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Pesquisadores investigam o “silêncio” das aves na Amazônia

Foto: Cintia Cornellius/Acervo pessoal

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ganhou destaque internacional ao ser publicada recentemente na seção de notícias da revista Science. O estudo investiga as causas do misterioso declínio populacional de aves em florestas tropicais intactas, fenômeno que pesquisadores temem ser o prenúncio de uma nova “primavera silenciosa” causada pelas mudanças climáticas.

O estudo é fruto do projeto IRRIGA, coordenado pela professora Cintia Cornelius, docente do Instituto de Ciências Biológicas (ICB-Ufam) e do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZOOL). O projeto também é liderado pelos pesquisadores David Luther (George Mason University) e Jared Wolfe (Michigan Technological University), e conta com a colaboração de docentes e discentes da Ufam e do Inpa.

O experimento principal ocorreu na Fazenda Experimental da Ufam, onde a equipe montou o que chamam de uma “máquina do tempo virtual”. Durante a pesquisa, buscou-se entender se a redução das chuvas e o aumento das temperaturas estão prejudicando as aves. Para isso, os pesquisadores instalaram uma rede de 3 quilômetros de tubulações e 72 aspersores em parcelas da floresta.

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O objetivo era suplementar a chuva natural durante a estação seca para mimetizar os níveis de umidade registrados na década de 1980, permitindo comparar a saúde das aves nessas áreas com as de áreas que sofrem com as secas atuais.

A execução técnica do sistema de irrigação do experimento em campo foi liderada por Stefano Avilla, doutorando do PPGZOOL da Ufam com a colaboração do Prof. Silfran Marialva Alves (FCA-UFAM). Os primeiros resultados são reveladores: as aves capturadas nas áreas irrigadas mostraram-se mais bem alimentadas, com níveis mais altos de gordura no sangue e sinais físicos de maior sucesso reprodutivo em comparação com as aves das áreas não irrigadas.

japiim, ave da amazônia
Foto: Cynthia Lebrão/Uakari Lodge

Desaparecimento de aves pode desequilibrar ecossistemas

Mesmo em anos de extremos climáticos opostos — como a severa seca de 2024 e o excesso de chuva em 2025 — os dados preliminares sugerem que as aves beneficiam-se de estações secas mais úmidas, o que reforça a hipótese de que as mudanças climáticas estão afetando a disponibilidade de alimentos (insetos) e a sobrevivência das espécies.

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O declínio atinge especialmente aves insetívoras que vivem próximas ao solo, como o uirapuru-veadeiro, cujo canto está se tornando uma raridade. Como as aves desempenham papéis cruciais na polinização, dispersão de sementes e controle de pragas, seu desaparecimento pode desequilibrar todo o ecossistema.

A pesquisa no projeto IRRIGA se estende também para outros grupos de animais. A doutoranda e egressa da UFAM, Aline Souza Medeiros (George Mason University) investiga os efeitos sobre mamíferos e aves usando ferramentas como câmeras e gravadores autônomos que registram o uso das áreas irrigadas por estes animais.

A professora Cintia Cornelius ressalta que o projeto tem sido vital para o desenvolvimento da pesquisa acadêmica na região, apoiando docentes e alunos de pós-graduação. Apesar de desafios recentes no financiamento internacional, a equipe já garantiu recursos para manter o experimento em 2026, buscando agora financiamento com agências de fomento no Brasil e parcerias com filantropia privada para dar continuidade a este trabalho crítico para o futuro da Amazônia.

A Primavera Silenciosa

Em 1962, a pesquisadora Rachel Carson publicou o livro Primavera Silenciosa, que aborda a influência no pesticida DDT no índice de mortalidade de abelhas, o que prejudicou o processo de polinização de flores, além de influenciar, também, a saúde humana.

O livro é considerado um marco para o movimento ambientalista. Na época, o livro gerou comoção pública e, por pressão popular, o inseticida DDT foi proibido em diversos países.

* Com informações da Univerdade Federal do Amazonas (UFAM)

SUS inicia tratamento inédito para malária em crianças, a partir da região amazônica

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Medicamento produzido no Brasil chega às crianças. Foto: Reprodução/Agência Gov

O Ministério da Saúde iniciou tratamento inovador contra a malária para crianças no Sistema Único de Saúde (SUS). Com a medida, o Brasil torna-se o primeiro país do mundo a disponibilizar a tafenoquina na formulação pediátrica de 50 mg, indicada para crianças com peso entre 10 kg e 35 kg. O público infantil concentra cerca de 50% dos casos da doença no país. Até então, desde 2024, o medicamento era ofertado apenas a jovens e adultos a partir de 16 anos.

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Inicialmente, serão distribuídos 126.120 comprimidos da tafenoquina pediátrica, com investimento de R$ 970 mil, para ampliar o controle da doença em todo o território nacional. A entrega do medicamento iniciou no dia 2 e está ocorrendo de forma gradual, com foco em áreas prioritárias na região Amazônica.

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O secretário de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Weibe Tapeba, ressaltou que a Pasta tem investido fortemente para garantir que medicamentos mais eficazes e de uso mais simples cheguem a quem precisa.

“Hoje realizamos um treinamento de profissionais de saúde que atuam no DSEI Leste e vamos ampliar para sete Distritos Sanitários Especiais Indígenas em todo o país. Esse é mais um exemplo da potência do Sistema Único de Saúde ao incorporar um medicamento com eficácia comprovada, com o objetivo de reduzir ainda mais os casos de malária no Brasil e contribuir para superar essa emergência sanitária”, disse.

