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Documentário recria mundo imaginário do artista amazonense Da Silva da Selva

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Foto: Divulgação

Arte, memória e floresta. A união desses três elementos compõem o documentário ‘DASILVA DASELVA’, dirigido por Anderson Mendes, sobre o legado do artista plástico Da Silva da Selva, nome fundamental da arte amazônica, cuja trajetória é resgatada com lirismo, afeto e rigor histórico. O lançamento ocorre no dia 21 de maio, a partir das 18h30 no Teatro Gebes Medeiros, em Manaus (AM), com entrada gratuita.

Realizado ao longo de um ano de intensa pesquisa, o filme mobilizou arquivos raros, materiais de acervo pessoal, registros em vídeo acumulados ao longo de décadas e depoimentos preciosos — incluindo a voz do próprio artista. Ao reconstruir esse percurso, o documentário se torna também um tributo à floresta, à arte e à força da imaginação amazônica.

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“Esse filme nasceu do meu desejo pessoal e afetivo de preservar a memória do meu tio. Mas acima de tudo, de reafirmar a importância de uma arte que brota da terra, que fala com os bichos, com as folhas, com o barro. DASILVA DASELVA é um gesto de amor e reconhecimento”, afirma Anderson Mendes, que além da direção, assina roteiro, montagem e trilha sonora da obra.

A narrativa do documentário ganha corpo com a presença potente do ator Moacy Freitas, que interpreta Da Silva da Selva em cenas dramatizadas inspiradas nos relatos e escritos do próprio artista. “Foi um desafio e uma honra. Da Silva é um ser que não cabe em molduras. Me emocionei muitas vezes no processo, me conectando com sua visão mágica da Amazônia”, diz Moacy.

A construção visual do filme é outro ponto de destaque. A direção de arte de Keylla Gomes foi essencial para recriar o universo do artista, entre pincéis, penas, pigmentos naturais e referências à floresta. A fotografia, assinada por Alexandre Pinheiro e Marcos Feitoza, valoriza texturas, luzes e detalhes que evocam tanto o gesto artesanal quanto o espírito onírico das obras de Da Silva, juntamente com o trabalho de captação de sons da floresta e mixagem que foi capitaneado pelo produtor audiovisual Adailton Santos.

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A produção do documentário ficou a cargo de Francy Jr. e Jorgemar Monteiro, que coordenaram com sensibilidade todas as etapas do projeto, garantindo que a realização respeitasse o ritmo e a profundidade que a memória exige. Ao longo dos meses de pesquisa, a equipe percorreu locais emblemáticos para o artista, ouviu familiares, amigos e especialistas, e traduziu em linguagem cinematográfica um legado que ultrapassa o campo das artes visuais.

Foto: Divulgação

Sobre o homenageado

Sebastião Corrêa da Silva, conhecido como Da Silva da Selva, foi um artista plástico amazonense com mais de 600 obras e 42 exposições realizadas no Brasil e no exterior. Ecologista, escultor e autodidata, desenvolveu diversas técnicas próprias, como o “bico de pena pintado” e o uso de canutilhos.

Apaixonado pela Amazônia, percorreu a floresta em expedições artísticas e dedicou sua obra à representação sensível da fauna, flora e imaginário amazônico. Em vida, doou mais de 500 obras ao acervo da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

Sobre o diretor

Anderson Mendes é produtor cultural e cineasta premiado, com trajetória voltada à valorização das memórias e culturas amazônicas. Seus trabalhos, entre a ficção e o documentário, destacam narrativas de identidade, ancestralidade e preservação dos territórios. Em DASILVA DASELVA, além da direção, assina roteiro, montagem e trilha sonora.

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O projeto foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, com apoio do Governo do Estado do Amazonas, por meio do Conselho Estadual de Cultura e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, em parceria com o Ministério da Cultura e Governo Federal.

🎥 Confira o trailer:

Galeria: Veja os bastidores da produção de figurino para o FAO 2025

Produção de figurino da FAO. Foto: Diego Andreoletti/Amazon Sat

Apesar de essencial, a música não é o único elemento que integra uma ópera. Na 26ª edição do Festival Amazonas de Ópera (FAO), componentes como a cenografia, visagismo e o figurino fazem parte da ambientação.

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Os figurinos são elementos que auxiliam na construção dos personagens e do contexto histórico da ópera, como por exemplo a época em que se passa a obra ou o status social dos personagens, promovendo uma imersão na narrativa da ópera.

Neste ano, o FAO apresenta ‘As bodas de Fígaro’, ópera em quatro atos composta por Mozart, com estreia em 1º de maio de 1786 e que satiriza hábitos da nobreza. A ópera-bufa (comédia) se inspira em eventos e locais de Sevilha, na Espanha.

A responsável por assinar os figurinos do festival, conhecido internacionalmente e apreciado por fãs e críticos de ópera, é a amazonense Melissa Maia, que atua há 15 anos como figurinista. Confira alguns momentos do processo de organização dos figurinos:

Leia também: Festival Amazonas de Ópera 2025: o que são ‘As bodas de Fígaro’?

produção de figurino

Ópera em Rede

O Ópera em Rede é um projeto que tem como objetivos democratizar o acesso à música lírica e a valorização da cultura amazônica, realizado pela Fundação Rede Amazônica (FRAM), com o apoio de: Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC), Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM), Governo do Amazonas e Amazônica Net.

Entenda como funciona a criação e troca de figurinos durante o Festival Amazonas de Ópera 2025

Criação e troca de figurinos do FAO. Foto: Diego Andreoletti/Amazon Sat

Apesar de essencial, a música não é o único elemento que integra uma ópera. Na 26ª edição do Festival Amazonas de Ópera (FAO), componentes como a cenografia, visagismo e os figurinos fazem parte da ambientação.

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Os figurinos são elementos que auxiliam na construção dos personagens e do contexto histórico da ópera, como por exemplo a época em que se passa a obra ou o status social dos personagens, promovendo uma imersão na narrativa da ópera.

criação e troca de figurinos
Criação e troca de figurinos do FAO. Festival de Ópera. Foto: Michael Dantas

Neste ano, o FAO apresenta ‘As bodas de Fígaro’, ópera em quatro atos composta por Mozart, com estreia em 1º de maio de 1786 e que satiriza hábitos da nobreza. A ópera-bufa (comédia) se inspira em eventos e locais de Sevilha, na Espanha.

A responsável por assinar os figurinos do festival, conhecido internacionalmente e apreciado por fãs e críticos de ópera, é a amazonense Melissa Maia, que atua há 15 anos como figurinista. 

criação e troca de figurinos
Melissa Maia é a responsável pelos figurinos do FAO. Foto: Diego Andreoletti/Amazon Sat

A história de Melissa é conectada com o festival, pois, segundo ela, foi assistir uma ópera no FAO que a motivou a se tornar figurinista.“Eu assisto o festival desde 2001, então eu tinha 11 anos e hoje em dia eu trabalho já há 15 anos como figurinista. A primeira ópera que eu assisti no Festival Amazonas de Ópera fez-me descobrir que eu realmente queria ser figurinista. Então a minha carreira e o festival cresceram ao mesmo tempo. Para mim, é um privilégio poder estar trabalhando nesse evento tão importante”, pontua.

