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Juventude ribeirinha luta para manter a floresta e as suas tradições vivas

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Maria “Mariazinha” Oliveira, juventude ribeirinha. Foto: Acervo JLPC

“Não pense que o trabalho de preservar, de conservar, seja só de quem vive na floresta. Lutar por um mundo, um país e um lar estáveis não é só para as comunidades tradicionais. Abraça essa causa com a gente!”

É com esse senso de coletividade que a jovem de 18 anos, Maria Oliveira, conhecida como Mariazinha, contribui para a organização social de sua comunidade. Tinha apenas 10 anos quando deixou a comunidade onde nasceu, à margem do rio Juruá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, para viver do outro lado do rio, em São Raimundo, dentro da Reserva Extrativista do Médio Juruá, no Amazonas.

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Foi ali, ainda criança, que sua trajetória de mobilização social começou. Encontrou um coletivo de jovens já formado, o JLPC (Juventude em Luta Pela Caminhada), e “a partir daí, eu não parei mais, né? Foi ação em cima de ação”, lembra.

Com mais de duas décadas de existência, o coletivo busca envolver principalmente os jovens para que participem da vida comunitária e debatam suas questões enquanto integrantes de uma população tradicional. Hoje, a JLPC atua em quatro frentes que Mariazinha resume como fundamentais: o fortalecimento do senso comunitário, a espiritualidade, a cultura e a economia sustentável.

Tradição versus tecnologia

Um dos temas centrais de debate entre a juventude é a tensão entre os saberes tradicionais e a chegada da internet às comunidades ribeirinhas. Para Mariazinha, a juventude local vem se afastando de práticas tradicionais, que ela considera essenciais à identidade de seu povo, em contraponto a soluções vistas na internet. Ela associa esse afastamento a uma busca por equiparação à vida urbana.

“A gente tinha alguns conhecimentos melhores do que os do povo da cidade, com experiências naturais e tradicionais. Ninguém mais quer tomar o chá medicinal, que é uma cultura antiga do nosso povo, por conta de que na internet tem aquele remédio que só funciona se for ele”, lamenta. “A juventude das comunidades está muito parecida com a juventude da cidade. Por isso, o coletivo tem investido em mostrar aos mais jovens que esses conhecimentos são nossos e são importantes”.

Reconstruindo o senso de comunidade

Um dos pilares do trabalho do JLPC são os chamados “mutirões solidários”, uma iniciativa coletiva em que o grupo de jovens se reúne para realizar tarefas em nome de quem não consegue executá-las sozinho ou mesmo em prol da comunidade.

“A gente junta todo mundo e todo mundo trabalha para uma pessoa que não consegue exercer aquele trabalho. E aí, a cada dia, a gente faz um mutirão para uma pessoa diferente”, explica Maria. Dessa forma, “todos cumprem suas tarefas essenciais sem tanto peso e ainda exercitam o senso comunitário.”

Leia também: Jovens usam redes sociais para defender elementos naturais da Amazônia

A juventude ribeirinha que luta para manter a floresta e as suas tradições vivas
Foto: Acervo JLPC

Na dimensão espiritual, o coletivo criou o ODJ (Ofício Divino da Juventude), levado às casas das famílias que não conseguem frequentar a igreja. Já na esfera cultural, o grupo tem resgatado festejos comunitários em datas comemorativas, uma tradição, segundo Maria, que estava se perdendo.

Entre as conquistas de que mais se orgulha, a jovem destaca uma mobilização comunitária que reuniu o coletivo, a comunidade e a associação local para garantir o acesso à educação para adultos. “Essa mobilização de trazer a educação a quem não teve oportunidade de estudar foi a que mais me orgulhou durante toda essa caminhada dentro do coletivo”, afirma.

A chocadeira ecológica e o equilíbrio da floresta

Há cerca de três anos, diante da redução da população de quelônios, agravada pelas mudanças climáticas e pela predação dos ovos, o coletivo assumiu a responsabilidade por um projeto de “chocadeira ecológica”.

“É uma espécie de viveiro cercado, cheio de areia, onde os ovos retirados das praias de desova são incubados com segurança até que os filhotes possam ser devolvidos ao habitat natural”, explica. “Desses três anos atrás, quando a gente começou até agora, a gente consegue perceber a diferença, o aumento que teve”, relata Maria.

A percepção do equilíbrio ecológico é compartilhada por toda a comunidade: “Se diminui a quantidade de qualquer espécie, a gente já sente. É como se tudo fosse um equilíbrio. Se cai uma, a tendência é que as outras também caiam. […] É como se eles fossem a base um do outro, o equilíbrio um do outro mesmo”, explica.

O monitoramento como educação econômica

Mariazinha também traça um paralelo entre essa organização social e os resultados econômicos concretos por meio do monitoramento das atividades centrais da comunidade. O coletivo passou a monitorar a extração de látex das seringueiras, coibindo cortes acima do limite da capacidade de produção. Segundo a jovem liderança, a prática reduziu drasticamente a mortalidade das árvores e ainda rendeu benefícios financeiros, já que, além de garantir o produto para os anos seguintes, o poder público recompensa as comunidades pelo manejo comprovadamente sustentável.

“Quando o governo vê a atividade bem realizada, ele aumenta uma política pública”, explica. A seringueira “é como se fosse uma mãe. Alimenta muitos filhos, desde que seja explorada com respeito aos seus limites. (…) o monitoramento não só ajuda na atividade em si, mas também ajuda nesse equilíbrio”.

Num outro exemplo, citou o manejo do pirarucu iniciado em 2011.

Foto: Acervo JLPC

No primeiro ano de manejo na comunidade, os moradores processaram 60 pirarucus, mas nem chegaram a receber pelo trabalho, por falta de organização e de conhecimento. “Levaram meio que um trote”, resume. Com o passar dos anos e o amadurecimento do monitoramento comunitário liderado pelos jovens, a atividade tornou-se uma das principais fontes de renda local, inclusive financiando a instalação de sistemas de energia solar em diversas comunidades da região.

Um sonho que ultrapassa as fronteiras

Frequentemente escolhida para representar a região do Médio Juruá em encontros com outros movimentos da organização social, Maria cita um encontro em Bogotá, na Colômbia, e outro em Óbidos, no Pará, nos quais, segundo relatos que ouviu, iniciativas locais teriam inspirado projetos após a divulgação das atividades realizadas no Médio Juruá.

“Me falaram que tem uma ação que eles fizeram lá porque viram no YouTube um pessoal daqui do Médio Juruá. Quando a gente age aqui e também posta, isso gera resultados para outros municípios”, avalia.

Maria, como quem esconde sua grandeza, fala em nome de uma geração inteira: “Esse sonho não é meu, não é do coletivo, mas é de toda a juventude do Médio Juruá. A gente quer montar uma caravana e sair por aí, levando todo esse conhecimento tradicional.” A ideia dessa “caravana social” é levar a outras comunidades, sobretudo as que carecem de organização de base, os conhecimentos tradicionais, as adaptações ao clima e as práticas de manejo sustentável desenvolvidas no Médio Juruá ao longo de toda a sua história.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia, escrito por Lucas Ramos

Pontos de atendimento reduzem distâncias e transformam acesso à saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas

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Pontos de atendimento reduzem distâncias e transformam o acesso à saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Lucas Bonny

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) atua para ampliar o acesso à saúde e fortalecer a qualidade de vida da população do campo, da floresta, das águas que vivem em comunidades ribeirinhas e de difícil acesso na Amazônia. Por meio do projeto SUS na Floresta, a instituição apoia a Atenção Primária à Saúde e contribui para aproximar os serviços de saúde dos territórios.

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Em Carauari, no Médio Juruá, essa atuação resultou na implantação dos Pontos de Atendimento à Saúde Raimundo Ribeiro de Lima, conhecido como Saborá, na comunidade do Bauana, e Laice Santos do Nascimento, na região do Campina. As estruturas beneficiam moradores de 56 comunidades, reduzindo deslocamentos que, anteriormente, poderiam durar horas ou até dias.

Na região do Médio Juruá, onde algumas comunidades estão localizadas a horas ou dias de distância da sede do município, dependendo da potência da embarcação, o deslocamento, sempre esteve entre os principais desafios para o acesso à saúde. 

Foi nessa realidade que Aldeniza Silva viveu suas gestações anteriores. Moradora da comunidade Boa Vista, ela precisava enfrentar uma viagem de dois a três dias até a sede de Carauari para realizar consultas e exames de pré-natal. Grávida de sete meses e mãe de outros quatro filhos, cada deslocamento exigia organizar o transporte, os custos da viagem e os cuidados com as crianças que permaneciam em casa.

