As mudanças climáticas já não podem ser tratadas apenas como uma questão ambiental. Eventos extremos, insegurança energética e hídrica, pressão sobre recursos naturais, transição para uma economia de baixo carbono e avanço de atividades ilícitas sobre territórios estão criando novos desafios para a segurança dos países e colocando a Amazônia no centro de disputas econômicas e geopolíticas.
É nesse contexto que Brasília recebe, nos dias 4 e 5 de novembro de 2026, a 2ª Conferência Internacional sobre Soberania e Clima, com o tema “Segurança, Clima e Meio Ambiente: uma convergência estratégica”. O evento será realizado em formato híbrido, no auditório da Escola Superior de Defesa (ESD), em Brasília, com participação gratuita, mediante inscrição prévia pelo site do evento e transmissão on-line.
Promovida pelo Centro Soberania e Clima, a conferência reunirá autoridades civis e militares, pesquisadores, especialistas e representantes de instituições públicas e da sociedade civil para discutir como o Brasil pode responder, de forma integrada, a agendas que cada vez menos se enquadram em uma única área de atuação. A proposta do encontro parte de uma constatação: os riscos contemporâneos estão se tornando mais interdependentes.
A transição energética é um exemplo dessa convergência. O Brasil possui reservas de quase todos os 24 minerais considerados críticos e estratégicos em sua lista oficial, muitos deles utilizados em tecnologias associadas à economia de baixo carbono. Com o aumento da demanda global, cresce também a pressão pela exploração desses recursos, ampliando a importância geopolítica dos territórios onde estão localizados.
Para além do potencial econômico, a exploração mineral envolve questões relacionadas à proteção ambiental, aos direitos humanos e aos impactos sobre as comunidades e regiões produtoras.
Desmatamento, contaminação de rios, perda de biodiversidade e conflitos territoriais estão entre os riscos associados à expansão da atividade. Na Amazônia, essa pressão se soma a questões estruturais relacionadas à presença do Estado, aos ilícitos transnacionais e à garantia da soberania sobre áreas extensas e de difícil acesso.
Ao mesmo tempo, a mudança do clima amplia riscos para infraestrutura, populações e atividades econômicas, exigindo novas ações de adaptação, prevenção e resiliência. Para o Centro Soberania e Clima, compreender essas conexões é fundamental para que o Brasil possa formular políticas públicas capazes de responder a esse cenário de forma integrada.
“A 1ª Conferência mostrou que é possível reunir, em diálogo franco, plural e democrático, civis e militares, academia e sociedade civil para tratar de temas de soberania e clima que raramente são debatidos em conjunto, e a convergência que identificamos ali mudou o patamar de incidência do Centro. Esta segunda edição parte dessa base para aprofundar um debate crítico e plural, capaz de se transformar em recomendações concretas para as políticas públicas do país”, destaca Mariana Nascimento Plum, diretora executiva do Centro Soberania e Clima.
Quatro eixos de debates sobre os desafios estratégicos do Brasil
Ao longo dos dois dias, a programação será organizada em quatro painéis que abordam diferentes dimensões da relação entre segurança, clima e meio ambiente.
O primeiro painel discutirá defesa e mudança do clima, com foco em riscos, adaptação e resiliência. O segundo tratará da transição energética, dos minerais críticos e da segurança internacional, tema que ganhou centralidade diante da crescente disputa global por tais recursos.
Foto: Reprodução/Soberania e Clima
A relação entre soberania, meio ambiente e as transformações geopolíticas no entorno estratégico brasileiro será o foco do terceiro painel. Já o quarto discutirá o avanço do crime organizado transnacional e da degradação ambiental na Amazônia, aproximando duas agendas que tradicionalmente são tratadas de maneira separada.
A programação inclui ainda a conversa “Conexões para Convergir”, reunindo convidados da academia e de instituições públicas, civis e militares. O objetivo é ampliar o diálogo entre diferentes áreas de conhecimento e setores envolvidos na formulação e implementação de políticas públicas.
Diálogo internacional
Um dos destaques da abertura será a conferência magna, realizada em formato virtual, com Sherri Goodman, presidente da Diretoria do Council on Strategic Risks e primeira secretária adjunta de Defesa para a Segurança Ambiental dos Estados Unidos, entre 1993 e 2011.
Com o tema “O Clima como Multiplicador de Ameaças: Segurança, Energia e o Futuro da Defesa”, a participação de Goodman amplia o debate para uma perspectiva internacional sobre os impactos da mudança do clima nas agendas de segurança, energia e defesa.
Entre os demais nomes já confirmados estão Izabella Teixeira, conselheira emérita do CEBRI e ex-ministra do Meio Ambiente; Erin Sikorsky, diretora do Center for Climate and Security; Vanessa Grazziotin, diretora executiva da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA); Marcelo Furtado, head de Sustentabilidade da Itaúsa; e David Marques, gerente de Programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, além de representantes de instituições públicas, civis e militares.
Uma agenda que busca aproximar áreas tradicionalmente separadas
A conferência dá continuidade à agenda de pesquisa e articulação desenvolvida pelo Centro Soberania e Clima nos últimos quatro anos, voltada à convergência entre soberania, segurança, defesa, meio ambiente, mudança climática e desenvolvimento sustentável.
Entre as iniciativas do Centro estão projetos dedicados à cooperação regional na Amazônia, integrando defesa, segurança, desenvolvimento e sustentabilidade, e à compreensão da Amazônia como infraestrutura crítica para a segurança climática, a soberania, o desenvolvimento sustentável e a resiliência nacional.
Foto: Divulgação
A conferência, que está na sua segunda edição, busca avançar nessa agenda, identificando conexões para a construção de recomendações capazes de contribuir para políticas públicas integradas. Mais do que aproximar especialistas de diferentes áreas, a intenção é criar um espaço de diálogo capaz de transformar conhecimento e debate em recomendações para os desafios estratégicos que o Brasil enfrentará nas próximas décadas.
Sobre o Centro Soberania e Clima
O Centro Soberania e Clima é um think tank independente que atua há quatro anos na convergência entre soberania, segurança, defesa, meio ambiente, mudança climática e desenvolvimento sustentável, com foco na produção de conhecimento baseado em evidências e na criação de espaços de diálogo qualificado.
O novo episódio do El Niño, que deve persistir até pelo menos o início de 2027, pode ganhar intensidade nos próximos meses, com impactos diferentes entre as regiões brasileiras. A terceira edição do Painel El Niño, referente a agosto, aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro, apresenta informações atualizadas sobre monitoramento, previsões e possíveis impactos associados ao fenômeno no Brasil e busca subsidiar ações de prevenção, preparação e gestão de riscos.
A recomendação de prevenção é detalhada em uma nota técnica elaborada por pesquisadores do Cemaden — unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) — e do Instituto Alana, que orienta as redes de ensino a incorporarem a preparação para riscos climáticos ao planejamento das escolas.
A Nota Técnica nº 987/2026, intitulada El Niño 2026-2027: Orientações para a Preparação das Redes de Ensino Brasileiras, ganha importância diante da dimensão da rede educacional brasileira. O documento estima que existam cerca de 150 mil escolas públicas no País e aponta que mais de 40 milhões de crianças e adolescentes estão expostos a riscos como inundações, escassez hídrica e calor extremo. Além disso, destaca que mais de 370 mil crianças estudam em escolas localizadas em áreas de risco nas capitais.
Prevenção deve fazer parte da gestão escolar
Elaborada para gestores públicos da Educação e profissionais responsáveis pelo planejamento e implementação de políticas educacionais, a nota técnica propõe que a gestão de riscos e a adaptação às mudanças climáticas não sejam tratadas apenas como medidas emergenciais. Para os pesquisadores, a preparação precisa fazer parte de forma permanente do planejamento educacional, em articulação com as características de cada território.
Isso porque, segundo os pesquisadores, o El Niño não determina, por si só, a ocorrência de um desastre. O fenômeno altera a probabilidade de determinados eventos extremos, enquanto a dimensão dos impactos depende também das condições sociais, ambientais e territoriais, incluindo exposição, vulnerabilidades e capacidades locais.
Para o período de 2026/2027, a nota técnica considera entre os principais riscos as temperaturas elevadas, alterações no regime de chuvas, ondas de calor, secas e incêndios florestais, além de eventos associados ao excesso de chuva no Sul.
Entre as medidas sugeridas estão a aproximação das Secretarias de Educação com órgãos da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Saúde, Assistência Social, Planejamento Urbano e Meio Ambiente; a criação de estruturas de governança para emergências; a definição prévia dos fluxos de comunicação com as escolas; e o acompanhamento dos alertas emitidos pelos órgãos oficiais.
O documento também recomenda que as redes façam um diagnóstico das unidades escolares para identificar áreas de risco e estudantes em situação de maior vulnerabilidade socioambiental. Esse levantamento deve considerar localização, condições físicas das edificações, mobilidade e acessibilidade, infraestrutura urbana, exposição a riscos e características da comunidade escolar. A partir desse diagnóstico, os recursos destinados à adaptação podem ser direcionados prioritariamente às escolas e comunidades mais expostas.
Foto: Andrezza Mariot/PMBV
A preparação com relação aos efeitos do El Niño envolve ainda medidas diretamente relacionadas ao cotidiano das escolas. A nota técnica recomenda formações periódicas das equipes, definição de protocolos para diferentes ameaças, reorganização de espaços, horários e fluxos em períodos críticos e realização de simulados pelo menos uma vez por ano. As redes também são orientadas a estabelecer previamente estratégias para garantir a continuidade das atividades educacionais em caso de suspensão das aulas presenciais.
Para os pesquisadores, a adaptação também passa pela infraestrutura. Medidas como melhoria da ventilação, manutenção das instalações, aumento da cobertura vegetal e criação de áreas verdes podem contribuir para o conforto térmico e para o manejo da água nas escolas, considerando acessibilidade, características bioclimáticas, condições sociais e especificidades culturais de cada território.
A Educação para Redução de Riscos de Desastres é apresentada como parte desse processo. A abordagem busca desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes para que a comunidade escolar participe da prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação diante de situações de risco.
Painel El Niño
O novo boletim atualiza um cenário que já vinha sendo acompanhado desde junho. Na edição de julho, o Painel apontava alta probabilidade de que o fenômeno alcançasse intensidade muito forte e 100% de probabilidade de permanência até pelo menos o início de 2027, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Nesse cenário, as anomalias de temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico equatorial poderão superar 2,0 °C entre a primavera e o verão de 2026.
A edição de agosto mantém essa perspectiva e aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro. Além disso, o boletim registra que as anomalias de temperatura do Pacífico equatorial chegaram a 1,8°C na região do Niño 3.4 nas últimas semanas.
A previsão climática para setembro-outubro-novembro de 2026 indica chuvas acima da média na Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, e em parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul. No centro-norte do País, a tendência é de chuvas abaixo da média, com destaque para áreas das regiões Norte e Nordeste e para Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo.
As temperaturas devem ficar acima da média em praticamente todo o Brasil, embora massas de ar frio possam provocar quedas bruscas, especialmente em setembro.
A combinação de calor e chuvas abaixo da média nas regiões central e norte pode ampliar o déficit hídrico e o risco de incêndios florestais, sobretudo se houver atraso no início da estação chuvosa. Na Amazônia Legal e no Pantanal, o trimestre marca normalmente a transição do período seco para o chuvoso. Um El Niño mais intenso e prolongado pode atrasar essa transição, prolongando a estiagem e deixando solo e vegetação mais suscetíveis ao fogo.
Diante desse cenário, as instituições participantes reforçam a importância do acompanhamento das condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas e das previsões, avisos e alertas dos órgãos oficiais.
O documento é elaborado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — unidade de pesquisa vinculada ao MCTI —, em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cemaden, o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
Garimpo ilegal em terras indígenas na Amazônia cresceu mais de 500%. Foto: Nacho Doce/Agência Brasil
Uma nota técnica divulgada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) revelou que áreas ocupadas pelo garimpo em Terras Indígenas (TIs) na Amazônia cresceu 562% entre 2016 e 2024 e que esse avanço tem tornado esses territórios mais vulneráveis pela mineração ilegal. Enquanto isso, as populações que vivem nesses locais estão cada vez mais expostas a eventos climáticos extremos, especialmente durante o fenômeno El Niño, quando grandes secas e ondas de calor se intensificam.
De acordo com o documento “Entre conquistas e riscos compostos: por que o futuro ancestral da Amazônia está ameaçado”, divulgado no dia 15 de setembro, o avanço do garimpo somado ao crítico cenário climático, segundo os pesquisadores, agravam os riscos aos territórios, à saúde e aos modos de vida indígenas.
