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Fogo e agricultura impulsionam a degradação do solo no sul da Amazônia

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Br-319 fica no sul do Amazonas. Foto: Dnit

Incêndios florestais frequentes e expansão agrícola estão degradando a saúde dos solos do sul da Amazônia, com danos duradouros sobre os estoques de carbono (C) e nitrogênio (N) e sobre a funcionalidade geral do solo dos ecossistemas. É o que mostra um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros na Estação de Pesquisa Tanguro, localizada na região de transição entre a Floresta Amazônica e o Cerrado, no Arco do Desmatamento Amazônico.

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“Estamos falando de um fogo que não é natural. No Arco do Desmatamento, as queimadas recordes resultam da combinação da expansão agrícola e pecuária, degradação de florestas nativas vizinhas e secas prolongadas provocadas pelas mudanças climáticas – todas promovidas pela ação humana”, afirma o pesquisador Mário Lucas Medeiros Naval, primeiro autor do estudo.

“Nosso trabalho mostra como essas queimadas sucessivas têm impacto de longo prazo na matéria orgânica e em outros atributos essenciais do solo e como isso se compara à agricultura da região”, comenta.

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degradação do solo no sul da Amazônia
Trecho da BR-319. Foto: Reprodução/Ascom AGU

O estudo, publicado na revista Catena, analisou os efeitos da conversão da floresta para agricultura e da frequência de queimadas sobre a matéria orgânica do solo, além de diversos indicadores físico-químicos de saúde do solo. Foram comparados quatro cenários: floresta intacta, floresta queimada anualmente, a cada três anos e área convertida para agricultura, sob sistema de plantio direto e com rotação de culturas.

“Nossos resultados mostram uma diminuição nos estoques de carbono no solo de 17% com queimas anuais, 19% com queimas trianuais e 38% com a conversão agrícola”, diz Naval. “Mesmo quando a agricultura adota boas práticas, como rotação de culturas e plantas de cobertura, ainda assim gera perdas mais severas de carbono do solo do que o fogo que incide sobre florestas nativas.”

O pesquisador explica que a área estudada é uma floresta de transição, que se assemelha ao cerradão, com árvores de 20 metros de altura em média. “Ela não é tão alta como a floresta do centro da Amazônia, mas também não é cerrado stricto sensu. E é justamente nessa região que a fronteira agrícola tem avançado com mais força, principalmente com a soja”, afirma.

A pesquisa foi realizada em uma área experimental de 150 hectares, gerenciada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), dentro da reserva legal de uma propriedade privada, onde há a Estação de Pesquisa Tanguro. “Tivemos acesso a uma área grande, com 50 hectares para cada tipo de tratamento, o que nos permitiu uma amostragem representativa”, destaca o pesquisador.

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degradação do solo no sul da Amazônia
Foto: Puré Juma/Agência Pública

“Um aspecto importante do estudo é que avaliamos os solos nove anos após a última queimada. Mesmo com o tempo de recuperação da floresta, os estoques de carbono e nitrogênio ainda estavam significativamente reduzidos”, acrescenta.

Segundo Naval, as perdas de carbono e nitrogênio comprometem propriedades essenciais, dados os múltiplos benefícios da matéria orgânica para diversos indicadores de saúde do solo. “Por exemplo, nossos resultados evidenciam que, diminuindo os estoques de carbono, grande parte da capacidade de troca catiônica [CTC, uma das formas de mensurar a capacidade de retenção de nutrientes do solo] é perdida”, explica o pesquisador. Assim, o estudo também revelou impactos sobre outros indicadores físicos e químicos, evidenciando uma degradação mais ampla da saúde do solo.

A pesquisa demonstrou que a perda de carbono total – somando o carbono armazenado na biomassa acima do solo e o carbono armazenado no solo – chegou a 33% na queima anual e 48% na queima trianual. “Isso mostra que, do ponto de vista do ecossistema como um todo, as frequências de fogo têm impacto diferenciado, ainda que no solo a diferença estatística entre os dois regimes não tenha sido significativa”, explica.

“Ao contrário do Cerrado, onde o fogo é natural do ecossistema e exerce um papel ecológico, na Amazônia nós estamos falando de um elemento que é exógeno e induzido pela mudança no uso do solo, não de queimadas naturais. Queimar a Floresta Amazônica significa interferir em um ambiente não adaptado ao fogo”, resume Naval.

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Floresta degradada pela queima no chamado Arco do Desmatamento da Amazônia. Foto: Mário Lucas Medeiros Naval/Cena-USP

Os autores recomendam a adoção de políticas de contenção da fronteira agrícola, prevenção de incêndios florestais e implementação de sistemas agrícolas mais biodiversos, como as agroflorestas. Segundo eles, essas práticas armazenam grandes quantidades de carbono, essenciais para a estabilidade climática global, e preservam a saúde dos solos amazônicos.

“A busca por alternativas ao modelo convencional de produção agrícola é essencial não apenas para a preservação ambiental, ao evitar novas queimadas, mas também para garantir a segurança alimentar da população” esclarece o pesquisador Plínio Barbosa de Camargo, um dos coordenadores do estudo.

Sobre o projeto

O trabalho integra o projeto internacional Amazon PyroCarbon, financiado pela FAPESP e pelo Natural Environment Research Council (NERC) e UK Research and Innovation (UKRI), ambos do Reino Unido. A iniciativa estuda os impactos do fogo em diferentes regiões da Amazônia e é coordenada por Camargo e Ted Feldpausch, da Universidade de Exeter.

