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Quem vai pagar a conta da grande seca?

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Seca e crise hídrica em rios da Amazônia ocorreram em 2024. Foto: Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil

Por Olímpio Guarany*

A ciência já não discute apenas a possibilidade de um El Niño em 2026. O fenômeno está estabelecido, ganha intensidade e coloca a Amazônia diante do risco concreto de uma nova grande seca. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que o atual episódio teve início em junho. Segundo a mais recente projeção da NOAA divulgada pelo Inmet, há probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos próximos trimestres.

Há ainda 69% de chance de que seja o mais intenso registrado desde 1950, com possibilidade de anomalias iguais ou superiores a 2,5°C nas águas do Pacífico. O fenômeno deve persistir, pelo menos, até março de 2027.

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A intensidade máxima e seus efeitos ainda carregam incertezas, mas o sinal de alerta está dado. E há um agravante: o El Niño ocorre em um planeta cada vez mais quente. Como resume o pesquisador do Inpe Gilvan Sampaio: “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”.

Diante desse cenário, a pergunta não é apenas meteorológica. É econômica, social e profundamente humana: Quem vai pagar a conta da grande seca?

Quando a seca chega à economia

Pescadores lutam contra efeitos da seca em Tartarugalzinho, no Amapá
Cidade enfrenta a seca pelo 3º ano. Foto: Divulgação/Colônia de pescadores de Tartarugalzinho

Uma grande estiagem na Amazônia não produz apenas consequências ambientais. A redução dos níveis dos rios atinge a agricultura familiar, a pesca, o extrativismo, o transporte fluvial e o abastecimento. Na Amazônia, o rio não é apenas água. É estrada. É alimento. É trabalho. É renda. É vida.

Quando o rio baixa, o barco pode deixar de chegar, o pescado diminui, a produção não é escoada, o alimento fica mais caro e comunidades podem ficar isoladas. Um fenômeno climático rapidamente pode se transformar em crise econômica e social. As secas recentes já mostraram essa realidade. No território indígena Kumaruara, no oeste do Pará, cerca de 1.200 famílias ainda enfrentam consequências das estiagens de 2023 e 2024.

A coordenadora Zenilda Kumaruara resume: “Até agora ainda não conseguimos resolver o problema da água”.

Uma frase simples que revela o tamanho da vulnerabilidade amazônica.

A bioeconomia sob estresse

A bioeconomia é uma das grandes alternativas para um modelo sustentável de desenvolvimento da Amazônia. Mas precisamos perguntar:

Essa bioeconomia está preparada para enfrentar eventos climáticos extremos?

Açaí, cacau, castanha, óleos, frutos amazônicos, pesca e tantas outras cadeias dependem diretamente dos ciclos da natureza.

Sem água, não há produção. Sem rios navegáveis, não há escoamento. Sem planejamento, não há adaptação.

Não basta construir uma bioeconomia sustentável.

É preciso construir uma bioeconomia resiliente.

Quem sofre primeiro?

Como quase sempre acontece nas grandes crises, os mais vulneráveis tendem a pagar primeiro — e mais caro.

Ribeirinhos, agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, extrativistas e pequenos empreendedores dependem diretamente dos rios, da floresta e das chuvas e, ao mesmo tempo, possuem menos recursos para enfrentar eventos extremos.

Esse talvez seja um dos aspectos mais perversos da crise climática: quem menos contribuiu para produzi-la muitas vezes possui menor capacidade para se proteger de suas consequências.

Não podemos esperar os rios secarem, comunidades ficarem isoladas e a produção desaparecer para somente então começar a agir.

Prevenção precisa acontecer antes da tragédia.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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O que precisa ser feito?

Os caminhos são conhecidos: segurança hídrica, diversificação da produção, assistência técnica, crédito, proteção da agricultura familiar, tecnologias adaptadas à realidade amazônica, segurança alimentar, planejamento territorial, preparação das Defesas Civis e monitoramento permanente.

No debate sobre o tema, o professor Manoel Ricardo Vilhena, pesquisador da Unifap e consultor da ONU, alerta:

“É urgente que os estados da Amazônia compreendam o impacto severo das mudanças climáticas sobre todas as formas de vida do bioma — da população e cidades à agricultura, fauna e flora. Do contrário, os projetos do presente se tornarão inviáveis e o próprio futuro estará comprometido.”

Não existe uma única medida capaz de proteger a Amazônia de uma grande seca. É necessária uma estratégia envolvendo governos, universidades, centros de pesquisa, setor produtivo, organizações sociais e as próprias comunidades.

A hora de agir é agora

O El Niño de 2026 já é uma realidade. O que ainda não conhecemos por inteiro é a dimensão dos seus impactos sobre a Amazônia.

Mas temos ciência, tecnologia, sistemas de monitoramento, conhecimento acumulado e capacidade de antecipar riscos.

O desafio é transformar conhecimento em decisão e decisão em ação.

E uma pergunta precisa orientar qualquer estratégia:

Se uma grande seca atingir a Amazônia, o que estamos fazendo hoje para proteger quem mais depende dos rios, da floresta e da agricultura familiar?

Prevenção não começa quando a emergência é decretada.

Prevenção começa enquanto ainda temos tempo.

E o tempo de agir é agora.

Quando a grande seca chegar, talvez seja tarde para perguntar quem vai pagar a conta.

Nós já sabemos quem costuma pagar primeiro.

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Embratur e Sebrae definem parceria estratégica para promover o Polo de Gastronomia da Amazônia

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Foto: Reprodução/Embratur

A Embratur e o Sebrae se reuniram para discutir a importância do projeto Polo Sebrae de Gastronomia da Amazônia. A pauta central abordou a estruturação do turismo gastronômico como ferramenta para diversificar os destinos nacionais. O objetivo é integrar ações do polo às estratégias da Agência na descentralização do turismo brasileiro, com foco no desenvolvimento econômico regional e na atração de turistas por meio da diversidade da culinária nacional.

