Agricultores do povo indígena Cinta Larga, pertencentes à Associação dos Produtores, Artesãos e Manejadores Indígenas (APAKKU MAAJ) de Espigão D’Oeste, no estado de Rondônia, irão entregar aproximadamente 2 toneladas de castanha-da-Amazônia para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município. O acordo foi autorizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no final do mês de março e tem duração prevista de 24 meses.
Executado pela Companhia na modalidade de Compra com Doação Simultânea (CDS) do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o projeto tem investimento de pouco mais de R$ 147 mil para apoio à comercialização, recursos que são repassados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) para a Companhia realizar a aquisição.
Além de fomentar o extrativismo e o desenvolvimento sustentável, a iniciativa destaca o papel do PAA na inclusão produtiva dos diferentes segmentos sociais abrangidos pela Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais.
A associação possui 200 membros e foi constituída em 2025, com o objetivo de comercializar matérias-primas agrícolas, entre elas a castanha-do-brasil coletada em floresta nativa. O empreendimento coletivo também desenvolve iniciativas em prol da valorização da cultura do povo Cinta Larga e da defesa dos direitos indígenas.
Criado há mais de 20 anos, no âmbito da estratégia Fome Zero, o Programa de Aquisição de Alimentos une o incentivo à produção das agricultoras e dos agricultores familiares ao fornecimento de alimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar.
O Programa é coordenado pelo MDS, em parceria com os ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e da Fazenda, e executado pela Conab, além de estados e municípios.
Por meio do PAA, a Conab compra os produtos da agricultura familiar, assegurando renda aos produtores, e os alimentos adquiridos são destinados ao abastecimento da rede socioassistencial, aos equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional, como os restaurantes populares e as cozinhas comunitárias e também, a grupos populacionais em situação de vulnerabilidade social, complementando a alimentação de quem está em situação de insegurança alimentar e nutricional.
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Castanha-da-Amazônia
Fruto da castanheira-da-Amazônia, árvore nativa da região é uma amêndoa de relevante valor nutricional, típica dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima.
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a castanha é composta de 60% a 70% de lipídios e de 15% a 20% de proteína.
Além da alimentação, é utilizada no artesanato e na produção de cosméticos, sendo uma potencial fonte de renda para os beneficiários das políticas públicas da agricultura familiar, com destaque, além dos povos indígenas, para silvicultores e extrativistas.
Premiação visa reconhecer iniciativas de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas que contribuam para a proteção dos territórios. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O Fundo Amazônia anunciou o lançamento do “Prêmio Fundo Amazônia – Conhecer e Reconhecer”, que vai selecionar iniciativas lideradas por povos indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais que contribuam para a proteção dos territórios e da floresta na Amazônia Legal.
O prêmio é uma parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), gestor e coordenador do Fundo, respectivamente. As inscrições estão abertas.
O anúncio ocorreu durante painel na tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) no Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. Serão selecionadas 50 iniciativas, sendo 15 conduzidas por organizações indígenas, 15 por organizações quilombolas e 20 por organizações de outros segmentos de povos e comunidades tradicionais. Cada iniciativa premiada receberá R$ 50 mil, totalizando o valor de R$ 2,5 milhões.
Para Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, o prêmio marca uma nova etapa na atuação do Fundo Amazônia.
“Desde 2023, o Fundo ampliou sua presença nos territórios e passa agora a apoiar diretamente iniciativas de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que já desempenham papel central na proteção da floresta. O prêmio reconhece e fortalece esses que são os principais guardiões da Amazônia”, disse Tereza.
O MMA foi representado pela diretora da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT), Claudia Regina Sala de Pinho, que comentou sobre a importância do reconhecimento das ações.
“O prêmio valoriza não apenas os povos indígenas e as comunidades quilombolas, mas também a diversidade de povos e comunidades que atuam diretamente na proteção dos territórios e na conservação da Amazônia”, afirmou Pinho.
“Ao reconhecer esses sujeitos, evidencia modos de vida fundamentados no bem-estar coletivo, na relação equilibrada com a natureza e no desenvolvimento de tecnologias ancestrais, historicamente construídas e essenciais para a proteção do bioma amazônico. Mais do que um reconhecimento simbólico, a iniciativa fortalece a visibilidade e reafirma o papel estratégico desses povos como verdadeiros guardiões da sociobiodiversidade e detentores de direitos”, pontuou.
Prêmio é uma parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), gestor e coordenador do Fundo Amazônia. Foto: Nailson Wapichana/Coiab
Prêmio reforça protagonismo
A chefe do Departamento de Gestão do Fundo Amazônia do BNDES, Fernanda Garavini (foto acima), e a gerente Ana Paula Donato (foto abaixo) apresentaram as informações sobre o prêmio, também disponíveis no site do Fundo Amazônia.
“Este prêmio é mais um passo neste reconhecimento do protagonismo dos povos indígenas e dos povos e comunidades tradicionais nessa agenda de proteção de território, de enfrentamento da crise climática e de desvelar um outro modelo de ocupação da Amazônia, um caminho ancestral”, afirmou Garavini.
“É um prêmio destinado tanto para organizações formais quanto para coletivos informais”, acrescentou Donato.
Fernanda Garavini, chefe do Departamento de Gestão do Fundo Amazônia do BNDES.. Foto: Reprodução/Youtube-coiabamazonia
Para a presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, o prêmio representa uma oportunidade de reconhecimento e fortalecimento dessas iniciativas. “Muitas vezes, as experiências realizadas nos territórios podem influenciar e incidir em políticas públicas, e isso é muito importante”, afirmou. “Esse reconhecimento se dá também por meio do aporte de recursos previsto no edital do Fundo Amazônia. Estamos aqui para reforçar o compromisso da Funai em divulgar essa iniciativa, para que os povos indígenas conheçam, compreendam o processo e possam participar. O edital foi pensado de forma mais simples, com menos burocracia, para atender às demandas dos povos indígenas”.