Segundo a nota, entre 1985 e 2024, por exemplo, a área garimpada aumentou 20 vezes na Amazônia Legal e 24 vezes dentro das terras indígenas. Ou seja, durante o período analisado, a área de garimpo nesses territórios passou de cerca de 1,5 mil para mais de 36 mil hectares.
O impacto, porém, ultrapassa os limites das áreas diretamente exploradas. Embora 19 terras indígenas tenham garimpo em seu interior, 147 TIs, o equivalente a 37% do total na Amazônia, estão inseridas em bacias hidrográficas impactadas pela atividade. Além disso, cerca de 40% dos garimpos localizados fora desses territórios estão a menos de 50 quilômetros de seus limites.
Foto: Divulgação/Polícia Federal
Como grande parte da mineração ocorre ao longo dos cursos d’água, a contaminação por mercúrio pode alcançar comunidades mesmo onde não há garimpo dentro do território, afetando rios utilizados para abastecimento, pesca, alimentação e práticas culturais. Os contaminantes podem permanecer nos ecossistemas por anos, prolongando os impactos sobre diferentes gerações.
“O garimpo não precisa estar dentro de uma terra indígena para ameaçar quem vive nela. A contaminação se desloca pelas bacias hidrográficas e se soma a extremos de secas, incêndios e enchentes que já comprometem água, alimentação, saúde e modos de vida. É essa combinação de ameaças que transforma impactos isolados em riscos compostos”, afirma Patrícia Pinho, diretora adjunta de Ciência do IPAM e uma das autoras da nota técnica.
As TIs Kayapó, Munduruku e Yanomami concentram cerca de 89% de toda a área garimpada dentro de terras indígenas, sendo 52%, 23% e 13%, respectivamente. Em paralelo, os municípios associados a esses três territórios registraram, juntos, 188 desastres climáticos entre 2000 e 2024. Foram 71 relacionados à TI Kayapó, 43 à Munduruku e 74 à Yanomami. Considerando as 19 TIs com garimpo, os municípios onde elas estão localizadas registraram entre 15 e 132 eventos no período analisado.
A sobreposição caracteriza o que os pesquisadores chamam de riscos compostos, quando diferentes ameaças interagem e ampliam seus efeitos. Enquanto secas extremas reduzem a navegabilidade dos rios e dificultam o acesso à água, alimentos e serviços de saúde, o garimpo amplia a contaminação por mercúrio e a degradação dos ecossistemas aquáticos. Juntos, esses processos reduzem a capacidade de recuperação das comunidades e aumentam a possibilidade de perdas irreversíveis.
“Quando garimpo e extremos climáticos atingem os mesmos territórios, seus impactos se potencializam. Uma seca já compromete a mobilidade, o acesso à água e a produção de alimentos. Se esse mesmo sistema hídrico também está pressionado pelo garimpo, a combinação destes fatores influencia a capacidade de resposta das comunidades. Por isso, essas ameaças precisam ser enfrentadas de forma integrada”, disse Ray Pinheiro, pesquisador do IPAM e também um dos autores da publicação.
Operação da Polícia Federal contra o garimpo ilegal em Terras Indígenas no Pará. Foto: Reprodução/Polícia Federal
Proteção territorial e adaptação climática
Os pesquisadores alertam que a demarcação das terras indígenas é indispensável, mas não suficiente para enfrentar os riscos compostos. A proteção territorial precisa ser acompanhada por medidas permanentes de adaptação às mudanças climáticas e combate às atividades ilegais.
A nota técnica apresenta seis recomendações prioritárias. Os pesquisadores defendem consolidar e acelerar a proteção territorial e fortalecer a fiscalização e a rastreabilidade do ouro, inclusive na agenda internacional. Também recomendam implementar Planos de Adaptação Indígenas e financiar sistemas de monitoramento comunitário de água, mercúrio, fogo e saúde. As outras medidas são reconhecer perdas e danos materiais e não materiais nas políticas públicas e priorizar municípios altamente vulneráveis que interseccionam terras indígenas.
A publicação destaca ainda que os impactos atingem dimensões que não podem ser medidas apenas economicamente, como conhecimentos e ciências tradicionais, práticas culturais, relações espirituais com o território e a permanência das novas gerações nas aldeias. Proteger os povos indígenas e seus territórios, segundo a nota, significa também proteger sistemas de conhecimento, formas de governança e práticas de manejo fundamentais para a resiliência climática da Amazônia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Mayara Subtil
A Prefeitura de Boa Vista também mantém serviços de recapeamento em trechos dos bairros Alvorada, Mecejana, Nova Canaã e Pintolândia. Foto: Francisco Sena/PMBV
A Prefeitura de Boa Vista está avançando com as obras de recuperação da malha viária no bairro Mecejana, onde 45 trechos de vias estão sendo contemplados com recapeamento asfáltico. Os serviços estão sendo executados pela Secretaria Municipal de Obras (SMO) e busca melhorar as condições de trafegabilidade e a infraestrutura das ruas que possuíam paralelepípedos.
Ao todo, a obra contempla mais de 8 km de pavimentação, além da implantação de 2,4 km de meio-fio e sarjeta. Os investimentos são provenientes de recursos próprios do município e do Ministério da Defesa, por meio do Programa Calha Norte.
Os serviços de recapeamento já foram iniciados nas ruas Bráz de Aguiar, Capitão Felipe Sturm, Alferes José Agostinho e Cristóvão Coelho. Os serviços integram o cronograma permanente de recuperação e melhoria da malha viária de Boa Vista.
No bairro Mecejana, a obra contempla mais de 8 km de pavimentação, além da implantação de 2,4 km de meio-fio e sarjeta.Foto: Francisco Sena/PMBV
Prefeitura mantém frentes de recapeamento em outros bairros
Além do Mecejana, a Prefeitura de Boa Vista também mantém serviços de recapeamento em trechos dos bairros Alvorada, Nova Canaã e Pintolândia. No Alvorada, os serviços contemplam a Rua Milton Maduro e a Avenida dos Corretores de Imóveis.
Já no Nova Canaã, as equipes atuam nas ruas Antônio Hilário da Silva, Sete de Setembro e Papa João Paulo II, além da Travessa Canaã e da Travessa Francisco Sales Vieira. No bairro Pintolândia, os trabalhos são executados nas ruas Vereador Waldemir Gomes, Genésio Alcimiro Lopes, Margarida Caland de Paiva e Sião.
“Para a minha surpresa, após o feriado, vejo o asfalto passando na frente da minha casa. Esse serviço da Prefeitura é de primeira, pois o novo asfalto é essencial e nos traz mais segurança quando saio com as crianças”, afirmou Sulamita de Almeida.
“Esse serviço da Prefeitura é de primeira, pois o novo asfalto é essencial e nos traz mais segurança”, disse Sulamita.Foto: Francisco Sena/PMBV
Investimentos ampliam infraestrutura da capital
A Prefeitura de Boa Vista vem ampliando cada vez mais os investimentos em infraestrutura urbana, com obras de pavimentação, recapeamento e urbanização em diferentes regiões da capital.
Desde 2021, já são 78,7 km de pavimentação implantados em 271 trechos e 121 km de recapeamento executados em 275 trechos. Na área de urbanização, já foram implantados 168 km de calçadas em 324 trechos, além de 239,44 km de sarjetas e meio-fio em 414 trechos.
Indígena do povo Asurini colhe alimentos em sua roça, na aldeia Ita´Aka, Terra do Meio (PA). Foto: Fellipe Abreu/ISA
Cerca de 40 organizações da sociobioeconomia estão mobilizadas na campanha “Sociobio nas Urnas”, reunindo demandas dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Com o lema “Deixa a sociobio crescer!”, a campanha é coordenada pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e apresenta às candidaturas da Eleição 2026 uma carta com 46 propostas de políticas públicas organizadas em oito eixos temáticos.
O documento visa apresentar aos candidatos e candidatas a oportunidade de assumirem um compromisso público de criar ou adequar políticas públicas para que a economia da sociobiodiversidade tenha acesso às mesmas condições de crédito, infraestrutura, políticas de fomento, regras sanitárias que os modelos produtivos convencionais já têm garantidos há décadas.
“A sociobioeconomia gera renda, trabalho e conserva os territórios, mas ainda enfrenta barreiras que limitam seu potencial. O que estamos propondo é que ela deixe de ser tratada como exceção e passe a ocupar o lugar que merece nas políticas de desenvolvimento do Brasil. Queremos que os candidatos reconheçam essa economia como estratégica e assumam compromissos concretos para fazê-la crescer”, diz a secretária-executiva do ÓSocioBio, Laura Souza.
Políticas públicas devem estar adequadas a quem vive nos territórios tradicionais. Foto: Fellipe Abreu/ISA
Secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Dione Torquato reforça que a garantia do território é essencial para o avanço do tema. “Nessas eleições, o que está em jogo é garantir que os povos e comunidades tradicionais e os agricultores e agricultoras familiares continuem vivendo e produzindo em seus territórios”, diz.
Um exemplo da disparidade vem do crédito rural. Entre 2013 e 2025, 91,6% do crédito rural foi destinado a médios e grandes produtores, e só 8,4% para a agricultura familiar. No Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que é destinado justamente para os pequenos, R$151,7 bilhões foram para produção de commodities versus R$3,26 bilhões para sociobio entre 2020 e 2024 — uma diferença de 46,5 vezes.
“Há uma assimetria histórica nas políticas públicas, nos incentivos e nos recursos destinados aos diferentes modelos de uso da terra, e precisamos corrigi-la”, afirma Fabíola Zerbini, Diretora Executiva da Conexsus.
As Economias da Sociobiodiversidade são promovidas por povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, estando baseadas na diversidade, no conhecimento tradicional e na inovação, nos sistemas socioprodutivos locais e nos produtos e serviços gerados a partir de recursos da biodiversidade — conectados aos modos de vida, às práticas e saberes desses povos, e à melhoria da qualidade de vida e bem viver das comunidades em seus territórios e maretórios.
Hoje, os territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais cobrem cerca de ¼ do Brasil e mais da metade da Amazônia; é sobre essa base, e sobre os biomas que ela mantém, que o setor se sustenta. Segundo estimativas, essa economia movimenta hoje R$17,4 bilhões e 525 mil postos de trabalho.
Alimentos produzidos pelas comunidades ribeirinhas da Rede de Cantinas da Terra do Meio. Foto: Carol Quintanilha/ISA
Mas os benefícios não ficam restritos a quem vive dela. Ela contribui para enfrentar o desmatamento, a mudança do clima e a desigualdade social, gerando emprego e renda, conservando e restaurando territórios e distribuindo riqueza.
Como destaca o documento, a sociobio funciona, essencialmente, como a infraestrutura natural da economia brasileira: sustenta o regime de chuvas, a regulação climática, a fertilidade do solo e a polinização dos quais dependem setores inteiros, do agronegócio à energia hidrelétrica. Mais de 95% da área agrícola e 99% das pastagens do Brasil dependem da chuva regulada pela floresta, conforme dados da WRI.
As organizações vão levar o documento às candidaturas ao longo da campanha eleitoral, coletando compromissos públicos que servirão de base para cobrança de mandato após a eleição. O lançamento aconteceu, em agosto, de forma online pelo site, onde é possível ler a carta na íntegra, além das redes sociais das organizações que compõem o ÓSócioBio.
Candidatos podem assinar o compromisso público com a carta pelo link e pessoas físicas podem apoiar assinando o abaixo-assinado aqui.
Sobre ‘Sociobio nas Urnas 2026’
É uma campanha suprapartidária do ÓSócioBio, rede composta por mais 40 organizações das economias da sociobiodiversidade. Com o lema “Deixa a sociobio crescer!”, a campanha pede compromisso das candidatas e candidatos deste ciclo eleitoral com destravar e adequar as políticas públicas para que os agentes possam aprimorar cada vez mais seu modelo de desenvolvimento que distribui renda entre muitos enquanto conserva as riquezas naturais do nosso país.
*Conteúdo foi publicado originalmente pelo Instituto Socio Ambiental – ISA.
A Comunidade Bacabal, localizada no território da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos da Área Trombetas (ACORQAT), em Oriximiná (PA), recebeu a oficina “Sistemas Agroflorestais: produção sustentável e recuperação ambiental”. Promovida pelo Programa Florestas de Valor, a atividade reuniu participantes de seis comunidades quilombolas, entre 11 mulheres, 12 homens e cinco jovens, em uma agenda dedicada à troca de conhecimentos e ao fortalecimento da agricultura familiar.
Realizada nos dias 25 e 26 de agosto, a oficina foi conduzida pela engenheira florestal Maria Soliane Sousa Costa e teve como foco ampliar a autonomia produtiva das comunidades a partir da integração entre saberes tradicionais e princípios da agroecologia.
Ao longo dos dois dias, os participantes conheceram conceitos e estratégias para planejamento e implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), seleção de espécies e consórcios produtivos, além de práticas de manejo sustentável do solo e da água e dos benefícios econômicos e ambientais desses sistemas.
Sistemas agroflorestais: da teoria à prática
A formação também saiu da sala de aula e foi para o campo. Os participantes visitaram um Sistema Agroflorestal já implantado na própria comunidade e receberam orientações práticas sobre manejo, adubação e cuidados com as espécies cultivadas. Na atividade, os próprios agricultores puderam colocar o conhecimento em prática. Um experimento demonstrativo também mostrou, de forma concreta, a importância da cobertura do solo para conservar a umidade, reduzir a erosão e melhorar sua fertilidade.
Mais do que ensinar técnicas de cultivo, iniciativas como essa contribuem para criar alternativas de produção capazes de conciliar geração de renda, segurança alimentar e conservação ambiental. Ao fortalecer a capacidade das comunidades de manejar seus territórios de forma sustentável, os Sistemas Agroflorestais podem contribuir para recuperar áreas, diversificar a produção e valorizar o conhecimento local, criando condições para que o desenvolvimento econômico aconteça sem abrir mão da floresta.
Oficina promoveu uma troca de conhecimento sobre os sistemas agroflorestais. Foto: Divulgação/Imaflora
Esse equilíbrio é especialmente importante na Amazônia, onde a conservação dos territórios está diretamente relacionada às condições de vida das populações que neles vivem. Fortalecer agricultores familiares e comunidades quilombolas significa também fortalecer seus conhecimentos, sua autonomia e sua capacidade de produzir mantendo a floresta em pé.
A participação de cinco jovens na oficina reforça, ainda, outro aspecto estratégico: a continuidade desses conhecimentos entre as novas gerações. Ao aproximar juventude, agricultura familiar, conhecimento tradicional e práticas agroecológicas, atividades de formação como essa ajudam a construir perspectivas de futuro para os territórios e para quem vive neles.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora.
Equidade étnico-racial: municípios discutem caminhos para enfrentar o racismo na Amazônia. Foto: Vicente de Souza
Entre 2021 e 2023, 15.101 adolescentes e jovens foram vítimas de violência letal no Brasil. Desse total, 83,6% eram negros, segundo o Panorama de Violência Letal e Sexual, produzido pelo UNICEF e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2024, das 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável registradas no país, 76,8% eram menores de idade e 55,6% eram negras. Os números mostram uma das dimensões das desigualdades étnico-raciais que atravessam a vida de crianças e adolescentes no Brasil.
Além disso, racismo também aparece em espaços cotidianos, como escolas, serviços públicos e locais de convivência, afetando o acesso a direitos desde os primeiros anos de vida. Um levantamento da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, citado pelo UNICEF, aponta que 54% dos responsáveis por crianças de 0 a 6 anos relataram episódios de racismo vivenciados por elas em creches ou pré-escolas.
As desigualdades não aparecem apenas nos indicadores de violência. Elas também estão presentes no acesso a direitos básicos, como educação, água e saneamento. Dados do UNICEF também mostram que, em 2024, 79,1% dos adolescentes indígenas de 15 a 17 anos estavam matriculados no ensino médio, enquanto entre adolescentes brancos o percentual era de 86,9%.
No acesso à água, 25% das crianças e adolescentes indígenas não tinham abastecimento adequado, contra 2,2% das crianças brancas. Entre a população quilombola, 90% enfrentavam algum tipo de insegurança no acesso à água ou ao esgotamento sanitário.
Equidade étnico-racial: municípios discutem caminhos para enfrentar o racismo na Amazônia. Foto: Elmano Pantoja
Esses indicadores ajudam a explicar por que o enfrentamento das desigualdades étnico-raciais também precisa fazer parte das políticas públicas. Falar em equidade étnico-racial significa reconhecer que crianças e adolescentes não vivem nas mesmas condições e que diferentes grupos podem enfrentar barreiras para acessar seus direitos. Essa discussão envolve a população negra, os povos indígenas, as comunidades quilombolas, ribeirinhas, de terreiro e diversas outras, considerando suas diferentes identidades, culturas, formas de organização e territórios.
Por isso, promover equidade não significa oferecer exatamente a mesma resposta para todas as pessoas, mas considerar as desigualdades existentes para que as políticas públicas consigam garantir direitos de forma mais efetiva. Na Amazônia, essa agenda ganha características próprias diante da presença de populações indígenas e quilombolas e da diversidade dos territórios.
Considerar essas diferenças também significa observar como as próprias instituições funcionam. É nesse ponto que aparece o conceito de racismo institucional, relacionado às desigualdades que podem ser reproduzidas pelas instituições por meio da forma como políticas, serviços e atendimentos são planejados e executados.
Para Adriano do Egito, mobilizador de adolescentes e ponto focal do Resultado Sistêmico 6 do Instituto Peabiru, enfrentar esse tipo de desigualdade exige que a discussão faça parte da gestão pública e não fique restrita a ações pontuais.
“Quando a gente fala de equidade étnico-racial, a gente está falando de reconhecer que existem diferentes realidades dentro dos municípios e que essas diferenças precisam ser consideradas pelas políticas públicas. No contexto amazônico, isso significa olhar para a população negra, para os povos indígenas e para as comunidades quilombolas, entendendo quais são as barreiras que essas populações enfrentam para acessar seus direitos. O nosso papel é justamente apoiar os municípios para que eles consigam identificar essas desigualdades e pensar em ações que façam parte da própria gestão”, destaca Adriano.
Equidade étnico-racial e gestão pública
É nesse processo que entra o Selo UNICEF, iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) voltada ao fortalecimento das políticas públicas para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. No Pará, Amapá, Mato Grosso e Tocantins, a iniciativa é implementada pelo Instituto Peabiru e mobiliza os municípios para qualificar suas políticas e desenvolver ações relacionadas a áreas estratégicas para a infância e a adolescência.
Nos quatro estados, a discussão sobre equidade étnico-racial também envolve uma parcela significativa da população indígena e quilombola. Segundo o Censo 2022 do IBGE, Amapá, Mato Grosso e Tocantins possuem, respectivamente, 5.095, 28.274 e 9.172 crianças e adolescentes indígenas de 0 a 17 anos. No Pará, são 29.378 crianças e adolescentes indígenas e 36.842 quilombolas na faixa de 0 a 14 anos. Entre crianças e adolescentes quilombolas de 0 a 17 anos, são 4.611 no Amapá, 3.123 no Mato Grosso e 4.116 no Tocantins.
Na edição 2025–2028, a equidade étnico-racial passou a integrar pela primeira vez a metodologia do Selo UNICEF. A temática está presente de forma transversal nos Resultados Sistêmicos, que reúnem ações que orientam os municípios em áreas consideradas estratégicas para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Nesta edição, há também um resultado específico, o Resultado Sistêmico 6, voltado ao fortalecimento da capacidade dos municípios de enfrentar o racismo institucional.
O Selo UNICEF é uma ferramenta que deve fortalecer as políticas públicas nos municípios . A proposta é apoiar e qualificar a atuação das gestões municipais para que a perspectiva étnico-racial seja incorporada às políticas existentes e às ações desenvolvidas nos territórios.
Equidade étnico-racial: municípios discutem caminhos para enfrentar o racismo na Amazônia. Foto: Chico Atanásio
O Selo UNICEF é uma iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) que visa fortalecer as políticas públicas voltadas para crianças e adolescentes nos municípios brasileiros, especialmente nas regiões do Semiárido e da Amazônia Legal. Nos ciclos do projeto, os municípios participantes assumem compromissos que devem ser cumpridos por meio da realização de atividades-chave, com foco em educação, saúde, proteção e participação social.
Para Mariana Machado Rocha, chefe do UNICEF para os estados do Pará, Amapá, Tocantins e Mato Grosso, incorporar a equidade étnico-racial à metodologia do Selo significa fortalecer essa agenda dentro da gestão municipal.
“O racismo e as desigualdades sociais têm impactos concretos na vida de crianças e adolescentes em todo o Brasil. O Selo UNICEF 2025-2028 incorpora essa agenda pela primeira vez à sua metodologia, entendendo que ela não pode ser tratada como uma ação isolada. A proposta é apoiar os municípios para que o enfrentamento ao racismo institucional esteja presente nas diferentes áreas da gestão e para que as políticas públicas considerem as características e as necessidades específicas das populações dos seus territórios.”, explica Mariana.
Formação para levar a discussão aos territórios
Uma das estratégias para fortalecer essa agenda é o 4º Ciclo de Formação de Equidade Étnico-Racial da edição 2025–2028 do Selo UNICEF reúne gestoras e gestores, equipes técnicas, mobilizadores e adolescentes para discutir como as desigualdades étnico-raciais aparecem nos territórios e como podem ser consideradas na formulação e implementação das políticas públicas.
Ao todo, os encontros reuniram mais de 800 participantes de 308 municípios dos quatro estados. As formações foram realizadas em oito polos: Macapá (AP), Belém, Santarém e Parauapebas (PA), Cuiabá e Sinop (MT), Palmas e Araguaína (TO). Durante as formações, os participantes discutem o enfrentamento ao racismo nos territórios, acompanham apresentações culturais e participam de momentos de escuta dos adolescentes dos Núcleos de Cidadania de Adolescentes (NUCAs). A programação também incluiu estudos de caso sobre situações de desigualdade étnico-racial nas políticas públicas e atividades relacionadas à implementação do Resultado Sistêmico 6.
Entre os temas trabalhados estão o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR) e a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), que integram o conjunto de estratégias relacionadas ao RS6.
Higor Hebert, coordenador nacional do Selo UNICEF, explica como a agenda de equidade étnico-racial será trabalhada pelos municípios ao longo da edição 2025–2028.
“Então, nessa nova edição do Selo UNICEF, os municípios precisarão realizar quatro ações obrigatórias para que até 2028 nós possamos fortalecer essas políticas públicas para meninos e meninas indígenas, negras e quilombolas. Entre elas, a adesão ao SINAPIR e à PNGATI, a revisão do Plano Municipal da Primeira Infância, agora com uma abordagem de equidade étnico-racial, e também ciclos formativos sobre letramento racial, principalmente no setor público, para que nós tenhamos políticas públicas e principalmente aqueles que entregam os serviços e direitos para crianças e adolescentes com letramento racial”.
Para Higor, a formação de quem atua nos serviços públicos é parte fundamental desse processo, já que é na ponta que as políticas chegam às crianças e aos adolescentes.
Em Concórdia do Pará, a experiência mostra como a participação da sociedade civil pode contribuir para transformar a discussão sobre equidade étnico-racial em uma estrutura dentro da gestão pública. Segundo Dilani Cavalcante, articuladora do Selo UNICEF no município, o processo começou a partir da mobilização de organizações comunitárias e quilombolas. O reconhecimento da atuação dessas organizações levou à discussão sobre a necessidade de criar uma estrutura municipal voltada à promoção da igualdade racial.
O município criou, por meio de decreto municipal, um conselho com participação da sociedade civil e do Executivo, vinculado à Coordenadoria Municipal de Políticas de Igualdade Racial. A estrutura funciona como um espaço de diálogo entre diferentes setores para discutir e acompanhar políticas públicas relacionadas à igualdade racial.
“Não se faz política sem ouvir a população. Não se faz política, principalmente de igualdade étnico-racial, se não ouvir a diversidade do seu município, se não ouvir a diversidade e os coletivos distintos que existem”, afirma Dilani.
Equidade étnico-racial: municípios discutem caminhos para enfrentar o racismo na Amazônia. Foto: Kledson Ferreira
Para a articuladora, ouvir os diferentes grupos que vivem no território é fundamental porque comunidades que compartilham uma identidade étnico-racial também podem apresentar necessidades distintas. “Apesar de termos várias comunidades quilombolas, cada uma tem a sua especificidade e é importante ouvir, porque cada uma tem a sua organização, cada uma tem o seu meio de vida, cada uma tem as suas produções agrícolas, de acordo com a realidade de vida desse povo”, explica.
No município, o Selo UNICEF entra como apoio a uma estrutura que já existe. De acordo com Dilani, a iniciativa pode contribuir para fortalecer a articulação entre as diferentes secretarias e direcionar esse trabalho também para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes a partir da perspectiva da equidade étnico-racial.
“Hoje Concórdia do Pará já tem uma secretaria municipal, que já se atravessam outras secretarias com política pública, e o Selo UNICEF vem exatamente com as atividades para ajudar nessas articulações e intensificar o que já acontece no município de Concórdia, que são as intersetorialidades dentro das secretarias e agora com o viés direcionado para a equidade étnico-racial da criança e adolescente no município”, explica.
A experiência de Concórdia mostra que a agenda pode assumir diferentes formas de acordo com a realidade de cada município. O ponto comum é a necessidade de reconhecer as desigualdades existentes no território, ouvir os grupos diretamente envolvidos e transformar essa escuta em ações dentro das políticas públicas.
O 4º Ciclo de Formação representa uma etapa desse processo. A partir das discussões realizadas nos encontros, o desafio é levar a perspectiva étnico-racial para o planejamento, a execução e o acompanhamento das políticas públicas de educação, saúde, assistência social e proteção de direitos. A iniciativa Selo UNICEF seguirá apoiando os municípios participantes na elaboração, qualificação e implementação de políticas públicas equitativas em todo território Amazônico.
Sobre o Selo UNICEF
O Selo UNICEF é uma das maiores iniciativas de fortalecimento de políticas públicas do País. Na última edição (2021-2024), 933 municípios dos 2.023 que foram mobilizados pelo programa receberam a certificação. Isso representa a melhoria de indicadores-chave relacionados à infância e adolescência nestas localidades, como imunização, permanência de crianças na escola e prevenção de violências.
A edição atual, que segue até 2028, já atingiu número recorde de adesões, com 2.277 cidades de 18 estados participando da iniciativa: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais (norte do estado), Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins. A iniciativa reconhece o esforço dos municípios na promoção, realização e garantia dos direitos de crianças e adolescentes.
Para o Selo UNICEF, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de Equatorial Energia e Rumo Logística, com a parceria de RD Saúde, por meio das marcas Raia e Drogasil, e com o apoio da Energisa. Além disso, o UNICEF tem XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Peabiru, escrito por Maria Vitória.
A Rede Amazônica participa da 13ª edição da Feira Norte do Estudante (FNE) 2026 no dia 25 de setembro, às 17h30, na Sala Grandes Ideias, em Manaus (AM). Os jornalistas Eduardo Monteiro de Paula, Lane Gusmão e Nicole Gomes vão discutir o tema “O Poder da Credibilidade no Jornalismo para a Construção de um Sociedade”.
O evento acontece de 23 a 25 de setembro, das 9h às 21h, no Manaus Plaza Centro de Convenções, na Zona Sul de Manaus. A entrada para a feira norte é gratuita.
O evento terá palestras, oficinas e experiências voltadas à orientação profissional, empregabilidade e preparação de jovens para os primeiros passos no mercado de trabalho.
O público também poderá participar de simulações de entrevistas e visitar estandes de universidades, escolas de idiomas e empresas.
Rede Amazônica participa da Feira Norte do Estudante com palestra sobre credibilidade no jornalismo. Foto: Divulgação
Para a apresentadora na Rede Amazônica Lane Gusmão, a participação será uma oportunidade para os jovens entenderem o papel do jornalismo diante de grandes questões da sociedade atual.
“Falamos diariamente com centenas de pessoas, mas eles não percebem a real dimensão que o jornalismo exerce na sociedade. Principalmente para os jovens que desejam seguir a carreira na nossa profissão essa é uma oportunidade de ouro poder fazer essa troca com outros profissionais brilhantes da casa e de diferentes gerações, como o Dudu, que é de Esportes, e a Nicole, da CBN”, destacou.
Lab Carreiras
Outra novidade desta edição da Feira Norte será o Lab Carreiras, espaço criado para aproximar o estudante da realidade de um processo seletivo. A proposta é que o participante não apenas escute orientações sobre carreira com especialistas, mas vivencie situações que poderá encontrar ao disputar uma vaga de emprego.
“Queremos que o jovem saia da feira com algo concreto. Não apenas com informações sobre qual profissão escolher, mas entendendo melhor como se preparar para o mercado, como se apresentar em uma entrevista e quais pontos ainda precisa desenvolver. O Lab Carreiras nasce justamente dessa necessidade de transformar orientação em experiência prática”, destaca a idealizadora e coordenadora da FNE, Inês Daou.
Ao entrar no circuito, o jovem recebe um Passaporte da Carreira, que o acompanha durante a experiência. A partir daí, passa por diferentes etapas envolvendo preparação profissional, currículo, entrevista e avaliação de competências.
Entre as atividades previstas está a elaboração ou revisão do currículo com auxílio de consultores. O participante poderá sair da experiência com o documento pronto para utilização e também receber orientações relacionadas ao LinkedIn.
Rede Amazônica participa da Feira Norte do Estudante com palestra sobre credibilidade no jornalismo. Foto: Divulgação
Outra etapa reproduz uma entrevista de emprego. Durante aproximadamente oito minutos, o jovem responde a perguntas semelhantes às utilizadas em processos seletivos, abordando temas como trabalho em equipe, desafios, trajetória e objetivos profissionais. Ao final, recebe um retorno sobre o próprio desempenho.
O circuito inclui ainda uma sessão de foto profissional, destinada ao uso em currículo e redes sociais, além de uma etapa de feedback sobre características como comunicação, organização, segurança, trabalho em equipe e pontualidade.
Inteligência Artificial
Além da preparação para o primeiro emprego, a Inteligência Artificial ocupará espaço importante nas discussões da FNE 2026. A proposta é levar os estudantes a refletirem não apenas sobre profissões que podem ser transformadas pela tecnologia, mas também sobre as novas possibilidades profissionais que surgem à medida que o mercado de trabalho se modifica.
No primeiro dia, por exemplo, a programação da Feira Norte prevê o tema “A sua profissão não existe… ainda”. No segundo, o público poderá acompanhar “O futuro (e o presente) do trabalho com a IA”. Já no último dia, a discussão continua com “Importância das soft skills na era da IA” e “Habilidades do profissional de sucesso para os próximos quatro anos”.
“A Inteligência Artificial já faz parte da realidade profissional e não faz sentido discutir o futuro das carreiras sem incluir esse tema. Mais do que dizer aos jovens quais profissões podem mudar, queremos ajudá-los a perceber que novas oportunidades também estão surgindo e que competências humanas, como comunicação, criatividade, capacidade de adaptação e relacionamento, continuarão fazendo diferença. A escolha profissional hoje exige esse olhar para um mercado que está em constante transformação”, afirma Inês Daou.
Rede Amazônica participa da Feira Norte do Estudante com palestra sobre credibilidade no jornalismo. Foto: Divulgação
Ao longo dos três dias, a Feira Norte também terá conteúdos relacionados às Engenharias, Saúde, Direito, Psicologia, Arquitetura e Urbanismo, Turismo, Educação, Ciências, Relações Internacionais, Comércio Exterior e profissões ligadas à realidade amazônica.
A programação abre espaço ainda para questões que extrapolam a escolha de um curso superior. Temas como empreendedorismo e renda paralela, educação financeira, comunicação no ambiente de trabalho, networking, intercâmbio, saúde mental e reposicionamento de carreira também fazem parte das atividades.
No próprio Lab Carreiras, haverá uma sequência de palestras rápidas, com assuntos como como conseguir o primeiro emprego, o que um recrutador procura, como montar um currículo, erros mais comuns em entrevistas e como se comportar no ambiente profissional. O formato complementa as experiências práticas realizadas nas diferentes etapas do circuito.
Acesso às oportunidades
Outra iniciativa ligada à Feira Norte deste ano é o Carona pro Futuro, projeto que busca ampliar o acesso de estudantes da rede pública à feira por meio de parcerias para viabilizar o transporte até o local do evento. A iniciativa surgiu a partir da percepção de que a distância e o deslocamento ainda podem impedir parte dos estudantes de participar da programação.
Com três dias de atividades, a FNE 2026 reforça uma proposta que vai além da apresentação de cursos e instituições de ensino. A programação procura colocar o estudante em contato com diferentes possibilidades de formação, carreira e geração de renda, ao mesmo tempo em que oferece ferramentas práticas para quem está próximo de ingressar no mercado de trabalho.
Rede Amazônica participa da Feira Norte do Estudante com palestra sobre credibilidade no jornalismo. Foto: Divulgação
A Feira Norte do Estudante 2026 acontece de 23 a 25 de setembro, das 9h às 21h, no Manaus Plaza Shopping, com entrada gratuita. As inscrições individuais e de grupos podem ser feitas por meio do site oficial da feira: feiranortedoestudante.com.br .
O evento contará com diferentes ambientes, como a Arena FNE, salas de palestras e oficinas, feira de criatividade e o espaço de podcast “Papo de Futuro”.
A Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA) divulgou a segunda edição do Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia, elaborado com o apoio técnico do Observatório Regional da Amazônia (ORA).
A publicação apresenta um panorama das condições ambientais em toda a região em agosto de 2026, com base em indicadores de precipitação, temperatura, pontos críticos e áreas queimadas.
Região amazônica registra menos chuva e forte aumento dos focos de calor em agosto. Foto: Reprodução/Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia
Conclusões em agosto na Bacia Amazônica
Entre as principais conclusões, o monitoramento mostra uma expansão das condições de seca em toda a Bacia Amazônica. Das 32 sub-bacias analisadas, 18 apresentaram condições de seca em agosto, em comparação com seis em julho. A precipitação média caiu de aproximadamente 90 mm para 55 mm entre os dois meses, enquanto a temperatura média ficou 1,36 °C acima da média climatológica.
Os focos de incêndio na região amazônica também aumentaram significativamente, passando de 2.757 em julho para 12.123 em agosto. O boletim também monitora a ocorrência de incêndios e as áreas queimadas em territórios indígenas e áreas protegidas, contribuindo para uma visão integrada das mudanças nas condições ambientais em toda a Amazônia.
*Com informações da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia (OTCA)
Igarapés São Francisco e Batista concentram mais de 5 mil pessoas expostas a riscos. Foto: Walace Gomes/Rede Amazônica Acre
O descarte irregular de lixo nos igarapés é um dos problemas que agravam os riscos de alagamentos e enchentes em Rio Branco (AC). Para tentar reduzir os impactos durante o período chuvoso, uma operação de limpeza às margens do Igarapé Batista, no Bairro da Paz, em Rio Branco, começou no dia 15 de setembro.
A previsão é retirar cerca de 30 toneladas de resíduos por dia durante os trabalhos do Programa Cuidar Rio Branco, lançado prefeitura da capital. A ação pretende alcançar oito quilômetros de extensão e seguir pelos igarapés até o Rio Acre.
Conforme a Prefeitura de Rio Branco, entre os materiais encontrados em ações anteriores estão móveis, pneus e até a carcaça de um veículo descartada dentro de um igarapé em Rio Branco. Um levantamento da Defesa Civil Municipal identificou os pontos considerados mais críticos na capital.
Ao todo, oito mananciais serão monitorados: São Francisco, na parte alta, Igarapé Judia, no Segundo Distrito, os igarapés Almoço, Batista, Dias Martins, Liberdade, Sobral e o Rio Acre, na região das Estações de Tratamento de Água (ETAs).
Ainda de acordo com a administração municipal, os igarapés São Francisco e Batista concentram mais de 5 mil pessoas potencialmente expostas a riscos, segundo o levantamento. Nas proximidades do Igarapé São Francisco, que corta a zona urbana e vários bairros da capital antes de desaguar no Rio Acre, são:
695 imóveis potencialmente expostos;
2.780 pessoas em áreas de risco.
Já no Igarapé Batista, que passa por regiões da capital acreana como o Bairro da Paz, Parque das Palmeiras e o Conjunto dos Engenheiros, antes de desaguar no igarapé São Francisco até alcançar o Rio Acre, são:
613 imóveis potencialmente expostos;
2.452 pessoas em áreas de risco.
Além da retirada da limpeza dos igarapés, o programa vai desenvolver ações em escolas para tentar reduzir o descarte irregular de lixo. A primeira atividade está marcada para ocorrer das 8h às 14h desta quarta-feira (16), na Escola Francisca Aragão Silva, Bairro Geraldo Fleming.
Lixo nos igarapés é um dos problemas que agravam os riscos de alagamentos. Igarapé São Francisco. Foto: Val Fernandes/Acervo Assecom
Riscos atingem mil famílias
O problema voltou a ganhar dimensão no fim de 2025. Em fevereiro do ano passado, à época, as famílias foram retiradas pela Defesa Civil em barcos e levadas para abrigos devido ao transbordamento do Igarapé Batista que atingiu cerca de mil famílias em 17 bairros de Rio Branco.
O episódio mais recente faz parte de um histórico de enchentes e enxurradas que atingem diferentes regiões da capital acreana. Em janeiro, auge do inverno amazônico, período com maior incidência de chuvas, a cheia do Rio Acre afetou mais de 2 mil pessoas e 27 bairros na capital.
Na ocasião, a Defesa Civil informou que a previsão de chuvas para janeiro era de 287,5 milímetros, contudo, apenas nos primeiros 15 dias daquele mês foram registrados 372,2 milímetros, o que representava cerca de 129,5% acima do volume esperado.
Já em agosto deste ano, um levantamento inédito do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Rio Branco, identificou 87 áreas de risco geológico e hidrológico na capital acreana, onde vivem, aproximadamente, 44 mil pessoas.