O ministério da saúde já recebeu 64.800 que serão distribuídos em áreas de maior incidência como os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami, Alto Rio Negro, Rio tapajós, Manaus, Vale do Javari e Médio Rio Solimões e Afluentes. Estes territórios concentram cerca de 50% dos casos de malária em crianças e jovens de até 15 anos. O primeiro a ser contemplado será o DSEI Yanomami, com 14.550 comprimidos.

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Succinato de tafenoquina, remédio usado no tratamento da malária
Tafenoquina. Foto: Fabio Miranda/Ministério da Saúde

Em 2024, o Território Yanomami foi a primeira região do Brasil a receber a tafenoquina 150mg, indicada para pacientes com mais de 16 anos, como parte de uma estratégia inovadora de aprimoramento do tratamento nas regiões mais afetadas.

Com a incorporação da tafenoquina pediátrica, o Brasil se posiciona na vanguarda do combate à malária e segue as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). A medida busca melhorar o cuidado e fortalecer o enfrentamento da doença em regiões remotas, ampliando o alcance do SUS.

Para a secretária é importante esse medicamento chegar aos territórios indígenas. “À medida que ampliamos a cobertura do tratamento com rapidez e eficiência, reduzimos também o risco de transmissão da malária nas comunidades. Se conseguirmos alcançar uma cobertura elevada, é possível reduzir em até 20 mil casos da doença. Se não há um medicamento como a tafenoquina para crianças e não há um teste rápido que facilite o diagnóstico precoce, ficamos sem ferramentas eficazes para enfrentar o problema. Por isso, levar essas tecnologias para as áreas mais afetadas pela malária, onde elas podem gerar maior impacto, é uma obrigação nossa”, explicou.

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Tratamento inédito

A nova apresentação do fármaco será administrada em dose única, o que proporciona mais conforto e praticidade para as famílias e profissionais de saúde; maior adesão à terapia; eliminação completa do parasita; e a prevenção de recaídas, contribuindo para a interrupção da transmissão da doença. Possibilita, ainda, ajuste da dose conforme o peso da criança, garantindo maior eficácia do tratamento.

Teste de Malária. Foto:  Foto: Luis Oliveira/Ministério da Saúde

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Para garantir a segurança e implementação efetiva da tafenoquina pediátrica, o Ministério da Saúde está realizando oficinas de treinamento. Nesta primeira etapa, 250 profissionais dos DSEI prioritários serão habilitados.

Incorporação

A tafenoquina 50mg foi incorporada ao SUS por meio da Portaria nº 64 , de 15 de setembro de 2025, e representa uma revolução no enfrentamento à doença por Plasmodium vivax , a principal espécie causadora da malária no Brasil, responsável por mais de 80% dos casos no país. O pedido de incorporação da tecnologia foi apresentado pelo Ministério da Saúde, após registro da nova apresentação de 50 mg na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A proposta considerou a vantagem do tratamento em dose única. O novo medicamento passou a ser indicado para pessoas com malária vivax, com peso acima de 10 kg, que não estejam grávidas ou em período de amamentação. Até então, o esquema terapêutico disponível exigia tratamento por até 14 dias, o que dificultava a adesão, especialmente entre crianças.

Região Amazônica

A malária é um dos principais desafios de saúde pública na região Amazônica, especialmente em áreas de difícil acesso e territórios indígenas, onde fatores geográficos e sociais ampliam a vulnerabilidade à doença. O Ministério da Saúde segue intensificando o monitoramento e o reforço das ações de controle vetorial, busca ativa, disponibilização de testes rápidos entre outras estratégias de combate à doença na região.

Entre 2023 e 2025, somente no território Yanomami, houve aumento de 103,7% na realização de testes, crescimento de 116,6% no número de diagnósticos e redução de 70% nos óbitos pela doença.

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Foto: Arthur Alves/Arquivo PMM

“Nos territórios Yanomami e no Alto Rio Negro, o Ministério da Saúde também tem investido no reforço das equipes de saúde, com contratação de profissionais, microscopistas e agentes de combate às endemias. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, conseguimos melhorar a assistência e reduzir significativamente os casos e óbitos por malária nos territórios indígenas”, pontuou Weibe.

Diminuição de casos

A malária é uma das doenças que integra o Programa Brasil Saudável. A iniciativa do Governo Federal visa enfrentar problemas sociais e ambientais que afetam a saúde de pessoas em maior vulnerabilidade social. O programa é coordenado pelo Ministério da Saúde e reúne outros 13 ministérios, além de parceiros estratégicos como organizações da sociedade civil e organismos internacionais.

Em 2025, o Brasil registrou o menor número de casos desde 1979, com 15% de redução em relação a 2024. No mesmo período, também houve uma redução de 16% em áreas indígenas de todo o país. Os casos por Plasmodium falciparum (protozoário causador da forma grave de malária) também reduziram em 30% em relação ao ano passado.

A utilização da tafenoquina para cura da malária por Plasmodium vivax tem se mostrado eficaz, reduzindo as recaídas e a transmissão. Ainda, a utilização associada de artesunato e mefloquina tem impactado positivamente no controle da malária por Plasmodium falciparum no país. Outras medidas relevantes foram a ampliação do teste de diagnóstico rápido para malária (TDR) e a distribuição de Mosquiteiros Impregnados de Longa Duração (MILD).