“Esse trabalho na Estação de Pesquisa Tanguro é apenas parte de uma iniciativa mais ampla que está mapeando como o fogo afeta os solos amazônicos em vários pontos do bioma”, diz Naval, atualmente mestrando no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP). O financiamento do estudo também contou com bolsa de pós-doutorado fornecida ao segundo autor, Wanderlei Bieluczyk.

O artigo Impacts of repeated forest fires and agriculture on soil organic matter and health in southern Amazonia pode ser acessado aqui

*Com informações da Agência FAPESP

Desenvolvimento baseado em exploração de recursos e em grandes obras aprofundou desigualdades na Amazônia

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Rodovia AP-160, entre os municípios de Laranjal do Jari a Vitória do Jari. Foto: Joyce Batista/Governo do Estado do Amapá

Um artigo publicado nesta sexta (6) na revista Acta Amazonica mostra que o modelo atual de desenvolvimento da Amazônia, centrado na extração de recursos naturais e implementação de grandes projetos – como barragens, estradas ou mineração – intensifica desigualdades sociais, destruição ambiental e conflitos territoriais. Esses projetos ainda trazem impactos duradouros para os ecossistemas e as comunidades locais, com efeitos agravados por mudanças climáticas e políticas permissivas.

Leia também: Acervo completo da revista científica Amazoniana é digitalizado pelo Inpa

Conduzido por cientistas de instituições como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade da Califórnia (EUA), o artigo baseia-se em literatura acadêmica, relatórios técnicos e dados institucionais para apresentar os principais marcos históricos e políticos da Amazônia desde os anos 1940, considerando as políticas de desenvolvimento de cada época. Parte do conteúdo também foi derivado de levantamentos do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês), composto por 200 pesquisadores de diversos países.

A partir de políticas estatais voltadas à integração territorial e à modernização urbana-industrial, a Amazônia passou a abrigar grandes empreendimentos, como portos e estradas, que favoreceram interesses externos e desconsideraram a diversidade social e ecológica local. Nos anos 1990, com o avanço do neoliberalismo, observou-se o fortalecimento de mercados ilegais como grilagem, garimpo e tráfico de madeira e drogas.

O estudo revela que, diante dessas pressões, as populações locais têm buscado formas de resistência. Sobretudo na década de 80 e 90, movimentos indígenas se articularam com universidades, ONGs, ambientalistas e movimentos internacionais para garantir maior participação na formulação de constituições que contemplassem seus povos e que tivessem ficado de fora da Constituição de 1988. Dentre os resultados dessa luta, destaca-se o reconhecimento de territórios indígenas, quilombolas e de populações tradicionais e maior participação em fóruns de governança ambiental.

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Segundo Philip Fearnside, pesquisador do INPA e um dos autores do artigo, o trabalho ajuda a romper com a visão simplista de que a Amazônia é um “vazio demográfico”. O bioma é descrito como um espaço complexo, feito de redes sociais, econômicas e culturais que foi moldado ativamente por seus habitantes – como ribeirinhos, quilombolas, indígenas e migrantes.

O pesquisador explica que, hoje,a maior parte da população da Amazônia vive em cidades. “Mas apesar desses grandes centros urbanos, existe ao mesmo tempo uma ligação forte com a população que está na área rural, inclusive com migração de população”, explica. “Essa ligação muitas vezes se dá no âmbito familiar, com mulheres e crianças na cidade para terem acesso a escola e saúde e os homens no campo. Há também aumento de ligações comerciais, com transporte de produtos do campo de cada vez mais longe para os mercados urbanos”, completa.

A pesquisa propõe que as experiências locais sejam valorizadas na formulação de políticas públicas. Os autores defendem alternativas que conciliem justiça ambiental e conservação, com base em saberes tradicionais e participação ativa das comunidades. A expectativa é que o trabalho ajude a repensar o modelo vigente de desenvolvimento, evitando que a Amazônia atinja pontos de não retorno ecológico e social.

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1809-4392202203060

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Portal Amazônia responde: o que é concessão florestal?

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Extração de madeira. Foto: Reprodução/ Serviço Florestal Brasileiro

Dentro da lei de gestão de florestas, a concessão florestal fornece às pessoas jurídicas, empresas, cooperativas e associações de comunidades locais permissão para realizar o manejo sustentável na extração de produtos madeireiros e não madeireiros.

Além disso, a concessão florestal está normatizada dentro do Sistema Nacional de Unidade de Conservação, o SNUC, previsto na Lei 9.985 de 2000, que estabelece o regramento para a criação de unidades de conservação em duas modalidades:

  • Unidades de Conservação de Proteção Integral, que não podem ser habitadas por pessoas
  • e Unidades de Conservação de uso sustentável que podem ser ocupadas por comunidades. 

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“A concessão florestal é uma modalidade de gestão das florestas públicas, federais ou estaduais, que aí a união ou o Estado exercem sobre empresas ou madeireiras para que elas possam explorar de forma sustentável aquela área, mediante o plano de manejo florestal sustentável”, explicou o doutor em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Deivison Molinari, ao Portal Amazônia.

De acordo com o professor, a área concedida é manejada em um sistema de rodízio, o que permite a produção contínua e sustentável de madeira, e que ao apresentar o plano de manejo sustentável, a empresa determina como vai ser feita a exploração daquela área. 

Leia também: Projeto busca viabilizar manejo florestal sustentável com ajuda da tecnologia

Regras necessárias para obter concessão florestal 

De acordo com Molinari, para se obter a concessão florestal, a unidade de conservação e a empresa que deseja explorar a unidade, têm que ser cadastradas no sistema de cadeia de custódia das concessões florestais e no Sistema Florestal Brasileiro. “Sendo tudo isso monitorado pelo Serviço Florestal Brasileiro”, frisa o doutor em geografia.