Desenvolver os figurinos de uma ópera exige tempo, estudo e muita parceria. Melissa explica que o processo de criação começa com uma profunda pesquisa histórica e dramatúrgica: “A gente faz a decupagem da ópera, lê o libreto, estuda os personagens. Tudo isso em sintonia com o cenário e a direção”.

criação e troca de figurinos
Os figurinos do FAO. Foto: Marcio James

A ópera no geral exige um cuidado mais especial com tecidos, acabamento e até o contexto. Contudo, nessa montagem, Melissa utilizou uma abordagem mais contemporânea, ainda que preservasse o espírito do século XVIII, época da composição original.

“É como se fosse uma versão moderna com um perfume de época”, descreve. Isso trouxe desafios específicos, especialmente na escolha dos tecidos. “Figurino de época costuma ser quente e aqui temos que considerar o clima. Pensamos em tecidos mais leves, mas que ainda entreguem a estética necessária”.

Leia também: Festival Amazonas de Ópera: conheça o trabalho dos visagistas que trabalham nos bastidores do espetáculo

Nos bastidores

O glamour do palco esconde uma coreografia de bastidores igualmente impressionante. Melissa ressalta que o figurino não é obra de uma só pessoa: “Tem produtor, costureiras, camareiras, aderecistas, contrarregras… É uma grande engrenagem”.

criação e troca de figurinos
Os figurinos do FAO. Foto: Diego Andreoletti/Amazon Sat

Com oito camareiras atuando nesta produção, as trocas rápidas de roupa são cronometradas. “A gente tem uma equipe que faz toda essa logística de troca. Obviamente temos ensaios para fazer esses testes e ver o que funciona mais. Mas, no geral, tudo depende da equipe e do momento do espetáculo. Tem o stage manager [gerente de palco] que dá o sinal e sabemos quanto tempo a troca terá: dois, cinco minutos. A gente sabe mais ou menos o tempo e faz uma coreografia nos bastidores para organizar essa montagem”, revela.

Texturas, luzes e adaptações

Um dos diferenciais é a atenção aos detalhes técnicos. No Teatro Amazonas, um dos maiores desafios é adaptar o figurino à iluminação intensa e ao calor, segundo a estilista. Ela conta que o figurino de cena precisa ter textura, volume e camadas. “A luz exige acabamento, senão a gente perde toda a riqueza visual”, conta.

criação e troca de figurinos
Os figurinos do FAO. Foto: Divulgação

Mesmo com a experiência acumulada, os imprevistos fazem parte da rotina. “Perrengue sempre tem. A ópera é uma obra viva, em constante transformação. Até a pré-estreia, ajustes acontecem. Durante os ensaios, fico na plateia anotando tudo que ainda podemos melhorar”, expõe.

Para Melissa, o figurino mais marcante é sempre o mais recente. “Os figurinos do Conde e da Condessa têm um lugar especial. Me dediquei muito a eles”, revela.

Leia também: Festival Amazonas de Ópera: conheça o trabalho dos cenógrafos do espetáculo

Ópera em Rede

O Ópera em Rede é um projeto que tem como objetivos democratizar o acesso à música lírica e a valorização da cultura amazônica, realizado pela Fundação Rede Amazônica (FRAM), com o apoio de: Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural (AADC), Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM), Governo do Amazonas e Amazônica Net.

São Marcos atrai turistas com trilhas, igarapés, praias, sabores amazônicos e conectividade em meio à floresta

São Marcos atrai turistas em meio à floresta. Foto: Katrine Cardoso/Ascom Semtur

A comunidade São Marcos, às margens do rio Arapiuns, tem se destacado no turismo de base comunitária em Santarém por integrar natureza, cultura e infraestrutura. Passeios de canoa, igarapés de águas cristalinas, culinária regional e visita ao meliponário são algumas das experiências oferecidas ao longo do ano, com o diferencial de contar com energia solar e acesso à internet via Wi-Fi.

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Turismo o ano inteiro

São Marcos se revela durante a cheia, os passeios de canoa pelos igapós revelam cenários exuberantes, com árvores nativas como jarazeiros, buritis e carapanaúbas. O percurso inclui uma trilha de aproximadamente 600 metros até o “Garapé do Índio”, uma nascente de águas cristalinas e preservadas, proporcionando um contato único com o ambiente natural.

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São Marcos atrai turistas com trilhas
Durante a época de cheia na Comunidade São Marcos. Foto: Katrine Cardoso/Ascom Semtur

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Na época da seca, as trilhas se estendem por São Marcos, tornando o percurso mais longo e desafiador. Além disso, a região está cercada por praias paradisíacas como Caracaraí e Ponta Grande — ideais para a tradicional piracaia, com águas calmas e paisagens deslumbrantes.

A programação inclui ainda vivências culturais, como a visita à casa de farinha, o artesanato produzido com palha de tucumã e madeira entalhada, além do meliponário com abelhas sem ferrão. No restaurante comunitário, os visitantes saboreiam pratos típicos como peixes assados, fritos ou cozidos e a tradicional galinhada. Após o almoço, o redário coletivo convida ao descanso à sombra das árvores.

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São Marcos atrai turistas com trilhas
Durante a época da vazante na Comunidade São Marcos. Foto: Katrine Cardoso/Ascom Semtur

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Um dos pontos fortes da localidade é o fornecimento de energia solar e o acesso à internet, que permitem que os turistas permaneçam conectados durante a estadia, compartilhem suas experiências em tempo real e realizem pagamentos digitais — facilitando a logística e ampliando as oportunidades para os moradores.

Com apenas 13 famílias — 38 adultos e 11 crianças —, a comunidade se destaca pela organização, hospitalidade e pelo fluxo constante de visitantes. Entre janeiro e maio deste ano, mesmo fora da alta temporada, cerca de 200 turistas já passaram por lá, reforçando seu potencial como destino durante todo o ano.

Para os moradores, o apoio da Prefeitura é fundamental para impulsionar o turismo de base comunitária.

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São Marcos atrai turistas com trilhas
A Comunidade São Marcos possui apenas 13 famílias, 38 adultos e 11 crianças. Foto: Katrine Cardoso/Ascom Semtur

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“Estamos em busca de visibilidade. Já trabalhamos há 10 anos aqui, e esse apoio do governo é muito importante. Esse alinhamento com a Prefeitura vai fortalecer ainda mais o nosso turismo. Hoje vocês puderam vivenciar nossas atrações e analisar conosco as potencialidades. Estamos felizes e aguardamos as capacitações da Secretaria de Turismo, que vão agregar muito ao nosso trabalho”, afirmou Carpegiane Duarte, liderança local.

O secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, também destacou o impacto da visita. “Fiquei encantado com o passeio. Aqui você escuta o som da floresta, o canto dos pássaros, o barulho do vento… Isso renova qualquer energia. Já estamos alinhando melhorias para preparar a comunidade para a alta temporada, mas São Marcos tem atrativos o ano inteiro. Tem muita coisa boa acontecendo”, concluiu.

*Com informações da Prefeitura de Santarém

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Desmatamento no Brasil caiu 32,4% em 2024, segundo Mapbiomas

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Desmatamento no Brasil caiu 32,4% em 2024. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Cinco dos seis biomas brasileiros tiveram redução no desmatamento em 2024, segundo o Mapbiomas. A exceção foi a Mata Atlântica, que se manteve praticamente estável em relação a 2023.