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Sediado em Macapá (AP), o Polo Sebrae de Gastronomia da Amazônia atua como um centro de produção de conhecimento e inteligência voltado para o setor de alimentos e bebidas. Sustentado por premissas como ancestralidade, biodiversidade, e desenvolvimento econômico, social e ambiental, o projeto possui uma governança compartilhada entre os estados da Região Norte e parceiros como São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

Embora fisicamente localizado na Amazônia, o polo tem a diretriz de desenvolver pesquisas, soluções e metodologias que possam ser aplicadas a pequenos negócios de todo o Brasil. A reunião aconteceu nesta quinta-feira (13) e contou com a presença do presidente da Embratur, Bruno Reis, da chefe de gabinete da Diretoria de Marketing Internacional, Negócios e Sustentabilidade, Sáskia Lima de Castro, da Coordenadora de Projetos do Sebrae Nacional, Ana Clévia, da Superintendente do Sebrae Amapá, Alcilene Cavalcante,  além de outros representantes da entidade.

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Embratur e Sebrae definem parceria estratégica para promover o Polo de Gastronomia da Amazônia
O foco na culinária regional atua como um diferencial competitivo valioso na vitrine global. Renato Vaz/Embratur

Para o presidente da Agência, o foco na culinária regional atua como um diferencial competitivo valioso na vitrine global. Ele elogiou a apresentação do projeto.

“É um projeto que, de fato, traz iniciativas muito assertivas sobre a gastronomia na Amazônia, que representa o país. Isso é brasilidade, é borogodó, é o nosso soft power. Falar sobre isso, automaticamente é falar de Brasil”, destacou Reis.

Além da Amazônia: metodologia para todos

Uma das iniciativas apresentadas durante a reunião foi o desenvolvimento de um guia de participação em missões internacionais de gastronomia. A ferramenta servirá como um manual direcionador para que profissionais da culinária de todo o país possam expandir suas atuações.

A ideia é que qualquer chef brasileiro que deseje realizar uma missão internacional saiba exatamente quais são os procedimentos, documentações e caminhos de acesso necessários. A entrega deste guia servirá como uma metodologia de nível nacional.

Alcilene Cavalcante reforçou a urgência e a importância do trabalho colaborativo com a Embratur para dar escala à promoção internacional. “O que a gente quer é estar junto com a Embratur para fazer a promoção da gastronomia amazônica e brasileira como uma parte importante do turismo, como ela é”, afirmou a superintendente.

A parceria segue agora para a fase de estruturação técnica e cruzamento de dados de inteligência de mercado, buscando apresentar os produtos e experiências gastronômicos aos turistas internacionais que já demonstram grande interesse pelo Brasil e pela Amazônia.

*Com informações da Embratur

Jovens no Amazonas fortalecem conhecimento e territórios por meio de pesquisas científicas

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Jovens pesquisadores fortalecem conhecimento e territórios. Foto: Tácio Melo e Acervo PIBIC

Criado para aproximar estudantes da produção científica e contribuir para a formação de novos pesquisadores, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do Instituto Mamirauá oferece aos jovens da região Norte a oportunidade de desenvolver pesquisas com acompanhamento de orientadores e conhecer, na prática, diferentes etapas da ciência. Em Tefé (AM), o programa já tem mais de duas décadas de trajetória e busca também fortalecer a produção de conhecimento sobre a Amazônia a partir do próprio território.

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Ao longo de 12 meses, os bolsistas participam de capacitações, desenvolvem pesquisas e apresentam os resultados em seminários. As bolsas contemplam áreas como ciências biológicas, ciências sociais, arqueologia, manejo de recursos e inovação. Nos últimos anos, o programa reúne, em média, de 20 a 25 estudantes por ciclo e já formou ou apoiou mais de 500 alunos.

“Eles viram protagonistas dos seus projetos e é muito satisfatório ver essa evolução deles”, destaca Hilda Chávez, pesquisadora do Instituto Mamirauá e coordenadora do PIBIC.

A experiência também tem reflexos na trajetória acadêmica dos estudantes. Segundo a coordenação, mais de 70% dos bolsistas dão continuidade à formação acadêmica. Alguns participam de publicações científicas, recebem reconhecimento em eventos de iniciação científica e, posteriormente, seguem atuando em pesquisas ou passam a integrar o próprio Instituto Mamirauá. As bolsas são destinadas a estudantes do ensino médio e do ensino superior, nas modalidades Júnior e Sênior.

“Nesse mês, que ocorreu a apresentação final da bolsa, ficamos mais uma vez surpresos com o desempenho dos bolsistas e a contribuição de suas pesquisas para a região, que incluem espécies que não haviam sido identificadas, plantas que não sabíamos que existiam na região do Médio Solimões, entre outras”, explica Jean Quadros, Analista de pesquisa e desenvolvimento do Instituto Mamirauá e vicecoordenador do PIBIC.

A atuação dos jovens em seus territórios

Além da formação científica, o programa contribui para aproximar o Instituto da população local. Os estudantes também levam para suas comunidades conhecimentos e experiências adquiridos durante as pesquisas, ampliando a compreensão sobre a ciência produzida na região.

Leia também: Espetáculo teatral é inspirado em pesquisa científica sobre colaboração inusitada de tartarugas e borboletas

Jovens pesquisadores fortalecem conhecimento e territórios através de pesquisas científicas na Amazônia
Foto: Tácio Melo e Acervo PIBIC

“O programa PIBIC, além da formação e do fomento para os estudantes, também insere ciência e pesquisa no território desses bolsistas, que acabam integrando esse conhecimento junto do Instituto”, afirma Hilda.

Esse conhecimento também ganha significado dentro das comunidades indígenas. Hiago Marques Cruz, indígena da etnia Cambeba, da aldeia Jaquiri, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, desenvolveu a pesquisa “Fauna parasitária de Osteoglossum bicirrhosum (Aruanã) provenientes da pesca artesanal no Médio Solimões”.

Para ele, levar os resultados da pesquisa para sua comunidade é uma forma de ampliar o conhecimento sobre um recurso importante para a população.

“Esse conhecimento é importante para mim como indígena também, porque há muita ausência de conhecimento na questão da pesquisa. Levar esse novo olhar em relação à pesquisa e também sobre a fauna parasitária para as comunidades, para a minha aldeia, é fundamental, já que a gente utiliza o Aruanã como recurso fundamental na pesca artesanal e também para a nossa alimentação”, afirma Hiago Marques.