Leia também: Projeto SUS na Floresta fortalece atendimento de saúde em comunidades de difícil acesso no Amazonas

Pontos de atendimento reduzem distâncias e transformam o acesso à saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas
Pontos de atendimento reduzem distâncias e transformam o acesso à saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Lucas Bonny

Hoje, o caminho até o atendimento leva cerca de cinco minutos de rabeta.

A mudança tornou-se possível com a implantação dos Pontos de Atendimento à Saúde Raimundo Ribeiro de Lima, conhecido como Saborá, na comunidade do Bauana, e Laice Santos do Nascimento, na região do Campina. Os espaços aproximam atendimentos médicos, odontológicos, de enfermagem e telessaúde de moradores de 56 comunidades de Carauari.

Nesta semana, onde celebramos o Dia Nacional da Saúde, a história de Aldeniza se une à de outras famílias do Médio Juruá para mostrar como a presença de um ponto de atendimento mais perto dos territórios pode transformar dias de espera e deslocamento em cuidado, segurança e qualidade de vida.

“Eu já estava me preparando para ir a Carauari fazer a consulta, mas soube que teria atendimento aqui e esperei. Estou achando ótimo, graças a Deus, porque ficou bem pertinho. Agora fica mais fácil cuidar de mim e dos meus filhos”, conta Aldeniza.

A mudança na rotina de Aldeniza é uma das histórias que revelam os impactos dos novos Pontos de Atendimento.

A iniciativa reduz distâncias, fortalece a Atenção Primária à Saúde e amplia o acesso a serviços essenciais para famílias que, anteriormente, precisavam viajar durante horas ou dias para chegar à cidade.

Para Mickela Souza, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, a presença dos serviços nos territórios fortalece o acesso das comunidades às políticas públicas de saúde e contribui para a prevenção de doenças e outros agravos.

“Os pontos de atendimento à saúde representam o fortalecimento da cidadania da comunidade e do acesso à política pública de saúde. É o SUS chegando à floresta, chegando ao território e oferecendo seus serviços, trabalhando na prevenção de doenças e de agravos e contribuindo para fortalecer a saúde e o bem viver das pessoas que vivem na floresta”, afirma.

A iniciativa também evidencia a importância das parcerias para ampliar o alcance das ações de saúde nos territórios amazônicos. 

“Os resultados alcançados no Médio Juruá mostram a força das parcerias para enfrentar desigualdades no acesso à saúde. Ao apoiar o SUS na Floresta, a Umane contribui para fortalecer soluções que aproximam a Atenção Primária das comunidades, respeitam as características dos territórios amazônicos e ampliam o acesso a um cuidado mais contínuo, resolutivo e de qualidade”, afirma Thais Junqueira, superintendente-geral da Umane, associação apoiadora do projeto. 

Pontos de atendimento reduzem distâncias e transformam o acesso à saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Lucas Bonny

Leia também: Acesso à saúde reduz histórias de perdas em comunidade do Amazonas

A implantação dos pontos de atendimento em Carauari se soma a outra entrega realizada pelo projeto. Em abril, foi inaugurado o Ponto de Atendimento à Saúde José Rodrigues, na comunidade do Ubim, na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Gregório, em Eirunepé. Adaptada às especificidades da Amazônia, a unidade reúne atendimentos presenciais, odontológicos e por telessaúde, além de triagem, dispensação de medicamentos e estrutura para apoiar a permanência de profissionais de saúde no território.

Para Valcleia Lima, superintendente-geral adjunta, a implantação dos Pontos de Atendimento à Saúde representa, na prática, a missão de cuidar das pessoas que cuidam da floresta.

“A FAS é uma instituição que sempre teve como prioridade a saúde e o bem-estar das populações que vivem nos territórios. A entrega desses Pontos de Atendimento à Saúde no Médio Juruá representa uma conquista construída por muitas mãos e fortalece o cuidado com as famílias que cuidam da floresta”, compartilha. 

Atendimento antes que o problema se agrave

A distância também fez com que Thiago Freitas Andrade, morador da comunidade Xibauazinho, permanecesse, aproximadamente, uma semana com um ferimento no pé. Ele pisou em um prego enquanto jogava bola e, com o passar dos dias, a lesão ficou inflamada, apresentou secreção e provocou dores que chegaram a impedi-lo de dormir.

Para chegar ao novo ponto de atendimento, Thiago viajou cerca de cinco horas de barco. Caso precisasse seguir até a sede de Carauari, ainda teria que aguardar a chegada de uma embarcação de resgate e enfrentar mais dez horas de deslocamento.

No ponto de atendimento recebeu atendimento no mesmo dia, sem precisar enfrentar filas ou permanecer na cidade. O ferimento foi avaliado e tratado, e ele recebeu medicação, orientações de repouso e indicação para vacinação antitetânica.

“O ponto ficou muito mais próximo da gente. O atendimento foi muito bom e os profissionais foram muito atenciosos. Fui atendido no mesmo dia, sem fila. Antes, seria preciso esperar o resgate e viajar muitas horas até a cidade”, relata.

Pontos de atendimento reduzem distâncias e transformam o acesso à saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Lucas Bonny

“É extremamente gratificante ver em ação um ponto de apoio de atendimento em regiões em que as pessoas demoravam horas e horas até chegar a um ponto de saúde. Isso foi viabilizado pela união de investimento público e filantrópico, abrindo novas possibilidades em prol de um mundo mais justo a todos”, compartilha Guilherme Sylos, Diretor de Prospecção e Parcerias do IDIS.

Mais segurança para pacientes e equipes

Para Raimar Bernardino, coordenador de resgates da Secretaria Municipal de Saúde de Carauari, a chegada dos pontos de atendimento também representa uma mudança importante na organização da rede de saúde.

Emergências como picadas de cobra, acidentes durante atividades de caça e outros traumas exigem deslocamentos imediatos, muitas vezes durante a madrugada e sob condições adversas de navegação.

“Há dias em que o resgate acontece sem problemas, mas também há situações em que enfrentamos chuva, escuridão ou problemas na embarcação. Tudo isso faz parte da logística da nossa região”, explica Raimar.

Sobre o SUS na Floresta 

O projeto SUS na Floresta é realizado pela FAS em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fundo Vale e Umane, com gestão da parceria do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico das Prefeituras de Carauari, Itapiranga, Novo Aripuanã, Uarini, Eirunepé e Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema). Ele tem como objetivo fortalecer e apoiar a Atenção Primária à Saúde (APS) em comunidades ribeirinhas do estado do Amazonas por meio da estruturação de um sistema de telessaúde integrado ao SUS, ampliando a assistência nessas regiões.

*Com informações da Fundação Amazônia Sustentável.

Combater incêndios reduz emissão de metano, destaca SEEG

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Foto: Victor Moriyama/ Greenpeace

O combate a incêndios florestais é o principal caminho para reduzir as emissões de metano no setor de Mudanças de Uso da Terra e Florestas, associado a fogo e desmatamento. O metano é um gás do efeito estufa cerca de 28 vezes mais potente que o gás carbônico.

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A mensagem compõe o novo caderno de soluções do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa (SEEG), lançado no dia 18 de agosto, com recomendações para reduzir o metano nos principais setores emissores.

Em 2024, as emissões de metano por queimadas associadas ao desmatamento chegaram a 1,14 milhões de toneladas, cerca de 6% do total de 21 milhões de toneladas do gás emitidas naquele ano. A agropecuária é o setor que concentra a maior parte (75%) desse montante, principalmente por conta da criação de gado.

Combater incêndios reduz emissão de metano, destaca SEEG Soluções
Combater incêndios reduz emissão de metano, destaca SEEG Soluções. Foto: Reprodução/IPAM Amazônia

Leia também: Publicação reúne técnicas para o combate ao fogo em florestas tropicais úmidas da Amazônia

Mas quando se fala em emissões de metano por incêndios exclusivamente na vegetação nativa, essas ainda não são consideradas nos inventários oficiais, produzidos por órgãos públicos para divulgar as emissões brasileiras de gases do efeito estufa. Por isso, o SEEG apresenta esse cálculo de forma adicional: essas emissões “não consideradas no inventário” somam mais 1,01 milhões de toneladas de metano emitidas em 2024.

O Brasil é o quarto maior emissor de metano do mundo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia, segundo o ClimateWatch. Em 2021, na COP26, em Glasgow, o país aderiu ao compromisso global de reduzir 30% das emissões de metano até 2030.