Quem pode participar
Podem concorrer ao prêmio coletivos e organizações de povos indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais da Amazônia Legal que desenvolvam iniciativas voltadas à proteção dos territórios e à conservação da floresta. A categoria de participação será autodeclarada no momento da inscrição, respeitando as diferentes formas de organização desses grupos.
Que tipo de iniciativa pode ser inscrita
O prêmio aceita diferentes formatos de atuação, desde ações pontuais até práticas contínuas, desde que se tratem de experiências já realizadas, com resultados concretos no território. As iniciativas devem apresentar uma base territorial identificável, permitindo compreender sua atuação prática e sua contribuição para a proteção dos territórios e da floresta.
Serão consideradas elegíveis iniciativas que atuem em frentes como vigilância e monitoramento territorial e ambiental, restauração ecológica e preservação da biodiversidade, organização social, formação e práticas culturais voltadas à gestão territorial, adaptação climática e segurança alimentar, manejo integrado do fogo e prevenção de incêndios florestais, elaboração e implementação de instrumentos de gestão territorial e ambiental, além de ações relacionadas à regularização fundiária.
As inscrições estarão abertas entre os dias 6 de abril e 6 de julho de 2026 e deverão ser realizadas por meio de edital público, com orientações disponíveis nos canais oficiais do Fundo Amazônia. O processo de seleção será conduzido em duas etapas. A primeira, de habilitação, será realizada pelo BNDES e verificará a completude das informações, a anuência coletiva e a regularidade das propostas. Na sequência, as iniciativas passarão por uma etapa de análise qualitativa, conduzida por três comissões de seleção — uma para cada categoria (indígena, quilombola e demais povos e comunidades tradicionais) — com composição interinstitucional.
Participam dessas comissões a Coiab), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), a Rede de Povos e Comunidades Tradicionais (Rede PCTs), além de representantes do governo federal (Ministério dos Povos Indígenas, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e Ministério da Igualdade Racial) e dos estados da Amazônia Legal.
As propostas serão avaliadas com base em critérios como clareza e consistência, contribuição para a proteção territorial, protagonismo de mulheres, participação de jovens e transmissão de saberes, além da contribuição para o repertório coletivo de experiências.
O cronograma prevê o lançamento e início das inscrições em 6 de abril de 2026, o encerramento em 6 de julho de 2026, a divulgação das iniciativas premiadas em novembro e a realização da premiação, acompanhada de ações de comunicação e visibilidade, entre novembro e dezembro de 2026.
Todas as informações sobre o Prêmio Fundo Amazônia – Conhecer e Reconhecer estão disponíveis no site do Fundo Amazônia.
Fundo Amazônia
O Fundo Amazônia é a maior e mais transparente iniciativa para a redução de emissões por desmatamento e degradação florestal (REDD+) baseada em resultados do mundo. Criado em 2008, tem como objetivo viabilizar o apoio nacional e internacional a projetos para a conservação e o uso sustentável das florestas na Amazônia Legal.
Em 2025, o Fundo Amazônia atingiu o maior volume anual desde sua criação, com cerca de R$ 2 bilhões em projetos aprovados. O mecanismo ampliou sua escala de atuação, avançou na restauração de áreas degradadas, expandiu o apoio a atividades produtivas sustentáveis e às ações que garantem a integridade dos territórios de povos e comunidades tradicionais que mantêm a floresta em pé.
O Fundo Amazônia também voltou a apoiar iniciativas estruturantes voltadas ao monitoramento, fiscalização ambiental e comando e controle, indispensáveis ao enfrentamento do desmatamento e dos crimes a ele associados. Nesse escopo, incluem-se iniciativas de prevenção e combate a incêndios florestais, bem como o fortalecimento das capacidades institucionais dos órgãos responsáveis pela proteção ambiental, inclusive das Forças de Segurança Pública.
A atuação do Fundo Amazônia na prevenção e combate a incêndios florestais foi ampliada para o Cerrado e Pantanal. Finalmente, as iniciativas voltadas à regularização fundiária também merecem destaque na atuação recente do Fundo.
Entre 2023 e 2025, o Fundo aprovou e contratou R$ 4 bilhões em projetos em 50 projetos — o equivalente a 58% de todo o volume apoiado desde sua criação, consolidando sua retomada operacional e ampliação de capacidade de execução.
O Pará possui o segundo maior rebanho bovino do Brasil, com 25,6 milhões de cabeças em 2024, o equivalente a 10,7% do total nacional, segundo o IBGE. Nesse cenário, o “Programa Pecuária Sustentável do Pará” surge como uma iniciativa que reúne esforços dos setores público e privado para promover uma produção mais eficiente e transparente.
Nos dias 30 e 31 de março, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) realizou o seminário ‘Dois anos do Programa Pecuária Sustentável no Pará: avanços e desafios para a agricultura familiar’. O encontro reuniu diferentes atores da cadeia para disseminar aprendizados e contribuir para a construção de recomendações, visando fortalecer o programa estadual do setor.
“Nosso principal objetivo é refletir os avanços e desafios vinculados aos três eixos principais ligados ao programa: rastreabilidade; integridade Socioambiental; e fortalecimento e Agregação de Valor, especialmente na agricultura familiar. Ao longo desses dois anos, realizamos diversos eventos e estudos que serão avaliados para indicar caminhos para que o governo do Estado e demais apoiadores, tanto do poder público, quanto da sociedade civil, possam avançar nesse programa de desenvolvimento que alia produção e conservação”, explica Edivan Carvalho, pesquisador e coordenador do IPAM no Pará.
