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De origem ribeirinha, Gracialda Costa Ferreira investiga a identidade das árvores

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Ferreira na UFRA, onde começou a carreira acadêmica e atualmente leciona. Foto: Abner Reis/UFRA

Aos 22 anos escutei pela primeira vez alguém chamar as árvores pelo nome científico: Myrcia sylvatica, cujo apelido é “murta”, e Banara guianensis, conhecida como “andorinha”. Era 1992 e eu estava em Igarapé-Açu, cidade a cerca de 120 quilômetros de Belém, no Pará. Foi meu primeiro dia de trabalho de campo coletando amostras de plantas como parte do Programa Shift [Studies of Human Impact on Forests and Floodplains in the Tropics], fruto de uma parceria da Embrapa Amazônia Oriental com as universidades de Bonn e de Göttingen, ambas da Alemanha. Aquilo gerou em mim um encantamento e, desde então, tenho estudado e trabalhado para conhecer a identidade das árvores.

Sou ribeirinha, nasci em Abaetetuba, cidade que é a segunda produtora de açaí do Pará. Venho de uma família muito humilde, minha mãe é dona de casa e meu pai, pescador. Durante toda a minha infância tomei banho no igarapé antes de ir para a escola pela manhã. 

Na volta, ia para o mato, que é como as pessoas das comunidades ribeirinhas chamam a floresta, e escalava o tronco das palmeiras para colher açaí. Foi o interesse pelas espécies vegetais que me motivou a estudar engenharia florestal na Faculdade de Ciências Agrárias do Pará [FCAP], hoje Universidade Federal Rural da Amazônia [Ufra].

Não foi um percurso fácil. Para começar, tive que convencer minha mãe a me deixar fazer o ensino médio. Para ela, bastava saber ler e escrever. Foi o curso técnico em contabilidade que me permitiu assumir uma vaga de trabalho temporário em um escritório em Belém, em 1991. No ano seguinte, fui para a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] fazer o trabalho de coleta botânica que também era para ser temporário, mas no qual acabei ficando até 2004, sempre em projetos relacionados à identificação de vegetais.

Trabalhei ao longo de toda a graduação. Saía do laboratório e ia direto para as aulas, boa parte das vezes sem almoçar, uma rotina que acabou afetando a minha saúde. No terceiro semestre do curso, consegui uma bolsa Pibic [Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica], financiada pelo CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Com meu primeiro pagamento contratei um plano de saúde para tratar uma úlcera, resultado da má alimentação.

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Para Ferreira, identificar as árvores evita que espécies raras sejam exploradas na mesma intensidade que espécies comuns. Foto: Abner Reis/UFRA

Em 2000, concluí a graduação e no mesmo ano fui aceita no Programa de Mestrado em Ciências Florestais da então FCAP. No estudo, analisei o angelim, árvore da família Leguminosae, cuja madeira é uma das mais comercializadas no Pará. Concluído dois anos mais tarde, esse trabalho foi publicado pela Embrapa, em 2004, como Manual de identificação botânica e anatômica – angelim. 

O termo “angelim” engloba um grupo de espécies de árvores com propriedades diferentes, mas que, frequentemente, são vendidas sob o mesmo nome. Isso traz várias consequências, desde o comprometimento da qualidade do produto feito com a madeira até riscos para a conservação de espécies raras, que, por erros de identificação, são exploradas na mesma intensidade que espécies comuns.

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Ao sair da Embrapa, dirigi o Bosque Municipal Rodrigues Alves, em Belém, entre 2005 e 2006. Ali, inventariamos 510 árvores, das quais cerca de 400 são espécies raras. A probabilidade de extinção dessas espécies pelo manejo incorreto e pelo desmatamento é muito grande. Estamos perdendo espécies para sempre. Há árvores ainda não descritas sendo derrubadas e associadas à espécie errada para ter o uso licenciado.

A COP30 [Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima], que ocorrerá em Belém, no próximo ano, tem chamado a atenção para a cidade. O evento pode atrair instituições de pesquisa, fortalecer as que já estão aqui e firmar novas parcerias baseadas na escuta das pessoas da floresta. Entretanto, me preocupam a chegada de projetos e as políticas públicas para incentivar negócios baseados na exploração dos recursos da floresta. 

Não sou contrária a essas iniciativas, mas para que elas sejam sustentáveis, de fato, é preciso conhecer, inventariar, mapear a floresta. Bioeconomia exige muito conhecimento. A identificação botânica é essencial para o bom manejo da floresta, ela agrega valor. E é isso que garante a conservação, a produtividade e, consequentemente, o retorno econômico e social. Essa é uma das minhas motivações para trabalhar com as comunidades.

Desde 2006, quando já era professora do Centro de Ciências Agrárias da UFRA, trabalho com a Associação Arte Miriti de Abaetetuba. Por meio de uma parceria com a Embrapa Amazônia Oriental, temos discutido a conservação das áreas de várzea que garantem a matéria-­prima para a produção dos brinquedos de miriti, uma palmeira bastante comum. 

Eles são uma importante fonte de renda na cidade, sendo comercializados especialmente durante a festa do Círio de Nazaré, que acontece em outubro, em Belém. Há cerca de 20 anos, a população local começou a cortar os miritizeiros macho para plantar palmeiras de açaí. Isso comprometeu toda a produção de miriti e, até hoje, os artesãos precisam adquirir a matéria-prima em outras localidades para fazer os brinquedos.