O sistema de cadeia de custódia das concessões florestais estabelece o controle da produção e da saída dos produtos madeireiros explorados nas áreas sob regime de concessão florestal, em Florestas Públicas da União.

Etapas no processo de concessão 

O processo possui nove etapas, conforme a legislação:

  • Definição das áreas de florestas que podem ser concedidas;
  • Estudos técnicos;
  • Elaboração do Edital de Licitação;
  • Consulta Pública;
  • Concorrência;
  • Assinatura do Contrato de Concessão Florestal;
  • Gestão Administrativa e Financeira dos Contratos de Concessão Florestal;
  • Monitoramento Técnico das Concessões Florestais;
  • Repasse de Recursos.

O processo de concessão começa com a definição das áreas que podem ser utilizadas, conforme o Plano Plurianual de Outorga Florestal. Depois, são realizados estudos técnicos para avaliar as condições ambientais, econômicas e sociais da região. Com base nesses dados, é elaborado o edital de licitação, que inclui critérios de preço e metas socioambientais. Na sequência, acontece a consulta pública, quando a população local pode participar de audiências para opinar sobre a proposta.

Leia também: Pesquisa considera manejo florestal sustentável como alternativa viável para conservação

A fase seguinte é a concorrência, em que empresas, cooperativas e associações legalmente constituídas disputam o direito à concessão. Os vencedores assinam contratos válidos por 40 anos, sem possibilidade de renovação. Por fim, parte dos recursos arrecadados é destinada ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal (FNDF) e aos estados e municípios onde se localizam as florestas concedidas.

Atividades econômicas permitidas pela concessão 

Transporte de madeira. Foto: Reprodução/ Serviço Florestal Brasileiro

O professor enfatiza que a concessão florestal permite ao concessionário apenas o direito de praticar o manejo florestal sustentável, ou seja, extrair produtos madeireiros que compreendem a madeira propriamente dita e o material lenhoso residual (porção de galhos, raízes e troncos de árvores); não madeireiros, que compreendem produtos vegetais de natureza não lenhosa, incluindo folhas, raízes, cascas, frutos, sementes, gomas, óleos, látex e resinas; além de oferecer serviços de turismo, como hospedagem, atividades esportivas, visitação e observação da natureza e esportes de aventura. 

Leia mais: Flona Jamari completa 15 anos: confira como está a área da 1ª concessão florestal do país

*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Guiana Francesa passa a ter isenção de visto para brasileiros; autoridades do Amapá comemoram

Ponte binacional na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa, em Oiapoque. Foto: Maksuel Martins/GEA

O presidente francês Emmanuel Macron anunciou nesta quinta-feira (5), em Paris, o fim a obrigatoriedade do visto para entrada de brasileiros na Guiana Francesa. No Amapá, único estado brasileiro que faz fronteira com o território ultramarino francês, autoridades celebraram a decisão.

Leia também: Portal Amazônia responde: a maior fronteira da França é com o Brasil?

Estiveram presentes durante o anúncio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP). A medida que estabelece o fim do visto para brasileiros estava em debate há pelo menos 16 anos.

“Muito feliz de fazer parte desta luta desde 2007 e de estar aqui em Paris, ao lado do Presidente Lula, comemorando essa conquista […] Uma demanda antiga do povo do Amapá em que, com trabalho e compromisso, transformamos em conquista”, disse Randolfe.

Durante o discurso, o presidente Macron destacou que a relação entre dois países amazônicos deve ser mais estreita e que a nova medida se trata de um acordo muito aguardado.

“Nós nunca consideramos que o Oiapoque devia nos separar antes, pelo contrário. Em março de 2024 já consolidamos essa parceria em monitoramento da biodiversidade do clima com o instituto conjunto. E essa fronteira, a fronteira mais longa da França com outro país, é a fronteira sobre a qual decidimos reforçar e intensificar o trabalho de cooperação para proteger a floresta e lutar contra o garimpo ilegal e o tráfico de seres humanos”, disse o presidente francês.

Medida foi estabelecida com articulação entre autoridades brasileiras e francesas. Foto: Divulgação

O pedido para a isenção de visto do Amapá surgiu a partir do princípio da reciprocidade, visto que não é exigido o visto para turistas franceses no Brasil. E para que brasileiros obtivessem o visto, era necessário o deslocamento até a embaixada francesa, em Brasília.

Senador pelo Amapá e presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), também comemorou o anúncio. “Sem dúvidas, hoje é um dia único para os amapaenses. Nossa luta terminou. Acabou esse negócio de o amapaense ter que ir a Brasília tirar o visto para, então, entrar na Guiana”, disse Alcolumbre.

A fronteira do Amapá com a Guiana Francesa possui uma população estimada em 32 mil habitantes, sendo 26,6 mil pessoas só em Oiapoque, no extremo norte do Amapá, e aproximadamente 3 mil em Saint Georges, ambos limitados pelo Rio Oiapoque e interligados pela Ponte Binacional.

Leia também: Conheça as belezas naturais e 7 curiosidades de Oiapoque

A Guiana Francesa é um departamento ultramarino da França com uma população total estimada em 296.711 e tem como principais atividades econômicas a agricultura, o turismo e a pesca.