Com a incorporação da tafenoquina pediátrica, o país implementa mais uma importante medida para a cura radical da doença.

*Por Leidiane Souza, Vicente Ramos e Rafael Ely, do Ministério da Saúde

Concessões florestais são referência de desenvolvimento sustentável, afirma governo do Pará

Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Impulsionadas pelo Governo do Pará, por meio do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), as concessões florestais vêm fortalecendo o uso responsável das florestas públicas no estado, aliando conservação ambiental, geração de renda e fortalecimento da governança territorial. Em 2025, o Pará registrou um avanço expressivo nesse modelo de gestão, consolidando-o como uma das principais estratégias de desenvolvimento sustentável na Amazônia.

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Até o momento, foram assinados 12 contratos de concessão florestal no estado, por intermédio da Diretoria de Gestão de Florestas Públicas de Produção (DGFLOP). Desse total, 11 são voltados ao manejo florestal sustentável e um à restauração ecológica. As áreas concedidas somam cerca de 680 mil hectares de florestas públicas sob gestão responsável, resultando em uma arrecadação superior a R$ 14 milhões para o Estado.

As concessões florestais permitem que áreas previamente delimitadas e licitadas sejam destinadas ao manejo sustentável de produtos e serviços ambientais, sempre sob regras rigorosas de monitoramento, transparência e controle público. O modelo garante que a floresta permaneça em pé, ao mesmo tempo em que contribui para o desenvolvimento econômico e social das regiões onde está inserido.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é concessão florestal?

Concessões florestais
Concessões florestais do Pará são referência de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Responsabilidades e proteção das áreas

De acordo com a diretora de Gestão de Florestas Públicas de Produção do Ideflor-Bio, Ana Claudia Simoneti, o sistema estabelece responsabilidades claras às empresas concessionárias. “Além do pagamento de outorga ao Estado e da realização de investimentos sociais, as empresas assumem a proteção integral das áreas concedidas, com vigilância contínua para prevenir invasões, extração ilegal de madeira, desmatamento e queimadas”, enfatizou.

O manejo florestal segue critérios técnicos rigorosos. Segundo a diretora, a exploração ocorre de forma planejada e controlada. 

“O manejo ocorre por meio de um sistema de rodízio, que permite a produção planejada e contínua ao longo dos anos. Em cada hectare, área equivalente a um campo de futebol, são retiradas apenas de quatro a seis árvores selecionadas, respeitando padrões ambientais e legais”, explicou Ana Claudia.

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Planejamento e regeneração da floresta

Outro ponto fundamental do modelo é o tempo necessário para a regeneração da vegetação. A mesma área só pode passar por um novo ciclo de manejo após um período entre 25 e 30 anos, tempo considerado suficiente para a recuperação da floresta.

Concessões florestais do Pará são referência de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

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Esse cuidado contribui para manter o estoque de carbono, favorecer a regulação climática, conservar a biodiversidade e garantir a continuidade dos serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas.

O planejamento de longo prazo também prevê novos avanços. Para 2026, está previsto o lançamento de edital para concessões florestais em seis Unidades de Manejo Florestal localizadas nas Florestas Estaduais do Iriri e do Paru, ampliando o alcance do modelo no território paraense.

Referência em sustentabilidade

Segundo a gerente de Planejamento e Análises Florestais do Ideflor-Bio, Thais Novais, o pioneirismo do Pará torna as concessões florestais do estado uma referência nacional e internacional.

“Entre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) atendidos pelo modelo, estão o ODS 13, que trata da ação contra a mudança global do clima, e o ODS 15, voltado à vida terrestre. As concessões ajudam a combater o desmatamento em florestas públicas, promovem o uso sustentável dos recursos naturais e viabilizam a restauração de áreas degradadas ou desmatadas ilegalmente”, ressaltou.

Concessões florestais do Pará são referência de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Para a gerente, a concessão florestal também se consolida como um importante instrumento de governança pública. “Ela ordena o uso das florestas brasileiras e transforma áreas públicas em territórios sob regime de uso sustentável, com ganhos expressivos em ordenamento territorial, proteção florestal, desenvolvimento local e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis”, concluiu Thais Novais.

*Com informações do Ideflor-Bio

Quase 3 mil áreas de risco na Amazônia Legal foram identificadas pelo SGB

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Ao todo, foram realizados levantamentos em 1,8 mil municípios; os estudos são essenciais para apoiar o poder público municipal em ações para prevenção de desastres. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Com o intuito de contribuir para prevenção de desastres e apoiar os esforços para proteger vidas, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) realiza em todo país estudos que identificam áreas de risco. Mais de 1,8 mil municípios já foram contemplados pelos levantamentos e foram mapeadas mais de 17,7 mil áreas de risco. Os dados constam em dashboard do SGB, atualizado em fevereiro de 2026.

Além disso, é realizado o monitoramento dos níveis de rios de 19 bacias hidrográficas por meio dos Sistemas de Alerta Hidrológico (SAH). O trabalho ganha ainda mais relevância diante da chegada do período chuvoso e de eventos climáticos extremos.

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Essas ações ajudam na formulação de políticas públicas e de medidas que garantam mais segurança às populações, contribuindo para prevenir ou reduzir impactos de desastres como deslizamentos, erosões e enchentes. 

“Os estudos evidenciam nosso compromisso com os municípios e toda a população brasileira”, destaca o diretor-presidente do SGB, Vilmar Medeiros Simões.

