Além de se comunicar no dialeto Warao, Gabriel fala com fluência espanhol e português e arrisca frases em outros dialetos indígenas para atender as etnias que chegam em Pacaraima. Foto: Miguel Pachioni/UNHCR
Gabriel Zapata trabalha como mediador intercultural no Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados (SJMR), organização parceira da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Mora em Pacaraima, cidade do estado de Roraima que fica na fronteira norte do Brasil. No seu dia a dia, faz a identificação, atendimento e acompanhamento de pessoas indígenas que buscam proteção no país.
“No acompanhamento, eu gosto de fazer perguntas, conhecer as culturas, aprender algumas palavras do dialeto da pessoa e ter essa troca de conhecimentos”, explica.
Ele conta que é muito importante levar em consideração todas as etnias e suas diferenças: “Muitas pessoas chegam aqui e acham que como indígenas, não vão receber atenção”.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
Gabriel é indígena da etnia Warao. Ele conta que a maior demanda é justamente de sua população, mas no exercício do seu trabalho, percebeu que outras tantas etnias, por vezes, passavam desapercebidas ou não identificadas. Desde que começou na função, o mediador intercultural já mapeou 19 etnias indígenas vindas da Venezuela para o Brasil no fluxo da Operação Acolhida.
A Operação Acolhida é uma resposta humanitária do Governo Federal para responder ao deslocamento intenso de venezuelanos na fronteira entre os dois países. Tem como objetivo garantir atendimento aos refugiados e migrantes e realizar a realocação voluntária, segura, ordenada e gratuita dessas pessoas, dos municípios de Roraima para outras cidades do Brasil. Saiba mais aqui.
“Pessoas refugiadas costumam chegar a um novo país bastante fragilizadas, com muitos medos e inseguranças. Mas há grupos que chegam em situações ainda mais vulneráveis, como é o caso de pessoas indígenas. É por isso que essas pessoas precisam de apoio específico, considerando suas necessidades e particularidades de suas culturas e tradições. Viabilizar a contratação de um mediador intercultural indígena com a parceria de SJMR é oferecer conforto e confiança a essas pessoas”, destaca Davide Torzilli, Representante do ACNUR no Brasil.
Leia também: Como é a jornada dos venezuelanos acolhidos na fronteira com o Brasil?
A experiência de Gabriel no contexto humanitário começou em 2022. Ele foi voluntário em um antigo abrigo da Operação Acolhida em Boa Vista. Sua função era alfabetizar crianças e jovens indígenas para que pudessem começar a frequentar escolas brasileiras. Essa atuação chamou a atenção do Instituto Pirilampos que faz um trabalho lúdico-pedagógico em abrigos, hospitais, casas de repouso, comunidades rurais e indígenas. Contratado como mobilizador comunitário, Gabriel foi intérprete no abrigo Waraotuma a Tuaranoko.

“Meu papel era receber as informações e levar para a comunidade. Essas informações eram em português e os indígenas Warao não conseguiam se comunicar. Eu traduzia do português para o Warao. Era meio difícil. Eu ainda estava aprendendo português”, conta.
Ainda hoje ele segue com algumas tarefas de intérprete, agora traduzindo português, espanhol e Warao. Gabriel acompanha grupos que estão chegando no Brasil e precisam emitir documentos, bem como outros que já estão aqui querem renovar.
“Eu me apresento, falo o meu cargo e depois explico os serviços que presto como mediador intercultural. Eu faço eles saberem que eu vou dar atendimento por ser parte de uma etnia indígena. E que eles vão receber um atendimento diferenciado”.
A importância da representação
“Quando comecei como mediador, logo na primeira semana, chegou à Pacaraima uma família que tinha mais ou menos 36 pessoas Warao. Nesse grupo, havia uma mulher grávida. Pouco tempo após a chegada, ela deu à luz à criança. Eu já tinha feito o atendimento dela. Prestei apoio como mediador e os pais me perguntaram se podiam colocar o nome da criança de Gabriel Jesus, como forma de agradecimento a mim e aos Jesuítas. Eu estou representando essa gente também”, se emociona.