Como pesquisadora e ribeirinha, sei que precisamos facilitar o acesso de tecnologias para as pessoas que vivem na floresta e, sobretudo, estabelecer arenas de socialização de conhecimento. No doutorado, que defendi em 2009, no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, desenvolvi uma ferramenta de modelagem ambiental de espécies que pudesse ser acessível às comunidades e cooperativas. 

Ao combinar os inventários florestais de empresas, que incluem identificação e coordenadas geográficas das espécies, com dados de características ambientais como o tipo de solo e o clima, o modelo calcula a probabilidade de ocorrência de espécies em áreas ainda não inventariadas. Agora, esse modelo está servindo de base para o desenvolvimento de um aplicativo.

Não paro quieta. Desde 2018, participo de outro projeto entre a Embrapa e a UFRA para ajudar a prefeitura de Portel, na ilha de Marajó, a estruturar o Centro de Referência em Manejo de Açaizais Nativos do Marajó, o Manejaí. A ideia é ampliar, com responsabilidade, a produção de açaí de 1 tonelada [t] para 6 t por hectare. Isso teria um impacto significativo na renda das famílias locais.

No Marajó também realizamos pesquisas acadêmicas, especialmente sobre como certos fatores, a exemplo do solo, dos insetos e da disponibilidade de água, determinam mudanças nas copas das árvores ao longo do ano. Para esses estudos, treinei um grupo de jovens da comunidade para ajudar na coleta botânica. Eles são chamados de “pesquisadores da floresta”. 

Além disso, estamos implementando as primeiras áreas de coleta de sementes e de restauração de floresta em territórios comunitários do Marajó. Hoje não basta combater o desmatamento, é urgente recuperar as florestas que foram degradadas. Essa é uma das contribuições que quero deixar para a minha região.

A reportagem acima foi publicada com o título “Desvendando a identidade das árvores” na edição impressa n° 346, de dezembro de 2024, da Revista Pesquisa FAPESP.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa FAPESP, com depoimento concedido a Patricia Mariuzzo

Empresa desenvolve chocolate amazônico com impacto socioambiental no Amazonas

Foto: Divulgação/Acervo Na’kau Chocolate Amazônico

Fortalecer a bioeconomia local ao criar oportunidades de emprego e promover a qualidade de vida dos povos amazônicos, respeitando os diferentes aspectos da identidade cultural destes, bem como a preservação dos conhecimentos tradicionais e da própria floresta, é o que propõe a startup Na Floresta – Alimentos Amazônicos.

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Com o projeto “Na’kau – Em busca da sustentabilidade através de relações éticas, conservação da floresta e a valorização de produtos e pessoas amazônicas”, o empreendimento tem como propósito colocar em prática ações de impacto socioambiental que sejam positivas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

O projeto é fomentado pelo ‘Programa Inova Amazônia – Módulo Tração’, edital Nº 001/2023, com o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), e em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

A missão da startup é estabelecer uma parceria justa e contínua com famílias ribeirinhas manejadoras do cacau selvagem de várzea, que pode ser encontrado nas calhas dos rios Madeira e Amazonas.

Artur Bicelli Coimbra, coordenador do projeto, é mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ele defende que é importante que a cadeia produtiva do cacau seja melhor estruturada e que o mercado valorize os agricultores familiares que produzem essa matéria-prima, com remuneração financeira justa.

Cultivado por famílias ribeirinhas, o Cacau Selvagem possui qualidade e sabor únicos devido às condições do solo e do clima da região amazônica, que influenciam diretamente no plantio, que é realizado de forma tradicional por meio de Sistemas Agroflorestais (SAFs).

O coordenador destaca também o alto potencial da cacauicultura e explica que os produtos da empresa são frutos de pesquisas e que a forma de produção se dá em harmonia com a natureza. Para que o processo de cultivo não agrida o meio ambiente, é necessário o uso consciente da tecnologia.

“É importantíssimo que a gente obtenha novas tecnologias para tornar a indústria competitiva, pensando em produtos alimentícios inovadores para oferecer ao mundo”, pontuou Artur Bicelli.

Foto: Divulgação/Acervo Na’kau Chocolate Amazônico

Parcerias

Atualmente, diversas famílias têm sido beneficiadas com novas opções de geração de renda nos municípios de Manicoré (distante a 332 km da capital), Novo Aripuanã (a 227 km), Borba (a 151 km), Nova Olinda do Norte (a 135 km), Urucurituba (a 208 km), Autazes (a 113 km), Codajás (a 240 km), Coari (a 363 km), Tefé (a 523 km), Tabatinga (a 1.108 km), Atalaia do Norte (a 1.138 km), Eirunepé (a 1.160 km) e Envira (a 1.208 km).

Segundo o fundador da Na’kau, Artur Bicelli, o quilo das amêndoas de cacau tem sido vendido pelos ribeirinhos à startup por uma quantia 120% acima do preço de mercado. Ações de conscientização são oferecidas aos produtores, como treinamentos específicos, investimento em equipamentos e assessoria técnica.

“Hoje, atuamos com mais de 300 famílias no estado do Amazonas, conservando mais de 200 mil hectares de floresta. A gente vem contribuindo consideravelmente para a organização social dessas famílias em comunidades, e para o entendimento delas sobre os negócios e o papel que possuem na conservação”, comentou.

A longo prazo, a expectativa é de que seja possível desenvolver cada vez mais produtos baseados em estudos que envolvam a socioeconomia, uma oportunidade para os produtos amazônicos que são inovadores e de grande possibilidade de crescimento. A startup já exporta para vários países, e tem uma taxa de crescimento ao ano de 45%.