Nas últimas duas décadas, a atividade pecuária sustentável apresentou crescimento contínuo no Pará, com expansão de 148% entre 2000 e 2024. Parte dessa produção está vinculada à agricultura familiar, que concentra cerca de 31,4% do rebanho bovino paraense. Os agricultores familiares do estado lideram a produção de leite no Estado, com estabelecimentos majoritariamente de até 200 hectares, responsáveis por aproximadamente 75% das vacas ordenhadas.
Para Ângela de Jesus, diretora executiva do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social da Amazônia (IDESA) o programa ajuda a multiplicar informações sobre pecuária e sustentabilidade. “É fundamental que possamos chegar às nossas bases da agricultura familiar para que caminhem lado a lado, a partir da qualificação e na rastreabilidade. Esse momento converge com todas as lideranças que estão engajadas nessas ações de práticas sustentáveis na nossa pecuária”.
Pecuária sustentável
O projeto completou dois anos de implementação no final de 2025. Nesse período, foram construídos acordos e aprimoradas estratégias voltadas aos principais desafios e oportunidades para a consolidação de uma pecuária sustentável no estado.
“Hoje é um momento de definição dos próximos passos no projeto da pecuária sustentável no Pará, e aqui vamos discutir com a agricultura familiar o que faremos nesses próximos dois anos. Já tivemos muitas conquistas que promoverão a pecuária do nosso Estado”, conta Bárbara Lopes, médica veterinária da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (ADEPARÁ).
Para os próximos dois anos, a iniciativa pretende avançar na consolidação das estratégias desenvolvidas, ampliando a adesão de produtores e fortalecendo os mecanismos de monitoramento, rastreabilidade e valorização da produção sustentável.
“Antes, tudo era muito voltado ao produtor rural, e o agricultor familiar ficava à margem, sem se identificar nesse lugar. Com o acompanhamento, passamos a entender melhor essa realidade e a oferecer apoio. Hoje, o programa é importante porque ajuda o agricultor a se reconhecer como produtor, a entender sua atividade e a acessar esse espaço, mesmo diante das dificuldades e da burocracia da legislação ambiental”, conta Rafaela Bitencourt, agricultora familiar no município de Curuçá.
Durante o seminário, o público teve como objetivo definir estratégias de ação, identificar gargalos e propor soluções para as iniciativas previstas até 2027. Ao todo, 93 participantes estiveram envolvidos no processo, contribuindo ativamente na validação ou contestação de cada proposta apresentada.
Cada grupo ficou responsável por debater um eixo específico do programa, aprofundando discussões sobre os principais desafios enfrentados em suas respectivas áreas. A partir desse exercício coletivo, foram elaboradas soluções alinhadas à realidade dos territórios. Por votação, os participantes expressaram seu nível de concordância com as propostas construídas, fortalecendo um processo participativo, transparente e orientado para a construção de estratégias mais eficazes e aderentes às demandas locais.
A atividade é uma realização do IPAM, Secretaria de Estado da Agricultura Familiar (SEAF), Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (ADEPARÁ), Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras familiares do Estado do Pará (FETAGRI), e Secretaria de Estado da Agricultura Familiar (SEAF); em parceria com a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (FETRAF-PARÁ), e apoio do Instituto Clima e Sociedade (ICS), da The Nature Conservancy (TNC) e do Iniciativa Internacional para o Clima e as Florestas da Noruega (NICFI).
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Ipam Amazônia
Em alusão ao Dia Mundial da Doença de Chagas (14 de abril), a Agência Estadual de Vigilância em Saúde de Rondônia (Agevisa/RO) reforçou o alerta para a prevenção e o cuidado com a saúde. A prevenção da doença é fundamental para proteger a saúde do coração, principal órgão afetado nas fases mais graves da doença.
Em Rondônia, as ações de vigilância são contínuas e reforçadas para orientar a população sobre os riscos, formas de transmissão e a importância do diagnóstico precoce.
Coordenadas pela Agevisa/RO, as ações envolvem monitoramento, identificação precoce de casos e orientação às comunidades. Causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, é transmitida principalmente pelo inseto conhecido como barbeiro, exigindo atenção redobrada em áreas onde há presença do vetor.
O coordenador estadual da doença de Chagas, José Maria Ribeiro, alerta que, embora muitas pessoas não apresentem sintomas iniciais, ela pode evoluir ao longo dos anos e comprometer seriamente o coração. Entre as complicações estão arritmias, insuficiência cardíaca e dificuldade na circulação sanguínea, reforçando a importância da prevenção e do acompanhamento médico.
Insetor vetor da Doença de Chagas. Foto: Reprodução/ Centro de Vigilância em Saúde
Doença silenciosa
Os sintomas iniciais podem ser leves, como febre, cansaço e mal-estar, ou até passar despercebidos. No entanto, com o tempo, a doença pode provocar alterações cardíacas e digestivas, impactando diretamente a qualidade de vida.
Dados da vigilância apontam que, entre 2021 e 2025, foram registrados 618 casos suspeitos no estado, com seis confirmações, além de registros da forma crônica, que evidenciam seu caráter silencioso.
A circulação do parasita também é monitorada por meio da análise de insetos vetores, com identificação de positividade em diferentes municípios, o que reforça a necessidade de manter ações permanentes de vigilância e controle, sendo a prevenção, o caminho mais eficaz para evitar complicações futuras, especialmente as cardíacas.
O diretor-geral da Agevisa/RO, Gilvander Gregorio de Lima, afirmou que as ações contam com a participação da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), municípios e laboratórios, com orientações à população sobre como agir ao encontrar o inseto transmissor e a importância de procurar uma unidade de saúde em caso de suspeita. A recomendação é não manusear o inseto diretamente e entregá-lo aos pontos de coleta ou unidades de saúde para análise.