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Na comparação com o ano anterior, a redução em 2024 foi de 32,4% na área desmatada e 26,9% sobre os alertas de desmatamento. Ao todo, foram desmatados em 2024 no Brasil 1.242.079 hectares e foram registrados 60.983 alertas no território nacional. Os dados consolidados foram apresentados no Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD).

Desmatamento no Brasil caiu
Desmatamento no Brasil caiu 32,4%. Foto: Fernando Sette

Na comparação entre os dois anos, o Pantanal e o Pampa foram os biomas que apresentaram a maior redução das áreas de desmatamento. O Cerrado aparece em terceiro lugar, seguido da Amazônia e da Caatinga. A Mata Atlântica teve um crescimento de 2%.

Desmatamento registrado em 2024, na comparação com 2023:

  • Pantanal – redução de 58,6%
  • Pampa – redução de 42,1%
  • Cerrado – redução de 41,2% 
  • Amazônia – redução de 16,8% 
  • Caatinga – redução de 13,4% 
  • Mata Atlântica – crescimento de 2%

Em 2024, mais de 89% da área desmatada no país integram a Amazônia ou o Cerrado. As formações savânicas foram as áreas mais desmatadas e responderam por 52,4% de todo o desmatamento no país. As formações florestais representaram outros 43,7%.

Desmatamento no Brasil caiu
Desmatamento no Brasil caiu 32,4%. Amanda Lelis/Instituto Mamirauá

Segundo Tasso Azevedo, coordenador geral do Mapbiomas, um dos dados monitorados pela instituição é a perda de vegetação nativa por causa de eventos extremos climáticos, e esse foi o motivo de a Mata Atlântica não ter acompanhado a diminuição do desmatamento observada nos demais biomas. 

“Se não tivesse os desmatamentos que foram computados por conta dos eventos extremos, o desmatamento teria sido 20% menor”, explica.

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Área desmatada

Em 2024, por dia, a área média desmatada foi de 3.403 hectares e 141,8 hectares por hora. Dia 21 de junho, quando 3.542 hectares de vegetação nativa foram desmatados em 24 horas, foi o dia que registrou maior desmatamento no ano passado. No Cerrado, o ritmo da perda foi mais intenso: 1.786 hectares ao dia.

Na avaliação dos pesquisadores, esse resultado pode refletir três mudanças observadas nesse período. 

“Nesses últimos anos, foram construídos planos de enfrentamento ao desmatamento para todos os biomas, o que não havia antes. Outra questão é que aumentou a participação dos estados nas ações em relação ao desmatamento, em termo de atuarem mais nos embargos e autuações feitas pelo Ibama. O terceiro fator é a questão do crédito rural. Houve um aumento do uso desses dados para a concessão de crédito rural”, explica Tasso.

Desmatamento no Brasil caiu
Desmatamento no Brasil caiu 32,4%. Foto: Reprodução/TV Brasil

Apesar das reduções, em 2024, pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado foi o bioma que registrou maior área desmatada no país com a subtração de mais de 652 mil hectares de vegetação nativa. 

“Essa mudança ocorreu pela primeira vez em 2023. A gente sempre teve historicamente o desmatamento concentrado em regiões da Amazônia. Esse ano, os dois biomas tiveram uma redução, mas ainda manteve o padrão anterior, porque o desmatamento do Cerrado foi maior que o da Amazônia”, alerta Marcos Rosa, coordenador técnico do Mapbiomas.

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Regiões

A Amacro (pólo agropecuário nos estados do Amazonas, Acre e Rondônia) teve, pelo segundo ano consecutivo, queda no desmatamento. Foram registrados 5.753 alertas em 89.826 hectares no ano de 2024, o que representa uma redução de 13% em relação a 2023.

No outro extremo, a região do Matopiba (estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) foi onde ocorreu 42% do total de perda de vegetação nativa do país, e também é onde o Cerrado mais foi desmatado, representando 75% da perda de vegetação nativa no bioma.

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Estados

Os quatro estados do Matopiba e o Pará foram os que mais desmataram em 2024, representando 65% da área total no Brasil.

Os estados que tiveram maior participação no desmatamento no país em 2024 foram o Maranhão, Pará e Tocantins. Eles representaram respectivamente 17,6%, 12,6% e 12,3% do total de perda de vegetação no país.

Na comparação entre os anos de 2023 e 2024, os estados de Goiás, Paraná e Espírito Santo reduziram o desmatamento em mais de 60%. Já os estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Acre foram os que apontaram maior crescimento.

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Terras indígenas

No último ano, as terras indígenas tiveram uma redução de 24% na perda de vegetação nativa por desmatamento. Foram atingidos 15.938 hectares, o que equivale a 1,3% do total desmatado no país. A Terra Indígena Porquinhos dos Canela-Apãnjekra (MA) se manteve no topo da lista da que mais desmatou, tendo perdido, em 2024, 6.208 hectares, o que representa um aumento de 125% em relação a 2023. Apenas 33% das terras indígenas brasileiras tiveram algum evento de desmatamento ano passado.

Nas Unidades de Conservação (UCs), a perda de vegetação nativa alcançou 57.930 hectares, 42,5% a menos que em 2023. A Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu (PA), no bioma Amazônia, foi a que teve maior área desmatada no país, com 6.413 hectares.

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Autorizações

A partir de dados obtidos nos estados, o Relatório Anual do Desmatamento traz ainda dados sobre autorização para supressão de vegetação a partir da análise de dados disponibilizados em portais de transparência ou após provocação dos órgãos ambientais das unidades federativas.

Desmatamento no Brasil caiu
Desmatamento no Brasil caiu 32,4%. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 2024, 43% da área desmatada teve alguma autorização para desmatar, sendo o Cerrado o bioma que mais teve esse tipo de liberação, com 66% da vegetação nativa suprimida ocorreu com autorização. Na Amazônia, esse percentual é de 14%.

Segundo Marcondes Coelho, pesquisador do Instituto Centro de Vida (ICV) e colaborador do Mapbiomas, o estado do Maranhão, além de ter sido o de maior participação em percentual no desmatamento do país, também foi o que menos apresentou informações para transparência sobre as ações de fiscalização e também sobre as autorizações para desmatamento. 

“Depois de várias tentativas, chegamos a receber duas bases de dados, mas as informações de autorização, por exemplo, tinham restrição e nós não pudemos usar, então, o estado do Maranhão segue com essa dificuldade de dar transparência a essas informações ambientais para o controle do desmatamento”, diz. 

Leia também: Amazônia tem queda de 30,6% no desmatamento e Cerrado de 25,7% em 2024

Vetores

Em uma análise mais ampla sobre a série histórica do Relatório Anual do Desmatamento, iniciada em 2019, os pesquisadores verificaram que o Brasil já desmatou 9.880.551 de hectares nesses seis anos, sendo que 67% desse total foram de vegetação nativa na Amazônia Legal.

De acordo com o Mapbiomas, o desmatamento por pressão da agropecuária responde por mais de 97% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil nos últimos seis anos. 