O pesquisador considera que a análise sensorial do cacau e o contato direto com os cacauicultores de várzea durante o processo de cultivo são fundamentais para a coleta de informações a respeito da matéria-prima e para entender quais os melhores caminhos para a conservação da floresta.

*Com informações da Fapeam

Arte do terreiro em exposição: estudo analisa obras e artistas afro-amazônicos

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Foto: Divulgação/Acervo Centro Cultural da Justiça Eleitoral do TRE-PA

Ele saiu de casa e se dirigiu à Galeria de Artes The­odoro Braga, no centro de Belém (PA). A exposição em cartaz sai dos moldes tradicionais e apresenta ao público algo novo no cenário artístico-cultural da capital do Pará. Na abertura, em meio ao salão, o discurso de uma mulher emocionada, rodeada pelos organizadores do evento, chama atenção ao proferir:

“Eu não sabia que era artista. Quem disse que eu era artista foram vocês!”.

A artista em questão é a candomblecista Mametu Nangetu. A exposição é ‘Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro‘. “Ele”, o personagem citado na primeira linha, é Carlos Arthur Góes Cordeiro. Proveniente de família cristã protestante, historiador e professor da rede básica de ensino, Carlos Cordeiro se deparou com a cena em 2013, enquanto observava a exposição.

A frase da afrorreligiosa Mametu Nangetu foi tão marcante que se tornou o pontapé para sua jornada acadêmica, iniciada com a Graduação em História e estendida até o mestrado, com a dissertação intitulada ‘Eu não sabia que era artista!: exposição Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro, no cenário cultural afro-amazônico paraense’

“A minha pesquisa, na verdade, foi um insight de quando eu ainda cursava a graduação. Porém eu só percebi isso em 2017, ao investigar como os alunos iden­tificavam essas expressões artísticas, de matriz africana, dentro do espaço escolar, com base em uma perspecti­va mais descolonizada e antropológica”, explica Carlos Góes Cordeiro.

Idealizada pelo então professor da UFPA Arthur Lean­dro (in memoriam), a Exposição Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro surgiu como um projeto de extensão do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (Geam). O objetivo era trazer a arte afro-brasileira para fora dos espaços de terreiros, enfatizando que filhos e filhas de santo eram artistas. 

A ex­posição, que contou com oito edições, tinha como tripé: a aplicabilidade da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatória a abordagem da cultura e da história africanas em sala de aula; a exaltação da memória e luta de Mãe Doca (Rosa Viveiros), mulher negra, maranhense, que inaugurou o primeiro terreiro de tambor de mina em Belém, em 1891; e a apresentação para a população das experiências artísticas vivenciadas dentro dos terreiros.

Salões, galerias e outros espaços de sociabilidade

Com a pesquisa, Carlos Góes Cor­deiro quis mostrar a importância de o patrimônio afrorreligioso estar presente nos espaços de sociabilidade. 

“Vejo que é um desafio, principalmente den­tro dos programas de pós-graduação mais tradicionais, as pessoas percebe­rem as dimensões dessas formas de cultura. Quando se fala em patrimônio, percebemos um constructo social en­gessado: um casarão, um monumento ou um objeto, mas não notamos, em muitos casos, a presença material e a imaterial do patrimônio contido em ter­reiros sagrados”, ressalta o historiador.

A pesquisa procurou dar voz aos artistas de terreiro e perceber o que eles entendem como arte, considerando seus fazeres e suas vivências dentro das casas de santo. Inicialmente, foi feito um aporte teórico autores que tecem discussões antropológicas patrimoniais. Em seguida, Cordeiro buscou artistas e suas obras, usando, como critério, a disponibilidade, pois o período era de pandemia de covid-19.

O estudo evidencia a necessidade de ampliar o debate sobre o patrimônio dos povos de terreiro. Essa discussão está intimamente ligada à política histó­rica e cultural do Pará, uma vez que, na capital do estado, apenas o Terreiro de Mina Dois Irmãos, localizado no bairro Guamá, é tombado pelo Departa­mento de Patrimônio Histórico Artístico e Cultural (DPHAC). 

“Em Belém, temos mais de três mil terreiros e apenas um é registrado de forma imaterial. Existe um legado das tradições de matriz afri­cana que é pouco considerado pelo Poder Público e em debates sociocul­turais”, avalia o pesquisador.

“Discutir a religiosidade da nossa região é importante, porque nos deli­mita como indivíduos múltiplos e únicos entre tantas outras localidades do Brasil, mas sem perder de vista os laços que unem a identidade dos povos de terreiros para fortalecimento da cultura e a energia vital (Axé) presente nos cultos afros”, explica Carlos Cordeiro.

Cultos afros ainda enfrentam a intolerância religiosa

Outro ponto destacado na disser­tação é a intolerância religiosa, res­ponsável por propagar um imaginário ruim acerca dos cultos afros.

“Em um dos eventos da exposição, no ano de 2017, houve a circulação de uma per­formance do orixá das matas (Oxóssi), da Av. Presidente Vargas até a Galeria Theodoro Braga. Foi interessante ver a reação dos transeuntes diante de pes­soas trajadas com guias, indumentárias de santo, além da entidade vestida de folhagem amazônica. Foram recorren­tes os atos de se benzer ou se afastar e olhares de desprezo. Outro exemplo aconteceu em 2016, quando um grupo levou uma obrigação para o rio, no distrito de Icoaraci, e foi hostilizado por estar fazendo ‘macumba’”.

A pesquisa demonstra como a ex­posição foi importante para fazer com que filhos e filhas de santo passassem a se reconhecer como artistas.

