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Estados da Amazônia tiveram até 138 dias de ar nocivo à saúde após queimadas

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Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Queimadas recorde de 2024 cobriram porções da Amazônia com partículas nocivas à saúde por até 138 dias, aponta estudo inédito conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Em 2025, a redução dos focos de calor diminuiu em 71% a presença de ar impuro na região. Ainda assim, estados da porção sudoeste do bioma enfrentaram mais de 20 dias de exposição à fumaça tóxica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição ao PM 2.5, material particulado fino associado às queimadas, está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão.

“Em 2024, a Amazônia viveu um cenário bem crítico de poluição do ar por causa da seca extrema, com impactos claros para a saúde da população. Em 2025, com o clima mais favorável, a situação melhorou e a qualidade do ar também. Essa comparação mostra como eventos climáticos extremos e queimadas estão diretamente ligados ao aumento da poluição e reforça a necessidade de investir em prevenção, monitoramento e ações integradas entre meio ambiente e saúde”, explica Vanessa Ribeiro, pesquisadora do IPAM e uma das autoras do estudo.

Em 2024, queimadas impulsionadas por uma seca histórica elevaram a área atingida pelo fogo na Amazônia para mais de 17 milhões de hectares, segundo dados do Monitor do Fogo da Rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte.

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Em 2025, com a normalização do regime de chuvas e a adoção de políticas de manejo do fogo, a área queimada caiu 78%, totalizando 3,8 milhões de hectares. Os estados mais atingidos em 2024 — Pará, Mato Grosso e Tocantins — registraram, em média, 47 dias de ar considerado nocivo à saúde, superando níveis de poluição observados em grandes metrópoles. Rondônia, oitavo estado com maior área queimada no período, somou 100 dias de ar poluído, liderando o ranking de exposição prolongada.

Publicada em 20 de março, a nota técnica “Amazônia em Chamas: a qualidade do ar em 2024 e 2025” foi elaborada por pesquisadores do IPAM, da Columbia Climate School, do Woodwell Climate Research Center e do Instituto Ar.

O estudo propõe incorporar o monitoramento sistemático da qualidade do ar associada a queimadas e incêndios florestais como uma nova camada de análise sobre os impactos desses eventos na população e no meio ambiente.

A iniciativa também busca preparar territórios sob influência do fogo recorrentes para lidar com a pressão adicional exercida pela poluição atmosférica sobre os sistemas de saúde e as estratégias de adaptação.

“Diferentemente de outros biomas, a Amazônia não possui um regime natural de fogo e não evoluiu para lidar com queimadas. Na prática, quase todo o fogo registrado na região tem origem humana — seja pelo uso agropecuário para limpeza de pastagens e preparo de áreas agrícolas, seja pela queima intencional de vegetação desmatada. Em anos de seca extrema, como 2024, essas ignições escapam ao controle e se transformam em grandes incêndios florestais, amplificando drasticamente a destruição ambiental e a poluição atmosférica”, explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM que também trabalhou na pesquisa.

Para minimizar os riscos associados à baixa qualidade do ar provocada pelo fogo, o estudo recomenda integrar metas de qualidade do ar aos planos de controle do desmatamento e das queimadas, como o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).

A nota técnica também defende a capacitação de profissionais de saúde e a criação de protocolos específicos para reduzir os danos da exposição à fumaça e permitir respostas mais rápidas e coordenadas a crises ambientais.

Leia também: Amazônia tem o maior número de queimadas e incêndios em 17 anos

queimadas na amazônia
Foto: Ruan Gabriel/Rede Amazônica

Mudanças em 2025

Em 2025, observou-se uma redução da exposição à poluição atmosférica no sudoeste da Amazônia Legal, enquanto parte relevante do material particulado passou a se concentrar na porção leste do bioma. Nesse período, Maranhão e Rondônia registraram os maiores níveis de poluição, com 13 e 11 dias consecutivos, respectivamente, de ar com elevada concentração de partículas na atmosfera.

A diminuição das queimadas também reduziu o número de dias consecutivos com ar de baixa qualidade nos estados do sudoeste amazônico. Em Rondônia, o total caiu de 89 para 11 dias; em Mato Grosso, de 59 para 12; e no Acre, de 51 para 4 dias consecutivos. Por outro lado, o Maranhão apresentou aumento de 2 para 13 dias consecutivos, indicando maior quantidade dos episódios críticos na porção leste da Amazônia Legal.

“Entre 2024 e 2025, as mudanças não ficaram só na área total queimada. O que realmente fez diferença foram as condições climáticas, que influenciaram tanto a intensidade quanto a forma como a poluição se espalhou. Em 2024, a seca extrema ligada ao El Niño reduziu muito as chuvas, aumentou as temperaturas e deixou o ar mais seco. Esse cenário facilitou a propagação das queimadas, fez os incêndios durarem mais tempo e dificultou a dispersão dos poluentes”, explica Vanessa.

A atenuação dos efeitos do El Niño em 2025 contribuíram para o retorno das chuvas e a redução do número de queimadas e do ressecamento do ar. Ainda, políticas de Manejo do Fogo implementadas no ano passado também contribuíram para a redução da área atingida, assim como para a redução da duração das queimadas.