Ao incentivar a participação de jovens da região na produção científica, o PIBIC fortalece uma rede de conhecimento que conecta formação acadêmica, pesquisa e território, contribuindo para que novas gerações também sejam protagonistas na construção do conhecimento sobre a Amazônia.

Foto: Tácio Melo e Acervo PIBIC

Para Yasmim Salgado, bolsista do programa, pesquisar a diversidade de borboletas frugívoras em áreas de mangue na Reserva Extrativista Marinha de Soure, no Pará, é também uma forma de valorizar o território onde vive.

“Acredito que a ciência também pode e deve ser feita dentro da nossa própria realidade. Para mim, pesquisar o território é também uma forma de valorizá-lo e mostrar a importância de sua conservação. Quero continuar aprendendo, pesquisando e contribuindo para que a ciência produzida na minha região tenha cada vez mais reconhecimento”, afirma.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Tácio Melo

Ilhas de calor: como o concreto está esquentando Belém

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Foto: Adolfo Lemos/Acervo Ascom UFPA

Belém (PA), cidade equatorial banhada pela Baía do Guajará, sempre conviveu com o calor e a umidade típicos da Amazônia. Mas o crescimento urbano desordenado das últimas décadas tem intensificado esse cenário, criando o que especialistas chamam de “ilhas de calor urbanas”, áreas da cidade que registram temperaturas visivelmente mais altas que seus arredores. O professor Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão, da Faculdade de Meteorologia, do Instituto de Geociências (IG/UFPA), explica os mecanismos por trás do fenômeno e seus impactos sobre a capital paraense.

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Segundo o pesquisador, tudo começa na forma como a cidade substitui a vegetação por superfícies artificiais. “A mudança no uso e na cobertura da terra, como a retirada da vegetação para dar lugar a áreas urbanizadas, altera, inicialmente, o saldo de radiação na superfície e, consequentemente, o balanço de energia”, explica.

Em áreas verdes, boa parte da energia solar é usada na evapotranspiração, processo pelo qual plantas e solo transferem água para a atmosfera, o que ajuda a resfriar o ambiente.

“Quando substituímos essa vegetação por concreto, asfalto e outras superfícies impermeáveis, reduzimos a disponibilidade de água para evapotranspiração e, consequentemente, uma parcela maior da energia passa a ser convertida em calor sensível”, diz Edivaldo Serrão. Segundo ele, essas superfícies também armazenam e liberam calor ao longo do dia e da noite.

Ilhas de calor: como o concreto está esquentando Belém
Vista panorâmica da cidade de Belém. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Ilhas de calor aumentam em período de menor volume de chuva

O professor explica que a ilha de calor urbana ocorre quando determinadas áreas urbanizadas apresentam temperaturas mais elevadas do que áreas menos urbanizadas ou com maior cobertura vegetal no entorno. Em Belém, o fenômeno costuma ser mais forte entre junho e novembro, período de menor chuva na região. “Nessa época, há períodos com menor cobertura de nuvens e, consequentemente, maior entrada de radiação solar na superfície”, detalha.

Apesar da vulnerabilidade, Edivaldo Afonso Serrão pondera que Belém tem particularidades que podem amenizar o problema: “A cidade está próxima à linha do Equador e recebe elevada quantidade de energia solar ao longo do ano. Ao mesmo tempo, está localizada às margens da Baía do Guajará, o que favorece a atuação de circulações locais, como as brisas, que podem contribuir para a redistribuição de calor e umidade”.

No entanto o intenso processo de urbanização, a redução da cobertura vegetal, a ocupação de áreas de várzea e a impermeabilização do solo podem agravar os efeitos do aquecimento urbano.

Ocupação urbana gera diferenças térmicas na área metropolitana

O impacto da urbanização vai além do termômetro. Segundo Edivaldo Serrão, o contraste entre diferentes áreas da cidade pode gerar diferenças térmicas e de pressão que influenciam a circulação do ar e, consequentemente, a formação e distribuição das nuvens de chuva. Isso não significa que a cidade “cria” chuva, mas pode alterar onde e como ela cai.

O efeito mais direto, no entanto, está nos alagamentos. “Com a impermeabilização do solo, a água da chuva deixa de infiltrar adequadamente e escoa rapidamente pela superfície, aumentando o volume de água direcionado para as áreas mais baixas”, detalha o professor. Em Belém, esse problema tem agravantes específicos: “A baixa declividade de grande parte da cidade e o movimento das marés podem dificultar o escoamento das águas pluviais em determinados períodos”.

O professor chama atenção para um ponto em específico: em clima equatorial, o desconforto térmico não depende só do termômetro. “Em ambientes quentes e úmidos, como Belém, o organismo tem maior dificuldade para perder calor por meio da evaporação do suor. Por isso uma temperatura que poderia ser suportável em um ambiente seco pode gerar uma sensação de calor muito maior em Belém”, explica.

O meteorologista faz uma distinção importante: “A urbanização não é necessariamente responsável pela criação de uma chuva extrema ou de uma onda de calor, pois também há influência de fatores regionais e de grande escala”. Contudo a expansão urbana desordenada pode intensificar determinados efeitos locais e, principalmente, aumentar a exposição da população.

Para reverter o quadro, Edivaldo Serrão defende uma mudança de abordagem no planejamento da cidade, com mais infraestrutura verde: ampliação da arborização, criação de parques, preservação de várzeas e corpos d’água, além de jardins de chuva e pavimentos permeáveis. “Essas soluções podem contribuir simultaneamente para reduzir a temperatura, aumentar a infiltração da água, diminuir o escoamento superficial e melhorar o conforto térmico”, defende.

Leia também: O que é uma ilha de calor? Especialista explica a influência na temperatura de Manaus

Para o professor, a cidade precisa parar de pensar na drenagem apenas como escoamento rápido da água. A proposta é simples: migrar de uma infraestrutura predominantemente ‘cinza’ para uma abordagem integrada entre infraestrutura cinza, verde e azul. “O planejamento urbano precisa considerar o clima como um componente fundamental. Devemos pensar não apenas em construir sistemas de drenagem para retirar rapidamente a água da cidade, mas também em permitir que a cidade absorva, retenha e utilize parte dessa água, ao mesmo tempo em que ampliamos as áreas verdes”, conclui.

Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão é professor da Faculdade de Meteorologia, do Instituto de Geociências (IG/UFPA). Doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com ênfase em modelagem hidrológica, mudanças climáticas e mudanças no uso e na cobertura da terra. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/5700978243198274

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 178, escrito por Luiza Amâncio

Pesquisa sobre patrimônio documental do Amazonas conquista 2º lugar em premiação nacional de Arquivologia

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Banca de defesa. Foto: Divulgação

A tese “Buscando sentido no caos: a gestão do patrimônio documental na administração pública do Amazonas”, de autoria de Leandro Coelho de Aguiar, professor do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), conquistou o segundo lugar no Prêmio Nacional de Arquivologia Maria Odila Fonseca 2025. Principal premiação da área, o prêmio, promovido pelo Arquivo Nacional, reconhece os melhores trabalhos da Arquivologia ou que tenham relação com temáticas arquivísticas no Brasil.

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Leandro Coelho Aguiar destaca a relevância da segunda colocação alcançada pela sua pesquisa de doutorado: “Receber esse reconhecimento do Arquivo Nacional tem um significado profundo. É uma tese produzida no Amazonas, sobre o Amazonas e por um professor da instituição em um Programa de Pós-Graduação da própria Ufam, o que demonstra a força da pesquisa regional desenvolvida em nossa universidade”, afirma o docente.

“Discutir a gestão e a preservação do nosso patrimônio documental, histórico e social é fundamental para a construção da memória e da identidade coletiva amazônica. Essa conquista evidencia o excelente trabalho do PPGH/Ufam e do laboratório Archivum [Laboratório de Pesquisa em Arquivologia, História e Patrimônio], sob a orientação do professor doutor James Roberto”, conclui.

Gestão documental na Primeira República

Defendida em 2024 no Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Ufam e orientada pelo professor James Roberto Silva, a tese discute a historicidade da gestão e preservação documental no Amazonas, contribuindo de forma decisiva para o debate sobre a preservação do patrimônio documental histórico e social do estado.

Conforme o resumo da tese, a pesquisa se debruça sobre “a gestão do patrimônio documental da Administração Pública do Amazonas durante a Primeira República (1889 e 1930), enfocando a estrutura administrativa, os atores envolvidos e as práticas documentais”.

Leia também: 12 patrimônios históricos e culturais tombados para conhecer em Manaus

Pesquisa de professor da Ufam conquista 2º lugar em premiação nacional de Arquivologia
Leandro Coelho Aguiar durante defesa da tese em 2024 . Foto: Divulgação

Utilizando a abordagem da História dos Arquivos, a tese mergulha no período por meio da análise de documentos de fontes oficiais e de notícias da imprensa da época para compreender a evolução das práticas arquivísticas e o papel dos arquivistas na administração pública da Primeira República.

“A gestão documental desse período caracterizava-se por instabilidades e descontinuidades, marcadas por decisões pragmáticas e voltadas para as necessidades imediatas da administração, sem uma fundamentação teórico-metodológica consolidada”, informa o texto da tese.

A pesquisa aponta que, ainda que houvesse o reconhecimento da importância da gestão e da preservação do acervo documental, as práticas arquivísticas do período foram comprometidas por fatores políticos e socioeconômicos, gerando instabilidade e adaptação contínua das estruturas documentais.

Sob forte influência de políticos e intelectuais do estado, as iniciativas eram marcadas por disputas constantes sobre sua organização, acesso e função e a gestão do patrimônio documental oscilava entre tentativas de organização e a predominância de práticas empíricas e fragmentadas.

A pesquisa está disponível na íntegra na Biblioteca de Teses e Dissertações da Ufam. A banca de defesa foi composta pelos professores Rafael Ale Rocha (PPGH/Ufam), Marcia Eliane Alves de Souza e Mello (PPGH/Ufam), James Roberto Silva (presidente da banca/orientador),
Alexandre de Souza Costa (PPGIC/Ufam), e, de forma remota, Adriana Angelita da Conceição (PMPEH/UFSC)

Leandro Coelho Aguiar é professor do curso de Arquivologia da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Ufam, líder do grupo de pesquisa do CNPq Núcleo de Pesquisa em Arquivologia (NUPEArq) e do Archivum, vinculado à FIC. É o atual presidente da Associação Nacional de História – Seção Amazonas (Anpuh-AM), gestão 2024-2026, e recém-eleito membro efetivo do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq), órgão colegiado, vinculado ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).

Referência na Arquivologia: Maria Odila Fonseca (1953-2007)

O prêmio, criado em 2017, leva o nome da professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e servidora do Arquivo Nacional Maria Odila Fonseca, importante referência da área de Arquivologia. Segundo Leandro Aguiar, o reconhecimento da sua pesquisa pela premiação também tem um valor afetivo e histórico, pois foi aluno da professora durante sua formação em Arquivologia na UFF entre 2006 e 2010.

*Com informações da Ufam

‘Michael Jackson’ de Roraima mistura passos do rei do pop com forró de galeroso

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Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Foi através dos passos de Michael Jackson que um jovem roraimense misturou os movimentos artísticos do ídolo com o forró de galeroso, ritmo do Norte, para se tornar o ‘Michael Jackson’ de Roraima. Aos 26 anos, Felipe Arroeira decidiu vestir o personagem, se adaptou ao visual do artista e agora ganhou notoriedades nas redes sociais, com direito a contratos de publicidade e patrocínios, transformando o que era uma simples brincadeira em renda extra.

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Quem frequenta a Orla Taumanan, vai em bares, praças ou acompanha conteúdos sobre Boa Vista nas redes sociais, se depara com vídeos com o ‘Michael Jackson’ de Roraima. Fã do artista desde criança, Felipe conta que conheceu as músicas do cantor por parte de pai e que passou a acompanhar, ao longo dos anos, acompanhar os clipes, estudar os passos e pesquisar detalhes das apresentações icônicas do artista, até decidir adaptar o ritmo do forró e criar uma versão própria do artista.