“A minha intenção era não apenas responder problemas estruturais como a exclusão artística dos terreiros, mas também refletir sobre a arte produzida em Be­lém. Quando Mametu Nangetu se re­conhece como artista, indivíduo ativo na sociedade, produtora de cultura e saberes, mesmo que ela não entenda, está descolonizada da ideia de arte”, analisa, satisfeito, Carlos Arthur.

Falar sobre patrimônio no Brasil ainda envolve disputas de poder. “Ne­nhum de nós nasce com preconceito, eles nos são ensinados. Ao longo do tempo, vamos somando experiên­cias na escola, no trabalho e com os amigos, e então quebramos alguns paradigmas. Foi esse movimento que, em 2013, me fez mudar de concepção acerca dos cultos afros. Desconstruir começa na base do ensino”, finaliza o historiador.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por André Furtado

Mortalidade por acidentes de transporte volta a subir nos últimos 4 anos em municípios da Amazônia Legal

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Foto: Tiago Ferreira/Unsplash

O Brasil registrou pelo quarto ano seguido aumento na mortalidade no trânsito, saindo de 32.879 mortes em 2019 para 34.892 em 2022, um crescimento de 6%. A taxa também cresceu, saindo de 16,4 em 2019 para 17,2 a cada 100 mil habitantes. O aumento foi de 5% em 4 anos. Os dados são do DATASUS – SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane, organização da sociedade civil, independente, isenta e sem fins lucrativos que fomenta iniciativas no âmbito da saúde pública.

Boa Vista é a capital brasileira com maior taxa de mortalidade por acidentes de trânsito, com um índice de 26,7 a cada 100 mil habitantes no ano de 2022. Ela é seguida pela capital do Tocantins, Palmas, que tem a taxa de 25,9, e Cuiabá com 19,6 a cada 100 mil habitantes.

Na outra ponta, as capitais que registraram as menores taxas de mortalidade no trânsito em 2022 foram São Paulo (3,6), Salvador (5,1) e Natal (7,1).

Dados: DATASUS – SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane

Historicamente, no Brasil, as maiores vítimas de acidentes de transportes são os homens. Em 2022 eles representaram 83% dos mortos. No recorte racial, no mesmo ano, a maioria foi de pessoas negras (pretas e pardas), totalizando 20.743 (60%) das 34.892 mortes. Já a faixa etária que mais morre no trânsito é a de 25 a 34 anos, totalizando em 2022 6.991 mortes (20%).

Dados: DATASUS – SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane

OSP

Observatório da Saúde Pública (OSP) é uma plataforma desenvolvida pela Umane que reúne dados, análises e pesquisas sobre saúde no Brasil de forma gratuita e de fácil acesso, com o objetivo de contribuir de facilitar o acesso a dados e contribuir para a tomada de decisões de profissionais de saúde, pesquisadores e gestores públicos, expandindo o acesso a informações de saúde confiáveis. Saiba como navegar no Observatório aqui.

MCTI quer transformar o Maranhão em um novo polo do programa espacial brasileiro

Foto: Luara Baggi/Ascom-MCTI

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), tem investido no fortalecimento do Maranhão como um polo estratégico do Programa Espacial Brasileiro, tendo como base o Centro de Lançamento de Alcântara.

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Como parte desse esforço, a ministra do MCTI, Luciana Santos, cumpriu uma extensa agenda na capital São Luís, nesta quinta-feira (23), onde visitou as instalações do Laboratório de Propulsão Aeroespacial da empresa Acrux Aerospace dentro da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e acompanhou o lançamento de um veículo lançador de satélites de pequeno porte.

“Esta área é parte da Estratégia Nacional de Defesa e do Programa Espacial Brasileiro, que tem na Base de Alcântara, uma posição privilegiada. Isso cria uma nova realidade, até mesmo para a economia do Maranhão”, afirmou a ministra, que estava acompanhada pelo governador do Maranhão, Carlos Brandão, e pelo reitor da UFMA, Fernando Carvalho Silva.

Pesquisadores e parceiros da UFMA estão desenvolvendo o projeto do Veículo Lançador de Pequeno Porte (VLPP), contratado pela Finep, com recursos do FNDCT, em parceria com um consórcio liderado pela empresa AKAER.

Foto: Luara Baggi/Ascom-MCTI

Esse consórcio inclui a empresa Acrux, responsável pelo desenvolvimento dos motores foguetes S-30 (1º e 2º estágio) e S-18 (3º estágio). Para o carregamento desses motores, será construída uma fábrica de propelentes em uma área adquirida pela empresa na ilha de São Luís. A construção representará um grande avanço para o Centro de Lançamento de Alcântara.

“Estamos anunciando R$ 30 milhões para a construção dessa fábrica de propelentes. Essa iniciativa será associada a projetos de veículos lançadores de pequeno porte, uma tecnologia que o Brasil ainda não domina completamente. Até 2026, o Brasil, pela primeira vez, não precisará mais lançar satélites fora do país. Isso é histórico, representa soberania nacional”, destacou a ministra.

Luciana Santos também comemorou o anúncio, que promete trazer desenvolvimento, empregos qualificados e renda para o estado. “Este investimento é fundamental para a indústria nacional e para o Nordeste. Com isso, também enfrentamos a assimetria regional”, acrescentou.

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O governador Carlos Brandão ressaltou que o Maranhão possui uma vantagem estratégica para se tornar uma potência na área espacial.