“Com chuvas mais regulares e um clima menos extremo, a vegetação ficou menos inflamável. Isso ajudou a reduzir não só o volume total de emissões, mas também alterou a circulação e o transporte das massas de ar. A comparação entre os dois anos mostra que a poluição atmosférica na Amazônia não depende apenas do tamanho das áreas queimadas, mas da combinação entre ações humanas e fatores climáticos, que influenciam tanto a emissão quanto a dispersão dos poluentes”, completa a pesquisadora.

Nos municípios, os indicadores permaneceram concentrados no Arco do Desmatamento — região que abrange o sul e o leste do Pará, o norte do Mato Grosso, Rondônia e Acre —, porém com menor intensidade e menor abrangência territorial em relação ao ano anterior.

Também houve mudança no perfil dos municípios mais afetados, que passaram a se concentrar predominantemente no Pará (Rondon do Pará, Jacundá, Novo Repartimento e Abel Figueiredo) e no Maranhão (Codó, Brejo de Areia e Lago da Pedra), evidenciando o deslocamento dos episódios críticos para o leste da Amazônia Legal.

*Com informações do IPAM

A guerra no Irã já afeta negativamente a economia brasileira

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Polo Industrial de Manaus (PIM). Foto: Divulgação

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

A escalada da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã vem adicionando pesadas incertezas no cenário político e econômico internacional. Face aos repetidos aumentos que vêm se registrando nos preços dos combustíveis impulsionados pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, o petróleo bruto, cotado antes do conflito em torno de US$65/US$72, subiu na semana passada mais de 10%, para US$ 119.13 o barril.

Inevitavelmente, a disparada nos preços irá impactar seriamente a inflação e manter os juros altos sem previsão de retorno à posição vigente anteriormente à guerra. Definitivamente, juros elevados reduzem o acesso ao crédito, afetando negativamente o consumo das famílias, a renda e o emprego.

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A incerteza da conjuntura mundial tende a desestimular investimentos produtivos. Segundo especialistas, a instabilidade do mercado petrolífero é reflexo da alta acumulada de 40% a 50% desde o início dos conflitos. Consequentemente, a guerra já está afetando seriamente o comércio global, e, certamente, as exportações brasileiras do agronegócio. O setor, ressalte-se, é o sustentáculo do crescimento do nosso PIB.

Levantamentos da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) apontam que as exportações deverão sofrer importantes impactos no período do conflito, sobretudo em decorrência de perdas potenciais do agronegócio devido a disparada nos preços dos fertilizantes, aumento nos custos de produção e logística das exportações.

Para a Embrapa, o Brasil é um dos líderes na produção mundial de alimentos. Entretanto, altamente deficitário nesse mercado, importa cerca de 85% do volume de fertilizantes utilizados anualmente. Em 2025, todo o estoque de ureia do país teve origem no exterior, com aproximadamente 41% das importações passando justamente pelo Estreito de Ormuz, segundo a consultoria Agrinvest.

Citado por Exame Agro, além das rotas interrompidas, armadores já aplicam taxas adicionais de guerra de até US$ 4 mil por contêiner, enquanto frigoríficos enfrentam dificuldades de embarque e avaliam reduzir temporariamente a produção destinada ao mercado halal (mundo árabe). Caso a crise persista, parte da carne pode ser redirecionada para outros centros, pressionando ainda mais os preços internacionais.

Outro fator de maior gravidade sobre a conjuntura econômica do Brasil para 2026 diz respeito à Selic (taxa básica de juros da economia brasileira). Mantida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desde 18 de junho de 2025, foi finalmente cortada para 14,75% no último 17 de março. A medida visou sinalizar movimento destinado a tornar menos onerosa a obtenção de créditos financeiros, limitação que constitui incontornável “freio” para a atividade econômica, daí a taxa de juros configurar o principal instrumento usado pelo BC no controle da inflação. Em comunicado, o Copom salientou que “a decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”.

Não obstante à queda, o Brasil segue com a segunda maior taxa de juro real entre as principais economias do mundo, atrás apenas da Turquia. O juro real brasileiro calculado pelas consultorias econômicas MoneYou e Lev Intelligence será de 9,51% — acima de Rússia e Argentina (ambos com 9,41%). O BC informou ao mercado que, face à instabilidade da economia mundial, em 2026 deverá prosseguir a política de desaceleração da atividade econômica, projetando uma alta de apenas 1,8% para o PIB em pleno ano de eleições presidenciais, segundo a mediana de projeções colhidas pelo jornal Valor Econômico.

Como fator complicador adicional, o Brasil encerrou 2025 com 76,6% das famílias endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor divulgada em dezembro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cenário para nossa economia, como se observa, não é dos mais alvissareiros. Por conseguinte, sinal amarelo para a ZFM, que está a demandar ações preventivas de governo visando eliminar, ou minimizar, danos maiores à nossa economia decorrentes do cataclisma que se forma a partir do Oriente Médio.

Leia também: Panamá, o mais importante hub logístico e financeiro da América Latina

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Ciência na Amazônia: apesar do potencial imenso, desigualdade de recursos persiste

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UFPA é uma das maiores produtoras de conhecimento sobre a Amazônia do mundo e está entre as instituições científicas da região que sofrem com a distribuição desigual de verbas. Foto: Divulgação/UFPA

A Amazônia ocupa um lugar paradoxal na ciência brasileira. Apesar de concentrar alguns dos maiores desafios socioambientais do século 21 — como desmatamento, mudanças climáticas, insegurança alimentar, conflitos territoriais e perda acelerada da biodiversidade —, a Amazônia continua recebendo uma fração desproporcionalmente pequena dos recursos destinados à ciência e tecnologia no Brasil.