“As metas de redução de emissão de metano têm importante papel no combate ao agravamento das mudanças climáticas. Isso porque o metano é um gás com alto potencial de aquecimento, com 28 vezes mais poder de aquecimento que o CO2, mas também com meia-vida mais curta na atmosfera. Por isso, medidas mitigatórias focadas nesse gás têm o poder de serem de alto e rápido impacto”, explica Bárbara Zimbres, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do setor de Mudanças de Uso da Terra e Florestas no SEEG.

Controle de queimadas acre Foto Uêslei Araújo Sema AC
Foto: Uêslei Araújo/Sema AC

O documento lançado pelo SEEG apresenta 37 soluções, cinco delas focadas no setor de Mudanças de Uso da Terra e Florestas. A redução do desmatamento e a prevenção de incêndios estão na lista, com destaque para o papel de estados e municípios na gestão do fogo e governança territorial desde a prevenção até o combate.

A expectativa dos especialistas é que a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo fomente a integração e articulação entre o governo federal, estados e municípios, com atenção também para o licenciamento do uso do fogo na agropecuária.

“Com a recente aprovação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e na sequência de eventos de incêndio devastadores em todo o Brasil em 2024, estamos num momento muito favorável para transformar todas as promessas em ação e nos preparar para os potenciais efeitos do El Niño que se inicia. O caderno de Soluções visa resumir essas frentes de ação de forma prática e ajudar entes públicos a priorizar as estratégias mais efetivas”, complementa Zimbres.

Foto: Michel Alvim/Secom-MT

Devido a um El Niño forte já consolidado nas águas do Oceano Pacífico, a atenção é redobrada para o risco de incêndios na Amazônia, dado que o fenômeno tende a deixar a região mais seca enquanto agrava episódios de chuva no Sul do país.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia

Indústria naval e cabotagem são as principais novidades da TranspoAmazônia para 2027

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Evento de lançamento da TranspoAmazônia 2027 ocorreu na sede da Fetramaz. Foto: Divulgação

Considerada a maior feira do setor de transportes e logística da região Norte do Brasil, a TranspoAmazônia terá duas novidades para 2027: a inclusão da indústria naval e a cabotagem. Os temas foram anunciados nesta quarta-feira (19), durante o lançamento da quarta edição do evento, que discute os desafios logísticos e as soluções para a região amazônica.

A cerimônia aconteceu na sede da Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz) e contou com a presença de empresários, autoridades políticas e representantes de empresas que compõem toda uma cadeia multimodal.

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Marcada para os dias 19 a 21 de maio do ano que vem, no Centro de Convenções Vasco Vasques, em Manaus (AM), a feira incluirá o setor naval em seu nome oficial, que agora será chamada de Feira e Congresso Internacional de Transporte, Logística e Construção Naval. A decisão, segundo a organização, responde a uma demanda direta do setor produtivo, já que a construção naval junto à cabotagem sustentam a navegação fluvial que abastece o país até o interior do Amazonas.

Para o presidente da Fetramaz e idealizador da TranspoAmazônia, Irani Bertolini, incluir a construção naval na programação de 2027 é também uma forma de transformar em política pública algo que já é vocação histórica da região.

“O Amazonas tem, historicamente, a vocação natural e todas as condições de liderar esses setores no continente. Com a inclusão da construção naval na TranspoAmazônia 2027, queremos colaborar com o setor público, a sociedade e tirar do papel projetos para desenvolver o estado, gerar emprego e renda de modo sustentável, sem derrubar nenhuma árvore”, afirma Bertolini.

Números da indústria naval no Amazonas

A indústria naval é considerada um dos pilares da economia amazonense. De acordo com levantamentos do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), do Governo do Amazonas e de outras instituições públicas e privadas, a região abriga a maior indústria naval autônoma do planeta.

Somente no Estado, são mais de 300 estaleiros de diferentes portes e uma frota de cinco mil embarcações responsáveis por 95% do abastecimento de produtos essenciais aos municípios amazonenses, além do transporte de passageiros. Para se ter ideia, na capital Manaus, os estaleiros ocupam 20% da orla da cidade — um retrato de peso de um dos maiores polos navais do país.

Leia também: Saiba onde fica o maior porto flutuante do mundo

Construção Naval e cabotagem serão os novos temas que entrarão na pauta da TranspoAmazônia 2027
Cabotagem é o sistema de transporte marítimo e fluvial de cargas entre portos brasileiros. Foto: Reprodução/Grupo Porto Chibatão

A região Norte recebeu R$ 406,7 milhões em investimentos nos últimos três anos, de acordo com os números do BNDES e do Fundo da Marinha Mercante. Foram 70 embarcações entregues, entre elas as unidades produzidas no estaleiro Juruá, em Iranduba, em maio deste ano.

Dados do Sinaval de 2023 estimam que o faturamento anual do povo naval do Amazonas em cerca de R$ 2,5 bilhões, além de 233 obras contratadas, números que coloca o Estado entre as lideranças do segmento no Brasil e na América Latina. Além disso, o setor já emprega mais de 15 mil pessoas diretamente apenas no Amazonas, com potencial de crescimento em toda a região.

Leia também: TranspoAmazônia consolida a necessidade de integração da logística de transporte e gera expectativas sobre a conclusão da BR-319

Cabotagem entra na pauta

Ao lado da construção naval, outro tema que ganha força na pauta do ano que vem é a cabotagem. O transporte marítimo e fluvial de cargas entre portos brasileiros é apontado por especialistas do setor logístico como uma alternativa estratégica para reduzir custos e desafogar o transporte rodoviário de longa distância – um debate que dialoga diretamente com a vocação naval e fluvial da Amazônia.

Com a ampliação do foco, a organização da TranspoAmazônia afirma que busca reforçar o diálogo sobre integração logística nacional, conectando a produção naval amazonense às rotas de cargas que ligam o Norte ao restante do País.

Evento de lançamento da TranspoAmazônia contou com a presença de empresários, autoridades políticas e representantes de empresas que compõem toda uma cadeia multimodal. Foto: Dayson Valente/Portal Amazônia

Expectativa para TranspoAmazônia 2027

Faltando dez meses para a edição de 2027, cerca de 60% dos estandes e espaços já estão comercializados, um indicativo de que a feira deve superar em porte todas as edições anteriores. A meta é ambiciosa por superar a marca de R$ 1 bilhão em negócios gerados na edição de 2026.

“O mercado amazônico tem um potencial gigantesco e ainda pouco explorado. A TranspoAmazônia nasceu para conectar quem produz com quem entrega. Em 2027 queremos ampliar esse diálogo, trazer mais investidores e mostrar que podemos crescer de forma competitiva e sustentável na região”, finalizou Irani.

Redução da vegetação nativa deixa Brasil mais exposto aos eventos extremos do El Niño, aponta MapBiomas

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Cerca de um terço (33%) do território brasileiro perdeu cobertura florestal nativa. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Apesar da redução no desmatamento observada nos anos mais recentes, no acumulado dos últimos 41 anos o Brasil viu sua cobertura de vegetação nativa cair de 79% para 65% entre 1985 e 2025. O retrato apresentado pela Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas, lançada no dia 12 de agosto, revela uma paisagem em que áreas naturais continuam a ser reduzidas em detrimento dos usos antrópicos e ficam expostas aos efeitos de extremos climáticos, como secas e enchentes – fenômenos agravados em anos de El Niño.

Os dados históricos de precipitação (disponíveis na plataforma do MapBiomas Atmosfera) mostram que os biomas brasileiros têm registrado secas ou chuvas cada vez mais intensas em anos com El Niño de maior intensidade, como o que se espera em 2026.

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A comparação dos dados da série histórica de cobertura e uso da terra do MapBiomas com as anomalias de precipitação (mm) entre os meses de setembro e novembro durante três eventos recentes de forte El Niño (1997/98, 2015/16, 2023/24) revela que a redução de chuvas vem se agravando, com exceção do Pampa e da região sul da Mata Atlântica, onde há um aumento da precipitação.

É nesse trimestre que são observados os extremos mais críticos de precipitação durante os eventos de El Niño no Brasil. Os dados apontam diferenças regionais desses efeitos sobre as áreas com vegetação nativa e as áreas com uso agropecuário.

Floresta no Acre tem vegetação preservada devido à leis ambientais do estado
Acre possui cerca de 85% de sua cobertura vegetal nativa preservada. Foto: Pedro Devani/Secom Acre

A Amazônia apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas nos três eventos de El Niño analisados. No último El Niño (2023/2024), a maior redução de chuvas foi observada nas áreas de agropecuária no bioma Amazônia (178 mm abaixo da média climatológica). No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca se acentua a cada novo evento de El Niño, principalmente nas áreas de vegetação nativa. No Pantanal, o último El Niño teve efeito pronunciado na redução das precipitações, sendo que 2024 foi o ano mais seco da série histórica mapeada.

Os eventos de El Niño produziram excesso recorrente de chuva no Sul do Brasil, considerando as anomalias de precipitação entre setembro e novembro. No Pampa, foi constatado que o excesso de chuvas foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa em dois eventos de El Niño analisados.

“Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explica Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.

Transformações no território brasileiro

Ao longo de 41 anos, cerca de um terço (33%) do território brasileiro sofreu pelo menos uma mudança de cobertura e uso da terra, e 67% permaneceu estável.

Na comparação direta entre os anos de 1985 e 2025, quase um terço (28%) do Brasil passou por transições na cobertura e no uso da terra, variando entre biomas e dentro de cada bioma. Nessa análise, considera-se que uma área teve transição quando a classificação em 2025 difere da de 1985 e é classificada como estável quando as classes coincidem nestes dois anos, independentemente de mudanças ao longo do tempo.

As transições registradas englobam, por exemplo, ganho ou redução de superfície de água, o avanço antrópico sobre áreas naturais (e vice-versa), bem como a alternância entre diferentes usos da terra. A área com transições nesse período chega a 241 milhões de hectares, dos quais 56% (136 milhões de hectares) foram de vegetação nativa convertida para áreas de agropecuária.

Essa é a principal transição de cobertura e uso da terra na Amazônia (55 milhões de hectares, que equivalem a 83,6% de todo o território modificado no bioma), Cerrado (52 milhões de hectares, ou 59,4% da área total de transições no período), Caatinga (14,1 milhões de hectares, ou 58,9%) e Pampa (4 milhões de hectares, ou 44,1%).

Por outro lado, Caatinga e Mata Atlântica destacam-se por apresentarem as maiores áreas de transição de uso agropecuário para vegetação nativa, totalizando 4,4 milhões de hectares (18,2% do total das transições na Caatinga) e 6,2 milhões de hectares (13,6% na Mata Atlântica).

Leia também: Manaus perdeu, em 10 anos, floresta nativa equivalente a 347 Arenas da Amazônia

Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

A Mata Atlântica registrou ainda a maior proporção de expansão da silvicultura, que adicionou 4,1 milhões de hectares (9,1% de toda a área transicionada do bioma entre 1985 e 2025). Por sua vez, a conversão de pastagens para a agricultura consolidou-se com maior expressividade no Cerrado (8,8 milhões de hectares; 10% da área transicionada no bioma) e na Mata Atlântica (8,5 milhões de hectares; 18,8%).

Os mapas da Coleção 11 revelam que essas transições de coberturas naturais para usos antrópicos vêm se reduzindo nos últimos anos, um resultado já antecipado no Relatório Anual do Desmatamento de 2025.

“Em 2025, o Brasil registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta desde 2019, resultado de uma redução de 20,6% em relação ao ano anterior. Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026”, comenta Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.

No bioma Pantanal, o encolhimento de 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados é acompanhado pela inclusão, na Coleção 11, de uma nova classe de mapeamento: a savana alagada, caracterizada por espécies arbóreas distribuídas de forma esparsa em meio à vegetação arbustiva e herbácea ao longo de cursos d’água e planícies de inundação. Essa classe sofreu uma redução de 84% no Pantanal, caindo de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025.

Formação Florestal perdeu 65 milhões de hectares em 41 anos

A Formação Florestal continua sendo a principal cobertura natural do Brasil, com 359,5 milhões de hectares em 2025, o equivalente a 42,3% do território nacional. Também foi a cobertura que apresentou a maior redução absoluta desde 1985, com perda acumulada de 65 milhões de hectares.

Apesar dessa diminuição, as formações florestais continuam concentrando grande parte das áreas que permaneceram sem mudança ao longo dos últimos 41 anos. Dos 557 milhões de hectares mapeados com a mesma classe de cobertura ou uso da terra de 1985 a 2025, cerca de 335 milhões de hectares correspondem à Formação Florestal. Outros 84 milhões de hectares permanecem classificados como Formação Savânica e aproximadamente 35 milhões como Floresta Alagável.

Depois da Formação Florestal, dentre as demais classes de vegetação nativa, a Formação Savânica foi a que teve maior perda absoluta (-46 milhões de hectares), seguida da Formação Campestre (-6,3 milhões de hectares) e de Campos Alagados e Áreas Pantanosas (-3,2 milhões de hectares). No mesmo período, os usos antrópicos expandiram sua ocupação sobre essas áreas convertidas. A pastagem ampliou sua área em 61,6 milhões de hectares, a agricultura cresceu 48 milhões de hectares, a silvicultura aumentou 8 milhões de hectares, e as áreas urbanizadas, outros 2,5 milhões de hectares.

Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas de vegetação nativa

A distribuição dessas transformações varia entre os biomas brasileiros. Em área absoluta, Amazônia e Cerrado registraram as maiores perdas acumuladas de vegetação nativa entre 1985 e 2025, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Na sequência aparecem Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Quando a análise considera a participação da vegetação nativa dentro de cada bioma, o Cerrado e o Pampa apresentam as maiores reduções proporcionais ao longo da série histórica, com perdas de 34% e 32%, respectivamente. Em 2025, Amazônia e Pantanal permanecem como os biomas com maior proporção de vegetação nativa, ambos com mais de 80% de seu território ocupado por coberturas nativas.

Já a Mata Atlântica, apesar de ter a menor redução proporcional nesse período (12%), ainda é o bioma brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa (32%), especialmente por conta do desmatamento ocorrido antes do período mapeável por satélite.

25 estados e DF perderam vegetação nativa

As transformações observadas na cobertura e no uso da terra também aparecem em escala estadual. De 1985 a 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção a essa tendência, com aumento de 1% na cobertura de vegetação nativa no período.

Em 2025, Amapá e Amazonas permaneceram como os estados com maior proporção de vegetação nativa, ambos com 95% do território, seguidos por Roraima, com 92%. Na outra ponta está Sergipe, com 22%, seguido por Alagoas e São Paulo, ambos com 21%.

A intensidade das mudanças, no entanto, varia entre os estados. Rondônia reduziu sua cobertura de vegetação nativa de 92% para 59% de 1985 a 2025. Maranhão passou de 91% para 61%; Mato Grosso, de 90% para 61%; e Tocantins, de 90% para 61%. Em estados cuja ocupação territorial já era consolidada antes do início da série histórica, como São Paulo e Paraná, essas mudanças entre classes antrópicas e naturais foram menores ao longo do período.

Agropecuária predomina na maioria dos municípios brasileiros

Em 1985, o Brasil tinha 150,2 milhões de hectares ocupados pela agropecuária, ou 18% de seu território. Em 2025, a atividade já ocupa quase um terço (32%) do país, com 273,3 milhões de hectares. As pastagens continuam respondendo por mais da metade (60,6%) dessa área, com 165,6 milhões de hectares em 2025. Desde 1985, as pastagens incorporaram 61,6 milhões de hectares. A partir de 2006, a área de pastagem no país se mantém relativamente estável (com crescimento abaixo de 1,5 milhões de hectares ao ano).

agricultura familiar amazonas brasil
Agricultura familiar. Foto: Mauro Neto/Secom AM

A agricultura passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares entre 1985 e 2025. Entre as culturas temporárias, a soja foi a que apresentou a maior expansão, passando de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e representando 66,5% de toda a área de agricultura do país em 2025. A cana-de-açúcar passou de 2,2 milhões de hectares para 11,1 milhões de hectares no mesmo período.

A silvicultura também expandiu sua participação na paisagem brasileira, passando de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares entre 1985 e 2025.

Essa expansão teve reflexos sobre os municípios brasileiros. Em 1985, a agropecuária era a cobertura ou uso da terra predominante em 46% deles. Em 2025, essa proporção aumentou para 59%. Em 2.114 municípios (38% do total), a pastagem é a principal cobertura ou uso da terra. A agricultura predomina em outros 1.092 municípios (20%), enquanto a Formação Florestal permanece como cobertura predominante em 1.104 municípios (20%). Nos últimos 41 anos, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.

Marismas na Zona Costeira do Pampa passam a ser mapeadas

As marismas passam a integrar pela primeira vez o mapeamento do MapBiomas, ainda em versão beta e limitadas à zona costeira do Pampa, embora também ocorram ao longo de todo o litoral brasileiro. São áreas pantanosas sob influência de água salobra, localizadas nas margens dos estuários, onde ocorre o contato entre a água doce de rios ou lagunas e a água do mar. Sua vegetação é predominantemente herbácea, formada por gramíneas e juncos adaptados à água salgada.

Em 2025, foram mapeados 6,9 mil hectares de marismas no Pampa. Essas formações predominam em climas subtropical e temperado e, no Brasil, ocorrem principalmente na zona costeira da Região Sul. O levantamento identifica marismas nas zonas estuarinas das lagoas Tramandaí-Armazém, Lagoa do Peixe, Laguna dos Patos e na foz do Arroio Chuí.

A área ocupada por usinas fotovoltaicas no Brasil chegou a 43,3 mil hectares em 2025, crescimento de 38 vezes em relação a 2016, o primeiro ano em que a classe foi mapeada na coleção 11. A Caatinga concentrava 63% dessa área, o equivalente a 27,2 mil hectares. Outros 32%, ou 13,9 mil hectares, estavam no Cerrado, e 5%, correspondentes a 2,2 mil hectares, na Mata Atlântica.

Minas Gerais reunia 16,3 mil hectares de usinas fotovoltaicas em 2025, 37,6% do total nacional. O estado, cuja área mapeada cresceu 133 vezes na última década. Em 2025, Minas Gerais, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte concentravam, juntos, 74,8% da área de usinas fotovoltaicas identificada no país, ou 32,3 mil hectares.

Os parques eólicos ocupavam 28,7 mil hectares em 2025, ante 4,8 mil hectares em 2016 – um crescimento de 6 vezes no período. A Caatinga concentrava 85% da área mapeada, com 24,4 mil hectares. O Cerrado respondia por 8%; o Pampa, por 6%; e a Mata Atlântica, por 1%.

Rio Grande do Norte e Bahia reúnem 61,7% da área de parques eólicos mapeada em 2025, totalizando 17,7 mil hectares. A área de parques eólicos nos estados do Nordeste aumentou 5,7 vezes no período mapeado, passando de 4,7 mil hectares em 2016 para 26,9 mil hectares em 2025.

*Material publicado originalmente pelo MapBiomas Brasil.

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro na Amazônia Legal

Foto: Reprodução/TMF Fertilizantes

A Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), por meio do projeto ABRAMPA pelo Clima, com apoio do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lançaram no dia 14 de agosto, em evento online, o livro ‘Gado, madeira e ouro na Amazônia Legal: desafios e iniciativas de rastreabilidade e transparência‘.

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A publicação oferece um dos mais completos diagnósticos já produzidos sobre os mecanismos de controle das três cadeias produtivas que mais pressionam a floresta amazônica, reunindo evidências científicas, análise jurídica, levantamento normativo, decisões judiciais e iniciativas públicas e privadas voltadas ao combate às ilegalidades.

Também foram lançadas notas técnicas sobre o fortalecimento da rastreabilidade das cadeias produtivas e dos critérios ambientais para a concessão de crédito rural. 

O estudo demonstra que transparência e rastreabilidade deixaram de ser apenas exigências de mercado para se tornarem instrumentos essenciais de proteção ambiental, combate ao desmatamento, responsabilização de infratores e manutenção da competitividade brasileira diante de novas exigências internacionais, como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR).

Ao longo de quase 500 páginas, a publicação identifica fragilidades estruturais comuns às cadeias do gado, da madeira e do ouro. Entre elas, as bases de dados que não conversam entre si, baixa transparência das informações públicas, fiscalização fragmentada entre diferentes órgãos e mecanismos de rastreabilidade incapazes de impedir que produtos de origem ilegal sejam inseridos no mercado formal.

“O livro mostra que o problema não é a falta de tecnologia. Em muitos casos, os dados já existem, mas permanecem dispersos, inacessíveis ou sem integração. Isso impede que informações capazes de identificar desmatamento, grilagem e outras ilegalidades sejam utilizadas de forma eficiente para proteger a Amazônia e dar segurança jurídica às atividades econômicas”, afirma Alexandre Gaio, coordenador do projeto ABRAMPA pelo Clima.

Leia também: Roraima atinge marca histórica de rebanho bovino com 1,3 milhão de cabeças de gado

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro
Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro. Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

“Ficou evidente, com o estudo, que o maior desafio da rastreabilidade é capturar os ilícitos ocultos, isto é, aqueles que ocorrem sob as copas das árvores ou em terras públicas, especialmente naquelas cobertas por florestas públicas não destinadas”, ressalta Paulo Moutinho, cientista sênior do IPAM e revisor técnico da publicação.

Segundo as entidades, a publicação busca apoiar a atuação do Ministério Público, do Poder Judiciário, de órgãos ambientais, do setor privado e da sociedade civil na construção de cadeias produtivas compatíveis com a conservação da floresta, a proteção dos direitos humanos e os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

Notas técnicas

Além do livro, também foram lançadas duas notas técnicas que transformam os principais achados da pesquisa em recomendações práticas para o aprimoramento da legislação, da atuação institucional e das políticas públicas, oferecendo subsídios técnicos para órgãos ambientais, Ministério Público, Poder Judiciário, reguladores financeiros e formuladores de políticas públicas.

A primeira, sobre a necessidade de aprimoramento dos sistemas de controle e transparência para a rastreabilidade das cadeias produtivas do gado, madeira e ouro na amazônia legal, apresenta contribuições técnicas e jurídicas para fortalecer os sistemas de controle, transparência e rastreabilidade das cadeias do gado, da madeira e do ouro na Amazônia Legal, defendendo a integração de bases de dados, maior interoperabilidade entre sistemas e ampliação do acesso a informações estratégicas para o combate ao desmatamento, à grilagem de terras e aos crimes ambientais. 

Leia também: Estudo aponta que 62% da área de exploração de madeira no Amazonas é ilegal

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro. Foto: Divulgação/Millpar

A segunda nota técnica, sobre a necessidade de aprimoramento dos critérios ambientais para a concessão e a fiscalização de crédito rural, apresenta propostas para aperfeiçoar o Manual de Crédito Rural, com o objetivo de fortalecer os critérios socioambientais aplicáveis ao financiamento da atividade agropecuária.

Entre as recomendações estão o reforço dos mecanismos de monitoramento e fiscalização dos empreendimentos financiados e a adoção de salvaguardas que impeçam a destinação de recursos a atividades vinculadas ao desmatamento ilegal, à grilagem de terras públicas e a outras irregularidades ambientais. 

Diagnóstico baseado em evidências

O diagnóstico consolida dados de pesquisas atualizadas sobre o tema. Entre 1985 e 2023, a área ocupada por pastagens na Amazônia cresceu mais de 363%, alcançando aproximadamente 59 milhões de hectares. Mais de um terço da madeira produzida na região ainda tem origem sem autorização. Já o garimpo em Terras Indígenas aumentou 1.217% em 25 anos, consolidando-se como um dos principais vetores de degradação ambiental e conflitos socioambientais na Amazônia. Além de apresentar esse panorama, a obra detalha como as fragilidades de cada cadeia favorecem a chamada “lavagem” de produtos ilegais.

Na cadeia do gado, por exemplo, o estudo mostra que as GTAs (Guias de Trânsito Animal), criadas originalmente para fins sanitários, poderiam ser utilizadas para reconstruir todo o histórico de movimentação dos animais quando integradas a bases como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), áreas embargadas e alertas de desmatamento. Entretanto, o acesso restrito a essas informações impede que elas sejam plenamente utilizadas para combater a lavagem de gado e o desmatamento ilegal.

Outro exemplo apresentado envolve os fornecedores indiretos — considerados o principal “ponto cego” da cadeia da carne. O livro cita investigações que identificaram mais de 90 mil cabeças de gado criadas em áreas griladas sendo transferidas para fazendas regulares antes do abate, permitindo que animais de origem ilegal chegassem ao mercado formal. O diagnóstico também destaca que nenhum dos 151 frigoríficos avaliados pelo Radar Verde 2025 comprovou monitoramento efetivo de fornecedores indiretos.

Na cadeia da madeira, o diagnóstico demonstra que possuir documentação não significa, necessariamente, que a madeira tenha origem legal. Entre os mecanismos de fraude identificados estão a criação de créditos florestais fictícios por meio da superestimação de árvores em planos de manejo, emissão de documentos falsos, uso de empresas de fachada, reutilização irregular de DOFs (Documentos de Origem Florestal) e mistura de madeira legal e ilegal durante o processamento industrial.

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro. Foto: Reprodução/JusBrasil

Já na cadeia do ouro, considerada a mais vulnerável das três, o estudo conclui que o Brasil ainda não possui um sistema nacional de rastreabilidade capaz de acompanhar o minério desde a extração até sua comercialização. Essa lacuna favorece a lavagem de ouro ilegal proveniente de Terras Indígenas e Unidades de Conservação e fortalece estruturas ligadas ao crime organizado. A publicação descreve ainda mecanismos utilizados para conferir aparência de legalidade ao minério, como o uso de títulos minerários incompatíveis com a produção declarada e a mistura de ouro de diferentes origens antes da primeira venda.

Caminhos para fortalecer a governança

Além de sistematizar os principais desafios, o livro apresenta um conjunto de recomendações para aprimorar a governança das três cadeias produtivas. Entre elas estão a integração entre bases de dados ambientais, agropecuárias e minerárias; ampliação da transparência de informações públicas; fortalecimento da fiscalização; interoperabilidade entre sistemas federais e estaduais; uso de tecnologias de monitoramento e adoção de regras mais robustas de devida diligência socioambiental por empresas e instituições financeiras.

O diagnóstico é resultado de um trabalho multidisciplinar que reuniu especialistas em direito ambiental, políticas públicas e governança socioambiental. A autoria é de Lívia Cunha de Meneze, Vivian Maria Pereira Ferreira e Raquel Frazão Rosner, advogadas do projeto ABRAMPA pelo Clima, com revisão técnica de representantes da ABRAMPA, IPAM, Ministério Público Federal, WWF e Imaflora, refletindo um esforço colaborativo para consolidar evidências, marcos jurídicos e experiências sobre a rastreabilidade das cadeias produtivas da Amazônia Legal.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia.

Biblioteca em Tefé, no Amazonas, reúne acervo científico especializado sobre a Amazônia

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Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

Desde a década de 1990, a Biblioteca Henry Walter Bates, localizada no Instituto Mamirauá, em Tefé (AM), reúne um dos mais importantes acervos especializados em ciência e pesquisa sobre a Amazônia. Com mais de 28 mil títulos catalogados, o espaço abriga livros, coleções raras, periódicos científicos, a produção técnico-científica do Instituto Mamirauá e obras de cronistas, escritores e pesquisadores que ajudaram a registrar, interpretar e compreender a Amazônia e a região do Médio Solimões ao longo do tempo.

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O acervo contempla obras voltadas à conservação da biodiversidade, ao uso sustentável dos recursos naturais, aos estudos sobre populações ribeirinhas e à diversidade socioambiental amazônica. Além da riqueza de seu conteúdo, a biblioteca chama atenção pela localização privilegiada, com vista de 180º para o Lago Tefé, um dos principais cartões-postais da cidade.

A bibliotecária Graciete Rolim trabalha na Biblioteca Henry Walter Bates desde sua implantação e acompanha a história do espaço desde os primeiros anos de funcionamento. Segundo ela, a origem da biblioteca está diretamente ligada às pesquisas que deram início ao Projeto Mamirauá e, posteriormente, ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

“A Biblioteca Henry Walter Bates nasceu, literalmente, das pesquisas do cientista e idealizador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, José Márcio Ayres. Em meados da década de 1980, ele se instalou na região para estudar o uacari-branco e, ao longo desse trabalho, reuniu um importante acervo bibliográfico. Anos depois, no início da década de 1990, com a estruturação do Projeto Mamirauá, Ayres disponibilizou grande parte desse material para compor a biblioteca, criada em 1994″, explica Graciete.

“Com a criação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em 1999, o espaço passou a contar com uma estrutura ainda mais consolidada. Além dele, outros pesquisadores também passaram a doar livros, relatórios e publicações científicas, contribuindo para a formação do acervo inicial”, relembra a bibliotecária.

Graciete Rolim também destaca que o nome da biblioteca presta homenagem a um dos mais importantes naturalistas que estudaram a Amazônia. “A biblioteca recebeu o nome de Henry Walter Bates em homenagem ao naturalista inglês, cujos estudos sobre a Amazônia serviram de importante referência para José Márcio Ayres e para diversas pesquisas desenvolvidas na região”, explica.

Ao longo de mais de três décadas, a biblioteca consolidou-se como uma importante fonte de consulta para pesquisadores, estudantes e profissionais de diversas áreas do conhecimento. Inserida em uma região cercada por importantes áreas protegidas, o espaço apoia estudos desenvolvidos na Floresta Nacional de Tefé e nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, tornando-se referência para pesquisas sobre o Médio Solimões e a Amazônia.

Hoje, a Biblioteca Henry Walter Bates consolidou-se como uma guardiã da memória e da produção científica sobre essas unidades de conservação, preservando o conhecimento acumulado ao longo de décadas de pesquisas realizadas na Amazônia.

Leia também: Biblioteca Pública do Estado do Amazonas, a guardiã da história amazonense

Biblioteca é a ‘guardiã da memória científica da Amazônia’

Entre as milhares de obras que compõem o acervo, a Biblioteca Henry Walter Bates reúne toda a produção técnico-científica desenvolvida pelos pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas. O espaço também preserva mais de 400 títulos de periódicos científicos e informativos, além de coleções bibliográficas formadas a partir de doações de pesquisadores que marcaram a história da instituição, como José Márcio Ayres, Deborah de Magalhães Lima e Michael Goulding.

Um dos destaques é a Coleção de Obras Raras, composta por exemplares publicados entre os séculos XIX e XX. Entre eles estão as primeiras edições de duas das obras mais antigas do acervo: A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro, de Alfred Russel Wallace, publicado em 1853, e The Naturalist on the River Amazons, de Henry Walter Bates, lançado em 1863 e considerado um dos mais importantes registros sobre a história natural da Amazônia.

a Biblioteca Henry Walter Bates reúne toda a produção técnico-científica desenvolvida pelos pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas.
Biblioteca Henry Walter Bates reúne toda a produção técnico-científica desenvolvida pelos pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas. Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

A coleção também reúne outros títulos históricos relacionados às primeiras expedições científicas realizadas na região.

O acervo também reúne obras de autores contemporâneos da região Norte que contribuíram para a produção científica, histórica e literária sobre a Amazônia. Entre os títulos estão Memórias de Mamirauá, de Edna Ferreira Alencar; Mamirauá, de Thiago de Mello; e A Formação Histórica do Território Tefeense, de Kristian Oliveira de Queiroz, além de diversas outras publicações dedicadas à história, à cultura e aos territórios amazônicos.

Além de preservar esse patrimônio bibliográfico, a Biblioteca Henry Walter Bates disponibiliza espaços destinados à leitura, ao estudo e à pesquisa, oferecendo computadores com acesso à internet para estudantes, pesquisadores e moradores da região. O diversificado acervo sobre a Amazônia também atrai turistas e visitantes interessados em conhecer um dos mais importantes centros de documentação científica da região.

Horários de funcionamento

Visitantes, estudantes e pesquisadores podem acessar a Biblioteca Henry Walter Bates mediante identificação na portaria do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, localizado na Estrada do Bexiga, nº 2.584, bairro Fonte Boa, em Tefé (AM). Parte do acervo da biblioteca também pode ser pesquisado aqui.

O atendimento ao público ocorre de segunda a quinta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 18h. Às sextas-feiras, a biblioteca funciona das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

*Com informações do Instituto Mamirauá

Registro de fósseis sugere duas novas espécies de macacos que viveram na Amazônia brasileira

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Registro fóssil de primatas na Amazônia ainda é extremamente escasso. Os restos foram encontrados às margens do Alto Rio Juruá e da BR-364, no Acre. Foto: Bart van Dorp/Flickr

Um grupo de cientistas desenterrou quatro dentes e um pedaço do “osso do tarso”, datados de cerca de 11 milhões de anos, na região do Acre, Amazônia brasileira, provenientes da formação geológica Solimões Superior. Embora pequenos e alguns em estado moderado de preservação, os fósseis mais do que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira, além de revelarem duas espécies totalmente novas: Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus.

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A nomeação dos dois macacos amazônicos foi possível graças à tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica dos fósseis encontrados. Os cientistas reconstruíram sua alimentação baseada nos macacos atuais: com cerca de seis quilos, Parabrachyteles vesperus tinha uma dieta composta de alimentos fibrosos, rica em folhas, como a dos muriquis. Já Migmacebus juruaensis provavelmente não ultrapassava um quilo, e teve uma dieta composta principalmente de frutas e objetos duros, como os atuais macaco-prego, macaco-inglês e parauacu.

De acordo com o artigo, publicado no Journal of Mammalian Evolution (Nature), a descrição do Parabrachyteles representa um capítulo da história evolutiva dos muriquis, enquanto Migmacebus se apresenta como uma “quimera morfológica dos macacos-esquilo atuais e dos macacos-prego”.

“A descoberta de um parente próximo dos muriquis na região do Acre, na Amazônia Ocidental, reformula drasticamente nossa compreensão da história evolutiva e biogeográfica do grupo, sugerindo que seus ancestrais já tiveram uma distribuição muito mais ampla do que se reconhecia anteriormente”, afirma Laurent Marivaux ao Jornal da USP.

Primeiro autor da publicação e pesquisador da Universidade de Montpellier, na França, o paleontólogo destaca que os muriquis modernos, hoje restritos à Mata Atlântica brasileira, não possuíam registro fóssil conhecido.

Leia também: Conheça espécies de macacos que só são encontradas na Amazônia

Esses achados são fruto de um esforço colaborativo de longa duração, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros em expedições sistemáticas realizadas com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade da proto-Amazônia brasileira. Annie Hsiou, coordenadora do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada (Lapi) da USP em Ribeirão Preto, participou do trabalho de campo que vem coletando fósseis ao longo dos últimos 15 anos.

“A diversidade dos platirrinos no Mioceno amazônico era maior do que se imaginava. O Migmacebus juruaensis apresenta uma combinação inédita de características compartilhadas com macacos-prego e macacos-de-cheiro, indicando que a diversificação dos cebíneos foi mais complexa do que o registro fóssil mostrava até agora”, aponta a professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e coautora do artigo.

Da escassez à revelação dos fósseis

O trabalho foi idealizado por pesquisadores do Museu de Ciências Naturais (MCN) do Rio Grande do Sul, ligado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura e da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul. A coleta também envolveu pesquisadores da Universidade de Toulouse (França), do Instituto Argentino de Nivología e do Instituto de Ecorregiones Andinas (também da Argentina).

A maior parte dos pequenos fósseis detalhados na pesquisa foi encontrada a partir do processo de screenwashing (peneiramento) de sedimentos coletados em barrancas de rios. O material mais grosseiro é triado ainda em campo, enquanto os sedimentos mais finos são levados ao laboratório, onde passam por uma nova triagem sob a lupa de estereomicroscópios. Foi nesse processo que o grupo identificou os dentes de primatas descritos no artigo.

Leia também: Fóssil de dente achado no Acre desvenda chegada dos primeiros primatas às Américas

Mapa dos sítios paleontológicos no Estado do Acre, noroeste do Brasil. Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior: Três ficam às margens do Alto Rio Juruá (PRJ 09, PRJ 25 e PRJ 26), no município de Marechal Thaumaturgo, e uma (AC 65, Morro do Careca) está às margens da BR-364, entre Tarauacá e Feijó – Mapa: retirado do artigo
Mapa dos sítios paleontológicos no Estado do Acre, noroeste do Brasil. Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior: Três ficam às margens do Alto Rio Juruá, no município de Marechal Thaumaturgo, e uma nas margens da BR-364, entre Tarauacá e Feijó. Imagem retirada do artigo.

À primeira vista, o registro fóssil pode parecer modesto. No entanto, para a Amazônia, o achado é sem precedentes e cientificamente precioso. “Em ambiente tropical cheio de vegetação como a região amazônica e permeado por rios, é muito difícil a preservação. A quantidade acaba sendo insignificante se comparada com outras regiões mais abertas como, por exemplo, a Patagônia, onde as barrancas estão expostas”, explica ao Jornal da USP a curadora da Seção de Paleontologia do MCN, Ana Maria Ribeiro.

Modelos digitais 3D dos restos dentários de primatas platirrinos da Formação Solimões Superior, Estado do Acre, Brasil. Imagem retirada do artigo.

Além da Patagônia, regiões como La Venta, na Colômbia, contam com diversos registros fósseis, “com numerosas espécies e fósseis mais completos”, lembra Annie Hsiou. Porém, trata-se de sítios que vêm sendo investigados continuamente há mais de 60 anos. “A pesquisa na região do Acre ainda está em um estágio muito inicial. Com trabalho de campo contínuo e exploração constante, esperamos que o registro fóssil amazônico se torne progressivamente mais rico”, complementa Marivaux.

Experiente em sítios de difícil acesso, a paleontóloga Annie Hsiou comenta sobre os desafios da coleta em locais como a Amazônia: “A floresta densa encobre os afloramentos fossilíferos. Muitos afloramentos só ficam expostos durante a estação seca, quando o nível dos rios baixa e temos acesso às barrancas dos rios”. Além disso, as condições de campo são severas. “O calor e as temperaturas extremas no verão amazônico são um teste de resistência física e mental”, diz. Esses fatores limitam a prospecção e ajudam a explicar por que os fósseis de primatas amazônicos continuam tão raros na Amazônia brasileira.

Segundo Laurent Marivaux, cada nova descoberta responde a algumas perguntas, mas também levanta muitas outras. Por exemplo, quando diferentes grupos se originaram, como se dispersaram pela América do Sul e como as mudanças ambientais antigas moldaram sua evolução. “Essa é a natureza da paleontologia: cada fóssil é uma peça pequena, porém crucial, de um quebra-cabeça muito maior. É por isso que cada nova descoberta na Amazônia representa um importante passo adiante”, diz Marivaux.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Tabita Said

Produção de mudas melhora renda de agricultores familiares em São Félix do Xingu, no Pará

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Foto: Reprodução/Imaflora

No município de São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, uma família de agricultores transformou um sonho em realidade: converter uma antiga área degradada em uma propriedade com capacidade para produzir até 12 mil mudas de árvores florestais e frutíferas. Denominada Sítio Fé na Vida, a propriedade funcionava como uma fazenda de gado marcada pelo desgaste do solo, até que a implementação de um Sistema Agroflorestal (SAF) começou a redesenhar a paisagem local.

Leia também: SAFs de açaí são alternativa alimentar para enfrentamento da crise climática

​A história de sucesso do Sítio Fé na Vida nasceu da determinação do casal Diandson Santiago e Daiane Feitosa. Há cinco anos, eles decidiram mudar os rumos da propriedade de cinco hectares, recebida como doação do pai de Diandson, para apostar na agricultura de baixo impacto ambiental.

​“A gente buscou trabalhar o SAF integrado com cacau, açaí, banana e cajá. Com isso, conseguimos iniciar também a recuperação das nascentes”, conta Daiane, com um sorriso de satisfação.

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Casal Diandson Santiago e Daiane Feitosa apostou no plantio de espécies nativas e frutíferas para reflorestar área degradada e transformar desmatamento em desenvolvimento sustentável. Foto: Divulgação/Imaflora

​​Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável com mais de 1,6 milhão de hectares, o Sítio Fé na Vida produz hoje mudas de cacau, cupuaçu, açaí, ipê-roxo, jatobá, cumaru, castanha-do-brasil, além de outras essências, além de diversas outras essências florestais.

​A trajetória, no entanto, exigiu resiliência. “Quando começamos, não tínhamos estrutura nenhuma. Produzíamos nossas mudas e os vizinhos vinham procurar, mas não tínhamos volume para vender. Começamos com uma estrutura pequena coberta de palha e era um grande sacrifício para regar”, recorda Dianderson, orgulhoso do caminho percorrido ao lado da esposa.

​Assistência técnica e restauração ambiental no Pará

O sistema de irrigação em viveiros garante uma lâmina hídrica uniforme e microclima ideal para o desenvolvimento radicular, elevando o padrão de qualidade das mudas. Foto: Reprodução/Imaflora

A virada de chave veio com a assistência técnica do Programa Florestas, do Imaflora. A assistência permitiu aos agricultores escreverem um novo capítulo. Primeiro, veio a implementação do SAF Cacau, focada na recuperação e proteção do solo, na diversificação da produção, na segurança alimentar e na geração de renda.

​“Conseguimos perceber de perto a forte vocação deles para a produção de mudas e, a partir dessa realidade, concluímos a ampliação do viveiro, fortalecendo a produção de espécies florestais e frutíferas. Hoje, o espaço tem capacidade média para produzir de 10 a 12 mil mudas por ciclo, ampliando as oportunidades e valorizando um trabalho que já faz parte da vida e da dedicação desse casal.”, explica Jefferson Campos, analista técnico do Imaflora.