“Temos a localização privilegiada. Alcântara está a apenas dois graus abaixo da linha do Equador, o que reduz em 30% o custo de lançamento de foguetes, devido à economia de combustível. Essa característica é única no Brasil e se soma à expansão do cabeamento da Infovia, que chegará à Base de Alcântara, melhorando a conectividade da região”, explicou.

O investimento no projeto VLPP no Maranhão é de R$ 30 milhões, provenientes do FNDCT. Além do VLPP liderado pela AKAER, o programa inclui outros dois projetos de veículos lançadores, também contratados pela Finep e em desenvolvimento: um segundo VLPP, coordenado por um consórcio liderado pela empresa CENIC, e o veículo R.A.T.O (Rocket Assisted Take Off), projetado para transportar o veículo hipersônico 14-X até a atmosfera, alcançando altitudes de até 30 quilômetros.

Os dois VLPPs e o R.A.T.O. serão lançados em Alcântara até o final de 2026, conforme os prazos contratuais. No total, são R$ 486,8 milhões investidos nos três projetos.

O reitor da UFMA, Fernando Carvalho Silva, destacou o papel da Universidade nesse processo. “Nós estamos indo além dos muros da Universidade, firmando parcerias e prestando serviços a empresas. Também submetemos uma proposta a um edital de Parque Tecnológico da Finep, buscando atrair mais empresas e fortalecer o desenvolvimento tecnológico no estado”, disse.

Para o Maranhão, esses anúncios consolidam sua vocação como o segundo polo industrial científico-tecnológico do Programa Espacial Brasileiro, alinhado à Estratégia Nacional de Defesa (END) e às políticas do MCTI para descentralizar o desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no Brasil.

Centro de Pesquisas Espaciais

O MCTI está estudando a criação de um Centro de Pesquisas Espaciais no Maranhão, com foco no desenvolvimento de veículos lançadores e satélites. O projeto, que contará com recursos do FNDCT, está alinhado às diretrizes do Ministério para fortalecer as vocações regionais em CT&I.

Leia também: Pesquisadores do Maranhão desenvolvem lançador de micro e nano satélites

Uma comissão formada por representantes da Finep, da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) e da UFMA terá 90 dias para apresentar uma proposta de financiamento. 

O centro será integrado ao futuro Parque Tecnológico do Maranhão, cujo edital está em análise final pela Finep. A iniciativa busca atrair empresas do setor espacial, aproveitando as condições estratégicas do Centro de Lançamento de Alcântara.

*Com informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação


Mapeamento com GPS revela papel das florestas na conservação de onças-pintadas

A fêmea Noca, uma das primeiras a ser monitorada no Pantanal, com o colar instalado cerca de um ano antes. Foto: Ricardo Boulhosa/Instituto Pró-Carnívoros

Um estudo que monitorou 54 onças-pintadas (Panthera onca) por florestas, áreas agrícolas, estradas e cursos d’água, em diferentes regiões da América do Sul, indicou que os felinos saem da mata fechada e voltam frequentemente às bordas de floresta e de áreas agrícolas.

“As onças agem assim provavelmente para caçar, mas preferem fragmentos maiores da floresta, que é onde permanecem mais tempo”, diz a bióloga boliviana Vanesa Bejarano Alegre, que fez o trabalho como parte de seu doutorado, encerrado em 2023, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro.

A pesquisadora é a primeira autora de um artigo publicado em dezembro na revista Perspectives in Ecology and Conservation. “A onça tem um papel importante de equilíbrio do ecossistema, a presença dela ajuda a regular a reprodução de algumas espécies”, explica Alegre.

“Se há onça, significa que há água limpa, plantas, insetos e uma cadeia ecológica funcional”.

Os animais foram monitorados por colares GPS, com registros de dados a cada quatro horas, em 12 áreas de estudo, onde Alegre marcou o tempo em que os animais passavam em um raio de 250 metros de cada localização, o quanto revisitavam os locais, a velocidade de movimentação e o momento da última visita. Para assegurar o bem-estar, as coleiras não pesam mais que 3% do peso do animal (no Pantanal, uma onça adulta pode chegar a 140 quilos).

Leia também: Conheça a ‘Ilha das Onças-Pintadas’: região que ajuda na conservação da espécie na Amazônia

Medrosa e seu filhote Luca no Parque Estadual Encontro das Águas em 2020, depois de queimadas especialmente intensas. Foto: Ricardo Boulhosa/Instituto Pró-Carnívoros

“Capturar os animais é o problema, porque eles têm um território grande; mesmo os menores podem chegar a 40 quilômetros quadrados”, explica o médico-veterinário Ronaldo Morato, diretor da organização não governamental Panthera, que trabalha na conservação de felinos, e coautor do artigo.

Para instalar os colares nos animais, é utilizada uma armadilha em forma de laço. “Quando o animal pisa, prende o pé e aciona um alarme”, explica Morato. “Imediatamente fazemos a contenção com anestésico, instalamos o colar e coletamos sangue ou outras informações, dependendo do estudo.” Uma vez instalado, o equipamento envia informações via satélite na frequência determinada pelos pesquisadores.

É possível coletar dados e calcular velocidade, aceleração e direção, o que permite compreender diversos comportamentos dos bichos. Para não precisar de recaptura, as coleiras são programadas para se soltarem depois de um tempo.

Morato coordenou o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), por 18 anos, até 2023, e em 2018 publicou na revista Ecology um artigo que apresenta uma base de dados pública com 134.690 localizações de 117 onças-pintadas monitoradas por GPS em cinco países da América do Sul. Alegre selecionou dessa base 54 animais cuja movimentação permitira o monitoramento com mais regularidade.

