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Literatura amazonense: um território contestado

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Foto: Reprodução/Chess

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

O que define uma boa literatura?

Para mim, é uma pergunta fadada ao fracasso. Há tantos livros no mundo quanto peixes no mar, e para cada um, há um número ainda maior de leitores que podem apreciá-lo por sabe-se lá quais qualidades, e outros que o odiarão pelos mesmíssimos motivos.

Acho que a pergunta mais válida seria “o que define boa literatura para mim”?

A diferença entre uma pergunta e outra é que meu gosto por essa ou aquela história diz tanto sobre mim quanto sobre qual enredo escolho para leitura, e, consequentemente, quem escolho ler.

O ato da leitura é, naturalmente, um encontro de sujeitos – quem escuta e quem conta -, e entre esses, deve existir comunhão, partilha. Como em qualquer encontro, há a possibilidade de sucesso e de fracasso, e independente do resultado, a troca deixa vestígios, contribuições, pois é nesse embate que eu toco o outro, o outro me toca.

Digo embate porque não acredito em encontros de sujeitos que, eventualmente, não resultem em conflito, e acredito também que nada se transforma, para bem ou para mal, sem que haja esse conflito. O conflito é um motor, é fenômeno que demanda mudança, pois o que não muda, gasta, quebra, some.

Nos últimos meses, a cena literária amazonense tem passado por um conflito, e me arrisco a dizer que é uma das histórias mais velhas do mundo. Entre seus muitos episódios, um dos autores mais influentes do estado cita que o Clube da Madrugada – movimento artístico de destaque entre 1950 e 1960 – ainda é a principal referência de qualidade literária no Amazonas, seguido da declaração de uma colega de profissão na qual afirma que o crescente número de publicações independentes – possibilitadas pela internet ou pelos editais de fomento à cultura – valoriza quantidade acima de qualidade, o que comprometeria a integridade artística da literatura local.

Em contraposição, vários representantes do segmento da Literatura Marginal denunciaram tais posicionamentos como elitistas e excludentes. Se não fossem justamente a internet e os editais de fomento, é provável que vários desses artistas não encontrassem nos meios de publicação tradicionais espaço para que suas narrativas chegassem às mãos de leitores interessados em ouvir o que têm a contar.

Não vejo como me posicionar nessa discussão – uma vez que também sou escritor – sem deixar aqui um pouco da minha experiência. Entrei no curso de Letras em 2012 porque queria ser escritor, e achei que seria um bom lugar para começar. Posteriormente, já com livros publicados, fiz Mestrado em Estudos Literários e continuo tanto publicando quanto engajado em minha formação. No entanto, não foi a formação acadêmica que me fez escritor.

Jan Santos e o ilustrador Yan Bentes na campanha de promoção do livro “Rudá – filho da terra e das estrelas”. Foto: Jan Santos/Acervo pessoal

Foram os filmes que assistia com meu pai quando ele chegava do trabalho, após passar o dia dirigindo um ônibus municipal. Foram as canções e histórias que ouvia de minha mãe, os causos sobrenaturais que ouvia de meu avô. Foram os desenhos animados de sábado, os videogames que jogava apenas quando ia na casa dos meus primos mais abastados. Foi toda arte que consumi, seja em casa, na rua ou na escola.

E com certeza não foi a academia que me permitiu publicar, nem o convite miraculoso de uma editora interessada no que um menino de 18 anos tem a dizer. Em Manaus, não funciona a ideia de que, se você tem talento, será visto (acho que em nenhum lugar do mundo). Não há muitos caminhos para a publicação tradicional aqui, e já ouvi de um certo escritor renomado – hoje defunto – que só é válido publicar se você for selecionado por uma editora de São Paulo.

Filho de pai motorista e mãe autônoma, não sobrava muito dinheiro para ir a São Paulo tentar a vida como escritor. Nenhum livro que lancei foi publicado de outra forma senão por financiamento coletivo ou editais de fomento à cultura. Sem esses caminhos alternativos, eu não teria publicado meu primeiro livro, há uma década, tampouco estaria me preparando para publicar o sexto.

Em uma cidade como Manaus, que não integra o eixo econômico – e, consequentemente, cultural – do país, quem sente a vontade violenta de contar histórias não pode se dar ao luxo de esperar ser notado pelos olhos de cima, nem dispor de algumas dezenas de milhares de reais para ter a satisfação de ter seu nome na capa de um livro. Nem todos calhamos de nascer com o sobrenome certo. 

Na cultura, é natural haver conflito: de um lado, movimentos artísticos bem estabelecidos, confortáveis em publicar quando a inspiração bate e o dinheiro não falta, e, de outro, vanguardas que desassossegam quem esquece o quanto é difícil ser artista no Brasil. Como diz Regina Dalcastagnè, tais vanguardas causam ruído, barulho, dissonância que, embora vistas superficialmente como manifestações caóticas, somam à diversidade de vozes que escapam ao gargalo dos meios tradicionais de publicação.

Com todo o respeito ao Clube da Madrugada, mas as pessoas não pararam de viver em 1960. Se vivem, logo escrevem.

E sem precisar de permissão.

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Consulta pública propõe definir grafismos do povo Huni Kuĩ como Patrimônio Cultural

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Foto: Reprodução/Acervo Iphan

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), comunicou no dia 22 de janeiro que está em trâmite o processo administrativo referente à proposta de registro do Kene Kuĩ, grafismos do povo Huni Kuĩ, como Patrimônio Cultural do Brasil. O objetivo do comunicado é permitir que a sociedade apresente, no prazo de 30 dias, manifestações sobre o bem cultural.