Essa assimetria histórica limita não apenas a capacidade científica regional, mas também a efetividade das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.

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Recentemente, observou-se um novo exemplo dessa desigualdade estrutural. Em uma chamada suplementada do CNPq voltada à ampliação de bolsas de pós-doutorado no país, menos de 4% das bolsas foram destinadas à região Norte.

O número contrasta com a importância da Amazônia, que representa mais da metade do território nacional, contribui com 9,6% do PIB total do país (2022) e concentra uma parte expressiva das agendas científicas e das estratégias do país.

Essa distribuição desigual de recursos define, dentre outras coisas, onde jovens doutores conseguirão permanecer, onde grupos conseguirão se consolidar e em quais regiões as redes científicas ganharão maior densidade.

Essa lógica reforça um padrão conhecido: a Amazônia segue amplamente estudada, mas raramente decide os rumos da ciência que se faz sobre ela. Os principais centros de decisão permanecem concentrados em outras regiões do país ou no exterior, o que fragmenta os esforços científicos e dificulta a transformação do conhecimento produzido localmente em benefícios diretos para as populações amazônicas e para a conservação do bioma.

Ainda assim, são as instituições amazônicas que sustentam parte relevante dessa produção, mesmo operando com menos recursos e maior instabilidade.

A potência da Amazônia em rede

Apesar dessas desigualdades, experiências recentes mostram que, quando há financiamento estável e um desenho institucional adequado, a ciência produzida na Amazônia pode alcançar alto impacto. Programas estruturados em rede, como os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), reúnem pesquisadores e instituições em torno de problemas comuns, compartilhando dados, infraestrutura e conhecimento.

Em regiões como a Amazônia, esse modelo é estratégico porque permite otimizar recursos escassos, reduzir desigualdades internas e ampliar o alcance da ciência produzida localmente.

Em Manaus, o INCT-Adapta, dedicado ao estudo da adaptação da biota aquática amazônica às mudanças climáticas, mostra que redes científicas sediadas na Amazônia são capazes de atuar na fronteira do conhecimento. Entre 2017 e 2024, o instituto acumulou mais de 700 publicações, com ampla circulação internacional e inserção em redes globais de citação, ao mesmo tempo em que formou centenas de pesquisadores em diferentes níveis, da iniciação científica ao pós-doutorado.

A atuação do INCT-Adapta também evidencia a força temática da ciência amazônica. Pesquisas sobre mudanças climáticas, fisiologia de peixes, qualidade da água, pesca e aquicultura aparecem como núcleos de alta relevância científica, conectando conhecimento básico a problemas enfrentados pelas populações da região. Trata-se de ciência básica e aplicada, socialmente relevante e alinhada às grandes agendas globais.

Em Belém, outro exemplo relevante do potencial das redes científicas amazônicas é o INCT dedicado à Síntese da Biodiversidade Amazônica, o SynBiAm, recentemente analisado em artigo publicado nos Proceedings of the Royal Society B. A experiência do SynBiAm mostra que redes colaborativas, quando estruturadas de forma deliberada, podem funcionar como infraestruturas científicas voltadas não apenas à produção de novos dados, mas também à integração, curadoria e interpretação coletiva do conhecimento já existente.

O artigo destaca que o SynBiAm articula dezenas de instituições acadêmicas e não acadêmicas, combinando diferentes disciplinas, escalas de análise e contextos territoriais, com ênfase na formação de capacidades locais e na produção de conhecimento socialmente relevante.

Essas experiências deixam claro que o principal gargalo da ciência amazônica não é a ausência de competência, qualidade, relevância ou produtividade, mas a falta de políticas de fomento estáveis, proporcionais e de longo prazo.

Leia também: Físico incentiva ações de popularização da ciência na região amazônica

oficina valoriza produção científica na amazônia
Foto: Valeria Nakashima/Acervo Inpa

Expandir redes, formar pessoas e fixar ciência na Amazônia

Expandir e fortalecer programas como os INCTs na Amazônia não significa apenas lançar novos editais. Exige reconhecer essas redes como infraestruturas estratégicas para formar pessoas, produzir conhecimento e fixar pesquisadores na região. Quando articuladas a bolsas de pós-doutorado e políticas de inovação, essas redes podem criar trajetórias científicas mais estáveis para jovens pesquisadores amazônicos.

Sem corrigir a concentração regional das bolsas e das oportunidades, a ciência amazônica continuará formando pesquisadores que acabam deixando a região. Isso enfraquece a capacidade local de inovação e de síntese de conhecimento.

regra atual — que busca garantir que 30% dos recursos de alguns editais cheguem às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste — tem se mostrado insuficiente. Na prática, essa proporção não garante que os recursos cheguem à Amazônia de forma compatível com sua extensão territorial, sua população, sua contribuição ao conhecimento científico nacional e, sobretudo, com seu papel estratégico para o futuro do país.

Nesse contexto, ganha relevância a moção aprovada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), durante sua reunião anual em Belém, que propõe a destinação de, no mínimo, 10% do orçamento nacional de ciência e tecnologia exclusivamente para a Amazônia. Trata-se de um marco político-científico que reconhece explicitamente o chamado “custo amazônico”, os maiores gastos logísticos, operacionais e humanos necessários para a realização de pesquisa de qualidade na região.

