O presidente do Cimi reforça que o preconceito também endossa os motivos do alto índice da violência contra os indígenas. “A violência também aparece muita das vezes na questão do preconceito, infelizmente o indígena não é visto como gente. Eu sou testemunha de agressões, fui bispo em Mato Grosso onde haviam muitos povos indígenas, hoje no Amazonas eu tenho contato com vários outros povos e nós vemos que esse preconceito é muito violento e gera violência e morte”, pontuou.

O cardeal e arcebispo de Manaus, Leonardo Steiner, comentou sobre o relatório da violência contra os povos indígenas do Brasil, divulgado pelo Cimi. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Mortalidade de crianças indígenas

Outro dado preocupante revelado pelo relatório foi o aumento no número de mortes de crianças indígenas – 1.024 óbitos em 2025 contra 922 óbitos em relação ao ano anterior. Para Steiner, tal crescimento está relacionado à contaminação causada pelo garimpo ilegal e pelo descaso da saúde indígena.

“Nós tivemos uma mortandade muito grande em relação ao garimpo, vi várias crianças desnutridas, sem cabelo, esqueléticas e uma das maiores dificuldades é a desnutrição. Outro fato é o descuido do Estado em relação à saúde indígena, hoje é aceito mulher dar à luz em hospital, mas isso não é tradição daqueles povos. Criança nasce na aldeia, nasce no povo, isso para eles é muito importante e sinto que nós perdemos essa sensibilidade. Esses números causam não só espanto, mas revolta porque poderia ser um número bem menor, penso eu que estamos a dever muito ainda”, ponderou Steiner.

O bispo revelou, ainda, que a morte de bebês e crianças indígenas são consideradas um baque nas tradições indígenas. “Essas mortes são uma ferida para os povos. Convivendo com eles, eu percebi que a riqueza maior são as crianças. Talvez a nossa sociedade não valorize tanto as crianças quanto eles. Uma vez eu cheguei na aldeia Xavante e não encontrei ninguém, todos estavam recolhidos porque tinha morrido uma criança. Conversando depois com um padre que atuava na região, ele disse que a morte de alguém na aldeia é um rito sagrado, mas se torna um rito silencioso quando se trata de uma criança”, relatou o ‘Cardeal da Amazônia‘.

Leia também: Entrevistas: secretária executiva Vanessa Grazziotin destaca atuação da OTCA na Amazônia

Presidente do Conselho Indigenista Missionário, Steiner comentou a atuação da entidade no combate à violência contra os povos indígenas
Presidente do Conselho Indigenista Missionário, Steiner comentou a atuação da entidade no programa Entrevistas, com o jornalista Welliton Lopes. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Além do tema, a entrevista também abordou a importância do Conselho Indigenista Missionário no combate à violência contra os povos indígenas, a atuação contra as atividades ilegais do garimpo em território indígena e destacou os desafios pela defesa dos direitos originários no cenário jurídico, político e social.

Assista:

‘Entrevistas’

O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasceu com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília e dos debates que influenciam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, economia, meio ambiente, desenvolvimento regional e relações internacionais, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e autoridades.

Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa busca aprofundar debates e mostrar os bastidores das decisões que impactam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica, transformando temas complexos em informações acessíveis ao público.

“Entrevistas” tem episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e reexibições às quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas-feiras, às 19h30. Todos os horários seguem o fuso de Manaus (GMT -4).

Isótopos da água são usados para mapear alterações nas chuvas da Amazônia

Amostras diárias de chuva armazenadas em vials (pequenos frascos) de 2mL para posterior análise em laboratório. Foto: Rafaela Rogrigues Gomes

As secas históricas de 2023 e 2024 na Amazônia não apenas reduziram o volume dos rios, mas alteraram a própria composição da chuva na região. É o que revela um monitoramento diário feito em Manaus (AM), que utilizou isótopos – uma espécie de “impressão digital” da água – para demonstrar como o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte afetaram a origem da umidade e a dinâmica das precipitações.

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O estudo liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – um dos primeiros a retomar o uso de técnicas isotópicas em estudos hidroclimáticos na Amazônia em mais de 30 anos – sugere que os isótopos podem sinalizar com antecedência a chegada de períodos de seca prolongados.

Isótopos são versões mais leves ou pesadas dos átomos de um mesmo elemento químico. As moléculas de água (H2O) são formadas de átomos dos elementos hidrogênio e oxigênio. A maioria dos átomos de hidrogênio possui um núcleo atômico feito de apenas um próton. Os núcleos de uma pequena fração deles, entretanto, são duas vezes mais pesados, compostos de um próton e um nêutron.

Da mesma maneira, a maioria dos núcleos de oxigênio é formada de oito prótons e oito nêutrons, embora alguns poucos tenham nove ou dez nêutrons. Algumas moléculas de água são, portanto, mais leves, evaporando com um pouco mais de facilidade, enquanto outras, mais pesadas, condensam primeiro.

Leia também: Estudo sobre geração de chuvas na Amazônia reúne cientistas da UEA e Reino Unido

“As proporções entre os isótopos leves e pesados são alteradas pela evaporação e condensação da água ao longo do ciclo hidrológico”, explica a geógrafa Rafaela Rodrigues Gomes, doutoranda do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) da Unesp em Rio Claro.

Margem do rio Amazonas, em Manaus, recuada pela estiagem severa, em outubro de 2023. Foto: Rafaela Rodrigues Gomes

Ela é a primeira autora do trabalho publicado em junho na revista Hydrological Processes, baseado em sua dissertação de mestrado, com bolsa da FAPESP.

Seu orientador no mestrado e no doutorado é o coordenador do Laboratório de Recursos Hídricos e Isótopos Ambientais (LARHIA) da Unesp, o geólogo Didier Gastmans. “Cada condição de temperatura, umidade e outras variáveis meteorológicas produz diferenças na proporção dos isótopos, que podem ser utilizadas como uma impressão digital da água”, explica Gastmans.