Para tratar das relações transfronteiriças, foi criada a Comissão Mista Transfronteiriça (CMT) como parte do Acordo de Cooperação Mista, assinado em maio de 1996 e ratificado com o Plano de Ação da Parceria Estratégica, registrado e divulgado em fevereiro de 2008.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Pesquisa testa potencial de resíduos agroindustriais amazônicos para bioeconomia

A pesquisa leva em consideração aspectos da inovação, a valorização da biodiversidade amazônica e a sustentabilidade. Foto: Flávio Augusto/Arquivo pessoal

Transformar resíduos agroindustriais da Amazônia, como sementes de açaí, cascas de tucumã, bem como folhas e coroas de abacaxi, em compostos químicos de alto valor agregado foi o objetivo de uma pesquisa realizada no Amazonas.

Leia também: Produção de açaí cresce 150% no Amazonas

O projeto ‘Desenvolvimento de compostos de alto valor agregado a partir de resíduos agroindustriais amazônicos’ foi realizado com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), via Programa de Apoio à Ciência, Tecnologia e Inovação em Áreas Prioritárias para o Estado do Amazonas – CT&I ÁREAS PRIORITÁRIAS, edital n° 010/2021.

A ideia é que compostos orgânicos como o ácido levulínico, furfural e hidroximetilfurfural possam contribuir para o desenvolvimento de produtos em diversas áreas industriais, incluindo biocombustíveis, fármacos, cosméticos e embalagens sustentáveis, atividades que podem beneficiar a região amazônica no contexto da Bioeconomia.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a diferença entre economia verde e bioeconomia?

A ideia é que compostos orgânicos como o ácido levulínico, furfural e hidroximetilfurfural possam contribuir para o desenvolvimento de produtos em diversas áreas industriais. Foto: Flávio Augusto/Arquivo pessoal

O estudo foi coordenado pelo pesquisador Flávio Augusto de Freitas, doutor em Ciências (Química), gerente do Núcleo de Materiais e Energia do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A pesquisa leva em consideração aspectos da inovação, a valorização da biodiversidade amazônica e a sustentabilidade.

O foco do estudo está também na diminuição dos impactos ambientais e na conservação da biodiversidade. Flávio Augusto afirma que os resíduos agroindustriais costumam ser descartados de maneira inadequada, poluindo aquíferos e, quando queimados, causando impactos severos no efeito estufa. Ele explica que o projeto contribui também para a melhora da saúde pública, já que muitas pessoas vivem em comunidades próximas às plantações e centros industriais.

De acordo com o coordenador, a aplicação correta dos resíduos agroindustriais como matéria-prima se encaixa no modelo da chamada Economia Circular, pois incentiva a redução do desperdício de insumos. Além disso, os compostos químicos analisados apresentam um alto potencial de serem absorvidos pelas indústrias que fazem parte do Polo Industrial de Manaus (PIM).

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Metodologia

Folhas e coroas de abacaxi, matérias-primas que fazem parte da pesquisa, foram adquiridas em feiras da região metropolitana de Manaus e no município de Tefé (distante a 523 quilômetros da capital).

“A escolha desses pontos permitiu uma representatividade regional e o uso de resíduos reais, comumente gerados por pequenos produtores e feirantes locais”, relatou.

As diferentes etapas do estudo incluíram a caracterização de teores lignocelulósicos, além do pré-tratamento e análise dos resíduos coletados. As matérias-primas lignocelulósicas reúnem materiais de origem vegetal, que são compostos principalmente por três polímeros estruturais: celulose, hemicelulose e lignina.

A pesquisa foi conduzida em uma parceria do CBA com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Foto: Flávio Augusto/Arquivo pessoal

“São abundantes em resíduos agrícolas, como palhas, bagaços, cascas e sementes, e representam uma alternativa sustentável por serem renováveis, não concorrentes com alimentos e altamente disponíveis na Amazônia”, descreveu Flávio Augusto.

A pesquisa foi conduzida em uma parceria do CBA com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. A expectativa é que o projeto auxilie no aperfeiçoamento de mão de obra altamente qualificada e no desenvolvimento de novas tecnologias, gerando emprego e renda.

O projeto aponta a necessidade de uma conscientização social e acadêmica sobre a geração, uso e monetização de resíduos agroindustriais. O pesquisador informa que esses insumos passam a ganhar um outro valor à medida em que deixam de ser considerados lixo. Incentivando cadeias produtivas sustentáveis com base técnica, surge a oportunidade de substituir insumos fósseis por alternativas renováveis.

“A longo prazo, este projeto pavimenta o caminho para o desenvolvimento de biorrefinarias na Amazônia, capazes de transformar resíduos em bioprodutos industriais. Isso pode impulsionar a criação de startups locais, reduzir a dependência de petróleo e atrair investimentos em tecnologias limpas”, afirmou.

*Com informações da Fapeam

Presença de fauna em área de recuperação comprova papel fundamental do reflorestamento na Amazônia

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A onça-pintada, carnívoro, é animal topo de cadeia alimentar e sua presença é um dos indícios que demonstram a restauração ecológica de fauna |Crédito: Monitoramento Salobo Metais

Um trabalho de monitoramento de fauna realizado no sudeste do Pará, numa área em processo de recuperação com espécies nativas, entre elas a castanheira, documentou a presença de diversos animais silvestres. As câmeras registraram anta e seu filhotinho, cachorro-do-mato, tamanduá-bandeira e também a onça, entre outras 30 espécies, em mais de 700 horas de gravação, andando pela jovem floresta de apenas oito anos.

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Os registros comprovam a importância de ações de reflorestamento para o reestabelecimento das funções ecológicas, garantindo o retorno da fauna e, ao mesmo tempo, o renascer da abundância de uma espécie símbolo no Pará, a castanheira, que já está em seu segundo ano de floração na área.