Além disso, é fundamental enfrentar a instabilidade crônica do financiamento científico. A cada ciclo de projetos, as instituições amazônicas precisam lidar com a incerteza quanto à continuidade de programas estruturantes. O caso do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) é emblemático: o atual ciclo se encerra em 2026, sem qualquer garantia de lançamento de um novo edital ou de manutenção do financiamento, o que coloca em risco décadas de construção de dados, formação de pessoas e monitoramento ambiental.

Diante desse quadro, a escolha é inequívoca: ou o país reconhece a ciência e, em particular, a ciência amazônica como infraestrutura estratégica de Estado, com financiamento estável, diferenciado e de longo prazo, ou seguirá reproduzindo um modelo que concentra capacidades, aprofunda desigualdades regionais e compromete sua própria capacidade de futuro.

Expandir redes, garantir bolsas, assegurar a continuidade de programas estruturantes e corrigir assimetrias não são concessões corporativas, mas decisões políticas que definem se o Brasil será capaz de produzir conhecimento onde seus maiores desafios se colocam.

Para um país historicamente marcado por assimetrias regionais e por ciclos curtos de financiamento científico, apostar na consolidação de redes como os INCTs na Amazônia é um projeto de futuro. Fortalecer a ciência amazônica significa fortalecer a capacidade do Brasil de responder aos desafios climáticos, ambientais e sociais do século 21, com ciência feita na Amazônia, por quem vive e trabalha nela.

Autores

  1. Adalberto Luis Val – Coordenador do INCT ADAPTA e pesquisador, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)
  2. Francisco Ribeiro da Costa – Reitor, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa)
  3. Leandro Juen – Professor Associado III de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Pará (UFPA)
  4. Susana Braz-Mota – Doutora em Biologia de Água Doce, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)
  5. Tiago da Mota e Silva – Doutor em Comunicação e Semiótica, bolsista CNPq no INCT-ADAPTA,, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons. Leia o original AQUI.

The Conversation

Pesquisadores estudam potencial econômico e ambiental do bambu na Amazônia peruana

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Foto: Reprodução/Agência Andina

Cientistas do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP) e da Universidade Nacional Agrária La Molina implementarão o projeto BambúTech em Ucayali. A iniciativa visa revelar o potencial produtivo e climático das extensas florestas de bambu que cobrem grande parte dessa região.

A iniciativa propõe estudar o bambu a partir de uma perspectiva abrangente que combine ciência, inovação tecnológica e oportunidades produtivas para a região.

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O IIAP destacou que, com milhões de hectares de bambuzais ainda pouco estudados, a iniciativa busca transformar esse recurso natural em uma alternativa sustentável para a geração de valor econômico, manejo florestal e captura de carbono na Amazônia peruana.

O projeto, denominado BambúTech, é financiado pela ProCiencia da Concytec. A pesquisa terá duração de três anos e visa estudar o bambu a partir de uma perspectiva abrangente que combine ciência, inovação tecnológica e oportunidades produtivas para a região.

O IIAP destacou que Ucayali possui cerca de 3,5 milhões de hectares de florestas, uma área considerável que tem sido pouco analisada sob uma perspectiva científica. O engenheiro Diego García, pesquisador em agroflorestamento familiar, explicou que um dos principais objetivos será quantificar o carbono armazenado nessas florestas por meio da instalação de parcelas permanentes de monitoramento em diferentes ecossistemas.

pesquisa bambu peru
Foto: Reprodução/Agência Andina

Leia também: Estudo mostra potencial do bambu no Acre

Para melhorar a precisão das medições, o projeto incorporará drones com imagens de alta resolução, uma tecnologia que permitirá estimar os estoques e fluxos de carbono em áreas muito maiores.

“Isso nos permitirá quantificar o carbono em grandes florestas de bambu e entender melhor o papel que essas florestas desempenham no sequestro de carbono”, afirmou García.

Potencial do bambu

A pesquisa também explorará o potencial produtivo, particularmente espécies do gênero Guadua, por meio do desenvolvimento de tábuas e protótipos de móveis.

Segundo o pesquisador, esses produtos serão submetidos a testes técnicos para aprimorar seu uso na fabricação de móveis e outros produtos, além de oferecer treinamento e assistência técnica a marceneiros que trabalham com esse material.

O projeto também inclui um inventário da diversidade de espécies na região, bem como uma avaliação do biochar produzido a partir de resíduos de bambu, um material que pode ser utilizado para melhorar a fertilidade de solos degradados.

Leia também: Biocarvão é alternativa sustentável para fertilidade de solos amazônicos, aponta pesquisa

Por meio dessas linhas de pesquisa, os especialistas pretendem demonstrar que um recurso abundante e subutilizado na Amazônia pode se tornar uma oportunidade para promover inovação, sustentabilidade e desenvolvimento local.

*Com informações da Agência Andina

Seca, enchente, calor: eventos climáticos extremos ameaçam ecossistemas fluviais

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Em 2023, seca severa associada a onda de calor levou a temperaturas inéditas em rios e lagos da Amazônia. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Secas severas, enchentes intensas e ondas de calor pressionam os ecossistemas fluviais para além de seus limites naturais de resiliência. Revisando dados de sistemas fluviais de diversos continentes, pesquisa publicada na revista Nature Reviews Biodiversity mostra como, na maioria dos casos, a natureza não consegue retornar ao estado anterior após eventos climáticos extremos e sucessivos.

