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Minerais críticos e estratégicos, o Brasil sem domínio nem estratégia para exploração industrial no curto prazo

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Terras raras são minerais que compõem um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza. Foto: Amarildo Gomes

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Segundo o IPEA, minerais críticos e estratégicos são aqueles essenciais para a soberania, a economia, a segurança alimentar e a transição energética, cuja oferta pode estar sujeita a riscos de abastecimento, seja por concentração geográfica da produção, dependência externa, instabilidade geopolítica ou limitações tecnológicas. É importante destacar que o conceito de minerais críticos e estratégicos varia de acordo com cada país. Particularmente, os elementos Terras Raras são o conjunto de 17 elementos químicos presentes na tabela periódica, sendo 15 deles da família dos lantanídeos mais escândio e ítrio. Ocorrem em minerais como monazita, xenotima, bastnasita, argilas iônicas, dentre outros.

Quanto aos minerais estratégicos, o IPEA define como “aqueles essenciais para o desenvolvimento econômico dos países e que tenham importância pela sua aplicação em produtos e processos de alta tecnologia, defesa e transição energética”. O suprimento de minerais críticos pode envolver riscos por diferentes questões, como limitações de reservas e produção que afetem a economia do país. A relação de minerais críticos ou estratégicos varia para cada país.

Para o Brasil, por exemplo, pode-se considerar críticos insumos minerais na produção de fertilizantes amplamente utilizados na agricultura, que é um setor chave na nossa economia. Devido às suas propriedades magnéticas, ópticas e elétricas terras raras são essenciais na fabricação de produtos de tecnologias avançadas tais como ímãs de alta performance, baterias, catalisadores, notebooks e smartphones. São fundamentais em diversos sistemas e equipamentos militares como mísseis, drones, submarinos nucleares, caças supersônicos, radares e sistemas de orientação de armas guiadas, blindagens avançadas.

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Terras raras são minerais que compõem um grupo de 17 elementos químicos encontrados na natureza. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Minerais críticos e estratégicos apresentam alto risco de escassez e/ou dependência externa devido às cadeias de suprimentos serem vulneráveis a interrupções devido a fatores como restrições associadas a risco político estrangeiro, crescimento abrupto da demanda, conflito militar, comportamento anticompetitivo ou protecionista e outros riscos ao longo da cadeia de suprimentos.

Além de seus usos tradicionais relacionados à mineração, suas aplicações estão diretamente ligadas à transição energética, à digitalização, à defesa e à indústria de alta tecnologia (lítio, cobalto, grafita, terras raras, níquel, nióbio); baterias de íon-lítio (lítio, níquel, cobalto, grafita, manganês), veículos elétricos (lítio, terras raras, cobre, níquel, alumínio), turbinas eólicas (terras raras como neodímio e disprósio para ímãs permanentes), painéis solares fotovoltaicos (silício, prata, índio, telúrio); smartphones, computadores e tablets (terras raras, tântalo, lítio, estanho), semicondutores e chips (gálio, germânio, silício), data centers e infraestrutura de internet (cobre, níquel, grafita, satélites e equipamentos espaciais (terras raras, lítio, berílio), blindagens e ligas especiais (níquel, manganês), redes elétricas e transmissão (cobre, alumínio), robótica e automação industrial (titânio, alumínio), equipamentos médicos de alta precisão, fertilizantes (potássio, fósforo), micronutrientes agrícolas (zinco, manganês).

De acordo com estudo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), as terras raras não são apenas um recurso mineral; mas um dos fundamentos materiais da economia do século XXI. O Brasil possui a segunda maior dotação geológica do mineral, atrás da China, incluindo depósitos estratégicos de terras raras pesadas associados a argilas de adsorção iônica, e está entre os poucos países com potencial para contribuir de forma relevante para a diversificação das cadeias globais de suprimento de minerais críticos.

Leia também: Terras Raras, o novo petróleo, elemento fundamental à inserção do Brasil no mundo da alta tecnologia do século XXI

Brasil tem grande potencial de minerais, inclusive do grupo de Terras Raras.
Brasil tem grande potencial de terras raras. Foto: Reprodução/Minera Jr.

Entretanto, participa com parcela reduzida da produção global e praticamente não possui presença nos segmentos de maior valor agregado da cadeia, como separação química, refino, metalurgia, ligas especiais e ímãs permanentes. O contexto internacional, saliente-se, a propósito, é marcado pela crescente competição por minerais críticos essenciais para a transição energética, defesa, tecnologias digitais, inteligência artificial e segurança econômica.

Não obstante suas privilegiados reservas, incluindo depósitos estratégicos de terras raras associados a argilas de adsorção iônica, o Brasil participa com parcela reduzida da produção global e praticamente não possui presença nos segmentos de maior valor agregado da cadeia, como separação química, refino, metalurgia, ligas especiais e ímãs permanentes. O contexto internacional é marcado pela crescente competição por minerais críticos essenciais para a transição energética, defesa, tecnologias digitais, inteligência artificial e segurança econômica.

Nesse cenário, a consolidação de capacidades nacionais ao longo da cadeia produtiva de terras raras passa a representar não apenas uma oportunidade econômica, mas também um tema de relevância estratégica para o desenvolvimento nacional. A maioria dos estudos técnicos são conclusivos: a questão central para o Brasil não é a disponibilidade de recursos, mas a definição dos elos da cadeia nos quais o país pretende construir vantagens competitivas e as capacidades tecnológicas, industriais e institucionais necessárias para capturar valor econômico e estratégico.

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista.

Cidade do Acre pode estar sobre falha geológica ainda desconhecida, aponta estudo

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O estudo levanta a hipótese da existência de uma falha geológica ainda desconhecida na região. Foto: Jardy Lopes/Arquivo pessoal

Uma pesquisa desenvolvida por estudiosos da Universidade Federal do Acre (Ufac) identificou uma concentração de terremotos em Tarauacá, distante 400 km da capital Rio Branco, e levantou a hipótese da existência de uma grande estrutura geológica, chamada de falha de Tarauacá.

Os pesquisadores analisaram registros de terremotos ocorridos desde a década de 1950 com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Eles classificaram os tremores pela localização, profundidade, magnitude e data em que ocorreram. Com essas informações, produziram mapas para identificar as regiões com maior risco de terremotos.

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Segundo os pesquisadores, essa falha pode estar relacionada à divisão do território acreano em duas unidades tectônicas, chamadas de Placa do Juruá e Placa do Purus.

Contudo, a falha ainda é uma hipótese científica. Os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários estudos geofísicos mais aprofundados para confirmar a estrutura e compreender melhor a relação dela com os tremores registrados no estado.

“Na verdade, a gente chamou de falha de Tarauacá por ser um contexto regional, acredito que está estabelecido dessa forma e agora é só comprovar com dados mais robustos para que tenhamos avanços nesse sentido”, explicou o professor do curso de geografia da Universidade Federal do Acre (Ufac) Waldemir Lima.

Leia também: Tarauacá é a cidade acreana mais atingida por terremotos, aponta levantamento

Mestre em geografia na Ufac, Cleyton Aguiar Crisóstomo acrescenta que os terremotos sentidos no Acre também estão ligados a um cenário geológico maior: O estado está próximo dos Andes, onde a placa de Nazca mergulha sob a placa Sul-Americana.

“Quando acontece um choque entre as placas, a energia liberada ali acaba chegando em regiões de fragilidades dessas placas. As falhas são regiões de fragilidade e é por isso que, quando acontecesse esse choque, acabam ocorrendo essas ocorrências de sismos na região de Tarauacá”, exemplificou.

Proximidade com os Andes

Ainda segundo Waldemir Lima, Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima estão mais próximos dos Andes, o que explicaria mais abalos nas regiões. Contudo, a pesquisa identificou que a cidade de Tarauacá é a mais atingida.

Segundo ele, as características do relevo na região de Tarauacá ajudam a explicar a ocorrência dos eventos. Conforme o pesquisador, um trecho entre o município e o Rio Gregório há uma configuração geológica diferenciada.