Um hiato de décadas

Os estudos sobre a variação isotópica da chuva na Amazônia Central começaram nos anos 1960, realizados principalmente por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em parceria com a Agência Internacional de Energia Atômica (Iaea, na sigla em inglês). Amostras mensais de chuva foram coletadas em Manaus, ainda que com interrupções em alguns anos, entre 1965 e 1990. A falta de financiamento encerrou o programa.

“Só agora, a partir de 2020, com esforços do nosso grupo, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa], do Serviço Geológico do Brasil [SGB] e de outras instituições, estamos implementando uma nova rede de monitoramento na região”, conta Gastmans. Parte do financiamento da rede vem de um projeto financiado conjuntamente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e pela FAPESP.

No novo estudo, pesquisadores do Inpa coletaram 207 amostras diárias de chuva em Manaus, entre março de 2023 e fevereiro de 2025. As amostras foram divididas para serem analisadas em diferentes laboratórios: o LARHIA, o Centro de Isótopos Estáveis do Instituto de Biociências da Unesp, em Botucatu, e o Grupo de Hidrologia de Traçadores da Universidade do Texas em Arlington, Estados Unidos.

Para entender sua relação com os fenômenos atmosféricos, Gomes comparou os dados isotópicos com medidas de variáveis do tempo atmosférico local, obtidas por uma estação meteorológica instalada junto ao coletor de chuva. Ela também cruzou essas informações com dados e modelos meteorológicos globais fornecidos pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) e pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos.

Quem manda na chuva

A pesquisadora concluiu que, entre os meses chuvosos de março, abril e maio, as proporções isotópicas são controladas pela chamada Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), uma grande faixa de nuvens que circunda a Terra próxima ao Equador, responsável por 30% da precipitação do mundo. Nessa época do ano, a ZCIT se desloca mais para o sul, favorecendo massas de ar úmido vindas do Atlântico Norte. Essas massas produzem sucessivos episódios de chuva ao longo de sua trajetória, do oceano até Manaus, aumentando a proporção de isótopos leves.

Entre junho, julho e agosto, a ZCIT recua para o norte, dando lugar a um tempo mais seco na Amazônia. O estudo mostrou que durante essa estação a proporção de isótopos pesados volta a crescer, controlada por outro sistema atmosférico, a Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS). Esse sistema de alta pressão favorece a entrada de massas de ar mais secas, resultando em menos chuvas.

Rafaela Rodrigues Gomes e Didier Gastmans instalando um coletor de chuva na torre do experimento ATTO, na Reserva do Uatumã, a 150 quilômetros de Manaus. Foto: Didier Gastmans

Leia também: Avanço das chuvas intensas gera alerta para prevenção de doenças no Amazonas

Nos trimestres seguintes, as massas de ar úmido vêm tanto do Atlântico Norte quanto do Sul. Assim, as variações isotópicas deixam de ser controladas por sistemas de larga escala e passam a depender principalmente de condições meteorológicas locais, como o volume das chuvas. A água de episódios de chuva menos volumosos contém mais isótopos pesados, pois eles são os primeiros a precipitar. Por outro lado, tempestades mais intensas acabam diluindo a concentração de isótopos pesados.

Além disso, a alta umidade do ar amazônico reduz a evaporação, que removeria os isótopos leves das gotas de chuva, ao mesmo tempo em que o rápido ciclo de evaporação e condensação das tempestades de verão favorece a concentração de isótopos pesados. A combinação desses processos faz com que as concentrações isotópicas variem muito nessa época do ano.

“Trabalhos das décadas de 1970 e 1990 já sugeriam a influência da ZCIT e de condições locais nos isótopos da chuva em Manaus, mas com as limitações tecnológicas da época e da frequência de amostragem mensal, que acaba misturando vários processos atmosféricos”, explica Gomes. “A inovação de nosso trabalho foi o acompanhamento diário, que permitiu distinguir não só o efeito da ZCIT, como também, pela primeira vez, o da ASAS”.

Antecipando secas

Gomes também comparou seus dados recentes com aqueles obtidos entre 1965 e 1990, encontrando algumas mudanças em relação à composição isotópica do passado relacionadas a um tempo mais quente e seco no presente. De fato, entre 2023 e 2024, a Amazônia sofreu com os piores períodos de calor e estiagem prolongada já registrados desde 1902.

Uma das principais causas dessas secas extremas foi o aquecimento acima da média de águas superficiais do oceano Pacífico. Conhecido como El Niño, o fenômeno natural acontece em média a cada dois a sete anos, alterando padrões de ventos e chuvas em várias regiões do planeta. Sua intensidade é variável, mas o aquecimento global vem aumentando a frequência de eventos extremos.

Na Amazônia Central, o El Niño aumenta a tendência de o ar úmido descer, dificultando a formação de nuvens. Em 2023 e 2024, esse efeito se combinou com um aquecimento anormal do Atlântico Norte, conhecido por deslocar a ZCIT para o norte, reduzindo a entrada de umidade na região.

“Observamos também já na estação chuvosa uma antecipação do sinal isotópico típico da estação seca”, diz Gomes. Em um tempo mais quente e seco, as gotas de chuva evaporam mais, concentrando mais isótopos pesados. Em 2024, quando ocorreu uma seca pior que a do ano anterior, esse sinal foi observado em maio, quando historicamente deveria aparecer apenas em junho.

“Esse achado reforça o potencial dos isótopos estáveis como indicadores de alerta precoce para secas prolongadas, especialmente no contexto das mudanças climáticas”, escrevem os pesquisadores no artigo.