Ele ressalta que os relatórios disponibilizados “fornecem a gestores públicos e às defesas civis instrumentos valiosos para que possam tomar decisões assertivas para salvaguardar vidas e evitar perdas materiais”.

Os mapeamentos também ajudam os municípios na captação de recursos destinados a obras preventivas e de resposta a desastres.

Leia também: Mais de 112 mil pessoas vivem em áreas de risco alto e muito alto em Manaus

A Defesa Civil do Pará e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) estão desde terça-feira (31) mapeando locais de risco na praia de Ajuruteua e no centro urbano de Bragança, município do nordeste paraense. O resultado do trabalho constará de um relatório de domínio público, que será entregue à Prefeitura e ao governo do Estado para elaboração de um planejamento destinado às duas áreas.
Foto: Sidney Oliveira/Agência Pará

Áreas de risco

Um dos trabalhos realizados é a Cartografia de Áreas de Risco que indica as áreas de risco alto e muito alto associadas a processos de inundações, enchentes, erosões e de movimentos gravitacionais de massa – como deslizamentos e queda de blocos. Os estudos foram realizados em 1.803 municípios (até fevereiro de 2026), nas áreas urbanizadas das cidades e identificaram mais de 4,6 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco no Brasil.

De acordo com os dados, nos municípios mapeados, já foram identificadas 17,7 mil áreas de risco, sendo 5,5 mil de risco muito alto e 12,1 mil de risco alto.

A maior parte dos riscos geológicos está associada a processos de deslizamentos, com 8,8 mil áreas mapeadas. Em seguida, estão os processos de inundação, com 5,7 mil registros.

Áreas de risco identificadas nos estados que compõem a Amazônia Legal (2.876):

EstadoMunicípios mapeadosÁreas de risco
Pará961,1 mil
Amazonas62800
Maranhão93379
Rondônia52178
Acre22165
Mato Grosso28163
Amapá849
Roraima 533
Tocantins159

Veja todos os estados AQUI.

Estudos realizados

Outros estudos desenvolvidos nas cidades e que também geram subsídios para planejamento territorial, gestão de riscos e prevenção de desastres, são:

Monitoramento e previsão de níveis de rios

O SGB opera 19 Sistemas de Alerta Hidrológico (SAH), que geram previsões sobre os níveis dos rios e possibilitam antecipar cenários para prevenir ou reduzir o impacto de inundações ou secas. São mais de 10 milhões de pessoas beneficiadas, em mais de 100 municípios atendidos. 

Em períodos chuvosos que provocam aumento do nível dos rios, o SAH entra em operação e inicia o disparo de boletins de alerta hidrológicos. Esses boletins apresentam previsões de níveis das águas para as próximas horas, além de informações sobre as chuvas.

Dessa forma, o SGB auxilia defesas civis e órgãos municipais nas atividades de prevenção e apoio às populações afetadas. Uma das ações que podem ser realizadas, por exemplo, é a remoção de pessoas de áreas com possibilidade de serem inundadas.

*Com informações do SGB

Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas estão entre as 40 tecnologias sociais de maior impacto no país

Cacique José Augusto Kanoe, professor Mario Puruborá e Ana Vilacy Galucio durante o II Encontro de Tecnologia Social da Amazonia (Manaus, 2025), apresentando os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas. Foto: Divulgação/MPEG

Identificado pelo Observatório de Tecnologias Sociais do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) como uma iniciativa com metodologia inovadora e replicável em larga escala, os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas, desenvolvidos sob a coordenação da pesquisadora Ana Vilacy Galucio, estão na etapa final do 13° Prêmio da Fundação Banco do Brasil de Tecnologias Sociais, considerado um dos mais importantes do país.

Dentre os 148 projetos certificados, este ano, como novas tecnologias sociais pela fundação, os dicionários do MPEG, agora, compõem a lista dos 40 finalistas do prêmio. Com a indicação, cada projeto finalista já garantiu R$ 65 mil. Os sete grandes vencedores serão anunciados no dia 29 de maio, numa cerimônia em Brasília.

Leia também: Dicionários Multimídia para Línguas Indígenas do Museu Goeldi recebem certificação de tecnologia social

A pesquisadora e curadora do acervo linguístico do Museu Goeldi, Ana Vilacy, afirmou que a indicação dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas como finalista do prêmio reconhece a tecnologia social do MPEG como uma resposta para a necessidade dos povos indígenas de manter o aprendizado de suas línguas.

“Recebemos a notícia com muita felicidade. Essa conquista mostra que estamos conseguindo dar resposta para uma demanda social importantíssima, que é a questão das línguas ameaçadas e a necessidade de aprendizagem dessas línguas pelas comunidades. Estar entre as tecnologias sociais finalistas do prêmio é muito gratificante, já nos consideramos vencedores”, comentou. 

Segundo Ana Vilacy, os R$ 65 mil garantidos nesta etapa deverão ser investidos na melhoria do compartilhamento dos aplicativos.

“Criamos a metodologia e o formato geral para produzir os dicionários. Mas para cada língua, se desenvolve um aplicativo. O prêmio será investido no processo de certificação e de compartilhamento gratuito desses aplicativos nas lojas de apps”, detalhou.

