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Nova espécie de imbaúba descoberta em Manaus é classificada como vulnerável

Foto: Daniel Praia Portela de Aguiar/Acervo pessoal

A biodiversidade da Amazônia tem uma nova representante. Uma nova espécie do gênero Cecropia, que reúne árvores chamadas localmente de imbaúbas ou imbaubeiras, foi identificada em Manaus (AM). Batizada de Cecropia manauara, é a décima espécie do gênero identificada na Amazônia Central e está descrita em artigo publicado na revista Acta Botanica Brasilica nesta sexta (28).

O trabalho envolveu pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), do Instituto de Pesquisas Ambientais de São Paulo (IPA) e instituições parceiras. A equipe avaliou o status de conservação da Cecropia manauara seguindo os critérios da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN).

A raridade dessa nova espécie pode estar ligada à sua baixa densidade populacional e ao fato de crescer em regiões de rápida urbanização. Além disso, o acesso limitado por estradas pode ter dificultado seu registro em outras localidades.

A descoberta foi realizada durante um levantamento das espécies de imbaúbas em Manaus conduzido por Daniel Praia Portela de Aguiar, agente técnico-engenheiro florestal do Ministério Público do Estado do Amazonas, para a produção de um guia de identificação das espécies do gênero Cecropia da cidade. Entre os exemplares coletados, um indivíduo chamou a atenção por apresentar um conjunto de características que não se encaixavam em nenhum táxon descrito.

“Quando iniciamos a coleta de materiais para o livro não tínhamos a pretensão de descobrir espécies novas, pois acreditávamos que as imbaúbas, por serem árvores bastante comuns e relativamente fáceis de serem acessadas, já eram bem delimitadas na literatura”, conta Praia.

Para confirmar a C. manauara como uma nova espécie, os cientistas usaram um método taxonômico integrativo, analisando cerca de 5.750 amostras de Cecropia em herbários e realizando expedições de campo em trechos de floresta nativa na região de Manaus entre 2018 e 2021. As amostras foram comparadas com espécies conhecidas, considerando características como folhas, flores, indumento (presença de pelinhos) e frutos. Além disso, foram realizadas análises genéticas para comparar o DNA da planta com outras espécies próximas. A confirmação veio com o sequenciamento molecular conduzido em São Paulo por André Gaglioti, do IPA.

O achado é ainda mais significativo considerando que a última espécie de imbaúba foi descrita há mais de duas décadas, em 2002, nos Andes Peruanos. Além da Cecropia manauara, mais duas novas espécies de Cecropia foram identificadas durante o levantamento e estão em processo de descrição taxonômica.

A nova espécie é uma imbaúba de 10 a 20 metros de altura, folhas grandes chegando a até 55 centímetros de largura e divididas em oito a nove segmentos que se abrem como uma mão, característico do gênero. Com relação à morfologia, Praia explica que a C. manauara não tem uma característica que se destoa das demais. Mas, ao olhar para o conjunto é possível perceber que ela forma um padrão que não se encaixa perfeitamente em nenhuma outra espécie da região. Ou seja, cada pedaço da C. manauara pode ser encontrado em outras imbaúbas – mas quando combinados, tornam a espécie única.

Embora apenas duas amostras tenham sido coletadas dentro de áreas protegidas, outras reservas podem ser fundamentais para sua conservação.

“A descoberta de C. manauara ressalta a urgência de conservação dos fragmentos de floresta nativa encontrados em área urbana assim como a formação de mais especialistas em Cecropia. Esperamos que a publicação dessa nova espécie contribua para despertar o interesse e valorização do gênero”, finaliza Praia.

DOI: https://doi.org/10.1590/1677-941X-ABB-2023-0159

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Portal Amazônia responde: o que são Parnas?

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Foto: Fernando Sette

Parna é a sigla de ‘Parques Nacionais’, locais delimitados com o intuito de preservar os ecossistemas naturais de grande importância ecológica. Em função disso, tornam-se fontes preciosas de pesquisas científicas. 

Essas áreas de conservação ambiental costumam ser procuradas por quem gosta de contato com a natureza e atividades ao ar livre, sendo também propícias ao ecoturismo.

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Assim, os parques nacionais são patrimônios históricos e de preservação. A Amazônia, segundo a World Wildlife Fund (WWF) – o Fundo Mundial para a Natureza), é a região que mais possui parques nacionais  preservados no país. 

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a visitação é permitida nesses locais conforme as condições do Plano de Manejo e normas do órgão administrador. A pesquisa científica necessita de autorização prévia, sujeita a condições e restrições estabelecidas. 

Curiosidades sobre os Parnas 

O Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, por exemplo, é o maior parque nacional do Brasil, com mais de 3,8 milhões de hectares. Ele fica na divisa entre o Amapá e o Pará. 

O Parque possui algumas espécies raras como, o peixe matupiri, encontrado em uma expedição no maior parque de floresta tropical do mundo.

Leia também: Conheça o PARNA Montanhas do Tumucumaque, considerado o maior parque do Brasil

Foto: Luciano Candisani/WWF

Coletado por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), a descoberta desse peixe pode ser inédita para a ciência. O exemplar de matupiri é maior do que os outros indivíduos já catalogados na Amazônia.

Saiba mais: Pesquisadores amapaenses encontram maior matupiri já catalogado na Amazônia

Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP

Outra curiosidade vem do Parque Nacional de Anavilhanas, no Amazonas, que são as permanentes ilhas fluviais que formam o segundo maior arquipélago fluvial do mundo, o arquipélago de Anavilhanas, com uma composição de raras dimensões que mudam completamente de acordo com o nível das águas. 

Foto: Ivo Brasil

Quando se trata da vegetação, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) destaca o Parque de Anavilhanas como um berçário natural das macucos gigantes de igapó (Tinamus major, uma espécie de ave), as macacarecuias (árvores), as orquídeas e bromélias, que são destaque entre os atrativos naturais da flora.

Sem esquecer do grande serviço de proteção de três espécies carismáticas de mamíferos aquáticos: o boto-vermelho, o boto tucuxi e o peixe-boi.

Foto: Rafael Pinto

58º Festival Folclórico de Parintins é lançado no Amazonas

Lançamento do 58º Festival de Parintins. Foto: Divulgação/Secom AM

O governo do Amazonas lançou oficialmente, na sexta-feira (28), o 58º Festival Folclórico de Parintins, abrindo a temporada de eventos dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido para 2025. O evento foi realizado no Teatro Amazonas com a participação dos itens oficiais e torcedores das duas agremiações.

Este ano, o festival será realizado nos dias 27, 28 e 29 de junho, último fim de semana do mês de junho.

De acordo com o Governo do Amazonas, de 2022 a 2024, mais de 340 mil turistas passaram por Parintins durante o período da festa bovina, gerando emprego, renda e movimentando mais de R$ 438 milhões na economia amazonense.

“A expectativa que manteremos a mesma média de visitantes do ano passado e esperamos a geração de 184 mil reais na economia do estado e a geração de 20 mil empregos diretos e indiretos no festival desse ano”, declarou o governador Wilson Lima durante o evento.

A festa folclórica, que já é tradicional no calendário cultural amazonense, ocorre no Bumbódromo de Parintins, no interior do estado. As duas agremiações defendem um tema.

Este ano, o Boi Caprichoso vai defender o tema ‘Tempo de Retomada’. “A gente sempre faz um estudo pra ser maior e melhor , a régua esse ano está lá em cima”, destacou o presidente da agremiação, Rossy Amoedo.

Já o Boi Garantido vai trabalhar esse ano, o tema ‘Boi do Povo, Boi do Povão’. “Fazemos um festival que mostra a humanidade, mostra a parte humana pela arte”, afirmou o presidente do Garantido, Fred Góes.

Após a abertura oficial, a temporada terá início com os Ensaios dos Bumbás, que começam neste sábado (29), no Sambódromo. A programação segue até o final de junho, período da festa na Ilha Tupinambarana.

‘Cataratas’ de Santo Antônio: cachoeira é aposta de turismo no Amapá

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Foto: Divulgação/Fecomércio-AP

As cachoeiras de Santo Antônio, localizadas no município de Laranjal do Jari, no Amapá, são um dos destinos mais fascinantes e ainda pouco explorados da Região Norte do Brasil. Com quedas d’água que despencam a uma altura de 30 metros, o local é um verdadeiro refúgio de beleza natural e tranquilidade. Situada a aproximadamente 270 km de Macapá, a capital do estado, a cachoeira se revela como uma nova aposta turística.

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Existem diversas formas de acessar a Cachoeira de Santo Antônio. Uma das rotas mais populares é por meio de embarcações que partem da orla de Laranjal do Jari, com duração de aproximadamente 45 minutos até o destino.

Para quem busca uma alternativa terrestre, a viagem pode ser feita de carro até a comunidade Padaria, de onde os visitantes podem seguir o restante do percurso de embarcação. Além disso, há a possibilidade de percorrer o trajeto completamente por terra, uma opção que atrai aqueles que preferem explorar a natureza ao longo do caminho.

Em 2025, o turismo local pode ganhar um novo impulso com a implementação de passarelas suspensas para contemplação da cachoeira. Essa iniciativa, que busca oferecer uma experiência única aos visitantes, é inspirada nas passarelas das Cataratas do Iguaçu, no Paraná, e tem como objetivo permitir que os turistas caminhem por cima das quedas d’água.

Leia também: Barcelos tem a maior cachoeira do Brasil

Foto: Divulgação/Fecomércio-AP

A proposta está em análise pelo Governo do Estado do Amapá e pela Prefeitura de Laranjal do Jari. Em janeiro deste ano, uma empresa especializada realizou o georreferenciamento, topografia e perfuração do solo para o estudo da viabilidade da obra.

A área escolhida para a construção da passarela está localizada ao lado da comunidade Santo Antônio da Cachoeira, pertencente a Laranjal do Jari. Contudo, o secretário de Turismo do município, Jairo Guerreiro, destaca que ainda não há uma previsão para o início das obras, pois o projeto segue em fase de levantamento.

Além de ser um destino turístico promissor, a região da Cachoeira de Santo Antônio abriga a UHE Santo Antonio do Jari, que aproveita a queda natural do rio Jari. A usina foi a primeira hidrelétrica do País a ser construída a partir do conceito “usina-plataforma”, inspirado nas plataformas petrolíferas, onde não há impacto ambiental significativo no entorno do empreendimento, após a finalização das obras.

Foto: Reprodução/CTG Brasil

A metáfora do ovo na frigideira

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Cleverson é um companheiro de jornada e de ideais. Parece nervoso e inquieto. Ele se contorce na cadeira, sinalizando que quer manifestar alguma discordância ou reclamar de algo, mas sem ser agressivo. Escolhe as palavras e por final exclama: “não dá para falar em felicidade com tudo que está acontecendo”.

Em seguida, Cleverson cita vários fatos que incluem: a questão política do nosso país, o comportamento da mídia, a situação econômica, a questão climática, as ameaças de Trump e as guerras da Ucrânia e da Palestina. “Como a gente pode falar em felicidade e ficar indiferente com tudo que está acontecendo? Chega a ser egoísmo. Tenho dormido com dificuldade e não consigo deixar de pensar em quantas pessoas estão sofrendo”.

Sem entrar no mérito nas questões levantadas, eu me solidarizo com os sentimentos do Cleverson, que revelam uma elevada consideração com a felicidade de outras pessoas e não apenas a dele mesmo ou a de sua família. Talvez outros se sintam assim, o que não deixa de ser bom. Aproveito a positiva indignação do Cleverson para refletir sobre o assunto.

Incialmente, me vem à mente a missão do MCI e o propósito de trabalhar para a construção consciente de felicidade. Este propósito seria incompatível com uma visão realista dos acontecimentos?

Penso que ao contrário. O próprio conceito de consciência se opõe à ideia de alienação. A construção consciente de felicidade abrange a percepção da realidade como primeiro passo e, em segundo, por uma decisão deliberada de lidar com esta realidade da melhor maneira, em termos de pensamentos e ações práticas. No conjunto, é fazer a nossa parte, no que estiver ao nosso alcance.

Utilizo com frequência a metáfora do ovo na frigideira que aprendi com a coach e professora Eliana Dutra. Nela existe a gema do ovo, representando o que está sob a nossa gestão; a clara do ovo, simbolizando o que não está sob o nosso controle, mas que podemos influenciar diretamente e, finalmente, a parte da frigideira, onde se situam as coisas em que a nossa influência é distante, quase que nenhuma, ou indireta. Prefiro pensar que sempre poderá ser indireta.

É o caso de vários acontecimentos que fogem à nossa gestão ou à nossa influência direta, como a violência. Ela não está só nas guerras, mas em todos os níveis e lugares, nas famílias, nas empresas e no nosso cotidiano. Nossa maneira de pensar e de agir podem contribuir para alimentar ainda mais a violência ou, ao contrário, disseminar a paz e a harmonia. É uma influência indireta, na esfera da frigideira, seguindo a metáfora.

É também o que ocorre com a felicidade. Ela possui um poder irradiador, conforme provado em inúmeros trabalhos da psicologia, sendo explicado também pela neurociência. Uma única pessoa feliz faz diferença no mundo. Contribuir para que mais pessoas e empresas evoluam quanto à sua felicidade é a missão e é o propósito do MCI, uma associação sem fins lucrativos que reúne pessoas com este ideal.

Isto não quer dizer que não nos indignemos com diversas situações existentes, seja por princípios, por solidariedade, ou porque nós também somos atingidos por elas. Cada um do seu jeito as combate, às vezes, com outros “chapéus”, como cidadãos ou por meio de outras instituições. Quando nos reunimos no MCI, nosso trabalho maior é difundir a prática de princípios e exercícios que, se praticados, tornarão o mundo melhor.

A metáfora do ovo na frigideira pode ser útil em pequenas e em grandes questões, seja na família, no trabalho, na sociedade ou nos diversos papéis que cumprimos. A situação está no nosso âmbito de gestão? Podemos exercer alguma influência direta? Ou nossa contribuição será apenas indireta, pela maneira de melhorar a nós mesmos e os nossos atos?

A resposta pode ajudar a nossa vida a ser mais leve, liberando energia para fazer a nossa parte, sem perder de vista o que está fora de nosso alcance. Desejo que o Cleverson preserve seus sentimentos e indignação, mas que não sofra. O mundo precisa dele. Na construção consciente de felicidade, há muito o que fazer.

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Estudo analisa expansão urbana e sustentabilidade ambiental nas ilhas de Belém

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Foto: Divulgação

Para além da Belém metrópole, há a Belém das ilhas. São 42 ao todo, compondo uma capital diversa, com cidade, floresta, praias e biodiversidade amazônica. Mas muito dessa diversidade ainda é desconhecida. Foi buscando aprofundar esse conhecimento que a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) desenvolveu o “Boletim das Ilhas”, um estudo com informações detalhadas sobre as ilhas da capital paraense e suas características únicas.

O objetivo é produzir e divulgar informações científicas voltadas para o benefício da sociedade em geral, fornecendo subsídios para a tomada de decisões, educação e planejamento de ações sustentáveis por parte de gestores, acadêmicos e sociedade civil. 

Cada estudo contém mapas sobre a altimetria, relevo, uso e cobertura da terra, além da espacialização de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tais como: a malha censitária e espécies de endereços. A partir dos dados, é realizada a delimitação das ilhas em unidades geoambientais, considerando características especificas em cada unidade.

A delimitação das ilhas em unidades geoambientais, considerando os aspectos físicos e sociais, mostra-se como ferramenta para o planejamento e gestão territorial, auxiliando no desenvolvimento sustentável das ilhas.

Foto: Divulgação

“Conhecer os elementos físicos e sociais que formam a dinâmica ambiental de cada paisagem é fundamental para compreendermos o cenário em que cada ilha se encontra, entendendo suas particularidades já que correspondem a áreas territoriais menores que não apresentam dados advindos de fontes oficiais. E este é o objetivo fundamental do boletim, produzir dados que consigam subsidiar e gerir tomadas de decisões no que se refere à gestão e ordenamento ambiental adequado para cada ilha analisada”, aponta Elias Klelington, bolsista de geografia da Diretoria de Pesquisas e Estudos Ambientais (Dipea/Fapespa). 

O boletim iniciou em 2024 e já está na sua terceira edição, que traz informações sobre as ilhas de Cotijuba, Mosqueiro e Caratateua (Outeiro). Em breve, será lançada uma nova edição do Boletim das Ilhas, contemplando as ilhas do Combu e Ilha das Onças, também localizadas em Belém do Pará, ampliando ainda mais o conhecimento sobre esses territórios e suas especificidades ambientais e sociais.

Foto: Divulgação

“O estudo realizado pela Fapespa sobre as ilhas de Belém é essencial para a gestão sustentável desses territórios, fornecendo dados científicos que auxiliam na preservação ambiental, no planejamento urbano e na melhoria da qualidade de vida das comunidades locais. Com o avanço da expansão urbana e as pressões ambientais, compreender as dinâmicas físicas e sociais dessas ilhas se torna fundamental para subsidiar políticas públicas eficazes. Além das edições já publicadas, a próxima fase do Boletim das Ilhas trará informações sobre as ilhas do Combu e Ilha das Onças, ampliando ainda mais o conhecimento e contribuindo para a construção de soluções sustentáveis para Belém e seu entorno”, disse Maiara Cordeiro, coordenadora de Estudos Territoriais (CET) da Diretoria de Estudos e Pesquisas Ambientais da Fapespa.

Cotijuba

O estudo identificou que a ilha de Cotijuba possui área de 16 km². No setor turístico, após a construção do trapiche de Icoaraci no ano 2000, passou a apresentar atividade turística crescente, um cenário diferente de até o início deste século, quando não obtinha fluxo de forma expressiva. Esse fenômeno transformou as principais atividades da ilha, que antes eram agrícolas e extrativistas e passaram a ser, principalmente, o turismo.

Essa nova dinâmica é confirmada com o crescimento da mancha urbana de quase 100% na ilha que em 2001 obtinha 2,24 km² e em 2023 passou a representar 4 km², com a presença significativa de endereços particulares e bares e restaurantes nas proximidades das praias.

O estudo observou ainda outro aspecto particular de Cotijuba: a presença de uma área com vegetação de gramíneas e lagos, ao centro da ilha, com 1,48 km², denominado pela pesquisa como “região dos lagos”. O local apresenta característica física e dinâmica ambiental distinta das demais regiões da ilha.

Foto: Divulgação

Mosqueiro 

Dentre as ilhas de Belém, Mosqueiro é a que apresenta maior extensão territorial, com aproximadamente 213 km², equivalente a cerca de 20% da área do município de Belém. O boletim observou que a ilha tem atividades diversificadas como a turística, agrícola, extrativista e pesca, tendo esta última uma importante representatividade na economia de Mosqueiro. Nas últimas décadas, a ilha também obteve crescimento em sua área urbana que dobrou de tamanho, passando de 5,92 km² para 10,16 km².

Consequentemente, houve perda de floresta densa que antes representava 148,25 km² e atualmente possui 136,69 km². Ainda assim, a pesquisa identificou que, apesar desta perda, houve crescimento de vegetação secundária: de 17,50 km² para 38,92 km², fator que facilita a manutenção da biodiversidade da ilha por possibilitar a conexão de suas áreas florestais.

Outeiro

Já a ilha de Caratateua, popularmente conhecida como Outeiro, possui aproximadamente 31 km² e se caracteriza por sua dinâmica populacional estar historicamente conectada a área continental de Belém. Portanto, o seu fluxo de pessoas não está vinculado estritamente ao turismo, mas principalmente a outras atividades, uma vez que os moradores que vivem na ilha trabalham e estudam na cidade de Belém.

Outro ponto importante identificado é a ausência de “Estabelecimento agrícola”. Essa categoria é mapeada pelo IBGE, mas não há mais registro desses espaços em Caratateua, apesar da ocupação da ilha ter sido iniciada por meio da agricultura de subsistência, principal atividade econômica, implementada por seus primeiros habitantes.

Foto: Divulgação

Até o ano de 2002, a ilha obtinha área urbana de 3,93 km² e em 2023 passou a representar 6,50 km², ocasionando a perda de floresta densa. Em 2002 a área florestal representava 15,97 km² e em 2023 passou a possuir 15,51 km². Do mesmo modo, houve diminuição na área de vegetação secundária, que anteriormente representava 2,96 km² e atualmente possui 1,76 km². 

Sustentabilidade e COP 30

Os estudos apontam desafios na garantia da sustentabilidade ambiental, alavancados pela “pressão urbana”, em um contexto de realização em Belém da maior e mais importante conferência de debate sobre o clima, a COP 30. 

Para a diretora de Estudos e Pesquisas Ambientais da Dipea/Fapespa, Luziane Cravo, a iniciativa está alinhada ao compromisso da instituição com o fornecimento de informações científicas para gestores públicos, sociedade civil e acadêmicos.

“A análise detalhada das ilhas permite a criação de políticas públicas específicas que atendam às suas necessidades únicas. Cada ilha apresenta desafios próprios, como a expansão urbana, que interfere no equilíbrio ambiental e social. Esses estudos fornecem dados para subsidiar as ações governamentais, incluindo a revisão de planos diretores e a proposição de soluções sustentáveis. É por meio desse tipo de diagnóstico que podemos traçar caminhos para um desenvolvimento equilibrado e eficiente. Além disso, apesar dos estudos serem direcionados para as ilhas do entorno de Belém, o método pode ser replicado e utilizado para qualquer localidade, podendo ser aporte para tomadores de decisão em escala municipal”, detalha.

*Com informações da Agência Pará

Após 14 dias de monitoramento nos rios do Amazonas, expedição retorna a Manaus

Foto: Divulgação/UEA

O barco do Programa de Monitoramento de Água, Ar e Solos do Estado do Amazonas (ProQAS/AM), desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), retornou a Manaus nesta quarta-feira (26/3). Após 14 dias de expedição, a equipe, formada por 19 tripulantes, passou por cinco municípios (Urucurituba, Borba, Manicoré, Novo Aripuanã e Humaitá) em um processo de coleta que possibilitará em, aproximadamente, uma semana, resultados que indicam a qualidade das águas dos rios da Bacia Amazônica.

Durante a expedição ‘Iriru 2’, desta vez realizada durante o início das cheias dos rios, contou com 9 cientistas. Entre os pesquisadores, estão estudantes de graduação, mestrado, professores e doutores da UEA. O grupo reunirá as amostras coletadas em laboratórios da Escola Superior de Tecnologia (EST/UEA), onde passarão por mais de 160 parâmetros de qualidade que identificam a presença de elementos como metais pesados e microplásticos. Todo esse processo conta com o apoio do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).

O coordenador do ProQAS/AM, Sergio Duvoisin Jr., destaca a coleta de diferentes espécies de peixes: “Conseguimos coletar uma quantidade bem maior. Uma coisa que notamos é que precisávamos coletar peixes conhecidos como forrageiros, que são aqueles menores que servem de alimento para outros peixes. Se os forrageiros estiverem muito contaminados com mercúrio, eles terão um impacto enorme na cadeia alimentar até chegar à comercialização para a população”.

Foto: Divulgação/UEA

Para o reitor da UEA, André Zogahib, o trabalho demonstra o empenho da equipe do ProQAS/AM em manter a preservação ambiental. “O trabalho científico realizado por esses pesquisadores é um desafio muito grande, mas um desafio que traz retornos ainda maiores ao nosso ecossistema. As próximas expedições, assim como as anteriores, com certeza serão fundamentais para a vida dos nossos rios e a saúde da nossa população”.

Análise de microplásticos

Uma das principais preocupações da expedição é a preservação dos recursos naturais da Amazônia. Por isso, os pesquisadores adicionaram mais um parâmetro: a análise de microplásticos. A presença desses resíduos é considerada uma ameaça crescente e, além dos rios, contamina solos e fauna local. Os microplásticos são, também, ameaças a populações ribeirinhas que dependem dos recursos naturais para subsistência.

Foto: Divulgação/UEA

Próximas expedições

O barco do programa, intitulado Roberto dos Santos Vieira, já possui outras duas expedições agendadas para o ano de 2025, uma em abril e a outra em maio. As viagens foram divididas entre períodos de cheia e seca dos rios, o que possibilitará a comparação das coletas feitas em cada uma das condições naturais.

*Com informações da UEA

Cientistas levam mais de 20 anos até encontrar macho de besouro da espécie Cryptolestes obesus

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Exemplar macho da espécie Cryptolestes obesus. Foto: Reprodução/EntomoBrasilis

Pela primeira vez, um espécime macho do besouro Cryptolestes obesus foi descrito no Brasil. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus (AM), realizaram a descoberta durante uma visita para a identificação de espécies localizadas no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). O relato foi publicado na revista EntomoBrasilis nesta quinta (27).

Leandro Zeballos, autor da pesquisa, relata a satisfação com a descoberta. “É sempre uma expectativa muito grande visitar esse tipo de museu para analisar suas coleções, porque encontramos materiais de muitos locais — não só da região, mas do Brasil e fora, provenientes da coleta de muitos pesquisadores famosos que dedicaram suas vidas a trabalhar com isso”.

O espécime descrito é parte da coleção de Fritz Plaumann, imigrante alemão que dedicou décadas ao trabalho em Entomologia. Com apenas 1,4 mm de comprimento e 0,56 mm de largura, o besouro vive embaixo de cascas de árvore — o que dificulta muito sua identificação e coleta.

A espécie Cryptolestes obesus foi inicialmente descrita em 2002 na revista Insecta Mundi, pelo pesquisador Michael C. Thomas, com base em um espécime fêmea de Rondônia. Espécies do gênero Cryptolestes costumam ser descritas com base no macho. Thomas, porém, considerou as características do espécime fêmea distintivas o suficiente para classificar a nova espécie, presumindo uma associação relativamente fácil ao macho, quando encontrado.