“Pode ser mais um indicador de alerta, de fácil aquisição e custo relativamente baixo”, afirma Gastmans. No entanto, o pesquisador ressalta a necessidade de realizar mais observações para confirmar a recorrência do sinal. “Quando se trata de ciclo hidrológico, precisamos de séries temporais longas de 20, 30 anos”.

Coletor de chuva instalado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Foto: Rafaela Rogrigues Gomes

Em seu doutorado iniciado em fevereiro, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Gomes pretende expandir sua pesquisa sobre a influência da ZCIT e de outros processos atmosféricos nos isótopos para além de Manaus, coletando amostras de chuva em 19 estações ao longo da Amazônia e de regiões vizinhas. Um dos objetivos será entender melhor as origens do vapor de água vindo do Atlântico que chega à Amazônia, recircula diversas vezes pela floresta e então, após encontrar a barreira da cordilheira dos Andes, segue para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, contribuindo para uma porção considerável de suas chuvas – um fenômeno conhecido como rios voadores.

O artigo Large-scale and local atmospheric controls on rainfall isotopic variability in an urban area of the Central Amazon pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/hyp.70606.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Igor Zolnerkevic

“El Niño não coloca fogo na vegetação; no Brasil, a ignição é humana”, declara diretora de Ciência do IPAM

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Foto: Oseias Martins/Rede Amazônica

As temporadas de fogo no Brasil são resultado da combinação entre condições climáticas extremas, disponibilidade de material combustível e presença de fontes de ignição. Em períodos de seca prolongada, temperaturas elevadas e baixa umidade, a vegetação se torna mais inflamável e incêndios iniciados por atividades humanas podem se espalhar rapidamente e atingir grandes áreas.

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A diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar, analisa o comportamento do fogo em períodos de seca, os efeitos do El Niño sobre o risco de grandes incêndios e a influência das mudanças climáticas nesse cenário.

“O El Niño não coloca fogo na vegetação; no Brasil, a ignição é humana”
Ane Alencar. Foto: Sara Leal/IPAM

O assunto engloba também o ciclo de retroalimentação do fogo na Amazônia, a maior vulnerabilidade de áreas que já foram queimadas e as medidas que o Brasil deve adotar para antecipar e reduzir o risco de temporadas extremas, com foco em prevenção, inteligência territorial, fortalecimento das brigadas e manejo integrado do fogo.

O que faz uma temporada de fogo se tornar especialmente severa no Brasil? Quais fatores determinam a extensão e a intensidade das áreas atingidas?

Uma temporada de fogo se torna especialmente severa quando estes três elementos se combinam: a começar pelas condições climáticas extremas, disponibilidade de material combustível pronto para queimar e presença de muitas fontes de ignição. As condições de clima e tempo podem fazer com que um fogo vire um grande incêndio, pois influencia muito na propagação.

Sendo assim, períodos prolongados de pouca chuva, temperaturas elevadas e baixa umidade do ar acabam impactando a quantidade de água disponível para as plantas, tornando a paisagem muito mais inflamável. Se essas condições vêm acompanhadas de ventos fortes, o fogo pode se espalhar rapidamente e se tornar muito mais difícil de controlar.

Leia também: Super El Niño: Coalizão Brasil aponta quatro medidas para preparar agricultura para extremos climáticos

Fogo
Incêndio em Boca do Acre, interior do Amazonas. Foto: Divulgação/CBMAM

Mas o clima, sozinho, não inicia a maior parte dos incêndios no Brasil. Grande parte das ignições está relacionada às atividades humanas, seja pelo uso do fogo na agropecuária, por queimadas que escapam do controle ou por uso ilegal e criminoso. Por isso, os anos mais críticos são aqueles em que há uma grande quantidade de ignições ocorrendo sobre uma paisagem excepcionalmente seca e inflamável. O tipo de vegetação, o histórico de uso da terra, o acúmulo de combustível e a ocorrência prévia de fogo também determinam quanto uma região irá queimar e com qual intensidade.

Quando uma região passa por uma seca mais intensa e prolongada, como isso muda o comportamento do fogo e a capacidade de controlá-lo?

A seca transforma profundamente o comportamento do fogo. À medida que a vegetação perde umidade, materiais que normalmente dificultariam a propagação das chamas passam a funcionar como combustível. Isso acontece tanto com folhas e galhos secos no solo quanto com partes da própria vegetação viva em situações extremas.

O resultado é que o fogo tende a se espalhar mais rapidamente, permanecer ativo por mais tempo e atingir áreas maiores. Em condições muito secas e quentes, pequenas ignições – que em outro cenário poderiam ser facilmente controladas – podem se transformar em grandes incêndios. O combate também se torna muito mais difícil: diminuem as chamadas “janelas de oportunidade” para controlar as chamas, com temperaturas mais baixas e maior umidade, e o fogo pode permanecer ativo durante a noite ou reacender com facilidade. Além disso, vários incêndios podem ocorrer simultaneamente, sobrecarregando brigadas, bombeiros e estruturas de resposta.

O El Niño não provoca o fogo diretamente, já que a maior parte das ignições no Brasil tem origem humana. Como explicar a relação entre o fenômeno climático e o aumento da área queimada sem estabelecer uma relação direta de causa e efeito?

É importante separar quem acende o fogo e quais condições permitem que ele se transforme em um grande incêndio. O El Niño não coloca fogo na vegetação. No Brasil, as ignições são predominantemente humanas. O que o fenômeno pode fazer, especialmente em partes da Amazônia e do Norte do país, é alterar a circulação atmosférica e contribuir para redução das chuvas, aumento das temperaturas e prolongamento da estação seca.

Essas condições funcionam como um amplificador do risco. Uma mesma quantidade de ignições pode produzir resultados muito diferentes em um ano úmido e em um ano extremamente seco. 