O projeto do MPEG concorre na categoria Novas Certificadas, que conta com 30 finalistas e irá premiar 5 tecnologias sociais com R$ 200 mil para cada. As outras 10 finalistas do prêmio disputam a categoria Desafio Fundação BB 40 anos, que irá premiar dois projetos com R$ 1,2 milhão para cada. Ao todo, entre certificações e premiações, serão investidos até R$ 6 milhões.

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Dicionários são usados em escolas indígenas

Desenvolvidos, desde 2019, em parceria com a Universidade Novo México e com a participação ativa de povos indígenas, os dicionários foram construídos com tecnologias de fonte aberta (open source), de fácil acesso, que podem ser utilizadas e aprimoradas em larga escala pelas comunidades, sem necessidade de acesso à internet para rodar os aplicativos. Já estão disponíveis sete dicionários na plataforma do Museu Goeldi: das línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além do dicionário de de lugares sagrados dos Medzeniakonai.

O professor Mário Puruborá, da Aldeia Aperoi, localizada no município de Seringueiras, no estado de Rondônia, utiliza o dicionário na escola Iwara Puruborá, que reúne em torno de 20 estudantes, entre crianças, adolescentes e adultos. Segundo ele, o dicionário está sendo utilizado como “o principal e fundamental livro didático na escola Iwara Purubora”.

A aldeia concentra cerca de 50 indígenas e, na escola, dois professores trabalham com a tecnologia social do Museu Goeldi. “Mas também usamos nas aulas remotas, pelo meet, para atender os parentes que moram fora do território, nas cidades”, acrescentou Mário Puruborá.

Dicionário multimídia de línguas indígenas
Foto: Divulgação/MPEG

Mapeamento do Observatório de Tecnologias Sociais

Para que os Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas se tornassem finalistas do 13° Prêmio da Fundação BB de Tecnologia Social, o Observatório de Tecnologias Sociais do Museu Goeldi foi fundamental, na opinião de Ana Vilacy.

“Foi a partir do mapeamento da equipe do Observatório de Tecnologias Sociais que foi identificado o potencial do nosso projeto como uma tecnologia social, pois uma característica dos dicionários é que eles são elaborados com softwares livres para que sejam replicados e disponibilizados de forma mais ampla para as comunidades”, atestou.

Coordenador do Observatório, Arthur Ribeiro explicou que, além de identificar os projetos do Museu Goeldi que possam ser reconhecidos como tecnologias sociais, o trabalho inclui, entre outras ações, a divulgação das experiências e a busca por financiamentos via editais.

“Os Dicionários, por exemplo, foram uma experiência que se enquadrou muito bem no prêmio de reaplicação da Fundação Banco do Brasil”, disse, lembrando que a certificação do banco incluiu o projeto na rede Transforma, que reúne outras 915 tecnologias sociais do país, entre elas, Replicando o Passado e as Olimpíadas de Ciências de Caxiuanã, ambas também desenvolvidas pelo Museu Goeldi. “Ficamos muito felizes com a notícia dos Dicionários Multimídia de Línguas Indígenas entre as finalistas”, celebrou.

Com objetivo de identificar potenciais tecnologias sociais entre os projetos desenvolvidos no Museu Goeldi, ele explicou que a equipe do Observatório busca a interlocução com os pesquisadores da instituição. “Qualquer pesquisador que tenha interesse, pode entrar em contato conosco para que tenha a sua experiência de tecnologia social registrada no Observatório”.

Conforme Arthur Ribeiro, a tecnologia social “é uma tecnologia cultural, social e historicamente inserida, que parte da cultura de um determinado povo e se adequa a todas as suas necessidades. Acima de tudo, permite a apropriação da tecnologia pela própria comunidade, porque ela mesma faz a autogestão, já que participou do processo de concepção, de ideação, de controle e de monitoramento”, afirmou ele.

*Com informações do Museu Goeldi

Casos de dengue caem quase 87% em Cuiabá em 2026, aponta Vigilância em Saúde

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Foto: Emanoela Daiane

A Prefeitura de Cuiabá (MT), por meio da Secretaria Municipal de Saúde, divulgou boletim epidemiológico que aponta redução expressiva nos casos de dengue em 2026. Na 7ª Semana Epidemiológica (SE) deste ano, foram notificados 16 novos casos de dengue e nenhum registro de chikungunya ou zika.

Na comparação da média com o mesmo período de 2025, observou-se uma queda de 86,9% nas notificações de dengue e de 99,4% nos casos de chikungunya, resultado das ações contínuas de prevenção, controle vetorial e vigilância em saúde realizadas no município.

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No acumulado de 2026, Cuiabá contabiliza 55 casos autóctones de dengue, com taxa de incidência de 7,9 casos por 100 mil habitantes. Já a chikungunya registra 17 casos autóctones, com incidência de 2,4 por 100 mil habitantes. Para zika, não há casos confirmados no período. Na 7ª SE, foi confirmado um óbito por dengue.

dengue é causada pelo aedes aegpyt
Aedes aegpyti. Foto: Reprodução/Fiocruz

Vigilância segue ativa contra dengue

Mesmo com a redução significativa dos casos, a Secretaria Municipal de Saúde reforça que a vigilância epidemiológica permanece ativa, garantindo resposta rápida frente a possíveis surtos e emergências em saúde pública.

O monitoramento e a consolidação dos dados são realizados pelo Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS), que atua de forma permanente na análise de riscos e no apoio às ações de controle das arboviroses.

Leia também: Dengue, Zika e Chikungunya: como identificar e se prevenir das doenças que aumentam no período chuvoso na Amazônia

As equipes de combate ao mosquito Aedes aegypti seguem intensificando as atividades nos bairros. Somente nas ações de rotina, foram 141.466 imóveis vistoriados, 15.326 imóveis tratados, 17.058 depósitos tratados e 4.811 depósitos eliminados, reduzindo os possíveis criadouros do vetor.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A Secretaria Municipal de Saúde reforça que a prevenção começa dentro de casa e orienta a população a:

  • Eliminar focos de água parada em quintais, calhas, pneus, garrafas e reservatórios;
  • Manter atenção aos sintomas e não se automedicar em caso de suspeita de dengue, chikungunya ou zika;
  • Procurar uma unidade de saúde para avaliação médica ao apresentar sinais da doença;
  • Garantir a vacinação com a Qdenga, disponível na rede municipal para crianças de 10 a 14 anos, com esquema de duas doses.

A Prefeitura de Cuiabá destaca que a colaboração da população é fundamental para manter os índices sob controle e proteger a saúde coletiva.

*Com informações da Prefeitura de Cuiabá

Rondônia e Acre avançam em Acordo de Cooperação Técnica para modernizar gestão ambiental

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Foto: Jorge Fernando/ Secom Rondônia

Representantes do governo de Rondônia e do Acre estão reunidos, entre os dias 3 e 6 de março, para alinhar os termos de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) voltado à implantação de um Portal da Transparência Ambiental e de um Geoportal no estado acreano.

A iniciativa prevê a utilização da tecnologia desenvolvida pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) para fortalecer a gestão ambiental, ampliar a transparência das ações públicas e aprimorar o planejamento territorial.

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O sistema deverá atender a Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre (Sema), o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e o Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC), com participação da Coordenadoria de Tecnologia da Informação (CTI) no processo de alinhamento técnico.

Acordo de cooperação

Durante uma das reuniões, foram discutidos os pontos centrais do ACT, entre eles a disponibilização da solução tecnológica utilizada pela Sedam, incluindo o Portal da Transparência Ambiental, além da capacitação das equipes técnicas do Acre para garantir autonomia na operação e manutenção da plataforma.

O acordo também prevê suporte técnico inicial para implantação do sistema e desenvolvimento de melhorias conjuntas, promovendo a integração de informações ambientais e geoespaciais, com foco no fomento à pesquisa científica e no fortalecimento de políticas públicas regionais.

Leia também: Acordo de Cooperação é firmado para governança sustentável em terras indígenas do Rio Negro

acordo de cooperação
Imagem: Jorge Fernando/ Secom Rondônia

A cooperação reforça o compromisso de ambos os estados com o desenvolvimento sustentável e com o fortalecimento do controle social sobre as ações ambientais. O ACT terá vigência inicial de dois anos, podendo ser prorrogado conforme interesse das partes. 

Gestão ambiental

Para  o governador de Rondônia, Marcos Rocha, o Acordo de Cooperação Técnica representa um avanço estratégico para o fortalecimento da gestão ambiental e da integração regional. “Essa parceria demonstra que, quando unimos tecnologia, planejamento e cooperação entre estados, conseguimos oferecer respostas mais eficientes à sociedade, garantindo mais transparência, segurança jurídica e proteção ao meio ambiente”, destacou.

A coordenadora da CTI, Renata Luz, destacou que o Acordo é um avanço significativo na modernização dos sistemas ambientais e na integração de bases de dados entre os estados.

“Estamos tratando da transferência de uma solução já consolidada, com arquitetura estruturada, banco de dados geoespacial e ferramentas de visualização que garantem maior rastreabilidade das informações ambientais. Além da implantação da plataforma, o ACT prevê capacitação técnica para assegurar autonomia operacional, segurança da informação e evolução contínua do sistema, fortalecendo a governança e a gestão estratégica dos dados ambientais”, afirmou.

Leia também: Fiocruz Amazônia e Ibama-AM firmam acordo de cooperação pioneiro para investigação de patógenos em animais silvestres

Foto: Jorge Fernando/Secom Rondônia

O secretário da Sedam, Marco Antonio Lagos, enfatiza que a cooperação entre Rondônia e Acre demonstra a importância da união entre os estados da Região Norte para o fortalecimento das políticas ambientais e o desenvolvimento sustentável integrado.

“Quando os estados compartilham tecnologia, conhecimento técnico e experiências, todos avançam. Este acordo amplia nossa capacidade de gestão, fortalece a transparência e cria uma base sólida de  informações para decisões mais estratégicas, beneficiando não apenas Rondônia e Acre, mas toda a região amazônica”, ressaltou.

*Com informações da Secom Rondônia

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Foto: Reprodução/Embratur

Os tepuis são um tipo de ‘montanha tipo mesa ou meseta’ com paredes verticais e cume geralmente plano. Na Amazônia o mais famoso é o Monte Roraima, com 3,1 mil hectares e está dividido entre Venezuela, Guiana e Brasil (em Roraima)

É comum encontrá-los como formações isoladas e tipicamente formados por cristais de arenito pré-cambriano.

Tepui significa “casa dos deuses” na língua indígena dos Pemón, povo que habita a região da Gran Sabana, na Venezuela.