As consequências vão desde extinções locais e colapsos nas cadeias alimentares até alterações permanentes nos serviços que os rios oferecem às sociedades humanas.

“Eventos climáticos extremos estão aumentando em severidade e frequência, remodelando fundamentalmente os ecossistemas fluviais. Os rios funcionam como redes conectadas e, por isso, os impactos de um evento extremo quase nunca ficam restritos a um único ponto, eles se espalham por todo o sistema”, alerta Tadeu Siqueira, um dos autores do artigo.

Ele é docente do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp) em Rio Claro e coordenador de Integração do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.

Uma das conjunturas abordadas pelo estudo envolve secas severas que levam à interrupção do fluxo em nascentes de rios. Nessas condições, a matéria orgânica se acumula nas áreas secas e, quando a água retorna, grandes volumes desse material são transportados rio abaixo. Esse processo pode provocar desoxigenação da água, mortandade de peixes e prejuízos a atividades humanas, como a geração de energia.

O risco se intensifica com os chamados eventos extremos compostos: combinações de secas acompanhadas por ondas de calor ou incêndios florestais seguidos de chuvas intensas produzem impactos desproporcionais. Foram observados casos recentes, como o colapso do plâncton no rio Yangtzé, na China, em 2022, e a mortandade de peixes no rio Klamath, na Califórnia, após uma sequência de incêndios e tempestades.

Efeitos climáticos como a seca estão cada vez mais intensos

No Brasil, em 2023, uma seca severa associada a uma onda de calor levou a temperaturas inéditas em rios e lagos da Amazônia. Em alguns locais, as águas ultrapassaram 37 °C e um dos lagos monitorados chegou a atingir 41 °C em toda a coluna d’água.

Leia também: Documentário ‘Manaus Extrema’ mostra detalhes sobre a seca do Rio Negro em 2023

Seca extrema e temperaturas recordes de até 41°C levaram ao superaquecimento dos lagos amazônicos - seca na amazônia
Seca 2023 na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Esses níveis de aquecimento causam grandes mortandades de peixes e outros organismos aquáticos, além de indicarem que eventos próximos aos limites térmicos suportáveis pelas formas de vida podem se tornar mais comuns em sistemas tropicais.

Dados de satélite reforçam essa tendência, apontando um aquecimento gradual das águas amazônicas de cerca de 0,6 °C por década desde os anos 1990. A combinação de radiação solar intensa, águas mais rasas, vento fraco e alta turbidez cria condições propícias para o superaquecimento.

O estudo atenta ainda para os limites das estratégias tradicionais de conservação e revela que a aposta em refúgios climáticos naturais, áreas mais frias e protegidas, pode não ser suficiente diante de ondas de calor mais longas e intensas. Nesse cenário, Siqueira defende uma mudança de paradigma, com a transição de ações locais e reativas para estratégias antecipatórias e de maior escala.

“Para enfrentar eventos cada vez mais intensos, é hora de pensar em gestão de bacias e resiliência em larga escala”, salienta o pesquisador. Entre as propostas estão a restauração ampla de hábitats, a melhoria da conectividade entre rios, a proteção de áreas de recarga de aquíferos e a adoção de soluções baseadas na natureza.

Segundo o pesquisador, para viabilizar alternativas eficazes, é preciso investir em programas de monitoramento de alta resolução e frequência, capazes de registrar eventos extremos durante a sua ocorrência, além de fortalecer pesquisas de longo prazo que permitam a compreensão dos impactos que persistem por muito tempo após sua ocorrência.

O artigo Extreme events and river biodiversity under climate change pode ser lido em: nature.com/articles/s44358-026-00131-7.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Michelle Braz – bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao CBioClima

Nova espécie de peixe endêmica é identificada em Loreto, no Peru

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Foto: Divulgação/Agência Andina

Pesquisadores do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP) identificaram uma nova espécie de peixe nas águas do rio Tigre, que atravessa a província e região de Loreto. A espécie, cujo nome científico é Pyrrhulina punctata, distingue-se por um padrão de manchas escuras em seu corpo que o diferencia de qualquer outro peixe conhecido até o momento na região.

Isso foi destacado pelo IIAP, que especificou que essa descoberta é resultado de um esforço coordenado entre a equipe de especialistas daquela instituição e especialistas de universidades brasileiras como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; a Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá; e o Instituto de Biociências de Botucatu (UNESP).

Leia também:  Planta pré-histórica descoberta no Peru é adaptada à áreas alagadas

Os detalhes da pesquisa aparecem na última edição da revista científica internacional Journal of Fish Biology. O IIAP destacou que, graças a esse trabalho, o Peru adiciona um novo membro à sua lista de peixes de água doce.

Características da nova espécie de peixe

A principal característica da Pyrrhulina punctata é uma fileira de 7 a 16 manchas pretas irregulares em seus flancos ou laterais. Ao contrário de outros peixes semelhantes, esta espécie mantém suas marcas desde o nascimento até a idade adulta.

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peixe pyrrhulina punctata loreto amazônia peruana foto agencia andina
Foto: Divulgação/Agência Andina

A coloração marcante lhe confere valor ornamental. Além disso, exibe dimorfismo sexual acentuado, com os machos desenvolvendo nadadeiras mais grossas e longas. As margens distais escuras dessas nadadeiras servem como uma característica distintiva de identificação.