Incêndio florestal no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Em condições normais, muitos focos não avançam. Durante uma seca associada ao El Niño, a vegetação pode estar tão seca que esses mesmos focos encontram combustível disponível para se espalhar por áreas muito maiores. Portanto, o El Niño não deve ser tratado como a causa do fogo, mas como um fator que pode aumentar fortemente a probabilidade de as ignições já existentes se transformarem em grandes incêndios.

O histórico das últimas décadas mostra anos com áreas queimadas muito acima da média, alguns deles marcados pelo El Niño. O que esses episódios extremos ensinam sobre as condições que favorecem grandes incêndios no país?

Os grandes episódios de fogo das últimas décadas mostram que incêndios extremos raramente resultam de um único fator. Eles ocorrem quando diferentes condições críticas acontecem ao mesmo tempo, como déficit de chuva acumulado, seca prolongada, temperaturas muito elevadas, baixa umidade do ar, vegetação seca e disponibilidade de ignições.

Os anos de El Niño ajudam a evidenciar essa relação porque alguns eventos fortes coincidiram com secas severas na Amazônia e com temporadas de incêndios muito intensas. Mas também aprendemos que não é necessário haver El Niño para ocorrer uma temporada extrema. Outras anomalias climáticas, como o aquecimento do Atlântico, principalmente na sua faixa tropical, podem contribuir para reduzir as chuvas na Amazônia.

Além disso, mudanças no uso da terra, degradação florestal e o próprio aquecimento global estão alterando o pano de fundo sobre o qual esses eventos climáticos acontecem. O principal aprendizado é que quanto maior o número de condições críticas ocorrendo simultaneamente, maior a possibilidade de uma temporada ultrapassar os padrões históricos.

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Na Amazônia, onde o fogo não faz parte da dinâmica natural da floresta, o que acontece quando incêndios atingem repetidamente uma mesma área? Uma floresta que já queimou fica mais vulnerável a novos incêndios?

Sim. Na floresta amazônica existe um processo que podemos chamar de ciclo de retroalimentação do fogo. Uma floresta intacta mantém um microclima relativamente úmido e sombreado, que funciona como uma barreira natural à propagação das chamas. Quando ela queima pela primeira vez, muitas árvores podem morrer nos meses e anos seguintes. Essas árvores aumentam a quantidade de material combustível no chão e a abertura do dossel permite maior entrada de luz, vento e calor.

Com isso, a floresta fica mais seca e mais inflamável. Se voltar a queimar, a mortalidade de árvores tende a aumentar e o ambiente se torna ainda mais aberto. Esse processo pode se repetir, fazendo com que os intervalos entre incêndios diminuam e a intensidade dos impactos aumente. Portanto, uma floresta que já queimou geralmente está mais vulnerável a queimar novamente. Incêndios recorrentes reduzem os estoques de carbono, alteram a composição de espécies, afetam a biodiversidade e podem comprometer progressivamente a capacidade da floresta de manter sua estrutura e suas funções ecológicas.

Com o avanço das mudanças climáticas, o Brasil pode enfrentar temporadas de fogo mais severas independentemente da ocorrência do El Niño? Como o aquecimento global está alterando esse cenário?

Sim. Esse é um dos aspectos mais preocupantes das mudanças climáticas. O El Niño continuará sendo um importante modulador do clima, mas ele passa a ocorrer sobre um planeta progressivamente mais quente. Isso significa que se uma anomalia climática produzia determinada temperatura ou déficit de umidade no passado, ela pode ocorrer sobre uma condição de base muito mais quente hoje.

Área queimada em Rondônia. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Temperaturas maiores aumentam a evapotranspiração, retiram umidade da vegetação e do solo e aumentam o déficit de pressão de vapor da atmosfera, tornando os combustíveis mais secos e inflamáveis. Ao mesmo tempo, em várias regiões, há sinais de secas mais intensas, ondas de calor mais frequentes e prolongamento das condições favoráveis ao fogo.

Com isso, temporadas severas podem ocorrer mesmo sem um El Niño forte. E, quando um El Niño muito forte coincide com esse novo patamar de aquecimento, os extremos podem se tornar ainda mais perigosos. A mudança climática está, portanto, ampliando a janela de risco e aumentando a probabilidade de condições meteorológicas propícias a incêndios extremos.

Diante de um novo El Niño, o que o Brasil deveria fazer desde já para reduzir o risco de uma temporada crítica de incêndios? Quais medidas de prevenção deveriam ser prioridade?

A principal estratégia é não esperar que os incêndios comecem. Quando há previsão de um El Niño e de uma possível seca intensa, é possível utilizar a informação climática para antecipar as regiões com maior risco e iniciar as ações de prevenção com meses de antecedência. Isso significa integrar previsões climáticas, histórico de fogo, condição da vegetação e informações territoriais para identificar onde uma ignição tem maior probabilidade de se transformar em um grande incêndio.

Também é fundamental reduzir o número de ignições durante os períodos mais críticos, reforçando fiscalização e controle do uso ilegal do fogo e trabalhando junto aos produtores e comunidades para adequar o uso planejado do fogo às condições meteorológicas. Ao mesmo tempo, é necessário fortalecer brigadas antes do início da temporada, garantir pessoal, equipamentos, logística, acesso à água e posicionamento estratégico das equipes.

Outra prioridade é ampliar a implementação do Manejo Integrado do Fogo, combinando prevenção, conhecimento científico, saberes tradicionais e manejo da paisagem. Em ecossistemas dependentes ou adaptados ao fogo, como partes do Cerrado, o uso planejado e tecnicamente adequado do fogo em períodos de menor risco pode ajudar a reduzir o acúmulo e a continuidade de combustível. Na Amazônia, por outro lado, a prioridade deve ser impedir que o fogo entre nas florestas.