A sociedade pode se manifestar sobre o pedido de registro até o dia 21 de fevereiro de 2025. As manifestações devem ser encaminhadas para o endereço eletrônico dpi@iphan.gov.br ou enviadas como correspondência para o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural – Presidente – SEPS 702/902, Centro Empresarial Brasília 50, Bloco B, Torre Iphan, 5º Andar – Brasília – Distrito Federal – CEP: 70390-135.

Finalizado o prazo para manifestação, o processo será encaminhado para análise do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado de decisão máxima do Iphan para os processos de reconhecimento do Patrimônio Cultural do Brasil.

Kene Kuĩ, grafismos do povo Huni Kuĩ

O povo Huni Kuĩ é originário da Amazônia Ocidental, na fronteira entre o Brasil e o Peru. Atualmente, habitam o estado do Acre e sul do Amazonas. O Kene Kuĩ é um conjunto de conhecimentos técnicos e rituais, materiais e imateriais, que envolvem a produção de padrões gráficos realizados pelo povo Huni Kuĩ.

Suas produções envolvem tecelagem, cestaria, pintura corporal, cerâmica, produção de redes e miçangas, entre outros objetos, representando a conexão entre os Huni Kuĩ e seus conhecimentos ancestrais. Mais do que uma manifestação artística, o Kene é considerado uma linguagem visual que incorpora saberes sobre o universo cosmológico, as relações sociais, as práticas rituais e os modos de vida do povo Huni Kuï.

Os grafismos dos Kene possuem uma unidade estilística inconfundível, marcada por uma estética que equilibra simetria e assimetria, figura e fundo, e utiliza padrões geométricos elaborados que narram histórias e refletem uma cosmologia rica e complexa. Tradicionalmente, a produção do Kene é realizada majoritariamente por mulheres, que desempenham o papel de “aïbu keneya” (mestras do desenho), transmitindo os saberes por meio de práticas orais, cânticos e rituais. O aprendizado dos Kene inclui também a observação e a relação com os “yuxibu” (seres da floresta), que inspiram e guiam a criação gráfica.

As mulheres tradicionalmente são as grandes guardiãs de conhecimento e prática do Kene Kuĩ. Foto: Ila Verus/CPI AC

O pedido de registro do Kene foi feito ao Iphan no ano de 2006, por meio do documento assinado por 127 representantes de comunidades e organizações indígenas do povo Huni Kuĩ (Kaxinawá), como a Associação dos Produtores Kaxinawá da Aldeia Paroá (APROKAP), a Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira (OPIRE); a Associação dos Seringueiros, Agricultores e Artesãos Kaxinawá de Nova Olinda (ASPAKNO); a Organização do Povo Huni Kuĩ do Alto Purus (OPIHARP) e a Federação do Povo Huni Kuĩ do Acre (FEPHAC).

Antes mesmo do pedido de registro junto ao Iphan, os Huni Kuĩ já haviam realizado pesquisas sobre o Kene Kuĩ com o apoio de organizações indigenistas, produzindo uma vasta documentação financiada por meio de editais de fomento à cultura ao longo dos anos. Ainda assim, havia a demanda pelo reconhecimento e salvaguarda deste patrimônio, que se encontrava em desuso entre os jovens indígenas de algumas aldeias, ao mesmo tempo em que os usos considerados indevidos se expandiram.

Foi nesse contexto que o pedido de registro do Kene foi discutido e solicitado pelo povo Huni Kuĩ. Foi destacado, no pedido de registro, que o Kene Kuĩ é uma das principais referências identitárias para o povo Huni Kuĩ, havendo a necessidade de se garantir o reconhecimento deste bem cultural enquanto conhecimento tradicional.

*Com informações do Iphan

União deve esclarecer ao STF pontos de plano de proteção da Amazônia

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Foto: Antonio Augusto/STF

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a União apresente uma série de esclarecimentos complementares sobre o plano de proteção da Amazônia e o fortalecimento de órgãos e entidades ambientais federais. A providência faz parte da decisão, tomada na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 760, em que o ministro homologa de forma parcial o cumprimento das determinações fixadas pelo STF no julgamento do caso.

Na ação, o Plenário do STF reconheceu, em abril do ano passado, a existência de falhas estruturais na política de proteção do bioma e estabeleceu obrigações, como a efetivação de um planejamento para prevenir e controlar o desmatamento. Em dezembro, a Advocacia-Geral da União (AGU) apresentou as providências adotadas, e, diante das lacunas, Mendonça homologou o cumprimento de forma parcial.

Esclarecimentos complementares

Entre as obrigações complementares, o ministro determinou que sejam informados critérios mais detalhados de metas e objetivos a serem alcançados mês a mês pelo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm).

Para cumprimento das metas de aprimoramento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e de melhora na articulação com governos locais na fiscalização ambiental, Mendonça determinou que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) edite uma norma para obrigar estados e municípios a integrar o Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor).

Deverão ser compartilhados com o sistema os dados sobre autorização para remoção de vegetação, com indicação da propriedade rural em questão. Autoridades federais deverão ter acesso às informações estaduais sobre transporte de animais.

A União ainda deverá esclarecer os motivos de ter contingenciado valores de fundos como o destinado à Mudança do Clima (FNMC) e ao Meio Ambiente (FNMA). A informação terá que detalhar como os recursos serão usados para fortalecer órgãos como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Com relação à Funai, Mendonça deu 30 dias para que o órgão apresente plano de reestruturação das estruturas de proteção de terras indígenas da Amazônia Legal.