Mais de 20 anos depois, Leandro Zeballos e Matheus Bento, responsáveis pelo “casamento”, dão razão a “Thomas estava certo ao hipotetizar uma fácil associação ao macho nesta espécie, já que suas características diagnósticas não se baseiam em traços sexuais primários ou secundários [como genitálias ou chifres, respectivamente]”, relataram no novo artigo. 

Tanto o macho quanto a fêmea da espécie apresentam um corpo mais largo, robusto, com a linha secundária bilateral completa no protórax, onde se conecta a cabeça — características distintivas de outras espécies do gênero. Discerni-los é importante para evitar erros taxonômicos:

“Esta associação do macho com a fêmea impede que um taxonomista menos experiente com esta família de besouro encontre e descreva o macho como uma espécie nova, o que facilmente acontece nos estudos com besouros”.

O autor afirma que os próximos passos envolvem delimitar as características do gênero que ainda não são totalmente conhecidas: “Queremos desvendar o que diferencia o Cryptolestes de gêneros parecidos, e reconstruir uma árvore filogenética para entender as relações de parentesco entre os mais de 40 gêneros da família Laemophloeidae”.

DOI: https://doi.org/10.12741/ebrasilis.v18.e1107

Ritmo de adaptação de florestas tropicais é mais lento que o necessário para fazer frente à crise climática

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Foto: Reprodução/Instituto Soka

A crise climática está afetando as florestas tropicais de maneira acelerada, enquanto os processos ecológicos que regem sua adaptação ocorrem em ritmo muito mais lento. Duas pesquisas recentes, publicadas nas revistas Science e Nature, investigaram como as florestas tropicais estão respondendo às mudanças climáticas e quais são as implicações disso para a biodiversidade e a ciclagem do carbono. Os estudos indicam que as florestas estão mudando, sim, mas não na velocidade necessária para acompanhar o ritmo do aquecimento global.

“O que estamos vendo é que as florestas tropicais das Américas estão tentando se adaptar às mudanças climáticas, mas de forma bem mais lenta do que esperaríamos”, diz Jesús Aguirre-Gutiérrez, professor da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e primeiro autor dos dois artigos.

Gutiérrez informa que a crise climática está levando as florestas tropicais a mudarem sua composição, com um aumento de espécies decíduas, aquelas que perdem as folhas na estação seca. “Essas espécies têm uma vantagem em períodos de menor precipitação e temperaturas elevadas, pois podem reduzir a perda de água nesse contexto. No entanto, mesmo essa adaptação não está ocorrendo com rapidez suficiente para acompanhar a transformação do clima.”

Leia também: Ponto de não retorno: a Amazônia não tem tempo a perder

Os dados revelam que espécies de grande porte, que desempenham papel fundamental na estrutura da floresta e na captura de carbono, estão sendo substituídas por espécies menores e de menor densidade.

“Observamos que as espécies que se regeneram com maior facilidade não são as de grande porte e de madeira mais densa, mas sim aquelas com maior plasticidade adaptativa. Isso reduz a capacidade de estocagem de carbono da floresta e pode afetar os modelos climáticos, já que a capacidade fotossintética será menor no futuro”, afirma Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e coautor dos dois artigos.

Monitoramento contínuo

Os estudos foram possíveis graças a décadas de monitoramento ecológico, utilizando parcelas permanentes de um hectare cada em diferentes regiões tropicais. As informações foram complementadas por imagens de satélite. “Os dados que utilizamos no artigo da Science vêm de parcelas distribuídas do México ao sul do Brasil”, conta Aguirre-Gutiérrez. “São 415 parcelas e foram necessários muitos anos para coletar essas informações. Agora, com imagens de satélite e modelagem, podemos expandir essa análise para outras regiões tropicais, como a África e a Ásia, onde os dados de campo são mais escassos”.

Essa abordagem permitiu mapear atributos funcionais das florestas tropicais, como a morfologia e a química das folhas, a estrutura da vegetação e a presença de espécies decíduas. “No estudo da Nature, utilizamos modelagem com dados do satélite Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, que nos permitiu criar mapas da distribuição desses atributos nos trópicos”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Isso nos dá uma visão detalhada de como as florestas estão mudando e nos ajuda a projetar cenários futuros”.

As pesquisas apontaram que as mudanças nas florestas tropicais podem levar à perda de biodiversidade e a um empobrecimento estrutural desses biomas. “Espécies de grande porte, como jatobás, ipês, perobas e jequitibás, estão desaparecendo porque não conseguem acompanhar as mudanças climáticas”, alerta Joly.

“Na Amazônia, árvores icônicas como a castanheira-do-pará e as copaíbas também estão em risco. Além de seu valor próprio, como fontes de alimentos e medicamentos, essas espécies são fundamentais para a captura de carbono e a manutenção da biodiversidade“.

Leia também: Qual o termo certo: castanha do Pará, do Brasil ou da Amazônia?

A transição para florestas dominadas por espécies mais adaptáveis pode ter implicações profundas. “Constatamos que as florestas estão se tornando mais suscetíveis à mortalidade em larga escala”, comenta Simone Aparecida Vieira, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP.

“Isso compromete funções ecossistêmicas essenciais, como a regulação do ciclo do carbono e da precipitação. O colapso florestal pode aumentar o carbono na atmosfera e reduzir a formação de chuvas, intensificando ainda mais a crise climática”.

Diante desse cenário, a conservação e a restauração das florestas tropicais tornam-se ainda mais urgentes. No entanto, simplesmente proteger áreas degradadas, apostando no processo de sucessão, pode não ser suficiente. “Se uma área degradada for protegida, as espécies nobres reaparecerão espontaneamente no processo natural de regeneração? A resposta curta é não”, afirma Joly. “Experimentos de restauração mostram que essas espécies apresentam uma taxa de mortalidade alta, mesmo quando plantadas. Elas crescem lentamente e são vulneráveis a eventos extremos”.

Além disso, a fragmentação das florestas dificulta a regeneração. “A perda de conectividade entre fragmentos florestais leva ao empobrecimento da biodiversidade”, explica o pesquisador.

“Em áreas isoladas, a dispersão de sementes por animais como cutias, pacas e macacos fica comprometida, dificultando a regeneração de espécies vegetais importantes”.

Uma das soluções propostas é a regeneração natural assistida (assisted natural regeneration), que consiste no plantio de espécies adaptadas às novas condições climáticas. “Com os dados que temos, podemos identificar quais espécies nativas estão mais bem adaptadas ao clima atual e priorizar seu plantio”, sugere Aguirre-Gutiérrez. “Isso pode aumentar as chances de sucesso dos programas de reflorestamento”.

Apesar dos avanços tecnológicos no monitoramento das florestas, os pesquisadores enfatizam que o trabalho de campo continua sendo indispensável. “A gente tem de continuar investindo em trabalho de campo, colocando recursos para que pesquisadores no México, no Brasil e em outros países possam coletar dados”, destaca Aguirre-Gutiérrez. “Não podemos fazer tudo apenas com satélites. Precisamos de dados de campo para validar e aprimorar os modelos”.

As descobertas desses estudos reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para a conservação das florestas tropicais, aliando ciência, tecnologia e principalmente ações concretas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. “A ecologia tem mostrado cenários cada vez mais preocupantes”, conclui Vieira. “Se não agirmos agora, as florestas tropicais podem perder sua função ecológica antes que consigam se adaptar ao novo clima”.

Os estudos receberam apoio da FAPESP por meio de cinco projetos: 03/12595-712/51509-812/51872-519/24049-5 e 22/14605-0.

O artigo Tropical forests in the Americas are changing too slowly to track climate change pode ser acessado AQUI. E o estudo Canopy functional trait variation across Earth’s tropical forests está disponível AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por José Tadeu Arantes

Condenações por desmatamento ilegal crescem, mas apenas 5% resultam em indenizações pagas na Amazônia

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Foto: Reprodução/Greenpeace

Fazer os criminosos pagarem pelo desmatamento ilegal da Amazônia e recuperarem o dano é um dos principais desafios da Justiça na área ambiental. Um estudo do Imazon que analisou mais de 3,5 mil ações do Ministério Público Federal (MPF) mostrou que as condenações aumentaram, mas que apenas 5% delas resultaram em indenizações pagas. Além disso, não há garantia de que as multas quitadas sejam aplicadas no bioma.

A pesquisa acompanhou o resultado de ações civis públicas (ACPs) movidas pelo MPF entre 2017 e 2020, nas primeiras três fases do Programa Amazônia Protege. Elas pedem a responsabilização por desmatamento ilegal do bioma na esfera cível, onde é possível cobrar indenizações por danos materiais e morais e ainda determinar a recuperação da floresta. Essa é uma das três formas de responsabilização por dano ambiental previstas na legislação brasileira, além das esferas administrativa e criminal.

Foram analisadas 3.551 ações pelo estudo, que envolvem 265 mil hectares desmatados e pedem mais de R$ 4,6 bilhões em indenizações. Até dezembro de 2023, 2.028 ações (57% do total) tinham sentença, sendo 695 com algum tipo de responsabilização. Elas se dividem em 640 ações julgadas procedentes, considerando decisões após o julgamento de recursos, quando juízes ou tribunais aceitaram pelo menos um dos pedidos de responsabilização do MPF, e em 55 Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), quando os responsáveis pelo desmatamento ilegal se comprometeram a adotar medidas de reparação. Somadas, as condenações e os TACs correspondem a 20% do total de processos e 34% das ações com sentenças.

Punições aumentaram em relação a 2020

Apesar das condenações não serem a maioria entre as decisões, o dado representou um aumento nas responsabilizações. Em um estudo anterior do Imazon, dos 3.551 processos analisados, apenas 650 (18%) tinham sentenças até outubro de 2020 e 51 delas foram procedentes. Ou seja: as condenações correspondiam a 1% do total de ações e a 8% das sentenças. A maioria das decisões pela responsabilização dos desmatadores (449 casos) ocorreu após outubro de 2020, especialmente em 2023, quando houve 241 sentenças procedentes.

Situação que melhorou não apenas a partir de novas decisões em primeira instância, mas também pelo julgamento de recursos. Conforme o estudo, tanto o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) quanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) têm sido majoritariamente favoráveis aos pedidos de responsabilização do MPF.

“É positivo ver o aumento de casos procedentes para responsabilização de desmatadores e que os tribunais têm mantido entendimento favorável à condenação nessas ações que utilizam provas obtidas de forma remota, com imagens de satélite e uso de banco de dados. O desafio agora é obter o efetivo pagamento das indenizações e a recuperação das áreas que foram desmatadas”, afirma Brenda Brito, a pesquisadora do Imazon.

Embora as condenações tenham aumentado, a maioria das sentenças (66%) ainda teve outros resultados mesmo após o julgamento dos recursos. Até dezembro de 2023, 860 (42% das sentenças) haviam sido extintas, quando a Justiça entende que não há provas para uma ação; 268 (13%) julgadas improcedentes, quando todos os pedidos do MPF foram negados; 137 (7%) declinadas para Justiça Estadual; e 68 (3%) anuladas, decisões invalidadas que aguardam nova sentenças.

Essa predominância das extinções se deu principalmente até 2020 e por causa das ações com réu incerto, inovação jurídica do Amazônia Protege. Nesses casos, o MPF move processos devido a desmatamentos ilegais mesmo quando não foi possível identificar o réu para que a Justiça embargue a área e impeça qualquer uso econômico dela, o que pode combater a grilagem. Porém, em outubro de 2020, o STJ adotou entendimento favorável à continuidade de ações por réu incerto, o que tem levado ao aumento de casos desse tipo procedentes após julgamentos de recursos.

Indenizações foram pagas em apenas 5% das condenações

Apesar do avanço nas punições, o cumprimento delas ainda é muito baixo. Conforme a pesquisa, das 640 sentenças procedentes após julgamento de recursos e dos 55 TACs firmados, que determinaram indenizações de R$ 251,9 milhões, somente 37 (5%) tiveram as indenizações quitadas. As dívidas pagas somam R$ 652,3 mil (0,5%) e se referem a três sentenças e a 34 termos. Se considerar os casos que estão em fase de pagamento, com bloqueio em contas bancárias dos réus ou pagamento parcelado, esse percentual sobe para 8%.

E isso mesmo após os juízes terem reduzido, em média, o valor solicitado pelo MPF. Segundo o estudo, nos processos onde foi possível encontrar os valores iniciais e finais, houve redução de 34% nas indenizações por danos materiais (de R$ 11.304 para R$ 7.515 por hectare desmatado) e de 59% por danos morais coletivos (de R$ 5.616 para R$ 2.280 por hectare desmatado).

“O Protocolo para Julgamento de Ações Ambientais de 2024 do CNJ pode resolver esse problema, pois traz uma metodologia para quantificação do dano climático decorrente do desmatamento. Por isso, recomendamos no estudo que o órgão dissemine essa orientação e organize treinamentos sobre ela”, sugere Hannah Farias, pesquisadora do Imazon.

Destinação das indenizações não garante aplicação na Amazônia

Outro problema identificado na pesquisa foi a falta de garantia da aplicação das indenizações no bioma. Embora o MPF tenha solicitado a destinação dos valores aos órgãos ambientais na maioria das ações, os fundos públicos foram o destino majoritário das sentenças, como o Fundo de Direitos Difusos e o Fundo Nacional de Meio Ambiente.

“Resoluções e recomendações do CNJ já permitem direcionar esses valores para atividades na Amazônia, o que seria o ideal. Por exemplo, com repasses para instituições públicas ou privadas sem fins lucrativos que realizem projetos de recuperação de vegetação nativa ou para o combate às queimadas. Para isso, os tribunais e o MPF precisam publicar editais de convocação para cadastro e análise de projetos”, informa Brenda.

Medidas podem agilizar e aumentar condenações

Após analisar tanto os argumentos usados pelo MPF na proposição das ações quanto dos juízes e tribunais nos julgamentos, a pesquisa recomenda medidas que podem agilizar e aumentar as condenações. Uma das principais é acabar com as sentenças improcedentes pela não aceitação de imagens de satélite ou de informações de bancos de dados públicos como provas, que continuaram mesmo após jurisprudência favorável do STJ. Para isso, o estudo indica que o CNJ intensifique a disseminação dessa orientação e realize treinamentos nas comarcas que mais recebem esses processos.

As sentenças também precisam melhorar a forma de determinação da restauração das áreas desmatadas e da fiscalização dessa obrigação.

“Um ponto importante é não vincular mais os Projetos de Recuperação de Áreas Degradadas ou Alteradas (PRADs) exigidos nas sentenças à necessidade de validação dos Cadastros Ambientais Rurais (CARs), o que além de atrasar a restauração pode favorecer a grilagem caso CARs ilegais sejam aprovados”, alerta Brenda.

Já para a fiscalização dessa recuperação, a sugestão da pesquisa é que o CNJ organize e disponibilize os dados georreferenciados das áreas, para permitir seu monitoramento por sensoriamento remoto por diferentes organizações.

Outra recomendação do estudo é que os TACs sejam celebrados em documentos separados das atas de audiência, com descrição de todas as obrigações, prazos e previsão de multa em caso de descumprimento.

“Além disso, é importante que o MPF vincule em seu portal de transparência o número do processo judicial ao procedimento interno de acompanhamento do TAC, para que o cumprimento dos acordos possa ser acompanhado pela sociedade civil”, ressalta Hannah.

No caso das ações com réu incerto, a orientação da pesquisa é que o MPF, em vez de ingressar com vários processos, agrupe diversas áreas desmatadas em um só pedido para que os órgãos fundiários e ambientais promovam o embargo delas. Atualmente, o Amazônia Protege está em sua quarta fase. Nesta etapa, o programa passou por aprimoramentos e ajuizou cerca de 193 ações entre novembro e dezembro de 2024.

Leia aqui o resumo executivo da pesquisa.
Baixe o estudo completo aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon