As etapas e mostras do projeto da eco cápsula de cana-de-açúcar. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP
O jovem pesquisador Benjamin Pereira de Brito, de 12 anos, criou uma eco cápsula com resíduos de cana-de-açúcar em Macapá (AP). O projeto usa fibras do material para proteger sementes e ajudar no crescimento das plantas. A ideia surgiu depois que Benjamin leu na internet sobre a produção de cana-de-açúcar no Brasil.
Com orientação da professora Soraya Cristina Leal, do Instituto Nacional Leva Ciência, ele transformou a ideia em um projeto científico. Segundo Benjamin, a proposta foi dar uma nova utilidade às fibras que seriam descartadas e associar o reaproveitamento do material ao plantio de novas espécies.
“Eu li um artigo na internet em 2024 que dizia que o Brasil era um dos maiores produtores de açúcar do mundo. Então eu pensei em reutilizar essa cana para construir uma eco cápsula que ia proteger as sementes e ajudar o meio ambiente, fazendo com que elas cresçam mais saudáveis e com várias fibras”, contou.
Cápsula ecológica com resíduos de cana de açúcar — Foto: Rede Amazônica
Benjamin realizou testes em laboratório para avaliar a eficiência do projeto. Ele também verificou se o material poderia causar impactos no solo ou no meio ambiente. Com a ajuda da professora, Benjamin plantou mudas e doou parte das cápsulas para a 22ª Brigada de Infantaria de Selva.
A iniciativa permitiu que ele testasse a aplicação da eco cápsula na prática. “Me senti muito feliz com os resultados porque é uma forma de contribuir com o planeta Terra e fazer com que a gente consiga sobreviver mais nele”, afirmou o estudante.
No ciclo 2024/25, o Brasil produziu cerca de 676 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para a safra 2026/2027, a previsão é de crescimento de 4,7%, para 705,2 milhões de toneladas.
Projeto com cana-de-açúcar passou pela fase de testes
Agora, Benjamin estuda novas formas de plantio e testa o material em diferentes tipos de solo e condições ambientais. A ideia é descobrir até que ponto a eco cápsula pode ser uma alternativa para pequenas áreas de reflorestamento.
Para a professora Soraya Cristina Pereira Leal, projetos científicos ajudam crianças e adolescentes a desenvolver a curiosidade e a buscar soluções para problemas do cotidiano.
“Quando ele crescer, com a eco cápsula espalhada por áreas degradadas, ele vai olhar e vai dizer: ‘Eu contribuí para o meio ambiente, eu contribuí para combater o efeito estufa e a poluição’. Foi a partir de um projeto que muitas pessoas não valorizam, mas que ainda contribui para o nosso planeta”, enalteceu a professora.
Com os estudos, Benjamin já conquistou premiações, participou de congressos e esteve em feiras científicas em vários estados, como Pernambuco e Rio Grande do Sul.
A pesquisa também garantiu ao estudante uma credencial para participar de um evento científico no Kuwait, país localizado no Oriente Médio.
*Por Maria Clara Prudêncio e Mayra Carvalho, da Rede Amazônica AP
O avanço de rodovias sobre a floresta tropical gera impactos complexos para a biodiversidade e para os povos originários. Para documentar essa realidade de perto, o podcast documental Sinal de Vidaanuncia a produção de sua segunda temporada, gravada integralmente na Amazônia.
A série em áudio acompanha uma investigação científica sobre as consequências da BR-174, estrada que liga Manaus (AM) a Boa Vista (RR), dentro e fora do território Waimiri-Atroari.
Equipe do podcast Sinal de Vida com Sawa Atroari (ao centro, de amarelo) liderança indígena Waimiri-Atroari, e a pesquisadora Juliana Martins (de lilás, à direita de Sawa). Foto: Divulgação
Fugindo do formato tradicional de estúdio, a equipe realizou cinco expedições de campo, totalizando mais de 24 dias na mata. O resultado é um acervo com mais de 300 áudios que colocam o ouvinte no centro da ação: desde os sons da instalação de armadilhas fotográficas até o momento exato do fechamento noturno da rodovia, passando por entrevistas com caminhoneiros, lideranças indígenas e mergulhos em igarapés.
BR-174 e a ciência em campo
A BR-174 é o foco central da investigação científica apresentada no podcast, carregando um histórico complexo na Amazônia. Construída entre 1967 e 1977, durante o regime militar, a obra foi inserida no Plano de Integração Nacional e rasgou o território tradicional indígena, trazendo severas consequências ambientais e sociais.
Hoje, como medida de proteção e segurança referendada pela Justiça, o trecho da rodovia que corta a reserva é rigorosamente fechado ao tráfego de veículos durante a noite, das 18h às 6h.
Essa restrição é fundamental não apenas para a segurança da comunidade local, mas para impedir o atropelamento de animais de hábito noturno.