Para confirmar que se tratava de uma espécie distinta, os pesquisadores utilizaram técnicas modernas que combinam observação física com análises genéticas avançadas baseadas em DNA. Esse método permitiu distinguir com precisão a Pyrrhulina punctata de outros parentes próximos que habitam a bacia amazônica.

O IIAP explicou que os espécimes utilizados no estudo foram coletados dentro da Reserva Nacional Pucacuro, uma área de floresta tropical que ainda se mantém em excelente estado de conservação. Por fim, o instituto afirmou que essa conquista científica é de grande importância porque a espécie é endêmica do Peru e habita pequenos desfiladeiros em uma área natural protegida, o que garante sua sobrevivência diante das ameaças ambientais.

*Com informações da Agência Andina

117 anos de força e longevidade: conheça a Tia Margarida, paraense que vive no Amapá

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Tia Margarida emociona filhos, netos e bisnetos com sua história de resistência. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

A anciã Oneide de Souza, conhecida como Tia Margarida, completou 117 anos de vida no dia 20 de março. Nascida em 20 de março de 1909, na Ilha de Viçosa, município de Chaves (PA), ela vive há sete anos em Macapá (AP), onde recebe cuidados da filha e da neta.

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A trajetória de Tia Margarida impressiona pela resistência e pela história de luta. Mãe solo, criou cinco filhos trabalhando na roça, tirando leite da seringueira e vendendo no período da borracha. Também foi castanheira e empregada doméstica. Com sacrifício e coragem, sustentou a família sozinha.

Segundo o Guinness World Records 2026, a pessoa mais velha do mundo é a britânica Ethel Caterham, com 116 anos. Isso significa que Tia Margarida, com 117 anos, é ainda mais velha, embora sua idade não esteja oficialmente registrada pelo Guinness.

Tia Margarida tem 117 anos. Amapá.
Tia Margarida tem 117 anos. Foto: Divulgação

Trajetória e desafios de Tia Margarida

Hoje, sem visão e com limitações físicas, ela depende de ajuda para todas as atividades. Vive na capital amapaense aos cuidados da neta Yolanda e da filha Maria Benedita de Souza, de 70 anos, que também enfrenta problemas de saúde, mas se dedicam diariamente à matriarca.

Antes de falar sobre a emoção de ver a mãe chegar a essa idade, Benedita lembra das dificuldades enfrentadas no dia a dia.

“Não é fácil. Eu também tenho meus problemas de saúde e, sem cadeira de rodas ou de banho, precisamos carregar minha mãe para fazer o asseio diário. Mas Deus tem nos dado força para continuar cuidando dela”, conta Maria Benedita.

A família sobrevive com o benefício de um salário mínimo pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e com trabalhos informais do genro.

Eles fazem um apelo por ajuda: precisam de uma cadeira de rodas e um assento para banho para garantir mais conforto à idosa. Apesar das dificuldades, Benedita se emociona ao falar da mãe.

“É um privilégio muito grande ver minha mãe chegar nessa idade. Ela sempre foi uma mulher guerreira, muito humilde e cuidadosa. Criou os filhos com trabalho duro, tirando seringa, castanha, tudo para nos alimentar. Hoje, mesmo com tantas limitações, continua sendo nossa inspiração”, disse.

Leia também: Tsimane, a comunidade indígena na Bolívia em que as pessoas envelhecem mais lentamente

O segredo da longevidade

A alimentação simples também marcou a vida de Tia Margarida. Batata-doce, macaxeira, peixe e frutas da região, como açaí, castanha e bacaba, sempre fizeram parte da rotina.

“Ela sempre gostou de comer batata-doce e macaxeira, porque eram plantações que ela mesma cultivava. Também nunca deixou de comer peixe e frutas. Esse hábito acompanhou toda a vida dela”, lembra Benedita.

Apesar das limitações financeiras, os 117 anos de Tia Margarida não vão passar em branco. A família prepara uma comemoração simples em Macapá. Netos e bisnetos vão levar alimentos para um almoço coletivo.

“Não temos condições de fazer festa, mas cada neto vai trazer um alimento. O importante é estarmos juntos e alegrar o coração dela”, explica a filha.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Alta joalheria em Paris conta com trabalho de rondoniense inspirada na Amazônia

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Ayahuasca é uma das inspirações para as joias criadas por Roberta Barbosa. Foto: Reprodução/Roberta Barbosa – site oficial

Paris, passarelas e alta joalheria pareciam um horizonte distante para a rondoniense Roberta Barbosa. Hoje, esse universo faz parte de sua trajetória profissional: ela construiu carreira na área na capital francesa e desenvolve um portfólio marcado por referências da Amazônia.

Ao Grupo Rede Amazônica, ela explicou que crescer na Amazônia foi determinante para o seu olhar como designer, principalmente pela conexão com a natureza. Segundo Roberta, no início o objetivo era “ganhar o mundo”, mas hoje ela reconhece que a vivência em Porto Velho foi essencial na sua formação.

“Pra mim, ser uma profissional da Amazônia numa marca global é, antes de tudo, representatividade. É ser a única brasileira do time. Acredito de verdade que minha origem é minha maior força criativa. Na França (ou qualquer lugar pra falar a verdade), ninguém consegue imaginar a riqueza que é crescer na Amazônia”, disse.

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Essa identidade aparece diretamente no trabalho. No portfólio, peças inspiradas no Uirapuru e na Ayahuasca traduzem em joias elementos da região onde cresceu.