Andanças vigiadas

O tempo em cada área florestal mostra que, seja por alimentação ou abrigo para si ou suas presas, as matas são fundamentais na conservação das onças. “O que temos visto é que, cada vez mais, esse animal está ficando acuado em função da perda de vegetação com a expansão urbana e agropecuária”, aponta o biólogo Rogério Cunha de Paula, que coordena o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Daí a importância de trabalhos como esse, que conjuga dados de imagem de satélite com os de GPS e demonstra essa grande dependência da onça em relação ao hábitat de maior qualidade”.

O Brasil abriga a maior população mundial de onças-pintadas, que já estiveram presentes em todos os outros biomas – atualmente já não é vista no Pampa. Um artigo publicado em 2018 na revista PLOS ONE, que ainda é referência nos estudos sobre a distribuição geográfica desses animais no país, mostra uma ocorrência concentrada no Pantanal e na Amazônia. Nos demais biomas, há somente manchas isoladas.

Um problema dessas regiões onde só estão disponíveis trechos restritos de floresta é que os fragmentos podem não ser suficientes para abrigar machos que migram a partir de seus grupos natais, que em alguns casos acabam sozinhos em áreas distantes e muito reduzidas.

“Eles buscam um novo território e vão viver lá até morrer, porque não conseguem se reproduzir”, avisa De Paula. “Esse é um grande risco, porque temos poucas áreas adequadas e as populações já estão há algumas décadas em um ritmo de declínio e a caminho de extinção local”.

Leia também: Descubra o que fazer quando encontrar uma onça-pintada

Noca quando avistada pela primeira vez, em 2010, alguns dias antes de ser capturada. Foto: Ricardo Boulhosa / Instituto Pró-Carnívoros

Para evitar a multiplicação desse cenário, é necessária a criação de corredores ecológicos conectando fragmentos florestais, inclusive aqueles em propriedade rurais, além da definição de estratégias de mitigação de conflitos. Segundo Alegre, ao se traçar áreas prioritárias de conservação é preciso pensar em zonas de amortecimento a partir de recursos sustentáveis, como as agroflorestas, e com uma gestão cuidadosa das estradas, inclusive as de terra, no interior das propriedades.

“O que percebo nesse estudo, e em outros que fizemos, é que um dos maiores impactos para as onças é a estrada, porque ela frequenta esses caminhos, seja para se deslocar melhor, seja porque pode encontrar presas mortas por atropelamento.”

Os corredores ecológicos evitariam o atropelamento das próprias onças, inclusive. Ainda que a quantidade de mortes seja difícil de precisar, o Cenap tem recebido mais notificações nos últimos anos.

“Temos cada vez mais registros de atropelamento de onças, especialmente no arco do desmatamento”, enfatiza Rogério de Paula, referindo-se à região na borda sul e sudeste da floresta amazônica brasileira. “São locais que os bichos usavam e, de repente, viraram vias de acesso, como vias pavimentadas ou estradas secundárias que vão sendo abertas para o escoamento de produção agrícola.”

O estudo liderado por Alegre revela que as onças se movimentam mais rapidamente próximo a estradas, evitando permanências prolongadas nessas áreas. “Isso sugere um comportamento de evitamento de risco”, explica a pesquisadora. Por outro lado, o deslocamento é mais lento próximo a cursos d’água, locais que as onças revisitam com frequência.

Para o biólogo Ricardo Boulhosa, esse achado valida uma máxima comum para a conservação de hábitats e planejamento ambiental.

“Sempre dizemos que é preciso água e mata para ter onça-pintada, e esse trabalho comprova isso. É um estudo que dá um refinamento sobre a ecologia desses animais e orienta o manejo de áreas de agropecuária”. Boulhosa é pesquisador do Instituto Pró-carnívoros, organização sem fins lucrativos que há quase 30 anos promove a conservação dos mamíferos carnívoros neotropicais e de seus hábitats. Assim como Rogério de Paula, ele não participou do estudo.

Projetos

1. Ecologia de movimento de um predador neotropical de topo através de diferentes hábitats e sua interação com presas (n° 18/13037-3); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Milton Cezar Ribeiro (Unesp); Bolsista Vanesa Fabiola Bejarano Alegre; Investimento R$ 356.059,18.
2. Biodiversidade e serviços associados: PELD Corredor Cantareira Mantiqueira (nº 21/08534-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Milton Cezar Ribeiro (Unesp); Investimento R$ 309.404,64.
3. Biodiversidade no Antropoceno: Efeito dos agroecossistemas na conservação da biodiversidade e manutenção de funções ecossistêmicas (nº 20/01779-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Milton Cezar Ribeiro (Unesp); Investimento R$ 188.626,99.
4. Contribuições do pagamento por serviços ambientais sobre múltiplas dimensões na Mata Atlântica (nº 21/10195-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Milton Cezar Ribeiro (Unesp); Investimento R$ 3.054.695,07.

Artigos científicos

ALEGRE, V. B. et alJaguar at the Edge: Movement patterns in human-altered landscapesPerspectives in Ecology and Conservation. v. 22, n. 4, p. 358-66. out.-dez. 2024.
ALEGRE, V. B. et alThe effect of anthropogenic features on the habitat selection of a large carnivore is conditional on sex and circadian period, suggesting a landscape of coexistenceJournal for Nature Conservation. v. 73, 126412. jun. 2023.
JĘDRZEJEWSKI, W. et alEstimating large carnivore populations at global scale based on spatial predictions of density and distribution – Application to the jaguar (Panthera onca)PLOS ONE. v. 13, n. 3, e0194719. 26 mar. 2018.
MORATO, R. G. et alJaguar movement database: A GPS-based movement dataset of an apex predator in the NeotropicsEcology. v. 99, n. 7, p. 1691. jul. 2018.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa FAPESP, escrito por Guilherme Costa

Assistência técnica tem mudado cenário da agricultura em Rondônia

Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat

A Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) tem vencido grandes desafios ao lado dos pequenos produtores. Segundo o Governo do Rondônia, o estado tem ganhado destaque no cenário nacional com a produção de cafés premiados; do tambaqui; qualidade da carne proveniente do maior rebanho bovino do Brasil livre de febre aftosa sem vacinação; além da produção de grãos como soja e milho.

Um exemplo desse tipo de crescimento a partir da ATeG é o caso da propriedade da família Vital, que em pouco tempo teve suas principais dificuldades, tanto na produção de leite quanto na plantação da fazenda, sanada por técnicas aplicadas pelos proprietários após orientação.

O proprietário da fazenda, Diogo Vital, conta que uma das principais mudanças realizadas no local foi a silagem de milho (alimento produzido a partir da conservação da planta de milho através de fermentação anaeróbica), pois antes, no período de estiagem, não tinham água o suficiente para produzir os piquetes para o gado.

Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat

A equipe técnica do Senar relata que umas das principais dificuldades no geral, assim como na propriedade da família Vital, é a conservação de forragem, em especial no mês de janeiro, cuja oferta de forragem é menor por conta da restrição hídrica.

Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat

Ainda de acordo com a equipe, o trabalho em conjunto com os produtores e fácil aceitação de novas estratégias podem ajudar a alavancar as propriedade para que se tornem referência, mudando a realidade da produção local e gerando mais satisfação econômica para o produtor.

Governo Federal nega transferência de terras indígenas para iniciativa privada

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A imagem mostra uma visão aérea da mata na Terra Indígena Rio Gregório (AC), lar do Povo Yawanawa. Foto: ASCOM/MPI

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República informou que não é verdade que o Governo Federal, por meio do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), tenha transferido a gestão de terras indígenas para a iniciativa privada. A Constituição Federal determina que as terras tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas são imprescritíveis.

O acordo firmado pelo MPI com a empresa Ambipar durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, trata de um compromisso preliminar estabelecido por meio de um Protocolo de Intenções. Esse instrumento, amplamente utilizado na gestão pública, não implica transferência de verbas públicas ou de responsabilidades do Estado. 

Diferentemente do que peças de desinformação propagam, o acordo não configura concessão de terras indígenas, não dependendo de licitação ou concorrência para tal.

A assinatura do protocolo está em consonância com a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), instituída pelo Decreto nº 7.747/2012, construída com ampla participação dos povos indígenas. A PNGATI busca reconhecer e apoiar as práticas de gestão ambiental e territorial já conduzidas pelos povos indígenas. Suas diretrizes incluem:

Garantia do direito à consulta prévia: conforme previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), promulgada pelo Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004;

Reconhecimento dos direitos relativos a serviços ambientais: em função das ações de proteção, conservação, recuperação e uso sustentável realizadas pelos povos indígenas em seus territórios, conforme a legislação vigente.

A parceria firmada com a empresa Ambipar insere-se no contexto de ampliação do diálogo entre o Governo Federal e diferentes setores da sociedade civil, sempre com o objetivo de fortalecer a proteção dos direitos dos povos indígenas. 

Essa iniciativa também está alinhada aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e à proposta de inclusão do ODS 18 (igualdade étnico-racial) no conjunto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O Protocolo de Intenções tem como foco compromissos e iniciativas para qualificar e fortalecer os territórios indígenas, incluindo:

  • Projetos de conservação e recuperação ambiental;
  • Promoção da economia circular;
  • Gestão, destinação e disposição de resíduos sólidos;
  • Suporte técnico para prevenção e respostas a eventos extremos, como incêndios e enchentes;
  • e Reflorestamento de áreas desmatadas e desenvolvimento de projetos de bioeconomia e serviços ecossistêmicos.

O presente protocolo assim como outras iniciativas que poderão, conforme cada comunidade decidir, qualificar e fortalecer, reflete o compromisso do Governo Federal, especialmente do Ministério dos Povos Indígenas, em ampliar parcerias para a promoção dos direitos dos povos indígenas no Brasil. Ele representa um avanço no fortalecimento da gestão territorial indígena, sempre com o devido respeito aos direitos constitucionais e internacionais desses povos.

*Com informações da Agência Gov

Conservação florestal garante a produtividade do cacau no Pará, mostra estudo

Área analisada abrange 161 municípios responsáveis por 93% da produção nacional de cacau. Foto: Divulgação/Vale

A conservação de florestas favorece a produtividade do cacau no Pará, um dos estados líderes na produção brasileira do fruto, que é o principal ingrediente do chocolate. É o que aponta estudo publicado na revista Environmental Conservation por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e de Goiás (UFG). No Pará, municípios que preservaram suas florestas tiveram aumento de cerca de 65% na produtividade do cacau desde a década de 80. Já municípios que sofreram forte desmatamento tiveram perdas de produtividade, alguns com reduções de mais de 40%.

Leia também: Cacau produzido no Pará ganha destaque mundial por gerar desenvolvimento com sustentabilidade

Os pesquisadores reuniram dados históricos sobre a produção do fruto em 60 municípios do Pará. A equipe calculou a diferença na produtividade entre os períodos de 1985 a 1987 e 2019 a 2021, comparando métricas como variação da cobertura florestal, da extensão de terras cultivadas e do nível de fragmentação florestal, assim como as áreas totais municipais e a porcentagem dedicada ao cultivo.