“O que corrobora isso é o relevo. Em um curto espaço de terra, de 60 quilômetros da cidade até o Rio Gregório, tem-se uma configuração de relevo diferenciada, o que configura como uma neotectônica ativa regional com vales encaixados, com drenagem diferente e relevo bastante ondulado”, relatou.

Cidade do Acre pode estar sobre falha geológica ainda desconhecida, aponta estudo
Estudiosos analisaram sismos ocorridos no Acre entre 1950 e 2017. Imagem: Reprodução/Rede Amazônica Acre

Ao colocar esses abalos no mapa, os pesquisadores perceberam que os eventos não estão distribuídos de maneira aleatória. A concentração levantou uma hipótese: a existência de uma grande estrutura geológica na região.

Os tremores percebidos no estado ocorrem mesmo a centenas de quilômetros da região onde há o encontro entre as placas Sul-Americana e de Nazca. Conforme Cleyton, a energia gerada pelo movimento dessas placas é liberada em áreas de fragilidade.

“No caso do Acre, o estado está, mais ou menor, a 600 ou 150 quilômetros de profundidade da placa. Então, isso faz com que quando acontece a liberação de energia, ela é amenizada e quando chega no superfície já não tem potencial destrutivo”, destacou o professor.

Apesar de os abalos serem sentidos por moradores da região, o Acre não costuma registrar terremotos com o mesmo potencial destrutivo observado em regiões próximas às áreas de encontro das placas tectônicas.

“A região do Acre, assim como todo o Brasil e a América do Sul, está em uma placa chamada placa sul-americana. Mas, existe a hipótese de ter uma rachadura nessa placa, que passa pelo Acre, e isso explica a ocorrência de sismos no estado”, acrescentou.

Leia também: O maior terremoto do Brasil aconteceu na Amazônia

Registros

No final de julho, o terremoto de magnitude 5,6 registrado próximo da fronteira entre o Peru e o Brasil teve reflexos sentidos em cidades do Acre. Moradores relataram ao Grupo Rede Amazônica terem sentido tremores em suas casas por volta das 20h no horário local, 22h em Brasília.

Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), o tremor ocorreu perto da cidade de Pucallpa, no lado peruano da fronteira. O epicentro estava a cerca de 60 quilômetros da fronteira entre o Peru e o Acre.

Na quinta-feira (20), moradores do Acre sentirem o tremor de terra após um terremoto de magnitude 6,7 atinge o Peru e deixa 3 feridos. No estado acreano, o prédio da Assembleia Legislativo (Aleac) e de outros órgãos foram evacuados.

Este foi o segundo abalo sísmico percebido no estado acreano em 10 dias. No último dia 10, moradores de Mâncio Lima, interior do Acre, sentiram um leve tremor de terra após o terremoto de magnitude 7,4 atingir a Colômbia.

*Por Walace Gomes e Lucas Thadeu, da Rede Amazônica Acre

“Brasil possui 12% de água doce do planeta”, alerta debate sobre água na Amazônia em Macapá

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Evento reuniu especialistas para falar sobre o atual estado dos ecossistemas amazônicos frente às mudanças climáticas. Foto: Marcos Torres/Academia Brasileira de Ciências

O Brasil possui 12% da água doce do planeta, três quartos na Amazônia. Maior bacia hidrográfica do mundo, onde estão os rios mais imponentes, falar de crise hídrica na região parece contrassenso, mas é a realidade quando olhamos para a trajetória de degradação das últimas quatro décadas.

“No século 21, o número de dias em emergência hídrica da cidade de Manaus, aferida pelo nível da água nos rios, já é maior do que em todo o século anterior”, resumiu o pesquisador Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Schöngart foi um dos palestrantes do ‘Debate COP 30: Balanço Crítico e Lições para a Ciência Brasileira rumo à COP 31’, organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá, antecedendo o ‘Simpósio e Diplomação dos Novos Afiliados ABC para a Região Norte’. O evento foi o segundo de uma série de debates inaugurada no dia 5 de agosto, quando especialistas em cada bioma brasileiro apresentaram o estado atual dos ecossistemas frente às mudanças climáticas.

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Igarapés: termômetros para as mudanças climáticas

A Amazônia é o maior bioma brasileiro, ocupando 5,5 milhões de quilômetros quadrados entre o Brasil e outras oito nações. Se fosse um país, seria o sétimo maior do mundo. Considerando o tamanho, é natural que o impacto das mudanças climáticas seja diferente em suas sub-regiões, e, por isso, o enfrentamento da crise precisa ter um olhar regionalizado.

“O que dá certo no Amapá pode não dar certo no Amazonas, e assim por diante”, resumiu o ecólogo Leandro Juen, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Rios da Amazônia ainda concentram boa parte de água doce do planeta
Rios amazônicos concentram boa parte da água doce do planeta. Foto: Reprodução/Youtube-Instituto Soka Amazônia

Juen estuda os igarapés, talvez os rios amazônicos mais esquecidos. Numa floresta de rios caudalosos, os pequenos córregos não chamam atenção, mas são o melhor termômetro para avaliar a saúde hídrica do bioma.

“A maior parte da bacia é formada por igarapés, e são eles que primeiro manifestam os efeitos das mudanças climáticas. É onde a temperatura da água aumenta mais rápido e onde primeiro se perdem as espécies. A perda de intensidade nos pulsos de água não apenas diminui a vazão, muitos igarapés mudam de lugar ou desaparecem completamente”, explicou o professor, que foi membro afiliado da ABC entre 2019 e 2013.

Além dos impactos ecológicos, a mudança nos igarapés afeta a memória territorial dos povos da floresta, que tem os cursos d’água como referência geográfica. Para melhorar o monitoramento, o pesquisador está instalando sensores que a cada meia hora atualizam os dados sobre temperatura e a biodiversidade nesses ecossistemas. “Os maiores perdedores tendem a ser as espécies endêmicas, de menor capacidade de adaptação, enquanto as espécies invasoras proliferam”, avaliou.

O problema das espécies invasoras foi um dos pontos abordados pela pesquisadora Claudia Bonecker, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Ela abordou os serviços ecossistêmicos providos pela espécies dos rios e relatou como eles deterioram conforme a própria biodiversidade é perdida.

Em seu estado, a proliferação de cianobactérias no Rio Paraná se tornou comum, aumentando a mortalidade de peixes e da microbiota secundária, e comprometendo os setores econômicos da pesca e turismo. “Há perda de habitats, diminuição no tamanho dos animais sobreviventes, disrupções na cadeia alimentar. Quanto menos biodiverso o ecossistema, pior ele funciona”.

Menos de 1/3 da região tem acesso à água e saneamento básico

Na Amazônia, apesar do grande volume de água, o problema da eutrofização também se faz cada vez mais presente. Trata-se do excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, no corpo d’água, levando à proliferação descontrolada de algas e bactérias que deslocam as outras espécies. Essa questão foi abordada pela professora Sandra Azevedo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Apesar de ainda ser a região menos populosa do Brasil, a ocupação da floresta deu um salto no último século e hoje já são 26 milhões de brasileiros na Amazônia Legal. Porém, boa parte desse crescimento se deu sem o acompanhamento da infraestrutura necessária,. Menos de um terço da população da Região Norte conta com coleta de esgoto, e menos ainda com tratamento adequado dos rejeitos. “Coletar é retirar os dejetos da porta da casa das pessoas e liberar mais à frente. Sem tratamento, os dejetos continuam poluindo”, reforçou a pesquisadora.

Leia também: Amazônia possui maior parte da água doce do país, mas menores percentuais de acesso à água potável, aponta estudo

A falta de saneamento básico se reflete não apenas no aumento do fósforo e nitrogênio nos rios, mas também no aumento de pesticidas, fertilizantes industriais e medicamentos.

“Todos esses componentes químicos chegam ao curso d’água e degradam o equilíbrio ecológico, já pressionado pelo aumento da temperatura. Já existem florações perenes de cianobactérias na Amazônia” alertou Sandra. A situação é agravada pela intensificação da pecuária. “O excremento de uma só vaca corresponde ao de 30 pessoas”, continuou.