“Fiz da minha cultura a minha especialidade. Transformei o Uirapuru em broche, a Ayahuasca em brinco e trouxe comigo as minhas referências de vida. É só olhar meu portfolio: é todo verde. Estou aqui mas uma parte minha continua aí, e isso pra mim ficou muito forte nessa época”, completou.

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Joias inspiradas no Uirapuru. Foto: Reprodução/Roberta Barbosa – site oficial

Joias da Amazônia para o mundo

O interesse pela criação sempre esteve presente, mas a joalheria entrou na vida de Roberta ainda na infância, dentro de casa. A mãe produzia colares de pérolas, atividade que depois se transformou em negócio da família. Esse contato influenciou a forma como ela enxerga as peças até hoje.

“Sempre me interessei por arte, desenho e criação, mas a joalheria fez parte da minha vida de uma forma muito orgânica. Eu cresci mergulhada nesse mundo. Eu cresci vendo a joia ocupar esse lugar ambíguo entre o íntimo e o público. É pequeno, mas afirma algo muito forte”, disse.

Apesar disso, a escolha profissional inicial foi outra. Roberta cursou arquitetura, buscando uma área ligada à arte e à criação. A decisão de seguir na joalheria veio apenas no fim da graduação, após um curso feito com o irmão em um ateliê montado pelo pai.

“Era algo muito minimalista, com pedras brasileiras, muito íntimo, mas pra mim virou uma chave”, disse.

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Em busca de formação mais específica, ela passou a procurar cursos na área e encontrou poucas opções no Brasil. Foi então que decidiu se candidatar a uma escola especializada em joalheria em Paris. Preparou portfólio, intensificou os estudos de francês e contou com o apoio de professores de Porto Velho.

A mudança para a França, em 2020, trouxe desafios imediatos. A cidade estava com restrições, ela ainda não dominava o idioma e precisou se adaptar rapidamente ao novo ambiente.

“Chegar aqui em 2020 foi extremamente desafiador, porque a cidade estava praticamente fechada. O turismo bloqueado. Eu não conhecia ninguém. Meu francês ainda em desenvolvimento (e minha escola era totalmente em francês). Eu estava tentando assimilar tudo ao mesmo tempo”, explicou.

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A criadora das joias, Roberta Barbosa. Foto: Reprodução/Roberta Barbosa – site oficial

Mesmo assim, não desistiu. Durante a formação, Roberta passou a valorizar ainda mais suas origens e incorporá-las ao trabalho. Elementos da Amazônia ganharam mais espaço nas criações, reforçando uma identidade que hoje é central no seu processo criativo.

“Por não falar a mesma língua e não fazer parte da mesma cultura, eu tinha que me provar 2x mais. O início foi realmente um desafio, mas foi na escola que aprendi a valorizar ainda mais a minha identidade”, disse.

Na escola, participou de concursos importantes, e um deles foi decisivo para abrir portas no mercado internacional. O projeto vencedor garantiu visibilidade e marcou o início da sua atuação profissional na área.

“Fiz um broche que replicava movimento, fluidez e um elemento da montaria, e fiquei em primeiro lugar. Ter ganhado esse prêmio me proporcionou a visibilidade que eu precisava pra ter essa oportunidade”, comentou.

Hoje, trabalhando com alta joalheria, ela desenvolve desenhos que partem de conceitos criativos e se transformam em peças. Única brasileira no time em que atua, Roberta vê sua origem como diferencial.

*Por Amanda Oliveira, da Rede Amazônica RO

Novo mapeamento identifica 1,2 milhão de hectares de manguezais no Brasil

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Manguezais na Amazônia. Foto: Reprodução/Greenpeace

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) lançaram, no dia 18 de março, a atualização do Mapeamento dos Manguezais Brasileiros – 2024.

O levantamento identificou 1.229.644 hectares desses ecossistemas no país, distribuídos em 11.142 fragmentos ao longo da costa brasileira, durante evento na sede do Instituto, e Brasília.

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Os dados mostram que cerca de 82% da área total de manguezais está inserida em Unidades de Conservação, como Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e Reservas Extrativistas (Resex), evidenciando o papel dessas áreas na proteção da biodiversidade e no sustento de comunidades tradicionais.

A maior concentração está na costa norte do país, especialmente nos estados do Amapá, Pará e Maranhão, que juntos reúnem aproximadamente 78% da cobertura nacional.

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O estudo foi desenvolvido em parceria entre o Centro Nacional de Monitoramento e Informações Ambientais (Cenima) do Ibama e o Departamento de Oceano e Gestão Costeira da Secretaria Nacional de Mudança do Clima do MMA. A nova versão atualiza o Atlas dos Manguezais Brasileiros, publicado em 2018, e amplia a capacidade de monitoramento desses ecossistemas estratégicos.

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Manguezal. Foto: Anselmo Malagoli/ICMBio

Para o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, o trabalho representa um avanço científico e tecnológico na análise ambiental e no apoio à tomada de decisão.

“Esse mapeamento reúne o que há de mais moderno em tecnologia com um elemento essencial, que é o olhar humano. Cada fragmento foi analisado individualmente, com validação de pesquisadores de todo o país. Isso fortalece a base técnica para a conservação e qualifica a atuação do Estado na proteção desses ecossistemas”, afirmou.