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Como comunidades em 11 países estão prevenindo conflitos com onças-pintadas

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A crescente expansão de atividades humanas sobre ambientes naturais tem intensificado as interações negativas entre comunidades rurais e onças-pintadas em toda a América Latina. Diante desse desafio, um estudo inovador — que contou com a participação de 30 autores de 22 instituições — analisou a eficácia de diferentes estratégias para evitar a predação de animais domésticos por onças-pintadas ao longo de toda a distribuição geográfica do felino, que vai do norte do México até o norte da Argentina.

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O levantamento inclui informações de 248 propriedades rurais de diferentes portes, desde pequenas propriedades familiares até grandes fazendas de pecuária extensiva.

A predação de animais domésticos é intensificada em regiões onde as onças perderam seu habitat natural e há menor disponibilidade de presas naturais para caçarem. Este cenário acaba aproximando as onças-pintadas de propriedades rurais e rebanhos de animais domésticos, aumentando o risco de predação e, consequentemente, o abate de onças por moradores locais.

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Onça-pintada. Crédito: Miguel Monteiro

O abate de onças pode ser influenciado pela percepção de riscos à comunidade local, assim como por prejuízos econômicos gerados pelos animais domésticos predados.

“As percepções, atitudes e ações em relação às onças-pintadas podem variar bastante entre os países onde ocorrem, devido a diferenças nas políticas públicas e contextos locais. Estudar também as dimensões humanas do conflito e coexistência com as onças-pintadas é crucial para entender esses fatores e, com isso, apoiar abordagens mais eficazes que aliem conservação e justiça social”, ressaltou Wezddy Del Toro-Orozco, coautora do estudo, e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia do Instituto Mamirauá.

Leia também: Descubra o que fazer quando encontrar uma onça-pintada

Impactos da perda de habitat da onça-pintada e necessidade de estratégias preventivas

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Onça-pintada. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

A perda e fragmentação de habitat, em conjunto com menor disponibilidade de presas naturais e a caça retaliatória, podem levar à extinção local das onças, que no total já perderam mais de 50% de seu habitat natural. O estudo, no entanto, demonstra que é possível reverter esse cenário através de uma combinação de métodos preventivos, tecnologia e engajamento comunitário.

Utilizando dados provenientes de 11 países, incluindo ecossistemas tão diversos quanto o deserto de Sonora, no México, e as florestas alagadas da Reserva Mamirauá, no Amazonas, o estudo determinou que todas as regiões obtiveram sucesso ao utilizar diferentes estratégias anti-predação.

Em alguns casos, a combinação de cercas elétricas, manejo mais adequado dos animais domésticos e proibição da caça de animais silvestres resultou em 100% de redução na predação por onças-pintadas, efetivamente reduzindo a zero o número de animais domésticos predados. Além disso, em 88% dos casos analisados, os benefícios econômicos oriundos das estratégias anti-predação excederam os investimentos necessários para sua implementação.

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Soluções adaptadas às realidades locais

Para regiões de difícil acesso e rebanhos pequenos, como a Reserva Mamirauá, a pesquisa sugere que melhorar o manejo dos animais domésticos e promover atividades de educação com comunidades locais são a melhor maneira de reduzir a predação por onças. O estudo pontua também que esse processo deve ser colaborativo, alinhando as intervenções propostas às práticas locais, aumentando a relevância da estratégia e promovendo a coexistência entre as comunidades e onças-pintadas.

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Criação de gado em pequena escala na Reserva Mamirauá. Crédito: Miguel Monteiro

“É importante lembrar que o trabalho interdisciplinar, a colaboração e as abordagens participativas com as populações locais não são apenas necessárias e justas — são fundamentais se quisermos alcançar uma conservação verdadeiramente equitativa. É fundamental integrar saberes tradicionais e científicos, e o objetivo deve ser sempre a coprodução de soluções de conservação que beneficiem tanto os felinos quanto as pessoas, promovendo um futuro em que a coexistência entre humanos e felinos possa prosperar”, enfatizou Wezddy Del Toro-Orozco.
 
Segundo Wezddy Del Toro-Orozco, “o estudo é um esforço inédito em escala continental sobre práticas de manejo que buscam promover a coexistência entre humanos e onças”. Sobre a relevância da pesquisa, ela destaca, “diante dos fatos recentes envolvendo o trágico ataque fatal de uma onça a um ser humano, o discurso público vem sendo dominado por narrativas de medo, retaliação e remoção, o que pode ter consequências graves para a conservação das onças e de outros grandes carnívoros”.

“Nesse contexto, nosso artigo  é extremamente pertinente por oferecer alternativas baseadas em ciência, testadas em campo, que ajudam a prevenir conflitos e proteger tanto as pessoas quanto os animais”, acrescenta a pesquisadora.

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Coexistência como caminho viável e necessário

O estudo ressalta que não existe uma solução única, mas sim um conjunto de abordagens que devem ser adaptadas a cada contexto local para diminuir os riscos de predação de onças a animais domésticos. O que todas têm em comum, porém, é a capacidade de transformar um cenário de conflito em uma oportunidade de coexistência.

Com a implementação dessas estratégias, já é possível observar resultados positivos em diversas regiões, provando que comunidades humanas e grandes predadores podem, sim, compartilhar o mesmo território de forma harmoniosa.

*Com informações do Instituto Mamirauá. Texto escrito por Miguel Monteiro

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Agricultores que conservaram a floresta começam a receber R$ 2,2 milhões do Projeto Floresta+ Amazônia

Agricultores que conservaram a floresta começam a receber pelo Projeto Floresta+ Amazônia. Foto:  Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Governo Federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), iniciou o pagamento dos incentivos financeiros a 217 agricultores e agricultoras. Eles se inscreveram na chamada pública de pagamentos por serviços ambientais (PSA) do Projeto Floresta+ Amazônia por conservarem a floresta em seus imóveis rurais. A iniciativa repassa, no primeiro lote, o montante de R$ 2,2 milhões.

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O Projeto Floresta+ Amazônia é uma iniciativa piloto implementada em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e financiado pelo Fundo Verde para o Clima (GCF), com recursos oriundos de resultados obtidos pelo Brasil na Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa decorrentes do Desmatamento e da Degradação florestal (REDD+).

Saiba mais: Projeto ‘Floresta+ Amazônia’ oferece incentivos financeiros a produtores rurais que preservam a mata

Agricultores que conservaram a floresta começam a receber pelo Projeto Floresta+ Amazônia. Foto:  Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os beneficiados são agricultores e agricultoras familiares que detêm área de até quatro módulos fiscais e foram elegíveis para receber a primeira parcela do pagamento como provedores de serviços ambientais. Os valores variam entre R$ 1,5 mil e R$ 28 mil, dependendo do tamanho, localização do imóvel rural e da área de vegetação nativa preservada. São quase 12 mil hectares de floresta conservada.

Este primeiro lote de pagamentos é destinado a provedores de serviços ambientais que estavam inscritos até janeiro de 2025. Novos lotes de pagamentos estão previstos para os próximos meses considerando novas adesões, que podem ser feitas em fluxo contínuo até dezembro deste ano, por meio do site do projeto ou durante os mutirões presenciais.

Com esse primeiro lote de pagamentos, o Floresta+ avança em um dos seus principais objetivos: apoiar agricultores e agricultoras familiares, proprietários e proprietárias ou possuidores e possuidoras de pequenos imóveis rurais na Amazônia Legal. Por meio de incentivos econômicos, eles são incentivados a se engajarem em frentes estratégicas de conservação da floresta, mantendo o que se chama de remanescentes de vegetação nativa. Por esse motivo, os beneficiários do projeto são chamados de “provedores de serviços ambientais”.