*Com informações do STF

Capivaras conquistam frequentadores e ajudam na manutenção de parque no Pará

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Foto: Ayla Ferreira/Fundação Guamá

Durante o período da pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022, o Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, no Pará, apresentou um cenário de circulação humana reduzida, devido ao isolamento social recomendado para conter a propagação do vírus. Esta área, por apresentar abundância de alimentos e presença de corpos d’água, atraiu uma manada de capivaras vindo de áreas vizinhas.

Seu nome, de origem tupi-guarani, significa “comedor de capim”, são os maiores roedores do mundo, vivem em média 15 anos, organizam-se em grupos e dividem seu território em áreas específicas para atividades como descanso, banho e alimentação. No PCT Guamá, que possui 72 hectares ricos em biodiversidade, a presença desses animais encanta residentes e visitantes, além de contribuir para a manutenção do ecossistema local.

Saiba mais: Confira curiosidades sobre as capivaras

Ingrid Teles, pesquisadora e fundadora da startup Ver-o-Fruto, residente no PCT, encontra inspiração ao observar as áreas verdes e as capivaras que passeiam pelo complexo. “O parque é um refúgio de tranquilidade ideal para o meu negócio. Contrasta com a correria urbana. Amo quando encontro as capivaras passeando, especialmente os filhotes, mas sempre respeitando seu espaço”, comenta.

A pesquisadora Maria Cristina Costa, do Laboratório de Ecologia e Zoologia de Vertebrados (LABEV) da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenadora do Programa ConViva, acredita que os animais tenham vindo de locais como o Parque Estadual do Utinga e a Embrapa, utilizando a margem do rio Guamá como um corredor. Inicialmente, o grupo contava com cerca de sete indivíduos, mas a rápida reprodução da espécie e chegada de novos indivíduos, aliada à ausência de predadores naturais, fez com que sua população crescesse, chegando a aproximadamente 80, segundo a última contagem.

Para além da aparência dócil e comportamento tranquilo, que as deixaram famosas nas redes sociais, as capivaras são essenciais para o ecossistema. Como herbívoros, alimentam-se de plantas aquáticas, folhas, frutas e cascas, controlando o crescimento da vegetação. “Sem herbívoros, seria impossível caminhar pelas áreas verdes do PCT e do campus, pois eles renovam a vegetação. Seus dejetos, ricos em nutrientes, fertilizam o solo e auxiliam no reflorestamento, funcionando como um adubo natural”, explica a pesquisadora.

Leia também: Capivara ou Ronsoco? A espécie amazônica que é sensação nas redes sociais também no Peru

Cuidados 

Para garantir uma boa convivência com os animais, é essencial manter uma distância segura, evitando contato próximo que possa resultar em ataques ou na transmissão de doenças. “Se a capivara estiver com filhotes, por exemplo, pode se tornar agressiva para protegê-los. É instintivo. Fotografar e filmar é permitido, mas sempre com cautela e respeito ao espaço delas”, alerta Maria Cristina.

A pesquisadora destaca a possível transmissão de doenças, como a febre maculosa, em decorrência da picada de carrapatos que podem atingir capivaras. “As capivaras que estão no PCT Guamá e campus não apresentaram indícios de conter carrapatos infectados, mas seria necessário a realização de testagem para descartar qualquer doença. Por tanto, deve-se evitar contato com as capivaras e qualquer animal silvestre. Campanhas de educação ambiental são fundamentais para conscientizar a comunidade sobre o tratamento adequado aos animais. É um privilégio coexistir com eles”, conclui a pesquisadora.

Foto: Ayla Ferreira/Fundação Guamá

Referência em inovação na Amazônia

O PCT Guamá é uma iniciativa do Governo do Pará, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior, Profissional e Tecnológica (Sectet), que conta com a parceria da UFPA, Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e gestão da Fundação Guamá.

É o primeiro parque tecnológico a entrar em operação na região Norte do Brasil e visa estimular a pesquisa aplicada e o empreendedorismo inovador e sustentável para melhorar a qualidade de vida da população.

Localizado às margens do rio Guamá, que dá nome ao complexo, o PCT Guamá está situado entre os campi das duas universidades e conta com um ecossistema rico em biodiversidade, estendendo-se por 72 hectares, destinados a edificações e à Área de Proteção Ambiental (APA) da Região Metropolitana de Belém.

O complexo conta com mais de 30 empresas residentes (instaladas fisicamente no parque), mais de 40 associados (vinculados ao parque, mas não fisicamente instalados), 12 laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de processos e produtos, com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Escola de Ensino Técnico do Estado do Pará (Eetepa) Dr. Celso Malcher, além de atuar como referência para o Centro de Inovação Aces Tapajós (Ciat), em Santarém, oeste do Estado.

O PCT Guamá integra a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e International Association of Science Parks and Areas of Innovation (Iasp), e faz parte do maior ecossistema de inovação do mundo.

*Com informações da Agência Pará

Turismo e crise climática: os caminhos sustentáveis para a Amazônia

Foto: Ricardo Stuckert/PR

É início de dezembro em Manaus, e o calor é escaldante. O Amazonas enfrenta a pior seca da história, com níveis de água baixíssimos, como nunca se viu antes. No percurso de lancha até o encontro dos rios Negro e Solimões, o guia indica no horizonte partes de terra do continente e das ilhas que já deveriam estar cobertas por água.

Toda a região sente os efeitos sociais e econômicos da estiagem. Um dos setores mais afetados é o turismo, fonte de renda para boa parte da população. O calor e a seca afastam os visitantes, porque muitas atividades estão prejudicadas.