A atualização marca a transição de um modelo cartográfico estático para um sistema de monitoramento contínuo, baseado em séries temporais de imagens de satélite. Foram utilizadas imagens do satélite Sentinel-2, combinadas com diferentes composições espectrais, índices específicos para manguezais e modelos digitais de superfície, permitindo maior precisão na identificação de áreas estreitas e fragmentadas.

Os dados passam a integrar a Plataforma de Análise e Monitoramento Geoespacial da Informação Ambiental (PAMGIA) do Ibama, fortalecendo o acesso a informações estratégicas para a gestão ambiental e o planejamento territorial.

O mapeamento também integra o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal), coordenado pelo MMA, que organiza as ações do governo federal voltadas à conservação, recuperação e uso sustentável desses ecossistemas. Entre as metas estão a recuperação de 17 mil hectares de manguezais até 2030, a criação de novas Unidades de Conservação e a capacitação de profissionais.

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Mapeamento dos Manguezais Brasileiros foi lançado em 18 de março. Foto: Hermínio Lacerda/Ibama
Foto: Hermínio Lacerda/Ibama

Durante o evento, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a importância dos novos instrumentos para a agenda ambiental brasileira. Segundo ela, os avanços apresentados representam um investimento concreto na proteção da biodiversidade, na valorização dos serviços ecossistêmicos e no enfrentamento das mudanças do clima, com benefícios diretos para as populações tradicionais.

Além do mapeamento, foi apresentado o Plano Clima 2024–2035, principal instrumento estratégico do país para orientar ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. O plano estabelece metas para redução de emissões de gases de efeito estufa, ampliação de fontes limpas de energia e fortalecimento da resiliência de territórios e populações frente a eventos extremos.

Reconhecidos como ecossistemas essenciais para a biodiversidade e para a regulação do clima, os manguezais desempenham papel fundamental na proteção do litoral, na captura de carbono e na manutenção de atividades como a pesca artesanal e o extrativismo. O novo mapeamento reforça a base técnica para sua conservação e amplia a capacidade do Estado brasileiro de monitorar e proteger esses ambientes estratégicos.

*Com informações do Ibama

Ibama classifica pirarucu como invasor em trecho do rio Madeira e libera pesca em Rondônia

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Com a nova regra, pescadores, tanto profissionais quanto artesanais, podem realizar a captura e o abate do pirarucu na região designada sem restrição. Foto: Reprodução/Acervo Embrapa

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) classificou o pirarucu como espécie invasora na região acima da barragem de Santo Antônio, no rio Madeira, em Porto Velho. Além disso, o órgão autorizou a captura e o abate sem limite do peixe nessa área. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União nesta semana.

Com a nova regra, pescadores, tanto profissionais quanto artesanais, podem realizar a captura e o abate sem restrição de quantidade, tamanho ou período do ano.

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No caso do rio Madeira, acima da barragem de Santo Antônio, os peixes não poderão ser devolvidos em suas áreas de origem, caso capturados: todos devem ser abatidos obrigatoriamente.

Os produtos da pesca só podem ser comercializados dentro do estado onde o peixe foi retirado. Caso sejam transportados para outro estado, serão apreendidos.

A norma também autoriza que governos estaduais e municipais incentivem ações de controle da espécie. O pirarucu abatido poderá ser destinado a programas sociais, como merenda escolar, hospitais públicos e iniciativas de combate à fome.

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Em unidades de conservação, o controle dependerá de autorização dos gestores e deverá seguir os planos de manejo específicos.

A decisão será reavaliada em três anos, para verificar se a medida é eficaz no controle da presença do pirarucu fora de sua área natural.

pirarucu da Amazônia
Foto: Siglia Souza/Embrapa

Entenda porquê o pirarucu se tornou invasor no próprio rio

Segundo a doutora em Biodiversidade e Biotecnologia, Dayana Catâneo, a expansão do pirarucu para novas áreas do rio está diretamente ligada às mudanças no ambiente. Antes, a espécie era encontrada principalmente na parte do rio Madeira abaixo da antiga Cachoeira de Santo Antônio, onde as condições naturais eram mais favoráveis.

Naquela região, a presença de várias corredeiras, com águas rápidas e turbulentas, funcionava como uma espécie de barreira natural. Esse tipo de ambiente não favorece o pirarucu, que prefere águas mais calmas, como lagos e áreas de pouca correnteza.

Com as alterações no rio, essas barreiras deixaram de existir, facilitando a chegada do peixe a novos trechos.

De acordo com Dayana Catâneo, o pirarucu é predador de topo de cadeia trófica e não possui predadores naturais. Isso faz com que, ao ocupar novos ambientes, ele possa reduzir a população de outras espécies nativas e causar desequilíbrios no ecossistema aquático.

“Como se trata de um predador de topo de cadeia trófica, o pirarucu pode diminuir outras espécies e mudar o equilíbrio do rio. Por isso, mesmo sendo da Amazônia, ele é considerado invasor nessas regiões específicas, onde pode causar impactos ao meio ambiente”, explicou Dayana.

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Ainda segundo a especialista, as mudanças ambientais ajudaram o pirarucu a se espalhar para áreas onde ele não existia antes, virando um problema nesses locais. Como ele se alimenta de vários tipos de peixes e é um predador de topo de cadeia, acaba aumentando a pressão sobre as espécies nativas, que não estão acostumadas com esse tipo de ameaça, ficando mais vulneráveis e causando desequilíbrio na região.

*Com informações do Ibama e de Quetlen Caetano, da Rede Amazônica RO