Hoje, os vídeos publicados por Felipe somam mais de 1,7 milhão de visualizações no TikTok e no Instagram. Depois de ganhar espaço nas redes sociais, o personagem passou a fazer parte da rotina de Felipe. Ele é chamado para participar de eventos, aparece em publicidades e circula por diferentes pontos de Boa Vista caracterizado como Michael Jackson.

Pelas redes sociais, ele fecha contratos de publicidade para divulgar lojas, restaurantes e eventos. Nas gravações, o “Michael Roraimense” aparece visitando estabelecimentos, experimentando roupas e apresentando produtos e serviços.

“Criei esse projeto para levar a arte do Michael para que as pessoas que pudessem continuar lembrando dele. Ele é um sustento na minha vida”, afirma Felipe sobre a renda obtida com o personagem.

O clipe favorito do “Michael Roraimense” é ‘Beat It’. Lançado em 1983, no aclamado álbum Thriller, a produção mostra Michael Jackson como um pacificador que usa a dança e a música para impedir um confronto entre duas gangues rivais. A marca registrada do clipe é a jaqueta vermelha de couro, com ombreiras marcantes.

Felipe combina o visual com o chapéu preto modelo Fedora, acessório característico do astro pop. É vestido assim, que ele revive Michael Jackson.

Michael Jackson de Roraima
Como Michael Jackson de Roraima, Felipe frequenta bares, festas e eventos ao redor de Boa Vista desde 2024, quando passou a vestir o personagem. Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Leia também: Dança no semáforo: Artistas transformam ruas de Manaus em palco

A caracterização ganhou repercussão nas redes sociais. Felipe criou o personagem em 2024, quando passou a frequentar festas e eventos ligados aos anos 1980. A performance ganhou novos rumos depois que um amigo o incentivou a incluir o forró. O amigo que o incentivou foi Deco Forrozeiro, conhecido como “O rei do Bate-bate”, influenciador e criador de conteúdo sobre o forró de galeroso.

Com a repercussão, Felipe também passou a circular por shoppings caracterizado como Michael Jackson e a fazer publicidade. A homenagem vai além da dança e da caracterização. Ao se transformar, ele acredita que também pode aproveitar a vida de uma forma que, na visão dele, o ídolo não conseguiu, principalmente durante a infância.

“Ele nunca teve a chance de curtir e aproveitar a vida. O tempo que ele tinha era obrigado a trabalhar. Ele quase não curtia a vida”, pontuou.

O encontro de MJ’s: Rodrigo Teaser e Felipe Arroeira. Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Paixão começou na infância

Felipe conheceu Michael Jackson por volta dos 7 anos, por influência do pai, que tinha um CD do cantor. Com o tempo, passou a ouvir as músicas, assistir aos clipes e se interessar principalmente pelas performances e danças do artista.

Ele começou a dançar ainda no ensino médio, por volta de 2018. Seis anos depois, em 2024, passou a se caracterizar como o Rei do Pop e incorporou o personagem às apresentações.

Para aperfeiçoar a caracterização, Felipe pesquisou vídeos na internet e acompanhou outros covers de Michael Jackson. Passou a estudar detalhes como maquiagem, cabelo, roupas e movimentos do cantor. Depois, começou a sair caracterizado pelas ruas de Boa Vista e a participar de festas. Com o aumento da exposição, o personagem deixou de ser apenas uma diversão.

Desde que começou a interpretar Michael, Felipe viveu um marco na trajetória. No dia 16 de agosto, o roraimense conheceu, em Boa Vista, o cantor Rodrigo Teaser, um dos mais conhecidos intérpretes de Michael Jackson: “Realizei meu sonho de conhecer o meu grande ídolo”, disse.

‘Música do Michael Jackson me libertou’

A relação com Michael Jackson também ocupa um espaço íntimo na vida de Felipe. Ele conta que sofreu bullying durante a época da escola e enfrentou momentos difíceis naquele período. Segundo ele, ouvir as músicas do artista trouxe alívio e ajudou a enfrentar a depressão.

“Depois que comecei a escutar o Michael, me senti liberto. A música do Michael me libertou. Comecei a sentir como se fosse alguma coisa que eu não tava vencendo, sentia muita depressão”, conta.

Ele lembra que, naquele período, encontrou nas músicas do artista uma forma de se sentir mais leve: “Comecei a escutar a música do Michael e do nada eu comecei a me sentir mais salvo, mais tranquilo”, confessou.” A experiência também influencia a maneira como ele enxerga o personagem. Felipe afirma que pretende usar a arte para divertir e incentivar outras pessoas.

Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Do pop ao forró

Se Michael Jackson ficou conhecido mundialmente por músicas como ‘Thriller’, ‘Billie Jean’ e ‘Beat It’, em Boa Vista o “Michael Roraimense” não fica restrito ao pop.

Felipe frequenta diferentes espaços caracterizado, incluindo lojas, shoppings, bares e festas. Nos forrós, o contraste entre o figurino inspirado no astro e a música tocada nos eventos virou parte da atração. Para ele, essa liberdade é um dos aspectos mais divertidos de interpretar o artista.

Nas ruas e festas, a caracterização também rende encontros com quem reconhece o personagem. Felipe conta que costuma parar para conversar e tirar fotos quando é abordado. “É um carinho enorme, sabe? É uma felicidade que eu tenho”.

Entre os passos do Rei do Pop e os ritmos das festas de Roraima, Felipe encontrou uma maneira própria de interpretar o ídolo que conheceu ainda criança. Agora, quer levar o “Michael Roraimense” para além do estado.

*Por Tiago Côrtes, da Rede Amazônica RR

Instituto investe em tecnologias para ajudar indústria amazônica a ganhar competitividade

Foto: Divulgação/CERTI Amazônia

No Polo Industrial de Manaus (PIM), empresas buscam soluções para aumentar a eficiência, modernizar processos produtivos e acompanhar a transformação digital da indústria. Esse movimento tem ampliado a atuação do Instituto CERTI Amazônia, que desenvolve tecnologias aplicadas aos desafios do setor produtivo, conectando empresas, pesquisadores e especialistas para transformar demandas do mercado em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).