“Os ribeirinhos sofrem, principalmente aqueles que recebem gente de fora de Manaus. O pessoal que oferece a pesca do pirarucu, aqueles que trabalham com restaurante. Diminuem, por exemplo, as atividades de focagem de jacaré, que a gente costuma fazer durante a noite. E na seca fica muito difícil de ver jacaré. E também atrapalha muito a vida da gente que trabalha transportando os turistas pelo rio, porque nem todos os lugares estão navegáveis”, explica o guia turístico e capitão de lancha Rodrigo Amorim.

O cansaço é visível no rosto de Daniel Hanrori, indígena do povo Tukano, que lidera uma aldeia com 38 pessoas de diferentes etnias na região do Lago Janauari. No período de seca, parte do grupo se desloca para um acampamento perto do rio, que fica a duas horas de distância da aldeia. São entre quatro e cinco meses vivendo de um jeito improvisado, para conseguir receber os poucos turistas que ainda aparecem e alguma renda para sustentar as famílias.

“Aqui, quando tem temporal e ventania, é muito perigoso. É muito violento o vento aqui, então a gente corre muito risco. Mas a gente precisa da renda e não pode parar”, diz Daniel Hanrori.

Ele conversa com a reportagem sentado em uma pedra, mais ofegante e com muitas gotas de suor escorrendo pelo rosto. Foram 20 minutos de apresentação para um grupo de 15 turistas, com explicações sobre a cultura e danças tradicionais. Além do calor, o cansaço é agravado pela preocupação para manter a aldeia em condições básicas de moradia e alimentação.

“O número de visitantes está muito baixo, infelizmente. Quando o rio está cheio, a gente recebe aqui de 50 a 60 lanchas por dia. De 8h da manhã até 6h da tarde. Durante esse período da seca, a gente recebe só duas lanchas. E a gente depende muito do turismo e das vendas de artesanato”, complementa Daniel Hanrori. “Afeta também muito a pesca, que fica mais difícil, mais escassa. Em alguns lugares, morreu muito peixe. E tudo isso faz falta. A gente aqui vive 50% do turismo e 50% da pesca.”

O guia turístico Rodrigo Amorim diz que os ribeirinhos sentem os efeitos da estiagem. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Turismo e crise climática

O turismo na Amazônia gira em torno dos rios. A perda de volume, principal meio de transporte, impacta diretamente as principais atividades. Os extremos climáticos de 2024 mudaram até o mais icônico passeio ao redor de Manaus, o encontro das águas. A visualização da mistura da água barrenta do Solimões com a água escura do Negro ficou prejudicada.

Em setembro, a Praia de Ponta Negra, principal balneário de Manaus, foi interditada para banhistas, depois que o Rio Negro ficou baixo da cota mínima de segurança de 16 metros. O Museu do Seringal, que fica no Igarapé São João, foi fechado temporariamente, porque o acesso é exclusivamente pelo rio.

Em Alter do Chão, no Pará, cuja alta temporada costuma começar em agosto, o nível baixo do Rio Tapajós prejudicou o deslocamento das embarcações que transportam turistas para ilhas, restaurantes e estabelecimentos comerciais. O Sairé, um festival cultural realizado em setembro, teve de ser suspenso por falta de demanda.

A professora Isabel Grimm, doutora em meio ambiente e desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), destaca que, quando se fala de crise climática e turismo, no entanto, há de se pensar também sobre a responsabilidade que o próprio setor possui nos impactos ao meio ambiente.

“O turismo impacta com as emissões de gases do efeito estufa, principalmente por causa dos transportes. E o transporte aéreo é um dos que mais têm emitido gases. Mas há também o uso excessivo de água e de energia elétrica nos locais turísticos, que produzem impactos muito relevantes. Precisamos pensar em alternativas para o que chamamos de turismo de massas, com menores impactos aos ecossistemas”, diz Isabel.

A especialista reforça que toda a cadeia turística deve se envolver na mitigação dos custos ambientais: os povos locais, as empresas, os governos e os próprios turistas. Um dos pontos fundamentais, nesse sentido, é repensar a própria concentração de pessoas em destinos mais badalados e midiáticos, e valorizar outras experiências possíveis dentro do país. Para continuar existindo nesses novos tempos, vai ser fundamental fazer adaptações e buscar caminhos sustentáveis.

“O Brasil é muito extenso em termos de território e de heterogeneidade de paisagens. Tem muita diversidade cultural e natural. Nossa biodiversidade é muito rica. O nosso turista está buscando novas experiências, valorizar o tempo das férias dele e o investimento que faz. O destino turístico que ele vai visitar está muito ligado aos processos de divulgação. É preciso repensar nos incentivos e fomentos para novos atrativos. Nesse sentido, políticas públicas são importantes. Precisamos dar condições para que as comunidades locais participem das atividades turísticas, se assim elas desejarem. Tudo isso dentro de uma lógica que respeite a capacidade local para receber visitantes, para gerar o menor impacto ambiental possível”, diz Isabel Grimm.

Turismo de base comunitária

A 600 quilômetros (km) a oeste de Manaus, na região do curso médio do Rio Solimões, um programa de turismo de base comunitária tem contribuído para o desenvolvimento local desde 1998. Ele é promovido pelo Instituto Mamirauá, que leva o nome da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, e tem sede na cidade de Tefé. O principal resultado desse trabalho é a Pousada Uacari, que recebe visitantes para uma experiência imersiva na Amazônia.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é turismo de base comunitária?