A palestrante finalizou comparando os corpos d’água eutrofizados à sopa primordial, onde acredita-se que a vida surgiu a partir da formação das primeiras moléculas orgânicas. “Aquela certamente não era uma água cristalina, também estava cheia de material. Agora, quem vocês acham que vai se sair melhor num ambiente desses? Nós ou as bactérias, que já são adaptadas a ele há bilhões de anos?”, indagou. “Não teremos nenhuma chance.”

Temperaturas no sul da floresta aumentam 0,4°C a 0,5°C por década

Todos esses processos impulsionam e se retroalimentam das mudanças climáticas. Voltando ao que alertava o professor Schöngart, o sul da Amazônia está aquecendo em média 0,4°C por década, um ritmo nunca antes visto. As estiagens, cada vez mais frequentes e duradouras, levam alguns lagos amazônicos a perderem 90% de suas águas. Na última seca extrema, o lago Tefé, a 500 quilômetro de Manaus, mediu um aumento de 40% na temperatura da água, que causou a morte em massa de botos cor-de-rosa.

Foto: Reprodução/Ipam

O crescimento na amplitude entre secas e cheias afeta particularmente as áreas alagáveis, chamadas igapós, que possuem uma biodiversidade própria e são fundamentais para economias locais e para o equilíbrio ecológico. “Mas a maior parte dos igapós estão fora das regiões de preservação”, alertou Schöngart. Outra pressão sobre essas áreas são os projetos de hidrelétricas. “Não faz o menor sentido, econômico ou ambiental, termos mais de 200 projetos de hidroelétricas no sul da Amazônia, justamente onde os rios já estão secando”, criticou.

Organizador da série de debates, o vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Luis Val, afirmou que a água é o principal elo condutor entre questões sociais e ambientais na região. “A maior fonte de proteína das populações amazônicas é o peixe, que estão a no máximo 1,2 °C de suas temperaturas máximas toleradas. Peixes que não conseguem regular temperatura morrem, e a projeção para esse novo El Niño é mais drástica ainda”, alertou.

Sobre os poluentes, Val lembrou que a ABC produziu recentemente relatórios sobre mercúrio, microplásticos e exploração de petróleo na margem equatorial. Os dois primeiros já são poluentes encontrados na biota amazônica, enquanto o petróleo pode ser particularmente catastrófico para as espécies pulmonares da Amazônia – como mamíferos aquáticos, répteis e aves aquáticas -, no caso de vazamentos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Academia Brasileira de Ciências

Justiça estabelece medidas para reforçar controle sobre mineração na APA do Tapajós, no Pará

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Foto: Reprodução/ICMBio

A Justiça Federal determinou novas medidas para controlar atividades de pesquisa e lavra mineral na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no sudoeste do Pará. A sentença, proferida na última quarta-feira (19), atende parte dos pedidos feitos pelo Ministério Público Federal (MPF) em ação civil pública. A Justiça também homologou um acordo entre o MPF e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para ampliar a fiscalização e a proteção da unidade de conservação.

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Uma das principais mudanças envolve os títulos minerários concedidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A Justiça determinou que os títulos relacionados à APA do Tapajós informem de forma clara que, sozinhos, eles não autorizam o início de pesquisa ou lavra. Para realizar essas atividades, é necessária autorização prévia do ICMBio, órgão responsável pela gestão da unidade de conservação, como determina a Lei nº 7.805/1989.

A ANM também terá que informar o ICMBio sobre os títulos minerários existentes na APA, além de novas concessões, renovações e mudanças importantes nesses títulos. Os dois órgãos deverão criar uma forma de compartilhar informações para identificar os títulos existentes no Tapajós e verificar quais têm a autorização exigida do ICMBio.

Se souber que há pesquisa ou lavra na APA sem essa autorização, a ANM não poderá considerar a existência do título minerário suficiente para que a atividade continue. A agência deverá tomar as medidas que estiverem dentro de suas atribuições e avisar imediatamente o ICMBio, para que o instituto também adote as providências necessárias.

Título minerário não basta para iniciar a atividade

Um dos pontos centrais da sentença é a diferença entre ter um título minerário e estar autorizado a realizar pesquisa ou lavra dentro da APA do Tapajós. A Justiça entendeu que a ANM pode conceder o título antes da autorização do ICMBio, mas nenhuma atividade de pesquisa ou lavra pode começar ou continuar na APA sem a autorização prévia do instituto exigida pela legislação.

A sentença também reconheceu que havia uma “falha concreta de articulação institucional” entre os órgãos. Documentos apresentados no processo mostraram dificuldades do ICMBio para acessar informações sobre processos da ANM. Também mostraram que o instituto descobriu a existência de permissões de lavra garimpeira por meio de consultas ao sistema da agência e de informações recebidas durante processos de licenciamento ambiental.

Para a Justiça, se o título minerário pode ser concedido antes da autorização ambiental, é preciso adotar medidas que evitem que esse título seja entendido, na prática, como uma autorização para iniciar a atividade.

Maior fiscalização na APA do Tapajós

Na mesma sentença, a Justiça homologou um acordo entre o MPF e o ICMBio para aumentar a fiscalização e a proteção da APA do Tapajós. O ICMBio deverá criar, em até 60 dias contados da homologação do acordo, um grupo de trabalho para elaborar um plano de fiscalização periódica de toda a extensão da APA do Tapajós. O planejamento deverá incluir as lavras ilegais e as autorizações de pesquisa, permissões de lavra garimpeira e concessões de lavra atuais e futuras.

Leia também: APA Triunfo do Xingu lidera pressão por desmatamento pelo quinto ano consecutivo na Amazônia

Reunião técnica do MPF sobre garimpo ilegal na APA do Tapajós
Sentença atende à pedidos do MPF sobre controle de atividades ilegais na APA do Tapajós. Foto: Reprodução/MPF

Em até 90 dias, o grupo deverá apresentar o plano de trabalho. O documento deverá explicar como será feita a fiscalização, definir prioridades e apresentar um cronograma. Também deverá estabelecer como será feito o acompanhamento dos títulos minerários. As ações previstas no plano deverão começar em até 180 dias.

Também em até 90 dias, o ICMBio deverá elaborar um documento técnico para orientar e padronizar a análise dos pedidos de autorização para pesquisa e lavra na APA.

Essas autorizações deverão estabelecer medidas para prevenir e reduzir danos ambientais. Entre os pontos que deverão ser considerados estão o uso de substâncias químicas no beneficiamento de minérios, o tratamento e a destinação de rejeitos e a prevenção do assoreamento e da contaminação dos rios, além de riscos à saúde pública.

O MPF poderá apresentar sugestões para o plano de fiscalização e contribuições técnicas para o documento que orientará as autorizações.

Suspensão de atividades sem autorização

Outra medida prevista no acordo terá efeito direto sobre quem possui título minerário na APA do Tapajós, mas não obteve a autorização exigida do ICMBio. Em até 150 dias da homologação do acordo, o instituto deverá notificar todos os detentores de títulos minerários na APA concedidos sem essa autorização.

Quem for notificado deverá suspender as atividades de pesquisa e lavra até obter a autorização do ICMBio. Se a determinação não for cumprida, o instituto deverá adotar as medidas de fiscalização previstas na legislação ambiental. Com a homologação do acordo, o processo foi encerrado em relação ao ICMBio. O MPF e o instituto também abriram mão de recorrer da decisão que homologou o compromisso.

O MPF ajuizou a ação em dezembro de 2024, depois de identificar problemas na comunicação e na articulação entre os órgãos responsáveis pela regulação da mineração e pela proteção ambiental da APA do Tapajós.

Na época, informações apresentadas pelo ICMBio apontavam a existência de 829 permissões de lavra garimpeira na APA do Tapajós em fase de execução. Ao mesmo tempo, o instituto informou que não havia concedido as autorizações exigidas pela Lei nº 7.805/1989 para essas atividades.

O ICMBio também relatou dificuldades para acessar processos e documentos da ANM necessários para verificar a situação ambiental dos empreendimentos.