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Com 23 anos de atuação, a instituição privada de Ciência, Tecnologia e Inovação já executou mais de 120 projetos de alta complexidade em áreas como hardware, software, automação industrial, digitalização de processos, inteligência tecnológica e Internet das Coisas (IoT). As iniciativas apoiam empresas instaladas no PIM no desenvolvimento de soluções voltadas ao aumento da produtividade e da competitividade.

“Atuamos integradas ao ecossistema como uma ponte estratégica entre a ciência aplicada e as demandas do mercado, desenvolvendo soluções customizadas e sustentáveis”, afirma Marco Giagio, diretor executivo do Instituto CERTI Amazônia.

Marco Giagio, diretor executivo do Instituto CERTI Amazônia. Foto: Divulgação/CERTI Amazônia

Credenciada pelo Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (CAPDA), da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), a CERTI Amazônia atua na execução de projetos financiados pelos investimentos em PD&I realizados pelas empresas da região, decorrente das obrigações da Lei de Informática.

A iniciativa direciona recursos para o desenvolvimento tecnológico, a formação de profissionais especializados e a criação de uma rede que reúne indústria, universidades e startups. Segundo o executivo, um dos principais desafios da instituição é transformar os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação realizados pelas empresas em tecnologias capazes de gerar impacto direto na indústria.

“Ao traduzir esses investimentos em soluções de alto valor agregado, ajudamos as empresas locais a elevar sua eficiência produtiva e ampliar sua competitividade global, mantendo conhecimento e competências avançadas na própria região”, explica.

Além do estado do Amazonas, a atuação da CERTI Amazônia também avançou para o Pará, onde o Instituto implantou uma unidade no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, em Belém. A estrutura amplia a conexão entre ciência, empreendedorismo e mercado, apoiando iniciativas ligadas à sociobioeconomia e ao desenvolvimento de negócios sustentáveis.

Leia também: Incentivo à empreendimentos amazônicos geram inovação em áreas cada vez mais diversas

Com 23 anos de atuação, a instituição privada de Ciência, Tecnologia e Inovação já executou mais de 120 projetos de alta complexidade em áreas como hardware, software, automação industrial, digitalização de processos, inteligência tecnológica e Internet das Coisas (IoT).
Além do Amazonas, a atuação do instituto também avançou para o Pará, onde a empresa implantou uma unidade no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, em Belém. Foto: Divulgação/CERTI Amazônia

Tecnologia abre novos caminhos para a bioeconomia amazônica

A experiência acumulada no Amazonas e também no Pará no desenvolvimento de soluções para a indústria também vem sendo aplicada a desafios relacionados à floresta e ao uso sustentável dos recursos naturais em toda a região. Um dos principais projetos recentes é a Plataforma Digital da Floresta, que conecta dados, tecnologias e conhecimento científico para aproximar a biodiversidade amazônica de oportunidades de negócios. A iniciativa busca criar novas formas de geração de valor a partir dos ativos socioambientais da região.

Em 2025, o projeto recebeu reconhecimento internacional ao conquistar o New Commons Challenge, em Nova York, com uma premiação de US$ 100 mil destinada ao aprimoramento de uma plataforma tecnológica de monitoramento do desmatamento em tempo real e análise do uso do solo.

“O reconhecimento internacional mostra que a Amazônia tem capacidade de desenvolver soluções tecnológicas para desafios globais. A tecnologia é uma ferramenta fundamental para conciliar conservação ambiental, geração de conhecimento e novas oportunidades econômicas para a região”, afirma Giagio.

*Com informações da assessoria

‘Gente da 319’: projeto inicia mapeamento para enfrentar desafios fundiários na BR-319

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Projeto ‘Gente da 319’ visa atuar na regularização fundiária de imóveis de moradores que vivem às margens da rodovia. Foto: Luiz Felipe Santos/DPE-AM

O projeto ‘Gente da 319’, da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), iniciou o mapeamento e diagnóstico territorial das comunidades Purupuru, Araçá, Igapó-Açu e Realidade, localizadas às margens da rodovia, que é a única ligação de via terrestre do estado com Rondônia e o restante do Brasil. A atividade faz parte da iniciativa do órgão que visa a regularização fundiária e a garantia da segurança jurídica das famílias que vivem na região da BR-319.

Na dia 16 de agosto, uma equipe do projeto composta por engenheiros, técnicos e defensores públicos da DPE-AM mapeou as terras irregulares e a escuta de moradores que vivem às margens da BR-319.

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Léia Lima, moradora da comunidade São João. Foto: Luiz Felipe Santos

No km 35 da rodovia, Léia Lima, 58, moradora da comunidade São João, vive com o marido e os quatro filhos.

“Estamos há mais de 40 anos na área da 319. Nós temos a posse, mas não temos a titulação e, por isso, viemos todos para a primeira audiência pública e estaremos em todas as outras”, ressaltou a moradora, frisando a sua participação na primeira audiência pública do projeto Gente da 319, no dia 12 de agosto.

Léia também lidera o “Coletivo de Mulheres Agricultoras e Empreendedoras da BR-319”. Ela afirma que o coletivo é um meio de unir forças com outras mulheres que, além da insegurança jurídica em relação às suas casas, precisam enfrentar as dificuldades impostas pela precariedade e distância da rodovia.

“É muito difícil, porque, em uma emergência ou para acesso a outros serviços básicos, a gente precisa pegar o ramal, depois sair para a BR-319 para chegar até o Careiro da Várzea, pagar para atravessar na balsa ou na lancha e só depois chegar em Manaus”, desabafou a moradora.

Próximas etapas do projeto ‘Gente da 319’

Com previsão de seis meses, a etapa de mapeamento visa diagnosticar toda a extensão da BR-319. Após isso, o projeto avança para a segunda etapa, uma fase intensiva de atendimento e regularização, entre o sétimo e o vigésimo quarto mês, com ações de atendimento jurídico e social, coleta de documentos e mediação de conflitos.

Por fim, a terceira etapa será de consolidação territorial, até o trigésimo sexto mês, voltada à conclusão dos processos de regularização fundiária (REURB) e à entrega de um relatório fundiário completo ao Estado do Amazonas e às prefeituras envolvidas.