Gel-creme fitoterápico para regeneração de pele em animais domésticos. Foto: Reprodução/Instituto Federal do Acre
O Instituto Federal do Acre (IFAC) e a Universidade Federal do Acre (UFAC) alcançaram um marco histórico para a ciência e a inovação tecnológica do estado: o depósito, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), do Pedido de Patente de Invenção da formulação do gel-creme fitoterápico Cicapet — produto desenvolvido para acelerar a regeneração de feridas em cães e gatos por meio de nanotecnologia e bioativos naturais da flora amazônica.
A conquista é fruto de um grupo de trabalho interinstitucional iniciado em maio de 2025, que reuniu pesquisadores e as equipes de inovação do Ifac e da Ufac em torno do desenvolvimento e da proteção intelectual da tecnologia.
O pedido de patente do gel-creme foi depositado no dia 3 de março de 2026, em regime de cotitularidade entre as duas instituições — uma parceria inédita que evidencia a maturidade do ecossistema de inovação acreano.
Adna Rocha de Araújo Maia e Luis Eduardo Maggi, desenvolvedores do Gel-creme fitoterápico. Foto: Reprodução/Instituto Federal do Acre
O gel-creme nasceu de pesquisa desenvolvida pela fisioterapeuta e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (PPG-Bionorte/UFAC), Adna Rocha de Araújo Maia. A tese é desenvolvida sob orientação do professor Luis Eduardo Maggi, docente da Ufac e que conta com expertise em biofísica e nanotecnologia.
Além disso, o projeto conta ainda com a cocriação do professor e pesquisador Marcelo Ramon da Silva Nunes, do Instituto Federal do Acre, que também é especialista em biofísica e nanotecnologia.
Juntos, os três pesquisadores são cofundadores da startup Cicapet, incubada na Incubadora de Empresas do Ifac, e que tem como foco desenvolver e comercializar preparações farmacêuticas fitoterápicas para animais domésticos, com foco em cicatrização e regeneração de pele de forma segura e natural, sem agredir a pele do animal.
Antes mesmo do pedido de patente, a Cicapet já vinha se destacando junto ao cenário de inovação nacional e internacional. Exemplo disso são as premiações conquistada pela startup: 2º lugar no DemoDay Inova Amazônia 2024 (Sebrae/AC), aonde recebeu prêmio de R$ 20 mil; startup destaque no Inova Amazônia Macapá 2025, além de ser selecionada como TOP 1000 Prêmio Sebrae Startups, no Startups Summit em 2024, e ter participado de eventos de inovação representando o Acre, como no caso do Web Summit Lisboa (Portugal), em 2024.
Conforme explica Adna Maia, o produto combina conhecimento tradicional da flora amazônica com validação científica rigorosa e nanotecnologia, posicionando-se como uma alternativa eficaz e sustentável aos medicamentos sintéticos convencionais para o crescente mercado pet.
“O diferencial de desenvolver um produto a partir da flora amazônica e da ciência feita no Acre está no acesso a bioativos únicos, desenvolvidos com matéria-prima fresca, rastreável e contextualizada pela cultura acreana.
Ifac e Ufac depositam pedido de patente de gel-creme fitoterápico para regeneração de pele em animais domésticos. Foto: Reprodução/Instituto Federal do Acre
De acordo com o professor Marcelo Ramon, a proteção intelectual da formulação do gel-creme, por meio do pedido de patente, é um passo estratégico para viabilizar a transferência de tecnologia e levar a inovação ao mercado.
“Essa etapa (pedido de patente) marca a transição da pesquisa acadêmica para o mercado e é o primeiro passo formal para a proteção da propriedade intelectual da formulação. Com essa proteção, a Cicapet ganha as condições legais necessárias para avançar nas negociações de licenciamento com empresas do setor veterinário e buscar parceiros para a produção do gel-creme em escala”, ressaltou Ramon.
A parceria interinstitucional foi coordenada pela Diretoria do Núcleo de Inovação Tecnológica do Ifac (NIT/Proinp), que atualmente está sob responsabilidade da professora Gabriela Cunha de Oliveira Munaretti, e pela Diretoria de Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia da Ufac, comandada por José Humberto Araújo Monteiro.
Conforme explica Gabriela Cunha, o processo encontra-se na fase de depósito do pedido de patente, formalmente aceito pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e, atualmente, em sigilo, aguardando publicação e exame técnico.
“A transferência de tecnologia é o próximo passo: transformar o resultado da pesquisa em um produto disponível e acessível aos tutores de animais domésticos em todo o país. O gel-creme tem potencial de atender uma demanda real de quem busca alternativas naturais e seguras para o tratamento de feridas em pets. Por ser desenvolvido a partir da flora amazônica, a Cicapet contribui na valorização econômica da biodiversidade regional, mostrando que ciência de qualidade pode ser feita no Acre e para o Acre”, destaca Gabriela Cunha.
Para a pró-reitora de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação do Ifac, Alana Chocorosqui, o trabalho de proteção intelectual desenvolvido pelo Ifac, em conjunto com a Ufac, é essencial no processo de assegurar proteção ao que é desenvolvido pelos pesquisadores. “Ao assegurar a propriedade intelectual, o Ifac valoriza o esforço dos nossos pesquisadores, evita usos indevidos e fortalece a capacidade de transformar pesquisa/conhecimento em soluções reais. É um cuidado para que a inovação chegue ao mercado reconhecendo o investimento público e retornando benefícios para a sociedade”.