Foto: Divulgação
É exatamente esse cenário que norteia o trabalho documentado pela série. A temporada acompanha a pesquisa de campo da bióloga Juliana Martins, que instalou câmeras dentro e fora da terra indígena.
Com uma abordagem que une biologia e antropologia, o estudo coleta dados para comparar a presença de animais silvestres nessas diferentes áreas. Os objetivos da pesquisa é compreender se o bloqueio noturno da rodovia, gerenciado pelos indígenas, gera um impacto direto e positivo tanto na conservação da fauna e da biodiversidade amazônica, como na geração de autonomia territorial desse povo.
A resistência Waimiri-Atroari
O impacto da abertura da BR-174 foi devastador para os Waimiri-Atroari, que se autodenominam Kinja. O contato forçado com trabalhadores e militares introduziu doenças, violência armada e resultou na destruição de aldeias.
Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), estima-se que 2.650 indígenas dessa etnia foram mortos durante a construção da rodovia na década de 1970. A violência sistêmica e as epidemias quase dizimaram o povo, que reduziu sua população de mais de 3.000 pessoas a cerca de 300 sobreviventes na época.
Apesar desse passado de quase completo extermínio, o podcast retrata o atual cenário de protagonismo dos Kinja na reconstrução de sua população e na defesa de suas terras. Durante as gravações, a equipe do Sinal de Vida construiu laços de amizade e confiança com Sawa, liderança indígena que co-coordenou a pesquisa.
Através da condução emocional da história, o programa documenta visitas a locais sagrados e a imensa importância do Maryba, uma festa tradicional que dura três dias ininterruptos. É por meio de celebrações como essa que os Waimiri-Atroari mantêm viva a sua história oral, articulam alianças políticas entre as aldeias e repassam o conhecimento de seus antepassados para as novas gerações.
Foto: Divulgação
Campanha de Financiamento Coletivo
Para viabilizar as etapas finais da produção, o projeto abriu um financiamento coletivo. A arrecadação pagará o desenvolvimento do site, trilha sonora, identidade visual, divulgação, roteiristas e editores.
“A edição ainda não aconteceu, pois estamos na etapa de roteirização. Tudo para trazer a humanidade por trás dessa pesquisa e mostrar que conservação da biodiversidade vai muito além das espécies, mas da cultura, história e disputa por terras”, destaca Lucas Andrade, integrante do Sinal de Vida.
Conduzido pelos biólogos e comunicadores da ciência Lucas Andrade, Gabriela Longo e Amanda Guedes, o Sinal de Vida é um podcast narrativo que mergulha em viagens de campo para conectar pesquisas científicas às vidas cotidianas. A primeira temporada documentou a busca inédita pela raia-chita na Ilha Anchieta (SP) que resultou em um registro nunca antes feito pela ciência brasileira.
Majé Suzete, a referência da sabedoria ancestral do povo Kumaruana. Foto: Leonardo Milano/Mídia Ninja
Nas aldeias indígenas Kumaruara do Baixo Tapajós, enquanto a liderança política é exercida pelos caciques, cacicas ou tuxauas, a liderança espiritual fica a cargo dos pajés ou majés.
Na aldeia de Solimões, uma das cinco do Território Kumaruara, no Pará, essa liderança espiritual está nas mãos da Majé Suzete. Aos 78 anos, Maria Suzete Rodrigues Matos segue fazendo remédios, banhos, trabalhos de cura e partos. E tem orgulho de sua prática.
A majé vem de uma família de pessoas com dom. Ela começou cedo a fazer remédios, sob orientação da mãe. Nas aldeias, é muito marcante o uso de plantas medicinais, e diversos medicamentos são produzidos usando folhas, cascas, banhas, frutos, mel e outros ingredientes da floresta.
Majé Suzete. Foto: Reprodução/Mídia Ninja
São remédios para gastrite, nódulos, inflamação, verminose, xarope para anemia, para garganta, pomadas, garrafada anti-inflamatória e banhos. A fabricação de medicamentos tradicionais envolve um sistema de conhecimento ancestral transmitido de forma oral, como aconteceu com a majé.
Suzete realizou seu primeiro parto aos 11 anos de idade. Seu aprendizado se deu a partir da observação do trabalho de outras pessoas e de sonhos. Ao mesmo tempo, ela diz que sempre foi muito curiosa, desde criança, e, assim, foi adquirindo e desenvolvendo seu dom ao longo do tempo.
“Foi nos meus sonhos, eu fui descobrindo. Aí eu fui aprendendo, ia fazer o trabalho e acertava. Antes de mim, gente da minha família tinha esse dom, porque os meus tios, eles puxavam desmentidura, benziam, eu puxei um pouco pro lado deles”, ela conta.
Existe o reconhecimento público do trabalho realizado por Suzete, tanto das pessoas da aldeia, que a procuram com frequência, quanto de pessoas de fora. Mas ainda é desafiador garantir o respeito às práticas e conhecimentos tradicionais de saúde e o protagonismo dos/as cuidadores/as atuantes na região e evitar a imposição do modelo biomédico em detrimento de suas formas próprias e tradicionais de cuidado.
O preconceito ainda é uma realidade, dentro e fora das aldeias. A majé Suzete, por exemplo, já foi chamada de bruxa dentro da própria casa. “Eu só trabalho pro bem. Tem pessoa aqui na aldeia que pensa outra coisa da gente, mas não é não. Agora já me respeitam aqui. Já senti preconceito”, ela conta.
Majé Suzete. Foto: Reprodução/Mídia Ninja
Majé estimula a troca de conhecimentos
Majé Suzete não nega os conhecimentos da medicina ocidental. Quando percebe que a situação é complicada, ela sugere que a pessoa procure médico em Santarém, cujo acesso até a aldeia é somente fluvial, em cinco horas de barco. Mas a situação inversa também acontece: ela já tratou de pessoas cujos problemas os médicos não conseguiram resolver.
“Já veio um rapaz de Manaus se tratar comigo aqui, veio desenganado do médico. Quando esse rapaz chegou, ele não podia sentar, quando eu fui lá na casa dele, ele estava na rede. Aí eu puxei tudo. Esse menino levantou e sentou em uma cadeira fora, a mãe dele ficou me olhando: pela amor de Deus, ele não andava!”, lembra ela.
Majé Suzete segue tratando da comunidade e dos pacientes que a procuram, agora com a ajuda das filhas e de um neto. Por várias vezes ao longo das nossas conversas, ela me falou sobre seus modos de transmissão do conhecimento. “Esse conhecimento pode ser repassado”, ela explica.
Majé Suzete realizando uma de suas práticas. Foto: Reprodução/Mídia Ninja
Suzete ensina as novas gerações a fazer remédios. Uma filha e um dos seus netos manifestaram dom desde crianças. No caso do neto, o dom dele é diferente do dela e, atualmente, eles trabalham em parceria na cura das pessoas.
“Esse aí adivinha as coisas, eu já não tenho isso, por isso que uns tem um e outros tem outro dom. O que eu faço ele não faz e o que ele faz eu não faço. Ele confia em mim, quando é alguma coisa pra remédios, banho, ele já liga pra mim e eu faço, porque aqui eu planto as plantas medicinal. Mas se eu vou rezar em uma pessoa e não pega, aí eu tenho que ligar pra ele, ele dizer porque que é, ele diz, eu faço e dá certo. É assim que nós trabalha”.
Isso porque há diversas especialidades de práticas de cura e cuidado com a saúde. Segundo o indígena e antropólogo Florêncio Vaz Filho, do povo Maytapú, os especialistas de saúde entre os indígenas podem ser assim divididos:
Pajé / Majé: Cura doença do corpo e do espírito; faz tratamento para desfazer mal, por meio de orações; trata doenças feias com banhos de plantas, chá de ervas e garrafadas; é conhecedor/a das plantas medicinais, árvores e banhas de animais; tem o dom de aprender as coisas por sonho; trata picada de bichos peçonhentos como cobra e escorpião; é parteira; benze e reza; exerce o poder de respeito de todos.
Benzedor/a, rezador/a: Benze e reza em pessoas que estão com mau-olhado de bicho, crianças que estão com quebranto e panema; é conhecedor/a de orações para tratamento e cura de doenças específicas.
Rezador de rasgadura/carne trilhada e rendidura: Sabe reza específica para rendidura – quando o homem se rende por fazer muito esforço físico; costura feridas.
Puxador/a e consertador/a de osso: Conserta osso e puxa desmentidora, que é a distensão muscular, luxação ou torção.
Conhecedor/a das plantas medicinais e banhas de animais: Faz remédios caseiros – garrafadas, xarope, pomada, comprimidos com plantas naturais, cascas de árvores e banhas de animais – para doenças como diabetes, hipertensão, miomas, dores musculares, gripe, bronquite, pneumonia, inflamação, verminose e outras doenças.
Sacaca: Tem o dom de nascença para descobrir a cura para tratar pessoas; descobre as práticas de cura por intermédio de sonhos; faz tratamento com defumação ou com banhos de cheiro feitos com plantas; cura doenças do corpo e do espírito; benze e reza.
Curador/a ou curandeiro/a: Cura doença do corpo e do espírito; faz tratamento para desfazer mal, por meio de orações, banhos, defumação, garrafadas para doenças feias; benze e reza.
Parteira: Acompanha mulher grávida – puxa barriga e faz partos.
A identificação e tratamento das doenças está diretamente vinculada à relação desses povos com o mundo dos encantados. As doenças costumam estar ligadas a uma desordem que ocorreu na relação entre seres humanos e seres encantados. E há pessoas que têm o dom de reorganizar essa relação.
Majé Suzete é uma dessas pessoas com dom. E ela exerce vários papeis sociais ao mesmo tempo, pois ocupa cargo de prestígio na organização social da aldeia como majé, cuida das pessoas, gera renda com produção da agricultura familiar, é uma liderança comunitária e atua na escola junto com a professora de Notório Saber, fazendo oficinas de cerâmicas e remédios caseiros.
E ela se preocupa em repassar seus conhecimentos, para ter alguém que possa substituí-la algum dia:
“Eu já tô procurando uma pessoa que fique no meu lugar, como eu já achei uma filha minha, ela me acompanha nos partos que eu faço, ela já sabe mais ou menos como é. É a Silvane Cristina, essa que eu escolhi pra mim ajudar e fazer esse trabalho por mim. Outra neta que estou ensinando ela a puxar desmentidura é a Josiete. Também tem minha filha Celivalda que já puxa. Eu ensino elas a fazerem isso, porque eu não sei o dia de amanhã. Por isso que eu estou dizendo, eu sou muito feliz com esse trabalho e ajudo meus irmãos”, explica.
Autor
Luana Kumaruana – Professora do Magistério Superior da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração de um pesquisador. Leia o original AQUI.
Porto Velho, capital de Rondônia. Foto: R. Machado
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Não é raro encontrar, até em documentos oficiais e trabalhos acadêmicos, o gentílico de Porto Velho grafado como “portovelhense”, sem o hífen exigido pela norma culta.
O correto é porto-velhense. A explicação está na regra do hífen para palavras compostas por justaposição. O Acordo Ortográfico (Base XV) determina o uso do hífen nos compostos formados sem elemento de ligação, quando os termos conservam autonomia fonética e gráfica e passam a formar uma unidade de sentido.
É exatamente o que ocorre com os gentílicos derivados de topônimos compostos: Porto Velho gera porto-velhense, assim como Porto Alegre gera porto-alegrense, Mato Grosso gera mato-grossense e Rio Branco gera rio-branquense.
Foto: Leandro Morais/Prefeitura de Porto Velho
Portovelhense, uso consagrado pelo erro
Sem o hífen, “portovelhense” resulta em uma aglutinação indevida. Os dois radicais, “porto” e “velhense”, permanecem autônomos, e o hífen é o sinal que marca essa composição.
Se a forma sem hífen ainda circula, inclusive em um documento antigo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], trata-se de um uso consagrado pelo erro. Não deixa de ser erro.
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
A veterinária e artista plástica Débora Cristina Barbosa Almeida, de 59 anos, encontrou na biodiversidade amazônica matéria-prima e inspiração para transformar elementos da floresta em arte. Há quatro anos, ela produz quadros e peças decorativas utilizando materiais como palha e sementes.
Natural do Amapá, Débora trouxe parte da Macunani Art & Décor ao Inova Amazônia Summit, que ocorre em Rio Branco até este sábado (19). As peças são vendidas por até R$ 600 e são apresentadas no evento que reúne empreendedores e iniciativas ligadas à bioeconomia e à inovação na Amazônia.
A artista conta que a relação com a região amazônica é a principal inspiração para o trabalho. Débora explica que os quadros não apenas embelezam espaços, mas também contribuem para o estilo de vida sustentável.
“Minha inspiração vem justamente da biodiversidade, da Amazônia, da nossa ancestralidade, da nossa cultura e do nosso estado, nortista igual ao Acre. Fazer esse tipo de arte é aderir a um estilo e vida. Uma peça mais simples leva mais ou menos três a quatro dias. Uma mais complexa, dependendo do tamanho, leva em torno de duas semanas. O tempo varia conforme o tamanho e a complexidade de cada peça”, afirma a artista plástica.
O processo de produção é artesanal e pode levar até duas semanas. Chamado de arte eco-friendly, definida como a prática artística que usa materiais recicláveis para criar obras, Além dos quadros decorativos, Débora também produz letreiros e trabalha com desenhos inspirados em grafismos amazônicos e indígenas. A escolha dos materiais é uma das partes mais importantes do processo. A artista utiliza matérias-primas que não causam impactos ao meio ambiente.
Veterinária Débora Almeida apresenta suas obras sustentáveis feitas com materiais da Amazônia no Inova Amazônia Summit. Foto: Walace Gomes/Rede Amazônica AC
“Eu gosto de trabalhar com materiais sustentáveis como palha, cascas de coco, folhas secas e cascas de árvores. Hoje eu foco muito em procurar matéria-prima sustentável que não agrida a natureza e a nossa Amazônia”, destaca.
Além disso, algumas peças podem utilizar palhas de coqueiro e até buriti, fruta típica da região. Parte deles é comprada em Belém, estado onde mora, enquanto outros são adquiridos de colegas que trabalham com materiais semelhantes.
Débora também conta que coleta alguns materiais no Museu Sacaca, em Macapá. Segundo ela, o reaproveitamento está relacionado ao conceito de economia circular. “A gente trabalha sempre aproveitando uma coisa, inventando e pegando aquela situação de novo para refazer também”, afirma.
Uso de materiais sustentáveis, uma mensagem ambiental
Para além da decoração, Débora procura utilizar as peças para chamar atenção a questões ambientais da Amazônia. Algumas das obras abordam as queimadas e espécies de animais ameaçadas de extinção.
A intenção, segundo ela, é fazer com que a arte seja também uma ferramenta de conscientização. Para a amapaense, a proposta é que o comprador não veja apenas um objeto bonito, mas também reconheça a relação daquela peça com a floresta e com a cultura amazônica.
Débora busca usar as peças para chamar atenção sobre as queimadas e a extinção de animais. Foto: Walace Gomes/Rede Amazônica AC
“A nossa missão é levar o nosso trabalho para mais e mais pessoas. A gente trabalha com o objetivo de preservação ambiental e esse é uma arte para conscientizar. Não é só uma beleza. A nossa arte precisa se conectar com o ambiente de quem está adquirindo”, explica.
Débora chegou ao Acre com um grupo de empreendedores do Sebrae Amapá para participar do Inova Amazônia Summit. O evento começou nessa quinta-feira (17), no Centro de Convenções da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco. Mesmo após apenas o primeiro dia do encontro, ela diz já ter vendido algumas peças e avalia positivamente o movimento.
Para ela, além da possibilidade de comercializar os produtos, o evento permite apresentar o trabalho para pessoas interessadas em iniciativas relacionadas à Amazônia.
“Um evento dessa magnitude sempre traz cada vez mais pessoas interessadas em saber mais sobre a Amazônia, sobre as questões climáticas, a bioeconomia e as inovações. Que é o que une todo esse público em busca de um mundo sustentável”, completa.
Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara”. Foto: Fabíola Abess
Uma viagem pelos aromas da agrofloresta será apresentada nos dias 27 e 28 de novembro, no Selvec Club, no município de Apuí, no sul do Amazonas. A ‘Expo Café: Do Grão à Xícara – Narrativas Caféinadas’ levará os visitantes a sentir a potência do café produzido em agroflorestas, estimulando os cinco sentidos de diferentes formas e revelando como a diversidade da floresta faz parte da identidade do café de Apuí.
A imersão é uma contrapartida prevista no projeto ‘Do Grão à Xícara: Narrativas Caféinadas’, realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Citi, apoio da Prefeitura de Apuí, Bemol, TikTok, IRI Brasil, e realização do Idesam, Amazônia Agroflorestal e Ministério da Cultura.
Com entrada gratuita, a expo tem classificação livre e conta, na programação, com sessões de degustação guiadas dos cafés especiais finalistas do concurso de qualidade do Café Apuí Agroflorestal, conduzidas por especialistas. Uma oportunidade para conhecer os aromas, sabores e atributos que fazem de Apuí uma referência em cafés de alta qualidade.
Tocar, sentir e conectar-se por meio de diversas texturas e elementos táteis que representam o ciclo de produção do café, desde as folhas das árvores até as embalagens finais, também fazem parte da experiência.
Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara” . Foto: Fabíola Abess
Fotografias, uma linha do tempo e uma experiência em realidade virtual revelam a trajetória do café agroflorestal de Apuí. Os óculos de realidade virtual convidam o público a contemplar a floresta e refletir sobre sua importância.
Durante o evento, também será realizada a 5ª edição do Campeonato de Qualidade do Café Apuí Agroflorestal, que reconhece e valoriza a excelência dos cafés produzidos no município.
“Nosso objetivo é despertar o orgulho de ser de Apuí, a capital amazonense do café, aproximando moradores da cidade e do campo de uma cultura que está transformando o município. A exposição mostra que é possível produzir café em harmonia com a floresta e apresenta ao público as razões pelas quais Apuí vem conquistando reconhecimento como um território do café sustentável”, disse Ana Maria, Coordenadora Geral do projeto.
Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara”. Foto:Fabíola Abess
“De crianças a idosos, queremos que cada visitante saia com a certeza de que café e floresta crescem juntos e que essa história merece ser conhecida, celebrada e compartilhada com o mundo”, disse Vanilse Constante, apuiense e parte da equipe.
Mulheres, crianças e jovens terão protagonismo na programação da Expo do grão até a xícara
A programação também abre espaço para diferentes gerações e públicos de Apuí. Mulheres que participaram de um ciclo de capacitações colocarão seus conhecimentos em prática em um Campeonato de Baristas, que vai reconhecer talentos femininos ligados à cultura do café.
Crianças participarão por meio de trabalhos desenvolvidos nas escolas, em parceria com a Prefeitura, abordando café, floresta e sustentabilidade.
Exposição inédita em Apuí mostra jornada do café “do grão até a xícara” . Foto: Fabíola Abess
Já os jovens serão convidados a atuar como Embaixadores de Apuí, após uma oficina de redes sociais que os preparará para produzir conteúdos sobre a exposição e ajudar a contar e divulgar, a partir de seus próprios olhares, a história do café agroflorestal do município.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Idesam, escrito por Fabíola Abess
Filmes indígenas estão nas salas de cinema, mostras, festivais e nas plataformas de streaming. Ganham prêmios e reconhecimento. Mas para acessar esses espaços é preciso superar barreiras. Uma delas é a do financiamento.
Pesquisa da Rede Katahirine com 60 cineastas de 40 povos indígenas mostra que indígenas têm dificuldade de concorrer a editais de fomento. Enquanto 81,7% das cineastas indígenas já apresentaram filmes em mostras ou festivais, o que demonstra o reconhecimento de suas obras, 71,7% delas relatam que já desistiram de concorrer a um edital.
Os principais motivos são a burocracia (70%), o não atendimento aos requisitos de participação (43%) e a linguagem técnica dos concursos (41%).
Cinema indígena sofre com barreiras para gravação de filmagens. Foto: Vicent Carelli
Mari Corrêa, idealizadora da rede Katahirine, explica que os editais costumam exigir documentos e que os profissionais têm dificuldade para fornecer, especialmente as que moram nos territórios.
“Alguns editais exigem que o proponente tenha uma empresa, uma produtora, por exemplo. Não pode concorrer como pessoa física. Isso praticamente elimina a possibilidade de concorrerem ao financiamento”, conta Corrêa.
É o caso de Larissa Tukano. Ela é cineasta e artista visual, mas diz que não procura editais porque acha a linguagem difícil. “Pedem também uma experiência que não podemos comprovar. E a gente sente que esses concursos não nos contemplam”, diz.
Larissa defende o modo de fazer cinema indígena. Ela diz que ao filmar a própria comunidade, eles têm um olhar diferente, um respeito pelo tempo das pessoas que estão sendo filmadas.
“Podemos conversas na nossa própria lingua e isso torna a conversa mais íntima. Também sabemos o que pode e o que não pode ser filmado”, explica.
Mari Corrêa também destaca que o cinema indígena segue a própria lógica de produção. “Os roteiros não são feitos da forma ocidental de entender um roteiro. A presença do coletivo é muito forte e as decisões são tomadas de modo menos hierarquizado, dentro da comunidade”, conclui a idealizadora.
O Verão Amazônico é um evento gratuito e acontece no dia 27 de setembro com ações de saúde, esporte, bem-estar, entretenimento e cidadania na zona sul da capital. Foto: Divulgação/Studio 5 Shopping e Convenções
Com o aumento das temperaturas e os desafios provocados pelas condições climáticas na região Norte, a Rede Amazônica promove, no dia 27 de setembro, mais uma edição do Verão Amazônico, projeto que busca transformar o período de verão em uma oportunidade de cuidado, acolhimento, diversão e conexão com a população.
O evento será realizado no estacionamento do Studio 5, na zona Sul de Manaus, com programação gratuita das 8h às 19h. Durante todo o dia, o público poderá participar de atividades voltadas à saúde, esporte, bem-estar, lazer, educação e cidadania, além de aproveitar atrações musicais e experiências preparadas especialmente para o evento.
Entre as atrações musicais estão Dj Marcelo Cretina e Márcia Novo com participação Vanessa Alfaia e os Tripinhas mirins do boi Caprichoso e Garantido, além de uma programação de atividades físicas e de bem-estar, com aulas de dança, zumba e yoga.
“Um projeto que aproxima a Rede Amazônica da população”, afirma Elaine Simão, realizadora do evento.
O Verão Amazônico teve início em 2023 e passou a integrar o calendário de ações da Rede Amazônica, também como parte das comemorações pelo aniversário da emissora, que completou 54 anos em setembro.
A iniciativa reforça o compromisso da Rede Amazônica em estar cada vez mais próxima da população amazônida, promovendo experiências que unem informação, entretenimento, responsabilidade social e prestação de serviços.
Nesta edição, o público poderá contar com mais de 10 atividades e serviços, realizados em parceria com instituições e empresas que se unem ao projeto para oferecer uma programação diversificada e gratuita.
O evento também contará com ativações de marcas e empresas parceiras, ampliando as opções de entretenimento e experiências para o público. Confira:
Info Store – Carrinho de Gelato;
Amazon Bowling – Mesa Ping Pong e pebolim;
Bemol – Carrinho de picolé;
Ótica Avenida Fácil – Exposição de óculos, distribuição de vouchers, limpeza ultrassônica e distribuição de 200 algodão doce;
Maratona Kids – Muay Thai kids e funcional kids;
Águas de Manaus – Distribuição de copos de água e espaço para banho com mangueira;
Assaí – Espaço inflável com escorregador;
Cia Athletica – Aulas de dança, zumba e yoga;
Programa Mania de Ler MovCeu – Experiência interativa para o público.