Por fim, a preparação para eventos extremos exige coordenação entre municípios, estados e governo federal. Em anos de grande seca, o problema deixa de ser apenas a ocorrência de incêndios individuais. Existe o risco de muitos incêndios ocorrerem simultaneamente, superando rapidamente a capacidade local de resposta. Por isso, antecipação, inteligência territorial e prevenção precisam ser tratadas como parte central da política de fogo, e não apenas como ações realizadas quando a emergência já está instalada.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM

Casos de leishmaniose aumentam 19,75% no Amazonas, aponta FVS

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Foto: Divulgação

O Amazonas registrou um aumento de 19,75% nos casos de leishmaniose entre janeiro e 17 de agosto deste ano, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). No período, foram contabilizados 473 casos da doença, contra 395 registrados no mesmo período de 2025. Transmitida pela picada do mosquito-palha infectado, a leishmaniose é uma doença infecciosa. No Amazonas, a forma mais registrada, segundo a FVS-RCP, é a Leishmaniose Tegumentar, que provoca feridas na pele. 

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De acordo com a médica de Família e Comunidade, Karina Paiva, que também é docente da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, as condições ambientais da região amazônica podem favorecer o ciclo do vetor, especialmente quando associadas às alterações climáticas.

“O ciclo de vida do inseto dura, em média, de 30 a 45 dias e depende diretamente de temperatura, umidade e disponibilidade de matéria orgânica no ambiente. Com o aumento das temperaturas, esse ciclo tende a se completar mais rápido, permitindo mais gerações do vetor por ano e uma janela de atividade mais longa”, explica.

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Mudança climática pode contribuir para transmissão da leishmaniose

Na Amazônia, segundo a médica, a mudança climática se soma a fatores ambientais que historicamente já contribuem para a transmissão da doença.

“A leishmaniose já é altamente endêmica na Amazônia e historicamente está ligada ao desmatamento e à expansão da fronteira agrícola, que colocam pessoas em contato direto com o ambiente de mata onde o vetor vive. A mudança climática tende a se somar a esses fatores, aumentando a intensidade da transmissão em áreas já afetadas e criando condições favoráveis em regiões próximas que hoje apresentam baixa transmissão”, afirma.

A especialista explica que a forma tegumentar é a apresentação mais comum e costuma provocar uma ferida na pele, geralmente indolor, com bordas elevadas e bem delimitadas. A lesão pode surgir, em alguns casos, até duas semanas após a picada e, em casos mais raros, atingir mucosas. “Qualquer ferida na pele que não cicatriza em poucas semanas, principalmente após exposição à mata ou área rural, deve ser avaliada por um profissional de saúde. O diagnóstico precoce ajuda a evitar destruição de tecido e sequelas”, orienta.

mosquito palha é um transmissor da leishmaniose
Foto: Divulgação

Já a leishmaniose visceral, também conhecida como calazar, é uma forma mais grave da doença e pode provocar febre prolongada, fraqueza, emagrecimento e aumento do volume abdominal devido ao crescimento do fígado e do baço. A médica explica que crianças, gestantes, pessoas desnutridas ou imunossuprimidas exigem atenção especial. 

“Febre que persiste por mais de uma a duas semanas, associada a emagrecimento e aumento do volume abdominal, principalmente em quem mora ou visitou uma área endêmica, é um sinal de alerta para procurar atendimento”, afirma.

Para reduzir o risco de transmissão, Karina Paiva recomenda o uso de repelente nas áreas expostas, principalmente entre o fim da tarde e o amanhecer, além de roupas de manga comprida durante a permanência em áreas de mata ou rurais.

 “O mosquito-palha é menor que o mosquito comum, por isso é importante utilizar mosquiteiros de malha fina e instalar telas em portas e janelas. Também é necessário evitar locais com acúmulo de folhas e matéria orgânica em decomposição e manter quintais, terrenos e abrigos de animais limpos”, diz.

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Para a docente da Afya, a prevenção também depende de ações ambientais e comunitárias, como a limpeza periódica dos terrenos, poda de árvores e manutenção dos espaços onde ficam animais domésticos.

 “É importante evitar, quando possível, a construção de moradias muito próximas à borda da mata, participar das ações de vigilância promovidas pelas secretarias de saúde e buscar atendimento diante de sintomas suspeitos. O diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para reduzir complicações da doença e estão disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde”, recomenda.

*Com informações da assessoria

Mapeamento revela geografia da produção de cacau na Amazônia: Pará e Rondônia ganham destaque

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A cacauicultura desempenha papel estratégico na Amazônia contemporânea: gera renda e recupera solos, além de proporcionar outros benefícios ao bioma. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

O cultivo do cacau na Amazônia brasileira acaba de ganhar um raio-X geográfico com o mapeamento de 121 mil hectares plantados e a caracterização da produção cacaueira nos estados do Pará e Rondônia. O estudo técnico multitemporal mostra a expansão da cultura em áreas alteradas e de pastagens e sua contribuição para a restauração produtiva na região.

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No Pará, os dados do mapeamento foram atualizados para o ano de 2024, uma vez que o último levantamento foi realizado em 2022. Já em Rondônia, o levantamento estabelece a primeira linha de base territorial do cultivo no estado. O levantamento alia sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria direta em campo para qualificar a expansão cacaueira sob a ótica da sustentabilidade, da restauração ambiental de áreas degradadas e da rastreabilidade exigida pelos mercados consumidores.

Um dado importante resulta do cruzamento das informações geográficas do cacau com as bases dos projetos TerraClass e de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe): o avanço do cacaueiro na Amazônia não ocorre com a derrubada de floresta nativa, mas sobre áreas já alteradas no passado, principalmente pastagens e vegetação secundária.

Mapeamento revela geografia da produção de cacau na Amazônia: Pará e Rondônia ganham destaque

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Apresentação do estudo 

Os resultados do trabalho são apresentados durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus (BA), neste 26 de agosto. A feira reúne mais de 6 mil participantes e cerca de 60 expositores, entre produtores, técnicos, especialistas, empresas e organizações ligadas à cadeia produtiva do cacau.

De acordo com o pesquisador Adriano Venturieri, da Embrapa Amazônia Oriental (PA), autor principal do trabalho, a pesquisa parte da premissa de que a cacauicultura desempenha papel estratégico na Amazônia contemporânea, pois, “além de gerar renda para milhares de famílias rurais, tem a capacidade de recuperar solos alterados e devolver a produtividade a paisagens antes ocupadas por pastagens degradadas”.

Cenário da produção 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região Norte responde pela metade (50%) de toda a safra nacional de cacau, com uma produção regional próxima a 148 mil toneladas em um total de cerca de 297 mil toneladas colhidas no País. O estado do Pará é líder na produção nacional com aproximadamente 137,5 mil toneladas de amêndoas secas — volume que equivale a 46% do cacau brasileiro e a 92% do total produzido na região Norte. 

Completando o panorama regional, Rondônia posiciona-se como o segundo maior produtor da região Norte e o quarto maior do País, com uma colheita estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Apesar de contar com uma área cultivada menor em comparação ao Pará, o estado destaca-se pela eficiência técnica, registrando uma das maiores produtividades médias do Brasil, superior a 1.250 kg por hectare.

Como o mapa do cacau foi construído

Venturieri observa que mapear cacaueiros no meio da densa vegetação amazônica é um desafio para a ciência geoespacial, uma vez que as copas das plantas, em especial nos sistemas sombreados, apresentam semelhança espectral com florestas nativas ou vegetações secundárias. 

Para superar essas barreiras, a equipe técnica do estudo estruturou uma metodologia híbrida e de alta precisão, combinando imagens e dados de múltiplos satélites.  Além disso, o uso de imagens com resolução de 50 centímetros permitiu identificar detalhes de meio metro no terreno, possibilitando diferenciar o cacau cultivado a pleno sol daquele integrado em Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Para confirmar as informações obtidas nas imagens, a equipe realizou expedições de campo em dez municípios nas regiões da Transamazônica e Nordeste Paraense, e em municípios do estado de Rondônia.

“A integração entre imagens de radar, satélites de alta resolução espacial e a validação no chão permitiu gerar informações georreferenciadas de elevada acurácia”, destaca o pesquisador.

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Mapeamento revela geografia da produção de cacau na Amazônia: Pará e Rondônia ganham destaque
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Pará: liderança produtiva e salto de 33% na área plantada

Os resultados do mapeamento de 2024 revelam que a área cultivada com cacau no estado do Pará alcançou 116.436 hectares, distribuídos em 61 municípios. Em comparação com a linha de base de 2022, que somava 87.309 hectares, houve um crescimento expressivo de 33,26%, representando um incremento líquido de 29.128 hectares em apenas dois anos.

No entanto, o estudo faz um alerta sobre a composição tecnológica desse crescimento. Dos 29.128 hectares expandidos entre 2022 e 2024, 63%, correspondentes a 18.350 hectares, foram identificados em sistemas de monocultivo a pleno sol, enquanto os 37% restantes, equivalentes a 10.777 hectares, estavam em Sistemas Agroflorestais, que consorciam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.

Venturieri enfatiza que, embora ambos os sistemas fortaleçam a economia rural, a maior expansão do cultivo a pleno sol indica que os produtores têm respondido a estímulos econômicos de curto prazo. “Isso sinaliza a necessidade de se reforçar incentivos públicos para os Sistemas Agroflorestais, que garantem maior diversificação e serviços ecossistêmicos”, diz.

A estrutura da cacauicultura paraense conta com uma base na agricultura familiar, tendo sido mapeadas 31.843 áreas. Do total, 84,65% possuem até 5 hectares, e cerca de 74,55% estão concentradas em propriedades de até 50 hectares.

Os principais destaques municipais produtores de cacau no Pará são Medicilândia, com 35.203 hectares; Uruará, com 17.024 hectares; Brasil Novo, com 10.162 hectares; e Altamira, com 7.301 hectares, todos no eixo da Transamazônica e Oeste do Pará, além de Tomé-Açu, com 6.981 hectares, reconhecido como polo de referência em Sistemas Agroflorestais no nordeste paraense.

Rondônia: linha de base inédita destaca vocação para agrofloresta

Pela primeira vez, o estado de Rondônia passa a contar com um mapeamento territorial completo de sua cacauicultura. O estudo estabeleceu a linha de base estadual em 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.

Diferentemente do Pará, onde a expansão recente foi puxada pelo cultivo a pleno sol, Rondônia apresentou uma predominância marcante dos Sistemas Agroflorestais. Nas áreas antropizadas — alteradas pela ação humana — mapeadas com cacau no estado, que somam 5.339,83 hectares, 62%, correspondentes a 3.310 hectares, são cultivados em Sistemas Agroflorestais, ao passo que 38%, equivalentes a 2.029 hectares, correspondem a cultivos a pleno sol.

A paisagem cacaueira rondoniense também é fortemente pulverizada e ancorada na agricultura familiar, com a identificação de 38.108 áreas e 75% concentradas em pequenas parcelas de até 5 hectares. Os principais polos do estado incluem Jaru, com 832,13 hectares; Porto Velho, com 352,87 hectares; Theobroma, com 305,43 hectares; Ouro Preto do Oeste, com 297,41 hectares; e Mirante da Serra, com 260,28 hectares. Juntos, eles integram o grupo dos 11 municípios responsáveis por 62,6% da área estadual.

Venturieri ressalta que Rondônia apresenta uma trajetória singular e extremamente promissora, pois o mapeamento demonstra que mais de 60% da cacauicultura do estado se desenvolve em sistemas agroflorestais sob a gestão da agricultura familiar. Segundo o especialista, trata-se de um ativo estratégico para estruturar uma cadeia produtiva orientada por padrões socioambientais desde a sua linha de base.

Restauração produtiva e rigor socioambiental

Bases de monitoramento ambiental mostram que 96% das áreas no Pará e 98% em Rondônia estão em locais desflorestados antes de 2020. “Outro ponto que merece destaque é a legislação da União Europeia, visto que o cacau é uma commodity”, complementa o pesquisador.

O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) proíbe a importação de commodities oriundas de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. Nesse aspecto, o mapeamento identificou que apenas 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia foram implantados em áreas desmatadas após 2021, fornecendo dados fundamentais para que exportadores realizem a gestão de risco e comprovem a conformidade socioambiental.

Adicionalmente, o mapeamento identificou 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia de cacau cultivado diretamente sob a cobertura de florestas nativas exploradas como sombreamento natural.

Mapeamento revela geografia da produção de cacau na Amazônia: Pará e Rondônia ganham destaque
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Venturieri salienta que, segundo os dados, a expansão do cacau na Amazônia não impulsiona novo desmatamento, mas representa uma solução concreta para reabilitar terras alteradas e gerar renda. “Esse trabalho é instrumento de rastreabilidade indispensável para atender tanto às exigências da legislação brasileira quanto ao rigor do mercado internacional”, acrescenta.

Ao concluir a análise, o pesquisador lembra que o principal desafio estratégico para a Amazônia não consiste apenas em ampliar a quantidade de hectares cultivados com cacau, mas em assegurar que essa expansão ocorra com qualidade territorial, sustentabilidade e alta capacidade de inserção competitiva.

Segundo Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, entender a dinâmica de expansão da cacauicultura na Amazônia é também uma forma de antecipar o futuro da cadeia produtiva. “Quando sabemos para onde a cultura está avançando, em quais sistemas produtivos e sob quais condições, conseguimos identificar gargalos, orientar melhor as políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica para onde eles são mais necessários”, afirma. Ele ressalta ainda que o objetivo é fazer com que a expansão das áreas com cacau aconteça de forma sustentável, com mais produtividade, conservação produtiva e, principalmente, maior geração de renda e oportunidades para o produtor rural.

O relatório 

O relatório técnico, intitulado Mapeamento das áreas da cacauicultura nos estados do Pará e Rondônia: implicações para o desenvolvimento territorial, foi desenvolvido por uma equipe técnica composta por Adriano Venturieri, Moisés Cordeiro Mourão de Oliveira JúniorSandra Maria Neiva SampaioAntônio José de Amorim Menezes, da Embrapa Amazônia Oriental, além de Rodrigo Rafael Souza de Souza (Universidade Estadual do Pará – Uepa) e Marcelo Cordeiro Thales (Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG).

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa Amazônia Oriental, escrito por Ana Laura Lima

Desmatamento concentra 71% das investigações de crimes ambientais no Amazonas, aponta estudo

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Desmatamento em área da floresta amazônica. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

O desmatamento e a exploração ilegal de madeira concentram a maior parte das investigações de crimes ambientais no Amazonas. É o que mostra o relatório ‘Esforços estaduais no combate aos crimes ambientais na Amazônia Legal’, divulgado pelo Instituto Igarapé em parceria com o Consórcio Interestadual da Amazônia Legal. O levantamento analisou dados das forças de segurança entre 2023 e julho de 2025.

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Segundo o estudo, a Polícia Civil do Amazonas instaurou 171 inquéritos policiais ambientais no período. Desse total, cerca de 31% foram classificados como crimes de impacto amplo, categoria que inclui desmatamento, queimadas, garimpo ilegal e outros delitos com maior potencial de dano ambiental.

Entre os inquéritos relacionados a esses crimes mais graves, 71% tratam de exploração ou desmatamento florestal. Os demais envolvem crimes contra a fauna silvestre, incêndios florestais e casos de poluição.

O fogo oferece risco às pessoas e aos animais e contribui para engordar as emissões de gases do efeito estufa. Em 2018, apesar da tendência geral de queda no número de focos de calor na vegetação da Amazônia Legal, estados críticos em desmatamento registraram mais fogo.
Foto: Reprodução/Greenpeace

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O relatório também chama atenção para o baixo número de investigações registradas no estado. Enquanto o Amazonas contabilizou 171 inquéritos ambientais entre 2023 e julho de 2025, o Pará registrou 7.530 no mesmo período.

Segundo os pesquisadores, a diferença pode indicar subnotificação, falta de efetivo policial ou limitações operacionais para documentar infrações ambientais.

Queimadas e desmatamento aparecem nos registros da Polícia Civil

Nos boletins de ocorrência registrados pela Polícia Civil, os crimes ambientais de maior impacto se concentram principalmente em incêndios florestais e desmatamento. O estudo aponta que o garimpo ilegal aparece com menor frequência nos registros.

Os pesquisadores também identificaram ocorrências envolvendo motores de garimpo de ouro encontrados submersos e veículos abandonados ligados à atividade mineral ilegal.

Já nas áreas urbanas, predominam registros relacionados ao comércio irregular de animais e maus-tratos. Esse padrão também foi observado em outros estados da Amazônia Legal.

Foto: Reprodução/Arquivo/CBM-AC

Operações focam em crimes de grande impacto

O levantamento mostra que todas as operações registradas pela Polícia Militar do Amazonas no período analisado foram voltadas para crimes ambientais de impacto amplo, como desmatamento, queimadas e garimpo ilegal.

O mesmo cenário foi observado nas operações da Polícia Civil. O Amazonas aparece entre os estados onde 100% das ações registradas foram classificadas como estruturais, ou seja, direcionadas aos crimes ambientais mais graves.

Entre as iniciativas citadas pelo relatório estão as operações Hórus e Águas Seguras, realizadas pela Polícia Militar, além da Operação Tamoitatá, considerada uma referência regional no combate ao desmatamento e às queimadas. A ação reúne órgãos como a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), as polícias Militar e Civil, o Corpo de Bombeiros e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

Foto: Divulgação/SSP-AM

Amazonas tem uma das maiores proporções de denúncias de crimes ambientais graves

O serviço 190 da Polícia Militar recebeu 180 chamadas relacionadas a crimes ambientais no Amazonas entre 2023 e julho de 2025. Desse total, 52 foram classificadas como ocorrências de impacto amplo e 128 como crimes de menor impacto.

Embora o número absoluto seja menor que o de outros estados da Amazônia Legal, o Amazonas registrou uma das maiores proporções de denúncias relacionadas a crimes ambientais graves: 28,9% das chamadas tratavam de desmatamento, queimadas ou outras infrações de grande impacto ambiental.

Segundo o relatório, esse percentual sugere que a população tem acionado a polícia para denunciar crimes ambientais de maior gravidade, enquanto a maior parte dos chamados restantes está ligada a ocorrências de menor impacto, como situações envolvendo animais e outros problemas ambientais do cotidiano.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

Do Amazonas à Argentina: espetáculo ‘Erenilda’ estreia em Manaus e inicia circulação internacional

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Foto: Divulgação/Soufflé de Bodó Company

A Amazônia, seus corpos, memórias e territórios atravessados pela violência são o ponto de partida de ‘Erenilda: Puta de Garimpo com Dente de Ouro’, novo espetáculo da Soufflé de Bodó Company em coprodução internacional com a Cía García Sathicq Teatro, da Argentina. A obra terá estreia oficial em Manaus (AM) no dia 30 de agosto, no Teatro da Instalação, com entrada gratuita, antes de iniciar a circulação internacional em La Plata, na Argentina, entre 2 e 9 de setembro. A temporada marca uma nova etapa de intercâmbio artístico entre a Amazônia brasileira e a América Latina. A classificação é 18 anos.

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Inspirada em mulheres reais do antigo Garimpo de Araras, em Rondônia, a peça acompanha a trajetória de Erenilda, personagem marcada pela violência, pela perda e pela sobrevivência em territórios devastados pelo avanço do garimpo e pelas transformações provocadas pelas grandes hidrelétricas na Amazônia.

Em cena, a personagem revisita fragmentos de sua memória, atravessada pela morte brutal do filho Erê, pelas marcas físicas da violência e por afetos interrompidos, o que transforma o trauma em linguagem poética e política.

Segundo o diretor da Soufflé de Bodó Company, Francis Madson, a criação dialoga diretamente com experiências pessoais e memórias de territórios amazônicos.

“Passei parte da minha infância em áreas hoje inundadas pelas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. Muitas dessas histórias permaneceram no meu corpo. Erenilda surge desse encontro entre memória, violência e imaginação. É uma obra sobre corpos que insistem em permanecer vivos mesmo quando o mundo tenta apagá-los”, afirma Madson.

Erenilda: Puta de Garimpo com Dente de Ouro, novo espetáculo da Soufflé de Bodó Company
Espetáculo conta a história de Erenilda, impactada pelo garimpo na Amazônia. Foto: Divulgação/Soufflé de Bodó Company

Erenilda reflete impactos sociais

A peça propõe uma reflexão sobre os impactos sociais e humanos de grandes projetos de infraestrutura na região Norte, especialmente sobre comunidades atingidas por processos históricos de deslocamento e destruição.

“A encenação acontece em um ambiente ritualístico, onde músicos produzem paisagens sonoras inspiradas nos rios amazônicos, enquanto projeções, água, ventiladores industriais e objetos simbólicos criam uma atmosfera de tensão e memória”, comenta o diretor.

Ao longo da montagem, Erenilda confronta perguntas sobre amor, medo, violência e sobrevivência. Seu corpo torna-se território político e afetivo.

“Mesmo atravessada pela brutalidade, ela insiste na dança, no desejo e na permanência. A obra propõe uma reflexão sobre a Amazônia contemporânea, sobre os corpos esquecidos pela história oficial e sobre a capacidade humana de reinventar a vida diante da devastação”, pontua Francis Madson.

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Coprodução internacional

O espetáculo nasce da aproximação entre artistas da Amazônia brasileira e da Argentina interessados em discutir temas como memória, território, violência e apagamento de comunidades amazônicas. O projeto é financiado pelo Programa Iberescena e tem o apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte).

A coprodução entre a Soufflé de Bodó Company e a Cía García Sathicq Teatro iniciou o processo criativo em fevereiro de 2026 e passou por uma residência artística em Manaus entre abril e maio deste ano.

Durante o processo, a equipe realizou encontros de criação, leituras dramatizadas e uma pesquisa de campo em Presidente Figueiredo e na Usina Hidrelétrica de Balbina, com investigações sobre os impactos históricos e simbólicos provocados pela destruição de territórios amazônicos.

O projeto também prevê a publicação da dramaturgia em português, espanhol e francês, ampliando a circulação internacional da obra e fortalecendo narrativas amazônicas em diferentes contextos culturais.

Após a estreia em Manaus, “Erenilda: Puta de Garimpo com Dente de Ouro” segue para La Plata, na Argentina, onde realizará duas apresentações, rodas de conversa com o público, intercâmbio artístico internacional e o lançamento do livro da obra, consolidando o espetáculo como um projeto de circulação, pesquisa e diálogo entre territórios.

*Com informações da assessoria