Logo do Gel-creme fitoterápico para regeneração de pele em animais domésticos. Foto: Reprodução/Instituto Federal do Acre
Pró-reitor de Inovação e Tecnologia em exercício da Ufac, José Humberto Araújo Monteiro, acredita que apoio institucional é necessário para o sucesso da iniciativa: “O apoio institucional é o elo que transforma a criatividade científica em ativos de propriedade intelectual, garantindo segurança jurídica e gestão estratégica. Ao assumir burocracias, como o mapeamento de anterioridade e as normas do INPI, os Núcleos de Inovação (NITs) permitem que o pesquisador foque exclusivamente na ciência”.
Para o reitor do Ifac, Fábio Storch, o registro da propriedade intelectual é essencial para fortalecer o papel das instituições de ciência e tecnologia. “Ao auxiliar no processo de registro da propriedade intelectual, estamos criando e valorizando o trabalho cientifico que é desenvolvido por profissionais e pesquisadores, nas instituições de ciência e tecnologia. Além disso, é também uma possibilidade de abrir portas para novas parcerias, fomentar a inovação e fazer com que o processo científico chegue ainda mais longe”.
Além do pedido de patente do gel-creme fitoterápico, o Ifac já está trabalhando no registro de novas patentes, que são resultados de pesquisas científicas desenvolvidas por servidores da instituição e que se encontram em processo de validação junto ao INPI. A expectativa é de que, ainda em 2026, as solicitações sejam apreciadas pela autarquia federal.
Experiência do Amazonas se destaca entre iniciativas de todo o país. Foto: Divulgação/FVS-RCP
A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) conquistou, nesta sexta-feira (17), o primeiro lugar na 18ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (ExpoEpi), em Brasília.
O destaque veio com o trabalho sobre a implantação da Vigilância Baseada em Eventos Comunitários (VBEC), iniciativa que aproxima a comunidade das ações de saúde e amplia a detecção precoce de riscos.
Reconhecida como o principal evento de vigilância em saúde do país, a ExpoEpi reúne experiências que inspiram soluções práticas no Sistema Único de Saúde (SUS). E, desta vez, o Amazonas subiu ao topo do pódio.
Para a diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, o resultado celebra um caminho construído passo a passo. Ela ressaltou que estar entre os finalistas já representava um avanço importante, mas a conquista do primeiro lugar trouxe um significado ainda mais especial.
“No ano passado iniciamos o projeto piloto e, neste ano, avançamos com o lançamento envolvendo municípios como Tefé, Tabatinga e Parintins. O reconhecimento vindo de quem participou do evento mostra a força de uma estratégia que conta com o olhar atento da comunidade para identificar sinais de risco”, destacou.
Presente na premiação, o diretor técnico de Planejamento, Emergências em Saúde Pública e Ações Estratégicas em Vigilância, Augusto Zany, ressaltou o trabalho coletivo por trás da conquista.
“É um resultado construído junto com parceiros da educação, saúde e saúde indígena. Na vigilância baseada em eventos comunitários, cada pessoa tem um papel ativo no seu território. Seguimos com ainda mais disposição para ampliar essa iniciativa nos municípios do Amazonas”, afirmou.
Integração entre serviços realizada pela FVS-RCP
O trabalho de Vigilância Baseada em Eventos Comunitários (VBEC) contou com a participação da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar; das Secretarias Municipais de Educação (Semed) de Parintins, Tefé e Tabatinga; das Secretarias Municipais de Saúde (Semsa) de Tefé, Tabatinga e Parintins, por meio de suas coordenações de vigilância em saúde; além do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Médio Rio Solimões e de Parintins, também com participação do CIEVS e do PSE.
Promovida pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde, a ExpoEpi busca compartilhar experiências bem-sucedidas e fortalecer estratégias de vigilância em saúde em todo o país. Nesta edição, o debate também voltou os olhos para os impactos das mudanças climáticas na saúde pública.
A busca por caminhos que conciliam desenvolvimento econômico e conservação da floresta ganha destaque no livro ‘Bioindústrias na Amazônia: contribuições para o desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal’, entregue pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM Amazônia) a representantes da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) no dia 2 de abril, em Brasília.
A publicação, que tem lançamento oficial previsto para maio, é uma parceria entre as duas instituições e reúne um diagnóstico aprofundado com dados, análises e reflexões sobre o uso sustentável da biodiversidade, apontando possibilidades para fortalecer cadeias produtivas e valorizar os saberes das comunidades locais.
As bioindústrias se inserem em um modelo produtivo que tem como base o uso de recursos da biodiversidade, como plantas, sementes e outros insumos naturais, para a produção de alimentos, cosméticos, fármacos e outros produtos de valor agregado.
O livro é resultado de pesquisa que mapeou empreendimentos, cadeias produtivas e diversas áreas de território da bioindústria na Amazônia Legal, combinando dados, visitas de campo e diálogos com comunidades, pesquisadores e gestores.
Para Gabriela Savian, diretora de Políticas Públicas do IPAM, a bioindústria na Amazônia não parte do zero — ela já existe, está distribuída nos territórios e envolve milhares de empreendimentos e quase um milhão de pessoas, como levantado pelo estudo.
“O livro evidencia que o principal desafio não é criar novas iniciativas, mas dar condições para que essas experiências ganhem escala, agreguem mais valor local e se conectem a uma estratégia de desenvolvimento mais estruturada”, aponta.
A publicação traz uma definição de bioindústria adaptada à Amazônia, destacando a sustentabilidade, a valorização dos conhecimentos tradicionais e apontando desafios, como a falta de infraestrutura, além de sugerir ações para fortalecer o setor.
“Os dados e análises apresentados reforçam que a bioindustrialização precisa ser tratada como uma agenda integrada de política pública, articulando inovação, financiamento, infraestrutura e conservação. Quando bem coordenada, ela tem potencial não apenas de gerar renda e emprego, mas de reposicionar a Amazônia como parte central da economia do futuro, alinhada à transição ecológica”, afirmou Savian sobre o livro.