Programação do palco
08h – Aula de Yoga (Camila Magrm) 09h – Power Jump (Cleu Moura) 10h – Mat Pilates (Fábio ferreira) 11h – Fit Dance (Fábio Ferreira) 12h – Intervalo 16h às 17h – Dj Marcelo Cretina 17h20 às 19h00 – Márcia Novo com participação Vanessa Alfaia e os Tripinhas mirins do Boi Caprichoso e Boi Garantido.
Dendrobates tinctorius, uma das rãs-de-veneno analisadas no estudo: a espécie não apenas sequestra alcaloides dos insetos que ingere, como os modifica antes para que não sejam degradados pelo organismo. Foto: Taran Grant/IB-USP
A capacidade das rãs venenosas de acumular toxinas a partir dos pequenos invertebrados que ingerem não surgiu de forma repentina na história evolutiva, mas sim por meio de um processo de adaptação gradual e contínuo. É o que demonstra um estudo publicado em março na revista Proceedings of the Royal Society B.
Ao administrar dietas controladas a diferentes espécies de anfíbios, os cientistas comprovaram a existência de “estágios intermediários” na natureza, ou seja, espécies que conseguem reter apenas traços de alcaloides – toxinas de origem natural presentes em insetos e aracnídeos – sem sofrer intoxicação.
O achado ajuda a desvendar de que maneira a evolução moldou uma das estratégias de sobrevivência mais fascinantes do mundo animal, revelando como esses anfíbios deixaram de apenas tolerar o veneno na digestão para transformá-lo em uma verdadeira arma de defesa.
Há tempos, a biologia tenta entender como essas pequenas rãs coloridas da família Dendrobatidae adquiriram esse “superpoder”. Na natureza, elas se alimentam de formigas e ácaros repletos de alcaloides, que seriam letais para a maioria dos animais. Para transformar a própria refeição em um escudo contra predadores, a rã precisa de um mecanismo biológico triplo: ingerir o veneno sem adoecer, transportá-lo intacto do sistema digestivo para a pele e, por fim, armazená-lo em suas glândulas.
“A grande pergunta do nosso trabalho foi como essa capacidade evoluiu. Para sequestrar os alcaloides é preciso um mecanismo de resistência para ingerir sem se intoxicar. Além disso, são necessários mecanismos de transporte, para levar as toxinas do sistema digestório para a pele. E ainda algum mecanismo para não degradar os alcaloides, mantê-los intactos na pele”, conta Adriana Jeckel, primeira autora do artigo. “Deve ter havido vários passos para a evolução de um fenótipo que não sequestra para o que sequestra e mesmo modifica os alcaloides”.
Para mapear como essa engenharia fisiológica se formou, os pesquisadores levaram o cardápio tóxico para o laboratório. Eles forneceram doses controladas de alcaloides sintéticos para diferentes espécies de rãs – desde aquelas conhecidas por sua toxicidade letal até parentes mais distantes que não possuem essa defesa. O objetivo era rastrear qual seria o destino das toxinas no fígado, na pele e nas fezes dos animais após semanas de testes.
A investigação foi conduzida durante o doutorado de Jeckel no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) com bolsa da FAPESP. O trabalho integra dois outros projetos (12/10000-5 e 18/15425-0) apoiados pela Fundação e coordenados por Taran Grant, professor do IB-USP que também assina o trabalho. Também participaram cientistas do Instituto Butantan e de universidades dos Estados Unidos e do Japão.
As rãs-de-veneno, como a Adelphobates galactonotus, possuem cores vivas que sinalizam para seus predadores sua toxicidade. No entanto, outras espécies menos chamativas também podem conter quantidades menores de alcaloides armazenados. Foto: Taran Grant/IB-USP
Engenheiras químicas da natureza
Os resultados revelaram que a evolução dessas defesas ocorreu em pelo menos quatro grandes etapas. O primeiro estágio é o de animais como a rã Dryophytes cinereus, que não acumula toxinas. O organismo dessa espécie atua como um excelente filtro: ele metaboliza e elimina o veneno de forma tão eficiente que quase nenhum traço da substância chega a ser retido na pele.
Em seguida, surge o estágio intermediário, ilustrado pela rã Allobates femoralis. Essa espécie consegue ingerir os alcaloides em segurança e chega a armazenar uma quantidade mínima na pele, embora ainda degrade ativamente a maior parte do composto ingerido. A ausência de toxinas intactas nas fezes ou nos órgãos internos comprova que o organismo dessas rãs consegue neutralizar a ameaça.
“A ausência de alcaloides nos tecidos de Allobates e nas fezes de todas as espécies mostra que, de alguma forma, elas estão metabolizando essas toxinas. Mesmo quando não acumulam, possuem mecanismos muito eficientes do ponto de vista evolutivo para não se intoxicar”, diz Jeckel.
O grande salto biológico acontece com as verdadeiras rãs-de-veneno, como as espécies Adelphobates galactonotus e Dendrobates tinctorius. Elas representam o terceiro estágio evolutivo (o fenótipo sequestrador). Em vez de apenas se protegerem do veneno, elas o capturam, acumulando na pele de 10 a 100 vezes mais alcaloides do que as espécies dos grupos anteriores.
Mas o requinte da natureza vai ainda mais longe. O estudo comprovou que algumas espécies, como Dendrobates auratus e Ranitomeya ventrimaculata, não apenas sequestram as toxinas, mas atuam como verdadeiras engenheiras químicas. Classificadas no quarto estágio evolutivo (fenótipo sequestrador e modificador), elas alteram a estrutura molecular dos alcaloides ingeridos – por meio de reações como hidroxilação e metilação. Essa “reciclagem” bioquímica pode tornar as substâncias ainda mais ativas ou facilitar seu armazenamento seguro nas glândulas da pele.
“Essas modificações podem ser necessárias para que acumulem os alcaloides. Do contrário, as substâncias originais ingeridas poderiam ser tóxicas ou se degradar no organismo”, diz Grant.
Essas descobertas trazem uma nova perspectiva para a biologia evolutiva. Elas indicam que o sequestro de veneno não foi fruto de um “salto evolutivo” acidental. Aos poucos, a evolução reescreveu a fisiologia metabólica das rãs, transformando um mecanismo básico de desintoxicação em uma das estratégias de sobrevivência mais sofisticadas das florestas tropicais.
Terra Indígena Kayapó. Foto: Reprodução/Polícia Federal
Seguindo entendimento do Ministério Público Federal (MPF), o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve a delimitação da Terra Indígena Kayapó, no Pará. Por unanimidade, a 12ª Turma do Tribunal confirmou a extinção de ação proposta por particulares que reivindicavam a posse de aproximadamente 992 hectares no interior da terra indígena.
Os autores alegavam ser proprietários de dois imóveis rurais em Ourilândia do Norte (PA) e sustentavam que a cartografia elaborada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) teria ampliado a Terra Indígena Kayapó em cerca de 991,85 hectares, em comparação com os limites fixados pelo Decreto nº 316/1991. Segundo eles, essa diferença avançaria sobre suas terras. Na ação, pediram a correção da delimitação territorial e a confirmação jurídica da posse da área.
No entanto, segundo o MPF, a Terra Indígena Kayapó corresponde à área de ocupação tradicional e permanente do povo Kayapó, cujos grupos de origem habitam a região desde tempos imemoriais. Os limites do território foram declarados pelo Decreto nº 91.244/1985 e homologados pelo Decreto nº 316/1991, com registro em cartório e na Secretaria de Patrimônio da União (SPU).
Decisão do TRF1 que mantém proteção de área da Terra Indígena Kayapó no Pará segue entedimento do MPF. Foto: Divulgação/TRF1
Defesa do território Kayapó
Na primeira instância, a Justiça determinou que os autores apresentassem os títulos de propriedade dos imóveis, documentos necessários ao processamento da ação, que dependia da análise do domínio alegado e da definição dos limites entre as propriedades e a terra indígena.
Eles não apresentaram os documentos e pediram, em vez disso, que a ação fosse recebida como possessória. O pedido foi negado porque não havia compatibilidade entre a natureza da ação e a alteração pretendida.
Indígenas da etnia Kayapó no Pará. Foto: Mário Vilela/Funai
Dessa forma, a ação foi negada e o processo extinto sem resolução do mérito. Os particulares apresentaram recurso contra essa decisão, insistindo que a ação tinha natureza possessória, o que dispensaria a apresentação dos títulos de propriedade. Porém, em parecer, o MPF argumentou que a demanda tinha natureza demarcatória, pois dependia do reconhecimento do domínio e da definição dos limites entre os imóveis e a terra indígena.
Na manifestação enviada ao TRF1, o MPF opinou pelo não provimento do recurso. O órgão argumentou que os autores não atenderam à determinação de apresentar os títulos de propriedade, o que justificaria o indeferimento da ação. O TRF1 concordou com os argumentos apresentados pelo MPF e manteve a sentença de primeira instância.
No parecer, o MPF também apontou a ocorrência de prescrição do pedido dos autores. A ação foi ajuizada mais de 30 anos após o decreto que declarou os limites da Terra Indígena Kayapó e quase três décadas depois da homologação da área. Para o órgão, o longo período transcorrido impedia a reabertura da discussão sobre a delimitação territorial.
Além disso, o MPF apontou que os imóveis reivindicados pelos particulares estão integralmente sobrepostos à Terra Indígena Kayapó. Assim, eventuais títulos de propriedade sobre a área são nulos, conforme o artigo 231, parágrafo 6º, da Constituição Federal.
Por fim, esclareceu que a diferença apontada entre a área prevista no Decreto nº 316/1991 e a cartografia da Funai decorre exclusivamente da evolução das técnicas de medição cartográfica, sem qualquer alteração dos limites originais da terra indígena. Esse entendimento também foi defendido pela União e pela Funai em suas contrarrazões ao recurso.