Leia também: BR-319: A história e a realidade da rodovia que liga o Amazonas ao Brasil

Rafael Barbosa e Thiago Rosas durante mapeamento fundiário de comunidades da BR-319. Foto: Luiz Felipe Santos/DPE-AM
Rafael Barbosa e Thiago Rosas durante mapeamento fundiário de comunidades da BR-319. Foto: Luiz Felipe Santos/DPE-AM

De acordo com o defensor público geral, Rafael Barbosa, a meta é atender cinco mil famílias, viabilizar a regularização de dois mil imóveis, realizar cinco ações itinerantes e três expedições por ano de execução, além de promover ao menos dez mediações de conflitos comunitários.

“Temos as etapas do projeto definidas, mas a maneira como vamos executar essas etapas ainda está em discussão e construção com a população. Quando o asfalto passar, a especulação imobiliária vai surgir e essas famílias vão precisar ter a segurança jurídica das suas casas. Diante desses desafios, iremos fazer nosso trabalho para garantir que todos tenham seus direitos garantidos”, destacou.

De acordo com dados do Observatório BR-319, a estrada interliga 22 municípios, 13 deles sob influência direta de sua área de abrangência, em um território que reúne 69 Terras Indígenas e 42 Unidades de Conservação monitoradas. Ao longo de suas margens, vivem cerca de 35 mil pessoas, entre ribeirinhos, agricultores familiares, pequenos comerciantes, comunidades tradicionais e povos indígenas, segundo o levantamento.

Parceria em prol da BR-319

Na primeira audiência pública, estiveram presentes representantes do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb), do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), do Comando Militar da Amazônia (CMA), do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (Crea), além da presidência das Câmaras de Beruri e Careiro.

Leia também: Secretário Guilherme Checco apresenta novas medidas para desenvolvimento sustentável na BR-319

Audiência pública do Projeto Gente da 319 ocorreu no último dia 12 de agosto, no auditório do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM). Foto: Luiz Felipe Santos/DPE-AM

Entre os que deram sua contribuição para o debate, o diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Ufam, Prof. Dr. André Mendonça, destacou a importância de colocar a Academia no centro da discussão.

“Enquanto Universidade Federal do Amazonas, a gente entende que o trabalho da Defensoria em reunir a população junto aos entes e gestores das instituições que podem ajudar na regularização fundiária é essencial para que, juntos, possamos consolidar soluções. Temos um campus em Humaitá e temos nossas próprias vivências em relação à BR-319, então podemos trazer nossas contribuições para o debate”, pontuou.

A presidente da Câmara Municipal de Careiro, Berenice Bastos, também ressaltou o impacto da audiência pública e da próxima etapa de execução do projeto.

“Toda audiência pública é importante, porque ela ouve a sociedade. Nós, que atuamos em defesa do povo, escutamos há anos as dores dos agricultores, comerciantes e moradores da BR-319. A partir de agora, regularizando essas terras, eles terão o direito de dizer que a moradia é deles”, concluiu.

Caminhos para a regularização fundiária

CDRU (Concessão de Direito Real de Uso): quando a terra está localizada em área ambiental e cabe à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) emitir o documento;
Assentamento: título emitido pelo Incra para lotes de terra localizados em assentamentos da reforma agrária;
Cessão de uso: quando o proprietário do terreno transfere o direito de uso do local para outra pessoa, mas não cede o direito de propriedade;
Legitimação Fundiária: quando o título do terreno é entregue de forma definitiva ao morador que está ocupando a área, sem qualquer ligação com o proprietário anterior;
Usucapião: processo que pode ser feito do início ao fim pela Defensoria, que ocorre quando uma pessoa mora há anos em um terreno sem que o proprietário legal reconheça a posse, permitindo que o morador atual ganhe o direito ao título.

*Com informações da DPE-AM

Escola indígena de Roraima é selecionada para apresentar projeto sobre língua Macuxi

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Foto: Divulgação

A Escola Estadual Indígena Lino Augusto da Silva, localizada na comunidade indígena Campo Alegre, zona Rural de Boa Vista, em Roraima, foi selecionada para apresentar em Belém (PA) o projeto “Língua Macuxi na Mídia”, iniciativa que utiliza tecnologias digitais como ferramentas para fortalecer o ensino e a valorização da língua Macuxi.

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A apresentação será nesta quinta-feira, 13, durante a programação Conectando Saberes: escuta, diagnóstico e promoção de competências digitais para crianças e adolescentes, etapa integrante da ação voltada ao Mapeamento Nacional de Iniciativas em Competências Digitais e Proteção On-line para Crianças e Adolescentes.

Escola indígena de Roraima é selecionada para apresentar projeto sobre língua Macuxi
Professor Marcílio Curiaca. Foto: Divulgação

A escola será representada pelos professores Marcílio Curicaca Leal e Ranieri Leocádio da Silva Nascimento. Para o professor Marcílio, a utilização das tecnologias pode contribuir para aproximar os estudantes da língua Macuxi e criar novas formas de preservação e divulgação.

Leia também: Professores de escolas indígenas em Roraima lançam livro sobre a cultura do povo Macuxi

“O nosso projeto nasceu da ideia de usar a tecnologia a nosso favor para ampliar, registrar e, principalmente, revitalizar a língua Macuxi. Queremos fazer com que ela esteja cada vez mais presente, ativa e acessível também no mundo digital, aproximando os jovens da nossa língua e criando novas formas de uso, divulgação e aprendizado”, disse.

Desenvolvido com estudantes dos ensinos Fundamental e Médio, o projeto propõe aproximar o ensino da língua indígena do universo tecnológico dos jovens. A ideia é utilizar celulares, computadores e tablets para produzir pequenos conteúdos em língua Macuxi, envolvendo formatos como conversas, danças e outras produções audiovisuais que possam ser compartilhadas também nas redes sociais.

A proposta busca fazer com que os próprios estudantes assumam papel ativo na produção dos conteúdos e no processo de valorização da língua e da cultura de seu povo.

Tecnologia criada na escola é a serviço da língua

Um dos próximos passos do projeto é a criação de um estúdio dentro da escola, que será utilizado para edição e produção dos materiais. Os próprios alunos serão responsáveis pela produção dos conteúdos, ampliando as possibilidades de aprendizagem e protagonismo juvenil.

Marcílio Curicaca Leal e Ranieri Leocádio da Silva Nascimento. Foto: Divulgação

“Por meio de celulares, câmeras fotográficas e notebooks, os alunos poderão produzir conteúdo em língua Macuxi, como vídeos, registros e outras produções, que posteriormente serão divulgados nas redes sociais dos próprios estudantes e da escola”, acrescentou o professor.

*Com informações do Governo de Roraima

Materiais pedagógicos conectam processo de aprendizagem com desafios da Amazônia

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Conteúdos visam reforçar aprendizagem escolar com uma educação conectada à realidade amazônica. Foto: Divulgação/FAS

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) desenvolveu um conjunto de materiais pedagógicos para apoiar professores e estudantes na construção de uma educação conectada à realidade amazônica. As publicações abordam temas relacionados à floresta, à pesca, aos negócios sustentáveis, às identidades culturais e aos desafios socioambientais da região, articulando conhecimentos técnico-científicos, currículo escolar e saberes construídos nos territórios.

A iniciativa reúne duas frentes complementares:

  • a série ‘Bases do Aprendizado’, destinada principalmente a professores dos anos iniciais do ensino fundamental que atuam em turmas multisseriadas,
  • e a cartilha ‘Arapoty – Práticas Pedagógicas Inovadoras: Itinerários Formativos e Formação Continuada’, voltada à 1ª série do ensino médio.

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Desenvolvidos no âmbito de diferentes iniciativas apoiadas pelo Movimento Bem Maior (MBM) e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os materiais integram as ações do Programa Educação para a Sustentabilidade e do Subprograma Educação Ribeirinha da FAS. A proposta é contribuir para uma educação que reconheça as especificidades dos territórios amazônicos e fortaleça a participação de professores, estudantes e comunidades no processo de ensino e aprendizagem.

“O desenvolvimento das nossas publicações pedagógicas é pautado pela co-construção e pela escuta ativa, com oficinas e encontros de diagnóstico pedagógico junto a coordenadores, equipes técnicas e professores das redes municipais e estaduais. A partir dessa escuta, identificamos as principais lacunas locais e as riquezas territoriais que devem constar nos livros, estruturados em Guias de Atividades que integram embasamento técnico-científico, lendas, poemas e composições locais. Todo o conteúdo é alinhado à BNCC e ao Plano Nacional de Educação e passa por revisões, diagramação e validação técnica antes de seguir para as redes de ensino e aprendizagem”, explica Silvana Souza, supervisora pedagógica do Programa de Educação para a Sustentabilidade da FAS.

Proposta é contribuir para uma educação que reconheça as especificidades dos territórios amazônicos e fortalecer processo de ensino e aprendizagem. Foto: Divulgação/FAS
Proposta é contribuir para uma educação que reconheça as especificidades dos territórios amazônicos e fortalecer processo de ensino e aprendizagem. Foto: Divulgação/FAS

Mteriais relacionam aprendizagem com o cotidiano amazônico

Publicação está disponível para download. Foto: Reprodução/FAS

A série Bases do Aprendizado é composta por três livros: Bases do Aprendizado para Cadeias Florestais, Bases do Aprendizado para Cadeias de Pesca e Bases do Aprendizado para Negócios Sustentáveis. Juntas, as publicações apresentam 57 Guias de Atividades e contribuem para a formação continuada e contextualizada de professores das redes municipais de ensino do Amazonas.

“A elaboração de materiais contextualizados é essencial para promover uma educação mais significativa e conectada aos territórios amazônicos. Ao partir do cotidiano, dos saberes tradicionais, das culturas e da relação dessas comunidades com a natureza, os materiais tornam a aprendizagem mais próxima das vivências dos estudantes. Além disso, ao abordar temas como os rios, as comunidades, a biodiversidade e os desafios socioambientais da Amazônia, esses recursos aproximam a escola da realidade local, fortalecendo o interesse, a participação e o protagonismo dos estudantes no processo educativo”, afirma Fabiana Cunha, gerente do Programa Educação para a Sustentabilidade da FAS.

Os materiais adotam a aprendizagem experiencial como metodologia, estimulando a construção do conhecimento por meio de experiências, vivências e atividades práticas. A proposta envolve professores, estudantes e comunidades de forma ativa, aproximando a aprendizagem e os conteúdos escolares dos saberes, dos valores e das atividades presentes no cotidiano amazônico.

Cada Guia de Atividades reúne objetivos de aprendizagem, informações técnico-científicas, curiosidades e propostas práticas na seção “Conectando Saberes”. As atividades podem ser adaptadas às características das turmas e estabelecem relações com componentes curriculares como Ciências, Matemática, História, Geografia, Língua Portuguesa e Artes.

Leia também: Histórias e saberes regionais: e-book traz conteúdo que valoriza diversidade amazônica

Arapoty amplia a proposta e aprendizagem do ensino médio

A estratégia de educação contextualizada também alcança o ensino médio por meio da cartilha Arapoty, desenvolvida no âmbito do projeto Práticas Pedagógicas Inovadoras para a Amazônia Profunda. Voltado à 1ª série, o material articula itinerários formativos e formação continuada e está alinhado à Base Nacional Comum Curricular e às diretrizes da Política Nacional de Ensino Médio, estabelecidas pela Lei nº 14.945/2024.

No contexto da publicação, o nome Arapoty remete à ideia de florescimento e representa a proposta de promover aprendizagens que nascem dos territórios, valorizam as identidades amazônicas e estimulam os estudantes a reconhecer suas histórias, produzir conhecimento e participar das transformações de suas comunidades.

A cartilha possui versões específicas para professores e estudantes. O Livro do Professor apresenta orientações metodológicas, sugestões de carga horária, possibilidades de avaliação e adaptações para diferentes condições de infraestrutura e conectividade. Já o Livro do Aluno reúne trilhas de aprendizagem, atividades formativas e espaços de registro, incentivando os estudantes a pesquisar suas comunidades, analisar dados, ouvir histórias, produzir textos, construir mapas e debater desafios socioambientais.

*Com informações da FAS