A bioindústria na Amazônia está diretamente ligada ao reconhecimento do papel das populações amazônicas na gestão desses recursos. Ao valorizar conhecimentos tradicionais e práticas locais, esse modelo contribui para ampliar a participação de comunidades na economia, ao mesmo tempo em que fortalece estratégias de conservação e uso responsável da biodiversidade.
“É uma grande honra ver a ABDI nessa parceria com o IPAM, entregando à sociedade e às instituições, representadas pelo vice-presidente da República, pelos bancos financiadores e por demais organizações, um produto com um nível de profundidade inédito sobre a bioindústria da Amazônia. Recursos para a bioindústria existem. O que estamos apresentando é onde ela está, quais são os gargalos e quais são suas potencialidades, para que possamos promover cada vez mais desenvolvimento para a Amazônia, sempre com olhar atento e respeito à floresta”, afirmou Perpétua Almeida, diretora de sustentabilidade da ABDI.
Estudos e iniciativas recentes, como o mapeamento de empreendimentos ligados à sociobiodiversidade realizados pela ABDI e o IPAM, apontam a necessidade de criar ambientes favoráveis para que essas cadeias produtivas gerem renda, inclusão social e respeito aos territórios, mostrando que a bioeconomia pode ser um vetor de crescimento alinhado à conservação ambiental no bioma amazônico.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia, escrito por Suellen Nunes
A Nota Técnica ‘Contribuições da Avaliação Ambiental Estratégica para o planejamento de transportes na Amazônia’, publicada no dia 2 abril, defende a incorporação da Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) ao planejamento federal de transportes como forma de enfrentar a ausência de análise sistemática dos impactos socioambientais associados ao avanço de corredores logísticos na Amazônia.
O documento foi elaborado como parte do projeto de pesquisa “Avaliação de impactos cumulativos no Xingu”, desenvolvido pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA).
O texto é destinado à sociedade civil e atores do poder público, especialmente aqueles envolvidos nas decisões sobre o planejamento de transportes no país, e no contexto de elaboração do Plano Nacional de Logística 2050. O objetivo é apresentar recomendações para que o setor federal de transportes passe a considerar riscos e impactos socioambientais de forma mais ampla e preventiva.
O problema destacado no documento “Avaliação de impactos cumulativos no Xingu” está concentrado nos corredores logísticos amazônicos do chamado Arco Norte, com destaque para as rotas que utilizam os rios Tapajós, Madeira e Tocantins como hidrovias para o escoamento de commodities agrícolas. A nota aponta que, ao longo de pouco mais de uma década, essas rotas deixaram de ser secundárias e passaram a ocupar posição central na logística de exportação brasileira.
“Dados de desempenho aquaviário da ANTAQ (2026), os portos do Arco Norte já respondem mais do que as rotas tradicionais pela movimentação de soja e milho no país, chegando a um volume de exportações de 56,5 milhões de toneladas no ano de 2025, um crescimento de quase 10 vezes em apenas 15 anos”, aponta o documento.
Rio Madeira. Foto: Leandro Morais/Defesa Civil de Porto Velho
“Em 2025, ainda de acordo com a ANTAQ, as principais cargas transportadas por hidrovias no país foram soja (31,8 mton) e milho (20,2 mton), sendo que a região Norte respondeu por 74,1% da navegação interior do país neste ano”, completa.
De acordo com a publicação, essa expansão ocorre porque os corredores oferecem ganhos logísticos, com redução de distâncias e custos, mas seus efeitos cumulativos, territoriais e regionais, vêm sendo tratados de forma insuficiente no planejamento de transportes. Essa falha de avaliação, segundo o documento, ajuda a explicar a persistência de conflitos sociais e territoriais na Amazônia.
Mariel Nakane, economista do ISA defende a importância dessas mudanças na política de transportes. “Os impactos cumulativos dos corredores logísticos no interflúvio Tapajós-Xingu, na bacia do Madeira e na bacia do Tocantins, nunca foram considerados pelo governo. Essa lacuna precisa ser suprida na política de transportes, porque se trata de avaliar se fomentar os corredores logísticos na Amazônia é a melhor opção de política pública do ponto de vista socioambiental. Essa é uma pergunta fundamental e estratégica que precisa ser respondida de forma dialógica considerando as realidades dos territórios”, afirma.
Etapas para implementar a Avaliação
Como encaminhamento, a nota elenca um conjunto de etapas para implementar a AAE no planejamento de transportes, entre eles, definição dos objetivos estratégicos, consulta pública, identificação de questões relevantes, articulação com outras políticas territoriais, análise de alternativas, mapeamento de riscos e oportunidades, elaboração de relatório e monitoramento contínuo por meio de indicadores sociais e ambientais.
“Atualmente, os impactos ambientais e sociais decorrentes dos corredores logísticos na Amazônia não são devidamente considerados. Os impactos são avaliados de forma fragmentada no âmbito do licenciamento, sendo negligenciados os seus efeitos cumulativos. Argumentamos então que precisamos de uma avaliação estratégica desses impactos, para melhor integração de planos de desenvolvimento, planos de uso do solo e os planos de diferentes setores que são de interesse no desenvolvimento de corredores logísticos que englobam diferentes modais de transporte”, diz Juliana Siqueira-Gay, da Poli/USP.
Na avaliação das autoras, esse caminho permitiria ao Brasil deixar uma postura reativa para ter atuação mais sistemática, proativa e estratégica, orientando o planejamento da infraestrutura com base em limites ecológicos, valores socioculturais e realidades territoriais.
Documentário ‘Anna Karoline III: A história que o rio nunca esqueceu’ tem cerca de 50 minutos. Foto: Divulgação/GEA
Após seis anos do naufrágio do navio Anna Karoline 3, uma produção audiovisual conta a história de uma das maiores tragédias da região amazônica. O telefilme ‘Anna Karoline III: A história que o rio nunca esqueceu’ tem cerca de 50 minutos e reúne relatos inéditos de sobreviventes, familiares de vítimas e profissionais que atuaram no resgate, reconstruindo, pela memória, os momentos que marcaram o naufrágio da embarcação.
De acordo com um dos diretores da produção, Thomé Azevedo, o documentário busca se aproximar do chamado “cinema verdade”.
“Podemos dizer que este filme retrata sofrimento, perdas e momentos de grande dor. Mas é uma peça importante para a memória dessas tragédias que acontecem na Amazônia”, afirma Thomé Azevedo, produtor e responsável pelas entrevistas.
A narrativa é construída principalmente a partir de entrevistas com pessoas diretamente afetadas, que relembram detalhes do dia da tragédia — desde os motivos da viagem até os momentos que antecederam o desastre.
Além dos relatos de vítimas e familiares, o telefilme também traz contribuições de profissionais que atuaram na ocorrência, como equipes da Polícia Técnico-Científica, Corpo de Bombeiros e forças de segurança, além de jornalistas que acompanharam a cobertura.
“Mais do que revisitar o passado, a obra também busca provocar reflexão e conscientização. O filme aponta para a importância de medidas preventivas em viagens fluviais, como a verificação das condições das embarcações e cuidados básicos de segurança, contribuindo para evitar novos acidentes”, destaca o diretor Marcelo Nobre.
Navio Anna Karoline 3 após ser içado. Foto: Divulgação/GTA
Lançamento e exibição
O telefilme teve uma exibição especial em formato avant-première no Cine Movieland nesta sexta-feira (17), em sessão reservada para familiares das vítimas, autoridades e participantes da produção. A produção foi disponibilizada gratuitamente ao público no canal oficial da Duas Telas Produtora Cultural no YouTube.
A produção foi realizada por duas produtoras privadas em um projeto que foi aprovado no edital nº 003/2023 da Secretaria de Estado da Cultura do Amapá (Secult-AP), por meio da Lei Paulo Gustavo, voltado à produção de telefilmes no estado.
Relembre o naufrágio do navio Anna Karoline 3
No dia 29 de fevereiro de 2020, o navio Anna Karoline 3 naufragava, entre o Amapá e o Pará, deixando 40 mortos, 51 sobreviventes e ainda 2 desaparecidos.
A viagem partiu de Santana, a 17 quilômetros de Macapá, em direção a Santarém, no Sudoeste do Pará), mas a tragédia aconteceu no meio do caminho, entre os rios Amazonas e Jari.
A investigação da Polícia Civil do Amapá apontou que o navio estava com 70% de sobrecarga. A embarcação deveria carregar, no máximo, 100 toneladas, mas no dia do naufrágio, transportava cerca de 175 toneladas.
José Américo na divisa do Estado do Amazonas com o Território Federal de Rondônia. Foto: José Américo/Acervo pessoal
Por Dudu Monteiro de Paula
Há 50 anos, dois manauaras decidiram desafiar a selva e também o senso comum: José Américo e Rubens Carneiro. A dupla pegou bicicletas simples e mochilas leves com o objetivo de chegar à Porto Velho (RO) em uma viagem pela BR‑319. No total, 885 quilômetros de viagem.
Acompanhe as informações históricas de José Américo Reis Vieira no texto de Maristela Dorigo, cedido para divulgação:
Cinquentenário Manaus – Porto Velho – Manaus: de bicicleta na BR-319
No último mês de fevereiro, completou 50 anos da aventura pela Amazônia. Às vésperas da inauguração da BR 319, em 1976, dois desbravadores manauaras, José Américo Reis Vieira e Rubens Carneiro, se lançaram numa aventura para percorrer de bicicleta os 885 km que separam Manaus de Porto Velho. Atravessaram a Amazônia pela BR 319, fazendo ida e volta em 8 dias, num total de aproximadamente 2000 km, pois além do citado percurso Manaus – Porto Velho – Manaus, ainda desviaram uns 200 km indo para Lábrea.
Foto: José Américo/Acervo pessoalFoto: José Américo/Acervo pessoal
A ideia de fazer esta viagem de bike surgiu a princípio em fazer uma experiência para sentir o quanto poderiam pedalar sem apoio e sem carregar alforges. A intenção era uma pedalada de Manaus à São Paulo até a fábrica da Monark que calcularam poder fazer em menos de um mês.
Saíram de Manaus no dia 3 de fevereiro, levando uma pequena mochila com alguns provimentos, tipo rapadura e carne desidratada (importada), ovos cozidos, algumas frutas, rede de nylon que cabia num copo, uma faca, uma garrafa de água que abasteciam no rio, pílulas contra a malária, máquina fotográfica Olympus tríplice 35, lanterna fixada no guidão e muita loucura.
Encontro com policiais rodoviários com carro Brasília do ano. Foto: José Américo/Acervo pessoalEncontro com agricultor paranaense – Sr. Batista que nos deu uma refeição. Foto: José Américo/Acervo pessoal
Muitos fatos ocorreram durante a viagem. Certo dia cruzaram com a Polícia Rodoviária Federal (detalhe na foto — carro Brasília do ano e calças pantalonas), que os interpelou para saber o que estavam fazendo naquela estrada. Ao tomarem conhecimento de que vinham de Manaus em direção à Porto Velho, os chamaram de loucos, dizendo que se os índios os pegassem, iriam matá-los e das bicicletas fazer ponta de flecha. Sabiam que estavam com fome e lhes deram “bolacha de motor” e guaraná e assim seguiram viagem.
Numa madrugada em que dormiam com a cabeça recostada na mochila feito travesseiro, num recuo próximo à estrada, por ser mais quente devido ao calor acumulado pelo asfalto durante o dia, ouviram esturros de onças. Era por volta de três horas e num salto apanharam suas coisas e saíram pedalando desabalados. Após uma hora de pedalada ainda ouviam as onças, o que os levou a pensar que estavam os seguindo ou estavam indo justamente ao encontro destas.
José Américo atravessando uma ponte sobre igarapé. Foto: José Américo/Acervo pessoal
Foi assustador ouvir os esturros de onças ecoando pela selva.
Não menos assustador era passar sobre cobras à noite. Eram muitas que vinham para o asfalto. Durante o dia era fácil desviá-las, mas na calada da noite sentiam apenas o solavanco ou quando estas se enroscavam na bicicleta, tinham de ser rápidos em levantar as pernas e pular da bike. Restava a tarefa de, munidos de lanterna, retirar a peçonhenta. O medo era encontrar uma sucuri ou um jacaré “passeando” pelo asfalto. Era comum vê-los durante o dia, parados feito pedras na estrada.
Os perigos eram muitos. Causava muita tensão o fato de os alertarem sobre a existência de uma tribo nômade. Graças a Deus não tiveram a infelicidade de encontrá-los.
José Américo durante a pedalada. Foto: José Américo/Acervo pessoal
Também é curioso o fato de certo dia em que dormiam num paiol cedido por administradores de uma fazenda (produtora de arroz), Américo alertou o amigo para deixarem as bicicletas de ponta cabeça, com o selim e guidão no chão, e assim evitarem que ratos roessem os pneus. Foi a decisão certeira. Ao acordarem pela manhã, constataram que os punhos estavam roídos. Se fossem os pneus, teriam arranjado uma grande encrenca.
Certa noite, na parada para espera da balsa que fazia a travessia do rio, pediram a um caminhoneiro se poderiam dormir debaixo do caminhão e assim que amanhecesse, os acordasse antes de entrar na balsa. Ainda bem que o motorista não esqueceu de acordá-los.
Algumas travessias de rios foram feitas de canoas para não perderem tempo à espera das balsas.
Travessia de canoa. Aí vai a bicicleta bem amarrada. Foto: José Américo/Acervo pessoal
Outro fato que não caiu no esquecimento foi o dia em que pediram pouso na casa de um colono e os administradores ofereceram um guisado de carne. Comeram que se lamberam até saberem no dia seguinte que haviam degustado carne de macaco — viram até o couro do animal pendurado ao sol. O estômago se revirou de imediato.
Procuravam pedalar longos trechos à noite, pois durante o dia o calor era intenso e por diversas vezes aproveitavam para banharem-se nos igarapés e, na ocasião, molhavam uma camiseta extra para então enrolarem na cabeça, que além de proteger do sol ainda podiam pedalar mais um longo trecho com cabeça e corpo refrescados.
José Américo num banho de igarapé para refrescar. A tubulação passava sob a rodovia. Foto: José Américo/Acervo pessoal
As histórias são muitas e a cada episódio relatado, um novo vem à tona como um fio de meada.
Há algumas fotos icônicas da viagem que acabaram por se tornarem o símbolo da mesma. A foto da parada na divisa dos territórios, na placa em madeira onde se lia: BR 319 DIVISA — EST. AMAZONAS — T. F. RONDÔNIA (naquela época ainda era Território Federal).
José Américo na divisa do Estado do Amazonas com o Território Federal de Rondônia. Foto: José Américo/Acervo pessoal
A outra foto é um registro onde Américo aparece com sua bicicleta, segurando um mutum que foi abatido por um caboclo da região. Na oportunidade foram convidados a degustarem a ave então cozida com mandioca e urucum.
Chegando em Humaitá. Ao fundo se vê o Quartel.Rubens Carneiro na hidratação durante a pedalada.José Américo com um mutum caçado por um caboclo da região.José Américo na famosa foto carregando um mutum.José Américo com o almoço que acabara de pescar.Rubens Carneiro pedalando no asfalto da BR 390
Durante o trajeto, desviaram por vários quilômetros em direção à Lábrea, mas não foram até a cidade, retornando para a BR 319 e ao anoitecer chegaram em Humaitá, onde pernoitaram. Por volta das seis horas da manhã partiram em direção à Porto Velho. Atravessaram o Rio Madeira de balsa e logo chegaram ao destino no centro da cidade. Foram recepcionados pela imprensa — Jornal Alto Madeira, por vários moradores e curiosos, além do Governador de Rondônia, que ofereceu estadia no Hotel Floresta e alimentação. Após dois dias de descanso, retornaram a Manaus.
No trecho em direção à Lábrea. Foto: José Américo/Acervo pessoal
A chegada na capital amazonense foi na Rua Carvalho Leal, defronte ao DER na Cachoeirinha, ao lado do antigo Cine Ipiranga, em frente ao Sanatório Adriano Jorge, especializado em tratamento de tuberculose.
Foram muitas as dificuldades encontradas, mas prevaleceu a vitória da conquista.
Os casos de malária eram tantos à época que surgiu a piada de que até os macacos contraíam a doença e, se oferecessem uma banana ou uma pílula contra malária para os primatas, estes escolheriam na certa a pílula.
José Américo na balsa da travessia do Rio Madeira. Chegando em Porto Velho. Foto: José Américo/Acervo pessoal
Ainda neste ano de 2026, em comemoração aos 50 anos da aventura, José Américo pretende voltar ao Amazonas para realizar parte desta façanha, fazendo um trecho de ida.
Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.