Entre as metas principais do programa estão contribuir para a conservação dos recursos naturais, promover empoderamento local e o desenvolvimento econômico e social das comunidades envolvidas. Mestre em gestão de áreas protegidas na Amazônia, Pedro Nassar coordena o programa no Instituto Mamirauá e contabiliza pelo menos 11 comunidades beneficiadas diretamente ao longo destes 27 anos.

“O turismo comunitário precisa ser diferente do turismo de massa. Não visa à exploração de atrações com grande quantidade de pessoas, em que elas chegam e saem do lugar como se nada tivesse acontecido. No turismo de base comunitária, os locais têm uma participação efetiva na gestão no planejamento e nas discussões. Não são trabalhadores que vão lá, cumprem a função, ganham dinheiro e vão embora para casa. Os benefícios do turismo precisam ser compartilhados com a comunidade, e precisam ser econômicos, sociais, culturais e ambientais”, explica Pedro Nassar.

O programa do Instituto Mamirauá inclui atividades de pesquisa e monitoramento de tecnologias de saneamento, impactos ambientais, estudos de viabilidade e planejamento turístico, monitoramento ambiental e socioeconômico. E tem como eixo central trabalhar a autonomia das comunidades na gestão do turismo, com geração de emprego e renda, e conservação dos recursos naturais.

Os moradores envolvidos no programa são afiliados a uma associação local e trabalham em sistema de rodízio, aproximadamente 12 dias por mês. Cada hóspede da Pousada Uacari contribui com a Taxa de Apoio Socioambiental, destinada ao financiamento de projetos e recursos comunitários, como compra de barcos, construção de centros comunitários e rádio de comunicação.

Outra preocupação do instituto é formar multiplicadores, que possam participar de atividades a fim de disseminar conhecimentos para o desenvolvimento do turismo comunitário em outras regiões do país.

“A ideia é passar nossa experiência no turismo para essas pessoas, além de trocar ideias e conhecer outras iniciativas. Mas é tudo muito prático, tiramos dúvidas, ajudamos os que estão começando a fazer turismo. Queremos que possam adquirir algum conhecimento e consigam aplicar dentro da realidade deles. Porque, obviamente, não é uma receita de bolo, cada lugar tem a própria peculiaridade”, diz Pedro Nassar.

Pousada Uacari proporciona aos visitantes uma experiência imersiva na Amazônia. Foto: Gui Gomes/Divulgação

Experiências comunitárias

Uma das pessoas impactadas pelo projeto foi Ilana Ribeiro Cardoso, artesã e empreendedora que vive no quilombo de Mumbuca, no município de Mateiros, região do Jalapão, no Tocantins. Em 2018, ela esteve no Instituto Mamirauá e conheceu de perto as iniciativas de turismo comunitário. A partir dali, a Amazônia virou uma fonte de inspiração e aprendizado.

Desde então, faz intercâmbios em regiões que trabalham com turismo comunitário e aplicando os novos conhecimentos no Jalapão. Ela ajuda a organizar restaurantes, pousadas e roteiros para que turistas conheçam de forma mais autêntica a comunidade e a história do quilombo. Entra as experiências, trilhas feitas por antepassados, mostra de plantas medicinais e oficinas de artesanato com capim-dourado.

Enquanto vê as atividades crescerem, Ilana se preocupa com os possíveis impactos de um turismo que não seja sustentável para a região.

“Hoje, não vemos muitos impactos ambientais. Mas, e no futuro? Como ficam meu filho e a comunidade? No Jalapão, tem muitas nascentes, fervedouros, cachoeiras, rios. Somos ricos em água potável. E há pessoas vindo para cá e pensando só na questão do agronegócio, em plantar soja, usar e poluir as nascentes de água”, diz Ilana.

“Daqui a pouco, podem montar um hotel de luxo, e a nossa pousadinha, que é simples, baseada na bioconstrução com adobe, vai ser prejudicada. Eu tenho medo de que o Jalapão possa ser invadido por esse turismo avassalador, que desperte o interesse de pessoas ricas, que não vão cuidar do nosso local e vão destruir a nossa natureza”, completa a artesã e empreendedora.

Ilana defende o turismo comunitário como o único possível para impedir grandes impactos ambientais e aumentar os efeitos da crise climática.

“Quando o turismo é sustentável, envolve cuidado. E quem cuida é a comunidade. Então, o turismo precisa vir de baixo, não de cima. Nós sabemos como cuidar, sabemos a quantidade de pessoas que podem entrar nos fervedouros, no campo de capim, numa vereda, numa nascente. A gente não pensa só na questão do lucro. No turismo sustentável, o guia é local, deixa dinheiro na comunidade e contribui para a preservação da natureza”, diz a empreendedora quilombola.

*Com informações da Agência Brasil

Amazonas inaugura primeira sala de cinema dentro de aldeia indígena

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Foto: Tácio Melo

O Amazonas vai ganhar sua primeira sala de cinema dentro de uma aldeia indígena. A sala do projeto ‘Cine Aldeia’, da Prefeitura de Manaus, será inaugurada em 1° de fevereiro, na aldeia indígena Inhaã-bé, localizada no Tarumã-Açu, em Manaus.

Durante o lançamento, oito curtas-metragens serão exibidos, permanecendo em cartaz nos primeiros meses do ano. Além dos curtas, o ‘Cine Aldeia’ também terá em sua programação o lançamento do documentário ‘Traços da Resistência’, dirigido e produzido pela produtora indígena e idealizadora do projeto, Thaís Kokama.