Desde 1991, o IBGE incluiu indígenas no censo demográfico nacional. Dados de 2022, registraram 1.693.535 pessoas indígenas no Brasil, de 391 etnias que falam 295 línguas. Quanto aos indígenas vindos da Venezuela em situação de refúgio ou migração no país, dados do proGres, sistema do ACNUR voltado ao registro e à gestão de casos, indicam, até março de 2026, a presença de 13.962 pessoas. Já o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) registrava, no mesmo período, 9,4 mil indígenas refugiados e migrantes cadastrados em diferentes estados do Brasil.
“É muito importante ter representação indígena numa sociedade. Assegura as tradições e culturas das várias etnias, que fazem parte da diversidade que existe aqui no Brasil”, comenta Gabriel sobre a representatividade indígena no governo brasileiro. O sonho dele, enquanto indígena Warao, é levar para a Venezuela o conhecimento que o Brasil oferece sobre representatividade indígena. “Quero demonstrar esse conhecimento às comunidades na Venezuela e que elas saibam da autonomia que se tem aqui”, explica.
Entre a cidade, à comunidade e um novo país
Gabriel é natural da cidade de Sotillo, no estado venezuelano de Monagas. Aos seis anos, seus pais o levaram para passar um tempo na comunidade Warao de sua família para que ele pudesse aprender os conhecimentos fundamentais de sua etnia.
“É uma lembrança que até hoje não esqueço. Quando fui levado para lá para conhecer como são as casas de palafita, como distribuem os afazeres e como levar esse os conhecimentos para outras pessoas. Minha avó me contou das histórias Warao dos costumes que temos na comunidade. Meu avô explicou como era o deslocamento do povo Warao navegando em rios, a responsabilidade da pesca, colheita de frutas e do trabalho do dia a dia. Eu não sabia nadar muito bem e ele me ensinou também”, conta emocionado.
Hoje em dia, Gabriel mora com parte de sua família e faz questão de se comunicar no dialeto Warao. Além da língua, ele preserva a cultura do artesanato, que também aprendeu ainda pequeno.
“O artesanato é algo que vem passando por anos e gerações. Esse conhecimento vem perseverando. O que mais guardo da minha cultura são essas manualidades. Ser Warao, é ter essa responsabilidade de manter nossa cultura viva para quem vêm depois”, reforça.
A vinda para o Brasil não foi fácil. Ele enfrentou discriminação, preconceito, dificuldades de adaptação. Mas hoje em dia, além de falar muito bem português, Gabriel tenta compartilhar com brasileiros os saberes Warao. Quando perguntado sobre uma curiosidade que gostaria de contar sobre seu povo aos brasileiros, ele não titubeou.
“Na cultura Warao, as famílias são numerosas. As pessoas [brasileiras] ficam assombradas, mas para os Warao isso é normal. E a maioria dos Warao que saem da comunidade e vem para o Brasil não comem carne”.
No Brasil, 19 de abril marca o Dia Nacional dos Povos Indígenas. A data convida a refletir sobre a importância da cultura e das tradições indígenas na construção da identidade do país ao mesmo tempo que aprofunda as discussões acerca das questões e desafios que afetam estes povos.
O trabalho do ACNUR junto às populações indígenas
Com o início do fluxo de pessoas refugiadas e migrantes da Venezuela para o Brasil, o ACNUR passou a desenvolver atividades voltadas à população indígena do país vizinho. Desde 2025, esse trabalho – incluindo a contratação de Gabriel como mediador intercultural – tem contado com o apoio do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, iniciativa das Nações Unidas, Governo do Brasil e Consórcio Amazônia Legal, com financiamento do Governo do Canadá.
No ano passado, foi assinado um Memorando de Entendimento entre o ACNUR e o Ministério dos Povos Indígenas, durante a COP30, que consolidou bases de cooperação voltadas ao fortalecimento de políticas públicas culturalmente adequadas, à ampliação da capacidade institucional de estados e municípios, à promoção da convivência pacífica entre comunidades indígenas anfitriãs e indígenas refugiada, e o apoio à liderança, participação e organização comunitária. Saiba mais sobre o trabalho do ACNUR com populações indígenas aqui.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo ACNUR, escrito por Yana Lima