Leia também: Política de pagamento por serviços ambientais para preservação da cultura indígena recebe reforço da Funai

Produzir e conservar

Agricultores. Foto: Vitor Souza/Secom

O recurso beneficia agricultores como a jovem Rayana Xavier Pantoja, de 24 anos, e seu pai Raimundo Pantoja, de Oeiras, na ilha do Marajó (PA). Rayana diz que o PSA mudou a vida da família. “O projeto ajudou bastante. A gente não esperava. Foi um motivo para não desistir de produzir e conservar”, conta Rayana. A família possui propriedade em ilhas no arquipélago, onde cultiva açaí, macaxeira, frutas e óleos, como andiroba.

Com o primeiro recurso do PSA, ano passado, arrumaram as estruturas para fazer farinha, melhorar a extração de açaí, criar animais, além de outras melhorias. “Receber esse recurso é muito gratificante. Vale muito a pena”, disse Rayana. “A gente vem lutando há muitos anos para manter a floresta em pé porque tem muita riqueza, muita caça, e abraçamos essa causa. Com esse dinheiro, não precisamos mais atacar a natureza”, conta Raimundo, reforçando que, com o novo pagamento, fará outra limpeza geral na área e melhoramentos para estruturar um criadouro de peixes.

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Como participar

As inscrições e os pagamentos anuais são realizados durante a vigência da chamada pública, que vai até 31 de dezembro deste ano. Quem não receber neste lote, ainda poderá ser beneficiado nas próximas etapas. Os agricultores e agricultoras interessados ainda podem se inscrever nos mutirões presenciais nos municípios ou pelo site do projeto. Para mais informações sobre o projeto, clique aqui.

Pará é destaque

Agricultores que conservaram a floresta começam. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Pará é o estado com o maior número de provedores de serviços ambientais: 141 agricultores e agricultoras familiares e quase 6 mil hectares de floresta mantida em pé. Em seguida, vem os estados do Amazonas, com 32 agricultores familiares e quase 3 mil hectares conservados. Outros estados, como Acre, Amapá e Maranhão também têm provedores elegíveis. Atualmente, os imóveis rurais estão localizados em 36 municípios dos cinco estados. Para se tornar um provedor de serviços ambientais, além de aceitar o termo de adesão, o agricultor ou agricultora precisa ter o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Além de ser o principal instrumento para consulta e identificação das áreas elegíveis para participar da chamada pública, o CAR é uma porta de entrada para o PSA pelo Floresta+.

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Imagens de satélite

O assessor técnico do Projeto, Pedro Bernardino, explica que o compromisso em conservar a vegetação nativa é monitorado por meio de imagens de satélite, além de consulta a sistemas de alerta de desmatamento e bases oficiais de embargos ambientais. “O compromisso com o cuidado e a conservação dos RVN nos pequenos imóveis rurais é incentivado por meio do PSA, reforçando a importância do cumprimento da legislação ambiental”, afirmou Bernardino. Ele também ressalta que aqueles que mantiverem áreas preservadas seguirão recebendo o PSA nas demais etapas de desembolso.

Conta bancária

O PSA é feito diretamente na conta bancária informada pelo beneficiário no ato da inscrição à chamada pública. O beneficiário recebe ainda uma comunicação prévia do Banco da Amazônia (Basa) sobre o pagamento. “É importante que o agricultor ou agricultora saiba que não há intermediários e nem descontos e que qualquer dúvida pode ser respondida pelas equipes do próprio projeto pelo WhatsApp, e-mail ou nos canais da Ouvidoria, que estão informados no site do projeto’’, completou Pedro Bernardino.

Mulheres fortalecidas

As ações que envolvem PSA fazem parte da modalidade Conservação do Floresta+ Amazônia que, além de apoiar quem protege a floresta, mantém algumas prioridades estratégicas. Uma delas é o fortalecimento da presença das mulheres. Neste primeiro lote de pagamentos, estão sendo contempladas 84 mulheres (39%) e 134 homens (61%). Os números de participação feminina estão alinhados e representam o compromisso do Floresta+ com a equidade de gênero e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, das Organizações das Nações Unidas (ONU).

Cidades

Outra meta é alcançar as cidades que fazem parte da lista de municípios prioritários do Programa União Municípios, do MMA. A iniciativa faz parte do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). No total, são 81 municípios prioritários, definidos pela Portaria nº 1.202 de 2024 do MMA, que representam 78% do desmatamento na Amazônia Legal. Neste primeiro lote de pagamento, mais de R$ 50 mil são destinados para agricultores desses municípios.

100 municípios

Desde 2024, as equipes locais do Projeto Floresta+ nos estados realizam ações conjuntas para atendimentos presenciais e online em parcerias com as secretarias estaduais de meio ambiente e agricultura familiar e órgãos ambientais locais. Ao todo, mutirões com esses parceiros já passaram por cerca de 100 municípios amazônicos oferecendo serviços de orientação e inscrição ao Floresta+, bem como validação ou regularização do CAR.

*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Portal Amazônia responde: o que é ‘Amazônia Continental’? 

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Foto: Divulgação/Ideflor-Bio

A Amazônia Continental, também chamada de Amazônia Internacional ou Pan-Amazônia, compreende toda a área que corresponde ao bioma amazônico no norte da América do Sul, abrangendo uma área total de 7 milhões de km2.

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Apesar de a floresta amazônica não ser exclusiva do Brasil, compreende uma área de 60% do país, e está presente em mais oito países da América do Sul: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

“Um dos critérios para a sua delimitação é o bioma amazônico internacional e por isso contempla os nove países, pois são os países em que o bioma amazônico está circunscrito. Por isso essa ‘Amazônia internacional’ é um dos recortes da Amazônia”, explicou o doutor em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Deivison Molinari, ao Portal Amazônia.

Além disso, a Amazônia Internacional abrange a maior bacia hidrográfica do mundo, formada pelo rio Amazonas e seus afluentes, possuindo um clima quente e úmido, com períodos chuvosos que chegam a durar seis meses.

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Diferenças entre Amazônia Continental e Amazônia Legal

A Amazônia Continental se refere à área que corresponde à floresta amazônica em toda a América do Sul (presente nos nove países que possuem o bioma)

Já a Amazônia Legal refere-se à área da floresta localizada apenas no Brasil, abrangendo nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, parte do Mato Grosso e parte do Maranhão.

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*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Praia visível o ano inteiro transforma comunidade Tucumã em destino imperdível no Arapiuns

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É possível ter praia visível o ano inteiro na comunidade Tucumã. Foto: Prefeitura de Santarém

Imagine chegar a uma praia de areia fina e água cristalina que permanece exuberante em qualquer época. Assim é Tucumã, comunidade ribeirinha situada na margem direita do Rio Arapiuns, dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém (PA).

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Diferente de outras regiões amazônicas, onde a cheia cobre as praias, ali o balneário natural é constante. Para o presidente da comunidade, Evaldo Santos, a praia é o principal cartão-postal de Tucumã. “Nosso maior diferencial é esse, a praia está sempre aqui. Nunca desaparece. Em qualquer época do ano, o cenário é lindo e acolhedor. Isso nos enche de orgulho”, destaca.

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Praia visível o ano inteiro
É possível ter praia visível o ano inteiro na comunidade Tucumã. Foto: Prefeitura de Santarém

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Mas não é apenas a praia e a paisagem que impressionam. Tucumã tem se organizado para fortalecer o turismo com base na valorização da cultura local, especialmente por meio do artesanato. A coordenadora do projeto turístico, Lidiane Cardoso, explica que o trabalho manual é uma das principais fontes de sustento das famílias.

“Produzimos biojoias de látex, mas o trançado da palha de tucumã é o nosso carro-chefe. Está presente no dia a dia da comunidade. Mesmo quando não conseguimos vender localmente, enviamos para outras comunidades ou para a cidade. O artesanato é como a farinha: nunca falta nas nossas casas”, afirma.

A tradição é mantida por dois grupos comunitários — Tranças e Trançados e Trançados do Tucumã — e ganha ainda mais significado com a presença de Dona Maximiana da Conceição, de 86 anos, considerada a artesã viva mais antiga do Arapiuns.

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Praia visível o ano inteiro
Artesanato e ao fundo a praia da Comunidade Tucumã. Foto: Prefeitura de Santarém

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A comunidade também aposta na diversificação de experiências para os visitantes. Um dos projetos em andamento une atividades como canoagem e trilhas ecológicas, com foco no turismo de aventura.

“Queremos que Tucumã se torne referência em turismo esportivo. Já testamos um percurso de canoa e foi um sucesso. Agora, queremos investir em canoas coloridas e ampliar o roteiro. O visitante pode escolher entre a trilha, a canoagem ou combinar as duas, já que uma complementa a outra”, explica Lidiane.

A trilha, com 540 metros de extensão, atravessa a floresta até igarapés de águas claras, ideais para banho e contemplação. Já o trajeto de canoa, com cerca de 25 minutos, oferece uma imersão nos cenários ribeirinhos do Arapiuns.

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Praia visível o ano inteiro
O trajeto de canoa dura cerca de 25 minutos. Foto: Prefeitura de Santarém

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Ao entardecer, a praia se transforma em palco para vivências tradicionais, como a pesca artesanal, em que o jaraqui é o peixe mais comum, e a piracaia, com peixes assados à beira do rio. 

Outro atrativo é o redário, construído recentemente em um ponto privilegiado com vista panorâmica para o rio. Ainda em fase de finalização, o espaço já impressiona pela beleza e originalidade. Com dois andares, oferece uma área superior que amplia a paisagem e proporciona uma experiência ainda mais acolhedora. Totalmente artesanal, foi feito com palha e materiais que remetem à identidade da comunidade. Fica a poucos passos da praia e é o lugar ideal para descansar e se reconectar com a natureza.

A juventude também movimenta o turismo local. Alexandra Costa, 31 anos, e seu irmão Odilam, 23, ambos indígenas Arapiuns, lideram o grupo Tranças e Trançados e atuam como guias em trilhas que levam a igarapés próximos. O acesso a uma das áreas é feito por uma travessia de bajara que dura cerca de cinco minutos.

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Praia visível o ano inteiro
A comunidade possui atualmente cerca de 340 moradores distribuídos em 68 famílias. Foto: Prefeitura de Santarém

Com cerca de 340 moradores distribuídos em 68 famílias, Tucumã é exemplo de organização comunitária e hospitalidade. Os próprios moradores conduzem as atividades, cuidam dos espaços e promovem o turismo com base no respeito, na sustentabilidade e na valorização das tradições.

A Semtur atua em diversas frentes para fortalecer o turismo nas comunidades da região, com capacitações, apoio técnico e incentivo a novos projetos. Tucumã, com sua natureza preservada e riqueza cultural, desponta como um destino promissor que une beleza, tradição e acolhimento.

O secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, destacou o potencial da localidade.“Este é um dos lugares mais bonitos do Arapiuns. A comunidade está se estruturando com muito cuidado e tem tudo para se consolidar como referência em turismo de base comunitária. A praia é um espetáculo à parte, visível mesmo na cheia. Viemos ouvir os moradores, conhecer os atrativos de perto e oferecer apoio com formações e projetos. Aqui já é um sucesso”, afirmou.

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*Com informações da Prefeitura de Santarém

Reintrodução inédita de onça-pintada revela obstáculos à conservação da espécie no Brasil

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Xamã em 2024, já reintroduzido na floresta amazônica. Foto cedida pelo Onçafari

Em cerca de seis meses, Xamã já percorreu mais de 14 mil hectares de floresta amazônica. Todavia, bastante cauteloso, ele evita circular em áreas abertas ou perto de plantações. Esse macho de onça-pintada (Panthera onca) parece ser igual a outros milhares de indivíduos de sua espécie que vivem na Amazônia. Mas não é. Além do colar GPS que carrega no pescoço, é um sobrevivente. E sua trajetória traz luz sobre as ameaças que o maior felino dos Américas enfrenta no Brasil.

Xamã foi encontrado quando tinha aproximadamente dois meses de vida em uma propriedade rural na região de Sinop, no estado do Mato Grosso – uma área no Arco do Desmatamento da Amazônia frequentemente assolada por incêndios. A suspeita é que sua mãe tenha sido vítima do fogo ou perdido o filhote ao tentar fugir das chamas.

Ao ser resgatado, Xamã foi levado inicialmente para o Hospital Veterinário da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). O filhote pesava pouco mais de 10 kg, estava desnutrido e desidratado. Lá recebeu os primeiros atendimentos, e exames mostraram que, embora debilitado, apresentava boa saúde. Além disso, era extremamente arredio. Ou seja, apesar do ocorrido, ele ainda preservava seus instintos naturais, o de ser um animal de vida selvagem, algo fundamental para uma possível reintrodução na natureza.

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Xamã em 2022, quando foi capturado no Mato Grosso. Foto: Noelly Castro/Proteção Animal Mundial

O resgate de Xamã despertou a atenção da Proteção Animal Mundial, que viu ali uma oportunidade de usar sua história para alertar os brasileiros sobre o impacto da expansão agropecuária sobre a fauna silvestre.

“Por ser um animal que tinha tido pouquíssimo contato com seres humanos, ele era um bom candidato para ser reintroduzido. Logo acionamos nossos parceiros para identificar quem poderia fazer sua reabilitação”, conta Júlia Trevisan, bióloga e coordenadora de vida silvestre da Proteção Animal Mundial.

A organização escolhida para essa tarefa foi o Onçafari, uma referência internacional na reintrodução de onças-pintadas: em 2016, realizou a primeira soltura bem-sucedida, no mundo, de duas fêmeas, as irmãs órfãs Isa e Fera, e ao longo da última década já fez várias outras, tanto na Amazônia quanto no Pantanal.

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Após cinco meses no hospital de Sinop, médicos veterinários atestaram que Xamã estava apto a viajar – com a ajuda de reposição nutricional, ele quase triplicou o peso, chegando a 27,5 kg. Durante todo esse período, houve um cuidado extremo para que se reduzisse ao máximo a interação humana com o animal e assim evitar o chamado imprinting, termo usado para descrever o apego com seus cuidadores.