O ‘Cine Aldeia’ é uma das primeiras salas de cinema de aldeias indígenas no país e a primeira na Região Norte. Para Thaís, avanços como esse estão diretamente relacionados às novas oportunidades que surgiram nos últimos anos, por meio de editais para a cultura.

Foto: Reprodução/ @thaiskokama

“Atualmente, a aldeia Inhaã-bé, mesmo após o isolamento causado pela Covid-19 e recentemente afetada pela seca no lago Tarumã-Açu, ganhou força com diversas ações culturais e, agora, com a nova sala de cinema, vemos mais uma fase positiva para nós, indígenas, ao sermos inseridos neste segmento cultural”, disse a produtora.

As pessoas interessadas em comparecer ao lançamento deverão pegar o transporte gratuito, às 16h, no porto da Prainha, localizado no Tarumã-Açu. O retorno de volta ao porto está marcado para às 18h.

O projeto foi um dos selecionados pelo Concurso Prêmio Manaus Identidade Cultural – Audiovisual (Edital 004/2023), por meio da Lei Paulo Gustavo (LPG), da Prefeitura de Manaus, por intermédio do Conselho Municipal de Cultura (Concultura), com o apoio do Ministério da Cultura e do governo federal.

Pesquisadores do Maranhão desenvolvem lançador de micro e nano satélites

Foto: Reprodução/NASA

Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão, junto com um consórcio de empresas do setor aeroespacial, estão desenvolvendo um novo lançador de micro e nano satélites na órbita terrestre. A ideia é tornar o Estado, por meio do Centro de Lançamento de Alcântara, em um novo polo do programa espacial brasileiro.

Saiba mais: Centro de lançamentos espaciais do Maranhão é um dos mais bem localizados do mundo

Duas empresas ficam responsáveis pelo desenvolvimento dos motores dos foguetes. Também serão destinados R$ 30 milhões para construção, em São Luís, de uma fábrica de propelentes, que é uma espécie de combustível para os foguetes.

Os detalhes foram dados pela ministra da Ciência, Luciana Santos, no dia 23 de janeiro, em São Luís. Ela esteve no Laboratório de Propulsão Aeroespacial, acompanhou o lançamento de um veículo lançador de satélites de pequeno porte e anunciou uma infovia, de 5.500 km de fibra óptica para Alcântara e mais 25 cidades da região.

O Centro de Lançamento de Alcântara tem uma posição privilegiada: fica a apenas 20 quilômetros de São Luís, cruzando a baía de São Marcos e somente a dois graus de latitude abaixo da linha do Equador, o que pode reduzir o  custo de lançamento de foguetes em até 30%, por causa da economia de combustível.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o equinócio?

Segundo a ministra, até 2026, o país não vai mais precisar usar bases fora do país para lançar satélites. Outros dois projetos de veículos lançadores estão em andamento. Um deles, para transportar um veículo hipersônico que vai alcançar até 30 quilômetros de altitude. De acordo com os contratos, de mais de R$ 486 milhões, os três projetos serão lançados até o final do ano que vem.

UFMA testa propelente para foguete 

Foto: Ingrid Trindade

O Maranhão tem se consolidado como um importante polo da engenharia espacial no Brasil e, consequentemente, para o Programa Espacial Brasileiro, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Nesse contexto, a UFMA têm se destacado no desenvolvimento de tecnologias com o objetivo de atender às demandas estratégicas do país.

O propelente do Veículo Lançador desenvolvido pela Acrux Aerospace Technologies, que foi testado, integra o projeto de construção do foguete que lançará um satélite no espaço, e estima-se que 90% da massa do veículo serão desenvolvidos em território maranhense. O feito, inédito no Brasil, possibilitará que o país passe a compor um conjunto de pouco mais de dez países que possuem domínio sobre essa tecnologia.

*Com informações da Agência Brasil e Universidade Federal do Maranhão

Argila, histórias e memórias: projeto valoriza tradição das louceiras de Bragança e do Marajó

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Foto: Reprodução/Acervo da pesquisa

Você já ouviu falar que comida feita em panela de barro é mais saborosa? Existe uma explicação para isso: a panela de barro preserva a essência dos sabores, pois seu tempo de preparo é mais lento, além disso, ela conserva o valor nutricional dos alimentos. No en­tanto engana-se quem imagina que esses utensílios foram totalmente substituídos pelos recipientes mais modernos, utilizados na cozinha atual. Muitos saberes acerca da pro­dução de cerâmica ainda são transmitidos, de geração em geração, por famílias que optaram por guardar a herança cultural deixada pelos povos originários e pelas comunida­des quilombolas.

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Empenhados na análise desse cenário, os professores Erasmo Borges, Tiago Samuel Bassani, Elaine Andrade e Jailton Gomes, da Faculdade de Artes Visuais (FAV), vinculada ao Instituto de Ciências da Arte (ICA/UFPA), decidiram estudar, por meio de um projeto de pesquisa e extensão, os registros da tradição da cerâmica preservados ao longo do tempo.

Com base nessa proposta, contemplada com o Prêmio Proex de Arte e Cultura/2022, os pesquisadores buscaram desenvolver práticas extensionistas, laboratoriais e de campo; capacitar pessoas interessadas na continuação do processo de produção da cerâmica nas comunidades; integrar as atividades do Laboratório de Cerâmica ao curso de Artes e estabelecer interseções entre diferentes linguagens e expressões artísticas da contemporaneidade.

Para isso, os pesquisadores foram ao encontro de louceiras na Vila Quiera, em Bragança, e no Quilombo de Santana do Arari, localizado na Ilha do Marajó, no Pará. Nas duas comunidades, o grupo pôde observar mulheres dessas localidades que dominam o processo de confecção das panelas de barro.