Leia também: Mais de 10 mil mudas passam a ser monitoradas por tecnologia desenvolvida por startup amazonense

Produção de mudas envolve tecnologia, futuro e mercado sustentável

​De um solo exaurido a uma propriedade diversificada e rentável, o casal prova que o desenvolvimento sustentável na Amazônia é possível. “Hoje o viveiro está todo estruturado e conta com irrigação automatizada. Em apenas 10 minutos fazemos a rega de todas as mudas, processo que antes levava horas. Para o futuro, nossa proposta é introduzir novas espécies para criar um banco de sementes. O Imaflora tem sido fundamental, nos apoiando desde as técnicas de plantio, seleção de sementes até a comercialização das mudas”, finaliza Diandson.

A experiência do Sítio Fé na Vida mostra que recuperar áreas degradadas também pode significar criar oportunidades para quem vive e produz na Amazônia. Ao transformar a produção de mudas em fonte de renda, Diandson e Daiane contribuem para ampliar a oferta de espécies nativas e frutíferas, fortalecer a agricultura familiar e estimular a recuperação de áreas degradadas.

Iniciativas como essa ajudam a construir uma relação mais equilibrada entre produção e conservação, gerando benefícios que ultrapassam os limites da propriedade: cada muda produzida pode representar uma nova árvore no território, mais biodiversidade, proteção do solo e das nascentes e melhores condições de vida para as famílias que dependem da floresta.

É um exemplo de que investir nas pessoas e na natureza pode ser, ao mesmo tempo, uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia e um caminho para construir um futuro mais sustentável.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora

De Porto Velho para Paris: artista rondoniense tem obras selecionadas para exposição na França

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Jessica Ribeiro, artista plástica de Porto Velho. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO

A artista plástica e professora de pintura Jessica Ribeiro encontrou na arte, ainda na infância, uma forma de expressão. Moradora de Porto Velho (RO), ela ensina pintura para crianças e adultos e agora se prepara para levar o trabalho que desenvolveu em Rondônia para o Carrousel du Louvre, em Paris, na França.

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Ao Grupo Rede Amazônica, a artista contou que esta não é a primeira vez que expõe fora do país. A primeira experiência internacional ocorreu em Portugal, em 2025. Antes de chegar a Paris, porém, a relação de Jessica com a arte começou ainda na infância.

“Quando criança, gostava de praticar, fazendo desenhos, olhando, copiando traços que eu queria aprender. Mas para eu me sentir artista, foi algo que foi crescendo dentro de mim e algo que eu fui aprimorando até eu perceber que aquilo era algo que realmente fazia parte de quem eu sou”, conta.

Pinturas de Jéssica Ribeiro. Foto: Reprodução

Grande parte do aprendizado veio de forma autodidata, observando outras pessoas e experimentando. Como nem sempre tinha acesso aos materiais adequados, Jessica também precisou improvisar, experiência que, segundo ela, acabou influenciando sua forma de criar.

Com o passar do tempo, foi aprimorando a técnica e, aos 10 anos, teve a primeira oportunidade de fazer aulas de pintura. Foi quando teve contato com a tinta a óleo, técnica que continua presente em seu trabalho.

“A arte faz parte da minha personalidade, está impregnada em mim. Eu não consigo me imaginar longe disso”, conta a artista.

Do pincel ao ensino

Pintura dos alunos de Jéssica Ribeiro em Porto Velho. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO

A ideia de ensinar surgiu a partir de algumas experiências que Jessica teve como professora de pintura. A partir dos workshops que passou a oferecer, ela percebeu que também tinha facilidade para ensinar e decidiu abrir o próprio ateliê, onde hoje ministra aulas para pessoas de diferentes idades.

“Eu vi que era algo que eu conseguia fazer, porque você saber pintar, você saber desenhar é uma coisa. Agora, você saber ensinar isso para outras pessoas é diferente. Você tem que ter uma metodologia”, revela Jessica.

Para a professora, ensinar vai além do retorno financeiro. Ao longo dos dois anos de aulas no ateliê, ela percebeu que criou um ambiente de amizade e aprendizado entre os alunos. Além de ensinar técnicas, Jessica também busca dar liberdade para que cada estudante desenvolva a própria criatividade e encontre novos caminhos dentro da arte.

“Eu tenho alunos que já fizeram aulas aqui e hoje se sentem independentes para poder criar suas próprias artes, para poder buscar o seu próprio caminho. Mas é muito legal saber que eles começaram aqui”, revela Jessica.

Leia também: Artista de Rondônia expõe obras sobre a Amazônia em Nova York

Pinturas de Jéssica Ribeiro retratando à fauna e arquitetura regional. Foto: Reprodução

Hobby manual

Em tempos de inteligência artificial (IA), excesso de telas e consumo acelerado de conteúdo, a prática de hobbies manuais, como a pintura e o desenho, ganha ainda mais relevância. Para Jessica, ensinar essas técnicas também é uma forma de oferecer às pessoas um espaço para a expressão das próprias emoções.

A professora e artista visual Amanara Brandão Lube reforçou essa percepção. Segundo ela, a arte vai além de um simples passatempo ou de uma atividade com finalidade comercial. O processo criativo mobiliza habilidades motoras, criativas, imaginativas e emocionais, além de permitir que cada pessoa expresse sua subjetividade e suas experiências de vida.

“O mais importante, muitas vezes, não é a obra final, mas o processo percorrido para chegar até ela. Fazer arte exige que a pessoa esteja inteira, colocando na prática sua história, suas emoções e sua forma de ver o mundo”, explica Amanara.

Para Amanara, em um cenário marcado pela inteligência artificial e pelo consumo rápido de informações, a prática artística representa um momento de pausa e conexão consigo mesmo.

“A arte é uma forma de nos situarmos no mundo diante de tanto estímulo. Mobilizar as emoções, as habilidades manuais e intelectuais para criar algo que está além da lógica da produtividade e do consumo rápido já é um ato de resistência”, afirma.

A especialista também destaca que a arte fortalece a imaginação, considerada por ela uma ferramenta essencial para encontrar soluções, criar novas possibilidades e projetar um futuro diferente. Outro ponto ressaltado por Amanara é que desenhar e pintar não são habilidades restritas a quem nasce com um “dom”. Segundo ela, o desenvolvimento artístico depende principalmente da prática e do estímulo.

“Os estudos em arte mostram que esse ‘dom’ é um mito. Existem pessoas com mais facilidade, mas ninguém desenvolve uma linguagem artística sem prática e estudo. Qualquer pessoa pode fazer arte”, diz.

Ela lembra ainda que as crianças costumam desenhar, brincar e criar de forma espontânea, mas que, ao longo da vida, muitas acabam perdendo essa liberdade por causa da pressão por perfeição e do medo de errar.

“Nunca é tarde para encontrar ou reencontrar o artista que existe dentro de cada pessoa”, afirma.

Artista com reconhecimento internacional

Artista de Rondônia começou a paixão pela arte na infância.
Jessica Ribeiro, artista plástica expondo em Portugal. Foto: Reprodução

Depois de transformar a paixão da infância em profissão, Jessica agora vive um dos momentos mais importantes da carreira. A artista já expôs em Portugal e se prepara para expor no Carrousel du Louvre, em Paris. A oportunidade surgiu após ela passar por um processo seletivo, algo que, segundo Jessica, sempre sonhou ao acompanhar outros artistas brasileiros e estrangeiros sendo selecionados.

As obras que serão apresentadas são inéditas e foram produzidas especialmente para a exposição, mas mantêm a identidade que Jessica construiu em sua trajetória, com referências a mulheres, à cultura de Porto Velho e à própria história familiar.

Para ela, levar sua arte a Paris também significa apresentar Rondônia e sua cultura a pessoas de diferentes partes do mundo.

“Eu acho muito importante porque é um ponto muito incrível para a vida do artista. Você percebe que a sua arte não vai conquistar somente as pessoas que vivem essa cultura, que se conectam, que já têm uma história, mas também pessoas de uma cultura muito diferente da nossa”, afirma.

Jessica diz ainda que tem curiosidade para saber como o público estrangeiro vai receber suas obras e destaca a possibilidade de compartilhar um pouco da identidade amazônica com quem visitar a exposição. “É muito interessante poder dividir com essas pessoas um pouco mesmo do que me rodeia. Então, poder ter uma arte minha numa galeria tão famosa como o Carrousel du Louvre é muito incrível”, completa.

Pinturas de Jéssica Ribeiro. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO

*Por Mateus Santos, Rede Amazônica RO