Leia também: Armadilha fotográfica registra aparição de cachorro-vinagre em Rondônia

Presença de fauna em área de recuperação de castanheiras
Em um dos registros, uma anta e seu filhotinho passeiam na área de plantio com espécies nativas. O animal tem grande importância na disseminação de sementes, que ajuda na recuperação florestal | Crédito: Monitoramento Salobo Metais

A área onde o monitoramento foi realizado integra o projeto de recuperação com castanheiras iniciado em 2015, que hoje já conta com 635 hectares recuperados. A meta é alcançar 1.000 hectares até 2030, incorporando outras espécies ameaçadas de extinção da região. A iniciativa conta com parcerias técnico-científicas com o ICMBio, Museu Paraense Emílio Goeldi, Embrapa Amazônia Oriental e Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). 

O projeto de monitoramento da fauna tem como principal objetivo avaliar a presença de animais silvestres nas áreas de recuperação com plantio de diversas espécies nativas, promovido pela Vale Metais Básicos, por meio da Salobo Metais, e entender como a fauna contribui para a regeneração da natureza. Embora o plantio dessas espécies nativas seja uma condicionante ambiental, o projeto de monitoramento de fauna é uma iniciativa voluntária da empresa, voltada para avaliar a efetividade da recuperação e o papel da fauna no processo de regeneração da vegetação nativa. 

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Presença de fauna em área de recuperação de castanheiras
O projeto de conservação da castanheira da empresa do grupo Vale Metais Básicos alcançou mais de 650 hectares, desde o início do plantio iniciado em 2015. São mais de 30 mil mudas plantadas | Crédito: Ricardo Teles

O monitoramento foi realizado ao longo do ano de 2024 tanto no período seco quanto no chuvoso, utilizando câmeras fotográficas digitais e registros indiretos, como pegadas, tocas e fezes de animais. 

Stella Malcher, doutora em Biologia, atua na gerência de Meio Ambiente da Vale Metais Básicos, explica que o monitoramento e a verificação da presença de fauna são um indicador muito positivo para uma área em recuperação. “Temos a identificação de mais de 30 espécies de animais silvestres, com destaque para as espécies carnívoras, incluindo a onça-pintada, predador de topo da cadeia alimentar, além de espécies de aves e répteis, que também têm papel essencial na manutenção dos ciclos ecológicos.

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Além das câmeras trap de monitoramento, as equipes identificaram pegadas, tocas e fezes indicando a presença de animais silvestres nas áreas de recuperação de castanheiras | Crédito: Monitoramento Salobo Metais

A presença de dispersores de sementes, como a anta, também é um indicador importante de recuperação da área, já que são fundamentais para a regeneração da vegetação, pois transportam e promovem a germinação de espécies nativas em diferentes pontos da área em recuperação, sinalizando o avanço na reestruturação do ecossistema”, comemora. 

Os resultados ressaltam o papel essencial da fauna no processo de restauração de áreas degradadas, especialmente na região de Carajás. “As iniciativas de restauração ecológica no setor de mineração podem mitigar impactos ambientais, criando habitats funcionais e contribuindo para a conservação da biodiversidade na Amazônia”, destaca a coordenadora de Meio Ambiente da Vale Metais Básicos, Schweyka de Holanda. 

Leia também: Diversidade da fauna de milhões de anos atrás no Acre é maior do que se pensava

A onça-pintada, carnívoro, é animal topo de cadeia alimentar e sua presença é um dos indícios que demonstram a restauração ecológica |Crédito: Monitoramento Salobo Metais

A restauração florestal promove ainda outras interações benéficas para o meio ambiente, como a preservação da qualidade da água e do solo, e ainda, a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Interações que beneficiam a sociedade como um todo como a regulação do clima. Além disso, a presença ativa da fauna contribui para a continuidade do ciclo natural da floresta, consolidando a importância de estratégias que aliem restauração ambiental à conservação da biodiversidade. 

“Com iniciativas como essa, a Vale Metais Básicos reforça seu compromisso em gerar valor e construir um legado, transformando áreas antes degradadas em ambientes vivos e resilientes”, reforça a gerente de Meio Ambiente da Vale Metais Básicos, Juliana Ficagna. 

Documentário retrata trajetória antropológica de Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade em Manaus

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Obra de Moacir de Andrade. Foto: Sérgio Ivan Gil Braga/Arquivo pessoal do pesquisador

As contribuições antropológicas e culturais de Mário Ypiranga Monteiro e Moacir de Andrade foram a base de um projeto apoiado pelo Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), que resultou em um documentário, no qual apresenta os estilos de descrição etnográfica e formas de interpretação antropológicas desenvolvidas pelos autores amazonenses.

Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e coordenado pelo doutor em Antropologia, Sérgio Ivan Gil Braga, a pesquisa ‘Trajetórias de vida e antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade’ foi realizada no âmbito do Programa Humanitas CT&I – Edital nº 005/2022.

Leia também: Mário Ypiranga Monteiro e a consolidação do Roteiro Histórico de Manaus

Para realizar o projeto, os pesquisadores priorizaram as bibliografias dos autores e fontes primárias envolvendo documentos e correspondências de Mário Ypiranga, desenhos e artes plásticas de Moacir Andrade, livros e artigos publicados em jornais, objetos pessoais como cadernos e cadernetas de campo de Mário Ypiranga.

A dedicação diária dos pesquisadores nesses dois anos resultou no documentário de mais de seis minutos, com uma linguagem acessível e com a participação de toda a equipe da pesquisa, explicando ao público os objetivos, procedimentos e resultados alcançados da pesquisa.