Na ação, o MPF alertou ainda para os riscos ambientais da mineração na região. Entre eles estão a possibilidade de contaminação por mercúrio, outras substâncias tóxicas e rejeitos da mineração. Esses poluentes podem chegar aos rios que atravessam a APA e afetar populações tradicionais e outras pessoas que dependem da água e dos peixes.

Informações mais recentes analisadas pela Justiça reforçaram a dimensão do problema. Fiscalizações encontraram situações como atividades sem autorização do ICMBio, uso e armazenamento de mercúrio, problemas relacionados a rejeitos e licenciamento, mineração fora das áreas autorizadas e intervenções em áreas de preservação permanente.

Na Operação Xapiri, realizada entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, foram feitas 148 ações de fiscalização, 79 autos de infração, 96 apreensões, 15 embargos e 24 suspensões. Ao todo, 342 permissões de lavra garimpeira foram suspensas.

Operação Xapuri, realizada em 2025. Foto: Reprodução/MPF

*Com informações do MPF

Será que as araras realmente conversam com os humanos? Especialista explica relação comunicativa

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Com alta capacidade de aprendizagem, memória e associação, araras podem relacionar palavras a pessoas, objetos e situações. Foto: Divulgação

Quem já viu uma arara “respondendo” a uma pessoa provavelmente ficou com a impressão de que a ave entende exatamente o que está sendo dito. Mas será que esses animais realmente compreendem as palavras da mesma maneira que os seres humanos? A resposta é mais complexa — e revela o quanto a inteligência das aves pode surpreender.

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Segundo a bióloga e mestre em Botânica Joana Corbellini, não é possível afirmar que uma arara tenha consciência de sua própria identidade da mesma forma que uma pessoa. Quando uma ave parece corrigir alguém que a chama de “papagaio”, por exemplo, o comportamento pode estar relacionado à sua capacidade de aprender e associar determinadas palavras a situações específicas.

Araras, papagaios, periquitos e cacatuas fazem parte do grupo dos psitacídeos, conhecido pela elevada capacidade de aprendizagem, memória e associação. Algumas dessas aves conseguem estabelecer associações referenciais, relacionando vocalizações a objetos, cores, formas, quantidades ou situações. Um dos exemplos mais conhecidos na ciência é o papagaio-cinzento-africano Alex, estudado pela pesquisadora Irene Pepperberg, que demonstrou experimentalmente a utilização de palavras em contextos específicos.

Leia também: Arara catalina: espécie que ocorre em cativeiro apresenta cor laranja

Imagem colorida mostra araras, animais da Amazônia
Foto: Germano Roberto Schüür

Como uma arara consegue imitar a voz humana?

Ao contrário dos seres humanos, que produzem a voz principalmente por meio das pregas vocais, as aves utilizam uma estrutura chamada siringe, localizada na região inferior da traqueia. Nos psitacídeos, o controle preciso da língua, do bico e do trato vocal permite modificar os sons e reproduzir padrões bastante semelhantes à fala humana, inclusive ritmo e entonação.

Mas não significa que a ave tenha uma “voz humana”. Ela utiliza um sistema anatômico completamente diferente para produzir sons que apresentam características acústicas semelhantes às nossas palavras. A explicação para a impressão de que as aves conversam com seus tutores também passa pela vida social desses animais, já que na natureza as araras e papagaios utilizam vocalizações para manter contato e interagir com outros indivíduos. Quando vivem em ambientes domésticos, os seres humanos passam a fazer parte desse grupo social.

Assim, a ave pode aprender que determinadas vocalizações provocam respostas, como atenção, interação ou alimento. Isso ajuda a explicar comportamentos como dizer “oi” quando alguém chega, chamar uma determinada pessoa ou repetir sons que provocam alguma reação.

O problema é que inteligência não significa domesticação, portanto, a capacidade de aprender e interagir com humanos pode tornar as araras fascinantes, mas também é justamente um dos motivos pelos quais elas não são animais adequados para a maioria das residências.

Araras são animais silvestres, altamente sociais, inteligentes e ativos. Precisam de espaço para movimentação e voo, interação social, enriquecimento ambiental, estímulos cognitivos e alimentação específica. Além disso, possuem vocalização naturalmente intensa, bico muito potente e podem viver várias décadas.

Quando mantidas em ambientes pouco estimulantes, submetidas a confinamento prolongado ou sem interação adequada, podem apresentar alterações comportamentais, como agressividade e vocalização excessiva. Também podem desenvolver comportamentos como arrancar as próprias penas, situação que pode ter diferentes causas e requer avaliação veterinária.

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Tocantins
Arara-canindé. Foto: Reprodução/Instituto Arara Azul

A origem da arara

A origem do animal também é um ponto fundamental. No Brasil, animais silvestres não devem ser retirados diretamente da natureza para serem mantidos como animais de estimação. Quando houver aquisição legal, é necessário verificar a procedência e a documentação, evitando contribuir com o comércio ilegal e o tráfico de fauna.

Saiba mais: Como criar aves e pássaros de forma legal no Brasil?

Foto: Reprodução/Agência Belém

Para Joana, conhecer melhor a inteligência e a complexidade comportamental das araras também aumenta a responsabilidade sobre a forma como esses animais são tratados.

A capacidade de imitar a fala humana pode ser fascinante, mas representa apenas uma pequena parte da biologia desses animais. Antes de querer uma arara em casa, é preciso compreender que se trata de uma ave silvestre altamente social, longeva e cognitivamente complexa, cujas necessidades dificilmente são atendidas adequadamente em uma residência convencional.

*Com informações da assessoria

Em Normandia, Exército simula guerra na Amazônia em ataque com blindados e sensores inteligentes

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O Exército Brasileiro concluiu uma simulação de guerra de quatro dias na Amazônia. Treinamento mobilizou mais de 1,1 mil militares em Roraima. Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR

Viaturas blindadas, aeronaves e sensores inteligentes que registram perdas em tempo real. Esses foram os aparatos usados pelo Exército Brasileiro em uma simulação de guerra na Amazônia que durou quatro dias. O treinamento ocorreu na fronteira Norte do país e mobilizou mais de 1,1 mil militares num percurso de 550 km que atravessou a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

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O Grupo Rede Amazônica acompanhou a última etapa do treinamento na quinta-feira (20), na sede do município de Normandia, no interior de Roraima. Na ação final, 260 militares travaram um combate de ataque e defesa para “reconquistar” o aeródromo do município.

A simulação em Normandia ocorreu às margens da rodovia BR-401. A tropa foi dividida em 200 militares de ataque, enquanto 60 atuaram na linha de defesa do local a ser reconquistado. O efetivo incluiu militares de Roraima, Amazonas e Rio de Janeiro.

Treinamento Operação Amazônia Roraima
Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR

Sensores no colete e capacete

O Exército utilizou 140 equipamentos com sensores nos capacetes e coletes dos militares, fornecidos pelos Centros de Adestramento (CA) da Amazônia e Leste. Quando um militar era “atingido”, o equipamento emitia um aviso sonoro que indicava se ele havia sido morto ou ferido.

No caso de ferimento, o soldado ainda poderia ser resgatado pela equipe, mas, caso o equipamento indicasse “morto” por meio do sinal de voz, o militar sentava no chão e retirava o capacete, ficando “fora de combate”.

O uso desses equipamentos é usado como forma de incentivar os militares a colocarem os treinamentos e instruções de combate do Exército em prática. Os dados dos coletes são enviados para um computador, que registra baixas e movimentos para elaboração de relatórios de desempenho.

Leia também: Maior exercício militar do Brasil faz demonstração com tanques, aviões e armas em Roraima

Tiros de festim

Durante o combate, foram utilizados tiros de festim, munição composta apenas por uma cápsula com pólvora, sem o projétil (parte da bala que viaja pelo ar e causa ferimentos reais). Houve troca de tiros em diversos pontos da vila, conforme os militares de ataque avançaram em direção ao aeródromo.