Começava então uma longa jornada, de mais de 700 km, por terra, entre o Mato Grosso e o Pará. O destino era um recinto de reabilitação enorme, no meio da mata, construído pelo Onçafari e usado anteriormente por duas onças, as irmãs Vivara e Pandora, as primeiras a serem reintroduzidas pela ONG no bioma amazônico.

Contudo, dessa vez o desafio seria bem maior. “Pelo conhecimento técnico que já tínhamos, eu fiquei bastante receoso porque o Xamã era muito novo. Era realmente muito arriscado. Após a soltura dentro do recinto, que tem 15 mil m2, você praticamente não iria mais vê-lo. Era muito grande para um bicho tão pequeno. Não daria para saber se ele morreu, foi picado por uma cobra. Ele era um filhote!”, relembra o biólogo Leonardo Sartorello, coordenador do Programa de Reintrodução do Onçafari.

Recinto no Pará onde Xamã viveu antes de ser reintroduzido na natureza. Foto cedida pelo Onçafari

Após quase dois anos, a tão aguardada soltura

Para Sartorello, o período inicial foi o pior. Xamã estava de jejum durante a viagem e depois ficou quase seis dias sem comer, algo preocupante para um filhote. Mas pouco a pouco, ele foi se alimentando novamente, quando lhe eram deixados pedaços de carne de frango e de boi.

Para acompanhar a sua adaptação, havia câmeras dentro e no entorno do recinto. Elas ajudavam a equipe do Onçafari a avaliar seu progresso. Com o passar do tempo, foi possível ver que ele estava explorando mais o território. Em algumas áreas, porém, ele demorou mais de um ano para se aproximar.

Mas um dos fatores determinantes para a definição do momento certo para a reintrodução de Xamã foi a sua habilidade de caça. Quando as primeiras presas vivas foram soltas no recinto, ele levava entre 10 e 15 minutos para abatê-las. Quando adquiriu mais experiência, o bote certeiro ocorria em menos de dois minutos. “Quando soltávamos uma queixada no final do processo, você escutava o bicho dar dois gritos e acabava”, relata o biólogo. “Era sinal de que ele estava abatendo direito. Estava pegando a base do crânio, mordendo o pescoço e acabando com o bicho na hora. E isso era muito bom.”

Outro divisor de águas para estabelecer que o jovem felino estava pronto era sua interação com outras onças-pintadas, que passavam próximo à grade do recinto. Quando chegou ali, era possível ver pelos primeiros vídeos que Xamã demonstrava um comportamento de submissão frente a outros machos. Algumas vezes abaixava, ficava deitado e até virava de barriga para cima. Já nas últimas filmagens obtidas pelas armadilhas fotográficas, ele encarava os possíveis rivais e não se sentia mais intimidado.

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Em outubro de 2024, chegou então a hora tão esperada.  Após quase 24 meses, a porta do recinto foi aberta, no processo chamado de soltura branda, em que o animal deixa o espaço no qual viveu por um longo período quando quiser. Xamã levou mais de 12 horas para dar os primeiros passos rumo à vida completamente livre. Em nenhum instante voltou atrás.

Foi através do monitoramento pelo colar GPS, programado para enviar a localização da onça doze vezes por dia, que conseguiu-se calcular o seu deslocamento de mais de 14 mil hectares desde a abertura de seu recinto. A bateria do equipamento deve funcionar aproximadamente por um ano, quando o sinal por satélite irá parar de funcionar e a função VHF, por antena, será ativada – com pouca utilidade, porém, em uma floresta tão grande como a Amazônia.

Apesar da grande movimentação inicial, nos últimos dois meses Xamã parece ter se estabilizado em uma área, situada a cerca de 15 km do recinto. “Acredito que seja um lugar que ele tenha gostado mais, com boa oferta de alimento e sem muita disputa com outros machos”, diz o coordenador do Onçafari.

Pata de Xamã. Foto: Leonardo Sartorello/Onçafari

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Uma história de sucesso, mas muitas outras sem final feliz

O Brasil é considerado o país com a maior concentração de onças-pintadas do mundo, por isso mesmo, um hotspot fundamental para a conservação da espécie. Em um passado distante, esses felinos eram observados desde os Estados Unidos até o sul da Argentina. Entretanto, acabaram sendo extintos em muitos países.

Atualmente, estima-se que a população de onças em território brasileiro beire os 10 mil indivíduos: entre 250 e 300 na Mata Atlântica, pouco menos de 500 na Caatinga, 3.500 a 4 mil no Pantanal e o restante espalhado na Amazônia.

Mas, em qualquer um desses biomas, elas estão ameaçadas. Em alguns mais do que outros, e talvez por diferentes razões. A história da reintrodução de Xamã é um sucesso, mas outras vítimas de incêndios não tiveram a mesma sorte. É o caso de Amanaci e Gaia.

Em 2024, mais uma vez o Pantanal enfrentou um período de estiagem severo. O nível da água do Rio Paraguai, o principal do bioma, atingiu recordes de baixa históricos. A vegetação seca, combinada com ventos fortes, foi o estopim perfeito para que os incêndios se propagassem por várias regiões. Áreas inteiras foram devastadas pelo fogo. O solo preto ficou coberto pelas cinzas. E animais foram encontrados carbonizados. Entre eles, a onça Gaia, uma fêmea que era monitorada há dez anos pelo Onçafari.

Amanaci não morreu, mas nunca mais voltará ao Pantanal. Precisará passar o resto da vida em cativeiro. Há quatro anos, em 2020, ela também se viu diante dos incêndios florestais. Quando foi resgatada por bombeiros em uma casa, na região de Poconé, no Mato Grosso, tinha queimaduras de segundo e terceiro graus nas quatro patas.

Amanaci foi levada para o NEX No Extinction, uma instituição situada no estado de Goiás, especializada no acolhimento, atendimento e reabilitação de felinos resgatados. Lá a fêmea passou por dois meses intensos de tratamento, que incluiu aplicação de células-tronco para ajudar no processo de cicatrização das feridas causadas pelo fogo. Entretanto, seus tendões sofreram lesões irreversíveis e ela nunca mais conseguiria caçar, o que impossibilitaria sua sobrevivência na vida selvagem.

Desde que foi fundado, no ano 2000, o NEX já recebeu 78 onças-pintadas. Atualmente abriga ali 27 indivíduos. O custo para a manutenção é alto, ainda mais para uma organização que depende de doações, sem ajuda nenhuma governamental. O gasto mensal com cada indivíduo gira em torno de R$ 4 mil (US$ 700). Em um ano, beira os R$ 50 mil (US$ 9 mil). Sem contar despesas extras inesperadas, como procedimentos cirúrgicos, por exemplo. “Cada onça come, em média, entre 3 e 5 kg de carne por dia”, revela Daniela Gianni, coordenadora de projetos e atividades do instituto.

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Brigadista em área do Pantanal sul-matogrossense destruída pelo fogo em 2024. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Desmatamento, caça e tráfico

Enquanto os incêndios, intensificados pelos efeitos das mudanças climáticas e agravados pelo desmatamento impulsionado pela agropecuária, têm sido uma grave ameaça às onças-pintadas do Pantanal, em outros biomas seus inimigos são outros.

