Naveguei da foz do Amazonas até o rio Napo, no Peru, e subi até a cordilheira dos Andes, Equador (2020-2022). Vi a floresta de perto, senti seu cheiro, ouvi seus silêncios. Não escrevo de um gabinete em Brasília ou de uma redação em São Paulo. Escrevo da memória das águas que percorri. E é com essa autoridade que digo: o governo Trump está mentindo sobre a Amazônia.
Uma das justificativas para a tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros é ambiental. O documento oficial do Escritório do Representante de Comércio dos EUA repete a palavra “desmatamento” dezenas de vezes. Parece técnica a argumentação. Mas não passa de cinismo geopolítico — e, pior, de um cinismo alimentado com dados do período mais sombrio da nossa história ambiental recente.
Porque os números que Trump usa são os do governo Bolsonaro.
Foi o ex-presidente que, em 2019, herdou uma taxa de desmatamento de 7.500 km² e a transformou em 11.030 km² em 2021 — o pico da devastação dos últimos 15 anos. Foi ele que extinguiu comitês de combate ao desmatamento, que demitiu servidores do Ibama, que incentivou invasores de terra com discursos de ódio contra indígenas e quilombolas. Foi ele que chamou a floresta de “terreno baldio” e disse que “não se deve passar a mão na cabeça de ONG”.
Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace
Não foi omissão. Foi projeto de governo. A porteira foi aberta de propósito.
E é exatamente esse período — o auge da destruição — que Trump resgata para justificar sua tarifa. Ele não cita os dados de 2023, 2024 e 2025. Não cita a queda de 30,6% em 2024, nem os 5.796 km² de 2025 — a terceira menor taxa desde 1988. Não cita que, de 2022 para 2025, o desmatamento caiu pela metade.
Por quê? Porque isso atrapalha a narrativa.
Acabo concluindo que Trump não quer proteger a Amazônia. Ele quer proteger o mercado americano. A pauta ambiental é apenas a desculpa para o protecionismo. Os EUA, que se retiraram do Acordo de Paris, que ampliam a exploração de petróleo em terras públicas e que lideram o consumo de combustíveis fósseis per capita, não têm legitimidade para dar lição de moral ambiental a ninguém.
Não tenho procuração para defender o governo brasileiro, mas Lula, que reativou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, retomou o Fundo Amazônia com doações da Noruega e da Alemanha, ampliou a fiscalização em 81% e aplicou mais de R$ 2 bilhões em multas — um aumento de 179% em relação ao período Bolsonaro. Os resultados são visíveis. A curva da devastação, que subia como uma flecha, agora despenca.
O Observatório do Clima já denunciou: a tarifa de Trump é “puramente política”. O secretário-executivo Márcio Astrini foi cirúrgico: “É uma desculpa para impor uma barreira tarifária”.
E eu pergunto: onde estavam os EUA quando Bolsonaro queimava a floresta em plena luz do dia? Onde estavam as tarifas quando o desmatamento batia recordes? Onde estava a preocupação ambiental quando o governo brasileiro sabotava a própria fiscalização?
Não estavam. Porque não se importam com a floresta. Se importassem, estariam hoje reconhecendo o esforço do Brasil, não o punindo.
Conheço a Amazônia. Sei que floresta não é estatística. É território de povos, é água, é biodiversidade, é resistência. E sei também que a responsabilidade ambiental não pode ser usada como moeda de troca em jogos de poder.
O Brasil errou. O governo Bolsonaro errou de forma criminosa, e a floresta sangrou. Mas o Brasil de hoje não é o mesmo. O governo Lula está consertando o que foi quebrado. Os dados mostram. A floresta começa a se recuperar. E a comunidade internacional que realmente se importa com o clima sabe disso.
Trump pode até tentar nos envergonhar com números velhos. Mas a verdade é mais forte: quem abriu a porteira foi Bolsonaro ; quem está fechando é Lula. E quem usa a Amazônia como arma comercial não tem compromisso com ela — tem apenas com seus próprios lucros.
A Amazônia não é pauta de barganha. E eu, que naveguei e continuo navegando seus rios de fio a pavio, não vou permitir que a história seja reescrita por quem nunca pisou na floresta.
Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.
Doenças Raras sendo analisadas por pesquisadores. Foto: Divulgação/ Assessoria de Comunicação da UNIR
Há mais de uma década, a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), por meio do Laboratório de Genética Humana (LGH), desenvolve pesquisas voltadas ao diagnóstico e acompanhamento de pessoas com doenças genéticas raras na Amazônia Ocidental, contribuindo para ampliar o acesso ao diagnóstico em uma região sem centro de referência especializado para esse atendimento.
Coordenada pelos professores pesquisadores Andonai Krauze e Vivian Susi de Assis Canizares, da Faculdade de Ciências da Saúde (Facisa/UNIR), a iniciativa “Em busca dos raros” reúne docentes, técnicos, estudantes e colaboradores de diferentes áreas. Além da pesquisa científica, as ações incluem atividades de extensão, capacitação de profissionais de saúde e mapeamento de famílias em Rondônia e no Vale do Juruá, abrangendo áreas do Acre e do Amazonas.
Para o pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UNIR, professor Juliano Cedaro, que já atuou como pesquisador no projeto, a pesquisa desenvolvida pelo laboratório evidencia uma demanda historicamente invisibilizada no sistema de saúde da região Norte. “Cada modalidade de doença rara afeta um número reduzido de pessoas, mas, quando consideradas em conjunto, as diferentes doenças raras representam um contingente significativo da população. O trabalho realizado pela universidade tem possibilitado mapear famílias, identificar casos e evidenciar a necessidade de fortalecimento das políticas públicas e dos serviços especializados na região amazônica”, afirma.
Fortalecimento e alcance da pesquisa sobre doenças raras
As pesquisas tiveram início em 2014, ano em que o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a estabelecer diretrizes para a atenção integral às pessoas com doenças raras. A partir desse contexto, pesquisadores da UNIR iniciaram investigações envolvendo famílias com suspeita de doenças neurodegenerativas hereditárias, inicialmente relacionadas à Doença de Huntington e, posteriormente, ampliadas para outras condições genéticas raras.
Segundo o professor Andonai Krauze, o trabalho desenvolvido pelo LGH envolve tanto a pesquisa científica quanto o acompanhamento das famílias e a articulação com a rede pública de saúde. “Nosso objetivo é identificar essas pessoas e famílias para que elas tenham acesso ao diagnóstico e consigam ser inseridas na rede de atendimento. Muitas passam anos sem saber qual doença possuem e sem conseguir acessar direitos básicos e tratamento adequado”, explica o pesquisador.
Estrutura laboratorial e diagnóstico
Atualmente, o Laboratório de Genética Humana dispõe de equipamentos e infraestrutura próprios para realização de análises genéticas utilizadas em projetos acadêmicos e pesquisas científicas, incluindo equipamentos adquiridos e incorporados em 2024 para fortalecimento das atividades.
Os pesquisadores e coordenadores Andonai e Vivian informam que o LGH realiza procedimentos de investigação genética e apoio diagnóstico em pesquisas envolvendo doenças raras, temática ainda incipiente nos serviços de saúde da região. Também destacam que as ações já permitiram identificar famílias extensas acometidas por doenças neurodegenerativas hereditárias, algumas delas com dezenas de integrantes afetados em diferentes gerações, incluindo casos de transmissão genética dominante.
Atuação multiprofissional e apoio às famílias
Além das investigações laboratoriais, o projeto passou a incorporar ações multiprofissionais envolvendo áreas como enfermagem, psicologia, serviço social, medicina e educação física. Entre os profissionais envolvidos está Daniel Guedes Feitosa, servidor da UNIR com formação em serviço social, que atua no acompanhamento das famílias atendidas. Segundo ele, parte das ações concentra-se no encaminhamento social e na orientação sobre direitos e políticas públicas. “Muitas dessas famílias vivem em situação de vulnerabilidade social e possuem integrantes com limitações cognitivas e motoras importantes. O projeto também auxiliou no acesso a benefícios sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e na orientação das famílias sobre seus direitos”, explica.
A professora Vivian Susi afirma que o trabalho desenvolvido pelo grupo também busca promover a aproximação entre as famílias atendidas e a rede pública de saúde, por meio de atividades de orientação aos pacientes e de capacitação dos profissionais da área. “As doenças raras ainda são pouco conhecidas dentro da formação tradicional dos profissionais da saúde. Muitas famílias passam de seis a dez anos sem um diagnóstico definitivo. Por isso, além da pesquisa, nós também realizamos ações de capacitação e orientação junto às unidades básicas de saúde”, destaca a pesquisadora.
Entre as ações já realizadas estão visitas domiciliares, mapeamento familiar, atividades de campo em municípios do interior de Rondônia e do Amazonas, capacitações de profissionais das unidades básicas de saúde e acompanhamento psicossocial de pacientes e cuidadores. O grupo também desenvolveu materiais educativos e cartilhas voltadas à orientação de profissionais da saúde sobre identificação precoce de doenças raras.
A psicóloga e pesquisadora colaboradora Jaine Feitosa destaca que a atuação da universidade permitiu identificar famílias que antes não possuíam qualquer diagnóstico ou acompanhamento especializado. “Quando começamos as visitas domiciliares e o acompanhamento dessas famílias, muitas delas já haviam buscado atendimento em vários locais sem conseguir respostas. O Laboratório de Genética Humana da UNIR passou a ser uma referência de apoio e acolhimento para essas pessoas”, salienta.
Desafios para ampliação do atendimento
Segundo os pesquisadores, embora existam milhares de doenças raras catalogadas no mundo todo, a região Norte do Brasil ainda enfrenta limitações relacionadas à subnotificação, ausência de centros especializados e dificuldade de acesso a exames diagnósticos e tratamentos capazes de proporcionar maior autonomia e qualidade de vida aos pacientes e suas famílias.
O professor Juliano Cedaro ressalta que uma das principais contribuições da pesquisa foi tornar visível uma realidade pouco conhecida no contexto regional. “O Laboratório de Genética Humana conseguiu mapear pessoas e famílias em diferentes municípios da Amazônia Ocidental e demonstrar que existe uma demanda concreta por atendimento especializado, diagnóstico e acompanhamento dessas populações”, enfatiza.
O grupo pretende ampliar o mapeamento regional de pacientes, além de fortalecer redes de colaboração científica e avançar na articulação institucional para consolidação de serviços especializados voltados às doenças raras na Amazônia Ocidental. Contudo, os pesquisadores ressaltam que o avanço no atendimento a essas populações, para além das fronteiras da universidade, depende do fortalecimento das políticas públicas de saúde, com ampliação dos serviços especializados e acesso ao diagnóstico precoce.
*O texto foi publicado originalmente no site da Universidade Feederal de Rondônia (UNIR)
Morador da zona rural de Carauari, no interior do Amazonas, Francisco Solivan Peres de Araújo perdeu a mãe quanto tinha 2 anos. Ela faleceu durante o parto de sua irmã. “Deu uma hemorragia. Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”, contou ele à reportagem, relembrando as condições de vida na região no final da década de 80.
A triste história de Solivan, atual presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), é muito comum pela região. São relatos de perdas, sequelas e traumas provocados pela distância entre a zona rural e a zona urbana. Ou, até mesmo, pela falta de dinheiro para conseguir deslocar-se até a cidade para um atendimento em saúde.
Carauari é um município de grande extensão territorial, um dos maiores do Brasil, com mais de 25,7 mil quilômetros de área – maior até do que diversos países. Banhado pelo sinuoso Rio Juruá e cercado pela Floresta Amazônica, isso significa que ir da zona rural de Carauari, onde estão concentradas as populações ribeirinhas, até a zona urbana, onde há a estrutura pública fixa de saúde, pode levar horas ou dias de viagem. O trajeto depende do tipo de embarcação e da situação do rio. Se estiver em época de seca, o percurso pode ser ainda mais demorado.
Nos últimos dez dias, a reportagem da Agência Brasil participou de uma expedição para conhecer comunidades ribeirinhas de Carauari, instaladas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS Uacari). A viagem teve início com um deslocamento de cerca de 35 horas de lancha expressa de Manaus até a cidade. Depois, mais quatro horas de deslocamento até a comunidade de Bauana. De lá, mais quatro horas para percorrer comunidades localizadas até a região de Campina. A reportagem ouviu muitas histórias trágicas que, talvez, pudessem ter um desfecho diferente se, naquela época, houvesse políticas públicas para o atendimento à saúde da população ribeirinha.
Francisco Solivan, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru). Foto: Lucas Bonny/FAS
Resgate
Os relatos de mortes de moradores da região por falta de atendimento eram ainda mais comuns até os anos 90, quando a prefeitura instalou um sistema de lanchas de resgate que é utilizado para atender situações de gravidade ou de emergência. Mesmo assim, ainda persistem relatos de demora no atendimento por causa da imensa distância que precisa ser percorrida até a “cidade”, como os ribeirinhos chamam a área urbana de Carauari.
Adriana da Silva e Silva tem sequelas na perna após ter sido picada por uma cobra em janeiro de 2019, na comunidade de São José do Nachiqui, povoado ribeirinho tradicional situado às margens da Bacia do Rio Juruá.
“A gente chamou o resgate, só que no momento não estava disponível. Demorou mais de 24 horas para chegar o atendimento. Quando eu me desloquei da comunidade até a cidade, em razão das horas que eu passei, eu sofri muito devido ao veneno e não tinha soro. Aí minha perna inchou muito, ficou irreconhecível. Para não perder a perna, eles tiveram que fazer quatro cirurgias”, contou.
Naquele momento cogitaram levá-la à capital Manaus, onde sua perna seria amputada. Os médicos de Carauari, no entanto, conseguiram salvar o membro. Apesar disso, Adriana enfrenta diversas sequelas desse episódio.
“Às vezes, quando eu ando, eu perco o tato da perna. E se eu ficar muito tempo com a perna encolhida, eu tenho dificuldade para esticar e se eu ficar com ela esticada, eu tenho dificuldade para encolher. E ela incha muito”.
Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e atualmente colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também carrega as marcas de uma tragédia familiar.
“Até os anos 90, aqui no Médio Juruá, a gente tinha pouca assistência em vários sentidos, mas a da saúde era a mais carente. Em 1994, a gente morava na comunidade Mandioca e o meu irmão adoeceu. Nessa época, a gente não tinha apoio de governo e das organizações de base, que hoje têm esse trabalho fortalecido. A gente dependia de regatão [comerciante ambulante que navega pelos rios da Amazônia vendendo ou distribuindo suas mercadorias] para fazer um deslocamento até a sede do município para ter um atendimento médico. E o meu irmão esperou uma semana doente sem ter nenhum barco passando. A gente não tinha condições próprias na época”, acrescentou.
Quando finalmente sua mãe conseguiu uma carona no regatão, demorou uma semana para que ela e o filho doente conseguissem chegar até a cidade. Isso porque a prioridade do regatão era vender suas mercadorias pelo caminho.
“O fato é que, depois de duas semanas, meu irmão foi atendido e não teve mais condição de fazer nada pela saúde dele – e ele veio a óbito”, contou Raimundo.
Até hoje, ele não sabe o que provocou a morte do irmão. Só lembra que ele reclamava de dores na barriga.
“Essa era uma situação comum até os anos 1997, quando as organizações, já mais um pouco fortalecidas, buscaram nossos direitos. E aí começou a ter um olhar especial para o Médio Juruá e foi quando essa situação começou a ter outro sentido. Mas, até essa data, muitas famílias sofreram essas calamidades nessa questão de doenças porque a gente não tinha um atendimento. Isso causou uma evacuação do Médio Juruá, de famílias que, assim como a minha, foram para a cidade em busca de ter um atendimento melhorado, já que nós não tínhamos isso aqui”, lembrou.
Saúde mais próxima
Para todos esses ribeirinhos, a experiência comprovou que, se houvesse atendimento em saúde mais próximo de suas comunidades, essas histórias não seriam tão trágicas.
“Eu imagino que, há 38 anos, quando a minha mãe faleceu, era difícil, muito difícil. Meu pai não tinha sequer uma rabetinha para que pudesse se deslocar. Não tinha possibilidade nenhuma de um resgate como tem hoje, de levar a pessoa para a cidade por meio de [uma lancha a] motor”, disse Solivan.
Projeto leva atendimento médico a comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Lucas Bonny/FAS
Para muitos deles, estar mais próximo da cidade poderia significar um melhor atendimento em saúde. No entanto, isso afastaria as famílias de seu território e de um trabalho que é tradicional e contribui para a preservação das florestas brasileiras: o extrativismo e a agricultura familiar.
“A RDS Uacari, que a gente representa hoje como associação, tem 633 km de extensão. E ela é composta por 31 comunidades, um pouco mais de 409 famílias. E essas famílias vivem do extrativismo e da sociobiodiversidade”, disse Solivan.
Ele conta que lá são explorados o manejo do pirarucu sustentável, o látex da seringa e a cadeia das oleaginosas, como a andiroba, o açaí e a ucuba, além da agricultura familiar.
Secretário de Saúde de Carauari, Manoel Brito. Foto: Lucas Bonny/FAS
O ideal, defendem os ribeirinhos, seria que a saúde pudesse estar mais próxima dessa população, sem que elas precisassem deixar seus territórios. No entanto, é um desafio para o Poder Público instalar postos de saúde por todas as comunidades ribeirinhas, ainda mais diante do orçamento reduzido das prefeituras de cidades pequenas. Carauari, por exemplo, tem cerca de 28 mil habitantes, segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa de orçamento para este ano de 2026 foi estabelecida em R$ 142 milhões.
A solução encontrada até então pela prefeitura foi oferecer o resgate por lanchas, serviço que custa mensalmente entre R$ 40 mil e R$ 45 mil para os cofres municipais, segundo o secretário de saúde de Carauari, Manoel Brito. Há também a disponibilidade das Unidades Básicas de Saúde (UBS) fluviais, que percorrem as comunidades para atendimento em saúde. No entanto, pelo alto custo, isso só ocorre de forma eventual.
“A prefeitura sozinha, com recursos próprios, não consegue [instalar unidades básicas de saúde pelas comunidades]. A arrecadação do município não comporta isso. Temos planejamento e temos conhecimento sobre esses territórios, sabemos dessas necessidades. Por isso as parcerias com o terceiro setor têm sido importantíssimas”, disse o secretário.
Procurado, o Ministério da Saúde também reconheceu a importância da atuação de organizações da sociedade civil nos territórios, em articulação com as diretrizes do SUS. E informou que tem buscado aumentar os investimentos voltados ao atendimento das populações ribeirinhas e demais comunidades que vivem em áreas de difícil acesso.
“Neste ano, estão sendo aplicados R$ 500 milhões para a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha, que contam com médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem e profissionais de saúde bucal. Prefeituras de 2.690 municípios podem requisitar serviços específicos nas populações das águas — possibilidade que antes existia apenas para 784 municípios da Amazônia Legal e do Pantanal Sul-Mato-Grossense”, diz nota que foi encaminhada à reportagem pelo ministério.
Segundo a pasta, nas regiões que já contam com o serviço, existem 332 equipes de Saúde da Família Ribeirinha e 71 Unidades Básicas de Saúde Fluviais que levam atendimento de saúde às comunidades mais isoladas, “vencendo desafios históricos como barreiras geográficas, vazios assistenciais, dificuldades de fixação de profissionais e impactos das emergências climáticas”.
Parceria com a sociedade civil
Nesta última semana, uma parceria entre a prefeitura da cidade de Carauari e organizações da sociedade civil tornou possível a instalação de dois pontos de saúde mais próximos dessas comunidades ribeirinhas.
Chamado de SUS na Floresta, o modelo realizado em Carauari é resultado de um edital do programa Juntos pela Saúde. O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
Os dois pontos foram instalados nas unidades de Bauana e Campina da Fundação Amazônia Sustentável e a expectativa é que, juntos, eles possam atender 56 comunidades ribeirinhas e beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas com atendimento de atenção primária.
Cada uma dessas unidades foi equipada com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet, equipamentos de telessaúde e áreas para a permanência das equipes, de forma integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS).
“Se naquela época tivesse esse sonho que estamos realizando hoje, que é um ponto de saúde [instalado nas comunidades ribeirinhas] e que dá a possibilidade de garantir uma vida melhor para os ribeirinhos, não tenho dúvida em Deus que minha mãe ainda estaria viva”, disse Solivan.
O enfermeiro Jefferson e Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS. Foto: Lucas Bonny/FAS
Na primeira semana de atendimento, muitos ribeirinhos da região buscaram atendimento. Entre eles, uma criança que havia se ferido com o anzol de sua vara de pescar. Houve também um caso grave de desnutrição infantil, que contou com um grande esforço da equipe de enfermagem da unidade de Campina.
“Aqui nós conseguimos fazer o que elas só conseguiriam na cidade ou então em uma vinda da UBS fluvial, que vem aqui duas vezes por ano devido à logística”, contou o enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, atualmente trabalhando na unidade de Campina.
Segundo ele, trata-se de uma população que “vai muito pouco ao médico”. “Só vai mesmo quando chama resgate ou então quando a UBS Fluvial passa por aqui”, acrescentou o enfermeiro.
“Alguns pacientes que estiveram aqui com a gente relataram casos de antes do resgate e da existência desse ponto. Teve um paciente que perdeu dois filhos devido uma picada de cobra. Ele ficou 12 horas esperando [por socorro] e, nessa época, ainda não tinha essa tecnologia que tem hoje como aparelho celular. Mas como naquela época não tinha nem o resgate e nem o ponto, esse paciente veio a óbito”.
Agora, com esse atendimento primário mais próximo da população, a expectativa é que se diminuam em até 80% as chamadas para o resgate por lancha, estimou o enfermeiro Carlos. “Vamos salvar muito mais vidas e vamos evitar também os resgates. Se eles vierem aqui, faz-se o atendimento e só vai para cidade se for um caso de emergência mesmo. Mas já vai sair daqui estabilizado”.
Segundo Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o projeto SUS na Floresta pretende não só oferecer novas estratégias para as populações ribeirinhas, como também contribuir para que elas permaneçam em seus territórios com a garantia de que estarão tendo acesso ao seu direito à saúde.
“Se as pessoas começarem a decidir ir embora de seus territórios, isso vai ser catastrófico. Primeiro por que quem é que vai cuidar do que está aqui? E segundo: os centros urbanos não estão, em hipótese alguma, preparados para receber um êxodo rural. Você vai ter um boom de aumento em problemas sociais que já são latentes nos centros urbanos. Dentro das diversas Amazônias, a gente não pode esquecer que nós temos cidadãos brasileiros que precisam que as políticas cheguem. E se o governo, por um acaso, não está conseguindo interiorizar isso, é nossa obrigação apoiar”.
Mais saúde
O atendimento nas duas novas estruturas em sua primeira semana de funcionamento foi muito elogiado pelos moradores. “Esse ponto de saúde é muito importante para a vida dos comunitários porque a gente sofria muito com essa questão da logística de quando a pessoa adoece e precisava ir até a cidade para ser atendido. A UBS que passa nas comunidades não era suficiente para a gente ter um atendimento melhor na área da saúde”, disse Maria das Neves, moradora da comunidade Novo Horizonte e vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc).
O colaborador do ICMBio, Raimundo Viana, concorda com ela. “Vejo isso como um ponto muito positivo porque hoje a gente vai ter um atendimento no Médio Juruá que, há 20 ou 30 anos atrás, a gente nem sonhava que poderia existir, Com a instalação desses postos, a vida de quem mora aqui vai ter outro sentido na área da saúde. A logística da Amazônia é complexa. Mas em se tratando do Médio Juruá, é ainda mais complexo porque a gente está mais distante dos grandes centros. E aqui o transporte é por rabetinha, uma canoa com motorzinho. Hoje o município oferece um resgate, mas isso ainda não atende toda a demanda, porque a demanda é grande”.
Segundo ele, com os pontos instalados em Bauana e em Campina, as distâncias para conseguir um atendimento em saúde serão bastante encurtadas. “Em vez de de gastar 12 horas de onde eles estão para chegar na sede do município, eles vão gastar quatro horas, dependendo do local que eles estão, para esses pontos que foram instalados no Médio Juruá. Essa é uma vantagem muito importante”, disse Raimundo.
Para Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, há ainda muitos desafios a serem enfrentados para que se consiga garantir saúde à população ribeirinha. “Um dos grandes desafios é o logístico e operacional: os custos de se estar aqui, de manter uma equipe de saúde aqui e que é responsabilidade da prefeitura. Também é desafiador captar recurso e conseguir convencer um parceiro [um financiador] de levar uma estrutura dessa para um lugar como esse. Muitas vezes ele quer investir em outras coisas e outras ações, mas isso aqui faz a diferença para quem está no território”, disse ela.
Outro desafio, destacou ela, diz respeito à manutenção desses espaços. “Infelizmente ainda tem uma prática no Brasil de que nem sempre o próximo gestor dá continuidade àquilo que o anterior está fazendo. Isso muitas vezes gera um retrocesso”. No entanto, destaca Valcléia, o projeto SUS na Floresta já demonstra que é possível direcionar melhor os recursos e os atendimentos, contribuindo até mesmo para uma economia de gastos pela prefeitura.
Os moradores, no entanto, sabem que é preciso ir muito além.
“É preciso implantar mais posto de saúde, tanto dentro da RDS quanto da Resex [Reserva Extrativista] do Médio Juruá. O que divide as duas unidades é somente o rio. Uma reserva de um lado, a outra reserva é do outro. Mas as pessoas são as mesmas, a dor das pessoas é a mesma. A dor de um é a dor do outro”, falou Solivan.
Vale do Javari, no oeste do Amazonas, foi a área utilizada como área de pesquisa para exemplo de combate ao desmatamento. Foto: Funai/ Arquivo
Um estudo publicado nesta terça-feira (28) na revista científica Nature Sustainability aponta que a criação de proteção legal para as áreas localizadas ao redor das terras indígenas pode ser uma estratégia decisiva para conter o avanço do desmatamento e das atividades ilegais na Amazônia.
A pesquisa analisou a Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas, e identificou uma diferença expressiva entre a conservação da floresta dentro do território demarcado e a degradação registrada em seu entorno. Em 2022, o desmatamento em uma faixa de até 200 quilômetros ao redor da terra indígena foi 187,5 vezes maior do que o observado no interior da área protegida.
Foto: Reprodução / Povos Isolados da Amazônia – Centro de Trabalho Indigenista
Embora os índices de desmatamento tenham apresentado redução em 2023 e 2024, os pesquisadores destacam que os níveis permanecem superiores aos registrados nas décadas anteriores. Para os autores, esse cenário demonstra que as pressões ambientais e fundiárias continuam concentradas nas regiões vizinhas às terras indígenas, formando um ambiente de risco permanente.
A principal proposta do estudo é estender às terras indígenas o modelo de zonas de amortecimento já adotado em unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas. Nessas áreas, a legislação estabelece restrições ao uso do solo e às atividades econômicas próximas aos limites das unidades, reduzindo impactos externos sobre os ecossistemas protegidos.
Os pesquisadores argumentam que essa medida deve ser acompanhada pelo fortalecimento da fiscalização e pelo combate à ocupação irregular de terras públicas, especialmente nas áreas próximas às terras indígenas. Segundo o estudo, a expansão de atividades como mineração, extração ilegal de madeira, pesca predatória, caça comercial e tráfico de animais silvestres representa uma ameaça crescente aos territórios indígenas e aos povos que neles vivem.
A pesquisa analisou a Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas. Foto: Divulgação
Localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a Terra Indígena Vale do Javari ocupa mais de 8,5 milhões de hectares e abriga a maior concentração conhecida de povos indígenas em isolamento voluntário no mundo. Além de cinco povos que mantêm contato com a sociedade envolvente (Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina), o território é habitado por pelo menos 14 grupos isolados.
Os autores ressaltam que esses povos estão entre os mais vulneráveis às invasões, já que não possuem condições de recorrer diretamente às autoridades ou à imprensa quando seus territórios são violados. Por isso, defendem que ações de fiscalização sejam priorizadas nas áreas próximas às terras indígenas, onde a pressão pela ocupação irregular tende a crescer.
O artigo, intitulado Spiraling frontier threats in Indigenous Amazonia, reúne pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais, incluindo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), universidades estrangeiras e o líder indígena Beto Marubo. A Universidade Federal do Amapá (Unifap) participa da pesquisa por meio dos professores Alan Cavalcanti da Cunha e Helenilza Ferreira Albuquerque Cunha, coautores do estudo.
Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Em meio a um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) destaca que crianças e adolescentes estão expostos a diferentes desafios ambientais e climáticos em todo o país e que há padrões de desigualdade relevantes na distribuição dos riscos. O Painel Crianças e Meio Ambiente, lançado nesta semana, foi criado em parceria com a organização de saúde global Vital Strategies.
No país, 333 municípios foram considerados em maior situação de vulnerabilidade socioambiental e climática principalmente para crianças e adolescentes, o que representa 6% das cidades brasileiras. A plataforma avalia os municípios considerando 14 indicadores de exposição ambiental organizados em quatro áreas temáticas:
Qualidade do Ar;
Infraestrutura Ambiental e Urbana;
Eventos Climáticos Extremos;
Ambiente Escolar.
“Quando se está falando de eventos extremos, crianças dependem de seus cuidadores para tomar as decisões por elas. Elas não necessariamente têm autonomia ou capacidade para reconhecer situações de perigo, em que elas precisam sair de um determinado lugar e ir para outro. Elas dependem que seus cuidadores façam isso”, destacou o especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, Danilo Moura, em entrevista.
A plataforma utiliza dados de 2021 a 2025 e é possível consultar a situação de cada um dos 5.571 municípios brasileiros.
Riscos
Entre os indicadores estão, por exemplo, ocorrência de chuvas intensas, ondas de calor ou secas em anos recentes; população sem água tratada ou coleta de esgoto; e poluição do ar por transporte público ou acima do limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Dependendo da situação, os diferentes indicadores de cada município são classificado em três níveis de prioridade:
nível 3, que significa que a cidade demanda atenção imediata e priorizada;
nível 2, para o qual se recomenda planejamento e adoção progressiva de medidas no curto a médio prazo;
nível 1, baixa prioridade, que demanda monitoramento contínuo, sem necessidade de intervenção emergencial.
Segundo o levantamento, os 333 municípios que têm alta prioridade, ou nível 3, em mais de dez dos 14 indicadores, configuram uma situação de vulnerabilidade severa e multidimensional. Neste grupo há alta concentração de municípios da região Norte e do Maranhão.
Na outra ponta, 108 municípios (1,9%) não apresentaram alta prioridade em nenhum dos indicadores analisados.
De acordo com a representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, a iniciativa permite enxergar as diferenças de maneira mais clara.
“Transformar os dados em prioridades ajuda a fortalecer a capacidade dos municípios, entender onde estão os maiores desafios, e como direcionar uma política [pública], um programa, ou um orçamento”, disse no lançamento da iniciativa.
Os dados mostram que os municípios com maior número de indicadores em alta prioridade estão majoritariamente nos estados do Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre os 30 municípios com pior desempenho agregado, 24 pertencem à região Norte e quatro ao Maranhão. Os outros quatro estão em Mato Grosso.
A nota técnica aponta que muitos desses municípios têm populações pequenas e economias locais dependentes de atividades primárias, o que amplia a exposição a riscos climáticos e socioambientais, e também limita a capacidade de resposta local.
Regiões mais vulneráveis
Na análise de qualidade do ar, que investigou o percentual de dias entre 2021 e 2025 em que a concentração de partículas finas superou o recomendado pela OMS, a região Norte demonstrou maior prioridade com 94% dos municípios afetados. A análise aponta que isso se deve, provavelmente, às queimadas.
A região Sudeste se destaca também neste quesito. Embora apenas 39% dos municípios estejam no grupo de maior prioridade, eles concentram 72% da população infantil da região. Nessas cidades, a baixa qualidade do ar, provavelmente, de acordo com análise, está associada ao transporte e a atividades industriais.
Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais. Foto: Tony Winston/Agência Brasília
Os dados relacionados a eventos climáticos extremos mostram que a região Norte e Sul concentram 91% e 68%, respectivamente, dos municípios de atenção, principalmente se tratando de chuvas intensas.
Já os indicadores relacionados à infraestrutura ambiental e urbana indicam que as maiores proporções de municípios com alta prioridade estão no Norte (78%) e Nordeste (46%). Segundo a análise do Painel, no Norte, o desafio está associado à dispersão geográfica e à dificuldade de expansão de redes em território de baixa densidade. Já no Nordeste, soma-se a escassez hídrica e a menor capacidade financeira dos municípios para investimento em infraestrutura.
Entre os dados relacionados ao ambiente escolar, Nordeste (52%) e Sudeste (39%) lideram a prioridade de espaços escolares sem qualquer área verde.
Plataforma
No Painel, lideranças municipais e cidadãos podem acessar os diagnósticos de cada um dos 5.571 municípios e entender quais os principais déficits e áreas de cada cidade. A plataforma também reúne 50 recomendações de enfrentamento para casos de alta prioridade, desde intervenções físicas até medidas institucionais.
Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, acredita que essa é uma ferramenta essencial para subsidiar ações preventivas.
“Um ambiente seguro, saudável e sustentável não é apenas um direito, mas também um elemento essencial para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento integral na infância e na adolescência. Visando futuros melhores e mais seguros, essa ferramenta permite um olhar qualificado e individualizado para o território”, completou.
‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’: toadas do Boi Garantido inspiram nomes de novas espécies de gafanhotos descobertas por pesquisadora no Amazonas — Foto: Fotos: Nereston Camargo e Larissa Lima de Queiroz
No Amazonas, duas toadas do Boi-Bumbá Garantido ganharam espaço na ciência. ‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’ agora dão nome a espécies de gafanhotos descobertas em pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O estudo, publicado em 24 de julho na revista internacional Zootaxa, identificou nove novas espécies de gafanhotos e quatro novos gêneros. Oito delas foram encontradas na Amazônia brasileira.
Entre as descobertas, duas chamam atenção por homenagear o Festival Folclórico de Parintins. A espécie Kamara kratxatxa, que significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada ‘Kamara’, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. A construção do nome contou com a colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, incorporando elementos da língua e da cultura indígena à nomenclatura científica.
O Boi-Bumbá Garantido integra um dos maiores patrimônios culturais do Brasil, o Festival de Parintins. Ao lado do Boi-Bumbá Caprichoso, os bois promovem uma festa popular que celebra a cultura amazônica e a rivalidade centenária. Em 2026, a tradicional foi realizada nos dias 26, 27 e 28 de junho.
Já Proscopia caacy foi inspirada na toada ‘Mãe da Mata’, apresentada pelo Garantido em 2011. A palavra Caacy, de origem tupi-guarani, significa “mãe da floresta”.
A espécie Kamara kratxatxa, que significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada Kamara, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. — Foto: Foto: Larissa Lima de Queiroz
A pesquisa contou com a participação da pesquisadora amazonense Larissa Lima de Queiroz, e de José Albertino Rafael, do Inpa, e Raphael Aquino Heleodoro, do Museu Nacional (MNRJ).
Segundo a pesquisadora Larissa Lima de Queiroz, a escolha dos nomes aproxima ciência e cultura.
“Quis batizar parte da fauna da Amazônia com nomes inspirados nos povos originários. O Festival de Parintins ensina sobre etnias, línguas e tradições da região. Como sou a única pesquisadora amazonense que estuda gafanhotos no Brasil, quis batizar essa pequena parte da fauna da Amazônia brasileira com nomes inspirados nos povos originários. Também sou Garantido desde pequena, usei como inspiração minhas toadas favoritas, ‘Mãe da Mata’ e ‘Kamara’”, disse Larissa.
Já Proscopia caacy foi inspirada na toada Mãe da Mata, apresentada pelo Garantido em 2011. — Foto: Foto: Nereston Camargo
A pesquisa começou em 2019, durante o doutorado de Larissa, mas o trabalho de campo só iniciou em 2022, após a vacinação contra a Covid-19.
Além das expedições, ela analisou exemplares preservados em museus no Brasil e no exterior. Alguns insetos, como os de Proscopia caacy, haviam sido coletados em 1984, mas só agora foram reconhecidos como espécie nova.
“Parte da busca por novas espécies é realizada em museus, a partir de exemplares coletados anteriormente por outros pesquisadores. Os gafanhotos de Proscopia caacy, por exemplo, foram coletados em 1984, mas somente agora descobrimos que se tratava de algo novo”, explicou Larissa.
Encontrar gafanhotos inéditos não é tarefa simples. Um dos grupos recebeu o nome Celatus, que significa “escondido” em latim. A equipe levou cinco meses para localizar o primeiro macho da espécie Celatus nath, em Presidente Figueiredo.
Outra novidade é Milenascopia uatuma, encontrada na Reserva Biológica do Uatumã. A coleta foi realizada em uma floresta alagada, utilizando uma lancha para alcançar gafanhotos que estavam sobre árvores parcialmente submersas, uma área de várzea.
Das nove espécie, oito espécies foram registradas na Amazônia brasileira:
Celatus nath – Presidente Figueiredo, no Amazonas;
Kamara kratxatxa – Rio Branco, no Acre;
Lianascopia albae – Tiquié, no Amazonas;
Lianascopia domenicoi – Amajari, em Roraima;
Milenascopia uatuma – Presidente Figueiredo, no Amazonas;
O estudo também descreveu quatro novos gêneros, que agrupam diferentes espécies. O gênero Kamara, por exemplo, já reúne três espécies.
Para a pesquisadora, descobrir um novo gênero é um avanço ainda maior do que encontrar uma nova espécie.
“Isso mostra como ainda conhecemos pouco da biodiversidade, principalmente na Amazônia. Não descobrimos apenas espécies, mas também grupos inteiros desconhecidos pela ciência”, disse Larissa.
Larissa espera que o estudo incentive a valorização da fauna e da cultura amazônica.
“Eu gostaria que o nosso país conhecesse melhor os animais fantásticos que existem na nossa floresta e entendesse que o Norte é forte, rico em diversidade e cultura. Isso sempre será motivo de orgulho, e agora uma parte dessa cultura também está eternizada na ciência”, concluiu.
Pesquisa investigou o comportamento de tomateiros em condições adversas, simulando ferimentos feitos em diferentes níveis de danos e acompanhou as respostas de defesa ao longo do tempo. Foto: Reprodução/UFMT
Um artigo publicado por pesquisadores do Campos Lab, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) concluiu que as plantas lutam diariamente pela sobrevivência contra predadores herbívoros. A pesquisa, publicada no início de julho, revela que as espécies, diferentemente da sensação diária de tranquilidade transmitidas no campo ou na natureza, estão a todo momento adotando diferentes estratégias de defesa conforme a intensidade dos danos sofridos.
O estudo investigou como o tomateiro (Solanum lycopersicum L.) responde a diferentes níveis de dano mecânico. Em condições controladas, as plantas receberam um, três, cinco ou dez ferimentos feitos com uma pinça especial, simulando o dano causado por pragas herbívoras. Em seguida, foram avaliadas em três momentos, permitindo acompanhar as respostas de defesa ao longo do tempo.
Pesquisa foi orientada pelo professor Marcelo Lattarulo Campos e está disponível na revista Plant, Cell & Environment. Foto: Reprodução/UFMT
As análises consideraram características observáveis das plantas, relacionadas ao fenótipo, além de alterações no metabolismo, nos hormônios e na transcrição do RNA — processo pelo qual as informações dos genes são utilizadas pelas células.
“A pesquisa mostra que muitas das respostas metabólicas aumentam conforme o número de machucados, o que indica um reflexo defensivo da planta. Contudo, também é possível observar que algumas respostas aumentam e depois diminuem, demonstrando que a planta identifica a extensão do dano e adapta sua estratégia de defesa a essa intensidade”, explica Beatriz Corrêa Araújo, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal da UFMT.
O comportamento de duas enzimas ajuda a compreender essa conclusão. Quando sofre um ferimento, a planta produz moléculas conhecidas como espécies reativas de oxigênio, ou ROS, na sigla em inglês. Elas atuam na sinalização do dano, mas, quando se acumulam, também podem prejudicar as células vegetais, como defesa.
Para controlar esse efeito, a planta utiliza energia e nutrientes na produção de enzimas antioxidantes, como a catalase e a peroxidase. A pesquisa identificou, porém, que a atividade dessas enzimas atinge seu ponto máximo diante de danos moderados e diminui quando os ferimentos se tornam mais intensos. O resultado indica uma mudança de estratégia: em vez de continuar concentrando recursos no controle das ROS, a planta passa a direcioná-los a outras respostas de defesa.
Estudo visou o comportamento das plantas contra as pragas herbívoras. Foto: Reprodução/Mundo Educação
“A nossa interpretação é que, no início do dano, as ROS aumentam muito para sinalizar que há um problema. Isso também resulta em uma alta atividade das enzimas que controlam essas moléculas, impedindo que se tornem tóxicas para a planta. Contudo, quando o dano passa de moderado, a planta muda de prioridade e começa a investir energia e nutrientes em outras respostas, como a regeneração e a cicatrização das feridas, a produção de moléculas tóxicas para os insetos ou, ainda, o reforço de sua estrutura física, como ocorre com a produção de tricomas”, explica a pesquisadora.
Os tricomas são estruturas semelhantes a pelos encontradas, por exemplo, nos caules e nas folhas de algumas plantas. Eles podem dificultar o deslocamento e a alimentação dos insetos. Segundo Beatriz, o tomateiro possui pelo menos sete tipos de tricomas, com diferentes funções defensivas.
Alguns são rígidos e afiados, funcionando como barreiras físicas. Outros produzem substâncias capazes de repelir ou paralisar os herbívoros. Há também tricomas que liberam compostos voláteis, responsáveis por odores que podem atrair predadores naturais dos insetos que atacam a planta.
“Concluímos que, à medida que percebe a intensidade do dano, a planta reprograma todo o seu sistema e sua fisiologia de maneira hierárquica. Existem genes ‘centrais’, que são ativados diante de qualquer nível de dano, mas também genes que respondem apenas a determinadas intensidades. Então, quanto mais ferida a planta é, mais complexa se torna a resposta mobilizada por ela”, afirma a pesquisadora.
Assim, seja por causa de um inseto com fome ou um pesquisador com uma pinça, a vida das plantas é bem mais agitada do que a tranquilidade que transmitem quando observamos de fora.
A pesquisa foi orientada pelo professor Marcelo Lattarulo Campos e está disponível na revista Plant, Cell & Environment.
A iniciativa representa uma importante vitrine para valorizar a agricultura familiar e fortalecer a comercialização direta. Foto: Divulgação/ PMBV
Antes da abertura dos portões do Centro de Difusão Tecnológica (CDT) para o AgroBV, o Maior Evento do Agronegócio de Roraima, agricultores familiares intensificam os preparativos para apresentar ao público o resultado do trabalho desenvolvido no campo. Com dedicação, os alimentos e demais itens são selecionados para exposição e comercialização durante a programação.
A iniciativa representa uma importante vitrine para valorizar a agricultura familiar, fortalecer a comercialização direta, aproximar produtores e consumidores e impulsionar o desenvolvimento do setor. Entre os participantes está a produtora Ildeane Vieira, do Projeto de Assentamento (PA) Nova Amazônia, que levará sua produção de mel e aproveitará as oportunidades de negócios.
Nesta edição, o evento contará com a participação de 20 agricultores familiares. Crédito: PMBV.
“Neste ano, por meio da nossa cooperativa, vamos levar nossa produção tanto em sachês quanto em garrafas. Hoje, temos uma agroindústria. Poder apresentar nossos produtos no AgroBV é sempre muito importante. O evento amplia nossa visão e abre novas oportunidades. Também participamos levando nossos porcos para serem expostos na Fazendinha”, contou.
Um dos grandes diferenciais do AgroBV é a gratuidade dos estandes destinados a empresas expositoras, agricultores familiares e empreendedores. Ao todo, a edição deste ano contará com 80 expositores, além de 20 beneficiários da Agência Municipal de Empreendedorismo (AME), 20 agricultores familiares e 30 espaços destinados a ambulantes.
Produtos são comercializados nos quatro dias de programação. Crédito: Divulgação/PMBV
“O AgroBV também é um espaço de valorização da agricultura familiar. Aqui, os pequenos produtores têm a oportunidade de expor e comercializar o que produzem diretamente ao consumidor, gerando renda, conquistando novos clientes e mostrando a qualidade do trabalho desenvolvido no campo”, destacou o secretário municipal de Agricultura e Assuntos Indígenas, Cezar Riva.
Vem aí!
Consolidado, o AgroBV deve receber mais de 80 mil visitantes ao longo dos quatro dias de programação, no Centro de Difusão Tecnológica, localizado na região do Bom Intento, zona rural de Boa Vista. Entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, o público terá acesso a oportunidades de negócios, capacitações, inovação e integração entre produtores, empresas e instituições do setor.
Porto Velho. Foto: Leandro Morais/Prefeitura de Porto Velho/Divulgação
Porto Velho está entre as 50 cidades com as maiores taxas de homicídio do mundo em 2025, segundo ranking divulgado pelo Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, organização mexicana que publica o levantamento todos os anos. Porto Velho ocupa a 48ª posição, com taxa de 30,07 homicídios por 100 mil habitantes.
De acordo com o relatório, foram registrados 163 homicídios em uma população estimada de 542.022 moradores. Além de Porto Velho, outras cinco cidades brasileiras aparecem na lista: Fortaleza (32ª), Feira de Santana (33ª), Recife (36ª), Maceió (38ª) e Salvador (44ª).
Veja o ranking das 50 cidades com as maiores taxas de homicídio do mundo:
1º Porto Príncipe (Haiti) — Homicídios: 6.185 | População: 3.133.000 | Taxa de homicídios: 197,43
Em nota, a Prefeitura de Porto Velho informou que recebeu os dados do levantamento e afirmou que o combate à violência exige atuação integrada entre os órgãos públicos. A administração destacou que, embora a segurança pública seja responsabilidade do Governo de Rondônia, tem adotado medidas para colaborar com a prevenção da criminalidade, como a implantação da Atividade Delegada e a criação da Guarda Municipal.
Porto Velho está entre as 50 cidades com maiores taxas de homicídio do mundo. Foto: @rawpixel-com/ Freepik
Entramos em contato com a Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec) de Porto Velho, mas não recebemos resposta até a última atualização desta reportagem.
Como o ranking é elaborado
O levantamento é elaborado anualmente pelo Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, organização da sociedade civil sediada no México.
O estudo considera apenas cidades com mais de 300 mil habitantes e usa como principal indicador a taxa de homicídios por 100 mil habitantes. O índice é calculado dividindo o número de homicídios pela população da cidade e multiplicando o resultado por 100 mil, o que permite comparar municípios de diferentes tamanhos.
Segundo a organização, os dados são obtidos, na maior parte dos casos, em fontes oficiais de cada país. Quando essas informações não estão disponíveis ou apresentam inconsistências, o relatório pode usar estimativas ou dados de outras fontes independentes.
Porto Velho está entre as 50 cidades com maiores taxas de homicídio do mundo. Foto: Frank Nery
A metodologia também exclui mortes causadas por conflitos armados, como guerras civis ou internacionais, seguindo critérios adotados por organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). De acordo com o Conselho Cidadão, o objetivo do ranking é dar visibilidade à violência letal nas cidades, ampliar a transparência dos indicadores e incentivar a adoção de políticas públicas para reduzir os homicídios.
Ayahuasca é utilizada por diferentes povos originários da Amazônia em contextos cerimoniais, espirituais e terapêuticos. Imagem: Shelley Evans via Pixabay
Durante boa parte do século XX, ensinou-se que nascemos com um número fixo de neurônios e que, dali em diante, a conta só diminui. A história, hoje sabemos, não é bem assim. Muitos animais, inclusive humanos, mantêm, na vida adulta, uma pequena reserva de células-tronco neurais: células capazes de se multiplicar e, em princípio, originar novos neurônios. Na maior parte do tempo, elas ficam quietas, quase dormentes.
Se essa reserva existe no cérebro humano, seria possível estimular essas células a gerar novos neurônios? E uma molécula psicodélica poderia servir de estímulo? Foi o que decidimos investigar.
Muito além da viagem
A dimetiltriptamina (DMT, ou N,N-dimetiltriptamina), é um psicodélico de ação rápida, conhecido por produzir alterações profundas da percepção, da experiência do tempo e da própria identidade, frequentemente descritas como uma dissolução das fronteiras do “eu”.
É o principal componente psicodélico da ayahuasca, cuja história antecede em muitos séculos a investigação científica moderna. Diferentes povos originários da Amazônia utilizam preparações vegetais contendo a substância em contextos cerimoniais, espirituais e terapêuticos.
Embora a DMT tenha sido sintetizada pela primeira vez em 1931 pelo químico canadense Richard Manske, foi o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima quem, em 1946, isolou da jurema-preta (Mimosa tenuiflora) uma substância que, mais tarde, demonstrou-se ser DMT, a partir de seus estudos sobre o tradicional “vinho da jurema” utilizado por povos indígenas do Nordeste brasileiro.
Os efeitos psicodélicos da DMT em seres humanos só seriam caracterizados experimentalmente na década de 1950, nos trabalhos do psiquiatra Stephen Szára.
Nos últimos anos, a atenção se deslocou da mente para a célula. E descobriu-se que os efeitos agudos da DMT vêm sobretudo de sua ação sobre um receptor de serotonina, o 5-HT2A.
Quase tudo isso, no entanto, foi observado em roedores. E o cérebro de um camundongo não é igual ao nosso.
Faltava perguntar o que a DMT faz às células neurais humanas, em especial a uma população menos badalada que os neurônios: as células progenitoras neurais.
O cérebro guarda uma reserva?
A ideia de que o cérebro adulto não se regenera tem uma origem ilustre. Em 1913, Santiago Ramón y Cajal, um dos fundadores da neurociência, afirmou que, no sistema nervoso adulto, tudo pode morrer e nada se regenera. A sentença virou dogma por décadas. Só em 1998 surgiu a primeira evidência de que o cérebro humano adulto talvez fizesse o mesmo.
Um estudo de 2018 concluiu que a produção de novos neurônios despenca a níveis quase indetectáveis depois da infância. Porém, um outro estudo, de 2019, encontrou novos neurônios surgindo durante toda a vida adulta e outros pesquisadores também flagraram células progenitoras neurais se multiplicando. Desde então, vários outros grupos de pesquisa no mundo com técnicas moleculares mais modernas vêm reacendendo o antigo debate.
O consenso possível é que essas células-tronco neurais são raras e passam a maior parte do tempo em repouso. Difíceis de encontrar, e mais difíceis ainda de testar dentro de um cérebro vivo. Para estudá-las, é preciso criatividade.
Cipó de ayahuasca. Foto: Reprodução/Agência Fapesp
Como espiar um cérebro humano numa placa?
Recorremos a uma tecnologia reconhecida com o Nobel de 2012: a reprogramação celular. É possível obter uma célula adulta humana, como a da pele, e reconduzi-la a um estado imaturo, semelhante ao embrionário. São as chamadas células-tronco de pluripotência induzida. A partir delas, com os estímulos certos, geramos células-tronco neurais.
São um modelo biológico vivo, como um avatar, que nos ajuda a perguntar, por exemplo, aquilo que não se pode fazer em uma pessoa: uma exposição breve à DMT basta para tirar células-tronco neurais do repouso?
O que a DMT fez às células?
Expostas à DMT por um dia, uma fração maior das células passou a se multiplicar. Medimos isso com um marcador que só entra no DNA quando a célula está copiando o próprio material genético. Outros indicadores contaram a mesma história.
A DMT também mexeu com a produção das moléculas que ajudam as células neurais a sobreviver e se adaptar. O Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (na sigla em inglês, BDNF), nome recorrente nas conversas sobre antidepressivos, subiu de forma marcante, tanto na expressão do gene quanto na quantidade de proteína dentro da célula, cerca de cinco vezes.
A verdadeira surpresa, porém, foi o Fator de Crescimento do Nervo (NGF). Seu gene foi o que mais aumentou sua expressão, quase dez vezes, embora costume viver à sombra do BDNF nesse campo.
No dia seguinte, reunimos as células em neuroesferas, agora sem nenhuma DMT no meio. As células que haviam sido expostas previamente à DMT formaram neuroesferas maiores e metabolicamente mais ativas nos primeiros dias. A molécula já não estava presente. Sua marca, sim.
Eram mais células, não células diferentes. A proporção dos tipos celulares dentro das neuroesferas continuou igual à dos controles. A DMT parece ter deixado as células mais dispostas a se multiplicar, sem alterar o rumo de sua maturação.
Se tudo terminasse numa placa, o resultado seria uma curiosidade elegante de laboratório
Mas pistas semelhantes vêm surgindo em animais. Em 2020, um grupo espanhol mostrou que a DMT estimula a neurogênese em roedores, embora com doses repetidas ao longo de semanas. Em 2026, pesquisadores brasileiros encurtaram a distância com os efeitos descritos depois de uma dose só em pessoas, ao observar que uma única dose bastou para restaurar marcadores de neurogênese em camundongos sob estresse crônico. Nas nossas células humanas, uma exposição única de 24 horas também foi suficiente.
Quando abordagens tão diferentes apontam para os mesmos processos, a hipótese deixa de parecer exótica. Porém, entre uma célula em cultura e um cérebro humano vivo há uma distância de complexidade.
Antes que alguém peça aos dados mais do que eles dizem, um lembrete. Fabricar um neurônio é uma jornada longa: a célula precisa “nascer”, precisa se multiplicar, sobreviver, amadurecer, virar neurônio e se integrar aos circuitos que já existem.
Nós observamos apenas o primeiro passo — mais células proliferando, e um sinal de crescimento que persistiu mesmo depois que a molécula saiu, acompanhado de outros mecanismos fisiológicos importantes.
Se essa reserva reage do mesmo modo dentro de um cérebro vivo, se essas células chegariam a virar neurônios funcionais, e se algo disso teria valor terapêutico, são perguntas ainda em aberto.
O que podemos dizer é mais modesto, e talvez mais interessante: uma molécula conhecida por dissolver as fronteiras do “eu” foi capaz de acordar, ainda que um pouco, o que costuma dormir.
Cabe mencionar que efeitos terapêuticos de DMT em humanos estão sendo testados por cientistas da UFRN e sugerem alívio rápido de sintomas depressivos após uma única dose. No setor privado, uma formulação bucal de DMT sintética está atualmente em estudo clínico para depressão resistente ao tratamento.
Podemos especular que essa capacidade terapêutica poderia também fazer células-tronco neurais se multiplicarem, gerarem neurônios e novas conexões, como demonstramos em laboratório.
Psicodélicos não são atalhos para consertar o cérebro, mas estão se revelando lentes poderosas para observar, em células humanas, o que antes só podíamos supor.
Stevens RehenPesquisador, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
José Alexandre SalernoProfessor do Departamento de Ciências Morfológicas, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração de seis pesquisadores. Leia o original AQUI.