A presença das tropas despertou os moradores de Normandia no início da manhã. Em uma escolinha da cidade, o som dos disparos foi ouvido por alunos e funcionários. A orientadora pedagógica Isadora Constância relatou que o Exército avisou a população com antecedência, mas o efetivo nas ruas surpreendeu.

“Não é todo dia que a gente vê uma presença muito grande de soldados na rua. As crianças escutaram os tiros e a gente ficou curioso”, disse. “Saber que o Exército está atuando e ver com os próprios olhos é uma experiência diferente”, acrescentou a moradora.

Uso de blindados

O exercício empregou 39 viaturas blindadas, incluindo os modelos Guaicurus e Guarani. O Guaicurus é um veículo 4×4 usado para proteção e mapeamento de áreas, operado apenas pela 1ª Brigada de Infantaria de Selva. O Guarani é utilizado para o transporte de tropas.

A marcha de combate começou no entroncamento da BR-174 com a BR-433, em Surumu, cruzou a Terra Indígena Raposa Serra do Sol e seguiu até Normandia. Na simulação de ataque na região do Contão, houve apoio de aeronaves de ataque A-29 Super Tucano.

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A manobra testou a capacidade da tropa de reconquistar um território invadido. Segundo o major Pedro Xavier, da 1ª Brigada de Infantaria de Selva, a unidade é preparada para ser acionada em situações de emergência, com militares prontos para entrar em ação a qualquer momento.

“O Exército sempre busca estar pronto por meio do seu preparo para as diversas operações que podem aparecer para ele”, explicou o major. “Esse adestramento materializou nossa vocação principal, que é a defesa externa no extremo norte do país”, concluiu.

Treinamento Operação Amazônia Roraima
Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR

Na defesa do aeródromo estava o soldado Lucas Peixoto. “Sabemos que o calor de Roraima não é fácil, mas mantivemos a tropa em posição, sempre bem abrigados. Acredito que teve muito desafio, mas batemos esse objetivo, que foi manter uma visibilidade grande do terreno”, destacou o recruta.

Durante a ação, militares à paisana interpretaram civis que pediam ajuda em meio ao combate. Eles foram socorridos pelas tropas e encaminhados a um posto de triagem fictício.

Normandia já recebeu outras ações

Treinamento Operação Amazônia Roraima
Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR

A região de Normandia e municípios vizinhos também foram cenário de atividades militares em 2025, durante a Operação Atlas. A ação faz parte do treinamento conjunto das Forças Armadas no país e reuniu 6 mil militares no estado.

O treinamento simulou um cenário real de confronto armado, com apoio de aeronaves de combate da Força Aérea Brasileira (FAB), tanques, blindados e artilharia terrestre. Na época, a operação teve o objetivo de avaliar a capacidade de atuação conjunta do Exército, Marinha e Aeronáutica e aprimorar estratégias de defesa na Amazônia.

Na ocasião, o maior míssil de longo alcance desenvolvido no Brasil, do sistema Astros, foi disparado pela primeira vez na região amazônica, em Bonfim. O sistema é capaz de lançar foguetes e mísseis que alcançam até 300 quilômetros de distância, com alto grau de precisão.

*Por João Gabriel Leitão, da Rede Amazônica RR

Projeto ‘Energias da Floresta’ leva debates sobre acesso à energia elétrica para comunidades da Amazônia

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Foto: Divulgação/IEMA

Água quentinha, areia branca fininha e muito verde da floresta pulsante em volta. Há quem durma em barcos, quem fique em hospedarias comunitárias ou até mesmo quem pendure a sua rede no meio da mata, e quem receba visitantes para compartilhar alimentos, histórias e vivências culturais. Na Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, às margens dos rios de mesmo nome e em frente à Floresta Nacional do Tapajós (Flona do Tapajós), oeste do Pará, o ritmo da vida acompanha o da mata.

Quando o sol se põe, algumas comunidades que têm energia elétrica insuficiente, também podem ficar no escuro. É preciso esperar o novo dia, quando a luz solar volta, para retornar às atividades que dependem de eletricidade.

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Nesse cenário, teve início algo inédito no Brasil. Entre os dias 10 e 14 de agosto, em conversas sob as palhas das construções, às margens do rio e à sombra das árvores, aconteceu a primeira Oficina de Imersão e Capacitação do Sandbox Regulatório Energias da Floresta. A iniciativa foi promovida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), com apoio do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O encontro foi executado pela Quintessa.

Realizada presencialmente em diferentes comunidades da Resex, a atividade reuniu cerca de 70 participantes de 50 instituições como representantes de comunidades, governo, distribuidoras de energia, academia, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e empresas para a construção coletiva de soluções para redução da pobreza energética e ao acesso à energia elétrica pública e de qualidade para quem vive em locais remotos, principalmente da Amazônia, pensada a partir das realidades e em diálogo direto com as comunidades.

Projeto 'Energias da Floresta' leva debates sobre acesso à energia elétrica para comunidades da Amazônia
Foto: Divulgação/IEMA

Ou seja, a oficina integra a proposta de criação de um ecossistema de inovação aberta e de experimentação regulatória para ampliar e aprimorar o acesso ao serviço público de energia elétrica em localidades, principalmente, da Amazônia. Na ocasião, o foco foi experimentar processos, identificar desafios e avaliar formas de participação colaborativa e de governança adequadas aos territórios.

“O mais importante foi ver as pessoas (de diferentes territórios, instituições, saberes, desejos, interesses e demandas) conversando, pensando e propondo soluções inovadoras para problemas antigos do fornecimento do serviço público de energia elétrica prestado pelo Estado brasileiro”, ressalta Vinícius Oliveira da Silva, pesquisador do IEMA.

Essa é uma mudança na forma de pensar como o estado brasileiro deve fornecer o serviço público. Em vez de começar pela tecnologia disponível e perguntar onde ela pode ser instalada, se inicia pelas necessidades do território indicando qual combinação de tecnologia, de regulação, de financiamento, de gestão e de participação pode responder melhor a elas.

“Nesses 30 anos da Aneel, construímos uma regulação sólida, pensada para atender ao setor elétrico em todo o território nacional. Hoje, contamos também com instrumentos regulatórios mais modernos, como os sandboxes regulatórios, que nos permitem avançar e refletir sobre soluções voltadas a problemas e realidades mais específicos. O sandbox Energia das Florestas parte justamente dessa possibilidade. A iniciativa busca avaliar, inclusive, como incorporar à regulação formas mais participativas de construção de soluções, considerando que a organização social dos povos tradicionais da Amazônia é fortemente pautada por decisões coletivas e comunitárias. A ideia é entender em que medida a regulação pode dialogar com essas formas de organização e, a partir delas, ampliar a participação social na tomada de decisão”, Agnes da Costa, diretora da Aneel.

Leia também: Levantamento no Pará revela que apenas 20% das residências de comunidades tradicionais têm energia elétrica pública

Construção feita com quem vive no território

Por isso, a proposta da oficina partiu de uma premissa: inexiste lugar passivo nessa construção. “Cada pessoa presente na imersão participou desse processo a partir de seus próprios conhecimentos, experiências e perspectivas. A proposta central era que todos fossem convidados a contribuir para pensar soluções capazes de responder às necessidades reais dos territórios amazônicos e de suas populações”, explica Fabio Galdino dos Santos, pesquisador do IEMA.

Projeto Energias na Floresta
Foto: Divulgação/IEMA

Para Maria Reginalva Alves Godinho, moradora e liderança comunitária de Anã, na Resex Tapajós-Arapiuns, a escuta das comunidades é fundamental para que as soluções considerem as particularidades de cada território: “É muito importante que tenham vindo aqui, ouvido e convivido conosco esses quatro dias. É isso que queremos: viver bem dentro da floresta, mas tendo as mesmas oportunidades dos grandes centros. É o início de uma grande construção, para agora, para o médio e longo prazo.”

Durante a imersão, os participantes foram divididos em seis grupos de trabalho para discutir desafios estratégicos à construção dos pilotos: autogestão comunitária, uso produtivo da energia, operação e manutenção, modelos alternativos de cobrança, infraestrutura comunitária e financiamento.