O estudo também resultou em um livro com o mesmo nome do documentário e uma coletânea de textos que serão lançados em breve.

Para o coordenador da pesquisa, Mário e Moacir podem ser vistos como verdadeiros “guardiões” da cultura regional no âmbito do Amazonas.

“Com muita satisfação, encontramos em Mário e Moacir, uma antropologia baseada em um conhecimento prático, consubstanciada nas próprias vivências desses autores e nas etnografias que produziram em suas bibliografias”, explanou Sérgio Ivan Gil Braga.

Para o doutor em Ciências Humanas, o apoio da Fapeam foi fundamental para divulgação científica no Amazonas, além de ser crucial para aquisição de equipamentos.

“Reconhecemos que o apoio da Fapeam foi inestimável para a realização desta pesquisa, pois contamos com financiamento para aquisição de equipamentos e custeio para divulgação de resultados da pesquisa, através da produção de um vídeo documentário e publicação de livros. Sem a Fapeam não teríamos condições de realizar esta pesquisa”, ressaltou.

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Influências na escrita

Nos documentos analisados de Mário Ypiranga Monteiro, os pesquisadores indentificaram influência da Antropologia Cultural de Franz Boas, de Ruth Benedict, antropóloga norte-americana e citações do antropólogo Bronislaw Malinowski. Por outro lado, Moacir Andrade priorizava a descrição de certas memórias vividas no passado, não raro em seu tempo de criança e adolescência, lançando mão do recurso de narrativas de situações e acontecimentos vários, considerados importantes para este autor, na abordagem dos temas amazônicos.

Também foi observado que Mário Ypiranga tinha a preocupação em promover as opiniões de seus interlocutores, bem como observação de aspectos éticos na pesquisa, como a não revelação da identidade dos colaboradores e o respeito às determinações e vontades deles, sobre o que achavam por bem contribuir nas investigações.

Leia também: Moacir Couto de Andrade, um Amigo, uma Saudade

Por outro lado, Moacir Andrade poderia ser comparado à imagem do “flaneur” de Walter Benjamin, na exata medida, em que o pesquisador se deixava levar pelos domínios da cidade ou mesmo em suas viagens pelo interior do Amazonas. Uma maneira interessante de “viver” diferentes realidades e, ao mesmo tempo, observar o que lhe chamava à atenção em suas pesquisas.

Sobre as expectativas do projeto a longo prazo, os pesquisadores pretendem dar continuidade aos estudos sobre o pensamento antropológico da Amazônia, priorizando para análise autores como João Barbosa Rodrigues (1842-1909) e Manuel Nunes Pereira (1893-1995), entre outros.

*Com informações da Fapeam 

Trans e Travestis: pesquisa etnográfica flagra transfobia e racismo nas ruas de Belém

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Pesquisa sobre transfobia busca contribuir para o desenvolvimento desse campo de pesquisa em Belém. Foto: Reprodução/Acervo de da pesquisa

Já parou para pensar como pessoas trans e travestis transitam pela cidade no dia a dia? Apesar de o ato de andar e conviver nos espaços da cidade ser algo tão simples, para pessoas transgênero pode ser um pesadelo. Essa socialização, que já é difícil para trans e travestis, fica pior quando essas pessoas são negras, pois, além da transfobia, elas também ficam à mercê do racismo. Para quem é cisgênero e acredita que pessoas trans e travestis vivem à margem da sociedade, encontrá-las “sob a luz do dia” causa estranheza e olhares de julgamento.

A tese ‘Olhares da/na ci(s)dade: transexualidades/travestilidades, raça e práticas nos espaços citadinos de Belém – “em plena luz do dia”’, do antropólogo Gleidson Gomes, busca entender como pessoas trans e travestis, interlocutoras(es) da pesquisa, transitam não só no gênero, mas também na cidade, em Belém (PA). Inserida na Linha de pesquisa Antropologia Urbana, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/IFCH), a tese procura contribuir para o desenvolvimento desse campo de pesquisa em Belém.

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Inicialmente, o estudo tinha outros rumos, mas, ao assistir à palestra de Rafael Carmo, homem trans negro, em 2018, o autor chegou ao tema atual. O antropólogo conta que as falas de Rafael Carmo sobre transexualidade chamaram sua atenção e daí surgiu a ideia da pesquisa.

O autor utilizou a etnografia como metodologia de pesquisa, que consiste em reunir a vivência e a observação nos espaços pesquisados.

“Na Antropologia, entendemos que etnografia é método e teoria. A etnografia moderna se caracteriza pela convivência com um grupo social por determinado período de tempo, durante o qual, o/a pesquisador/a observa as características desse grupo, suas relações e cultura”, explica Gleidson.

Dados de campo foram obtidos durante caminhadas

O estudo apresenta relatos nos quais as(os) interlocutoras(es) refletem sobre suas vivências e atribuem sentido a elas. O autor utiliza a etnografia de rua como técnica de pesquisa para a construção das histórias de vida. As caminhadas pela cidade foram uma forma de “extrair”, desses “momentos etnográficos”, os dados de campo. Nessa etapa, destacou-se o olhar direcionado às pessoas trans e travestis, pois é no olhar que ocorre boa parte das interações silenciosas. Algumas das experiências vividas pelos interlocutores são de perseguição, transfobia ou mudança de espaços de convívio para sua própria proteção.

O estudo teve três objetivos específicos: o primeiro, com base nas narrativas dos interlocutores, era compreender como foi o processo de transição de gênero; o segundo era analisar quais conflitos de gênero e raça estiveram implicados nesses processos e o terceiro era descrever e interpretar como se figuram as práticas dos espaços citadinos de Belém pelas pessoas trans e travestis interlocutoras(es) na pesquisa.

Parada LGBT+ em Belém, em 2023. Foto: Rodrigo Pinheiro /Agência Pará

O argumento central da tese é que, ao transitarem por Belém em plena luz do dia, as pessoas trans e travestis deparam–se com formas variadas de resistência à sua presença, tendo que conviver com a sensação de não pertencimento à ci(s)dade.

O autor realizou entrevista com cinco interlocutoras(es). Das questões levantadas em campo, estão os conflitos das pessoas trans e travestis com as normas de gênero impostas e a divisão cisgenerificada e racializada. O estudo também contemplou uma experiência do cotidiano em Belém, percebida nas interações e performances diárias, captadas nos microgestos (olhares e expressões faciais), quase sempre, de rejeição à presença de trans e travestis em locais públicos da ci(s)dade. Segundo as(os) interlocutoras(es), é o que mais as(os) incomoda.

Transfobia agrava as situações de racismo

Além da transfobia, o racismo também era percebido pelos interlocutores. Pessoas trans e travestis vivenciam o racismo de diferentes maneiras, antes e depois da transição de gênero. O sofrimento ocorre tanto em um corpo feminino quanto em um corpo masculino dentro dos padrões de gênero de uma sociedade cisgenerificada. Nesse caso, as situações de racismo são parecidas com as que ocorrem com pessoas cis pretas, contudo, agravadas por serem pessoas trans e travestis.

Uma hipótese levantada é que os espaços de prostituição na cidade não são mais espaços “privilegiados” da socialização de pessoas trans e travestis nem as referências de mulheres trans e travestis são travestis que trabalham como prostitutas. A suposição é que esse cenário tenha mudado.

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Em Belém, estudos realizados citam como espaços de sociabilidade da comunidade LGBTQIAP+ a Praça da República e os bairros centrais. Atualmente, pesquisas mostram que o Centro ainda é o espaço de maior trânsito da comunidade, mas os espaços se estendem a bairros como Guamá, Marambaia e Cremação. É também na Praça da República que ocorre uma das manifestações LGBTQIAP+ mais antigas do país: a Festa da Chiquita.

Para Gleidson Gomes, entre as narrativas mais emocionantes, está a de uma mulher trans que, ao iniciar seu processo de transição, precisava vestir roupas masculinas em casa, vestindo-se como mulher apenas quando estava fora da sua residência. Ao voltar para casa, ela precisava se “descaracterizar” nova mente. Certo dia, durante o processo de pesquisa, Gleidson recebeu a notícia de que esta interlocutora foi encontrada sem vida, em um rio de Belém.

Sobre a pesquisa

A dissertação ‘Olhares da/na ci(s)dade: transexualidades/travestilidades, raça e práticas nos espaços citadinos de Belém-PA “em plena luz do dia”’ foi defendida por Gleidson Gomes, em 2023, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/ IFCH) da Universidade Federal do Pará, com orientação do professor Flávio Leonel Silveira.

 *O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 174, escrito por Vinicius Gonçalves

​​Inscrições para o ‘Amazon On 2025’ começam na segunda semana de junho

Edição do Amazon On em 2025 acontece em agosto. Foto: Divulgação

As inscrições para o Amazon On Connectivity & Sustainability 2025 serão abertas na segunda semana de junho. O evento reunirá, em Manaus (AM), nos dias 20 e 21 de agosto, especialistas em tecnologia e sustentabilidade, empresas multinacionais e locais, autoridades públicas e entidades internacionais. Serão debatidas soluções que aliam tecnologia e sustentabilidade para impulsionar a inclusão digital e desenvolvimento sustentável na região. O evento é gratuito e as inscrições poderão ser feitas pelo site oficial.

Leia também: Segunda edição do ‘Amazon On’ abordará soluções tecnológicas e sustentáveis para a Amazônia

A segunda edição do ‘Amazon On’ contará  com múltiplos painéis e palestras com especialistas em tecnologia, conectividade, sustentabilidade e impacto social. Também haverá exposição de tecnologias aplicadas à preservação ambiental e ao acesso à internet, além de debates com representantes de povos originários sobre os desafios e as possibilidades para a infraestrutura e a conectividade nos territórios tradicionais.  

A programação inclui ainda um ‘pitch’ de startups que estão desenvolvendo soluções sustentáveis para a região. O objetivo é destacar como a tecnologia pode viabilizar soluções inovadoras alinhadas à agenda climática, contribuindo para o desenvolvimento regional e para ações de adaptação e mitigação dos impactos socioambientais.

Edição de 2024 do Amazon On. Foto: Isabelle Lima/Portal Amazônia

Durante os dois dias de programação, serão realizados oito painéis, que abordarão os temas:

– Energias renováveis: Uma nova era de fontes alternativas;

– Impacto da Inteligência Artificial nas mudanças climáticas;

– Da Amazônia para o mundo 1: experiências locais em conectividade e sustentabilidade influenciando o planeta;

– A tecnologia no monitoramento e no enfrentamento das mudanças climáticas;

– O financiamento da transição digital verde;

– Da Amazônia para o mundo 2: experiências locais em conectividade e sustentabilidade influenciando o planeta;

– A cooperação internacional para impulsionar a transição verde;

– COP30: Como o setor digital pode ser afetado –  avanços e oportunidades.

O evento também terá duas sessões com debates sobre o tema “Da Amazônia para o mundo: experiências locais em conectividade e sustentabilidade influenciando o planeta”, que vão apresentar as soluções sustentáveis já em prática na região.

O coordenador do evento, Moisés Moreira, destaca a relação dos temas do Amazon On com áreas de interesse do setor industrial, sobretudo de empresas da Zona Franca de Manaus:

“A indústria na Amazônia tem a sustentabilidade como um fator essencial para a governança de seus processos e na busca pela construção do verdadeiro desenvolvimento sustentável. E o evento deste ano [2025] tem sido pensado para envolver essas empresas nesse processo de desenvolvimento sustentável”.

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Moisés também ressalta que os temas debatidos no Amazon On incluem pautas que auxiliam a indústria a empregar inteligência artificial e outras soluções tecnológicas para reduzir consumo de eletricidade, de água e a geração de resíduos, e abordam alternativas sustentáveis para geração de energia e conectividade em comunidades isoladas na Amazônia.

Além dos painéis, palestras e exposições, o evento também é uma oportunidade para conectar-se com profissionais e empresas que atuam nos setores de tecnologia, inovação, conectividade e sustentabilidade. “Faz parte do propósito do Amazon On a construção de uma rede de colaboração entre ONGs, governos, centros de pesquisas, startups e grandes empresas”, lembra Moisés.

O Amazon On 2025 é idealizado pela MMoreira Consult e tem o apoio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Rede Amazônia e Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). O evento acontecerá no Centro de Convenções Vasco Vasques, na avenida Pedro Teixeira, bairro Dom Pedro, zona oeste de Manaus, nos dias 20 e 21 de agosto.

Você sabia que a Rodovia Transamazônica conecta o Amazonas e a Paraíba?

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Pavimentação realizada pelo DNIT entre Novo Repartimento e Anapu, no Pará, em 2023. Foto: Reprodução/DNIT

É isso mesmo. Conhecida como Rodovia Transamazônica, trata-se de obra que surgiu durante a Ditadura Militar: a BR-230. Ela foi criada em uma época em que era chamado o ano do ‘milagre brasileiro’ com o objetivo de conectar o Nordeste ao Norte do País. São mais de 4 mil km, passando por sete Estados e cruzando três diferentes ecossistemas do Brasil.

Por isso, ainda que a pavimentação são seja em toda a rodovia e existam muitas discussões sobre o impacto de sua implementação no meio ambiente, a rodovia conecta o Nordeste (ao extremo a rodovia leste se inicia na cidade de Cebedelo, na Paraíba, o ‘marco 0’) ao Norte do país (mais precisamente o extremo oeste, na cidade de Lábrea, no Amazonas.

Leia também: Rodovias da Amazônia: conheça as estradas que integram a região

A Transamazônica era é uma das propagandas mais destacadas do regime militar e foi lançada oficialmente em 09/10/1970. Ela acabou sendo inaugurada ainda inacabada, no dia 27/08/1972. Originalmente, o projeto era que se previa cerca de 8.000 km de estrada ligando o país “do Atlântico ao Pacífico”, cruzando o Brasil e seguindo até os países vizinhos Peru e Equador.

A pavimentação da via, segundo informações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), ainda não está completa e 41% (1.753 km) ainda não tem asfalto. Por isso, o tráfego, principalmente de cargas como grãos, é difícil na rodovia. No período de chuvas (outubro a março) é ainda mais complicado. São necessárias, pelo menos, 70 horas de viagem para cruzar toda a rodovia.

Extensão da BR-230. Foto: Reprodução/Google Maps

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Por onde ela passa?

Ao todo, como dito anteriormente, são sete estados atravessados pela BR-230:

Paraíba (nos municípios de: Cabedelo, João Pessoa, Bayeux, Santa Rita, Cruz do Espírito Santo, Sobrado, Caldas Brandão, Gurinhém, Mogeiro, Ingá, Riachão do Bacamarte, São Miguel de Taipu, Massaranduba, Campina Grande, Soledade, Juazeirinho, Junco do Seridó, Santa Luzia, São Mamede, Patos, Malta, Condado, São Bentinho, Pombal, Aparecida, Sousa, Marizópolis, Cajazeiras e Bom Jesus);

Ceará (nos municípios de: Ipaumirim, Lavras da Mangabeira, Várzea Alegre, Farias Brito, Assaré, Antonina do Norte e Campos Sales);

Piauí (nos municípios de: Fronteiras, Vila Nova do Piauí, Campo Grande do Piauí, Santo Antônio de Lisboa, Picos, Dom Expedito Lopes, São João da Varjota, Oeiras, Nazaré do Piauí e Floriano);

Maranhão (nos municípios de: Barão de Grajaú, São João dos Patos, Pastos Bons, São Domingos do Azeitão, São Raimundo das Mangabeiras, Balsas, Riachão, Carolina e Estreito);

Tocantins (nos municípios de: Aguiarnópolis, Nazaré/Santa Terezinha do Tocantins, Luzinópolis, Cachoeirinha, São Bento do Tocantins e Araguatins);

Pará (nos municípios de: Palestina do Pará, Brejo Grande do Araguaia, São Domingos do Araguaia, Marabá, Itupiranga, Novo Repartimento, Pacajá, Anapu, Altamira, Brasil Novo, Medicilândia, Uruará, Placas, Rurópolis, Itaituba e Jacareacanga);

Amazonas (nos municípios de: Maués, Apuí, Novo Aripuanã, Manicoré, Humaitá, Canutama e, por fim, Lábrea).

*Com informações da Agência Brasil, DNIT e Agência Cidades