“Embora a prática da cerâmica seja muito difundida na nossa região e uma das referências mais antigas em termos de Brasil, ainda há muito o que estudar e descobrir”, destaca o professor Erasmo Borges, da Faculdade de Artes Visuais.

Técnica facilita manuseio de materiais durante a criação

O professor Erasmo Borges iniciou as pesquisas relacionadas à cerâmica na década de 1980, quando conheceu a técnica para a produção de um tijolo maciço, muito utilizado na construção de casas populares naquela época. Após essa experiência, Borges realizou trabalhos com xilogravura e, atualmente, com outros pesquisadores, desenvolveu a técnica denominada de argilogravura, método que possui formas de modelagem semelhantes, mas, diferentemente da xilogravura, permite a reutilização da argila, além de facilitar o manuseio dos materiais da criação.

Para aprofundar a pesquisa, o grupo visitou os locais de produção das louceiras. Com o tempo, foi possível partilhar aprendizados e ouvir diversas histórias, como a da dona Nazaré Furtado, da Vila Quiera, a qual guarda os saberes da tradição dos povos caetés, repassados, de geração em geração, pela família dela, e a história da dona Maria da Glória, ceramista mais antiga do Quilombo de Santana do Arari, a qual não realiza essas atividades em virtude da sua deficiência visual, mas também compartilhou as experiências dela com os pesquisadores.

Laboratório de Cerâmica recebe alunos da rede pública

Durante o processo de pesquisa e experimentação da argilogravura, alguns alunos tiveram a ideia de trazer estudantes da Escola Estadual de Ensino Fundamental José Bonifácio e da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Jarbas Passarinho para acompanhar as experiências no Laboratório de Cerâmica, na Faculdade de Artes Visuais da UFPA. A iniciativa promoveu ações que possibilitaram ao grupo trocar experiências, conhecer o campus da Universidade, compreender o papel das Artes Visuais na sociedade e ampliar as perspectivas em relação à confiança no seu potencial criativo.

Com o conhecimento inspirado na argilogravura, professores e alunos do Laboratório de Cerâmica produziram um painel artístico de 1,30m por 2,60m, que hoje se encontra no hall de entrada dos laboratórios do Atelier de Artes Visuais da UFPA. Na obra, estão presentes 36 placas cerâmicas que foram gravadas e utilizadas no antes e pós-cozimento das peças.

Sobre a pesquisa

O Projeto de pesquisa e extensão Saberes da Tradição em Cerâmica: registros e fazeres no Quilombo de Santana do Arari e Vila Quiera foi desenvolvido pelos docentes Erasmo Borges de Souza Filho, Elaine Andrade Arruda e Jailton Gomes da Silva, todos da Faculdade de Artes Visuais (FAV), vinculada ao Instituto de Ciências da Arte (ICA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), e pelo professor Tiago Samuel Bassani, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa ainda contou com a participação de 20 discentes do curso de Artes Visuais, com atividades realizadas de setembro/2022 a junho/2024.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por Victoria Rodrigues

Desmatamento aumenta presença de morcegos em áreas urbanas de Rondônia

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Foto: Reprodução/PG-ECO-INPA

O avanço do desmatamento na Amazônia, aliado às mudanças climáticas, está provocando mudanças profundas no comportamento de morcegos, forçando sua migração para áreas urbanas. Um estudo coordenado pelo ICB5/USP em Monte Negro (RO) identificou que entre 70% e 80% dos morcegos capturados estavam em zonas urbanas ou periurbanas, evidenciando como a destruição de habitats naturais tem aproximado esses animais das cidades.

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“Os morcegos são atraídos pela oferta de abrigo, como sótãos de igrejas e galpões abandonados, e pela maior disponibilidade de alimento, já que a iluminação pública atrai insetos”, explica o professor Luís Marcelo Aranha Camargo, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB5/USP), que coordena o estudo realizado pelos pesquisadores Leormando Fortunato Dornelas Júnior, Jaqueline de Oliveira, Dra. Helena Lage Ferreira, Dra. Clarice Arns e Dr. Edison Luiz Durigon.

A pesquisa também conta com a participação dos alunos de Iniciação Científica Bruno Jorge Ferreira Câmara, Igor Rodrigo Ferreira Siqueira, Hayslla Mikaella do Couto Araújo e Tainara Costa dos Santos.

Camargo também destaca o fenômeno conhecido como spillover, ou transbordamento, que ocorre quando as alterações ambientais levam à migração de espécies silvestres para ambientes urbanos, aumentando a proximidade com os seres humanos e, consequentemente, o risco de transmissão de doenças.

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Foto: Reprodução/Agevisa

Financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisa revelou um potencial risco à saúde pública. Os ectoparasitos encontrados nos morcegos – como carrapatos e moscas – testaram positivo para bactérias dos gêneros Rickettsia e Bartonella. A primeira está associada à febre maculosa, enquanto a segunda pode causar doenças como febre das trincheiras e anemia febril aguda. Embora não tenha sido comprovada transmissão para humanos, o estudo reforça a necessidade de monitoramento constante.

Metodologia rigorosa 

Durante 25 meses, os pesquisadores capturaram morcegos em áreas de floresta, zonas urbanas e periurbanas. As capturas ocorreram três vezes ao mês, entre 17h e 23h, utilizando redes de neblina quase invisíveis à ecolocalização dos animais e busca ativa com o uso de puçá. Após serem submetidos a procedimentos não invasivos, os morcegos eram devolvidos ao local de captura.

Os ectoparasitos retirados com pentes finos e pinças foram analisados por técnicas de biologia molecular, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz de Manaus (FIOCRUZ/ILMD), Faculdade de Medicina Veterinária e Zoonoses da USP (FMVZ/USP), Instituto Butantan (IB) e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).  Além dos parasitos externos (ectoparasitos), amostras de sangue dos morcegos estão sendo analisadas para identificar outros patógenos, como os protozoários do gênero Leishmania.

Os pesquisadores pretendem expandir o estudo para regiões na fronteira entre Rondônia e Mato Grosso, onde há uma zona de transição entre Floresta Amazônica e Cerrado. “Esses ecossistemas raros podem abrigar espécies de morcegos e parasitas ainda desconhecidos”, observa o pesquisador.

Camargo destaca que, embora muitas vezes temidos, os morcegos desempenham papéis fundamentais no equilíbrio ecológico, como o controle de pragas, disseminação de sementes e a polinização. Apenas 5% das espécies são hematófagas, e a maioria se alimenta de frutos, néctar ou insetos.

Em paralelo, o núcleo de pesquisa em Rondônia, em parceria com a FIOCRUZ/ILMD e com fomento do CNPq (INCT/EpiAmo/CNPQ), estuda eventual ocorrência de leishmaniose visceral canina em Monte Negro. A equipe coordenada por Camargo conta com a participação de seu doutorando Leormando Fortunato Dornelas Júnior (FIOCRUZ/ILMD) e a aluna de mestrado Amanda Carolina Aguiar (FMVZ/USP), além dos alunos de iniciação científica Gabriel de Sá Pitangui Antônio de Andrade (UNISL/P.Velho), Janaina Rodrigues Raiser e Monizi Angélica Alves Steger (Veterinária IFRO/Ji-Paraná).

Embora ainda não haja casos registrados da doença em humanos na região, testes feitos pelos pesquisados com 450 cães na região mostraram que 15% a 20% dos animais testaram positivos para a presença de anticorpos contra Leishmania chagasi. Esse trabalho foi feito com testes rápidos, em parceria com o Ministério da Saúde. “Os cães atuam como hospedeiros e podem transmitir o protozoário aos humanos por meio do flebotomíneos, conhecido como mosquito-palha”, detalha o professor.

Foram capturados, até o momento 102 espécimes de flebotomíneos que estão sendo submetidos a testes de biologia molecular para ver se estão infectados. Além disso, o sangue dos cães que testaram positivo ao teste rápido está sendo testados por técnicas de biologia molecular para verificar se de fato estão infectados.

Novas fronteiras

Os pesquisadores também estão investigando a presença de variantes do SARS-CoV-2 nos morcegos, visando antecipar possíveis surtos.

“Acredita-se que na Ásia a transmissão aconteceu a partir de morcegos ‘raposa-voadora’, porém, no Brasil, não temos essa espécie, mas sim morcegos menores, por isso queríamos entender se esses animais também podem ser infectados por variantes do SARS-CoV-2”, afirma Camargo.

Realizado em conjunto com o Ministério da Saúde, ICB5/USP e o Instituto Butantan, esse braço da pesquisa objetiva prever um possível surto envolvendo variantes do SARS-CoV-2.  Atualmente, as amostras estão sendo estudadas na USP/SP.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo ICB-USP, escrito por Ana Carolina Guerra

BNDES e BID firmam convênio para investir em restauração de florestas estaduais na Amazônia

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Foto: David Rego Jr.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) assinaram no dia 24 de janeiro a Carta Convênio para estruturar projetos de parcerias entre estados e iniciativa privada que fortaleçam a bioeconomia da Amazônia, priorizando o manejo sustentável e a restauração de florestas públicas estaduais. 

A assinatura, que aconteceu na sede do BNDES em Brasília (DF), contou com as presenças do diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, e a chefe da Representação do BID no Brasil, Annette Killmer, e resultará num aporte de US$ 1 milhão do BID para a iniciativa.

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As instituições já atuam de forma conjunta para viabilizar a implementação de projetos ambientais na região. Até o momento, o BID disponibilizou US$ 3 milhões para financiar iniciativas de sustentabilidade, enquanto o BNDES destinou R$ 30 milhões com o intuito de mitigar riscos financeiros aos estados da federação.

“A parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) é estratégica para fortalecer a bioeconomia na Amazônia, priorizando o manejo sustentável e a recuperação de florestas públicas estaduais. Estamos direcionando recursos financeiros significativos, com o BID oferecendo US$ 3 milhões (aprox. R$ 18 milhões) e o BNDES destinando R$ 30 milhões para mitigar riscos financeiros aos estados”, observou o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa.

Foto: Francisco Messias – Divulgação BNDES

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“Hoje, entendemos muito melhor o importante vínculo entre a vida das pessoas, a economia do Brasil e a proteção de áreas de floresta. É um grande orgulho estar aqui e dar mais um passo para, de forma muito concreta, fomentar o reflorestamento de áreas federais e subnacionais”, afirmou a chefe da Representação do BID no Brasil, Annette Killmer.

Além do suporte financeiro, as equipes técnicas dos dois bancos de fomento também oferecerão expertise, fruto de experiências acumuladas em diversos projetos em diferentes setores e níveis de governo, garantindo a qualidade e a eficiência na execução das ações. Essa parceria se integra a outros investimentos já destinados a projetos federais, sob a coordenação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), ampliando o alcance e o impacto das políticas públicas voltadas à preservação e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.

*Com informações da Agência BNDES de Notícias