Nos dois primeiros dias, os grupos percorreram diferentes comunidades para conhecer o território, conversar com os moradores e observar as atividades produtivas e os impactos da falta ou da precariedade da energia. No último, os grupos formularam propostas de projeto-piloto, avaliados em uma simulação pela mesa de governança.

Desafio vai além de levar energia elétrica

A escolha da Resex Tapajós-Arapiuns não foi casual. O território reúne comunidades que mantêm uma relação direta com a floresta e com os rios e desenvolvem atividades econômicas ligadas à agricultura familiar, ao extrativismo e à sociobiodiversidade.

Os números do IEMA ajudam a dimensionar o problema que motiva a iniciativa. Os dados mostram que a exclusão elétrica na região vai além da questão de iluminação doméstica, afetando também a autonomia econômica das comunidades tradicionais, além da qualidade de vida.

“São inúmeras as dificuldades de não ter acesso a uma energia adequada e confiável. Costumamos dizer que a energia é o meio para a diversificação da produção sustentável. Trabalhamos com agricultura familiar, com mel, peixes, artesanato e extração de óleos essenciais e, sem energia, a geração de renda fica comprometida. Também precisamos dela para o bombeamento de água, a conservação dos alimentos, o acesso à saúde, principalmente à telemedicina e ao eventual acionamento do Samu para resgates, e para que a escola tenha uma estrutura adequada, climatizada e informatizada, com internet, para os alunos e educadores. Se não há energia, nada disso funciona”, relata Godinho.

Mais de 84 mil unidades produtivas vinculadas ao extrativismo vegetal estão sem energia elétrica, segundo dados do IEMA. Os estados do Pará, de Rondônia e do Acre respondem, juntos, por 65% dos estabelecimentos agropecuários não atendidos pelo serviço público de energia. Só no Pará, em que aconteceu a oficina, 45% dos estabelecimentos extrativistas seguem sem eletrificação.

O impacto aparece de maneira especialmente evidente nas cadeias da sociobiodiversidade. O açaí, por exemplo, é uma das atividades mais afetadas, são cerca de 33,7 mil estabelecimentos sem energia elétrica. A ausência de eletricidade dificulta o beneficiamento, a conservação e a refrigeração do produto perecível. Já a castanha-do-brasil, com cerca de 10,1 mil estabelecimentos sem energia, e o babaçu, com aproximadamente 7,3 mil, também estão entre os produtos mais afetados.

Projeto Energias na Floresta. Foto: Divulgação/IEMA

Mesmo nos locais onde o Programa Luz para Todos (LpT) já chegou por meio de sistemas individuais (SIGFI), há uma limitação técnica importante. A potência costuma ser dimensionada apenas para uso básico residencial, como iluminação e televisão, sendo insuficiente para o uso produtivo como, por exemplo, para o acionamento de motores de despolpadeiras, bombeamento de água ou de freezers horizontais.

O desafio, porém, não se resume à existência ou não de uma ligação elétrica. Em muitas comunidades, o acesso é limitado pela baixa qualidade do serviço, pela dependência de combustíveis fósseis, pelos custos elevados, do combustível e da tarifa de energia elétrica, e pela dificuldade de manter sistemas funcionando de forma contínua. Por isso, o objetivo é construir soluções que garantam energia confiável, renovável, acessível e adequada às necessidades específicas de cada território, e não soluções padronizadas, pensadas para realidades urbanas.

Godinho acredita que ampliar o acesso à energia significa também criar condições para que as comunidades possam permanecer e prosperar em seus territórios. “Esperamos que o acesso à energia melhore a qualidade de vida das pessoas da Amazônia como um todo e contribua, inclusive, para as futuras gerações e para mantermos a floresta em pé.”

Sobre o Projeto Energias da Floresta

O inédito Sandbox Regulatório Energias da Floresta busca desenvolver e testar soluções inovadoras para ampliar o acesso à energia renovável, segura e adequada em comunidades da Amazônia Legal. Entende-se por sandbox um ambiente de experimentação controlada no qual, neste caso por exemplo, podem ser mapeadas barreiras regulatórias e institucionais, promover participação social efetiva, estabelecer indicadores técnicos, socioeconômicos e ambientais e sistematizar os aprendizados para subsidiar futuras decisões regulatórias.

A proposta é sair do processo com uma compreensão mais concreta de caminhos para uma transição energética justa, renovável e conectada à realidade da floresta em pé e de seus povos. A experiência já reforçou que a transição energética na Amazônia precisa considerar as particularidades de cada comunidade. Não há uma única Amazônia, nem uma única demanda energética. Ela tem apoio da Rede Energia & Comunidades.

Assim, o que foi construído durante a semana é um processo. Um conjunto de aprendizados sobre como diferentes atores podem trabalhar juntos para enfrentar um problema antigo e complexo. A oficina terminou, mas a experimentação continuará.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IEMA

Entenda a diferença entre temperatura e sensação térmica: por que sentimos mais calor do que indica o termômetro em Manaus?

Em Manaus, a umidade elevada faz com que a sensação térmica, chamada de índice de calor, seja até 15°C maior que a temperatura registrada nos termômetros. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Quem vive em Manaus (AM) sabe que a temperatura que aparece no termômetro nem sempre explica o calor sentido nas ruas, principalmente em áreas mais urbanizadas durante o verão amazônico. A sensação de uma temperatura diferente da que é divulgada por meteorologistas pode ser atribuída à chamada sensação térmica. Mas afinal, qual é a diferença entre temperatura e sensação térmica na prática?

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O Grupo Rede Amazônica conversou com o meteorologista Leonardo Vergasta, que explicou que o termo mais utilizado para a região amazônica, onde o clima é quente e úmido o ano inteiro, e a umidade relativa do ar ultrapassa 80% com frequência, é “índice de calor”.

“A temperatura do ar é aquilo que a gente mede no termômetro: é um valor objetivo que mede a energia do ar em um determinado momento. Já a sensação térmica, ou o que aqui na região o mais correto tecnicamente, a gente prefere chamar de índice de calor, é diferente. É basicamente como o nosso corpo sente aquela temperatura. Não é medido por um termômetro comum. É calculado levando em conta a temperatura do ar junto com a umidade relativa do ar”, explica.

Vergasta explica que o índice de calor é um dado que representa melhor o estresse térmico que a população sente em dias de temperatura elevada. De acordo com o meteorologista, em regiões tropicais úmidas como a Amazônia, a diferença entre a temperatura do ar e o índice de calor pode chegar a até 15°C.

Leia também: Especialistas explicam porque ilhas de calor deixam bairros de Manaus mais quentes no verão amazônico

O termômetro não conta a história inteira

Uma mesma temperatura pode parecer muito diferente dependendo do lugar onde a observação é feita. Fatores como umidade, vento, radiação solar, sombra e características da superfície urbana afetam a percepção do clima.

De acordo com Vergasta, isso acontece porque o corpo humano funciona como um sistema de troca de calor com o ambiente ao redor, e a capacidade deste sistema de liberar o calor para o ar que nos cerca é o que causa a sensação de ambiente quente ou frio.

“Quando está quente, a gente sua. Esse suor que sai da pele evapora, e essa evaporação é o que realmente nos resfria. É como quando você molha o braço e o vento passa: aquela evaporação da água é que tira o calor. Agora, quando a umidade do ar é muito alta, o ar já está cheio de água, e aí aquele suor não consegue evaporar direito. Fica ali na pele, não evapora, e o corpo não consegue se resfriar. Resultado: você sente muito mais calor”, explicou.

Neste cenário, o fator mais importante na diferença da percepção de calor é a umidade do ar. Em locais de clima úmido, como o Amazonas, a umidade permanece alta mesmo no período de seca. Essas condições, somadas a eventos climáticos como o El Niño, fazem com que a sensação de calor seja ainda maior do que em outras épocas do ano.

“Aqui em Manaus, durante o período que a gente chama de seco, que vai de maio até outubro, a umidade cai um pouco, mas não drasticamente. Quando combinamos isso com um evento como o El Niño, que reduz as nuvens e aumenta a radiação solar chegando ao solo, o resultado é um índice de calor extremamente alto. Por isso é que neste ano, com o El Niño que foi estabelecido em junho, a gente está vendo esse impacto muito forte no clima da região”, pontuou o meteorologista.

A influência da arborização

Outro fator que influencia o índice de calor é a arborização. Por exemplo, uma pessoa caminhando por um parque pode ter uma sensação mais confortável da temperatura do que uma pessoa caminhando em uma rua asfaltada que registra a mesma temperatura no termômetro.

Além da sombra produzida pelas árvores servir como alívio térmico em dias de sol muito intenso, o fenômeno da evapotranspiração das plantas também auxilia na diminuição da sensação de calor em lugares com maior vegetação, em um efeito que Vergasta descreveu como “uma espécie ar-condicionado natural”:

Entenda a diferença entre temperatura e sensação térmica: por que sentimos mais calor do que indica o termômetro em Manaus?
Getúlio Vargas é uma das poucas avenidas arborizadas de Manaus. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

“Quando você está embaixo de uma árvore, aquela radiação solar que viria diretamente do céu é bloqueada pelas folhas, então a gente não recebe todo aquele calor na pele. Segundo, as árvores transpiram, ou seja, elas liberam água através das folhas, e essa água evapora. Essa evaporação consome calor do ar ao redor, e isso resfria o ambiente local. Além disso, árvores reduzem um pouco a velocidade do vento, e quando tem muita transpiração das plantas liberando água, a umidade do ar ao redor muda”, explicou.

O especialista apontou também que a temperatura do ar em áreas arborizadas pode ser 1°C a 5°C menor em comparação com áreas sem árvores.

Entretanto, este efeito precisa de uma cobertura vegetal contínua e densa para que seja percebido em um bairro inteiro, ou uma cidade. Uma única árvore, mesmo grande e madura, pode auxiliar o clima imediatamente ao redor por conta da sombra projetada, mas não é o suficiente para impactar uma região maior que alguns metros.

“A razão é simples: o efeito de uma árvore isolada é muito localizado, funciona em um raio de cerca de 10 a 20 metros ao redor dela. Para resfriar um bairro inteiro, você precisa de múltiplas árvores formando uma estrutura contínua, criando uma rede de sombra e evapotranspiração. Pesquisas mostram que ruas com uma ou duas árvores têm um efeito térmico bem menor comparado com ruas que têm um dossel de árvores contínuo cobrindo toda a via”.

De acordo com Vergasta, o fenômeno climático El Niño, estabelecido em junho de 2026, impulsionou temperaturas médias acima do normal para setembro e outubro, e a incidência de anomalias do tipo faz com que a vegetação urbana seja extremamente importante.

A Floresta Amazônica é um regulador climático em escala regional, mas em Manaus, uma das maiores cidades do bioma, a arborização não é o suficiente para cumprir o papel de redução do calor em grande parte da cidade. Em grandes cidades, a alta urbanização facilita a formação de ilhas de calor, quando o asfalto e concreto absorvem o calor do sol e aumentam a sensação de calor no ambiente.

“A maioria das pessoas de renda mais baixa, que mora justamente em áreas da cidade com menos arborização, depende completamente do sombreamento natural para sobreviver bem durante esses períodos de calor intenso”, diz Vergasta.

“Além disso, ondas de calor extremo e fenômeno de ilhas de calor urbano aumentam a mortalidade, principalmente entre idosos, crianças pequenas e pessoas com problemas no coração ou pulmão. A arborização urbana reduz essa carga de estresse térmico”, completa.

Com o índice de calor em certos pontos da cidade alcançando níveis acima de 45°C, o estresse térmico se torna perigoso principalmente para populações vulneráveis, trabalhadores manuais ou pessoas que praticam qualquer tipo de atividade física nos horários de maior incidência de calor.

“Para a saúde pública e para o bem-estar geral da população de Manaus, especialmente dos mais vulneráveis, a arborização não é um luxo: é uma questão de necessidade mesmo”, finalizou.

*Por Marcela Orquiz, da Rede Amazônica AM

Megaprojeto de mineração de potássio sobrepõe território Mura, reafirma Funai

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Projeto da canadense Potássio do Brasil inclui 4,4 mil hectares de jazidas subterrâneas totalmente sobrepostas à Terra Indigena Lago do Soares. Foto: Clara Comandolli/Cimi

Representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em reunião com integrantes da Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR), do Ibama e dos Ministérios de Minas e Energia (MME) e dos Povos Indígenas (MPI), confirmaram, pela segunda vez, que o megaprojeto da mineradora canadense Potássio do Brasil está sobreposto ao território tradicional do povo Mura em Autazes (AM).

Durante encontro no dia 14 de agosto, a diretoria da Funai pontuou que “embora não tenham sido definidos os limites no estudo [de identificação e delimitação], já há uma proposta e não há dúvidas de que a área do empreendimento sobrepõe áreas de moradia e circulação dos Mura”. Com Licenças de Instalação concedidas pelo órgão licenciador estadual, o empreendimento avança sobre áreas de moradia e pesca na Terra Indígena (TI) Lago do Soares.

Na ocasião, lideranças voltaram a denunciar ameaças, cerceamento e ausência de Consulta Livre, Prévia e Informada, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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É a segunda vez que a Funai confirma a sobreposição do empreendimento na terra indígena reivindicada pelo povo Mura, localizada no município amazonense de Autazes. Em ofício publicado em 2023, o órgão já havia recomendado a suspensão do processo de licenciamento, por haver evidências concretas de que a “terra indígena em estudo encontra-se sobreposta às áreas de jazidas a serem exploradas no Projeto Potássio Autazes”.

Apesar disso, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão licenciador do estado, concedeu, ao longo de 2024, ao menos sete Licenças de Instalação à mineradora canadense. Ignorando a recomendação da Funai, o órgão autorizou a realização de obras, incluindo a instalação de uma mina subterrânea para extração de silvinita, minério a partir do qual são extraídos sais de potássio, matéria-prima para a produção de fertilizantes agrícolas.

Com licenças de instalação do Ipaam, empresa Potássio do Brasil desmata áreas dentro da TI Lago do Soares, em estudo pela Funai. Fotos: Filipe Gabriel Mura.
Com licenças de instalação do Ipaam, empresa Potássio do Brasil desmata áreas dentro da TI Lago do Soares, em estudo pela Funai. Fotos: Filipe Gabriel Mura.

Empreendimento já impõe impactos ao povo Mura

Desde então, a mineradora avança sobre o território desmatando áreas de vegetação nativa, conforme o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já havia denunciado, com fotos e imagens de satélite, em abril deste ano. Registros fotográficos feitos pelos indígenas entre dezembro de 2025 e julho de 2026, e apresentados durante a reunião no MPI, também evidenciam a devastação em curso dentro de áreas onde os indígenas realizam a coleta de frutas e sementes.

Milena Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), denuncia que a comunidade está sendo proibida pela multinacional de transitar nesses locais. “Tem sempre pessoas da empresa no local onde o empreendimento será instalado, proibindo a circulação dos indígenas em seu próprio território”, relata.

Durante a reunião realizada na última semana, Milena e outras duas lideranças presentes também relataram que as obras já estão afetando o abastecimento alimentar da comunidade. Segundo relatos, a abertura de uma estrada de acesso está provocando o secamento de uma nascente, local de desova de peixes, que são a base alimentar do Povo Mura. “Pra gente isso é muito doloroso, porque a gente já está vendo que os peixes estão rareando”, explica Milena.

Leia também: Licenciamento do Projeto Potássio Autazes segue em debate; MPF aponta irregularidades

O desmatamento e a abertura de um ramal já estão provocando o secamento de uma nascente, como mostram registros feitos em julho de 2026. Fotos: Caroline Nogueira.
O desmatamento e a abertura de um ramal já estão provocando o secamento de uma nascente, como mostram registros feitos em julho de 2026. Fotos: Caroline Nogueira.

Projeto de potássio tem irregularidades, segundo MPF

Em maio de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) moveu uma Ação Civil Pública (ACP) na qual pede a suspensão das Licenças de Instalação emitidas pelo Ipaam, já que a Constituição Federal proíbe a realização de mineração dentro de terras indígenas, sejam elas demarcadas definitivamente ou ainda não. A peça apresentada também pede a transferência do processo de licenciamento ao Ibama, devido à dimensão do projeto, aos impactos na TI Lago do Soares e em outras terras indígenas da região e ao fato de que este é o órgão responsável por licenciar empreendimentos em terras indígenas.

Segundo o MPF, além da sobreposição à TI Lago do Soares, que já possui, desde 2023, portaria da Funai para a realização de estudos e definição de limites territoriais, “a base de exploração minerária fica a menos de 3 km da Terra Indígena Jauary, e a cerca de 6 km da Terra Indígena Paracuhuba”, esta última homologada desde 1991.

Imagem de reprodução do Projeto Potássio Autazes, que prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira. Foto: Divulgação Potássio do Brasil.
Imagem de reprodução do Projeto Potássio Autazes, que prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira. Foto: Divulgação Potássio do Brasil.

Licenças ambientais não dão conta da dimensão territorial do projeto

Conforme revelou reportagem investigativa do Cimi, o projeto Projeto Potássio Autazes prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial para o beneficiamento do minério, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira para o escoamento da produção. As estruturas de superfície já autorizadas pelo Ipaam abrangem mais de 200 hectares, enquanto autorizações de supressão vegetal permitiram a derrubada de 257 hectares.

A dimensão do empreendimento, porém, é muito maior quando consideradas as jazidas que a empresa pretende explorar no subsolo. Levantamento realizado pelo Cimi Regional Norte 1, a partir de mapas e documentos produzidos pela própria Potássio do Brasil, identificou uma área de aproximadamente 4,4 mil hectares de jazidas subterrâneas. Uma extensão vinte vezes maior do que a área mencionada nas licenças do Ipaam.

Além de estarem totalmente sobrepostas à TI Lago do Soares, as jazidas, em seu limite, ficariam a poucos quilômetros da TI Jauary, delimitada em 2012. A estreita faixa que separa os dois territórios é, basicamente, ocupada por um afluente do rio Madeira. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) reconhece o risco de salinização das águas próximas ao empreendimento.

De acordo com o EIA, a empresa prevê a extração de cerca de 227 milhões de toneladas de minério bruto ao longo de 31 anos, a partir do qual seriam produzidas mais de 61 milhões de toneladas de potássio, gerando 165,3 milhões de toneladas de rejeitos.

Fonte: Ipaam

Povo Mura denuncia violação do protocolo de consulta e ameaças

À justiça do Amazonas, o MPF e lideranças Mura apontam também outras irregularidades graves identificadas no processo de licenciamento, como a “profunda e grave violação” ao protocolo de consulta e consentimento do povo.

O povo Mura aprovou seu protocolo de consulta em 2019, após dois anos de reuniões e debates entre as comunidades e aldeias dos municípios de Careiro da Várzea e Autazes. O documento, que define como os Mura devem ser consultados antes da realização de qualquer atividade dentro de seu território que possa afetar seus direitos, deveria ter sido obedecido pelos órgãos públicos e pela empresa para a concessão de qualquer licença ambiental.

Ministério Público Federal e lideranças apontam graves irregularidades no processo de licenciamento, como a violação ao protocolo de consulta e consentimento do povo Mura. Foto: Clara Comandolli | Cimi.
Ministério Público Federal e lideranças apontam graves irregularidades no processo de licenciamento, como a violação ao protocolo de consulta e consentimento do povo Mura. Foto: Clara Comandolli/Cimi.

Esse protocolo prevê 16 passos, que incluem uma série de reuniões e assembleias que devem contar com uma composição específica, como, por exemplo, a presença de representantes de todas as aldeias, do MPF e da Funai. No entanto, segundo o MPF e a Organização de Lideranças Indígenas Mura de Careiro da Várzea (OLIMCV), não foi isso o que aconteceu.

De acordo com a denúncia apresentada, a consulta alegada pela mineradora canadense, na qual teria sido aprovado o projeto, aconteceu nos dias 21 e 22 de setembro de 2023, com a participação de lideranças de algumas aldeias e do Conselho Indígena Mura (CIM), além de representantes da Potássio do Brasil. Não estiveram presentes membros da Funai, do MPF e nem mesmo moradores da comunidade indígena Soares, principal afetada pelo empreendimento.

“Não se decide o futuro de um povo em uma reunião. E a grande maioria, e principalmente a aldeia mais impactada, que é a Soares, não esteve presente nessa reunião”, relatou William Filgueira, que compõe a diretoria da OLIMCV, durante reunião no MPI.

A denúncia também alega cooptação de lideranças, ameaças e oferecimento de propina por parte da multinacional. À autoridades do Ibama, da Secretaria-Geral da Presidência e dos Ministérios dos Povos Indígenas e de Minas e Energia, Milena Mura relatou que a Potássio do Brasil, “dividiu o povo, ameaçou lideranças, cooptou essas lideranças ameaçadas e fez com que essas próprias lideranças nos ameaçassem”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Cimi

Incêndios florestais aumentam mais de 300% em Manaus durante período de estiagem; veja dicas e orientações

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Incêndios em vegetação e áreas florestais aumentaram 324% na capital amazonense, com 564 ocorrências de janeiro a agosto, contra 133 registrados no mesmo período de 2025. Foto: Divulgação/Âmbar Energia

O aumento dos incêndios florestais durante o período de estiagem no Amazonas exige atenção redobrada da população. Segundo dados do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), Manaus registrou 564 incêndios florestais entre janeiro e agosto de 2026, contra 133 no mesmo período de 2025 — um aumento de aproximadamente 324%. Somente nos dois primeiros finais de semana de agosto, foram registradas 223 ocorrências de incêndios em vegetação e áreas florestais.

Com altas temperaturas, baixa umidade e vegetação seca, o fogo se espalha com mais rapidez e pode atingir a rede de distribuição de energia. As chamas podem danificar postes, cabos, transformadores e outros equipamentos, além de colocar em risco a população e dificultar o trabalho das equipes responsáveis pela manutenção e pelo restabelecimento do fornecimento.

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A Âmbar Energia, concessionária que presta o serviço do fornecimento de energia elétrica na capital amazonense, reforça que a prevenção começa antes do fogo. A empresa orienta a população a não realizar queimadas próximas às redes de distribuição de energia elétrica, não utilizar fogo para limpar terrenos ou pastagens e evitar a queima de lixo, folhas e outros resíduos em áreas abertas.

Incêndios florestais aumentaram 324% em Manaus. Foto: Divulgação/Âmbar Energia
Altas temperaturas, baixa umidade e vegetação seca contribuem para a propagação do fogo em áreas de vegetação. Foto: Divulgação/Âmbar Energia

Leia também: Período de estiagem aumenta risco de queimadas nas rodovias da região amazônica; saiba o que fazer

Outros cuidados para evitar incêndios

Também é importante não jogar pontas de cigarro em estradas, terrenos ou áreas de vegetação seca. Em acampamentos, o fogo deve ser completamente apagado com água antes da saída do local. A empresa alerta ainda que ninguém deve tentar combater sozinho um incêndio próximo a postes, cabos ou outros equipamentos de energia. Nesses casos, é fundamental manter distância segura da rede elétrica e acionar as equipes responsáveis.

“Quando uma queimada atinge a rede elétrica, o restabelecimento da energia se torna mais complexo e exige uma operação ainda mais cuidadosa. Em áreas de difícil acesso, pode ser necessária a mobilização de muitas equipes e até de equipamentos pesados depois que as chamas são controladas”, explica João Pilla, diretor-presidente da Âmbar Energia.

Em caso de incêndio próximo à rede elétrica, a orientação é não se aproximar dos cabos e equipamentos e acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, pelo telefone 193.

*Com informações da assessoria