Independentemente do histórico de uso do solo nas regiões estudadas, nosso trabalho deixa claro que a perda de cobertura florestal é um fator determinante para a queda na produção”, ressalta Gustavo Júnior de Araújo, pesquisador do ITV e autor principal da publicação.

O estudo também revelou que os efeitos sobre as propriedades produtoras podem variar conforme o tamanho da área de cultivo. Em municípios paraenses nos quais o cacau não é o principal produto agrícola, a maior cobertura florestal beneficiou apenas grandes propriedades – aquelas com mais de 10 hectares –, possivelmente devido aos maiores recursos financeiros desses produtores.

Florestas densas aumentam a distância até centros comerciais e dificultam o acesso a tecnologias, o que pode limitar a lucratividade das pequenas propriedades. Já na Bahia, a produtividade, em ambas as escalas, foi menor em municípios com maior fragmentação florestal.

Fruto do cacau. Foto: Divulgação/Comunicação PMO

Leia também: Conheça o cacau da Amazônia, matéria-prima do chocolate

As conclusões alertam para a necessidade de repensar as práticas agrícolas utilizadas. “Em busca de retornos financeiros mais rápidos, muitos produtores recorrem a monocultivos de cacau a pleno sol, com variedades clonais”, relata Araújo. “Além das incertezas sobre a sustentabilidade desse modelo, a expansão dos monocultivos pode reduzir as florestas naturais e os serviços ecossistêmicos essenciais à cacauicultura”, complementa. Araújo explica que a conservação das florestas é essencial para a regulação climática natural, proteção do solo, polinização e controle biológico de pragas, por exemplo.

O autor defende a implementação de práticas que equilibram a produção e a conservação das florestas como passo fundamental para uma cacauicultura mais eficiente e ecológica. 

“É necessário incentivar políticas públicas que promovam os benefícios dos sistemas agroflorestais, apoiar financeiramente os produtores na transição para sistemas mais sustentáveis e fomentar a pesquisa sobre a viabilidade e os impactos dos monocultivos de cacau”, aponta. Araújo e sua equipe devem continuar contribuindo com a investigação de questões como a influência da diversidade genética das plantas, do clima e dos microrganismos presentes no solo, atentando para a rentabilidade dos produtores de cacau aliada à conservação da floresta.

*Com informações da Imprensa Vale

Projeto de conservação de crocodilianos em Rondônia comemora 20 anos

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Foto: Marcos Coutinho/RAN ICMBio

A Reserva Extrativista (Resex) Lago do Cuniã, localizada em Rondônia, celebra duas décadas de atuação como referência em conservação e manejo sustentável de crocodilianos na Amazônia. Para marcar a data, o projeto, único na região a praticar o manejo de jacarés das espécies Melanosuchus niger (jacaré-açu) e Caiman crocodilus (jacaretinga), com fins socioeconômicos, publicou dois artigos científicos na revista Reptiles & Amphibians, trazendo contribuições inéditas sobre a ecologia de nidificação e o desenvolvimento embrionário do jacaré-açu. 

Desde 2004, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN/ICMBio), em parceria com a NGI Cuniã-Jacundá e sob a coordenação do pesquisador Dr. Marcos Eduardo Coutinho, conduz o Plano de Pesquisa e Monitoramento das Populações Naturais de Crocodilianos na Resex.

A iniciativa conta com a colaboração de instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Liverpool John Moores University (Reino Unido), além da participação de pesquisadores locais e das comunidades extrativistas da reserva. 

Leia também: Centenas de jacarés atraem curiosos e ajudam projeto de turismo comunitário em reserva de Rondônia

Novos avanços científicos 

Os dois artigos publicados em 2024 representam marcos importantes para a conservação dos crocodilianos. O primeiro estudo analisou o desenvolvimento embrionário dos jacarés-açus, identificando variações no crescimento e na massa dos embriões entre diferentes ninhos, além de desvios em eventos morfológicos em relação a estudos anteriores realizados na mesma reserva. 

Já o segundo artigo explorou a ecologia térmica dos ninhos e os trade-offs entre o tamanho das ninhadas e as dimensões dos ovos. Os pesquisadores observaram que ninhadas maiores tendem a gerar ovos e filhotes menores, indicando uma relação inversa que pode impactar diretamente a sobrevivência das espécies. Esses achados oferecem percepções fundamentais para aprimorar o manejo sustentável e garantir a viabilidade das populações a longo prazo. 

Monitoramento Contínuo 

Ao longo da estação reprodutiva de 2024, entre setembro e dezembro, a pesquisa continuou com o uso de dataloggers para monitorar as variações de temperatura dos ninhos e do ar durante o período de incubação. Paralelamente, estudos de abundância e distribuição completaram uma série histórica de 20 anos de dados sobre as populações de jacarés na reserva. 

Esse monitoramento de longo prazo tem sido essencial para compreender as dinâmicas populacionais e ajustar as estratégias de manejo. A colaboração das comunidades locais, que integram o projeto desde o início, também é um diferencial, fortalecendo a conexão entre ciência, conservação e práticas tradicionais. 

Os dois artigos publicados são de livre acesso e estão disponíveis para leitura online: 

  • Nesting ecology of Black Caimans (Melanosuchus niger): Leia aqui 
  • Intraspecific variation in embryonic development: Leia aqui 

*Com informações do ICMBio