Na fronteira do Brasil com o a Argentina, os vizinhos Parque Nacional do Iguaçu e Parque Nacional Iguazú abrigam a maior população da espécie no bioma Mata Atlântica. Quase extinta décadas atrás, graças à atuação de dois projetos de conservação – o brasileiro Onças do Iguaçu e o argentino Proyecto Yaguareté, houve um aumento no número desses felinos na região. Mesmo assim, eles continuam vulneráveis ao impacto dos seres humanos.

“Na Mata Atlântica, as principais ameaças são a redução do habitat e a perda de conectividade da floresta, que pode levar à perda de diversidade genética. Com populações muito isoladas e pequenas, existe uma maior chance de acontecerem problemas genéticos, sem a introdução de novos animais para a reprodução”, explica a bióloga Yara Barros, coordenadora executiva do Onças do Iguaçu.

Outro problema enfrentado pelos felinos que vivem no Parque Nacional do Iguaçu são os atropelamentos e a proximidade com propriedades rurais, gerando possíveis conflitos com agricultores e produtores de animais. “Esses conflitos com seres humanos também são consequência da perda de habitat e o maior contato entre eles e as onças, já que as propriedades estão chegando cada vez mais perto das florestas”, afirma Yara.

Roberto Cabral, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente, acrescenta ainda que esses possíveis conflitos impulsionam a caça por retaliação. “E, se for ver, tudo é um grande ciclo. As pessoas na zona rural caçam capivara, jacaré, paca, cateto, queixada e veado, que são as presas das onças-pintadas. Com menos presas disponíveis, elas acabam direcionando suas caçadas para comer novilho, por exemplo, e aí os seres humanos não aceitam perder nenhum bezerro para uma onça.”

A demanda chinesa e uma legislação branda demais

No outro extremo brasileiro, ao norte do país, a execução de programas de conservação da onça-pintada em meio à imensidão da floresta amazônica, com seus 5,4 milhões de km2, é certamente bem mais complicada, e as ameaças são mais desafiadoras. Elas também envolvem a caça, e ainda o tráfico internacional.

Em 2022, uma reportagem da Mongabay mostrou como era possível encontrar facilmente peles de onças-pintadas e jaguatiricas em mercados de Iquitos, no Peru, nas margens do Rio Amazonas. E não era só. Comerciantes vendiam cabeças desses animais e joias feitas com dentes e garras.

Segundo a matéria, a demanda por esse tipo de produto se intensificou na última década, estimulada pela procura dos chineses. A suspeita é que, como restaram poucos tigres selvagens na Ásia, e em muitos países esses animais ganharam novas legislações para protegê-los, o mercado ilegal decidiu apostar nos “tigres americanos”.

“A demanda chinesa, tanto pela raridade da onça como para sua substituição aos tigres, já é uma ameaça também. Embora não seja a de maior importância no presente, apresenta potencial de se tornar uma das principais no futuro”, alerta Cabral.

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Com o mercado asiático em expansão na Amazônia, aumenta o interesse daqueles que enxergam nele uma oportunidade de geração de renda extra – como os caçadores que entram na floresta para matar onças-pintadas. Recentemente uma dessas histórias ganhou as manchetes brasileiras. Denúncias levaram equipes das Polícias Militar e Ambiental a uma casa no município de Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas, a 880 km da capital Manaus. Lá elas se depararam com um filhote de onça, com aproximados oito meses de idade, sendo criado como um bicho de estimação.

De acordo com o homem que cuidava do animal, ele teria saído para caçar e achado o felino sozinho, aí “decidiu adotá-lo”. Acredita-se que a mãe tenha sido morta.

“Esse papo de que foi para o mato e encontrou o filhote é a coisa mais esdrúxula que as pessoas podem falar”, afirma Leonardo Sartorello. “Há 25 anos eu trabalho com onça-pintada no meio do mato e eu nunca encontrei um filhote. E essa turma encontra filhote fácil.”

No caso de Santo Antônio de Içá, o filhote, batizado de Golias, foi apreendido. Muito dificilmente terá chance de ser reintroduzido na natureza. Foi muito domesticado, não tem medo nenhum de seres humanos. Seu destino foi o NEX.

O que faz com que caçadores como o do Amazonas e de outras partes do país não se sintam intimidados em tirar a vida de um animal tão majestoso como uma onça-pintada é a branda legislação brasileira, denunciam ambientalistas, representantes de organizações de proteção animal e até autoridades do governo.

A lei de crime ambiental no Brasil prevê pena para a caça de animais silvestres, sem autorização do órgão ambiental competente, de três meses a um ano de prisão. Já a multa para a atividade de caça irregular é de R$ 5 mil por animal (US$ 880).

“A punição não ajuda. Um homem que matou quatro onças-pintadas em 2023 pagou aí R$ 20 mil [US$ 3.500] e acabou. Vai responder ao processo em liberdade”, critica o coordenador do Onçafari.

Processo de reintrodução é longo e caro

Embora o retorno de Xamã à natureza seja muito celebrado, um processo de reintrodução não é simples, pelo contrário, envolve a parceria de diversas organizações e o trabalho de muitos profissionais, além de ser longo e caro, ressalta Daniela Gianni, do NEX. Segundo ela, o custo até a soltura fica entre R$ 800 mil a R$ 1 milhão (US$ 140 mil a US$ 180 mil). E a soltura pode não dar certo. É sempre uma incógnita. O animal pode se adaptar bem de volta à vida livre, mas pode precisar ser recapturado.

“A burocracia é gigante, o custo é altíssimo e o governo não custeia nada”, diz Daniela. “Para a soltura, a saúde do animal tem que estar 100% e a área precisa ser mapeada. E, ao final do treinamento, um relatório minucioso precisa ser apresentado para passar pela aprovação dos órgãos ambientais. É um trabalho que leva no mínimo três anos. Além disso, dependemos da índole do animal. Às vezes, a burocracia é tanta que o tempo para ele ser solto passa e acabamos tendo que fazer um retrabalho para que aprenda a viver em cativeiro”, revela.

A Proteção Animal Mundial, uma das responsáveis financeiras pela reintrodução do jovem macho na Amazônia, transformou sua trajetória em um documentário: Xamã – No Rastro da OnçaO filme mostra a conexão direta entre a tragédia do filhote e o avanço do agronegócio.

“Em 2022, ano em que o Xamã foi resgatado, o Mato Grosso foi o estado que mais queimou no país. A área queimada foi equivalente a quase o tamanho da Dinamarca. A gente perde uma geração inteira na floresta”, destaca Júlia Trevisan.

Ela salienta que nem sempre a associação entre a produção alimentar e seu impacto sobre os animais silvestres é clara para a população. O documentário escancara essa relação entre o agronegócio e não apenas o desmatamento e as queimadas, mas também a contaminação por agrotóxicos, os atropelamentos de animais silvestres e a defaunação.

“Mesmo que a história do Xamã tenha tido um final feliz, sabemos que muitos outros animais irão passar por isso e esse é um problema grande no Brasil”, reforça Júlia. “Algo pouco percebido é que a fauna impactada não representa somente o animal que morre ou viverá para sempre em cativeiro, mas a fauna silvestre exerce funções ecológicas, participa da dinâmica de seu ecossistema, ao dispersar sementes, controlar presas ou ciclar nutrientes, por exemplo. A ausência desses animais irá provocar um impacto maior ainda na saúde das florestas e do clima”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo