O Maranhão e o Distrito Federal são as unidades da federação em pior situação quanto a internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, a cada 10 mil habitantes. Enquanto o estado nordestino conta com uma taxa de incidência nesse recorte de 45,8 casos, no DF o número chega a 36,2.
Na sequência aparece Goiás, com uma taxa de incidência de internações de 29,2, por 10 mil habitantes. Em quarto no ranking está o Paraná, com 25,6. Em seguida, destaca-se o Amapá, com 24,6. Os dados constam em estudo divulgado recentemente pelo Instituto Trata Brasil.
Confira o quadro por região
Centro-Oeste – 25,5
Norte – 18,9
Sul – 17,6
Nordeste – 16,4
Sudeste – 13,1
Em todo o país, foram registradas mais de 344 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado no ano passado. Do total, cerca de 168 mil estão ligadas a alguma infecção provocada por um inseto-vetor, sobretudo a dengue.
Em segundo lugar, aparecem enfermidades de transmissão feco-oral, ou seja, que são transmitidas por fezes de um indivíduo infectado, como as gastroenterites causadas por vírus, bactérias ou parasitas, com um total superior a 163 mil casos.
Segundo a presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, o aumento dessas doenças também provoca um impacto econômico, uma vez que demanda mais despesas públicas e privadas com o tratamento das pessoas infectadas. Além disso, na avaliação dela, esse cenário piora a situação de quem vive em áreas com ausência dos serviços de saneamento.
“Muitas vezes, a população tem uma fossa na sua residência, ou sequer uma fossa, só uma fossa negra e cavam um poço para buscar água, muitas vezes em regiões ao lado, de onde se está lançando esse esgoto bruto e isso traz todas as doenças associadas à falta de saneamento básico”, pontua.
Grupos mais afetados
De acordo com o Trata Brasil, 64,8% das internações registradas em 2024 foram de pessoas pretas ou pardas. Quanto aos indígenas, apesar de responderem por somente 0,8% do total, a incidência entre eles foi de 27,4 casos a cada dez mil habitantes.
Das vítimas hospitalizadas, aproximadamente 70 mil eram crianças com idade de até 4 anos. O resultado representa 20% do total. Nessa faixa etária, a incidência foi de 53,7 casos a cada dez mil pessoas. Entre aqueles com idade superior a 60 anos, a incidência foi 23,6, com mais de 80 mil internações, ou seja, 23,5% do total.
O estudo revela, ainda, que, dos 5.570 municípios do país, somente 1.031 apresentaram diminuição da taxa de mortalidade por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado, entre 2008 e 2023. Nesse período, 2.791 ficaram estagnados e 1.748 cidades registraram aumento das taxas de mortalidade.
O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) é uma das aves aquáticas mais ameaçadas do mundo. Essa espécie, que depende de ecossistemas hídricos equilibrados, encontra-se atualmente em situação crítica, com menos de 250 indivíduos registrados na natureza.
As principais ameaças à sua sobrevivência incluem a degradação dos rios, a expansão agropecuária, o uso excessivo de agrotóxicos e o turismo desordenado.
No Brasil, o pato-mergulhão ainda pode ser encontrado na Chapada dos Veadeiros (GO), na Serra da Canastra (MG) e, na Região Norte, somente no Jalapão (TO).
Além de ser uma espécie sensível com relação ao ambiente que precisa para viver, alguns dos maiores problemas na conservação da espécie são a destruição da mata ciliar e o assoreamento dos rios, pois podem dificultar o acesso desses animais à locais adequados para nidificação e alimentação.
Além disso, a prática de esportes aquáticos em regiões de ocorrência da espécie também pode levar ao abandono de ninhos.
Bem como a prática de playback: para quem trabalha com o birdwatching (observação de aves), trata-se da reprodução de sons gravados para atrair aves, o que pode, por exemplo, afastar os casais que resguardar os ninhos, fazendo com o sucesso reprodutivo seja comprometido.
O pato-mergulhão é facilmente identificado por suas características físicas:
bico serrilhado e recurvo, adaptado para capturar peixes com facilidade;
penacho na nuca de cor preta esverdeada nos machos e marrom nas fêmeas
cerca de 55 cm de comprimento (com asas de aproximadamente 21 cm e cauda de 10 cm);
pés vermelhos específicos da espécie.
Como ajudar?
A conservação do pato-mergulhão depende da manutenção da qualidade dos cursos d’água e da redução de impactos ambientais. Programas de monitoramento e educação ambiental são fundamentais para garantir a sobrevivência da espécie.
O Governo do Tocantins, por exemplo, meio do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), instituiu a Portaria Nº 213/2024, que cria o Programa de Monitoramento e Conservação do pato-mergulhão, denominado Pro PaTO. O programa visa à preservação do pato-mergulhão com ações concentradas na região do Jalapão, especialmente no Rio Novo, onde a população do animal é mais frequente. A Portaria foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) do dia 30 de outubro de 2024.
No início de 2025, um encontro foi realizado no estado para estabelecer as metas deste ano. Participaram do encontro o biólogo e Inspetor de Recursos Naturais do Naturatins, Marcelo Barbosa, além de representantes da Funatura e da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), câmpus Caxias.
Foto: Marcelo Barbosa/Governo do Tocantins
Entre as principais ações previstas estão o monitoramento de casais reprodutivos, a manutenção de ninhos artificiais e o manejo de cavidades naturais. Também será realizada a contagem da população ao longo de 145 km do Rio Novo.
Uma das principais estratégias será o monitoramento remoto do pato-mergulhão, com a instalação de um transmissor GPS em um dos indivíduos. Além disso, os pesquisadores pretendem retomar a coleta de ovos na natureza para incubação em ambiente controlado. Após atingirem uma fase segura de desenvolvimento, os filhotes serão devolvidos ao rio.
De acordo com Marcelo Barbosa, a iniciativa busca aumentar a taxa de sobrevivência da espécie. “Os dados coletados em anos anteriores mostram que o sucesso reprodutivo dos casais é baixo. Com essa abordagem, pretendemos garantir que os filhotes alcancem uma fase independente antes de serem reintroduzidos na natureza”, explicou.
Os pesquisadores acreditam que o programa pode contribuir significativamente para a recuperação da população do pato-mergulhão no Jalapão, que é considerada a menor do país, comparada com as de outras duas localidades do Brasil. A espécie, uma das aves mais raras do país, está classificada como criticamente em perigo na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção.
Especialistas também recomendam que o uso de playback seja evitado para não prejudicar a reprodução da espécie, respeitando os períodos reprodutivos.
Gato mourisco flagrado por câmeras de monitoramento. Foto: Divulgação
Um gato-mourisco foi avistado em área próxima à Usina Hidrelétrica Belo Monte, em Vitória do Xingu (PA). O felino, atualmente considerado vulnerável à extinção pelo Ministério do Meio Ambiente, foi flagrado por câmeras de monitoramento da hidrelétrica enquanto passeava calmamente pela região.
A aparição é considerada rara, já que o felino é arisco e altamente ameaçado por ações do homem, como desmatamento, queimadas e caça predatória.
O gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) ou gato-preto é um animal de hábitos diurnos, frequentemente confundido com a onça-preta ou o puma. Quando adulto, pode alcançar o dobro do tamanho de um gato doméstico, com 77 centímetros e pesar de 3 a 7 quilos.
Gato mourisco flagrado por câmeras de monitoramento. Foto: Divulgação
O animal normalmente se alimenta de presas de pequeno porte como aves, répteis, roedores e pequenos mamíferos. Sua distribuição se estende da Argentina ao México, estando presente em uma variedade de habitats, incluindo as florestas tropicais.
“Ficamos entusiasmados em observar algumas espécies ameaçadas nas áreas de preservação ambiental da usina, pois isso comprova que estão tendo suas necessidades de vida atendidas, como alimento, água e a floresta em pé. É um indicador de que o ecossistema da região está saudável”, avalia Roberto Silva, gerente dos meios físico e biótico da Norte Energia, concessionária da hidrelétrica.
Belo Monte é cercada por uma Área de Preservação Permanente (APP) que corresponde a 26 mil hectares, equivalente a cerca de 25 mil campos de futebol. A presença de animais raros como a onça parda, a onça pintada, a jaguatirica e as ariranhas nas áreas monitoradas pela hidrelétrica representa um importante bioindicador da saúde dos ecossistemas florestais e hídricos.
Desde 2012, durante a etapa de implantação da usina, a companhia faz o monitoramento de fauna da área do empreendimento que, até o momento, registrou 825 espécies, em 24 campanhas de campo para monitorar anfíbios, répteis, aves e mamíferos de médio e grande porte e morcegos.
Luís Suruí sonhava em ver seu povo retomar as tradições que tinha antes do contato com não indígenas, e foi perseguindo este objetivo que criou um projeto de resgate cultural na escola onde trabalhava. Do projeto nasceu o ‘Paiter a Soe‘, o primeiro museu da Amazônia localizado dentro de uma aldeia, a Gambi, na terra indígena Sete de Setembro, em Roraima.
Luís lembra o processo:
“A história e a memória que meu pai carrega com ele sempre me guiou. Eu via a sabedoria mantida por ele e minha mãe e há muito tempo queria usá-la para divulgar e valorizar nossa cultura. E aí eu pensei em transformar o espaço que tínhamos construído no projeto da escola em um museu”, conta o idealizador da iniciativa.
Sua esposa, Alexandra Suruí, que já trabalhava na causa indígena como antropóloga, embarcou nessa jornada e hoje é coordenadora de projetos do museu. Para implantá-lo, em 2016, os dois tiveram que enfrentar grileiros na terra indígena. Alexandra narra que foram os filhos que lhe deram força para continuar:
“No começo, a gente foi muito perseguido pelos madeireiros, nem andávamos sozinhos, porque recebíamos muitas ameaças. Nesse momento eu quis desistir, achava que não valia a pena colocar nossa vida em risco. Mas foi bem nessa época que eu engravidei e tivemos nosso primeiro filho e vi que tínhamos que continuar”, explica a antropóloga.
Os malefícios do distanciamento da cultura tradicional nas comunidades da terra indígena ficaram evidentes durante a pandemia. Alexandra relata que muitas famílias ficaram sem ter o que comer, pois não podiam comprar alimentos na cidade. O isolamento as obrigava a permanecer no território, e a prática de cultivar roças havia sido interrompida.
As ações de valorização cultural do museu traçaram um caminho de volta para as tradições do povo Paiter Suruí: um projeto de resgate da maternidade, por exemplo, reintroduziu práticas que reconectam as comunidades com a floresta, como a confecção da tipoia — um instrumento de algodão usado para carregar bebês.
O uso de óleos e remédios produzidos com castanhas, plantas e frutos da mata, reforçou para a comunidade a necessidade de manter a floresta.
Alexandra conta que, graças ao fortalecimento da cultura Paiter Suruí, as comunidades envolvidas com o trabalho do museu hoje voltaram a criar suas roças, coletar recursos da floresta e produzir artesanato, o que, para ela, não só contribui para a proteção da Amazônia, mas também para o bem-viver.
Etnoturismo e renda para a comunidade
Anciã Imakor Paiter em oficina de confecção da tipoia, instrumento de algodão feito para carregar bebês (Foto: Acervo Museu Paiter a Soe)
Conforme relatam, os problemas causados pelas invasões na terra indígena diminuíram, e os projetos de etnoturismo implementados no museu ajudaram a mudar essa realidade. Alexandra explica que a renda dessas atividades é destinada a 22 famílias envolvidas com o coletivo que compõe o museu.
Fortalecidas pela renda e pelas ações culturais, as famílias fizeram frente aos invasores no território, fiscalizando e denunciando as atividades ilegais. Mesmo o garimpo, tem sido reprimido pelas comunidades com o apoio do museu, a partir do monitoramento com drones.
Terra Indigena Menkragnoti. Foto: Po Yre Mekragnotire
Em setembro de 2024, o dia virou noite nas comunidadesMopkrore e a Pikato, na Terra Indígena (TI) Menkragnoti, do povo Kayapó, interior do Pará. A mudança foi causada pela fumaça que vinha do fogo e se alastrava na floresta. As duas comunidades indígenas foram as mais impactadas pela fumaça no ano passado na Amazônia, registrando, naquele mês, a pior média de poluição: 135 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de material particulado fino (PM2.5), as partículas tóxicas presentes na fumaça, segundo análise da InfoAmazonia. Esse valor registrado foi 800% superior ao que é considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (15 µg/m³).
“Muitas crianças tiveram febre e tosse. Os idosos também sofreram com falta de ar. A fumaça era tão densa que, durante o dia, parecia noite”, conta o cacique geral Patkore Mekragnotire, que atua nas TIs Mekragnoti e Báu, ambas Kayapó.
Vizinha a Mekragnoti, na TI Baú, em setembro, a concentração de fumaça também foi superior ao limite estabelecido pela OMS: foi registrado 40.9 µg/m³, 172% acima.
Além do mês de setembro, em toda a temporada da fumaça na Amazônia no passado, a concentração média do material particulado nas comunidades indígenas Mopkrore e a Pikato também foi acima da média, com índice de 41.3 µg/m³. À época, o fogo causador da densa fumaça também destruiu roçados e deixou crianças sem aulas. Em 2025, o povo Kayapó espera um cenário diferente e reforça a necessidade de proteção ambiental.
“O rio é como o sangue, a terra é como a carne, e a floresta é como os ossos. Se destruirmos isso, é como matar uma pessoa.Estamos segurando o céu. Se a floresta cair, todos caem junto”, afirma o líder indígena Dotor Takak Ire, presidente do Instituto Kabu, organização que atua no monitoramento e gestão territorial das TIs Mekragnoti e Báu.
O território dos Kayapó abrange cinco TIs, onde vivem pouco mais de 10 mil indígenas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quatro dessas TIs estão localizadas no sudeste do Pará, incluindo as terras Mekragnoti e Báu, enquanto a outra fica no estado do Mato Grosso.
Para entender o impacto da poluição por fumaça nas terras indígenas na Amazônia e identificar as comunidades mais impactadas, a InfoAmazonia coletou registros do serviço de monitoramento da atmosfera Copernicus (CAMS), do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF). Depois, cruzou os níveis de PM2.5 com as localidades indígenas do IBGE.
Para ir além desses altos números de poluição registrados nas comunidades do povo Kayapó e encontrar as histórias das pessoas que viram suas vidas serem transformadas pela fumaça, a Carta Amazônia conversou com lideranças Kayapó. Os relatos mostram como os povos indígenas das comunidades Mopkrore e a Pikato enfrentaram os incêndios, quais foram os impactos na saúde e a como eles têm reconstruído o que foi perdido.
As TIs Baú e Menkragnoti são ameaçadas pela presença constante de garimpeiros e madeireiros. Lideranças indígenas ouvidas pela reportagem afirmam que, em anos anteriores a 2024, as regiões já tinham problemas com o excesso de fogo. No entanto, na avaliação deles, o que aconteceu no último semestre do ano passado foi diferente: a intensidade das queimadas estava ainda maior.
Foto: Celebração na Celebração na aldeia Kumbekàkre na Terra Indígena Menkkarognoti. Foto: Po Yre Mengkragnoti/Instituto Kabu.
Entre junho e setembro de 2014, os territórios indígenas da Amazônia registraram o maior número de focos de calor para o período desde 2003. Entre elas, a TI Kayapó foi a que mais queimou — sozinha, ela acumula 27,1% (2.213) no período.
Na temporada de fogo do ano passado, os indígenas mais velhos do povo Kayapó foram os primeiros a notar algo incomum. Com base em seus conhecimentos ancestrais sobre o comportamento do fogo e as condições climáticas, alertaram as lideranças sobre mudanças nos padrões das queimadas na região.
“Nossos anciões das aldeias ficaram assustados com tanta fumaça e não sabiam de onde estava vindo. Eles falavam para nós: ‘Quando a gente toca fogo aqui nas nossas roças, a fumaça é pouca, mas essa fumaça está totalmente diferente’. Foi aí que a gente percebeu que não só na nossa terra que estava pegando fogo, mas em geral. Os nossos anciãos ficaram com medo, porque nunca tinham visto uma fumaça tão grande”, conta o indígena Mydjere Kayapo Mekragnotire, morador da TI Baú. Ele trabalha com relações públicas do Instituto Kabu.
Em setembro de 2024, a situação se agravou e os incêndios aumentaram. Apenas nos dois primeiros dias do mês, o Pará registrou 2.800 focos de calor, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Desses, 1.754 (63%) focos foram nos municípios de São Félix do Xingu, Altamira e Novo Progresso, os municípios que circundam as TIs Kayapó. Isso fez com que as aldeias ficassem dentro de um círculo de fogo.
Ilustração: Utópika Estúdio
“Fumaça ardia nos olhos”
Indígena da TI Menkragnoti, Po Yre Mekrãgnotire, de 28 anos, atua no Instituto Kabu. Ele trabalhou mapeando os focos de incêndio no território Kayapó.
“Tivemos que descer o rio. A fumaça ardia os olhos. Levamos três horas e meia para chegar a um ponto onde o fogo estava mais intenso [durante o monitoramento]. O vento ajudou a espalhar as chamas”, relata.
Os incêndios tinham múltiplas origens, incluindo queimadas em fazendas na região, relembra Mydjere Mekragnotire. Essas propriedades no município produzem, principalmente, soja, milho e arroz — em geral, a queima da vegetação no segundo semestre é feita para a preparação do solo para a agricultura.
“Parte do fogo que pegou nossas terras foi por queima de roça. Mas também havia incêndios criminosos. Fazendeiros tocaram fogo em suas propriedades, e as chamas entraram na nossa terra”, afirmou.
Doto Takak Ire, que além de presidente do Instituto Kabu, mora na TI Mekragnotire, reforça que o desmatamento ao redor das TIs foi um fator crucial para o registro de queimadas e o consequente índice de concentração de fumaça poluída.
“As terras indígenas estão no centro de áreas devastadas. A fumaça se concentrou aqui porque o fogo veio de todos os lados.”
A rapidez com que o fogo se alastra e o aumento das queimadas na Amazônia estão diretamente relacionados com as mudanças climáticas, explica Denis Conrado, engenheiro florestal e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Ele destaca que o aumento da temperatura da Terra e o clima seco contribuem com esse resultado.
“As secas severas na Amazônia e os aumento dos incêndios florestais são algumas das consequências [das mudanças no clima]. Isso é devastador para a biodiversidade e comunidades da região”, destaca Conrado.
“Parecia noite”
Terra Indigena Menkragnoti. Foto: Po Yre Mekragnotire
Cacique geral das TIs Baús e Mekragnoti, Patkore Mekragnotire conta que, em 2024, havia apenas cerca de 15 brigadistas para atuar no combate ao fogo em toda extensão da TI Menkragnoti. Eles eram os do Prevfogo, programa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) responsável pela prevenção, controle e combate a incêndios florestais no Brasil.
“Até as folhas debaixo das árvores não tinham umidade. Por isso, o fogo foi tão grande. Não tivemos controle, nem de fora nem de dentro da aldeia. Pedimos mais funcionários, mas não conseguimos apoio suficiente”, conta Mekragnotire.
Para os moradores das aldeias dos Kayapó, a fumaça não foi apenas um incômodo, mas também uma ameaça à vida. O cacique descreveu que a fumaça formava uma grossa camada cinza, o que impossibilitava a visão a menos de um metro de distância. Além disso, causava desconforto e coceira nos olhos e nariz. Respirar era um desafio.
Roças queimadas e aulas suspensas
A destruição das plantações pelo fogo foi um dos golpes mais duros para as comunidades Kayapó. Roças inteiras foram consumidas pelas chamas. Os indígenas tiveram de deixar de fazer atividades do cotidiano, como cuidar das lavouras e ir às escolas.
“As terras indígenas [Mekragnoti e Báu] estão no centro de áreas devastadas. A fumaça se concentrou porque o fogo veio de todos os lados. As aulas foram suspensas por três meses e só voltaram com as primeiras chuvas, que diminuíram as queimadas. As atividades rotineiras se tornaram inviáveis e tudo ficou paralizado”, afirmou Dotor Takak Ire. O Instituto Kabu estima que ao menos 210 alunos ficaram sem aulas.
A fumaça e a falta de alimentos afetou as escolas, que dependiam do plantio da comunidade para fazer a merenda servida às crianças. Com as plantações queimadas, as aldeias mais afetadas ficaram em situação de insegurança alimentar.
“Nossas roças do ano passado foram todas queimadas: plantação de mandioca, batata, banana, abóbora e outras plantas. Perdemos tudo. Passamos por uma dificuldade tão grande. Agora, nós plantamos de novo, mas vai demorar para a gente poder ter as nossas coisas no tempo normal. Vai demorar muito”, conta Mydjere, da TI Baú.
As lideranças relataram que não receberam ajuda externa para suprir a falta de alimentos. O cacique da aldeia Bepdjo Kayapó, da TI Baú, afirma que nenhuma organização ou órgão de Estado, incluindo o governo federal, prestou apoio ou suporte aos indígenas impactados pelo fogo e fumaça do ano passado.
“Sempre lutamos por conta das madeiras e dos garimpeiros. Mesmo assim, a gente plantava. Desta vez, estávamos lutando com o fogo e a fumaça que não deixava plantar nada. Mas estamos melhorando agora”, afirma o cacique.
As chuvas do inverno amazônico, que se iniciaram em dezembro, foram as grandes responsáveis por diminuir os focos de queimadas e, consequentemente, a fumaça. O cenário também trouxe a possibilidade de novas plantações, renovando a esperança e a disposição de luta dos Kayapó.
“O rio é como o sangue, a terra é como a carne, e a floresta é como os ossos. Se destruirmos isso, é como matar uma pessoa.Estamos segurando o céu. Se a floresta cair, todos caem junto”, conclui Dotor.
Camila Ribas, bióloga e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), é uma das vencedoras do Prêmio Mulheres e Ciências, na categoria Trajetória. Com uma carreira marcada pela dedicação à biogeografia e à biodiversidade da Amazônia, Camila não apenas desbrava as florestas e rios da região, mas também abraça as populações que nelas vivem. Sua história é um exemplo de paixão pela ciência, coragem para quebrar barreiras e um profundo compromisso com a preservação da natureza.
Desde cedo, Camila foi fascinada pela natureza. “Sempre gostei da natureza e dos ambientes naturais. Por isso, estudar a natureza foi uma decisão muito fácil para mim”, revela.
Criada em um ambiente em que não havia pressão para seguir uma profissão lucrativa, ela encontrou na biologia um caminho que lhe proporcionava a liberdade de explorar o que mais a encantava.
“Quando decidi que queria estudar a natureza, pensei que poderia ser livre para fazer o que eu quisesse com a minha vida”, conta, enfatizando a importância dessa liberdade para a sua realização profissional.
Para Camila, trabalhar no que se ama não tem preço. “Sou muito grata todos os dias por poder acordar e continuar meu trabalho. Claro, às vezes há algumas burocracias que não gostamos de lidar, mas, no geral, meu trabalho é um privilégio”, confessa.
Ela acredita que o prazer de fazer o que gosta, com o intuito de contribuir para algo maior, é o que torna sua dedicação ainda mais significativa.
“O trabalho de pesquisadora no INPA me dá a liberdade de seguir o que acredito ser valioso, o que impacta diretamente na qualidade do meu trabalho”, afirma.
Barreiras para o feminino
Camila reconhece a sorte que teve ao longo de sua carreira. Após realizar seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP) sob a orientação da doutora Cristina Miyak, ela encontrou uma mentora que, para ela, foi crucial para minimizar as barreiras que a ciência impõe às mulheres.
“A Cris é uma pessoa extremamente gentil e acolhedora, o que fez uma diferença enorme no meu doutorado. Ela sempre nos fez sentir parte, sem nos sentirmos menosprezadas ou menores por sermos mulheres na ciência”, conta, visivelmente grata pela orientação de sua mentora.
Hoje, Camila se vê como uma mulher privilegiada, ciente das dificuldades que outras cientistas enfrentam. “Sinto que consegui traçar um caminho dentro de uma sociedade essencialmente machista de maneira bastante privilegiada. Reconheço que tive muita sorte nesse processo, principalmente pelas pessoas ao meu redor, que me ajudaram e apoiaram ao longo do caminho”, admite.
Dedicação e paixão pela Amazônia
Seu trabalho, no entanto, vai além da pesquisa acadêmica. Desde que se mudou para Manaus, Camila se dedica a estudar a Amazônia, seus processos evolutivos e a biodiversidade única desta região, essencial para o equilíbrio ambiental global. “Nos últimos 15 anos, tenho me dedicado a entender como a Amazônia se formou, como esse ambiente incrível existe até hoje e como tem sido afetado”, explica. Para ela, entender as interações entre a fauna, flora e os fatores ambientais é uma missão de vida.
O que realmente dá sentido a sua pesquisa, no entanto, são as experiências vividas em campo, acompanhada de populações indígenas e ribeirinhas. “O que eu mais gosto de fazer quando não estou no escritório trabalhando é estar na floresta, caminhando nos rios da Amazônia. E, ultimamente, por um grande privilégio, muitas vezes faço isso acompanhada de populações indígenas e ribeirinhas, que são meus principais companheiros de campo hoje em dia”, diz com entusiasmo.
Para ela, essas populações são as verdadeiras guardiãs do conhecimento profundo sobre a floresta. Conhecimento que é muitas vezes ignorado pelo sistema científico tradicional. “Essas pessoas são incríveis, com um conhecimento vasto sobre a região”, afirma, destacando a importância de reconhecer e valorizar esse saber.
Camila considera que a ciência brasileira precisa se abrir para uma visão mais plural, que inclua saberes locais.
“A ciência brasileira é essencialmente europeia e precisa se tornar mais indígena, mais ribeirinha. Ela precisa reconhecer os conhecimentos das populações que vivem nos ambientes brasileiros”, afirma.
A maternidade
Além do seu trabalho como cientista, Camila tem uma vida pessoal igualmente marcante. Mãe de duas filhas, ela acredita que a maternidade foi um fator essencial para seu fortalecimento pessoal e profissional. “Ser mãe me fez muito mais forte, mais resiliente, mais responsável e mais capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo”, compartilha.
No entanto, ela também observa os desafios que a ciência ainda precisa enfrentar para se adaptar às necessidades das mulheres. “As mulheres ainda são uma minoria que precisa ser tratada como um grupo em desvantagem”, afirma.
No reconhecimento recebido através do Prêmio Mulheres e Ciências, Camila vê o retorno do seu esforço e a força das populações amazônicas. “Quero que essa premiação seja o reconhecimento não só do esforço para gerar conhecimento sendo mulher no Norte do Brasil, mas também da força da população da Amazônia para estudar e proteger a região com soberania e excelência científica”, afirma, com um olhar voltado para o futuro.
Camila Ribas é uma mulher que, além de desbravar os segredos da Amazônia, luta para que a ciência brasileira se torne mais inclusiva e conectada com as realidades locais. Seu trabalho, tanto no campo quanto no laboratório, é uma verdadeira celebração da Amazônia, das pessoas que nela vivem e do conhecimento que, por muito tempo, foi marginalizado. Ela estuda a floresta e se dedica a proteger e valorizar a rica biodiversidade da região, com o apoio daqueles que, com tanto amor, a conhecem como ninguém.
O grupo Engie Brasil anunciou a compra das usinas hidrelétricas de Santo Antônio, na divisa do Amapá com o Pará, e da Cachoeira Caldeirão, no município de Porto Grande. O valor da transação será de R$ 2,9 bilhões.
Ainda segundo o grupo, as duas unidades serão integradas a um parque gerador que é atualmente composto de 115 usinas, sendo 11 hidrelétricas e 104 complementares, incluindo centrais de biomassa, eólicas e solares.
“A operação criará valor aos acionistas ao nos permitir alocar capital em ativos já operacionais e com receitas seguras e de longo prazo, com bom equilíbrio entre riscos e retornos, onde poderemos aplicar também toda a nossa reconhecida expertise em operação de hidrelétricas”, disse Eduardo Takamori, diretor Financeiro e de Relações com Investidores.
Usina de Santo Antônio
A Usina Hidrelétrica Santo Antônio do Jari, localizada no Rio Jari, entre os municípios de Laranjal do Jari (AP) e Almeirim (Pará), conta com 393 MW de capacidade instalada e 211 MW médios de capacidade comercial.
A usina iniciou sua operação comercial em 2014 e a concessão vence em outubro de 2045. Sua energia está totalmente contratada no Ambiente de Contratação Regulado (ACR) em dois contratos.
Cachoeira Caldeirão
A Usina Hidrelétrica Cachoeira Caldeirão, localizada no Rio Araguari, no município de Porto Grande, possui capacidade instalada de 219 MW e capacidade comercial de 123 MW médios. O início da operação comercial ocorreu em 2016 com outorga até agosto de 2048.
A contratação de 130 MW médios ocorreu no 15º leilão de Energia Nova, em 2012, ao preço de R$ 187,63/MWh (base out/24).
A geografia do Peru propiciou a existência de espaços naturais onde a flora e a fauna se destacam por sua vasta diversidade. Mas quais são as áreas naturais protegidas com maior biodiversidade no Peru? Quantas espécies prosperam nesses territórios?
Localizadas no litoral, nas montanhas e especialmente nas florestas, essas áreas naturais protegidas são conhecidas por abrigar uma grande variedade de espécies registradas de animais e plantas selvagens, bem como novos espécimes descobertos pela ciência.
Saiba mais sobre as áreas naturais protegidas do Peru com maior biodiversidade do mundo:
Reserva Nacional Pacaya Samiria
Também conhecida como “Floresta dos Espelhos”, a Reserva Nacional Pacaya Samiria foi criada em 4 de fevereiro de 1982 para conservar ecossistemas representativos da floresta tropical de terras baixas da Amazônia peruana e preservar sua diversidade genética. Nesse sentido, protege espécies ameaçadas de extinção da flora e fauna amazônicas, como o lagarto preto e o lobo-do-rio.
Com uma área de 2.080.000 hectares, esta área natural protegida abrange partes das províncias de Loreto, Requena, Alto Amazonas e Ucayali, no departamento de Loreto. Está localizado na Depressão de Ucamara, onde os grandes rios Ucayali e Marañón se encontram, formando seus limites naturais. A parte sudoeste é delimitada por uma faixa de colinas baixas que forma a bacia hidrográfica com o Rio Huallaga.
A Reserva Nacional Pacaya Samiria abriga um alto nível de diversidade biológica e uma população humana significativa que explora seus recursos naturais. Inclui as bacias dos rios Pacaya, Samiria e Yanayacu-Pucate. Embora seja principalmente uma planície aluvial e de inundação baixa, possui algumas colinas baixas nas nascentes do Pacaya.
Também protege a maior área de floresta alagada da Amazônia. Este gigantesco pântano levou à sua designação como um dos primeiros sítios Ramsar do Peru em 1992.
Em relação à fauna, foi registrada a presença de mais de 1.025 espécies de vertebrados, o que representa 27% da diversidade dessas espécies no Peru e 36% do total registrado para a Amazônia.
Em relação à flora, a Reserva Nacional Pacaya Samiria abriga 965 espécies de plantas silvestres e 59 plantas cultivadas. Seu valor para a proteção da diversidade biológica é amplamente justificado pela presença de vastas extensões de florestas de aguajales ou aguaje (Mauritia flexuosa) – o buriti – e florestas mistas de outras palmeiras.
Existem três circuitos turísticos principais: a bacia Yanayacu-Pucate , desde a comunidade Veinte de Enero, perto de Nauta, até o famoso lago El Dorado. Esta é a área onde se encontra o maior número de abrigos e áreas de acampamento ao longo do rio. A Lagoa El Dorado é considerada o coração da Reserva Nacional Pacaya Samiria e um dos locais com maior concentração de vida selvagem.
Reserva Nacional Allpahuayo Mishana
Esta emblemática área natural protegida localizada na província de Maynas, na região de Loreto, tem potencial para o turismo de natureza devido à sua proximidade com Iquitos. Foi criado em 15 de janeiro de 2004 para conservar a diversidade biológica e o habitat das florestas Varal e Chamizal que crescem em areia branca e pertencem à ecorregião de Napo, bem como as florestas de várzea adjacentes da bacia do Rio Nanay.
Sua importância também reside no fato de proteger parte dos mananciais que abastecem a cidade e garantir o uso tradicional dos recursos naturais renováveis pelas comunidades instaladas na área.
Em sua superfície de 58.069 hectares, foram registradas quase 145 espécies de mamíferos, muitas delas muito raras e altamente vulneráveis. Entre elas, destacam-se duas espécies endêmicas: o macaco guapo equatorial e um roedor ainda pouco estudado. Os primeiros, ao lado do toco preto, são primatas protegidos somente neste local.
Além disso, há 498 espécies de pássaros em toda a reserva, 21 das quais são exclusivas das florestas de areia branca, incluindo seis espécies novas para a ciência e nove endêmicas da ecorregião de Napo. Da mesma forma, foi relatada a presença de 83 espécies de anfíbios, incluindo várias espécies endêmicas. Também foram encontradas 120 espécies de répteis e 155 espécies de peixes.
A presença de solos de areia branca confere aos ecossistemas florestais da Reserva Nacional Allpahuayo Mishana características muito próprias, formando a concentração mais representativa detectada até agora na Amazônia peruana. Sua presença garante a existência de diversas espécies vegetais endêmicas da região, como o aguaje de Varal, o caimito de Varal, o aguajillo, o carachacaspi, o irapay, o caspi oil , entre outras.
Um dos circuitos a serem realizados está localizado entre os quilômetros 25 e 26 da rodovia Iquitos-Nauta, em uma propriedade privada, onde é possível visitar um típico bosque rodal úmido de baixa altitude . Lá você pode ver inúmeras espécies de aves endêmicas desses ecossistemas. No quilômetro 23 há um zoológico onde você pode ver o manejo sustentável de animais selvagens como o ronsoco e o caititu.
No quilômetro 26 está o Centro de Pesquisas Allpahuayo (CIA), pertencente ao Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP), onde é possível observar plantas medicinais e árvores frutíferas nativas em um circuito turístico com trilhas interpretativas entre os rodales alto-secos e baixo-úmidos.
No quilômetro 28 está o mirante El Irapay, onde começa uma trilha em direção à comunidade de Mishana. Ao longo do caminho você pode ver inúmeras varas. Na comunidade de Ninarumi, nos arredores da cidade de Iquitos, existe um cais que conecta as comunidades da bacia do rio Nanay .
Reserva Nacional de Tambopata
Criada há 21 anos para conservar a flora, a fauna e os processos ecológicos de uma amostra da floresta tropical peruana, a Reserva Nacional de Tambopata abriga megadiversidade biológica.
A Reserva Nacional de Tambopata está localizada ao sul do Rio Madre de Dios, nos distritos de Tambopata e Inambari, na província de Tambopata. Foi criado oficialmente em 4 de setembro de 2000, pelo Decreto Supremo nº 048-2000-AG e tem uma área total de 274.690 hectares.
O destino turístico mais visitado é o Lago Sandoval, localizado na bacia do Rio Madre de Dios. Este corpo d’água de 127 hectares é cercado por palmeiras repletas de araras e está localizado a apenas meia hora de rio de Puerto Maldonado. Em suas águas, que podem ser exploradas em passeios de barco alugados por moradores locais e pousadas, vive uma grande família de lobos-de-rio, que podem ser vistos caçando e se limpando nos troncos das árvores. Há também uma torre de observação para uma vista panorâmica.
As atrações características de Tambopata são os bancos de argila encontrados nas margens do rio, que reúnem centenas de pássaros (araras, gaviões e papagaios) oferecendo um espetáculo espetacular de cores e sons (especialmente entre 5h30 e 9h).
Parque Nacional do Rio Abiseo
Está localizado na encosta amazônica da Cordilheira dos Andes Orientais, a oeste da cidade de Huicungo, no departamento de San Martín. Abrange uma área de 274.520 hectares. Seu principal objetivo é proteger uma amostra representativa das florestas nubladas da selva sobrancelha e selva alta, que inclui diversas áreas de endemismo.
Sua presença também busca preservar espécies e associações de flora e fauna em seu estado natural, especialmente aquelas vulneráveis ou ameaçadas de extinção. Também busca manter o equilíbrio ecológico das florestas nubladas, a fim de garantir a estabilidade hidrológica das bacias dos rios Abiseo, Túmac e Montecristo.
Até o momento, foram registradas quase 900 espécies de vida selvagem , distribuídas entre 181 espécies de mamíferos, 409 de aves, 17 de répteis, 30 de anfíbios, 14 de peixes e quase 250 de invertebrados . Destas, 552 espécies correspondem ao setor ocidental e 351 ao setor oriental do parque nacional. Do setor ocidental, nada menos que 27 espécies são consideradas endêmicas do Peru e sua distribuição é restrita ao Parque Nacional do Rio Abiseo e seus arredores, com várias espécies ameaçadas. No setor oriental, 18 espécies ameaçadas foram relatadas : 11 mamíferos e sete aves.
Por outro lado, das 1.134 espécies vegetais registradas, 986 correspondem ao setor ocidental . Nas terras montanhosas existem árvores de grande porte, como o renaco e a seringueira .
Entre as espécies de importância econômica estão o sangue de grau , a unha-de-gato , e entre as madeiras, o cedro, o mogno e o parafuso . Há também duas espécies de árvores consideradas ameaçadas de extinção: o cedro alto e o alecrim.
Judite Huni Kui – Mestra tradicional e presidenta da associação das produtoras artesãs Kaxinawa de Tarauaca e Jordão e Cacique Ninawa Huni kui – Presidente na Federação do povo Huni kui do Acre – FEPHAC. Foto: Mariana Alves/Iphan
No ano em que a Política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial completa 25 anos, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Kene Kuĩ – conjunto de saberes e técnicas envolvidos na produção dos grafismos do povo Huni Kuĩ, originário da Amazônia Ocidental – como patrimônio cultural do Brasil.
O pedido de registro do novo patrimônio foi votado e aprovado por unanimidade, nesta terça-feira (25/03), durante a 107ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado de decisão máxima do Iphan para decisões sobre registros e tombamentos de bens culturais, no auditório do Iphan Sede, em Brasília (DF).
O pedido de registro do Kene Kuĩ no Livro dos Saberes foi feito ao Iphan no ano de 2006, por meio do documento assinado por 127 representantes de comunidades e organizações indígenas do povo Huni Kuĩ (Kaxinawá), como a Associação dos Produtores Kaxinawá da Aldeia Paroá (APROKAP), a Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira (OPIRE); a Associação dos Seringueiros, Agricultores e Artesãos Kaxinawá de Nova Olinda (ASPAKNO); a Organização do Povo Huni Kuĩ do Alto Purus (OPIHARP) e a Federação do Povo Huni Kuĩ do Acre (FEPHAC).
“É uma luta de muitos anos e um sonho coletivo realizado. Hoje o Iphan entregou o produto final que é o reconhecimento pelo estado brasileiro da nossa manifestação cultural”, disse o presidente da FEPHAC, Cacique Ninawa Huni Kuĩ.
A indígena, conselheira do conselho consultivo e relatora do processo de registro, Naine Terena de Jesus, destacou que “o contato do povo Huni Kuĩ com os não indígenas, entre os séculos XIX e XX, foi de extrema violência, num processo de tentativa de extermínio físico e cultural, e que o registro de suas práticas e saberes como patrimônio cultural do Brasil nos permite pensar criticamente no processo histórico e sócio-cultural sofrido por eles”.
A relatora disse, ainda, que a busca e escuta ativa do Iphan foi primordial para o sucesso do registro do Kene Kuĩ. “Dar voz não é o fator essencial para a equidade. O fator essencial é a escuta honesta, pois a voz sempre existiu, porém nem sempre foi ouvida, gerando processos de apagamento, muitas vezes proposital”, disse Naine Terena em seu parecer técnico.
Para o superintendente do Iphan no Acre, Stênio Melo, o reconhecimento dos grafismos do povo Huni Kuĩ resgata uma cultura milenar indígena.
“É o primeiro patrimônio imaterial genuinamente acreano. É representado através da tecelagem, da pintura corporal e faz parte da subsistência do povo Huni Kuĩ. É o Iphan dando vida a quem merece ter vida”, disse.
Foto: Reprodução/Acervo Iphan
Antes mesmo do pedido de registro junto ao Iphan, os Huni Kuĩ já haviam realizado pesquisas sobre o Kene Kuĩ com o apoio de organizações indigenistas, produzindo uma vasta documentação financiada por meio de editais de fomento à cultura ao longo dos anos. Ainda assim, havia a demanda pelo reconhecimento e salvaguarda deste patrimônio, que se encontrava em desuso entre os jovens indígenas de algumas aldeias, ao mesmo tempo em que os usos considerados indevidos se expandiram.
Virou patrimônio cultural. E agora?
A partir de agora, o corpo técnico do Iphan e os detentores do bem cultural, juntos, vão desenvolver políticas públicas para a proteção do Kene Kuĩ, como oficinas de salvaguarda, pesquisas de campo e consultas públicas, fortalecendo o desenvolvimento de formas de transmissão.
Kene Kuĩ, grafismos do povo Huni Kuĩ
O povo Huni Kuĩ é originário da Amazônia Ocidental, na fronteira entre o Brasil e o Peru. Atualmente, habitam o estado do Acre e sul do Amazonas. O Kene Kuĩ é um conjunto de conhecimentos técnicos e rituais, materiais e imateriais, que envolvem a produção de padrões gráficos realizados pelo povo Huni Kuĩ. Suas produções envolvem tecelagem, cestaria, pintura corporal, cerâmica, produção de redes e miçangas, entre outros objetos. Mais do que uma manifestação artística, o Kene Kuĩ é considerado uma linguagem visual que incorpora saberes sobre o universo cosmológico, as relações sociais, as práticas rituais e os modos de vida do povo Huni Kuï.
Os grafismos dos Kene possuem uma estética que equilibra simetria e assimetria, figura e fundo, e utiliza padrões geométricos elaborados que narram histórias e refletem uma cosmologia rica e complexa. Tradicionalmente, a produção do Kene é realizada majoritariamente por mulheres, que desempenham o papel de “aïbu keneya” (mestras do desenho), transmitindo os saberes por meio de práticas orais, cânticos e rituais. O aprendizado dos Kene inclui também a observação e a relação com os “yuxibu” (seres da floresta), que inspiram e guiam a criação gráfica.
Foi nesse contexto que o pedido de registro do Kene como patrimônio cultural do Brasil foi discutido e solicitado pelo povo Huni Kuĩ. Foi destacado, no pedido de registro, que o Kene Kuĩ é uma das principais referências identitárias para o povo Huni Kuĩ, havendo a necessidade de se garantir o reconhecimento deste bem cultural enquanto conhecimento tradicional.
Um vídeo publicado nas redes sociais repercutiu em Porto Velho (RO) na segunda-feira (24). As imagens mostram um jacaré-açu caminhando próximo de casas no bairro Panair, em Porto Velho.
Segundo moradores, o animal frequenta a área há pelo menos 7 anos e já recebeu até um nome carinhoso. Dony, como é conhecido, vive em um lago próximo de um restaurante e, curiosamente, atende pelo nome quando é chamado.
Ao Grupo Rede Amazônica, o biólogo Flávio Terassini afirma que trata-se animal adulto. A espécie é considerada “pré-histórica” e está entre os maiores crocodilianos do mundo, perdendo apenas para o crocodilo de água salgada e o do Nilo.
“Esse que apareceu no Madeira é muito comum muito abundante aqui na Amazônia, principalmente ali no lago do Cuniã. Pode chegar facilmente a oitenta anos de vida”, explica.
Mesmo de aparência tranquila e do status de “morador antigo”, é bom lembrar que um jacaré desse porte pode causar perigo. O especialista alerta que, quando estressados e ameaçados, eles podem reagir de forma agressiva.
“Ele pode, sim, atacar seres humanos, principalmente se ele se sentir ameaçado. Eles são rápidos e ágeis principalmente na água”, alerta.
De acordo com o especialista, na natureza, o jacaré-açú está no topo da cadeia alimentar, ou seja, quase nada pode predá-lo. Ele se alimenta principalmente de peixes e pequenos mamíferos, ajudando a manter o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos da Amazônia.
Por isso, ao dar de cara com um animal grande como o Dony, é importante seguir a regra de ouro: admirar à distância e deixar que ele siga seu caminho.