*Com informações da WorldAtlas e EntreParquesBR

NN Logística expande 10% e projeta novo recorde de negócios na Amazônia

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Foto: Divulgação

A NN Logística, maior feira da indústria fluvial da América Latina, amplia em 2026 seu espaço de exposição em 10%, com área total de 4.534m2 em dois pavilhões. A terceira edição da NN Logística será realizada de 22 a 24 de abril no Centro de Convenções da Amazônia Vasco Vasques, na Zona Centro-Sul de Manaus (AM).

Contando com expositores que cobrem toda a cadeia produtiva de fornecedores para a indústria naval fluvial, o evento soma 100 expositores, representando mais de 400 marcas do Brasil e do Exterior. São aguardados mais de sete mil visitantes em seus três dias.

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Fabricantes de motores como Caterpillar, Yanmar, Cummins, Mitsubishi, Volvo Penta são alguns dos expositores presentes nesta edição.

Segundo a diretora da NN Logística, Rosângela Vieira, a expectativa é de que nesta edição o volume de negócios suplante os mais de R$ 400 milhões em acordos comerciais da edição de 2025.

“Em 2025, a seca severa resultou em menor volume de mercadorias transportadas na região. As empresas de navegação e os terminais portuários sofreram, mas mesmo assim a feira proporcionou ótimos negócios aos participantes. Isso se deveu ao fato de que a indústria naval fluvial é perene e essencial na Região Norte. E, mesmo com a logística sofrendo, os negócios não pararam. Neste ano, sem as mesmas agruras ambientais, a perspectiva é de mais acordos comerciais durante a NN Logística”.

NN Logística expande 10% e projeta novo recorde de negócios na Amazônia
Foto: Divulgação

Leia também: Confira a história da construção naval no Amazonas

A feira tem como parceiros estratégicos dois eventos internacionais. No Rio de Janeiro, a Navalshore – Feira e Conferência da Indústria Naval e Offshore, realizada desde 2004 — a maior do setor na América Latina.

E em Assunção, Paraguai, a Navegistic, realizada desde 2015 e até 2023 a maior feira fluvial da América Latina — agora suplantada pela NN Logística, em Manaus. Em 2023, as duas feiras realizaram eventos paralelos em Manaus e os sócios decidiram criar a NN Eventos Ltda., responsável pela consolidação na NN Logística.

Paralelamente à feira, ocorrerá a Conferência nos dias 22 e 23 e o Ciclo de Palestras no dia 24 de abril. A Conferência neste ano tem a curadoria e organização da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Corredor Centro Norte – Adecon, e da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior – Abani.

A NN Logística tem os patrocínios master do Super Terminais e da International AkzoNobel. O credenciamento para visitação (gratuito) pode ser feito AQUI.

Bióloga destaca papel da educação ambiental na foz do Amazonas

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O oceano na região da foz do Amazonas é marcado por relações com o rio, complexidade logística e lacuna de dados científicos, o que torna a pesquisa na região mais desafiadora. Foto: Suzane Biapino

Bióloga, professora da Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e doutora em Ecologia, Janaína Freitas Calado atua há mais de uma década com educação ambiental na Amazônia. Nascida em Macapá, viveu por muitos anos no Rio Grande do Norte e hoje pesquisa a relação entre comunidades tradicionais e ecossistemas costeiros e oceânicos com foco na foz do Amazonas.

Integrante das ações brasileiras da Década do Oceano, iniciativa das Nações Unidas para implementação de iniciativas sustentáveis até 2030, Calado trabalha com o conceito de cultura oceânica, que busca fortalecer a compreensão do papel do oceano na regulação climática, na biodiversidade, na cultura e na economia — abordagem que passou a integrar o currículo escolar brasileiro a partir de 2025.

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Nesta entrevista, ela fala sobre seu trabalho e comenta percepção das populações ao início das atividades da Petrobras para prospecção de petróleo a poucos quilômetros do Amapá.

Como você construiu sua trajetória de pesquisa e como você começou a trabalhar com oceano na Amazônia?

Janaína Freitas Calado: Minha formação toda foi com ecologia de ambientes recifais. Na UEAP, atuo na área de educação ambiental, que é essencialmente interdisciplinar. Em 2016, com a publicação na Nature da descrição dos recifes da Amazônia, todo mundo aqui no Amapá falava sobre isso, pois já se tinha o pedido de licença para prospecção de petróleo de dois blocos de exploração no Amapá. T

ínhamos muita desinformação, com grupo político dizendo que os recifes da Amazônia não existiam, enquanto os pesquisadores mostravam que sim, existiam. Temos uma costa amazônica gigante, mas desconhecida. Então fui tentar entender as percepções das pessoas sobre os recifes da Amazônia no contexto da exploração de petróleo. Hoje procuro compreender a relação que o povo do Amapá tem com oceano e busco, através de metodologias participativas, promover a cultura oceânica amazônica.

Você está em uma região de muita sociobiodiversidade, perto da floresta e perto do oceano. Como você pensa a educação ambiental a partir das particularidades locais?

Janaína Freitas Calado: Redescobri o Amapá quando vim morar aqui de vez. Tem região alagada, floresta de terra firme, cerrado, rios, lagos, manguezais, a foz e essa parte recifal. Então há uma diversidade de ambientes em um espaço relativamente pequeno, o que se reflete diretamente na diversidade cultural e de uso e ocupação desses locais. Mas, apesar dessa diversidade de modos de vida, as populações tradicionais têm a relação dede interdependência com a natureza como uma característica semelhante.

Trabalhamos com comunidades que muitas vezes não estão no mapa e nem tem acesso às políticas públicas – as chamadas “comunidades invisíveis”. E por pressões do neoliberalismo, exploração da terra, conflitos ou pelas mudanças climáticas, elas podem até deixar de existir. Se os sinais da natureza começam a ficar confusos, as comunidades perdem os seus marcadores do tempo e não sabem mais quando é época de plantar ou de colher. Então, a vulnerabilidade dessas comunidades aumenta.

A pessoa vende a terra por um preço barato e vai embora. Isso transforma as comunidades tradicionais em populações pobres nas cidades, como cita a Eliane Brum. No nosso trabalho, a pesquisa deve estar na retaguarda das comunidades, buscando ferramentas de fortalecimento.

Foto: Suzane Biapino

Leia também: A dualidade da exploração de petróleo na Margem Equatorial: o que é e como afeta a Amazônia?

E quais são as principais dificuldades desse trabalho de pesquisa com as comunidades tradicionais no Amapá?

Janaína Freitas Calado: Existe o que se chama de fator amazônico, que são dificuldades logísticas e operacionais para trabalhar aqui. Se você trabalha com mergulho ou com pesca, já é tudo muito caro. Agora, na Amazônia, o custo das nossas saídas de campo é ainda maior. Eu preciso contratar barco, levar gasolina, e muitas das comunidades não têm mercado para comprar comida, então temos que levar nossos insumos. Para completar, a foz do rio Amazonas tem correnteza, tem maré. A profundidade costuma ser rasa, mas é uma região dinâmica, e isso pode mudar rápido – o que exige preparação extra.

Você tem acompanhado a percepção das comunidades da região sobre o início da prospecção de petróleo na Margem Equatorial. Qual a expectativa para a atividade da Petrobras na região?

Janaína Freitas Calado: De uma maneira geral, o que eu percebo é que populações tradicionais que dependem diretamente do meio ambiente discutem mais as problemáticas do petróleo, têm mais medo do que pode vir acontecer porque sabem que a vida depende daquilo. Populações que vivem na cidadeenxergam uma grande possibilidade de mudança de vida. A narrativa de que o petróleo vai chegar e melhorar tudo vem sendo construída há anos.

E há uma falta de comunicação com as comunidades tradicionais– pescadores, indígenas, extrativistas. As pessoas ficam sabendo do que acontece pela imprensa, de políticos festejando a aprovação da licença de prospecção ao acidente com o vazamento do fluido de perfuração. Sobre o petróleo, penso que é muito importante ter um sistema de monitoramento internacional.

A pluma do rio Amazonas alcança o Caribe. Grande parte de algum possível vazamento vai parar lá também, não fica só aqui no Brasil. Então, precisamos começar a dialogar sobre os cenários possíveis, formar parcerias internacionais e realizar pesquisas para entender as consequências – incorporando os conhecimentos tradicionais nesse processo. Além disso, o diálogo direto e transparência com as organizações da sociedade é fundamental.

Você atua construindo pontes entre o conhecimento científico e o conhecimento tradicional. O que tem aprendido nessa trajetória?

Foto: Janaina Calado/Acervo pessoal

Janaína Freitas Calado: Quem trabalha com educação ambiental é um mediador. Não levamos respostas prontas, mas construímos diálogos que conectam sociedade e natureza. Se você chega em uma comunidade tradicional trazendo o conhecimento de fora, já está errado. Uma coisa que sempre falo nas minhas aulas é que não trabalhamos com objeto de pesquisa, trabalhamos com sujeitos.

E com isso, não existe a possibilidade de eu não me envolver com esse sujeito. Porque eu tenho que explicar meu trabalho para a comunidade, que estou trazendo conhecimento científico e que eles estão trazendo conhecimento tradicional. O mais difícil costuma ser explicar para meus pares da universidade e para o revisor da revista que isso é ciência.

Você trabalha com o conceito de cultura oceânica. Como isso se aplica aos ambientes amazônicos e quais as perspectivas futuras de atuação?

Janaína Freitas Calado: Me aproximei do termo quando começamos a discussão global sobre a Década do Oceano em 2020. Faço parte do Grupo de Apoio e Mobilização da Década do Oceano na região Norte, representando o Amapá junto com a Valdenira Santos e outros pesquisadores daqui. Sou do comitê gestor do Observatório Popular do Mar, que desenvolve um projeto de ciência cidadã com pessoas na foz do Amazonas para coletar dados locais.

Todo ano desde 2021 fazemos a Semana da Década do Oceano no Amapá em junho. E outro projeto que iniciou em 2024 foi o Ecoa – Experiências e Vivências em Cultura Oceânica Amazônica. Formamos universitários de comunidades tradicionais para que retornem a essas comunidades com oficinas sobre o tema. Isso é importante porque a percepção sobre oceano ainda é muito estereotipada.

Aqui no Amapá temos poucas praias e o mar é marrom, não é azul ou verde, então parece algo distante da realidade das pessoas. Vou em muita comunidade tradicional onde as pessoas acham que todo o rio tem maré, mas isso é algo característico de rios que tem proximidade com o oceano.

Em 2025, foi aprovada a inserção da cultura oceânica na Base Nacional Comum Curricular, então, as escolas da Amazônia vão precisar de ideias de como abordá-la nos seus currículos, e queremos superar o histórico de replicar o conteúdo do Sudeste. Construímos redes de colaboração com projetos e pesquisadores de todo o Brasil, mas sempre com o protagonismo de quem está aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori